{"id":117583,"date":"2017-04-03T19:13:00","date_gmt":"2017-04-03T21:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117583"},"modified":"2017-04-03T19:13:00","modified_gmt":"2017-04-03T21:13:00","slug":"polemicas-e-reflexoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/polemicas-e-reflexoes","title":{"rendered":"Pol\u00eamicas e Reflex\u00f5es"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>CARTA AO SR. BISPO DO RIO DE JANEIRO<\/b><\/p>\n<p>Ex.mo Rev.mo Sr. &#8212; No meio das pr\u00e1ticas religiosas, a que as altas fun\u00e7\u00f5es de prelado chamam hoje V. Ex.\u00aa., consinta que se possa ouvir o rogo, a queixa, a indigna\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o \u00e9 duro o termo, de um crist\u00e3o que \u00e9 dos primeiros a admirar as raras e elevadas virtudes, que exornam a pessoa de V. Ex\u00aa.<\/p>\n<p>N\u00e3o casual, sen\u00e3o premeditada e muito de prop\u00f3sito, \u00e9 a coincid\u00eancia desta carta com o dia de hoje. Escolhi. como pr\u00f3prio, o dia da mais solene comemora\u00e7\u00e3o da igreja, para fazer chegar a V. Ex \u00aa algumas palavras sem atavios de pol\u00eamica, mas simplesmente nascidas do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estou afeito desde a inf\u00e2ncia a ouvir louvar as virtudes e os profundos conhecimentos de V. EX\u00aa. Estes verifiquei-os mais tarde pela leitura das obras, que a\u00ed correm por honra de nossa terra; as virtudes se as n\u00e3o apreciei de perto, creio nelas hoje como dantes, por serem contestes todos quantos t\u00eam a ventura de tratar de perto com V. Ex\u00aa.<\/p>\n<p>\u00c9 fiado nisso que me dirijo francamente \u00e0 nossa primeira autoridade eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>Logo ao come\u00e7ar este per\u00edodo de penit\u00eancia e contri\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 a findar, quando a Igreja celebra a admir\u00e1vel hist\u00f3ria da reden\u00e7\u00e3o, apareceu nas colunas das folhas di\u00e1rias da Corte um bem elaborado artigo, pedindo a supress\u00e3o de certas pr\u00e1ticas religiosas do nosso pa\u00eds, que por grotescas e rid\u00edculas, afetavam de algum modo a sublimidade de nossa religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em muitas boas raz\u00f5es se firmavam o articulista para provar que as prociss\u00f5es, derivando de usan\u00e7as pag\u00e3s, n\u00e3o podiam continuar a ser sancionadas por uma religi\u00e3o que veio destruir os cultos da gentilidade.<\/p>\n<p>Mas a quaresma passou e as prociss\u00f5es com ela, e ainda hoje, Ex.mo. Sr., corre a popula\u00e7\u00e3o para assistir \u00e0 que, sob a designa\u00e7\u00e3o de Enterro do Senhor, vai percorrer esta noite as ruas da capital.<\/p>\n<p>N\u00e3o podem as almas verdadeiramente crist\u00e3s olhar para essas pr\u00e1ticas sem tristeza e dor.<\/p>\n<p>As conseq\u00fc\u00eancias de tais usan\u00e7as s\u00e3o de primeira intui\u00e7\u00e3o. Aos esp\u00edritos menos cultos, a id\u00e9ia religiosa, despida do que tem mais elevado e m\u00edstico, apresenta-se com as f\u00f3rmulas mais materiais e mundanas. Aos que, meros r\u00fasticos, n\u00e3o tiveram, entretanto, bastante filosofia crist\u00e3 para opor a esses espet\u00e1culos, a esses entibia-se a f\u00e9, e o cepticismo invade o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E V. Ex\u00aa. n\u00e3o poder\u00e1 contestar que a nossa sociedade est\u00e1 afetada do flagelo da indiferen\u00e7a. H\u00e1 indiferen\u00e7a em todas as classes, e a indiferen\u00e7a melhor do que eu sabe V. Ex\u00aa., \u00e9 o veneno sutil, que corr\u00f3i fibra por fibra um corpo social.<\/p>\n<p>Em vez de ensinar a religi\u00e3o pelo seu lado sublime, ou antes, pela sua verdadeira e \u00fanica face, \u00e9 pelas cenas impr\u00f3prias e improveitosas que a propagam. Os nossos of\u00edcios e mais festividades est\u00e3o longe de oferecer a majestade e a gravidade imponente do culto crist\u00e3o. S\u00e3o festas de folga, enfeitadas e confeitadas, falando muito aos olhos e nada ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste h\u00e1bito de tornar os of\u00edcios divinos em provas de ostenta\u00e7\u00e3o, as confrarias e irmandades, destinadas \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o dos respectivos \u00f3rg\u00e3os, levam o fervor at\u00e9 uma luta vergonhosa e indigna, de influ\u00eancias pecuni\u00e1rias; cabe a vit\u00f3ria, \u00e0 que melhor e mais pag\u00e3mente reveste a sua celebra\u00e7\u00e3o. Lembrarei, entre outros fatos, a luta de duas ordens terceiras, hoje em tr\u00e9guas, relativamente \u00e0 prociss\u00e3o do dia de hoje. Nesse conflito s\u00f3 havia um fito &#8212; a ostenta\u00e7\u00e3o dos recursos e do gosto, e um resultado que n\u00e3o era para a religi\u00e3o, mas sim para as paix\u00f5es e interesses terrestres.<\/p>\n<p>Para esta situa\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel, Ex.mo. Sr., contribui imensamente o nosso clero. Sei que toco em chaga tremenda, mas V. Ex\u00aa. reconhecer\u00e1 sem d\u00favida que, mesmo errando, devo ser absolvido, atenta a pureza das inten\u00e7\u00f5es que levo no meu enunciado.<\/p>\n<p>O nosso clero est\u00e1 longe de ser aquilo que pede a religi\u00e3o do cristianismo. Reservadas as exce\u00e7\u00f5es, o nosso sacerdote nada tem do car\u00e1ter piedoso e nobre que conv\u00e9m aos ministros do crucificado.<br \/>\nE, a meu ver, n\u00e3o h\u00e1 religi\u00e3o que melhor possa contar bons e dignos levitas. Aqueles disc\u00edpulos do filho de Deus, por promessa dele tornados pescadores de homens, deviam dar lugar a imita\u00e7\u00f5es severas e dignas; mas n\u00e3o \u00e9 assim, Ex.mo. Sr., n\u00e3o h\u00e1 aqui sacerd\u00f3cio, h\u00e1 of\u00edcio rendoso, como tal considerado pelos que o exercem, e os que o exercem s\u00e3o o v\u00edcio e a ignor\u00e2ncia, feitas as pouqu\u00edssimas e honrosas exce\u00e7\u00f5es. N\u00e3o serei exagerado se disser que o altar tornou-se balc\u00e3o e o evangelho tabuleta. Em que pese a esses duplamente pecadores, \u00e9 preciso que V. Ex\u00aa. ou\u00e7a estas verdades.<\/p>\n<p>As queixas s\u00e3o constantes e clamorosas contra o clero; eu n\u00e3o fa\u00e7o mais que reuni-las e enuncia-las por escrito.<\/p>\n<p>Fundam-se elas em fatos que, pela vulgaridade, n\u00e3o merecem men\u00e7\u00e3o. Merca-se no templo, Ex.mo Sr., corno se mercava outrora quando Cristo expeliu os profanadores dos sagrados lares; mas a certeza de que um novo Cristo n\u00e3o vir\u00e1 expeli-los, e a pr\u00f3pria tibieza da f\u00e9 nesses cora\u00e7\u00f5es, anima-os e p\u00f5e-lhes na alma a tranq\u00fcilidade e o pouco caso pelo futuro.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 funesta para a f\u00e9, funesta para a sociedade. Se, corno creio, a religi\u00e3o \u00e9 uma grande for\u00e7a, n\u00e3o s\u00f3 social, sen\u00e3o tamb\u00e9m humana, n\u00e3o se pode contestar que por esse lado a nossa socie-dade cont\u00e9m em seu seio poderosos elementos de dissolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Dobram, entre nos , as raz\u00f5es pelas quais o clero de todos Os Pa\u00edses cat\u00f3licos tem sido acusado.<\/p>\n<p>No meio da indiferen\u00e7a e do cepticismo social, qual era o papel que cabia ao clero? Um: converter-se ao Evangelho e ganhar nas consci\u00eancias o terreno perdido. N\u00e3o acontecendo assim, as invectivas praticadas pela imoralidade clerical, longe de afrouxarem e diminu\u00edrem, crescem de n\u00famero e de energia.<\/p>\n<p>Com a situa\u00e7\u00e3o atual de chefe da Igreja, V. Ex.a compreende bem que triste resultado pode provir daqui.<br \/>\nFelizmente que a ignor\u00e2ncia da maior parte dos nossos cl\u00e9rigos evita a organiza\u00e7\u00e3o de um partido clerical, que, com o pretexto de socorrer a Igreja nas suas tribula\u00e7\u00f5es temporais, venha lan\u00e7ar a perturba\u00e7\u00e3o nas consci\u00eancias, nada adiantando \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do supremo chefe cat\u00f3lico.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se digo uma heresia, mas por esta vantagem acho que \u00e9 de apreciar essa ignor\u00e2ncia.<br \/>\nDessa ignor\u00e2ncia e dos maus costumes da falange eclesi\u00e1stica \u00e9 que nasce um poderoso aux\u00edlio ao estado do depreciamento da religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Proveniente dessa situa\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o religiosa, dada no centro das fam\u00edlias, n\u00e3o responde aos verdadeiros preceitos da f\u00e9. A religi\u00e3o \u00e9 ensinada pela pr\u00e1tica e como pr\u00e1tica, e nunca pelo sentimento e como sentimento.<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo que se afaz desde a inf\u00e2ncia a essas f\u00f3rmulas grotescas, se n\u00e3o tem por si a luz da filosofia, fica condenado para sempre a n\u00e3o compreender, e menos conceber, a verdadeira id\u00e9ia religiosa.<\/p>\n<p>E agora veja V. Ex\u00aa. mais: h\u00e1 muito bom crist\u00e3o que compara as nossas pr\u00e1ticas cat\u00f3licas com as dos ritos dissidentes, e, para n\u00e3o mentir ao cora\u00e7\u00e3o, d\u00e1 prefer\u00eancia a estas por v\u00ea-las s\u00edmplices, severas, graves, pr\u00f3prias do culto de Deus.<\/p>\n<p>E realmente a diferen\u00e7a \u00e9 consider\u00e1vel.<\/p>\n<p>Note bem, Ex.mo Sr., que eu me refiro somente \u00e0s excresc\u00eancias da nossa Igreja Cat\u00f3lica, \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o do culto entre n\u00f3s. Estou longe de condenar as pr\u00e1ticas s\u00e9rias. O que revolta \u00e9 ver a materializa\u00e7\u00e3o grotesca das cousas divinas, quando elas devem ter manifesta\u00e7\u00e3o mais elevada, e, aplicando a bela express\u00e3o de S. Paulo, est\u00e3o escritas n\u00e3o com tinta, mas com o esp\u00edrito de Deus vivo, n\u00e3o em t\u00e1buas de pedra, mas em t\u00e1buas de carne do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O rem\u00e9dio a estes desregramentos da parte secular e eclesi\u00e1stica empregada no culto da religi\u00e3o deve ser en\u00e9rgico, posto que n\u00e3o se possa contar com resultados imediatos e definitivos.<\/p>\n<p>P\u00f4r um termo \u00e0s velhas usan\u00e7as dos tempos coloniais, e encaminhar o culto para melhores, para verdadeiras f\u00f3rmulas; fazer praticar o ensino religioso como sentimento e como id\u00e9ia e, moralizar o clero com as medidas convenientes, s\u00e3o Ex.mo Sr., necessidades urgent\u00edssimas.<\/p>\n<p>\u00c9 grande o descr\u00e9dito da religi\u00e3o, porque \u00e9 grande o descr\u00e9dito do clero. E V. Exa deve saber que os maus int\u00e9rpretes s\u00e3o nocivos aos dogmas mais santos.<\/p>\n<p>Desacreditada a religi\u00e3o, abala-se essa grande base da moral, e onde ir\u00e1 parar esta sociedade?<\/p>\n<p>Sei que V. Ex\u00aa. se alguma cousa fizer no sentido de curar estas chagas, que n\u00e3o conhece, h\u00e1 de ver levantar-se em roda de si muitos inimigos, desses que devem-lhe ser pares no sofrimento e na gl\u00f3ria. Mas V. Ex.\u00aa \u00e9 bastante cioso das cousas santas para olhar com desd\u00e9m para as mis\u00e9rias eclesi\u00e1sticas e levantar a sua consci\u00eancia de s\u00e1bio prelado acima dos interesses dos falsos ministros do altar.<\/p>\n<p>V. Ex\u00aa receber\u00e1 os protestos de minha venera\u00e7\u00e3o e me deitar\u00e1 a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>CARTA \u00c0 REDA\u00c7\u00c3O DA IMPRENSA ACAD\u00caMICA [Corte, 21 ago. 1864.]<\/b><\/p>\n<p>MEUS BONS AMIGOS: &#8212; Um cantinho em vosso jornal para responder duas palavras ao Sr. S\u00edlvio-Silvis, folhetinista do Correio Paulistano, a respeito da minha com\u00e9dia o Caminho da Porta.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o da susceptibilidade liter\u00e1ria, \u00e9 uma quest\u00e3o de probidade.<\/p>\n<p>Est\u00e1 longe de mim a inten\u00e7\u00e3o de estranhar a liberdade da cr\u00edtica, e ainda menos a de atribuir \u00e0 minha com\u00e9dia um merecimento de tal ordem que se lhe n\u00e3o possam fazer duas observa\u00e7\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio eu n\u00e3o ligo ao Caminho da Porta outro valor mais que o de um trabalho rapidamente escrito, como um ensaio para entrar no teatro.<\/p>\n<p>Sendo assim, n\u00e3o me proponho a provar que haja na minha com\u00e9dia &#8212; verdade, raz\u00e3o e sentimento, cumprindo-me apenas declarar que eu n\u00e3o tive em vista comover os espectadores, como n\u00e3o pretendeu faz\u00ea-lo, salva a compara\u00e7\u00e3o, o autor da Escola das Mulheres.<\/p>\n<p>Tampouco me ocuparei com a deplor\u00e1vel confus\u00e3o que o Sr. S\u00edlvio-Silvis faz entre a verdade e a verossimilhan\u00e7a; dizendo: &#8220;Verdade n\u00e3o tem a pe\u00e7a que at\u00e9 \u00e9 inveross\u00edmil.&#8221;&#8211; Boileau, autor de unia arte po\u00e9tica que eu recomendo \u00e0 aten\u00e7\u00e3o do S\u00edlvio-Silvis, escreveu esta regra: Le vrai peut quelquefois n&#8217;\u00eatre pas vraisemblable.<\/p>\n<p>O que me obriga a tomar a pena \u00e9 a insinua\u00e7\u00e3o do furto liter\u00e1rio, que me parece fazer o Sr. S\u00edlvio-Silvis, censura s\u00e9ria que n\u00e3o pode ser feita sem que se aduzam provas. Que a minha pe\u00e7a tenha urna fisionomia comum a muitas outras do mesmo g\u00eanero, e que, sob este ponto de vista, n\u00e3o possa pretender uma originalidade perfeita, isso acredito eu; mas que eu tenha copiado e assinado uma obra alheia, eis o que eu contesto e nego redondamente.<\/p>\n<p>Se, por efeito de uma nova confus\u00e3o, t\u00e3o deplor\u00e1vel como a outra, o Sr. S\u00edlvio-Silvis chama furto \u00e0 circunst\u00e2ncia a que aludi acima, fica o dito por n\u00e3o dito, sem que eu agrade\u00e7a a novidade. Quintino Bocai\u00fava, com a sua frase culta e elevada, j\u00e1 me havia escrito: &#8220;As tuas duas pe\u00e7as, modeladas ao gosto dos prov\u00e9rbios franceses, n\u00e3o revelam mais do que a maravilhosa aptid\u00e3o do teu esp\u00edrito, a pr\u00f3pria riqueza do teu estilo.&#8221; E em outro lugar: &#8220;O que te pe\u00e7o \u00e9 que apresentes neste mesmo g\u00eanero algum trabalho mais s\u00e9rio, mais novo, mais original, mais completo.<\/p>\n<p>\u00c9 de crer que o Sr. S\u00edlvio-Silvis se explique cabalmente no pr\u00f3ximo folhetim.<\/p>\n<p>Se eu insisto nesta exig\u00eancia n\u00e3o e para me justificar perante os meus amigos pessoais, ou liter\u00e1rios, porque esses, com certeza, julgam- me incapaz de uma m\u00e1 a\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m para desarmar alguns inimigos que tenha aqui, apesar de muito obscuro, porque eu me importo mediocremente como o ju\u00edzo desses senhores.<\/p>\n<p>Insisto em considera\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico em geral.<\/p>\n<p>N\u00e3o terminarei sem deixar consignado todo o meu reconhecimento pelo agasalho que a minha pe\u00e7a obteve da parte dos distintos acad\u00eamicos e do p\u00fablico paulistano. Folgo de ver nos aplausos dos primeiros uma anima\u00e7\u00e3o dos soldados da pena aos ensaios do recruta inexperiente.<\/p>\n<p>Nesse conceito de aplausos lisonjeia-me ver figurar a Imprensa Acad\u00eamica e, com ela, um dos seus mais amenos e talentosos folhetinistas.<\/p>\n<p>Reitero, meus bons amigos, os protestos da minha estima e admira\u00e7\u00e3o. MACHADO DE ASSIS<\/p>\n<p><b>O VISCONDE DE CASTILHO<\/b><\/p>\n<p>N\u00c3O, N\u00c3O EST\u00c1 de luto a l\u00edngua portuguesa; a poesia n\u00e3o chora a morte do Visconde de Castilho. O golpe foi, sem d\u00favida, imenso; mas a dor n\u00e3o p\u00f4de resistir \u00e0 gl\u00f3ria; e ao ver resvalar no t\u00famulo o poeta egr\u00e9gio o mestre da l\u00edngua, o pr\u00edncipe da forma, ap\u00f3s meio s\u00e9culo de produ\u00e7\u00e3o variada e rica, h\u00e1 um como deslumbramento que faria secar todas as l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Longa foi a vida do Visconde de Castilho; a lista de seus escritos numeros\u00edssima. O poeta dos Ci\u00fames de Bardo e da Noite do Castelo, o tradutor ex\u00edmio de Ov\u00eddio, Virg\u00edlio e Anacreonte, de Shakespeare, Goethe e Moli\u00e8re, o contempor\u00e2neo de todos os g\u00eanios familiar com todas as gl\u00f3rias, ainda assim n\u00e3o sucumbiu no \u00f3cio a que lhe davam jus tantas p\u00e1ginas de eterna beleza. Caiu na li\u00e7a, \u00e0s m\u00e3os com o g\u00eanio de Cervantes, seu conterr\u00e2neo da pen\u00ednsula, que ele ia sagrar portugu\u00eas, a quem fazia falar outra l\u00edngua, n\u00e3o menos formosa e sonora que a do Guadalquivir.<\/p>\n<p>A Provid\u00eancia f\u00ea-lo viver bastante para opulentar o tesouro do idioma natal, o mesmo de Garret e G. Dias, de Herculano e J. F. Lisboa, de Alencar e Rebelo da Silva. Morre glorificado, deixando a imensa obra que perfez \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o e exemplos das gera\u00e7\u00f5es vindouras. N\u00e3o h\u00e1 lugar para p\u00easames, onde a felicidade \u00e9 tamanha.<\/p>\n<p>P\u00easames, sim, e cordiais merece aquele outro talento possante, \u00faltimo de seus irm\u00e3os, que os viu morrer todos, no ex\u00edlio ou na P\u00e1tria, e cuja alma, t\u00e3o estreitamente vinculada \u00e0 outra, tem direito e dever de prante\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A l\u00edngua e a poesia cobrem-lhe a campa de flores e sorriem orgulhosas do lustre que ele lhes dera. \u00c9 assim que desaparecem da terra Tem entrada no pa\u00e7o, e reina no sal\u00e3o os homens imortais.<\/p>\n<p><b>UM C\u00c3O DE LATA AO RABO<\/b><\/p>\n<p>ERA UMA VEZ um mestre-escola, residente em Chap\u00e9u d&#8217;Uvas, que se lembrou de abrir entre os alunos um torneio de composi\u00e7\u00e3o e de estilo; id\u00e9ia \u00fatil, que n\u00e3o somente afiou e desafiou as mais diversas ambi\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, como produziu p\u00e1ginas de verdadeiro e raro.<br \/>\nmerecimento.<\/p>\n<p>&#8212; Meus rapazes, disse ele. Chegou a ocasi\u00e3o de brilhar e. mostrar que podem fazer alguma coisa. Abro o concurso, e dou quinze dias aos concorrentes. No fim dos quinze dias, quero ter em minha m\u00e3o os trabalhos de todos; escolherei um j\u00fari para os examinar, comparar e premiar.<\/p>\n<p>&#8211;Mas o assunto? perguntaram os rapazes batendo palmas alegria.<\/p>\n<p>&#8211;Podia dar-lhes um assunto hist\u00f3rico; mas seria f\u00e1cil, e eu quero experimentar a aptid\u00e3o de cada um. Dou-lhes um assunto simples, aparentemente vulgar mas profundamente filos\u00f3fico.<\/p>\n<p>&#8211;Diga, diga.<\/p>\n<p>&#8211;O assunto \u00e9 este: &#8212; UM C\u00c3O DE LATA AO RABO. Quero v\u00ea-los brilhar com opul\u00eancias de linguagem e atrevimentos de id\u00e9ia. Rapazes, \u00e0 obra! Claro \u00e9 que cada um pode apreci\u00e1-lo conforme o entender.<\/p>\n<p>O mestre-escola nomeou um j\u00fari, de que eu fiz parte. Sete escritos foram submetidos ao nosso exame. Eram geralmente bons; mas tr\u00eas, sobretudo mereceram a palma e encheram de pasmo o j\u00fari e o mestre, tais eram&#8211; neste o arrojo do pensamento e a novidade do estilo, &#8212; naquele a pureza da linguagem e a solenidade acad\u00eamica &#8212; naquele outro a erudi\u00e7\u00e3o rebuscada e t\u00e9cnica, &#8212; tudo novidade, ao menos em Chap\u00e9u d&#8217; Uvas.<\/p>\n<p>N\u00f3s os classificamos pela ordem do m\u00e9rito e do estilo. Assim, temos:<\/p>\n<p>1.\u00ba Estilo antit\u00e9tico e asm\u00e1tico.<\/p>\n<p>2.\u00ba Estilo ab ovo.<\/p>\n<p>3.\u00ba Estilo largo e cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>Para que o leitor fluminense julgue por si mesmo de tais m\u00e9ritos, vou dar adiante os referidos trabalhos, at\u00e9 agora in\u00e9ditos, mas j\u00e1 agora sujeitos ao apre\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p><b>I &#8212; ESTILO ANTIT\u00c9TICO E ASM\u00c1TICO<\/b><\/p>\n<p>O c\u00e3o atirou-se com \u00edmpeto. Fisicamente, o c\u00e3o tem p\u00e9s, quatro; moralmente, tem asas, duas. P\u00e9s: ligeireza na linha reta. Asas: ligeireza na linha ascensional. Duas for\u00e7as, duas fun\u00e7\u00f5es. Esp\u00e1dua de anjo no dorso de uma locomotiva.<\/p>\n<p>Um menino atara a lata ao rabo do c\u00e3o. Que \u00e9 rabo? Um prolongamento e um deslumbramento. Esse ap\u00eandice, que \u00e9 carne, \u00e9 tamb\u00e9m um clar\u00e3o. Di-lo a filosofia? N\u00e3o; di-lo a etimologia. Rabo, rabino: duas id\u00e9ias e uma s\u00f3 raiz. A etimologia \u00e9 a chave do passado, como a filosofia \u00e9 a chave do futuro.<\/p>\n<p>O c\u00e3o ia pela rua fora, a dar com a lata nas pedras. A pedra faiscava, a lata retinia, o c\u00e3o voava. Ia como o raio, como o vento corno a id\u00e9ia. Era a revolu\u00e7\u00e3o, que transtorna, o temporal que derruba, o inc\u00eandio que devora. O c\u00e3o devorava. Que devorava o c\u00e3o? O espa\u00e7o. o espa\u00e7o \u00e9 comida. O c\u00e9u p\u00f4s esse transparente manjar ao alcance dos impetuosos. Quando uns jantam e outros jejuam; quando, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s toalhas da casa nobre, h\u00e1 os andrajos da casa do pobre; quando em cima as garrafas choram lacrimachristi, e embaixo os olhos choram l\u00e1grimas de sangue, Deus inventou um banquete para a alma. Chamou-lhe espa\u00e7o. Esse imenso azul, que esta entre a criatura e o criador, \u00e9 o caldeir\u00e3o dos grandes famintos. Caldeir\u00e3o azul: antinomia, unidade.<\/p>\n<p>O c\u00e3o ia. A lata saltava como os guizos do arlequim. De caminho envolveu-se nas pernas de um homem. O homem parou; o c\u00e3o Parou: pararam diante um do outro. Contempla\u00e7\u00e3o \u00fanica! Homo, canis. Um parecia dizer:<\/p>\n<p>&#8212; Liberta-me! O outro parecia dizer:&#8211;Afasta-te! Ap\u00f3s alguns instantes, recuaram ambos; o quadr\u00fapede desla\u00e7ou-se do b\u00edpede. Canis levou a sua lata; homo levou a sua vergonha. Divis\u00e3o eq\u00fcitativa. A vergonha \u00e9 a lata ao rabo do car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ao longe, muito longe, troou alguma coisa funesta e miste-riosa. Era o vento, era o furac\u00e3o que sacudia as algemas do infinito e rugia como uma imensa pantera. Ap\u00f3s o rugido, o movimento, o \u00edmpeto, a vertigem. O furac\u00e3o vibrou, uivou, grunhiu. O mar catou o seu tumulto, a terra calou a sua orquestra. O furac\u00e3o vinha retor-cendo as \u00e1rvores, essas torres da natureza, vinha abatendo as torres, essas \u00e1rvores da arte; e rolava tudo, e aturdia tudo, e ensurdecia tudo. A natureza parecia at\u00f4nita de si mesma. O condor, que \u00e9 o colibri dos Andes, tremia de terror, como o colibri. que \u00e9 o condor das rosas. O furac\u00e3o igualava o p\u00edncaro e a base. Diante dele o m\u00e1-ximo e o m\u00ednimo eram uma s\u00f3 coisa: nada. Al\u00e7ou o dedo e apagou o sol. A poeira cercava-o todo; trazia poeira adiante, atr\u00e1s, \u00e0 esquer-da, \u00e0 direita; poeira em cima, poeira embaixo. Era o redemoinho, a convuls\u00e3o, o arrasamento.<\/p>\n<p>O c\u00e3o, ao sentir o furac\u00e3o, estacou. O pequeno parecia desafiar o grande. O finito encarava o infinito, n\u00e3o com pasmo, n\u00e3o com medo; \u2014 com desd\u00e9m. Essa espera do c\u00e3o tinha alguma coisa de sublime. H\u00e1 no c\u00e3o que espera uma express\u00e3o semelhante \u00e0 tranq\u00fcilidade do le\u00e3o ou \u00e0 fixidez do deserto. Parando o c\u00e3o, parou a lata. O furac\u00e3o viu de longe esse inimigo quieto; achou-o sublime e desprez\u00edvel. Quem era ele para o afrontar? A um quil\u00f4metro de dist\u00e2ncia, o c\u00e3o investiu para o advers\u00e1rio. Um e outro entraram a devorar o espa\u00e7o, o tempo, a luz. O c\u00e3o levava a lata, o furac\u00e3o trazia a poeira. Entre eles, e em redor deles, a natureza ficara ext\u00e1tica, absorta, at\u00f4nita.<\/p>\n<p>S\u00fabito grudaram-se. A poeira redemoinhou, a lata retiniu com o fragor das armas de Aquiles. C\u00e3o e furac\u00e3o envolveram-se um no outro; era a raiva, a ambi\u00e7\u00e3o, a loucura, o desvario; eram todas as for\u00e7as, todas as doen\u00e7as; era o azul, que dizia ao p\u00f3: \u00e9s baixo; era o p\u00f3, que dizia ao azul: \u00e9s orgulhoso. Ouvia-se o rugir, o latir, o retinir; e por cima de tudo isso, uma testemunha impass\u00edvel, o Destino; e por baixo de tudo, uma testemunha ris\u00edvel, o Homem.<\/p>\n<p>As horas voavam como folhas num temporal. O duelo prosseguia sem miseric\u00f3rdia nem interrup\u00e7\u00e3o. Tinha a continuidade das grandes c\u00f3leras. Tinha. a persist\u00eancia das pequenas vaidades. Quando o fura-c\u00e3o abria as largas asas, o c\u00e3o arreganhava os dentes agudos. Arma por arma; afronta por afronta; morte por morte. Um dente vale uma asa. A asa buscava o pulm\u00e3o para sufoc\u00e1-lo; o dente buscava a asa para destru\u00ed-la. Cada uma dessas duas espadas implac\u00e1veis trazia a morte na ponta.<\/p>\n<p>De repente, ouviu-se um estouro, um gemido, um grito de triunfo. A poeira subiu, o ar clareou, e o terreno do duelo apareceu aos olhos do homem estupefato. O c\u00e3o devorara o furac\u00e3o. O P\u00f3 Vencera o azul. O m\u00ednimo derrubara o m\u00e1ximo. Na fronte do vencedor havia uma aurora; na do vencido negrejava uma sombra. Entre ambas jazia, in\u00fatil, uma coisa: a lata.<\/p>\n<p><b>II &#8212; ESTILO AB OVO<\/b><\/p>\n<p>Um c\u00e3o saiu de lata ao rabo. Vejamos primeiramente o que \u00e9 o c\u00e3o, o barbante e a lata; e vejamos, se \u00e9 poss\u00edvel saber a origem do uso de p\u00f4r uma lata ao rabo do c\u00e3o.<\/p>\n<p>O c\u00e3o nasceu no sexto dia. Com efeito, achamos no G\u00eanesis, cap. 1, v. 24 e 25, que, tendo criado na v\u00e9spera os peixes e as aves, Deus criou naqueles dias a bestas da terra e os animais dom\u00e9sticos, entre os quais figura o de que ora trato.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode dizer com acerto a data do barbante e da lata. Sobre o primeiro, encontramos no \u00caxodo, cap. XXVII, v.1, estas palavras de Jeov\u00e1: &#8220;Far\u00e1s dez cortinas de linho retorcido&#8221;, donde se pode inferir que ia se torcia o linho, e por conseguinte se usava o cordel. Da lata as indu\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais vagas. No mesmo livro do \u00caxodo, cap. -XXVII, v. 3, fala o profeta em caldeiras; mas logo adiante recomen-da que sejam de cobre. O que n\u00e3o \u00e9 o nosso caso.<\/p>\n<p>Seja como for, temos a exist\u00eancia do c\u00e3o, provada pelo G\u00eanesis, e a do barbante citada com verossimilhan\u00e7a no \u00caxodo. N\u00e3o havendo prova cabal da lata, podemos crer, sem absurdo, que existe, visto o uso que dela fazemos.<br \/>\nAgora: &#8211;donde vem o uso de atar uma lata ao rabo do c\u00e3o? Sobre este ponto a hist\u00f3ria dos povos sem\u00edticos \u00e9 t\u00e3o obscura como a dos povos arianos. O que se pode afian\u00e7ar \u00e9 que os Hebreus n\u00e3o o tiveram. Quando Davi (Reis, cap. V, v. 16) entrou na cidade a bailar defronte da arca, Micol, a filha de Saul, que o viu, ficou fazendo m\u00e1 id\u00e9ia dele, por motivo dessa expans\u00e3o coreogr\u00e1fica. Concluo que era um povo triste. Dos Babil\u00f4nios suponho a mesma coisa, e a mesma dos Cananeus, dos Jabuseus, dos Amorreus, dos Filisteus, dos Fariseus, dos Heteus e dos Heveus.<\/p>\n<p>Nem admira que esses povos desconhecessem o uso de que se trata. As guerras que traziam n\u00e3o davam lugar \u00e0 cria\u00e7\u00e3o o munic\u00edpio, que \u00e9 de data relativamente moderna; e o uso de atar a lata ao c\u00e3o, h\u00e1 fundamento para crer que \u00e9 contempor\u00e2neo do munic\u00edpio, porquanto nada menos \u00e9 que a primeira das liberdades municipais.<\/p>\n<p>O Munic\u00edpio \u00e9 o verdadeiro alicerce da sociedade, do mesmo modo que a fam\u00edlia o \u00e9 do munic\u00edpio. Sobre este ponto est\u00e3o de acordo os mestres da ci\u00eancia. Da\u00ed vem que as sociedades remot\u00eds-simas, se bem tivessem o elemento da fam\u00edlia e o uso do c\u00e3o, n\u00e3o tinham nem podiam ter o de atar a lata ao rabo desse digno compa-nheiro do homem, por isso que lhe faltava o munic\u00edpio e as liberdades correlatas.<\/p>\n<p>Na Il\u00edada n\u00e3o h\u00e1 epis\u00f3dio algum que mostre o uso da lata atada ao c\u00e3o. O mesmo direi dos Vedas, do Popol-Vuh e dos livros de Conf\u00fancio. Num hino a Varuna (Rig-Veda, cap. I v. 2), fala-se em um &#8220;cordel atado embaixo&#8221;. Mas n\u00e3o sendo as palavras postas na boca do c\u00e3o, e sim na do homem, \u00e9 absolutamente imposs\u00edvel ligar esse texto ao uso moderno.<\/p>\n<p>Que os meninos antigos brincavam, e de modo v\u00e1rio, \u00e9 ponto incontroverso, em presen\u00e7a dos autores. Varr\u00e3o, C\u00edcero, Aquiles, A\u00falio G\u00e9lio, Suet\u00f4nio, Higino, Prop\u00e9rcio, Marcila falam de diferen-tes objetos com que as crian\u00e7as se entretinham, ou fossem bonecos, ou espadas de pau, ou bolas, ou an\u00e1logos artif\u00edcios. Nenhum deles, entretanto, diz uma s\u00f3 palavra do c\u00e3o de lata ao rabo. Ser\u00e1 cr\u00edvel que, se tal g\u00eanero de divertimento houvera entre romanos e gregos, nenhum autor nos desse dele alguma not\u00edcia, quando o fator de haver Alcib\u00edades cortado a cauda de um c\u00e3o seu \u00e9 citado solenemente no livro de Plutarco?<\/p>\n<p>Assim explorada a origem do uso, entrarei no exame do assunto que&#8230; (N\u00e3o houvera tempo para concluir)<\/p>\n<p><b>III &#8212; ESTILO LARGO E CL\u00c1SSICO<\/b><\/p>\n<p>Larga messe de louros se oferece \u00e0s intelig\u00eancias alt\u00edloquas, que, no pr\u00e9lio agora encetado, t\u00eam de ter\u00e7ar armas temperadas e finais, ante o ilustre mestre e guia de nossos trabalhos; e, porquanto os apoucamentos do meu esp\u00edrito me n\u00e3o permitem justar com gl\u00f3ria, e qui\u00e7\u00e1 me condenam a pronto desbaratamento, contento-me em seguir de longe a trilha dos vencedores, dando-lhes as palmas da admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Manha foi sempre puer\u00edcia atar uma lata ao ap\u00eandice posterior do c\u00e3o: e essa manha, n\u00e3o por certo louv\u00e1vel, \u00e9 quase certo que a tiveram os p\u00e1rvulos de Atenas, n\u00e3o obstante ser a abelha-mestra da antig\u00fcidade, cujo mel ainda hoje gosta o paladar dos sabedores.<\/p>\n<p>Tinham alguns infantes, por brinco e gala, atado uma lata a um c\u00e3o, dando assim folga a aborrecimentos e enfados de suas tarefas escolares. Sentindo a mortifica\u00e7\u00e3o do barbante, que lhe prendia a lata, e assustado com o soar da lata nos seixos do caminho, o c\u00e3o ia t\u00e3o cego e desvairado, que a nenhuma coisa ou pessoa parecia atender.<\/p>\n<p>Movidos da curiosidade, acudiam os vizinhos \u00e0s portas de suas vivendas, e, longe de sentirem a compaix\u00e3o natural do homem quando v\u00ea padecer outra criatura, dobravam os agastamentos do c\u00e3o com surriadas e vaias. O c\u00e3o perlustrou as ruas, saiu aos campos, aos andurriais, at\u00e9 entestar com uma montanha, em cujos alcantilados p\u00edncaros desmaiava o sol, e ao p\u00e9 de cuja base um mancebo apascoava o seu gado.<\/p>\n<p>Quis o Supremo Op\u00edfice que este mancebo fosse mais compassivo que os da cidade, e fizesse acabar o supl\u00edcio do c\u00e3o. Gentil era ele, de olhos brandos e n\u00e3o somenos em gra\u00e7a aos da mais formosa donzela. Com o cajado ao ombro, e sentado num peda\u00e7o de rochedo, manuseava um tomo de Virg\u00edlio, seguindo com o pensamento a trilha daquele caudal engenho. Apropinquando-se o c\u00e3o do mancebo, este lhe lan\u00e7ou as m\u00e3os e o deteve. O mancebo varreu jogo da mem\u00f3ria o poeta e o gado, tratou de desvincular a lata do c\u00e3o e o fez em poucos minutos, com mor destreza e paci\u00eancia.<\/p>\n<p>O c\u00e3o, ali\u00e1s vultoso, parecia haver desmedrado fortemente, depois a mal\u00edcia dos meninos o pusera em t\u00e3o apertadas andan\u00e7as. Livre da lata, lambeu as m\u00e3os do mancebo, que o tomou Para si, dizendo: &#8212; De ora avante, me acompanhar\u00e1s ao pasto.<\/p>\n<p>Folgareis certamente com o caso que deixo narrado, embora n\u00e3o possa o apoucado e rude estilo do vosso condisc\u00edpulo dar ao quadro os adequados toques. Ferac\u00edssimo \u00e9 o campo para engenhos de mais alto quilate; e, embora abastado de urzes, e porventura coberto de trevas, a imagina\u00e7\u00e3o dar\u00e1 o fio de Ariadne com que s\u00f3i vencer os mais complicados labirintos.<\/p>\n<p>Entranhado anelo me enche de antecipado gosto, por ler os produtos de vossas intelig\u00eancias, que ser\u00e3o em tudo dignos do nosso digno mestre, e que desafiar\u00e3o a fouce da morte colhendo vasta seara de louros imarcess\u00edveis com que engrinaldareis as fontes imortais.<\/p>\n<p>Tais s\u00e3o os tr\u00eas escritos; dando-os ao prelo, fico tranq\u00fcilo com a minha consci\u00eancia; revelei tr\u00eas escritores.<\/p>\n<p><b>FILOSOFIA DE UM PAR DE BOTAS<\/b><\/p>\n<p>UMA DESTAS TARDES, como eu acabasse de jantar, e muito, lembrou-me dar um passeio \u00e0 Praia de Santa Luzia, cuja solid\u00e3o \u00e9 prop\u00edcia a todo homem que ama digerir em paz. Ali fui, e com tal fortuna que achei uma pedra lisa para me sentar, e nenhum f\u00f4lego vivo nem morto. &#8212; Nem morto, felizmente. Sentei-me, alonguei os olhos, espreguicei a alma, respirei \u00e0 larga, e disse ao est\u00f4mago: &#8212; Digere a teu gosto, meu velho companheiro. Deus nobis haec otia fecit.<\/p>\n<p>Digeria o est\u00f4mago, enquanto o c\u00e9rebro ia remoendo, t\u00e3o certo \u00e9, que tudo neste mundo se resolve na mastiga\u00e7\u00e3o. E digerindo, e remoendo, n\u00e3o reparei logo que havia, a poucos passos de mim, um par de coturnos velhos e imprest\u00e1veis. Um e outro tinham a sola rota, o tac\u00e3o comido do longo uso, e tortos, porque \u00e9 de notar que a generalidade dos homens camba, ou para um ou para outro lado. Um dos coturnos (digamos botas, que n\u00e3o lembra tanto a trag\u00e9dia), uma das botas tinha um rasg\u00e3o de calo. Ambas estavam maculadas de lama velha e seca; tinham o couro ru\u00e7o, pu\u00eddo, encarquilhado.<\/p>\n<p>Olhando casulmente para as botas, entrei a considerar as vicitudes humanas, e a conjeturar qual seria a vida daquele produto social. Eis sen\u00e3o quando, ou\u00e7o um rumor de vozes surdas; em seguida, ouvi s\u00edlabas, palavras, frases, per\u00edodos; e n\u00e3o havendo ningu\u00e9m, imaginei que era eu, que eu era ventr\u00edloquo; e j\u00e1 podem ver se fiquei consternado. Mas n\u00e3o, n\u00e3o era eu; eram as botas que falavam entre si, suspiravam e riam, mostrando em vez de dentes, umas Pontas de tachas enferrujadas. Prestei o ouvido; eis o que diziam as botas:<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Ora, pois, mana, respiremos e filosofemos um pouco.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA&#8211; Um pouco? Todo o resto da nossa vida, que n\u00e3o h\u00e1 de ser muito grande; mas enfim, algum descanso nos trouxe a velhice. Que destino! Uma praia! Lembras-te do tempo em que brilh\u00e1vamos na vidra\u00e7a da Rua do Ouvidor?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Se me lembro! Quero at\u00e9 crer que \u00e9ramos as mais bonitas de todas. Ao menos na eleg\u00e2ncia&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Na eleg\u00e2ncia, ningu\u00e9m nos vencia.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Pois olha que havia muitas outras, e presumidas, sem contar aquelas botinas cor de chocolate &#8230; aquele par &#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; O dos bot\u00f5es de madrep\u00e9rola?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8211;Esse.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA&#8211; O daquela vi\u00fava?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; O da vi\u00fava.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Que tempo! \u00c9ramos novas, bonitas, asseadas; de quando em quando, uma passadela de pano de linho, que era uma consola\u00e7\u00e3o. No mais, plena ociosidade. Bom tempo, mana, bom tempo! Mas, bem dizem os homens: n\u00e3o h\u00e1 bem que sempre dure, nem mal que se n\u00e3o acabe.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERD &#8212; O certo \u00e9 que ningu\u00e9m nos inventou para vivermos novas toda vida. Mais de uma pessoa ali foi experimentar n\u00f3s; \u00e9ramos cal\u00e7adas com cuidado, postas sobre um tapete, at\u00e9 que um dia, o Dr. Crispim passou, viu-nos, entrou e cal\u00e7ou-nos. Eu, de raivosa, apertei-lhe um pouco os dois calos.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Sempre te conheci pirracenta.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Pirracenta, mas infeliz. Apesar do apert\u00e3o, o Dr. Crispim levou-nos.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Era bom homem, o Dr. Crispim; muito nosso amigo. N\u00e3o dava caminhadas largas, n\u00e3o dan\u00e7ava. S\u00f3 jogava o voltarete at\u00e9 tarde, duas e tr\u00eas horas da madrugada; mas, como o divertimento parado, n\u00e3o nos incomodava muito. E depois na pontinha dos p\u00e9s, para n\u00e3o acordar a mulher. Lembras-te?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Ora! por sinal que a mulher fingia dormir para lhe n\u00e3o tirar as ilus\u00f5es. No dia seguinte ele contava que estivera na ma\u00e7onaria. Santa senhora!<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Santo casal! Naquela casa fomos sempre felizes, sempre! E a gente que eles freq\u00fcentavam? Quando n\u00e3o havia tapetes, havia palhinha; pis\u00e1vamos o macio, o limpo, o asseado. And\u00e1vamos de carro muita vez, e eu gosto tanto de carro&#8217; Estivemos ali uns quarenta dias, n\u00e3o?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Pois ent\u00e3o! Ele gastava mais sapatos do que a Bol\u00edvia gasta constitui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Deixemos nos de pol\u00edtica.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8211;Apoiado.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA (com for\u00e7a) &#8212; Deixemo-nos de pol\u00edtica, j\u00e1 disse!<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA (sorrindo)&#8211; Mas um pouco de pol\u00edtica debaixo da mesa?&#8230; Nunca te contei&#8230; contei, sim&#8230; o caso das botinas cor de chocolate&#8230; as da vi\u00fava&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Da vi\u00fava, para quem o Dr. Crispim quebrava muito os olhos? Lembra-me que estivemos juntas, num jantar do Comendador Pl\u00e1cido. As botinas viram-nos logo, e n\u00f3s da\u00ed a pouco as vimos tamb\u00e9m, porque a vi\u00fava, como tinha o p\u00e9 pequeno, andava a mostr\u00e1-lo a cada passo. Lembra-me tamb\u00e9m que, \u00e0 mesa, conversei muito com uma das botinas. O Dr. Crispim. sentara-se ao p\u00e9 do comendador e defronte da vi\u00fava; ent\u00e3o, eu fui direita a uma delas e falamos, falamos pelas tripas de Judas&#8230; A princ\u00edpio, n\u00e3o; a princ\u00edpio ela fez-se de boa; e toquei-lhe no bico, respondeu-me zangada &#8220;V\u00e1-se, me deixe!&#8221; Mas eu insisti, perguntei-lhe por onde tinha andado, disse-lhe que estava ainda muito bonita, muito conservada; ela foi-se amansando, buliu com o bico, depois com o tac\u00e3o, pisou em mim, eu pisei nela e n\u00e3o te digo mais&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA&#8211; Pois \u00e9 justamente o que eu queria contar&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8211;Tamb\u00e9m conversaste?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; N\u00e3o; ia conversar com a outra. Escorreguei devagarinho, muito evagarinho, com cautela, por causa da bota do comendador.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA&#8211;Agora me lembro: Pisaste a bota do comendador.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA&#8211; A bota? Pisei o calo. O comendador: Ui! As senhoras: Ai! Os homens: Hein? E eu recuei; e o Dr. Crispim ficou muito vermelho, muito vermelho &#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Parece que foi castigo. No dia seguinte o Dr. Crispim deu-nos de presente a um procurador de poucas causas.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA&#8211; N\u00e3o me fales! Isso foi a nossa desgra\u00e7a! Um procurador! Era o mesmo que dizer: mata-me estas botas; esfrangalha-me estas botas!<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Dizes bem. Que roda viva! Era da Rela\u00e7\u00e3o para os escriv\u00e3es, dos escriv\u00e3es para os ju\u00edzes, dos ju\u00edzes para os advogados, dos advogados para as partes (embora poucas), das partes para a Rela\u00e7\u00e3o, da Rela\u00e7\u00e3o para os escriv\u00e3es&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Et caetera. E as chuvas! E as lamas! Foi o procurador quem primeiro me deu este corte para desabafar um calo. Fiquei asseada com esta janela \u00e0 banda.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8211;Durou pouco; passamos ent\u00e3o para o fiel de feitos, que no fim de tr\u00eas semanas nos transferiu ao remend\u00e3o. O remend\u00e3o (ali! j\u00e1 n\u00e3oera a Rua do Ouvidor!) deu-nos alguns pontos, tapou-nos este buraco, e impingiu-nos ao aprendiz de barbeiro do Beco dos Aflitos.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Com esse havia pouco que fazer de dia, mas de noite&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; No curso de dan\u00e7a; lembra-me. O diabo do rapaz valsava como quem se despede da vida. Nem nos comprou para outra coisa, porque para os passeios tinha um par de botas novas, de verniz e bico fino. Mas para as noites&#8230; N\u00f3s \u00e9ramos as botas do curso&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Que abismo entre o curso e os tapetes do Dr. Crispim &#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Coisas!<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Justi\u00e7a, justi\u00e7a; o aprendiz n\u00e3o nos escovava, n\u00e3o t\u00ednhamos o supl\u00edcio da escova. Ao menos, por esse lado, a nossa vida era tranq\u00fcila.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Relativamente creio. Agora, que era alegre n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida; em todo caso, era muito melhor que a outra que nos esperava.<br \/>\nBOTA DIREITA &#8212; Quando fomos parar \u00e0s m\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Aos p\u00e9s.<br \/>\nBOTA DIREITA &#8212; Aos p\u00e9s daquele servente das obras p\u00fablicas. Da\u00ed fomos atiradas \u00e0 rua, onde nos apanhou um preto padeiro, que nos reduziu enfim a este \u00faltimo estado! Triste! triste!<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8211;Tu queixas-te, mana?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Se te parece!<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; N\u00e3o sei; se na verdade \u00e9 triste acabar assim t\u00e3o miseravelmente, numa praia, esburacadas e rotas, sem tac\u00f5es nem ilus\u00f5es, por outro lado, ganhamos a paz, e a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; A paz? Aquele mar pode lamber-nos de um relance.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Trazer-nos-\u00e1 outra vez \u00e0 praia. Demais, est\u00e1 longe.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Que eu, na verdade, quisera descansar agora estes \u00faltimos dias; mas descansar sem saudades, sem a lembran\u00e7a do que foi. Viver t\u00e3o afagadas, t\u00e3o admiradas na vidra\u00e7a do autor dos nossos dias; passar uma vida feliz em casa do nosso primeiro dono, suport\u00e1vel na casa dos outros; e agora&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Agora qu\u00ea?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; A vergonha, mana.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Vergonha, n\u00e3o. Podes crer, que fizemos felizes aqueles a quem cal\u00e7amos; ao menos, na nossa mocidade. Tu que pensas? Mais de um, n\u00e3o olha para suas id\u00e9ias com a mesma satisfa\u00e7\u00e3o com que olha para suas botas. Mana, a bota \u00e9 a metade da circunspec\u00e7\u00e3o; em todo o caso \u00e9 a base da sociedade civil&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Que estilo! Bem se v\u00ea que nos cal\u00e7ou um advogado.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; N\u00e3o reparaste que, \u00e0 medida que \u00edamos envelhecendo, \u00e9ramos menos cumprimentadas?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Talvez.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; \u00c9ramos, e o chap\u00e9u n\u00e3o se engana. O chap\u00e9u fareja a bota&#8230; Ora, pois! Viva a liberdade! Viva a paz! Viva a velhice! (A Bota Direita abana tristemente o cano). Que tens?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; N\u00e3o posso; por mais que queira, n\u00e3o posso afazer-me a isto. Pensava que sim, mas era ilus\u00e3o &#8230; Viva a paz e a velhice, concordo; mas h\u00e1 de ser sem as recorda\u00e7\u00f5es do passado&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Qual passado? O de ontem ou o de anteontem? O do advogado ou o do servente?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Qualquer; contanto que nos cal\u00e7assem. O mais reles p\u00e9 de homem \u00e9 sempre um p\u00e9 de homem.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Deixa-te disso; fa\u00e7amos da nossa velhice uma coisa \u00fatil e respeit\u00e1vel.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Respeit\u00e1vel, um par de botas velhas! \u00datil, par de botas velhas! Que utilidade? Que respeito? N\u00e3o v\u00eas que os homens tiraram de n\u00f3s o que podiam, e quando n\u00e3o val\u00edamos um caracol mandaram deitar-nos \u00e0 margem? Quem \u00e9 que nos h\u00e1 de respeitar? &#8211; aqueles mariscos?<br \/>\n(olhando para mim) Aqu\u00eale sujeito- que est\u00e1 ali com os olhos assombrados?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Vanitas! Vanitas!<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Que dizes tu?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Quero dizer que \u00e9s vaidosa, apesar de muito acalcanhada, e que devemos dar-nos por felizes com esta aposentadoria, lardeada de algumas recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Onde estar\u00e3o a esta hora as botinas da vi\u00fava?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Quem sabe l\u00e1! Talvez outras botas conversem com outras botinas&#8230; Talvez: \u00e9 a lei do mundo; assim caem os Estados e as institui\u00e7\u00f5es. Assim perece a beleza e a mocidade. Tudo botas, mana; tudo botas, com tac\u00f5es ou sem tac\u00f5es, novas ou velhas, direita ou acalcanhadas, lustrosas ou ru\u00e7as, mas botas, botas, botas!<\/p>\n<p>Neste ponto calaram-se as duas interlocutoras, e eu fiquei a olhar para uma e outra, a esperar se diziam alguma coisa mais. Nada; estavam pensativas.<\/p>\n<p>Deixei-me ficar assim algum tempo, disposto a lan\u00e7ar m\u00e3o delas, e lev\u00e1-las Para casa com o fim de as estudar, interrogar, e depois escrever uma mem\u00f3ria, que remeteria a todas as academias do mundo. Pensava tamb\u00e9m em as apresentar nos circos de cavalinhos, ou ir vend\u00ea-las a Nova Iorque. Depois, abri m\u00e3o de todos esses projetos. Se elas queriam a paz, uma velhice sossegada, por que motivo iria eu arranc\u00e1-las a essa justa paga de uma vida cansada e laboriosa? Tinham servido tanto! Tinham rolado todos os degraus da escala social; chegavam ao \u00faltimo, a praia, a triste Praia de Santa Luzia&#8230; N\u00e3o, velhas botas! Melhor \u00e9 que fiqueis a\u00ed no derradeiro descanso.<\/p>\n<p>Nisto vi chegar um sujeito maltrapilho; era um mendigo. Pediu-me urna esmola; dei-lhe um n\u00edquel.<\/p>\n<p>MENDIGO &#8212; Deus lhe pague meu senhor! (Vendo as botas) Um par de botas! Foi um anjo que as p\u00f4s aqui&#8230;<br \/>\nEU (ao mendigo) &#8212; Mas, espere&#8230;<\/p>\n<p>MENDIGO &#8212; Espere o que? Se lhe digo que estou descal\u00e7o! (Pegando tias botas) Est\u00e3o bem boas! Cosendo-se isto aqui, com um barbante&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Que \u00e9 isto, mana? Que \u00e9 isto? Algu\u00e9m pega em n\u00f3s&#8230; Eu sinto-me no ar&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; \u00c9 um mendigo.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA&#8211; Um mendigo? Que querer\u00e1 ele?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA (alvoro\u00e7ada) &#8212; Ser\u00e1 poss\u00edvel?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA &#8212; Vaidosa!<\/p>\n<p>BOTA DIREITA &#8212; Ah! Mana! Esta \u00e9 a filosofia verdadeira: &#8212; N\u00e3o h\u00e1 bota velha que n\u00e3o encontre um p\u00e9 cambaio.<\/p>\n<p><b>ELOGIO DA VAIDADE<\/b><\/p>\n<p>LOGO QUE A MOD\u00c9STIA acabou de falar, com os olhos no ch\u00e3o, a Vaidade empertigou-se e disse:<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Damas e cavalheiros, acabais de ouvir a mais chocha de todas as virtudes, a mais peca, a mais est\u00e9ril de quantas podem reger o cora\u00e7\u00e3o dos homens; e ides ouvir a mais sublime delas, a mais fecunda, a mais sens\u00edvel, a que pode dar maior c\u00f3pia de venturas sem contraste.<\/p>\n<p>Que eu sou a Vaidade, classificada entre os v\u00edcios por alguns ret\u00f3ricos de profiss\u00e3o; mas na realidade, a primeira das virtudes. N\u00e3o olheis para este gorro de guizos, nem para estes punhos carregados de braceletes, nem para estas cores variegadas com que me adorno. N\u00e3o olheis, digo eu, se tendes o preconceito da Mod\u00e9stia; mas se o n\u00e3o tendes, reparai bem que estes guizos e tudo mais, longe de ser uma casca ilus\u00f3ria e v\u00e3, s\u00e3o a mesma polpa do fruto da sabedoria; e reparai mais que vos chamo a todos, sem os bicocos e meneios daquela senhora, minha mana e minha rival.<\/p>\n<p>Digo a todos, porque a todos cobi\u00e7o, ou sejais formosos como Paris, ou feios como Tersites, gordos como Pan\u00e7a, magros como Quixote, var\u00f5es e mulheres, grandes e pequenos, verdes e maduros, todos os que compondes este mundo, e haveis de compor o outro; a todos falo, como a galinha fala aos seus pintinhos, quando os convoca \u00e0 refei\u00e7\u00e3o, a saber, com Interesse, com gra\u00e7a, com amor. Porque nenhum, ou raro, poder\u00e1 afirmar que eu o n\u00e3o tenha al\u00e7ado ou consolado.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Onde \u00e9 que eu n\u00e3o entro? Onde \u00e9 que eu n\u00e3o mando alguma coisa? Vou do sal\u00e3o do rico ao albergue do pobre, do pal\u00e1cio ao corti\u00e7o, da seda fina e ro\u00e7agante ao algod\u00e3o escasso e grosseiro. Fa\u00e7o exce\u00e7\u00f5es, \u00e9 certo (infelizmente!); mas, em geral, tu que possuis, busca-me no encosto da tua otomana, entre as porcelanas da tua baixela, na portinhola da tua carruagem; que digo? Busca-me em ti mesmo, nas tuas botas, na tua casaca. no teu bigode; busca-me no teu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. Tu, que n\u00e3o possuis nada, perscruta bem as dobras da tua estamenha, os recessos da tua velha arca; l\u00e1 me achar\u00e1s entre dois vermes famintos; ou ali, ou no fundo dos teus sapatos sem graxa, ou entre os fios da tua grenha sem \u00f3leo.<\/p>\n<p>Valeria a pena ter, se eu n\u00e3o real\u00e7asse os teres? Foi para escond\u00ea-lo ou mostr\u00e1-lo, que mandaste vir de t\u00e3o longe esse vaso opulento? Foi Para escond\u00ea-lo ou mostr\u00e1-lo, que encomendaste \u00e0 melhor f\u00e1brica o tecido que te veste, a safira que te arreia, a carruagem que te leva? Foi para escond\u00ea-lo ou mostr\u00e1-lo, que ordenaste esse festim babil\u00f4nio e pediste ao pomar os melhores vinhos? E tu, que nada tens, por que aplicas o sal\u00e1rio de uma semana ao jantar de uma hora, sen\u00e3o porque eu te possuo e te digo que alguma coisa deves parecer melhor do que \u00e9s na realidade? Por que levas ao teu casamento um coche, t\u00e3o rico e t\u00e3o caro, como o do teu opulento vizinho, quando podias ir \u00e0 igreja com teus p\u00e9s? Por que compras essa j\u00f3ia e esse chap\u00e9u? Por que talhas o teu vestido pelo padr\u00e3o mais rebuscado, e por que te remiras ao espelho com amor, sen\u00e3o porque eu te consolo da tua mis\u00e9ria e do teu nada, dando-te a troco de um sacrif\u00edcio grande um benef\u00edcio ainda maior?<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Quem \u00e9 esse que a\u00ed vem, com os olhos no eterno azul? \u00c9 um poeta; vem compondo alguma coisa; segue o v\u00f4o caprichoso da estrofe. &#8212; Deus te salve, P\u00edndaro! Estremeceu; moveu a fronte, desabrochou em riso. Que \u00e9 da inspira\u00e7\u00e3o? Fugiu-lhe; a estrofe perdeu-se entre as moitas; a rima esvaiu-se-lhe por entre os dedos da mem\u00f3ria. N\u00e3o importa; fiquei eu com ele, &#8212; eu, a musa d\u00e9cima, e, portanto, o conjunto de todas as musas, pela regra dos doutores, de Sganarello. Que ar beat\u00edfico! Que satisfa\u00e7\u00e3o sem mescla! Quem dir\u00e1 a esse homem que uma guerra amea\u00e7a levar um milh\u00e3o de outros homens? Quem dir\u00e1 que a seca devora uma por\u00e7\u00e3o do pa\u00eds? Nesta ocasi\u00e3o ele nada sabe, nada ouve. Ouve-me, ouve-se; eis tudo.<\/p>\n<p>Um homem caluniou-o h\u00e1 tempos; mas agora, ao voltar a esquina, dizem-lhe que o caluniador o elogiou.<br \/>\n&#8212; N\u00e3o me fales nesse maroto.<\/p>\n<p>&#8212; Elogiou-te; disse que \u00e9s um poeta enorme.<\/p>\n<p>&#8212; Outros o t\u00eam dito, mas s\u00e3o homens de bem, e sinceros. Ser\u00e1 ele sincero?<\/p>\n<p>&#8212; Confessa que n\u00e3o conhece poeta maior.<\/p>\n<p>&#8212; Peralta! Naturalmente arrependeu-se da injusti\u00e7a que me fez. Poeta enorme, disse ele.<\/p>\n<p>&#8212; O maior de todos.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o creio. O maior?<\/p>\n<p>&#8212; O maior.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o contestarei nunca os seus m\u00e9ritos; n\u00e3o sou como ele que me caluniou; isto \u00e9, n\u00e3o sei, disseram-mo. Diz-se tanta mentira! Tem gosto o maroto; \u00e9 um pouco estouvado \u00e0s vezes, mas tem gosto. N\u00e3o contestarei nunca os seus m\u00e9ritos. Haver\u00e1 pior coisa do que mesclar o \u00f3dio \u00e0s opini\u00f5es? Que eu n\u00e3o lhe tenho \u00f3dio. Oh! nenhum \u00f3dio. \u00c9 estouvado, mas imparcial.<\/p>\n<p>Uma semana depois, v\u00ea-lo-eis de bra\u00e7o com o outro, \u00e0 mesa do caf\u00e9, \u00e0 mesa do jogo, alegres, \u00edntimos, perdoados. E quem embotou esse \u00f3dio velho, sen\u00e3o eu? Quem verteu o b\u00e1lsamo do esquecimento nesses dois cora\u00e7\u00f5es irreconcili\u00e1veis? Eu, a caluniada amiga do g\u00eanero humano.<\/p>\n<p>Dizem que o meu abra\u00e7o d\u00f3i. Cal\u00fania, amados ouvintes! N\u00e3o escure\u00e7o a verdade; \u00e0s vezes h\u00e1 no mel uma pontazinha de fel; mas como eu dissolvo tudo! Chamai aquele mesmo poeta, n\u00e3o P\u00edndaro, mas Trissotin. V\u00ea-lo-eis derrubar o car\u00e3o, estremecer, rugir, morder-se como os zoilos de Bocage. Desgosto. Convenho, mas desgosto curto. Ele ir\u00e1 dali remirar-se nos pr\u00f3prios livros. A justi\u00e7a que um atrevido lhe negou, n\u00e3o lha negar\u00e3o as p\u00e1ginas dele. Oh! A m\u00e3e que gerou o filho, que o amamenta e acalenta, que p\u00f5e nessa fr\u00e1gil criaturinha o mais puro de todos os amores, essa m\u00e3e \u00e9 Med\u00e9ia, se a compararmos \u00e0quele engenho, que se consola da inj\u00faria, relendo-se: porque se o amor de m\u00e3e e a mais elevada forma do altru\u00edsmo, o dele \u00e9 a mais profunda forma de ego\u00edsmo, e s\u00f3 h\u00e1 uma coisa mais forte que o amor materno, \u00e9 o amor de si pr\u00f3prio.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CARTA AO SR. BISPO DO RIO DE JANEIRO Ex.mo Rev.mo Sr. &#8212; No meio das pr\u00e1ticas religiosas, a que as altas fun\u00e7\u00f5es de prelado chamam hoje V. 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