{"id":117585,"date":"2017-04-03T19:17:02","date_gmt":"2017-04-03T21:17:02","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117585"},"modified":"2017-04-03T19:17:02","modified_gmt":"2017-04-03T21:17:02","slug":"quem-conta-um-conto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/quem-conta-um-conto","title":{"rendered":"Quem conta um conto"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>Eu compreendo que um homem goste de ver brigar galos ou de tomar rap\u00e9. O rap\u00e9 dizem os tomistas[1] que alivia o c\u00e9rebro. A briga de galos \u00e9 o Jockey Club dos pobres. O que eu n\u00e3o compreendo \u00e9 o gosto de dar not\u00edcias.<\/p>\n<p>E todavia quantas pessoas n\u00e3o conhecer\u00e1 o leitor com essa singular voca\u00e7\u00e3o? O noveleiro[2] n\u00e3o \u00e9 tipo muito vulgar, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 muito raro. H\u00e1 fam\u00edlia numerosa deles. S\u00e3o mais peritos e originais que outros. N\u00e3o \u00e9 noveleiro quem quer. \u00c9 of\u00edcio que exige certas qualidades de bom cunho, quero dizer as mesmas que se exigem do homem de Estado. O noveleiro deve saber quando lhe conv\u00e9m dar uma not\u00edcia abruptamente, ou quando o efeito lhe pede certos preparativos: deve esperar a ocasi\u00e3o e adaptar-lhe os meios.<\/p>\n<p>N\u00e3o compreendo, como disse, o of\u00edcio de noveleiro. \u00c9 coisa muito natural que um homem diga o que sabe a respeito de algum objeto; mas que tire satisfa\u00e7\u00e3o disso, l\u00e1 me custa a entender. Mais de uma vez tenho querido fazer indaga\u00e7\u00f5es a este respeito; mas a certeza de que nenhum noveleiro confessa que o \u00e9, tem impedido a realiza\u00e7\u00e3o deste meu desejo. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 desejo, \u00e9 tamb\u00e9m necessidade; ganha-se sempre em conhecer os caprichos do esp\u00edrito humano.<\/p>\n<p>O caso de que vou falar aos leitores tem por origem um noveleiro. L\u00ea-se depressa, porque n\u00e3o \u00e9 grande.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>H\u00e1 coisa de sete anos, vivia nesta boa cidade um homem de seus trinta anos, bem apessoado e bem falante, amigo de conversar, extremamente polido, mas extremamente amigo de espalhar novas.<\/p>\n<p>Era um modelo do g\u00eanero.<\/p>\n<p>Sabia como ningu\u00e9m escolher o audit\u00f3rio, a ocasi\u00e3o e a maneira de dar a not\u00edcia. N\u00e3o sacava a not\u00edcia da algibeira como quem tira uma moeda de vint\u00e9m para dar a um mendigo. N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>Atendia mais que tudo \u00e0s circunst\u00e2ncias. Por exemplo: ouvira dizer, ou sabia positivamente que o Minist\u00e9rio[1] pedira demiss\u00e3o ou ia pedi-la. Qualquer noveleiro diria simplesmente a coisa sem rodeios. Lu\u00eds da Costa, ou dizia a coisa simplesmente, ou adicionava-lhe certo molho para torn\u00e1-la mais picante.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes entrava, cumprimentava as pessoas presentes e, se entre elas alguma havia metida em pol\u00edtica, aproveitava o sil\u00eancio causado pela sua entrada para fazer-lhe uma pergunta deste g\u00eanero:<\/p>\n<p>\u2014Ent\u00e3o, parece que os homens&#8230;<\/p>\n<p>Os circunstantes perguntavam logo:<\/p>\n<p>\u2014Que \u00e9? Que h\u00e1?<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa, sem perder o seu ar s\u00e9rio, dizia singelamente:<\/p>\n<p>\u2014\u00c9 o Minist\u00e9rio que pediu demiss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014Ah! Sim? Quando?<\/p>\n<p>\u2014Hoje.<\/p>\n<p>\u2014Sabem quem foi chamado?<\/p>\n<p>\u2014Foi chamado o Z\u00f3zimo.<\/p>\n<p>\u2014Mas por que caiu o Minist\u00e9rio?<\/p>\n<p>\u2014Ora, estava podre.<\/p>\n<p>Etc. etc.<\/p>\n<p>Ou ent\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014Morreram como viveram.<\/p>\n<p>\u2014Quem? Quem? Quem?<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa puxava os punhos e dizia negligentemente:<\/p>\n<p>\u2014Os ministros.<\/p>\n<p>Suponhamos, agora, que se tratava de uma pessoa qualificada que devia vir no paquete[2]: Adolfo Thiers ou o pr\u00edncipe de Bismarck.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa entrava, cumprimentava silenciosamente a todos, e em vez de dizer com simplicidade:<\/p>\n<p>\u2014Veio no paquete hoje o pr\u00edncipe de Bismarck.<\/p>\n<p>Ou ent\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014O Thiers chegou no paquete.<\/p>\n<p>Voltava-se para um dos circunstantes:<\/p>\n<p>\u2014Chegaria o paquete?<\/p>\n<p>\u2014Chegou, dizia o circunstante.<\/p>\n<p>\u2014O Thiers veio?<\/p>\n<p>Aqui entrava a admira\u00e7\u00e3o dos ouvintes, com que se deliciava Lu\u00eds da Costa, raz\u00e3o principal de seu of\u00edcio.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>N\u00e3o se pode negar que este prazer era inocente e, quando muito, singular.<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o h\u00e1 bonito sem sen\u00e3o, nem prazer sem amargura. Que mel n\u00e3o deixa um travo de veneno? Perguntava o poeta de Jovem Cativa, e eu creio que nenhum, nem sequer o de alvissareiro.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa experimentou, um dia, as asperezas de seu of\u00edcio.<\/p>\n<p>Eram duas horas da tarde. Havia pouca gente na loja de Paula Brito, cinco pessoas apenas. Lu\u00eds da Costa entrou com o rosto fechado como homem que vem pejado de alguma not\u00edcia. Apertou a m\u00e3o a quatro das pessoas presentes; a quinta apenas recebeu um cumprimento, porque n\u00e3o se conheciam. Houve um r\u00e1pido instante de sil\u00eancio que Lu\u00eds da Costa aproveitou para tirar o len\u00e7o da algibeira e enxugar o rosto. Depois, olhou para todos, e soltou secamente estas palavras:<\/p>\n<p>\u2014Ent\u00e3o, fugiu a sobrinha do Gouveia? disse ele, rindo.<\/p>\n<p>\u2014Que Gouveia? disse um dos presentes.<\/p>\n<p>\u2014O major Gouveia, explicou Lu\u00eds da Costa.<\/p>\n<p>Os circunstantes ficaram muito calados e olharam de esguelha para o quinto personagem, que por sua parte olhava para Lu\u00eds da Costa.<\/p>\n<p>\u2014O major Gouveia da Cidade Nova? perguntou o desconhecido ao noveleiro.<\/p>\n<p>\u2014Sim, senhor.<\/p>\n<p>Novo e mais profundo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa, imaginando que o sil\u00eancio era efeito da bomba que acabava de queimar, entrou a referir os pormenores da fuga da mo\u00e7a em quest\u00e3o. Falou de um namoro com um alferes, da oposi\u00e7\u00e3o do major ao casamento, do desespero dos pobres namorados, cujo cora\u00e7\u00e3o, mais eloq\u00fcente que a honra, adotara o alvitre de saltar por cima de moinhos.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio era sepulcral.<\/p>\n<p>O desconhecido ouvia atentamente a narrativa de Lu\u00eds da Costa, meneando com muita placidez uma grossa bengala que tinha na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o alvissareiro acabou, perguntou-lhe o desconhecido:<\/p>\n<p>\u2014E quando foi esse rapto?<\/p>\n<p>\u2014Hoje de manh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014Oh!<\/p>\n<p>\u2014Das 8 para as 9 horas,<\/p>\n<p>\u2014Conhece o major Gouveia?<\/p>\n<p>\u2014De nome.<\/p>\n<p>\u2014Que id\u00e9ia forma dele?<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o formo id\u00e9ia nenhuma. Menciono o fato por duas circunst\u00e2ncias. A primeira \u00e9 que a mo\u00e7a \u00e9 muito bonita&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Conhece-a?<\/p>\n<p>\u2014Ainda ontem a vi.<\/p>\n<p>\u2014Ah! A segunda circunst\u00e2ncia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014A segunda circunst\u00e2ncia \u00e9 a crueldade de certos homens de certos homens em tolher os movimentos do cora\u00e7\u00e3o da mocidade. O alferes de que se trata dizem-me que \u00e9 um mo\u00e7o honesto, e o casamento seria, creio eu, excelente. Por que raz\u00e3o queria o major impedi-lo?<\/p>\n<p>\u2014O major tinha raz\u00f5es fortes, observou o desconhecido.<\/p>\n<p>\u2014Ah! Conhece-o?<\/p>\n<p>\u2014Sou eu.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa ficou petrificado. A cara n\u00e3o se distinguia da de um defunto, t\u00e3o im\u00f3vel e p\u00e1lida ficou. As outras pessoas olhavam para os dois sem saber que iria sair dali. Deste modo, correram cinco minutos.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>No fim de cinco minutos, o major Gouveia continuou:<\/p>\n<p>\u2014Ouvi toda a sua narra\u00e7\u00e3o e diverti-me com ela. Minha sobrinha n\u00e3o podia fugir hoje de minha casa, visto que h\u00e1 quinze dias se acha em Juiz de Fora.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa ficou amarelo.<\/p>\n<p>\u2014Por essa raz\u00e3o ouvi tranq\u00fcilamente a hist\u00f3ria que o senhor acaba de contar com todas as suas perip\u00e9cias. O fato, se fosse verdadeiro, devia causar naturalmente espanto, porque, al\u00e9m do mais, L\u00facia \u00e9 muito bonita, e o senhor o sabe porque a viu ontem&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa tornou-se verde.<\/p>\n<p>\u2014A not\u00edcia, entretanto pode ter-se espalhado, continuou o major Gouveia, e eu desejo liquidar o neg\u00f3cio, pedindo-lhe que me diga quem a ouviu&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa ostentou todas as cores do \u00edris[1].<\/p>\n<p>\u2014Ent\u00e3o? disse o major, passados alguns instantes de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014Sr. major, disse com voz tr\u00eamula Lu\u00eds da Costa, eu n\u00e3o podia inventar semelhante not\u00edcia. Nenhum interesse tenho nela. Evidentemente, algu\u00e9m me contou.<\/p>\n<p>\u2014\u00c9 justamente o que eu desejo saber.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o me lembro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Veja se se lembra, disse o major com do\u00e7ura.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa consultou sua mem\u00f3ria; mas tantas coisas ouvia e tantas repetia, que j\u00e1 n\u00e3o podia atinar com a pessoa que lhe contara a hist\u00f3ria do rapto.<\/p>\n<p>As outras pessoas presentes, vendo o caminho desagrad\u00e1vel que as coisas podiam ter, trataram de meter o caso \u00e0 bulha; mas o major, que n\u00e3o era homem de gra\u00e7as, insistiu com o alvissareiro para que o esclarecesse a respeito do inventor da balela.<\/p>\n<p>\u2014Ah! Agora me lembra, disse de repente o Lu\u00eds da Costa, foi o Pires.<\/p>\n<p>\u2014Que Pires?<\/p>\n<p>\u2014Um Pires que eu conhe\u00e7o muito superficialmente.<\/p>\n<p>\u2014Bem, vamos ter com o Pires.<\/p>\n<p>\u2014Mas, sr. major&#8230;<\/p>\n<p>O major j\u00e1 estava de p\u00e9, apoiado na grossa bengala, e com um ar de quem estava pouco disposto a discuss\u00f5es. Esperou que Lu\u00eds da Costa se levantasse tamb\u00e9m. O alvissareiro n\u00e3o teve rem\u00e9dio sen\u00e3o imitar o gesto do major, n\u00e3o sem tentar ainda um:<\/p>\n<p>\u2014Mas, sr. major&#8230;<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o h\u00e1 mas, nem meio mas. Venha comigo; porque \u00e9 necess\u00e1rio deslindar o neg\u00f3cio hoje mesmo. Sabe onde mora esse tal Pires?<\/p>\n<p>\u2014Mora na Praia Grande, mas tem escrit\u00f3rio na Rua dos Pescadores.<\/p>\n<p>\u2014Vamos ao escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa cortejou os outros e saiu ao lado do major Gouveia, a quem deu respeitosamente a cal\u00e7ada e ofereceu um charuto. O major recusou o charuto, dobrou o passo e os dois seguiram na dire\u00e7\u00e3o da Rua dos Pescadores.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>\u2014O sr. Pires?<\/p>\n<p>\u2014Foi \u00e0 Secretaria de Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014Demora-se?<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa olhou para o major ao ouvir estas palavras do criado do sr. Pires. O major disse fleumaticamente:<\/p>\n<p>\u2014Vamos \u00e0 Secretaria de Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>E ambos foram a trote largo na dire\u00e7\u00e3o da Rua do Passeio. Iam-se aproximando as tr\u00eas horas, e Lu\u00eds da Costa, que jantava cedo, come\u00e7ava a ouvir do est\u00f4mago uma lastimosa peti\u00e7\u00e3o. Era-lhe, por\u00e9m, imposs\u00edvel fugir \u00e0s garras do major. Se o Pires tivesse embarcado para Santos, \u00e9 prov\u00e1vel que o major o levasse at\u00e9 l\u00e1 antes do jantar.<\/p>\n<p>Tudo estava perdido.<\/p>\n<p>Chegaram enfim \u00e0 Secretaria, bufando como dois touros. Os empregados vinham saindo, e um deles deu a not\u00edcia certa do esquivo Pires; disse-lhe que sa\u00edra dali, dez minutos antes, num t\u00edlburi.<\/p>\n<p>\u2014Voltemos \u00e0 Rua dos Pescadores, disse pacificamente o major.<\/p>\n<p>\u2014Mas, senhor&#8230;<\/p>\n<p>A \u00fanica resposta do major foi dar-lhe o bra\u00e7o e arrast\u00e1-lo na dire\u00e7\u00e3o da Rua dos Pescadores.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa ia furioso. Come\u00e7ava a compreender a plausibilidade e at\u00e9 a legitimidade de um crime. O desejo de estrangular o major pareceu-lhe um sentimento natural. Lembrou-se de ter condenado, oito dias antes, como jurado, um criminoso de morte, e teve horror de si mesmo.<\/p>\n<p>O major, por\u00e9m, continuava a andar com aquele passo r\u00e1pido dos majores que andam depressa. Lu\u00eds da Costa ia rebocado. Era-lhe literalmente imposs\u00edvel apostar carreira com ele.<\/p>\n<p>Eram tr\u00eas e cinco minutos quando chegaram defronte do escrit\u00f3rio do sr. Pires. Tiveram o gosto de dar com o nariz na porta.<\/p>\n<p>O major Gouveia mostrou-se aborrecido com o fato; como era homem resoluto, depressa se consolou do incidente:<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, disse ele, iremos \u00e0 Praia Grande.<\/p>\n<p>\u2014Isso \u00e9 imposs\u00edvel! clamou Lu\u00eds da Costa.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o \u00e9 tal, respondeu tranq\u00fcilamente o major, temos barca e custa-nos um cruzado a cada um: eu pago a sua passagem.<\/p>\n<p>\u2014Mas, senhor, a esta hora&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Que tem?<\/p>\n<p>\u2014S\u00e3o horas de jantar, suspirou o est\u00f4mago de Lu\u00eds da Costa.<\/p>\n<p>\u2014Pois jantaremos antes.<\/p>\n<p>Foram dali a um hotel e jantaram. A companhia do major era extremamente aborrecida para o desastrado alvissareiro. Era imposs\u00edvel livrar-se dela; Lu\u00eds da Costa portou-se o melhor que p\u00f4de. Demais, a sopa e o primeiro prato foram o come\u00e7o da reconcilia\u00e7\u00e3o. Quando veio o caf\u00e9 e um bom charuto, Lu\u00eds da Costa estava resolvido a satisfazer seu anfitri\u00e3o em tudo o que lhe aprouvesse.<\/p>\n<p>O major pagou a conta e sa\u00edram ambos do hotel. Foram direitos \u00e0 esta\u00e7\u00e3o das barcas de Niter\u00f3i; meteram-se na primeira que saiu e transportaram-se \u00e0 imperial cidade.<\/p>\n<p>No trajeto, o major Gouveia conservou-se t\u00e3o taciturno como at\u00e9 ent\u00e3o. Lu\u00eds da Costa, que j\u00e1 estava mais alegre, cinco ou seis vezes tentou atar conversa com o major; mas foram esfor\u00e7os in\u00fateis. Ardia entretanto por lev\u00e1-lo at\u00e9 a csa do sr. Pires, que explicaria as coisas como soubesse.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VI<\/h2>\n<p>O sr. Pires morava na Rua da Praia. Foram direitinhos \u00e0 casa dele. Mas se os viajantes haviam jantado, tamb\u00e9m o sr. Pires fizera o mesmo; e como tinha por costume ir jogar o voltarete em casa do dr. Oliveira, em S. Domingos, para l\u00e1 seguira vinte minutos antes.<\/p>\n<p>O major ouviu esta not\u00edcia com a resigna\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica de que estava dando provas desde as duas horas da tarde. Inclinou o chap\u00e9u mais \u00e0 banda e olhando de esguelha para Lu\u00eds da Costa, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Vamos a S. Domingos.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos a S. Domingos, suspirou Lu\u00eds da Costa.<\/p>\n<p>A viagem foi de carro, o que de algum modo consolou o noveleiro.<\/p>\n<p>Na casa do dr. Oliveira, passaram pelo dissabor de bater cinco vezes, antes que viessem abrir.<\/p>\n<p>Enfim vieram.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 o sr. Pires?<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1, sim, senhor, disse o moleque. Os dois respiraram.<\/p>\n<p>O moleque abriu-lhes a porta da sala, onde n\u00e3o tardou que aparecesse o famoso Pires, l&#8217;introuvable[1].<\/p>\n<p>Era um sujeitinho baixinho e alegrinho. Entrou na ponta dos p\u00e9s, apertou a m\u00e3o a Lu\u00eds da Costa e cumprimentou cerimoniosamente ao major Gouveia.<\/p>\n<p>\u2014 Queiram sentar-se.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o, disse o major, n\u00e3o \u00e9 preciso que nos sentemos; desejamos pouca coisa.<\/p>\n<p>O sr. Pires curvou a cabe\u00e7a e esperou.<\/p>\n<p>O major voltou-se ent\u00e3o para Lu\u00eds da Costa e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Fale.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa fez das tripas cora\u00e7\u00e3o e exprimiu-se nestes termos:<\/p>\n<p>\u2014 Estando eu hoje na loja do Paulo Brito contei a hist\u00f3ria do rapto de uma sobrinha do sr. major Gouveia, que o senhor me referiu pouco antes do meio-dia. O major Gouveia \u00e9 este cavalheiro que me acompanha, e declarou que o fato era uma cal\u00fania, visto sua sobrinha estar em Juiz de Fora, h\u00e1 quinze dias. Intenta, contudo, chegar \u00e0 fonte da not\u00edcia e perguntou-me quem me havia contado a hist\u00f3ria; n\u00e3o hesitei em dizer que fora o senhor. Resolveu, ent\u00e3o, procur\u00e1-lo, e n\u00e3o temos feito outra coisa desde as duas horas e meia. Enfim, encontramo-lo.<\/p>\n<p>Durante este discurso, o rosto do sr. Pires apresentou todas as modifica\u00e7\u00f5es do espanto e do medo. Um ator, um pintor, ou um estatu\u00e1rio teria ali um livro inteiro para folhear e estudar. Acabado o discurso, era necess\u00e1rio responder-lhe, e o sr. Pires o faria de boa vontade, se se lembrasse do uso da l\u00edngua. Mas n\u00e3o; ou n\u00e3o se lembrava, ou n\u00e3o sabia que uso faria dela. Assim correram uns tr\u00eas ou quatro minutos.<\/p>\n<p>\u2014 Espero as suas ordens, disse o major, vendo que o homem n\u00e3o falava.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, que quer o senhor? balbuciou o sr. Pires.<\/p>\n<p>\u2014 Quero que me diga de quem ouviu a not\u00edcia transmitida a este senhor. Foi o senhor quem lhe disse que minha sobrinha era bonita?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe disse tal, acudiu o sr. Pires; o que eu disse foi que me constava ser bonita.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea? disse o major, voltando-se para Lu\u00eds da Costa.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa come\u00e7ou a contar as t\u00e1buas do teto.<\/p>\n<p>O major dirigiu-se, depois, ao sr. Pires:<\/p>\n<p>\u2014 Mas vamos l\u00e1, disse; de quem ouviu a not\u00edcia?<\/p>\n<p>\u2014 Foi de um empregado do tesouro.<\/p>\n<p>\u2014 Onde mora?<\/p>\n<p>\u2014 Em Catumbi.<\/p>\n<p>O major voltou-se para Lu\u00eds da Costa, cujos olhos, tendo contado as t\u00e1buas do teto, que eram vinte e duas, come\u00e7avam a examinar detidamente os bot\u00f5es do punho da camisa.<\/p>\n<p>\u2014 Pode retirar-se, disse o major; n\u00e3o \u00e9 mais preciso aqui.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Costa n\u00e3o esperou mais: apertou a m\u00e3o do sr. Pires, balbuciou um pedido de desculpa, e saiu. J\u00e1 estava a trinta passos, e ainda lhe parecia estar colado ao terr\u00edvel major. Ia justamente a sair uma barca; Lu\u00eds da Costa deitou a correr, e ainda a alcan\u00e7ou, perdendo apenas o chap\u00e9u, cujo herdeiro foi um cocheiro necessitado.<\/p>\n<p>Estava livre.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VII<\/h2>\n<p>Ficaram s\u00f3s o major e o sr. Pires.<\/p>\n<p>\u2014 Agora, disse o primeiro, h\u00e1 de ter a bondade de me acompanhar \u00e0 casa desse empregado do Tesouro&#8230;como se chama?<\/p>\n<p>\u2014 O bacharel Pl\u00e1cido.<\/p>\n<p>\u2014 Estou \u00e0s suas ordens; tem passagem e carro pagos.<\/p>\n<p>O sr. Pires fez um gesto de aborrecimento, e murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o sei&#8230;se&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Se?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei se me \u00e9 poss\u00edvel nesta ocasi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ser. Penso que \u00e9 um homem honrado. N\u00e3o tem idade para ter filhas mo\u00e7as, mas pode vir a t\u00ea-las, e saber\u00e1 se \u00e9 agrad\u00e1vel que tais inven\u00e7\u00f5es andem na rua.<\/p>\n<p>\u2014 Confesso que as circunst\u00e2ncias s\u00e3o melindrosas; mas n\u00e3o poder\u00edamos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Adiar?<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>O sr. Pires mordeu o l\u00e1bio inferior; meditou alguns instantes, e afinal declarou que estava disposto a acompanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Acredite, sr. major, disse ele concluindo, que s\u00f3 as circunst\u00e2ncias especiais deste caso me obrigariam a ir \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>O major inclinou-se.<\/p>\n<p>O sr. Pires foi despedir-se do dono da casa, e voltou para acompanhar o implac\u00e1vel major, em cujo rosto se lia a mais franca resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A viagem foi t\u00e3o silenciosa como a primeira. O major parecia uma est\u00e1tua; n\u00e3o falava e raras vezes olhava para o seu companheiro.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o foi compreendida pelo sr. Pires, que matou as saudades do voltarete, fumando sete cigarros por hora.<\/p>\n<p>Enfim, chegaram a Catumbi.<\/p>\n<p>Desta vez, foi o major Gouveia mais feliz que da outra: achou o bacharel Pl\u00e1cido em casa.<\/p>\n<p>O bacharel Pl\u00e1cido era seu pr\u00f3prio nome feito homem. Nunca, a pachorra tivera mais fervoroso culto. Era gordo, corado, lento e frio. Recebeu os dois visitantes com a benevol\u00eancia de um Pl\u00e1cido verdadeiramente pl\u00e1cido.<\/p>\n<p>O sr. Pires explicou o objeto da visita.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade que eu lhe falei de um rapto, disse o bacharel, mas n\u00e3o foi nos termos em que o senhor repetiu. O que eu disse foi que o namoro da sobrinha do major Gouveia com um alferes era tal que at\u00e9 j\u00e1 se sabia do projeto de rapto.<\/p>\n<p>\u2014 E quem lhe disse isso, sr. bacharel? Perguntou o major.<\/p>\n<p>\u2014 Foi o capit\u00e3o de artilharia Soares.<\/p>\n<p>\u2014 Onde mora?<\/p>\n<p>\u2014 Ali em Mataporcos.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, disse o major,<\/p>\n<p>E voltando-se para o sr. Pires:<\/p>\n<p>\u2014 Agrade\u00e7o-lhe o inc\u00f4modo, disse; n\u00e3o lhe agrade\u00e7o, por\u00e9m, o acr\u00e9scimo. Pode ir embora; o carro tem ordem de o acompanhar at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o das barcas.<\/p>\n<p>O sr. Pires n\u00e3o esperou novo discurso; despediu-se e saiu. Apenas entrou no carro, deu dois ou tr\u00eas socos em si mesmo e fez solil\u00f3quio extremamente desfavor\u00e1vel \u00e0 sua pessoa:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bem feito, dizia o sr. Pires; quem me manda ser abelhudo? Se s\u00f3 me ocupasse com o que me diz respeito, estaria a esta hora muito descansado e n\u00e3o passaria por semelhante dissabor. \u00c9 bem feito!<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VIII<\/h2>\n<p>O bacharel Pl\u00e1cido encarou o major, sem compreender a raz\u00e3o por que ficara ali, quando o outro fora embora. N\u00e3o tardou que o major o esclarecesse. Logo que o sr. Pires saiu da sala, disse ele:<\/p>\n<p>\u2014 Queira agora acompanhar-me \u00e0 casa do capit\u00e3o Soares.<\/p>\n<p>\u2014 Acompanh\u00e1-lo! exclamou o bacharel mais surpreendido do que se lhe ca\u00edsse o nariz no len\u00e7o de tabaco.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Que pretende fazer?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! nada que o deva assustar. Compreende que se trata de uma sobrinha, e que um tio tem necessidade de chegar \u00e0 origem de semelhante boato. N\u00e3o crimino os que o repetiram, mas quero haver-me com o que o inventou.<\/p>\n<p>O bacharel recalcitrou: a sua pachorra dava mil raz\u00f5es para demonstrar que sair de casa \u00e0s ave-marias para ir a Mata-porcos era um absurdo. A nada atendia o major Gouveia, e com o tom intimador que lhe era peculiar, antes intimava do que persuadia o gordo bacharel.<\/p>\n<p>\u2014 Mas h\u00e1 de confessar que \u00e9 longe, observou este.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o seja essa a d\u00favida, acudiu o outro; mande chamar um carro que eu pago.<\/p>\n<p>O bacharel Pl\u00e1cido co\u00e7ou a orelha, deu tr\u00eas passos na sala, suspendeu a barriga e sentou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? disse o major ao cabo de algum tempo de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Refleti, disse o bacharel; \u00e9 melhor irmos a p\u00e9; eu jantei h\u00e1 pouco e preciso digerir. Vamos a p\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bem, estou \u00e0s suas ordens.<\/p>\n<p>O bacharel arrastou a sua pessoa at\u00e9 a alcova, enquanto o major, com as m\u00e3os nas costas, passeava na sala meditando e fazendo, a espa\u00e7os, um gesto de impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>Gastou o bacharel cerca de vinte e cinco minutos em preparar a sua pessoa, e saiu enfim \u00e0 sala, quando o major ia j\u00e1 tocar a campainha para chamar algu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Pronto?<\/p>\n<p>\u2014 Pronto.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos!<\/p>\n<p>\u2014 Deus v\u00e1 conosco.<\/p>\n<p>Sa\u00edram os dois na dire\u00e7\u00e3o de Mata-porcos.<\/p>\n<p>Se uma pipa andasse seria o bacharel Pl\u00e1cido; j\u00e1 porque a gordura n\u00e3o lho consentia, j\u00e1 porque desejara pregar uma pe\u00e7a ao importuno, o bacharel n\u00e3o ia sequer com passo de gente. N\u00e3o andava: arrastava-se. De quando em quando parava, respirava e bufava; depois seguia vagarosamente o caminho.<\/p>\n<p>Com este era imposs\u00edvel o major empregar o sistema de reboque que t\u00e3o bom efeito teve com Lu\u00eds da Costa. Ainda que o quisesse obrigar a andar era imposs\u00edvel, porque ningu\u00e9m arrasta oito arrobas com a simples for\u00e7a do bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Tudo isto punha o major em apuros. Se visse passar um carro, tudo estava acabado, porque o bacharel n\u00e3o resistiria ao seu convite intimativo; mas os carros tinham-se apostado para n\u00e3o passar ali, ao menos vazios, e s\u00f3 de longe em longe um t\u00edlburi vago convidava, a passo lento, os fregueses.<\/p>\n<p>O resultado de tudo isto foi que, s\u00f3 \u00e0s oito horas, chegaram os dois \u00e0 casa do capit\u00e3o Soares. O bacharel respirou \u00e0 larga, enquanto o major batia palmas na escada.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9? perguntou uma voz a\u00e7ucarada.<\/p>\n<p>\u2014 O sr. capit\u00e3o? disse o major Gouveia.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o sei se j\u00e1 saiu, respondeu a voz; vou ver.<\/p>\n<p>Foi ver, enquanto o major limpava a testa e se preparava para tudo o que pudesse sair de semelhante embrulhada. A voz n\u00e3o voltou sen\u00e3o dali a oito minutos, para perguntar com toda a gentileza:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Diga que \u00e9 o bacharel Pl\u00e1cido, acudiu o indiv\u00edduo deste nome, que ansiava por arrumar a cat\u00f3lica pessoa em cima de algum sof\u00e1.<\/p>\n<p>A voz foi dar a resposta e da\u00ed a dois minutos voltou a dizer que o bacharel Pl\u00e1cido podia subir.<\/p>\n<p>Subiram os dois.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o estava na sala e veio receber \u00e0 porta o bacharel e o major. A este conhecia tamb\u00e9m, mas eram apenas cumprimentos de chap\u00e9u.<\/p>\n<p>\u2014 Queiram sentar-se.<\/p>\n<p>Sentaram-se.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IX<\/h2>\n<p>\u2014 Que mandam nesta sua casa? perguntou o capit\u00e3o Soares.<\/p>\n<p>O bacharel usou da palavra:<\/p>\n<p>\u2014 Capit\u00e3o, eu tive a infelicidade de repetir aquilo que voc\u00ea me contou a respeito da sobrinha do sr. major Gouveia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me lembra; que foi? disse o capit\u00e3o com uma cara t\u00e3o alegre como a de homem a quem estivessem torcendo um p\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Disse-me voc\u00ea, continuou o bacharel Pl\u00e1cido, que o namoro da sobrinha do sr. major Gouveia era t\u00e3o sabido que at\u00e9 j\u00e1 se falava de um projeto de rapto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o! interrompeu o capit\u00e3o. Agora me lembro que alguma coisa lhe disse, mas n\u00e3o foi tanto como voc\u00ea acaba de repetir.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o que foi?<\/p>\n<p>\u2014 O que eu disse foi que havia not\u00edcia vaga de um namoro da sobrinha de V. S. com um alferes. Nada mais disse. Houve equ\u00edvoco da parte do meu amigo Pl\u00e1cido.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, h\u00e1 alguma diferen\u00e7a, concordou o bacharel.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1, disse o major deitando-lhe os olhos por cima do ombro.<\/p>\n<p>Seguiu-se um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Foi o major Gouveia o primeiro que falou.<\/p>\n<p>\u2014 Enfim, senhores, disse ele, ando desde as duas horas da tarde na indaga\u00e7\u00e3o da fonte da not\u00edcia que me deram a respeito de minha sobrinha. A not\u00edcia tem diminu\u00eddo muito, mas ainda h\u00e1 a\u00ed um namoro de alferes que incomoda. Quer o sr. capit\u00e3o dizer-me a quem ouviu isso?<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o, disse o capit\u00e3o; ouvi-o ao desembargador Lucas.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 meu amigo!<\/p>\n<p>\u2014 Tanto melhor.<\/p>\n<p>\u2014 Acho imposs\u00edvel que ele dissesse isso, disse o major levantando-se.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor! exclamou o capit\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Perdoe-me, capit\u00e3o, disse o major caindo em si. H\u00e1 de concordar que ouvir a gente o seu nome assim maltratado por culpa de um amigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nem ele disse por mal, observou o capit\u00e3o Soares. Parecia at\u00e9 lamentar o fato, visto que sua sobrinha est\u00e1 para casar com outra pessoa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, concordou o major. O desembargador n\u00e3o era capaz de injuriar-me; naturalmente ouviu isso a algu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 prov\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho interesse em saber a fonte de semelhante boato. Acompanhe-me \u00e0 casa dele.<\/p>\n<p>\u2014 Agora!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Mas sabe que ele mora no Rio Comprido?<\/p>\n<p>\u2014 Sei; iremos de carro.<\/p>\n<p>O bacharel Pl\u00e1cido aprovou esta resolu\u00e7\u00e3o e despediu-se dos dois militares.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pod\u00edamos adiar isso para depois? perguntou o capit\u00e3o logo que o bacharel saiu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o estava em sua casa; mas o major tinha tal imp\u00e9rio na voz ou no gesto quando exprimia a sua vontade, que era imposs\u00edvel resistir-lhe. O capit\u00e3o n\u00e3o teve rem\u00e9dio sen\u00e3o ceder.<\/p>\n<p>Preparou-se, meteram-se num carro e foram na dire\u00e7\u00e3o do Rio Comprido, onde morava o desembargador.<\/p>\n<p>O desembargador era um homem alto e magro, dotado de excelente cora\u00e7\u00e3o, mas implac\u00e1vel contra quem quer que lhe interrompesse uma partida de gam\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, justamente na ocasi\u00e3o em que os dois lhe bateram \u00e0 porta, jogava ele o gam\u00e3o com o coadjutor da freguesia, cujo dado era t\u00e3o feliz que em menos de uma hora lhe dera j\u00e1 cinco gangas. O desembargador fumava&#8230; figuradamente falando, e o coadjutor sorria, quando o moleque foi dar parte de que duas pessoas estavam na sala e queriam falar com o desembargador.<\/p>\n<p>O digno sacerdote da justi\u00e7a teve \u00edmpetos de atirar o copo \u00e0 cara do moleque; conteve-se, ou antes traduziu o seu furor num discurso furibundo contra os importunos e ma\u00e7antes.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ver que \u00e9 algum procurador \u00e0 procura de autos, ou \u00e0 cata de autos, ou \u00e0 cata de informa\u00e7\u00f5es. Que os leve o diabo a todos eles.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, tenha paci\u00eancia, dizia-lhe o coadjutor. V\u00e1, v\u00e1 ver o que \u00e9, que eu o espero. Talvez que esta interrup\u00e7\u00e3o corrija a sorte dos dados.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel, concordou o desembargador, levantando-se e dirigindo-se para a sala.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo X<\/h2>\n<p>Na sala teve a surpresa de achar dois conhecidos.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o levantou-se sorrindo e pediu-lhe desculpa do inc\u00f4modo que lhe vinha dar. O major levantou-se tamb\u00e9m, mas n\u00e3o sorria.<\/p>\n<p>Feitos os cumprimentos foi exposta a quest\u00e3o. O capit\u00e3o Soares apelou para a mem\u00f3ria do desembargador a quem dizia ter ouvido a not\u00edcia do namoro da sobrinha do major Gouveia.<\/p>\n<p>\u2014 Recordo-me ter-lhe dito, respondeu o desembargador, que a sobrinha de meu amigo Gouveia piscara o olho a um alferes, o que lamentei do fundo d\u2019alma, visto estar para casar. N\u00e3o lhe disse, por\u00e9m, que havia namoro&#8230;<\/p>\n<p>O major n\u00e3o p\u00f4de disfar\u00e7ar um sorriso, vendo que o boato ia a diminuir \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se aproximava da fonte. Estava disposto a n\u00e3o dormir sem dar com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem, disse ele; a mim n\u00e3o basta esse dito; desejo saber a quem ouviu, a fim de chegar ao primeiro culpado de semelhante boato.<\/p>\n<p>\u2014 A quem o ouvi?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Foi ao senhor.<\/p>\n<p>\u2014 A mim!<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor; s\u00e1bado passado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se lembra que me disse na Rua do Ouvidor, quando fal\u00e1vamos das proezas da&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! mas n\u00e3o foi isso! exclamou o major. O que eu lhe disse foi outra coisa. Disse-lhe que era capaz de castigar a minha sobrinha se ela, estando agora para casar, deitasse os olhos a algum alferes que passasse.<\/p>\n<p>\u2014 Nada mais? perguntou o capit\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mais nada.<\/p>\n<p>\u2014 Realmente \u00e9 curioso.<\/p>\n<p>O major despediu-se do desembargador, levou o capit\u00e3o at\u00e9 Mata-porcos e foi direito para casa praguejando contra si e todo o mundo.<\/p>\n<p>Ao entrar em casa estava j\u00e1 mais aplacado. O que o consolou foi a id\u00e9ia de que o boato podia ser mais prejudicial do que fora. Na cama ainda pensou no acontecimento, mas j\u00e1 se ria da ma\u00e7ada que dera aos noveleiros. Suas \u00faltimas palavras antes de dormir foram:<\/p>\n<p>\u2014 Quem conta um conto&#8230;<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo I Eu compreendo que um homem goste de ver brigar galos ou de tomar rap\u00e9. 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