{"id":117577,"date":"2017-04-03T19:05:23","date_gmt":"2017-04-03T21:05:23","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117577"},"modified":"2017-04-03T19:05:23","modified_gmt":"2017-04-03T21:05:23","slug":"o-que-sao-as-mocas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-que-sao-as-mocas","title":{"rendered":"O que S\u00e3o as Mo\u00e7as"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de assis<\/h2>\n<p><b>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1866<\/b><\/p>\n<p><b>I<\/b><\/p>\n<p>Diz-se muita coisa feroz a respeito da amizade das mulheres. Ora, este conto tem por objeto a amizade de duas mulheres, t\u00e3o firme, t\u00e3o profunda, t\u00e3o verdadeira, que as fam\u00edlias respectivas, para melhor caracteriz\u00e1-la, davam \u00e0s duas a designa\u00e7\u00e3o de Orestes e P\u00edlades&#8230; de bal\u00e3o. J\u00e1 se usava bal\u00e3o no tempo deste conto; isto \u00e9, as mulheres que haviam sido belas desde Eva at\u00e9 dez anos atr\u00e1s sem o aux\u00edlio da crinolina, imaginaram que sem a crinolina j\u00e1 n\u00e3o podiam agradar.<\/p>\n<p>Se outras raz\u00f5es n\u00e3o houvessem para suprimir a crinolina bastava a simples compara\u00e7\u00e3o entre&#8230; Mas n\u00e3o, leitoras, deste modo interrompo o romance e deito j\u00e1 em vosso esp\u00edrito um germe de avers\u00e3o pelo singelo escritor.<\/p>\n<p>Tenho, pois, aqui a hist\u00f3ria de duas mulheres amigas e unidas como carne e unha. Raz\u00f5es de simpatia e de conviv\u00eancia longa trouxeram esta amizade, que fazia a felicidade das fam\u00edlias e a admira\u00e7\u00e3o de toda a gente. Uma chamava-se J\u00falia e a outra Teresa. Esta tinha cabelos louros e era clara; aquela tinha-os castanhos e era morena. Eram estas as diferen\u00e7as; no mais, igualmente belas e igualmente vestidas. Vestidas, sim, porque quando n\u00e3o estavam juntas, a primeira que acordava mandava perguntar \u00e0 outra que vestido pretendia trajar naquele dia, e era assim que ambas sempre andavam vestidas do mesmo modo.<\/p>\n<p>Imagine-se depois o resto. Nenhuma delas ia ao teatro, ao baile, ao passeio, sem a outra. \u00c0 mesa de algum jantar, fosse ou n\u00e3o de cerim\u00f4nia, o que esta comia, comia aquela, \u00e0s vezes sem consulta, por simples inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta conformidade, t\u00e3o ostensiva como era, n\u00e3o alterava o fundo da amizade, como acontece geralmente. Eram verdadeiramente amigas. Quando uma adoecia, a outra n\u00e3o adoecia, como devia ser, mas isto pela simples raz\u00e3o de que a doente n\u00e3o recebia um caldo que n\u00e3o fosse das m\u00e3os da outra. Talvez que esta simples circunst\u00e2ncia influ\u00edsse na cura.<\/p>\n<p>Ambas contavam a mesma idade, com diferen\u00e7a de dias. Tinham vinte anos.<\/p>\n<p>J\u00e1 estou a ouvir uma pergunta da parte das leitoras, pergunta que naturalmente dar\u00e1 mais interesse ao meu conto, pela simples raz\u00e3o de que n\u00e3o responderei a ela.<\/p>\n<p>A pergunta \u00e9 esta. Aquelas duas almas, t\u00e3o irm\u00e3s, t\u00e3o conformes, namoravam acaso o mesmo indiv\u00edduo? A pergunta \u00e9 natural e l\u00f3gica, adivinho mesmo os terrores a que pode dar lugar o desenvolvimento dela; mas nada disso me demove do prop\u00f3sito de deix\u00e1-la sem resposta.<\/p>\n<p>O mais que posso dizer \u00e9 que at\u00e9 o momento em que a nossa hist\u00f3ria come\u00e7a o cora\u00e7\u00e3o de ambas n\u00e3o havia ainda palpitado por amor, coisa rara nos vinte anos, idade em que a maioria das mulheres j\u00e1 conservam vinte ma\u00e7os de cartas, correspondentes a outros tantos namorados inconstantes ou infelizes. Quero ao menos dotar as minhas hero\u00ednas destas duas singularidades.<\/p>\n<p>Teresa \u00e9 filha de um propriet\u00e1rio; J\u00falia \u00e9 filha de um empregado p\u00fablico de ordem superior. Tinham as m\u00e3es vivas e eram filhas \u00fanicas: n\u00e3o importa saber mais nada.<\/p>\n<p>Teresa morava em Catumbi. J\u00falia nos Cajueiros. Calculem daqui a ma\u00e7ada que levava o moleque encarregado de ir dos Cajueiros ao Catumbi ou vice-versa para saber de que maneira se vestiam as duas amigas, que, como disse, at\u00e9 nisto queriam manter a mais perfeita conformidade!<\/p>\n<p>Estamos no m\u00eas de junho. Faz algum frio. J\u00falia, retirada para o seu gabinete de trabalho, ocupa-se em terminar um bordado que destina mandar a Teresa. Tem a porta e janela fechadas por causa do frio. Trabalha com atividade para acabar o bordado naquele mesmo dia. Mas algu\u00e9m vem interromp\u00ea-la: \u00e9 uma mulatinha de dez anos, cria de casa, que acaba de receber uma carta mandada por Teresa.<\/p>\n<p>J\u00falia abre a carta e l\u00ea o seguinte:<\/p>\n<p>Minha querida J\u00falia. \u2014 talvez esta noite l\u00e1 v\u00e1. Tenho coisas muito importantes a contar-te. Que romance, minha amiga! \u00c9 para duas horas, sen\u00e3o mais. Prepara-te. At\u00e9 logo! \u2014 Tua do cora\u00e7\u00e3o, Teresa.<\/p>\n<p>J\u00falia leu a carta, releu-a, e murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Que singularidade!<\/p>\n<p>Depois, escreveu as seguintes linhas em resposta a Teresa:<\/p>\n<p>Vem, minha querida. Se n\u00e3o viesses ia eu! H\u00e1 muito que n\u00e3o te vejo e quero ouvir-te e falar-te. Com que ouvidos te hei de ouvir, e com que palavras te hei de falar. Nem cinco horas. O melhor \u00e9 vires dormir c\u00e1. \u2014 Tua J\u00falia.<\/p>\n<p>O leitor compreende facilmente que as coisas muito importantes de que falava Teresa n\u00e3o seriam decerto nem a al\u00e7a de fundos, nem a mudan\u00e7a de minist\u00e9rio, nem mesmo a cria\u00e7\u00e3o de bancos. Aos vinte anos s\u00f3 h\u00e1 um banco: o cora\u00e7\u00e3o; s\u00f3 h\u00e1 um minist\u00e9rio: o amor. As firmezas e as infidelidades s\u00e3o a al\u00e7a e a baixa de fundos.<\/p>\n<p>Daqui concebe o leitor, que \u00e9 perspicaz, o seguinte: \u2014 o neg\u00f3cio importante de Teresa \u00e9 algum amor.<\/p>\n<p>E dizendo isto o leitor prepara-se para ver despontar no horizonte daquele cora\u00e7\u00e3o virgem a primeira alva de um sentimento puro e ardente. N\u00e3o serei eu que lhe impe\u00e7a o prazer, mas s\u00f3 lho consentirei nos posteriores cap\u00edtulos; neste n\u00e3o. Dir-lhe-ei somente, para melhor orient\u00e1-lo, que a visita prometida por Teresa n\u00e3o teve lugar por causa de visitas inesperadas que foram \u00e0 casa dela. A mo\u00e7a arrepelou-se, mas n\u00e3o era poss\u00edvel vencer aquele obst\u00e1culo. Vingou-se por\u00e9m; n\u00e3o deu palavra durante a noite e deitou-se mais cedo que de costume.<\/p>\n<p><b>II<\/b><b><br \/>\n<\/b><br \/>\nDois dias depois Teresa recebia de J\u00falia a seguinte carta:<\/p>\n<p>Minha querida Teresa. \u2014 Quiseste contar-me n\u00e3o sei que acontecimento; dizes-me que preparas uma carta para isso. Enquanto espero a tua carta, escrevo-te eu uma para dar-te parte de um acontecimento meu.<\/p>\n<p>At\u00e9 nisto parecemos irm\u00e3s.<\/p>\n<p>Ah! se mor\u00e1ssemos juntas seria a suprema felicidade; n\u00f3s que juntas vivemos t\u00e3o iguais.<\/p>\n<p>Sabes que at\u00e9 hoje estou como a livre borboleta dos campos; ningu\u00e9m tem feito bater o meu cora\u00e7\u00e3o. Pois bem, chegou a minha vez.<\/p>\n<p>A\u00ed vais rir, minha cruelzinha, destas confid\u00eancias; tu que n\u00e3o amas, vais zombar de mim que me alistei nas bandeiras do amor.<\/p>\n<p>Amo, sim, e n\u00e3o poderia deixar de faz\u00ea-lo, t\u00e3o bela, t\u00e3o interessante \u00e9 a pessoa em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem \u00e9? perguntar\u00e1s tu. Ser\u00e1 o Oliveira? O Tavares? O Lu\u00eds Bento? Nenhum desses, descansa. Nem lhe sei o nome. N\u00e3o \u00e9 conhecido nosso. Vi-o apenas duas vezes, a primeira h\u00e1 oito dias, a segunda ontem. Verdadeiramente o amor descobriu-se ontem. Que belo rapaz. Se o visses ficavas a morrer por ele. Quisera fazer-te a pintura, mas n\u00e3o sei. \u00c9 um belo rapaz, de olhos pretos, moreno, cabelos abundantes e da cor dos olhos; um par de bigodes grossos e pretos.<\/p>\n<p>Tem passado aqui por nossa rua, \u00e0s tardes, entre as cinco e seis horas. Passa sempre a cavalo. Olha, Teresa, at\u00e9 o cavalo me parece ador\u00e1vel; cuido \u00e0s vezes que est\u00e1 ensinado, porque ao passar em frente \u00e0s nossas janelas, come\u00e7a a saltar, como que me cumprimenta e agradece a simpatia que o dono me inspira.<\/p>\n<p>Que tolices estou eu dizendo! Mas desculpa, minha Teresa, isto \u00e9 amor. No amor sente-se muita coisa que n\u00e3o se sente de ordin\u00e1rio. Agora sei.<\/p>\n<p>Vais perguntar-me se ele gosta de mim, se repara em mim? Repara posso afirmar-te; mas se gosta n\u00e3o sei. Por\u00e9m \u00e9 acaso poss\u00edvel que se repa re muito em algu\u00e9m sem gostar? A mim parece que n\u00e3o. Talvez seja ilus\u00e3o do meu cora\u00e7\u00e3o e dos meus desejos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabes como isto me tem posto a cabe\u00e7a tonta. Ontem mam\u00e3e reparou e me perguntou que tinha eu; respondi que nada, mas de modo tal que ela sacudiu a cabe\u00e7a e disse baixinho: Ah! amores, talvez!<\/p>\n<p>Estive para abra\u00e7\u00e1-la, mas recuei e entrei para o quarto. Tenho medo que se saiba disto; entretanto, n\u00e3o creio que seja crime gostar de um mo\u00e7o bonito e bem educado, como ele parece ser. Que dizes tu?<\/p>\n<p>Preciso dos teus conselhos. Tu \u00e9s franca e \u00e9s minha amiga verdadeira. Tuas palavras me servir\u00e3o de muito. Se eu n\u00e3o tivesse uma amiga como tu, abafava com semelhante coisa.<\/p>\n<p>Escreve-me, quero palavras tuas. Se quiseres o portador esperar\u00e1; em todo o caso desejo que me respondas hoje.<\/p>\n<p>Adeus, Teresa; at\u00e9 amanh\u00e3, porque eu e mam\u00e3e l\u00e1 vamos. Escreve-me e s\u00ea sempre amiga da tua amiga, J\u00falia.<\/p>\n<p><b>III<\/b><\/p>\n<p>Teresa a J\u00falia:<\/p>\n<p>Minha J\u00falia. \u2014 Apaixonada! Que me dizes tu? Pois \u00e9 poss\u00edvel que achasses afinal o noivo do teu cora\u00e7\u00e3o? E assim, sem mais nem menos, como uma chuva de ver\u00e3o, caindo no meio de um dia claro e bonito?<\/p>\n<p>Dou-te do fundo d\u2019Anch\u2019 Anch\u2019alma t\u00e3o funesto resultado.<\/p>\n<p>O que te digo, pois, \u00e9 que o ames s\u00f3 e procures ganhar exclusivamente toda a afei\u00e7\u00e3o de Daniel. Ele pode fazer-te feliz, e pela minha parte vou pedir a Deus que coroe os teus votos.<\/p>\n<p>N\u00e3o te importes comigo; sou mais forte do que tu; posso lutar e vencer. Por que n\u00e3o? Quando me faltasse coragem, bastaria a id\u00e9ia de que cumpria um dever de irm\u00e3 para ganhar for\u00e7as. N\u00e3o ser\u00e1 uma luta est\u00e9ril, a luta do meu cora\u00e7\u00e3o contra o amor. Mas ven\u00e7a o dever, e tanto basta para fazer-me contente.<\/p>\n<p>Ama-o e s\u00ea feliz. Do cora\u00e7\u00e3o to deseja a tua, \u2014 J\u00falia.<\/p>\n<p><b>X<\/b><\/p>\n<p>Estas duas cartas, chegando ao mesmo tempo e dizendo a mesma coisa, produziram id\u00eanticos efeitos.<\/p>\n<p>Ambas viram que de parte a parte havia um sacrif\u00edcio de amizade. Mas ambas persistiram no que haviam entendido, sem querer aproveitar o sacrif\u00edcio da outra.<\/p>\n<p>Novas cartas e novas recusas da parte de ambas.<\/p>\n<p>E, para realizar o sacrif\u00edcio oferecido, ambas deram de t\u00e1bua ao gamenho Daniel.<\/p>\n<p>A primeira vez que se encontraram ca\u00edram nos bra\u00e7os uma da outra, quase lavadas em l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigada, minha amiga! O teu sacrif\u00edcio \u00e9 grande, mas em v\u00e3o; n\u00e3o posso aceit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Nem eu o teu.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Aceita.<\/p>\n<p>\u2014 Aceita tu.<\/p>\n<p>E deste modo cada uma delas tratava de ver quem seria a mais generosa que a outra.<\/p>\n<p>Respondendo desta maneira, atirado de uma para outra, recusado por sentimento de magnanimidade, Daniel foi quem perdeu no tal joguinho. De onde se prova o prov\u00e9rbio que \u00e9 sempre mau correr a duas lebres.<\/p>\n<p>Mas falta \u00e0 nossa hist\u00f3ria o ep\u00edlogo e moralidade.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Quinze dias depois das cenas que se acabam de narrar, Teresa escreveu a J\u00falia as seguintes linhas:<\/p>\n<p>Minha J\u00falia. \u2014 Sei que \u00e9s minha amiga e partilhar\u00e1s a minha felicidade. Vou ser feliz.<\/p>\n<p>A felicidade para n\u00f3s outras reduz-se a muito pouco: encher o nosso cora\u00e7\u00e3o e satisfazer a nossa fantasia.<\/p>\n<p>Vou casar. Acabo de ser pedida. O meu noivo possui o meu cora\u00e7\u00e3o, e posso diz\u00ea-lo, sem vaidade para mim, eu possuo o dele.<\/p>\n<p>Perguntar\u00e1s quem ele \u00e9. \u00c9 natural. N\u00e3o te lembras do Alfredo Soares? Pois \u00e9 ele. Vi-o tantas vezes a frio; n\u00e3o sei por que comecei a am\u00e1-lo. Hoje se ele n\u00e3o me pedisse, creio que eu morreria. O amor \u00e9 isto, J\u00falia: \u00e9 problema que s\u00f3 a morte ou o casamento resolve.<\/p>\n<p>Adeus, aben\u00e7oa o futuro de tua amiga, \u2014 Teresa.<\/p>\n<p>J\u00falia leu esta carta e respondeu as seguintes linhas:<\/p>\n<p>Minha Teresa. \u2014 Estimo do fundo d\u2019alma a tua felicidade e fa\u00e7o votos para que sejas completamente feliz. O teu noivo merece-te; \u00e9 um belo mancebo, bem educado e de boa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o quero que te entriste\u00e7as. O c\u00e9u nos fez amigas e irm\u00e3s, n\u00e3o podia dar-nos a felicidade por meio. Tamb\u00e9m me deparou alguma coisa; e, se n\u00e3o estou pedida, vou s\u00ea-lo esta tarde.O teu noivo merece-te; \u00e9 um belo mancebo, bem educado e de boa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o quero que te entriste\u00e7as. O c\u00e9u nos fez amigas e irm\u00e3s, n\u00e3o podia dar-nos a felicidade por meio. Tamb\u00e9m me deparou alguma coisa; e, se n\u00e3o estou pedida, vou s\u00ea-lo esta tarde.<\/p>\n<p>N\u00e3o conheces o meu noivo; chama-se Carlos da Silveira, tem 25 anos, e \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o de pomba. Ama-me como eu amo a ele.<\/p>\n<p>Meu pai n\u00e3o se poder\u00e1 opor a este casamento. O que resta \u00e9 que ele seja feito no mesmo dia, para que, fazendo em igual hora a nossa ventura, ratifiquemos a sorte propicia e id\u00eantica que o c\u00e9u nos deparou.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7amos a Deus tanta felicidade. At\u00e9 amanh\u00e3 \u00e0 noite. Tua, \u2014 J\u00falia.<\/p>\n<p><b>XI<br \/>\n<\/b><br \/>\nNo dia seguinte reuniram-se todos, n\u00e3o em casa de Teresa, mas em casa de J\u00falia, nos Cajueiros. Estavam as duas e os dois noivos. Gabriel acompanhara a fam\u00edlia \u00e0 visita.<\/p>\n<p>As duas mo\u00e7as comunicaram os seus projetos de felicidade. Nenhuma delas censurou \u00e0 outra o sil\u00eancio que guardara at\u00e9 a hora do pedido em casamento, porque ambas tinham praticado a mesma coisa.<\/p>\n<p>Ora, Gabriel, que soubera por sua irm\u00e3 Teresa da recusa de ambas relativamente a Daniel, aproveitou uma ocasi\u00e3o que as acompanhou \u00e0 janela e disse-lhes:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 nada como a amizade. Admiro cada vez mais o ato de generosidade que ambas praticaram a respeito de Daniel.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! sabe! disse J\u00falia.<\/p>\n<p>\u2014 Sei.<\/p>\n<p>\u2014 Fui eu quem lho disse, acrescentou Teresa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, continuou Gabriel, s\u00e3o t\u00e3o felizes que o c\u00e9u lhes deparou logo um cora\u00e7\u00e3o para responder aos seus.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, disseram as duas.<\/p>\n<p>Gabriel olhou para ambas, e depois, \u00e0 meia voz, com inten\u00e7\u00e3o disse:<\/p>\n<p>\u2014 Com a singularidade de que a carta de desist\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o do primeiro foi escrita depois do primeiro olhar amoroso do segundo.<\/p>\n<p>As duas mo\u00e7as coraram e esconderam o rosto.<\/p>\n<p>Tinham de ficar vexadas.<\/p>\n<p>Ca\u00eda assim o v\u00e9u que encobria o sacrif\u00edcio e via-se que ambas haviam praticado o sacrif\u00edcio no interesse pessoal; ou por outra: largavam um p\u00e1ssaro tendo outro em m\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas as duas mo\u00e7as casaram-se e ficaram t\u00e3o amigas como antes. N\u00e3o sei se no correr dos tempos houve sacrif\u00edcios semelhantes.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1866 I Diz-se muita coisa feroz a respeito da amizade das mulheres. Ora, este conto tem por objeto a amizade de duas mulheres, t\u00e3o firme, t\u00e3o profunda, t\u00e3o verdadeira, que as fam\u00edlias respectivas, para melhor caracteriz\u00e1-la, davam \u00e0s duas a designa\u00e7\u00e3o de Orestes e P\u00edlades&#8230; de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-117577","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Que S\u00e3o As Mo\u00e7as, Machado de Assis O Que S\u00e3o As Mo\u00e7as<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Que S\u00e3o As Mo\u00e7as, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Que S\u00e3o As Mo\u00e7as\" 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