{"id":117579,"date":"2017-04-03T19:07:28","date_gmt":"2017-04-03T21:07:28","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117579"},"modified":"2017-04-03T19:07:28","modified_gmt":"2017-04-03T21:07:28","slug":"o-sainete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-sainete","title":{"rendered":"O Sainete"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Um dos problemas que mais preocupavam a Rua do Ouvidor, entre as da Quitanda e Gon\u00e7alves Dias, das duas \u00e0s quatro horas da tarde, era a profunda e s\u00fabita melancolia do Dr. Maciel. O Dr. Maciel tinha apenas vinte e cinco anos, idade em que geralmente se compreende melhor o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos do que as Lamenta\u00e7\u00f5es de Jeremias. Sua \u00edndole mesma era mais propensa ao riso dos fr\u00edvolos do que ao pesadume dos fil\u00f3sofos. Pode-se afirmar que ele preferia um dueto da Gr\u00e3-Duquesa a um teorema geom\u00e9trico, e os domingos do Prado Fluminense aos domingos da Escola da Gl\u00f3ria. Donde vinha pois a melancolia que tanto preocupava a Rua do Ouvidor?<\/p>\n<p>Pode o leitor co\u00e7ar o nariz, \u00e0 procura da explica\u00e7\u00e3o; a leitora n\u00e3o precisa desse recurso para adivinhar que o Dr. Maciel ama, que uma &#8220;seta do deus alado&#8221; o feriu mesmo no centro do cora\u00e7\u00e3o. O que a leitora n\u00e3o pode adivinhar, sem que eu lho diga, \u00e9 que o jovem m\u00e9dico ama a vi\u00fava Seixas, cuja maravilhosa beleza levava ap\u00f3s si os olhos dos mais consumados pintalegretes. O Dr. Maciel gostava de a ver como todos os outros; arnou-a desde certa noite e certo baile, em que ela, andando a passeio pelo seu bra\u00e7o, perguntou-lhe de repente com a mais deliciosa languidez do mundo:<\/p>\n<p>\u2014 Doutor, por que raz\u00e3o n\u00e3o quer honrar a minha casa? Estou vis\u00edvel todas as quintas-feiras para a turbamulta; os s\u00e1bados pertencem aos amigos. V\u00e1 l\u00e1 aos s\u00e1bados.<\/p>\n<p>Maciel prometeu que iria no primeiro s\u00e1bado, e foi. Pulava-lhe o cora\u00e7\u00e3o ao subir as escadas. A vi\u00fava estava s\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Venho cedo, disse ele, logo depois dos primeiros cumprimentos.<\/p>\n<p>\u2014 Vem tarde demais para a minha natural ansiedade, respondeu ela sorrindo.<\/p>\n<p>O que se passou na alma de Maciel excede a todas as conjeturas. Num s\u00f3 minuto p\u00f4de ele ver juntas todas as maravilhas da terra e do c\u00e9u, \u2014 todas concentradas naquela elegante e suntuosa sala cuja dona, a Calipso daquele Tel\u00eamaco, tinha cravados nele um par de olhos, n\u00e3o negros, n\u00e3o azuis, n\u00e3o castanhos, mas dessa rara cor, que os homens atribuem \u00e0 mais duradoura felicidade do cora\u00e7\u00e3o, \u00e0 esperan\u00e7a. Eram verdes, de um verde igual ao das folhas novas, e de uma express\u00e3o ora indolente, ora vivaz, \u2014 arma de dous gumes, \u2014 que ela sabia manejar como poucas.<\/p>\n<p>E n\u00e3o obstante aquele intr\u00f3ito, o Dr. Maciel andava triste, abatido, desconsolado. A raz\u00e3o era que a vi\u00fava, depois de t\u00e3o am\u00e1veis preliminares, n\u00e3o cuidou mais das condi\u00e7\u00f5es em que seria celebrado um tratado conjugal. No fim de cinco ou seis s\u00e1bados, cujas horas eram polidamente bocejadas a duo, a vi\u00fava adoeceu semanalmente naquele dia. e o jovem m\u00e9dico teve de contentar-se com a turbamulta das quintas-feiras.<\/p>\n<p>A quinta-feira em que nos achamos \u00e9 de Endoen\u00e7as. N\u00e3o era dia pr\u00f3prio de recep\u00e7\u00e3o. Contudo, Maciel dirigiu-se a Botafogo, a fim de p\u00f4r em execu\u00e7\u00e3o um projeto, que ele ingenuamente supunha ser fruto do mais profundo maquiavelismo, mas que eu, na minha fidelidade de historiador, devo confessar que n\u00e3o passava de verdadeira infantilidade. Notara ele os sentimentos religiosos da vi\u00fava; imaginou que, indo fazer-lhe naquele dia a declara\u00e7\u00e3o verbal do seu amor, por meio de invoca\u00e7\u00f5es pias, alcan\u00e7aria facilmente o pr\u00eamio de seus trabalhos.<\/p>\n<p>A vi\u00fava achava-se no toucador. Acabara de vestir-se; e de p\u00e9, cal\u00e7ando as luvas, em frente do espelho, sorria para si mesma, como satisfeita da toilette. N\u00e3o ia passear, como se poderia supor; ia visitar as igrejas. Queria alcan\u00e7ar por sedu\u00e7\u00e3o a miseric\u00f3rdia divina. Era boa devota aquela senhora de vinte e seis anos, que freq\u00fcentava as festas religiosas, comia peixe durante toda a quaresma, acreditava alguma cousa em Deus, pouco no diabo e nada no inferno. N\u00e3o acreditando no inferno, n\u00e3o tinha onde meter o diabo; venceu a dificuldade, agasalhando-o no cora\u00e7\u00e3o. O demo assim alojado fora algum tempo o nosso melanc\u00f3lico Maciel. A religi\u00e3o da vi\u00fava era mais elegante que outra cousa. Quando ela se confessava era sempre com algum padre mo\u00e7o; em compensa\u00e7\u00e3o s\u00f3 se tratava com m\u00e9dico velho. Nunca escondeu do m\u00e9dico o mais \u00edntimo defluxo, nem revelou ao padre o mais insignificante pecado.<\/p>\n<p>\u2014 O Dr. Maciel? disse ela lendo o cart\u00e3o que a criada lhe entregou. N\u00e3o o posso receber; vou sair. Espera, \u2014 continuou depois de relancear os olhos para o espelho; manda-o entrar para aqui.<\/p>\n<p>A ordem foi cumprida; alguns minutos depois fazia Maciel a sua entrada no toucador da vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Recebo-o no santu\u00e1rio, disse ela sorrindo logo que ele assomou \u00e0 porta; prova de que o senhor pertence ao n\u00famero dos verdadeiros fi\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o \u00e9 da minha fidelidade que eu duvido; \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E recebo-o de p\u00e9! Vou sair; vou visitar as igrejas.<\/p>\n<p>\u2014 Sei; conhe\u00e7o os seus sentimentos de verdadeira religi\u00e3o, \u2014 disse Maciel com a voz a tremer-lhe; \u2014 vim at\u00e9 com receio de n\u00e3o a encontrar. Mas vim; era preciso que viesse; neste dia, sobretudo.<\/p>\n<p>A vi\u00fava recolheu a abazinha de um sorriso que indiscretamente ia traindo o seu pensamento, e perguntou friamente ao m\u00e9dico que horas eram.<\/p>\n<p>\u2014 Quase oito. Sua luva est\u00e1 cal\u00e7ada; falta s\u00f3 aboto\u00e1-la. \u00c9 o tempo necess\u00e1rio para lhe dizer, neste dia t\u00e3o solene, que eu sinto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 abotoada. Quase oito, n\u00e3o? N\u00e3o h\u00e1 tempo de sobra; \u00e9 preciso ir a sete igrejas. Quer fazer o favor de acompanhar-me at\u00e9 o carro?<\/p>\n<p>Maciel tinha esp\u00edrito em quantidade suficiente para n\u00e3o perd\u00ea-lo todo com a paix\u00e3o. Calou-se; e respondeu \u00e0 vi\u00fava com um gesto de assentimento. Sa\u00edram do toucador e desceram, ambos silenciosos. No trajeto planeou Maciel dizer-lhe uma s\u00f3 palavra, mas que contivesse todo o seu cora\u00e7\u00e3o. Era dif\u00edcil; o lacaio, que abrira a portinhola do coup\u00e9, ali estava como um emiss\u00e1rio do seu mau destino.<\/p>\n<p>\u2014 Quer que o leve at\u00e9 a cidade? perguntou a vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, respondeu Maciel.<\/p>\n<p>O lacaio fechou a portinhola e correu a tomar o seu lugar; foi nesse r\u00e1pido instante que o m\u00e9dico, inclinando o rosto, disse \u00e0 vi\u00fava:<\/p>\n<p>\u2014 Eul\u00e1lia&#8230;<\/p>\n<p>Os cavalos come\u00e7aram a andar; o resto da frase perdeu-se para a vi\u00fava e para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia sorriu da familiaridade e perdoou-lhe. Reclinou-se molemente nos coxins do ve\u00edculo e come\u00e7ou um mon\u00f3logo que s\u00f3 acabou \u00e0 porta de S. Francisco de Paula.<\/p>\n<p>&#8221;Pobre rapaz! dizia ela consigo; v\u00ea-se que morre por mim. N\u00e3o desgostei dele a princ\u00edpio&#8230; Mas tenho eu culpa de que seja um maricas? Agora sobretudo, com aquele ar de moleza e abatimento, \u00e9&#8230; n\u00e3o \u00e9 nada&#8230; \u00e9 uma alma de cera. Parece que vinha disposto a ser mais atrevido; mas a alma faltou-lhe com a voz, e ficou apenas com as boas inten\u00e7\u00f5es. Eul\u00e1lia! N\u00e3o foi mau este come\u00e7o. Para um cora\u00e7\u00e3o daqueles&#8230; Mas qual! c&#8217;est le genre ennuyeux!&#8221;<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a glosa mais resumida que posso dar do mon\u00f3logo da vi\u00fava O coup\u00e9 estacionou na Pra\u00e7a da Constitui\u00e7\u00e3o; Eul\u00e1lia, seguida do lacaio, encaminhou-se para a igreja de S. Francisco de Paula. Ali, depositou a imagem de Maciel nas escadas, e atravessou o adro toda entregue ao dever religioso e aos cuidados de seu magn\u00edfico vestido preto.<\/p>\n<p>A visita foi curta; era preciso ir a sete igrejas, fazendo a p\u00e9 todo o trajeto de uma para outra. A vi\u00fava saiu sem preocupar-se mais com o jovem m\u00e9dico, e dirigindo-se para a igreja da Cruz.<\/p>\n<p>Na Cruz achamos uma personagem nova, ou antes duas, o Desembargador Ara\u00fajo e sua sobrinha D. Fernanda Valadares, vi\u00fava de um deputado deste nome, que falecera um ano antes, n\u00e3o se sabe se da hepatite que os m\u00e9dicos lhe acharam, se de um discurso que proferiu na discuss\u00e3o do or\u00e7amento. As duas vi\u00favas eram amigas; seguiram juntas na visita\u00e7\u00e3o das igrejas. Fernanda n\u00e3o tinha tantas acomoda\u00e7\u00f5es com o c\u00e9u, como a vi\u00fava Seixas; mas a sua piedade estava sujeita, como todas as cousas, \u00e0s vicissitudes do cora\u00e7\u00e3o. Em vista do que, logo que sa\u00edram da \u00faltima igreja, disse ela \u00e0 amiga que no dia seguinte iria v\u00ea-la e pedir-lhe uma informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Posso dar j\u00e1, respondeu Eul\u00e1lia. V\u00e1 embora, desembargador; eu levo Fernanda no meu carro.<\/p>\n<p>No carro, disse Fernanda:<\/p>\n<p>\u2014 Preciso de uma informa\u00e7\u00e3o importante. Sabes que estou um pouco apaixonada?<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade. Eu disse um pouco, mas devia dizer muito. O Dr. Maciel &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O Dr. Maciel? interrompeu vivamente Eul\u00e1lia.<\/p>\n<p>\u2014 Que pensas dele?<\/p>\n<p>A vi\u00fava Seixas levantou os ombros e riu com um ar de tamanha piedade, que a amiga corou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te parece bonito? perguntou Fernanda.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 feio.<\/p>\n<p>\u2014 O que mais me seduz nele \u00e9 o seu ar triste, um certo abatimento que me faz crer que padece. Sabes de alguma cousa a seu respeito?<\/p>\n<p>\u2014 Eu?<\/p>\n<p>\u2014 Ele d\u00e1-se muito contigo; tenho-o visto l\u00e1 em tua casa. Sabes se haver\u00e1 alguma paix\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! conta-me tudo!<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia n\u00e3o contou nada; disse que nada sabia.<\/p>\n<p>Concordou, entretanto, aue o jovem m\u00e9dico, talvez andasse namorado, porque realmente n\u00e3o parecia gozar boa sa\u00fade. O amor, disse ela, era uma esp\u00e9cie de pletora, o casamento uma sangria sacramental. Fernanda precisava. sangrar-se do mesmo modo que Maciel.<\/p>\n<p>\u2014 Sobretudo nada de rem\u00e9dios caseiros, concluiu ela; nada de olhares e suspiros, que s\u00e3o paliativos destinados menos a minorar que a entreter a doen\u00e7a. O melhor botic\u00e1rio \u00e9 o padre.<\/p>\n<p>Fernanda tirou a conversa deste terreno farmac\u00eautico e cir\u00fargico para subi-la \u00e0s regi\u00f5es do eterno azul. Sua voz era doce e comovida: o cora\u00e7\u00e3o pulsava-lhe com for\u00e7a; e Eui\u00e1lia, ao ouvir os m\u00e9ritos que a amiga achava em Maciel, n\u00e3o p\u00f4de reprimir esta observa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 nada como ver as cousas com amor. Quem suporia nunca o Maciel que me est\u00e1s pintando? Na minha opini\u00e3o n\u00e3o passa de um bom rapaz; e ainda assim&#8230; Mas um bom rapaz \u00e9 alguma cousa neste mundo?<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser eu me engane, Eul\u00e1lia, replicou a vi\u00fava do deputado, mas creio que h\u00e1 ali uma alma nobre, elevada e pura. Suponhamos que n\u00e3o. Que importa? O cora\u00e7\u00e3o empresta as qualidades que deseja.<\/p>\n<p>A vi\u00fava Seixas n\u00e3o teve tempo de examinar a teoria de Fernanda. O carro chegara \u00e0 Rua de Santo Amaro, onde esta morava. Despediram-se; Eul\u00e1lia seguiu para Botafogo.<\/p>\n<p>\u2014 Parece que ama deveras, pensou Eul\u00e1lia logo que ficou s\u00f3. Coitada! Um moleir\u00e3o!<\/p>\n<p>Eram nove horas da noite quando a vi\u00fava Seixas entrou em casa. Duas criadas \u2014 camareiras, \u2014 foram com ela para o toucador, onde a bela vi\u00fava se despiu; dali passou ao banho; enfiou depois um roup\u00e3o e dirigiu-se para o quarto de dormir. Levaram-lhe uma ta\u00e7a de chocolate, que ela saboreou lentamente, tranq\u00fcilamente, voluptuosamente; saboreou-a e saboreou-se tamb\u00e9m a si pr\u00f3pria, contemplando, da poltrona em que estava, a sua bela imagem no espelho fronteiro. Esgotada a ta\u00e7a, recebeu de uma criada o seu livro de ora\u00e7\u00f5es, e foi dali a um orat\u00f3rio, diante do qual com devo\u00e7\u00e3o se ajoelhou e rezou. Voltando ao quarto, despiu-se, meteu-se no leito, e pede-me que lhe cerre as cortinas; feito o que, murmurou alegremente:<\/p>\n<p>\u2014 Ora o Maciel!<\/p>\n<p>E dormiu.<\/p>\n<p>A noite foi muito menos tranq\u00fcila para o nosso apaixonado Maciel, que, logo depois das palavras proferidas \u00e0 portinhola do carro, ficara furioso contra si mesmo. Tinha raz\u00e3o em parte; a familiaridade do tratamento dado \u00e0 vi\u00fava precisava de mais detida explica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era, por\u00e9m, a raz\u00e3o que lhe fazia ver claro; nele exerciam maior a\u00e7\u00e3o os nervos que o c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Nem sempre &#8220;depois de uma noite procelosa, traz a manh\u00e3 serena claridade&#8221;. A do dia seguinte foi t\u00e9trica. Maciel gastou-a toda na loja do Bernardo, a fumar em ambos os sentidos, \u2014 o natural e o figurado, \u2014 a olhar sem ver as damas que passavam, estranho \u00e0 palavra dos amigos, aos boatos pol\u00edticos, \u00e0s anedotas de ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Fechei a porta para sempre! dizia ele com amargura.<\/p>\n<p>Pelas quatro horas da tarde, apareceu-lhe um al\u00edvio, debaixo da forma de um colega seu, que lhe prop\u00f4s ir clinicar em Carangola, donde recebera cartas muitos animadoras. Maciel aceitou com ambas as m\u00e3os o oferecimento. Carangola nunca entrara no itiner\u00e1rio de suas ambi\u00e7\u00f5es; \u00e9 at\u00e9 poss\u00edvel que naquele momento ele n\u00e3o pudesse dizer a situa\u00e7\u00e3o exata da localidade. Mas aceitou Carangola, como aceitaria a coroa de Inglaterra ou as p\u00e9rolas todas de Ceil\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 muito tempo, disse ele ao colega, que eu sentia necessidade de ir viver em Carangola. Carangola exerceu sempre em mim uma atra\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel. N\u00e3o podes imaginar como eu, j\u00e1 na Academia, me sentia arrastado para Carangola. Quando partimos?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei: dentro de tr\u00eas semanas, talvez.<\/p>\n<p>Maciel achou que era muito, e prop\u00f4s o prazo m\u00e1ximo de oito dias. N\u00e3o foi aceito; n\u00e3o teve rem\u00e9dio sen\u00e3o curvar-se \u00e0s tr\u00eas semanas prov\u00e1veis. Quando ficou s\u00f3, respirou.<\/p>\n<p>\u2014 Bem! disse ele, irei esquecer e ser esquecido.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado houve duas aleluais, uma na Cristandade, outra em casa de Maciel, aonde chegou uma cartinha perfumada da vi\u00fava Seixas contendo estas simples palavras: \u2014 &#8220;Creio que hoje n\u00e3o terei a enxaqueca do costume; espero que venha tomar uma x\u00edcara de ch\u00e1 comigo&#8221;. A leitura desta carta produziu na alma do jovem m\u00e9dico uma Gl\u00f3ria in excelsis Deo. Era o seu perd\u00e3o; era talvez mais do que isso. Maciel releu meia d\u00fazia de vezes aquelas poucas linhas; nem \u00e9 fora de prop\u00f3sito crer que chegou a beij\u00e1-las.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 de saber que na v\u00e9spera, sexta-feira, \u00e0s onze horas da manh\u00e3, recebera Eul\u00e1lia uma carta de Fernanda, e que \u00e0s duas horas foi a pr\u00f3pria Fernanda \u00e0 casa de Eul\u00e1lia. A carta e a pessoa tratavam do mesmo assunto com a expans\u00e3o natural em situa\u00e7\u00f5es daquelas. Tem-se visto muita vez guardar um segredo do cora\u00e7\u00e3o; mas \u00e9 rar\u00edssimo que, uma vez revelado, deixe de o ser at\u00e9 \u00e0 sociedade. Fernanda escreveu e disse tudo o que sentia; sua linguagem, apaixonada e viva, era uma torrente de afeto, t\u00e3o volumosa que chegou talvez a alagar, \u2014 a molhar pelo menos \u2014 o cora\u00e7\u00e3o de Eul\u00e1lia. Esta ouviu-a a princ\u00edpio com interesse, depois com indiferen\u00e7a, afinal com irrita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que queres tu que eu te fa\u00e7a? perguntou no fim de uma hora de confid\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, respondeu Fernanda. Uma s\u00f3 cousa: que me animes.<\/p>\n<p>\u2014 Ou te auxilie?<\/p>\n<p>Fernanda respondeu com um aperto de m\u00e3o t\u00e3o significativo, que a vi\u00fava Seixas compreendeu facialmente a impress\u00e3o que lhe causara. No s\u00e1bado enviou a carta acima transcrita. Maciel recebeu-a como vimos, e \u00e0 noite, \u00e0 hora habitual, estava \u00e0 porta de Eul\u00e1lia. A vi\u00fava n\u00e3o estava s\u00f3. Havia umas quatro senhoras e uns tr\u00eas cavalheiros, visitas habituais das quintas-feiras.<\/p>\n<p>Maciel entrou na sala um pouco acanhado e comovido. Que express\u00e3o leria no rosto de Eul\u00e1lia? N\u00e3o tardou sab\u00ea-lo; a vi\u00fava recebeu-o com o seu melhor sorriso, \u2014 o menos faceiro e intencional, o mais espont\u00e2neo e sincero, um sorriso que Maciel, se fosse poeta, compararia a um \u00edris de bonan\u00e7a, rimado com esperan\u00e7a ou bem-aventuran\u00e7a. A noite correu deliciosa; um pouco de m\u00fasica, muita conversa, muito esp\u00edrito, um ch\u00e1 familiar, alguns olhares animadores, e um aperto de m\u00e3o significativo no fim. Com estes elementos era dif\u00edcil n\u00e3o ter os melhores sonhos do mundo. Teve-os Maciel, e o domingo da Ressurrei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o foi para ele.<\/p>\n<p>Na seguinte semana viram-se tr\u00eas vezes. Eul\u00e1lia parecia mudada; a solicitude e a gra\u00e7a com que lhe falava estavam longe da tal ou qual frieza e indiferen\u00e7a dos \u00faltimos tempos. Este novo aspecto da mo\u00e7a produziu os seus naturais efeitos. Sentiu-se outro o jovem m\u00e9dico; reanimou-se, colheu confian\u00e7a, fez-se homem.<\/p>\n<p>A terceira vez que a viu nessa semana foi em uma soir\u00e9e. Acabaram de valsar e dirigiram-se para o terra\u00e7o da casa, donde se via um magn\u00edfico panorama, capaz de fazer poeta o mais soez esp\u00edrito do mundo. Ali foi declara\u00e7\u00e3o, inteira, cabal, expressiva do que sentia o namorado; ouviu-lha Eul\u00e1lia com os olhos embebidos nele, visivelmente encantada com a palavra de Maciel.<\/p>\n<p>\u2014 Poderei crer no que me diz? perguntou ela.<\/p>\n<p>A resposta do jovem m\u00e9dico foi apertar-lhe muito a m\u00e3o, e cravar nela uns olhos mais eloq\u00fcentes que duas catilin\u00e1rias. A situa\u00e7\u00e3o estava definida, a alian\u00e7a feita. Bem o percebeu Fernanda, quando os viu regressar \u00e0 sala. Seu rosto cobriu-se de um v\u00e9u de tristeza; dez minutos depois e o desembargador interrompia a partida de whist para acompanhar a sobrinha a Santo Amaro.<\/p>\n<p>A leitora espera decerto ver casados os dous namorados e espa\u00e7ada a viagem a Carangola at\u00e9 o fim do s\u00e9culo. Quinze dias depois da declara\u00e7\u00e3o iniciou Maciel os passos necess\u00e1rios ao cons\u00f3rcio. N\u00e3o t\u00eam n\u00famero os cora\u00e7\u00f5es que estalaram de inveja ao saber da prefer\u00eancia da vi\u00fava Seixas. Esta pela sua parte sentia-se mais orgulhosa do que se desposasse o primeiro dos her\u00f3is da terra.<\/p>\n<p>Donde veio este entusiasmo e que varinha m\u00e1gica operou tamanha mudan\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o de Eul\u00e1lia? Leitora curiosa, a resposta est\u00e1 no t\u00edtulo. Maciel pareceu insosso, enquanto lhe fatou o sainete de outra paix\u00e3o. A vi\u00fava descobriu-lhe os m\u00e9ritos com os olhos de Fernanda; e bastou v\u00ea-lo preferido para que ela o preferisse. Se me miras, me miram, era a divisa de um c\u00e9lebre rel\u00f3gio do sol. Maciel podia invert\u00ea-la: se me miram, me miras; e mostraria conhecer o cora\u00e7\u00e3o humano, \u2014 o feminino, pelo menos.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Um dos problemas que mais preocupavam a Rua do Ouvidor, entre as da Quitanda e Gon\u00e7alves Dias, das duas \u00e0s quatro horas da tarde, era a profunda e s\u00fabita melancolia do Dr. Maciel. 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