{"id":117897,"date":"2017-04-04T09:59:29","date_gmt":"2017-04-04T11:59:29","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117897"},"modified":"2017-04-04T09:59:29","modified_gmt":"2017-04-04T11:59:29","slug":"paz-mas-que-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/paz-mas-que-paz","title":{"rendered":"Paz&#8230; Mas que paz?"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Rui Barbosa<\/h2>\n<p>N\u00e3o participo, absolutamente, no entusiasmo, com que vejo receberem-se, em geral, as condi\u00e7\u00f5es de paz delineadas na proposta alem\u00e3 e nas not\u00edcias da encena\u00e7\u00e3o com que o governo do Kaiser procura dramatiz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma, por um lado, o seu valor n\u00e3o tem medida. \u00c9 a mais estrondosa confiss\u00e3o, pela Alemanha, de que ela j\u00e1 n\u00e3o acredita na sua invencibilidade. Mas, ao mesmo tempo, \u00e9 o mais h\u00e1bil golpe diplom\u00e1tico e o mais estupendo ardil militar, que se poderia conceber. Ele remove a quest\u00e3o do terreno das armas, onde j\u00e1 estava irremediavelmente perdida pela Alemanha, para o da esgrima pol\u00edtica, em que ela ainda se poderia salvar, se os seus advers\u00e1rios se deixassem enlear nos fios do admir\u00e1vel estratagema.<\/p>\n<p>Permita Deus que n\u00e3o se deixem. Com tr\u00eas fiadores como esses gigantes que se chamam Wilson, Loyd George e Clemenceau, n\u00e3o devemos ter sustos. Mas, n\u00e3o fora isso, e os termos em que se acha estabelecido o problema, seriam para nos fazer recear o mais grave dos perigos.<\/p>\n<p>Tal qual ele se acha posto, at\u00e9 agora, com efeito, em quase tudo o que tenho lido, a solu\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria est\u00e1 subordinada unicamente \u00e0 cl\u00e1usula de que as for\u00e7as teut\u00f4nicas evacuem os territ\u00f3rios ocupados. Convindo o governo de Berlim em os desocupar, os aliados lhe outorgariam o armist\u00edcio pedido, uma vez que o imp\u00e9rio alem\u00e3o subscreva os quatorze artigos da f\u00f3rmula Wilson.<\/p>\n<p>Assim, o que se pressup\u00f5e, nesta maneira de encarar o assunto, \u00e9 que a observ\u00e2ncia, pelo governo alem\u00e3o, dos compromissos correspondentes a esses quatorze artigos encontra garantia cabal e decisiva \u201cna evacua\u00e7\u00e3o pelos ex\u00e9rcitos alem\u00e3es dos territ\u00f3rios ocupados\u201d.<\/p>\n<p>Ora, semelhante suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 de todo em todo e evidentemente err\u00f4nea.<\/p>\n<p>Quando a Alemanha, em 1871, imp\u00f4s \u00e0 Fran\u00e7a a c\u00e9lebre indeniza\u00e7\u00e3o dos cinco milhares de milh\u00f5es de francos, n\u00e3o abandonou o territ\u00f3rio franc\u00eas, confiando o pagamento do d\u00e9bito, assim contra\u00eddo pela Fran\u00e7a debaixo da press\u00e3o dos invasores, \u00e0 honra da na\u00e7\u00e3o vencida. N\u00e3o. Estipulou \u201ca ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio\u201d, at\u00e9 o resgate desse compromisso como condi\u00e7\u00e3o essencial da paz ajustada.<\/p>\n<p>Entretanto, a Fran\u00e7a n\u00e3o violara o territ\u00f3rio alem\u00e3o, n\u00e3o o invadira, n\u00e3o o apropriara. Ela era, pelo contr\u00e1rio, a violada, a invadida, a espoliada; e, todavia, ainda por cima, teve de consentir na subsist\u00eancia da invas\u00e3o, da ocupa\u00e7\u00e3o, da espolia\u00e7\u00e3o, enquanto se n\u00e3o quitasse dos \u00f4nus, que os vencedores lhe ditavam; porque, aos olhos deles, n\u00e3o havia outra fian\u00e7a admiss\u00edvel da remiss\u00e3o desse encargo pela na\u00e7\u00e3o vencida.<\/p>\n<p>Agora, n\u00e3o \u00e9 de uma contribui\u00e7\u00e3o de guerra imposta ao vencido pelo vencedor, n\u00e3o \u00e9 de tal que se trata. A vencida \u00e9 a Alemanha; e o de que se trata, \u00e9 das \u201crestitui\u00e7\u00f5es\u201d, das \u201creintegra\u00e7\u00f5es\u201d, das \u201crepara\u00e7\u00f5es\u201d, a que ela, juridicamente, se acha obrigada, por haver, durante a ocupa\u00e7\u00e3o, contra todas as leis internacionais, talado e assolado a terra, destru\u00eddo, arrasado e incendiado as cidades, vilas e povoa\u00e7\u00f5es, sem deixar rasto de vida, exterminado as culturas, aniquilado as f\u00e1bricas, esterilizado e inutilizado o pr\u00f3prio solo, convertendo-o em vasto deserto incultiv\u00e1vel e inabit\u00e1vel, por toda a extens\u00e3o das regi\u00f5es que atravessa; \u2014 e tudo isto metodicamente, sistematicamente, ainda at\u00e9 agora, quando est\u00e1 implorando a paz.<\/p>\n<p>Todas essas restitui\u00e7\u00f5es e reposi\u00e7\u00f5es, que constituem a mais sagrada e irrecus\u00e1vel das d\u00edvidas perante as mais elementares normas da justi\u00e7a, est\u00e3o contempladas nos artigos da f\u00f3rmula Wilson.<\/p>\n<p>A Alemanha n\u00e3o se pode a elas evadir.<\/p>\n<p>Sem elas a devolu\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ocupados deixaria lesadas, fraudadas, arruinadas, a B\u00e9lgica, a Fran\u00e7a, a S\u00e9rvia, e todas essas outras na\u00e7\u00f5es, por cujo territ\u00f3rio passou, devastando e calcinando tudo, o flagelo da ocupa\u00e7\u00e3o germ\u00e2nica.<\/p>\n<p>Aceitando, pois, as exig\u00eancias da f\u00f3rmula Wilson, os imp\u00e9rios centrais aceitariam, necessariamente, o encargo dessas restitui\u00e7\u00f5es e repara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas qual a garantia do cumprimento dessas obriga\u00e7\u00f5es, assim por eles contra\u00eddas? Manifestamente, n\u00e3o h\u00e1, n\u00e3o pode haver nenhuma, sen\u00e3o a mesma de que usou a Alemanha com a Fran\u00e7a: a ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio dos devedores, nos limites de tempo e espa\u00e7o que forem julgados necess\u00e1rios para a seguran\u00e7a dos direitos dos credores.<\/p>\n<p>A Alemanha proclamou como princ\u00edpio seu, no come\u00e7o desta guerra, a doutrina de que os tratados n\u00e3o obrigam as pot\u00eancias contratantes, desde que lhes convenha a elas romp\u00ea-los e para os romperem lhes assista for\u00e7a bastante. Os governos aliados lembram todos os dias ao governo alem\u00e3o esta sua profiss\u00e3o de f\u00e9, como documento de que na palavra desse governo n\u00e3o se pode estribar conven\u00e7\u00e3o alguma. Foi o pr\u00f3prio Sr. Wilson, se me n\u00e3o engano, quem, por essas e outras, lhe chamou governo \u201csem honra\u201d.<\/p>\n<p>Ora quando n\u00e3o se pode confiar nem na palavra, nem nos escritos do devedor, o rem\u00e9dio jur\u00eddico de prote\u00e7\u00e3o para os direitos credit\u00f3rios \u00e9 o \u00f4nus real, o penhor, a hipoteca, ou, em direito internacional, a ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio da na\u00e7\u00e3o devedora. Se desta garantia prescindissem, portanto, agora, os aliados, os seus direitos, no que lhes \u00e9 mais substancial, na restitui\u00e7\u00e3o do que lhe foi barbaramente extorquido e roubado, ficariam de todo em todo entregues ao arb\u00edtrio dos autores dessas extors\u00f5es e depreda\u00e7\u00f5es inauditas. A paz n\u00e3o teria estabilidade nenhuma. Os ardis utilizados para baldar esses compromissos suscitariam e renovariam conflitos intermin\u00e1veis. E a \u00fanica situa\u00e7\u00e3o c\u00f4moda seria a dos devedores, a quem, destarte, se houvessem deixado os meios f\u00e1ceis de iludir esses compromissos desgarantidos.<\/p>\n<p>Qual \u00e9, presentemente, a situa\u00e7\u00e3o da Alemanha? A do mais total desbarato. Os restos dos seus ex\u00e9rcitos est\u00e3o-se fundindo todos os dias a olhos vistos. N\u00e3o tem mais homens, nem material, para sustentar a guerra. V\u00ea-se que est\u00e1 vencida. Sente-se vencida. Vencida j\u00e1 se confessa. N\u00e3o h\u00e1 mais nada, que possa reter a inunda\u00e7\u00e3o de que a est\u00e3o amea\u00e7ando, pelo ocidente e pelo oriente, os seus inimigos. Metz j\u00e1 se acha sob os canh\u00f5es aliados. Essa evacua\u00e7\u00e3o da B\u00e9lgica e da Fran\u00e7a, oferecida pelo Kaiser, como concess\u00e3o contratual, volunt\u00e1ria, est\u00e1-se operando (mau grado seu), com uma rapidez vertiginosa, pela energia irresist\u00edvel dos canh\u00f5es e baionetas da Entente. A vit\u00f3ria aliada marcha a passos fant\u00e1sticos contra a fronteira germ\u00e2nica. A dist\u00e2ncia j\u00e1 \u00e9 de meses, ou semanas, se n\u00e3o de dias.<\/p>\n<p>Portanto, os ex\u00e9rcitos alem\u00e3es est\u00e3o perdidos.<\/p>\n<p>Portanto, o territ\u00f3rio alem\u00e3o est\u00e1 em v\u00e9spera de expiar, com a invas\u00e3o reivindicat\u00f3ria, a invas\u00e3o criminosa, de que o seu governo e as suas tropas deram ao mundo o medonho exemplo.<\/p>\n<p>Portanto, foi um dia a gl\u00f3ria alem\u00e3, a lenda alem\u00e3 da sua invencibilidade, a honra da Alemanha prussiana.<\/p>\n<p>E que viria fazer, agora, essa paz, contratada com ela de igual a igual entre os vencedores e a vencida, e a ela liberalizada unicamente a troco dessa evacua\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ocupados, para a qual j\u00e1 n\u00e3o necessitamos sen\u00e3o de mais algumas semanas de triunfos inevit\u00e1veis?<\/p>\n<p>Viria t\u00e3o-somente restituir \u00e0 Alemanha \u201ctudo o que ela j\u00e1 perdeu e j\u00e1 \u00e9 dos aliados\u201d.<\/p>\n<p>Viria salvar os ex\u00e9rcitos alem\u00e3es, j\u00e1 vencidos e tangidos em acelerada fuga da B\u00e9lgica e da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Viria salvar o territ\u00f3rio alem\u00e3o, j\u00e1 na conting\u00eancia iminente da invas\u00e3o aliada.<\/p>\n<p>Viria salvar a honra nacional da Alemanha, o seu prest\u00edgio, a sua soberba, a presun\u00e7\u00e3o da sua invencibilidade.<\/p>\n<p>Viria salvar os grandes respons\u00e1veis por este cataclismo, viria salv\u00e1-los da expia\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, exemplar, reparadora, a que a opini\u00e3o p\u00fablica, nos pa\u00edses aliados, aspira ardentemente, n\u00e3o por esp\u00edrito de vingan\u00e7a, mas por um sentimento imperioso de justi\u00e7a e humanidade.<\/p>\n<p>Isso tudo ganharia a Alemanha, isso tudo por ela j\u00e1 perdido. E que ganhariam em troco os aliados? Uma paz mutilada, prec\u00e1ria, desgarantida, em vez da paz cabal, inteira e segura, de que lhes d\u00e1 certeza, dentro em muito breve tempo, a torrente caudalosa dos seus triunfos.<\/p>\n<p>Com os seus ex\u00e9rcitos salvos, com o seu territ\u00f3rio intacto, com o seu amor-pr\u00f3prio nacional reerguido, a vencida recolheria as suas for\u00e7as, para ter, da\u00ed a pouco, exig\u00eancias de vencedora, e, brevemente, dar, outra vez, que fazer \u00e0s pot\u00eancias liberais, v\u00edtimas da sua excessiva generosidade.<\/p>\n<p>Dir-se-\u00e1 que, renunciando as garantias \u201creais\u201d, os aliados ficariam sobejamente seguros com a garantia \u201cmoral\u201d de um contrato celebrado, j\u00e1 n\u00e3o com a vontade autocr\u00e1tica do Kaiser, mas com a soberania do povo alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal o objeto da \u00faltima interroga\u00e7\u00e3o formulada no question\u00e1rio da resposta Wilson.<\/p>\n<p>A essa inquiri\u00e7\u00e3o vai responder comodamente a Alemanha. Um rescrito do Kaiser substitui as formas do governo pessoal pelas do governo parlamentar. Os pr\u00edncipes do imp\u00e9rio, convocados pelo autocrata, referendam os atos imperiais. Uma vota\u00e7\u00e3o, enfim, un\u00e2nime ou geral, do Reichstag soleniza esses atos com a chancela do povo alem\u00e3o. Eis a\u00ed. Nada mais.<\/p>\n<p>Ora, em tudo isso haveria apenas um elemento consider\u00e1vel: o voto do Reichstag. Mas esse Reichstag, eleito antes da guerra, esposou essa guerra com entusiasmo, sustentou-a em todos os seus horrores, abra\u00e7ou-se, nela, com o Kaiser em todos os seus crimes; e, se, uma vez, teve certas veleidades de paz, foi para se retratar logo depois, assim que uma aragem de vit\u00f3ria veio reanimar as hostes de Hindenburg. T\u00e3o identificado, pois, com a guerra quanto o pr\u00f3prio Kaiser, e com ele absolutamente solid\u00e1rio em toda ela, como poderia essa assembl\u00e9ia, agora, dele emancipar-se, para assumir as fun\u00e7\u00f5es de seu abonador, e falar ao mundo em nome da na\u00e7\u00e3o alem\u00e3?<\/p>\n<p>Mandato para tanto n\u00e3o tem. Era mister que ela lho desse; e, para isso, necess\u00e1ria seria uma elei\u00e7\u00e3o, que enviasse ao novo parlamento, realmente tal, os verdadeiros representantes do povo alem\u00e3o, eleitos com a incumb\u00eancia de exprimirem o seu voto.<\/p>\n<p>Ou ent\u00e3o, mais abreviadamente, seria necess\u00e1rio que a na\u00e7\u00e3o teut\u00f4nica, levantando-se num r\u00e1pido movimento de sua soberania, mudasse a face do seu reg\u00edmen, dando ao mundo o testemunho irrecus\u00e1vel de que rompera com o seu passado nesta guerra, ou nunca o havia esposado.<\/p>\n<p>A n\u00e3o ser por um destes dois meios, todas as negocia\u00e7\u00f5es que agora se entabulassem e conclu\u00edssem com o Imp\u00e9rio Alem\u00e3o, seriam travadas e ultimadas com o pr\u00f3prio governo do Kaiser, seus agentes, seus magnatas, seus instrumentos, com esse governo, em suma, com o qual t\u00eam declarado constantemente os governos aliados ser imposs\u00edvel entrar em rela\u00e7\u00f5es no terreno da boa-f\u00e9, da honra e da confian\u00e7a internacional.<\/p>\n<p>Quer-se saber (dizem) se as propostas da Alemanha s\u00e3o sinceras.<\/p>\n<p>Mas como averiguar a sinceridade da Alemanha, interrogando o governo do Kaiser? Ou como passar por sobre o governo do Kaiser, para interrogar diretamente a Alemanha? Ou como saber se \u00e9 da Alemanha, ou do Kaiser, a resposta dada por ele e seus colaboradores em nome da Alemanha?<\/p>\n<p>Honesta, a proposta alem\u00e3!? Sincera, essa proposta! Mas as arras da sua sinceridade e honestidade a\u00ed est\u00e3o dadas materialmente, em fatos que n\u00e3o deixariam vacilar a consci\u00eancia ao mais timorato dos ju\u00edzes. Se com a direita implora a paz, em nome da humanidade, a Alemanha, com a esquerda, continua a brandir o facho implac\u00e1vel dos inc\u00eandios, a reduzir a cinza todas as cidades, que evacua, todas as aldeias donde sai, todos os povoados, por onde passa, \u00e0s dezenas e dezenas, dia a dia, invariavelmente, ostentosamente, insolentemente, sem perd\u00e3o nem exce\u00e7\u00e3o alguma, ao mesmo passo que as popula\u00e7\u00f5es inermes v\u00e3o tangidas \u00e0 frente dos incendi\u00e1rios, no atropelo da fuga desabalada, como rebanhos de escravos, ou bestas de carga.<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o!? Mais honestas s\u00faplicas de paz j\u00e1 se viram neste mundo? Quem \u00e9 que impetra a paz? \u00c9 o povo alem\u00e3o. E quem \u00e9 que p\u00f5e fogo a Saint-Quentin, a Douai, a Cambrai, a Laon, quem \u00e9 que passa como as lavas de um vulc\u00e3o inexor\u00e1vel por sobre todas essas cidades francesas ou belgas, que ardem todos os dias no horrendo panorama da retirada germ\u00e2nica? Ser\u00e1 tamb\u00e9m o povo alem\u00e3o? N\u00e3o: \u00e9 o Kaiser.<\/p>\n<p>De sorte que, simultaneamente, o Kaiser rege a guerra, para afogar em chamas o territ\u00f3rio da B\u00e9lgica e da Fran\u00e7a, ao mesmo tempo que o povo alem\u00e3o rege o governo, para solicitar dos Estados Unidos o armist\u00edcio a bem das hordas, cuja bandeira leva diante de si a conflagra\u00e7\u00e3o universal.<\/p>\n<p>A mim, senhores, me parece (ou de todo perdi a raz\u00e3o) que a simultaneidade entre esses dois fatos, a sistematiza\u00e7\u00e3o do inc\u00eandio na retirada alem\u00e3 e o paneg\u00edrico da paz na nota germ\u00e2nica aos Estados Unidos, sobejam, para mostrar, com o seu prodigioso contraste, que nunca a pol\u00edtica de Berlim foi menos sincera, menos leal, menos digna da confian\u00e7a do mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma cartada, que a sua diplomacia est\u00e1 jogando. N\u00e3o lhe conhe\u00e7o igual em ast\u00facia e arrojo. At\u00e9 agora a sua \u201cmarotte\u201d era esmagar o mundo com as suas armas. Agora \u00e9 empalm\u00e1-lo com as suas tram\u00f3ias. A hiena fez-se raposa, e quer apanhar o queijo. Cuidado!<\/p>\n<p>Nas extremidades a que, por fim, acaba ela de chegar, a salva\u00e7\u00e3o da Alemanha, hoje, consistiria em se refugiar dentro nas suas fronteiras, encurtando, assim, a sua frente, e preservando os seus meios de guerra. Os seus pr\u00f3prios cr\u00edticos militares j\u00e1 est\u00e3o dizendo que este seria doravante o seu melhor plano da campanha. Destarte os seus ex\u00e9rcitos estariam livres e seguras as suas armas, as suas muni\u00e7\u00f5es, os seus recursos restantes, para o que desse e viesse.<\/p>\n<p>Pois bem: esse grande movimento estrat\u00e9gico de reorganiza\u00e7\u00e3o militar \u00e9, justamente, o que a proposta alem\u00e3 pretende obter que se consume sob a prote\u00e7\u00e3o dos aliados, mediante a concess\u00e3o do armist\u00edcio, para a evacua\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios invadidos. Eis, em sua subst\u00e2ncia, a paz alvitrada.<\/p>\n<p>Depois&#8230; depois, ao abrigo das suas fronteiras, das suas pra\u00e7as de guerra, a astuta pot\u00eancia, numa situa\u00e7\u00e3o bem diversa da de hoje, \u201cconversaria\u201d com os aliados.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 essa a paz, a que aspira o mundo? a que esperam os aliados? a que lhes prometem as resolu\u00e7\u00f5es entre eles assentadas, os seus princ\u00edpios, os seus compromissos?<\/p>\n<p>Eis as minhas impress\u00f5es e convic\u00e7\u00f5es. Dito-as com esfor\u00e7o, na doen\u00e7a, para n\u00e3o deixar a minha consci\u00eancia sem desencargo. Bem sei que nada valem. Mas, valham pelo que valerem, s\u00e3o as opini\u00f5es de um esp\u00edrito que, h\u00e1 quatro anos, espera da sorte desta guerra a sorte futura da humanidade, e n\u00e3o desejaria v\u00ea-la posta em risco por uma paz, onde tanto perdessem as v\u00edtimas, e tanto ganhassem os algozes.<\/p>\n<p><b>Publicado originalmente em O Imparcial, em 14 de outubro de 1918.<\/b><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Barbosa N\u00e3o participo, absolutamente, no entusiasmo, com que vejo receberem-se, em geral, as condi\u00e7\u00f5es de paz delineadas na proposta alem\u00e3 e nas not\u00edcias da encena\u00e7\u00e3o com que o governo do Kaiser procura dramatiz\u00e1-la. 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