{"id":117888,"date":"2017-04-04T09:56:23","date_gmt":"2017-04-04T11:56:23","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117888"},"modified":"2017-04-04T09:56:23","modified_gmt":"2017-04-04T11:56:23","slug":"o-perigo-anarquista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-perigo-anarquista","title":{"rendered":"O Perigo Anarquista"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Rui Barbosa<\/h2>\n<p>Detenhamo-nos um momento ainda ante as quest\u00f5es vivamente reabertas pelo rev\u00f3lver de Angelo Bressi. Todo o g\u00eanero humano tem na sua solu\u00e7\u00e3o os mais vivos interesses, morais, pol\u00edticos, internacionais. Nos pa\u00edses mais long\u00ednquos dos focos do anarquismo, como o Brasil, elas entendem seriamente com o problema da imigra\u00e7\u00e3o. Agora mesmo cura a Rep\u00fablica Argentina de preservar por esse lado a sua tranq\u00fcilidade, adotando provid\u00eancias legislativas contra a criminalidade estrangeira, facilmente importada nas aluvi\u00f5es benfazejas do trabalho. N\u00e3o julguem, pois, os \u00e1rbitros das nossas coisas pol\u00edticas malbaratado o tempo, que despenderem, voltando os olhos para este ponto obscur\u00edssimo no governo dos povos modernos. Seria estulto atribuirmo-nos uma imunidade previamente desmentida neste pa\u00eds, onde n\u00e3o foi preciso o socialismo, nem o concurso das fezes da mis\u00e9ria europ\u00e9ia, para dotar a rep\u00fablica, nos seus primeiros anos, com um tremendo exemplo do nosso adiantamento na pr\u00e1tica da elimina\u00e7\u00e3o dos chefes de estado a punhal.<\/p>\n<p>Nas atrocidades da pervers\u00e3o que sistematiza o regic\u00eddio, h\u00e1 um aspecto ainda mais odioso que a crueldade dos seus crimes: \u00e9 o perigo de que a sua multiplica\u00e7\u00e3o organizada e c\u00ednica induza a civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea a retroceder do seu \u00e1lveo crist\u00e3o, a descrer das institui\u00e7\u00f5es liberais, a buscar na lei de tali\u00e3o a resposta aos desvarios desta supersti\u00e7\u00e3o homicida.<\/p>\n<p>S\u00f3 a t\u00eampera que o Evangelho deu \u00e0 sociedade ocidental, com efeito, a poder\u00e1 livrar de um espantoso eclipse moral nessa luta com as for\u00e7as hediondas da anarquia, transformada em ideal de uma escola, onde o desprezo da vida humana responde mais logicamente \u00e0 nega\u00e7\u00e3o de Deus. A raz\u00e3o clama no homem, enleada: \u201cNossas leis nos inibem de matar os matadores. Mas os que n\u00e3o matam, ficaram sob a jurisdi\u00e7\u00e3o deles; e essa al\u00e7ada implac\u00e1vel s\u00f3 conhece a pena de morte, impendente agora, no Estado, sobre as cabe\u00e7as mais altas, as mais nobres, as mais amadas\u201d. Realmente nunca a consci\u00eancia do legislador, a sua serenidade foi submetida a experi\u00eancia mais embara\u00e7osa. Uma diminuta minoria arvora a lei da morte em sistema de aniquilamento contra a ordem humana. N\u00e3o tendo ex\u00e9rcito, arregimenta o terror. N\u00e3o possuindo meios de arrasar a sociedade, fere-a a repetidos golpes de exterm\u00ednio nos seus cimos. As na\u00e7\u00f5es perderam o direito de estabelecer a sua forma de governo, e eleger os seus chefes. Cada um deles \u00e9 ipso facto um condenado \u00e0 expia\u00e7\u00e3o inexor\u00e1vel. O regic\u00eddio e o presidentic\u00eddio substitu\u00edram a soberania do povo pela do anarquista. De que extraordin\u00e1rio imp\u00e9rio sobre si mesmos n\u00e3o necessitam, pois, hoje em dia, os governos, para n\u00e3o aceitar o desafio no terreno em que o p\u00f5e a loucura sanguin\u00e1ria deste horrendo fanatismo!<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 muito f\u00e1cil para os que enxergam na severidade repressiva, num reg\u00edmen inexor\u00e1vel e truculento, o meio de cortar o mal pela raiz. Resta, por\u00e9m, sempre saber se a for\u00e7a ser\u00e1 com efeito o espec\u00edfico salvador. A n\u00f3s n\u00e3o nos parece t\u00e3o simples a tarefa do homem de estado, entre os diferentes caminhos que o empirismo e a ci\u00eancia lhe deparam. Logo no ponto inicial, de onde eles partem, divorciando-se, defrontam os escr\u00fapulos do legislador com a quest\u00e3o suprema da responsabilidade nos criminosos. Um dos nossos colegas increpava outro dia os juristas de haverem com as suas preocupa\u00e7\u00f5es fomentado a indulg\u00eancia dos tribunais a favor desta esp\u00e9cie de monstros. N\u00e3o tem fundamento a arg\u00fci\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre os juristas ainda n\u00e3o encontrou o anarquismo amigos, como tem encontrado entre os homens de letras, entre os s\u00e1bios, entre os cultores dos estudos positivos. N\u00e3o s\u00e3o juristas, por exemplo, Ibsen, R\u00e9clus e Krapotrine. N\u00e3o s\u00e3o os penalistas cl\u00e1ssicos, n\u00e3o \u00e9 a escola jur\u00eddica, na It\u00e1lia e na Fran\u00e7a, \u00e9 \u201ca nova escola\u201d, a escola da antropologia criminal, a que se pronuncia pela irresponsabilidade em muitas das fa\u00e7anhas do anarquismo. N\u00e3o s\u00e3o juristas Lombroso, Larchi, Ferrero, o Dr. R\u00e9gis, todos esses escritores, que, nos \u00faltimos tempos, t\u00eam consagrado \u00e0 epidemia do anarquismo sob a sua forma de sangue estudos especiais. Com um quadro estampado no seu Delito Pol\u00edtico se empenhou em mostrar o primeiro desses autores a verifica\u00e7\u00e3o do tipo dos criminosos natos nos regicidas, fenianos e anarquistas. Quase todos apresentam nas les\u00f5es anat\u00f4micas e nos estigmas psicol\u00f3gicos o cunho da predestina\u00e7\u00e3o fatal. Ravachol e Pini tinham na fisionomia todas as fei\u00e7\u00f5es da mais abjeta brutalidade. Noutros a criminalidade cong\u00eanita se combina com a epilepsia, ou por ela se substitui, determinando esses esp\u00e9cimens da histeria pol\u00edtica, em cuja categoria esses escritores classificam Monges, Henry e Vaillant. \u00c9 a heran\u00e7a epil\u00e9tica, aos olhos dessas autoridades, o que inspirou a Caserio o assass\u00ednio de Carnot. Em todos, mais ou menos, descobrem a nevrose heredit\u00e1ria. Nobiling, Booth e Alibaud eram filhos de suicidas. De melancolia suicida padecia Carl Sand, malogrado assassino de Bonaparte. La Sahla, que tentou tamb\u00e9m contra Napole\u00e3o, sofria de acessos epilept\u00f3ides, e morreu, at\u00e1xico, de uma afec\u00e7\u00e3o mental caracterizada. Em Guiteau, a cujas m\u00e3os pereceu Garfield, reinava a alucina\u00e7\u00e3o religiosa. Galeote, depois de condenado, passa da mania ao furor. Otero e Oliva, que tentaram contra Afonso XII, s\u00e3o apontados como loucos. Passananti acabou, descendo, na dem\u00eancia, \u00e0 mais ign\u00f3bil das suas formas: a coprofagia.<\/p>\n<p>Mas as observa\u00e7\u00f5es apuradas nesse ramo da patologia do esp\u00edrito v\u00e3o ainda mais longe. Na sua monografia Dos Anarquistas, escreveu Lombroso um cap\u00edtulo sobre a influ\u00eancia da exagera\u00e7\u00e3o do altru\u00edsmo nos delitos dessa esp\u00e9cie de malfeitores. Desjardins nota que em muitos deles o crime vem a ser um fruto an\u00f4malo da bondade. Segundo Burdeau, que n\u00e3o \u00e9 nenhum advogado, esses delinq\u00fcentes pertencem pela maior parte \u00e0 fam\u00edlia dos assassinos filantropos. Ora, nesses livros escorreitos de juridicismo, se nos consentem a palavra, vemos recordar que Lu\u00edsa Michel, em Nova Caled\u00f4nia, era aclamada o anjo rubro, tal a sua caridade com os enfermos e desventurados. Ora se nos chama a aten\u00e7\u00e3o para a verdura juvenil de tais desequilibrados, quase todos muito mo\u00e7os: Langs com 20 anos, Sand com 25, Alibaud com 26, Schwabe com 29, Michailoff com 21 e com 21 Caserio Santo.<\/p>\n<p>Vem depois o exame das responsabilidades sociais na teratogenia do anarquismo: o mal-estar cr\u00f4nico, a discrasia geral (dizem essas autoridades em frase genuinamente m\u00e9dica) dos pa\u00edses onde a anarquia tem a sua base de a\u00e7\u00e3o mais produtiva; o car\u00e1ter malfazejo de uma educa\u00e7\u00e3o, que se resolve toda \u201cnum hino \u00e0 for\u00e7a brutal\u201d, desde a antiguidade at\u00e9 aos her\u00f3is de 1789, \u201cmed\u00edocres s\u00edmios dos her\u00f3is de Plutarco\u201d; os ex\u00e9rcitos permanentes, a guerra, a mis\u00e9ria, a concentra\u00e7\u00e3o excessiva do poder, da propriedade e do capital. Na pr\u00f3pria Fran\u00e7a, notam, a revolu\u00e7\u00e3o de 1789 n\u00e3o fez mais que substituir os grandes feudais pelos grandes propriet\u00e1rios: ao passo que antes dela um quarto do solo pertencia aos lavradores, agora n\u00e3o possuem mais de um oitavo. Considerai os Estados Unidos, acrescentam. Ali 91 por cento da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o abrangem mais que um quinto da riqueza nacional: 9% dos habitantes acumulam em suas m\u00e3os as outras quatro quintas partes.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, pois, a sofisteria dos juristas que tem suscitado embara\u00e7os \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos que enxergam no fogo e na morte o rem\u00e9dio contra esta furiosa deprava\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. \u00c9 a psicologia cient\u00edfica, a criminologia positiva, a medicina, a sociologia que insistem na delicadeza, na complexidade, na transcend\u00eancia do assunto, e conspiram em assentar nele o peso de d\u00favidas tamanhas. Verdade seja que os amigos da ci\u00eancia do Direito se ensoberbecem de ter dirigido, em toda a parte, esse belo movimento contempor\u00e2neo que reformou e extinguiu o draconismo da antiga penalidade nos dois continentes. Na It\u00e1lia, nomeadamente, a aboli\u00e7\u00e3o da pena de morte, promovida no ensino de Carrara, triunfou definitivamente pelo c\u00f3digo de Zanardelli. Mas tamb\u00e9m obra mais ou menos sua tem sido toda essa legisla\u00e7\u00e3o, que especialmente de dez anos para c\u00e1, na It\u00e1lia, na Su\u00ed\u00e7a, na Alemanha, na Fran\u00e7a, na Espanha se tem levantado contra o anarquismo: na Espanha a lei de 11 de julho de 1894; na Fran\u00e7a as leis de 18 de dezembro de 1893 e 28 de julho de 1894; no imp\u00e9rio alem\u00e3o a de 1894; na Su\u00ed\u00e7a a de 25 de julho do mesmo ano. Mas nenhum governo se armou t\u00e3o energicamente como o italiano com as tr\u00eas leis excepcionais de seguran\u00e7a p\u00fablica adotadas em 19 de julho de 1894, que no pa\u00eds e no estrangeiro mereceram a classifica\u00e7\u00e3o de odiosas.<\/p>\n<p>Nessa experi\u00eancia legislativa e seus resultados n\u00e3o sabemos se a pol\u00edtica encontrar\u00e1 por enquanto elementos suficientes, para se orientar com seguran\u00e7a. Lu\u00eds XV pensou em reduzir ao c\u00e1rcere a expia\u00e7\u00e3o de Damiens. Bonaparte quis agraciar a Staaps, e comutou em seq\u00fcestra\u00e7\u00e3o a pena de La Sahla. Lu\u00eds Filipe cogitou em perdoar a Alibaud, e contentou-se de degredar para Am\u00e9rica a Meunier. Napole\u00e3o III tentou salvar da morte a Orsini. Foi Canovas del Castillo quem se op\u00f4s ao indulto r\u00e9gio nos casos de Oliva e Otero. Todos esses soberanos acreditaram, ainda que momentaneamente, na virtude pacificadora da clem\u00eancia. Os fatos n\u00e3o autorizam a crer que a ela seja muito sens\u00edvel o anarquismo. Mas, por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o levam a supor que a extirpa\u00e7\u00e3o dessa mol\u00e9stia caiba com grandes perspectivas de resultado no dom\u00ednio das leis violentas. Tem-se visto sempre que a anarquia n\u00e3o grassa com intensidade sen\u00e3o nos pa\u00edses menos bem governados, e que, na R\u00fassia, na Espanha, na Fran\u00e7a, \u00e0 agrava\u00e7\u00e3o crescente das penalidades se v\u00e3o seguindo ordinariamente atentados cada vez mais graves.<\/p>\n<p>Como quer que seja, por\u00e9m, ao menos para os governos que n\u00e3o disp\u00f5em do imenso poder compressivo do imp\u00e9rio moscovita, ou da coroa germ\u00e2nica, a complica\u00e7\u00e3o do problema n\u00e3o \u00e9 menor que a urg\u00eancia da sua solu\u00e7\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o estamos fora do \u00e2mbito das suas amea\u00e7as. E, quando se consideram no anarquismo os casos individuais, cumpre ter em mente que esses atentados, aparentemente espor\u00e1dicos, representam a dilata\u00e7\u00e3o progressiva de uma enfermidade social tamanha, que, h\u00e1 sete anos, s\u00f3 em Fran\u00e7a, o n\u00famero de anarquistas se calculava em trinta mil. Temos na esp\u00e9cie, pois, uma di\u00e1tese social; e as di\u00e1teses n\u00e3o se curam cirurgicamente, abandonando o organismo \u00e0 degeneresc\u00eancia, que os solapa. A dificuldade estar\u00e1 em distribuir a repress\u00e3o e a profilaxia num reg\u00edmen ao mesmo tempo humano e severo, que assegure \u00e0 ordem os seus direitos, sem esquecer os da justi\u00e7a.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Barbosa Detenhamo-nos um momento ainda ante as quest\u00f5es vivamente reabertas pelo rev\u00f3lver de Angelo Bressi. 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