{"id":117575,"date":"2017-04-03T19:03:06","date_gmt":"2017-04-03T21:03:06","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117575"},"modified":"2017-04-03T19:03:06","modified_gmt":"2017-04-03T21:03:06","slug":"o-programa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-programa","title":{"rendered":"O Programa"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO \/ LI\u00c7\u00c3O DE MESTRE-ESCOLA<\/b><\/p>\n<p>\u2014 RAPAZES, tamb\u00e9m eu fui rapaz, disse o mestre, o Pitada, um velho mestre de meninos da Gamboa, no ano de 1850; fui rapaz, mas rapaz de muito ju\u00edzo, muito ju\u00edzo&#8230; Entenderam?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o entrei no mundo como um desmiolado, dando por paus e por pedras, mas com um programa na m\u00e3o&#8230; Sabem o que \u00e9 um programa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Programa \u00e9 o rol das cousas que se h\u00e3o de fazer em certa ocasi\u00e3o; por exemplo, nos espet\u00e1culos, \u00e9 a lista do drama, do entremez, do bailado, se h\u00e1 bailado, um passo a dous, ou cousa assim&#8230; \u00c9 isso que se chama programa. Pois eu entrei no mundo com um programa na m\u00e3o; n\u00e3o entrei assim \u00e0 toa, como um preto fugido, ou pedreiro sem obra, que n\u00e3o sabe aonde vai. Meu prop\u00f3sito era ser mestre de meninos, ensinar alguma coisa pouca do que soubesse, dar a primeira forma ao esp\u00edrito do cidad\u00e3o&#8230; Dar a primeira forma (entenderam?), dar a primeira forma ao esp\u00edrito do cidad\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Calou-se o mestre alguns minutos, repetindo consigo essa \u00faltima frase, que lhe pareceu engenhosa e galante. Os meninos que o escutavam (eram cinco e dos mais velhos, dez e onze anos), n\u00e3o ousavam mexer com o corpo nem ainda com os olhos; esperavam o resto. O mestre, enquanto virava e revirava a frase, respirando com estr\u00e9pito, ia dando ao peito da camisa umas ondula\u00e7\u00f5es que, em falta de outra distra\u00e7\u00e3o, recreavam interiormente os disc\u00edpulos. Um destes, o mais travesso, chegou ao desvario de imitar a respira\u00e7\u00e3o grossa do mestre, com grande susto dos outros, pois uma das m\u00e1ximas da escola era que, no caso de se n\u00e3o descobrir o autor de um delito, fossem todos castigados; com este sistema, dizia o mestre, anima-se a dela\u00e7\u00e3o, que deve ser sempre uma das mais s\u00f3lidas bases do Estado bem constitu\u00eddo. Felizmente, ele nada viu, nem o gesto do temer\u00e1rio, um pirralho de dez anos, que n\u00e3o entendia nada do que ele estava dizendo, nem o belisc\u00e3o de outro pequeno, o mais velho da roda, um certo Romualdo, que contava onze anos e tr\u00eas dias; o belisc\u00e3o, note-se, era uma advert\u00eancia para cham\u00e1-lo \u00e0 circunspec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, que fiz eu para vir a esta profiss\u00e3o? continuou o Pitada. Fiz isto: desde os meus quinze ou dezesseis anos, organizei o programa da vida: estudos, rela\u00e7\u00f5es, viagens, casamento, escola; todas as fases da minha vida foram assim previstas, descritas e formuladas com anteced\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>Daqui em diante, o mestre continuou a exprimir-se em tal estilo, que os meninos deixaram de entend\u00ea-lo. Ocupado em escutar-se, n\u00e3o deu pelo ar est\u00fapido dos disc\u00edpulos, e s\u00f3 parou quando o rel\u00f3gio bateu meio-dia. Era tempo de mandar embora esse resto da escola, que tinha de jantar para voltar \u00e0s duas horas. Os meninos sa\u00edram pulando, alegres, esquecidos at\u00e9 da fome que os devorava, pela id\u00e9ia de ficar livres de um discurso que podia ir muito mais longe. Com efeito, o mestre fazia isso algumas vezes; retinha os disc\u00edpulos mais velhos para ingerir-lhes uma reflex\u00e3o moral ou uma narrativa ligeira e s\u00e3. Em certas ocasi\u00f5es s\u00f3 dava por si muito depois da hora do jantar. Desta vez n\u00e3o a excedera, e ainda bem.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO II \/ DE COMO ROMUALDO ENGENDROU UM PROGRAMA<\/b><\/p>\n<p>A ID\u00c9IA do programa fixou-se no esp\u00edrito do Romualdo. Tr\u00eas ou quatro anos depois, repetia ele as pr\u00f3prias palavras do mestre; aos dezessete, ajuntava-lhes alguns reparos e observa\u00e7\u00f5es. Tinha para si que era a melhor li\u00e7\u00e3o que se podia dar aos rapazes, muito mais \u00fatil do que o latim que lhe ensinavam ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma circunst\u00e2ncia local incitou o jovem Romualdo a formular tamb\u00e9m o seu programa, resoluto a cumpri-lo: refiro-me \u00e0 resid\u00eancia de um ministro, na mesma rua. A vista do ministro, das ordenan\u00e7as, do coup\u00e9, da farda, acordou no Romualdo uma ambi\u00e7\u00e3o. Por que n\u00e3o seria ele ministro? Outra circunst\u00e2ncia. Morava defronte uma fam\u00edlia abastada, em cuja casa eram freq\u00fcentes os bailes e recep\u00e7\u00f5es. De cada vez que o Romualdo assistia, de fora, a uma dessas festas solenes, \u00e0 chegada dos carros, \u00e0 descida das damas, ricamente vestidas, com brilhantes no colo e nas orelhas, algumas no toucado, dando o bra\u00e7o a homens encasacados e aprumados, subindo depois a escadaria, onde o tapete amortecia o rumor dos p\u00e9s, at\u00e9 irem para as salas alumiadas, com os seus grandes lustres de cristal, que ele via de fora, como via os espelhos, os pares que iam de um a outro lado, etc.; de cada vez que um tal espet\u00e1culo lhe namorava os olhos, Romualdo sentia em si a massa de um anfitri\u00e3o, como esse que dava o baile, ou do marido de algumas daquelas damas titulares. Por que n\u00e3o seria uma coisa ou outra?<\/p>\n<p>As novelas n\u00e3o serviam menos a incutir no \u00e2nimo do Romualdo t\u00e3o excelsas esperan\u00e7as. Ele aprendia nelas a ret\u00f3rica do amor, a alma sublime das coisas, desde o beijo materno at\u00e9 o \u00faltimo graveto do mato, que eram para ele, irm\u00e3mente, a mesma produ\u00e7\u00e3o divina da natureza. Al\u00e9m das novelas, havia os olhos das rapariguinhas da mesma idade, que eram todos bonitos, e, coisa singular, da mesma cor, como se fossem um convite para o mesmo banquete, escrito com a mesma tinta. Outra coisa que tamb\u00e9m influiu muito na ambi\u00e7\u00e3o do Romualdo foi o sol, que ele imaginava ter sido criado unicamente com o fim de o alumiar, n\u00e3o alumiando aos outros homens, sen\u00e3o porque era imposs\u00edvel deixar de faz\u00ea-lo, como acontece a uma banda musical que, tocando por obs\u00e9quio a uma porta, \u00e9 ouvida em todo o quarteir\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos, pois, que os esplendores sociais, as imagina\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, e, finalmente, a pr\u00f3pria natureza, persuadiram ao jovem Romualdo a cumprir a li\u00e7\u00e3o do mestre. Um programa! Como \u00e9 poss\u00edvel atravessar a vida, uma longa vida, sem programa? Viaja-se mal sem itiner\u00e1rio; o imprevisto tem coisas boas que n\u00e3o compensam as m\u00e1s; o itiner\u00e1rio, reduzindo as vantagens do casual e do desconhecido, diminui os seus inconvenientes, que s\u00e3o em maior n\u00famero e insuport\u00e1veis. Era o que sentia Romualdo aos dezoito anos, n\u00e3o por essa forma precisa, mas outra, que n\u00e3o se traduz bem sen\u00e3o assim. Os antigos, que ele come\u00e7ava a ver atrav\u00e9s das lunetas de Plutarco, pareciam-lhe n\u00e3o ter come\u00e7ado a vida sem programa. Outra indu\u00e7\u00e3o que tirava de Plutarco \u00e9 que todos os homens de outrora foram nada menos do que aqueles mesmos her\u00f3is biografados. Obscuros, se os houve, n\u00e3o passaram de uma rid\u00edcula minoria.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 um programa, disse ele; obede\u00e7amos ao conselho do mestre.<\/p>\n<p>E formulou um programa. Estava ent\u00e3o entre dezoito e dezenove anos. Era um guapo rapaz, ardente, resoluto, filho de pais modest\u00edssimos, mas cheio de alma e ambi\u00e7\u00e3o. O programa foi escrito no cora\u00e7\u00e3o, o melhor papel, e com a vontade, a melhor das penas; era uma p\u00e1gina arrancada ao livro do destino. O destino \u00e9 obra do homem. Napole\u00e3o fez com a espada uma coroa, dez coroas. Ele, Romualdo, n\u00e3o s\u00f3 seria esposo de alguma daquelas formosas damas, que vira subir para os bailes, mas possuiria tamb\u00e9m o carro que costumava traz\u00ea-las. Literatura, ci\u00eancia, pol\u00edtica, nenhum desses ramos deixou de ter uma linha especial. Romualdo sentia-se bastante apto para uma multid\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es e aplica\u00e7\u00f5es, e achava-se mesquinho concentrar-se numa coisa particular. Era muito governar os homens ou escrever Hamlet; mas por que n\u00e3o reuniria a alma dele ambas as gl\u00f3rias, por que n\u00e3o seria um Pitt e um Shakespeare, obedecido e admirado? Romualdo ideava por outras palavras a mesma coisa. Com o olhar fito no ar, e uma certa ruga na testa, antevia todas essas vit\u00f3rias, desde a primeira d\u00e9cima po\u00e9tica at\u00e9 o carro do ministro de Estado. Era belo, forte, mo\u00e7o, resoluto, apto, ambicioso, e vinha dizer ao mundo, com a energia moral dos que s\u00e3o fortes: lugar para mim! lugar para mim, e dos melhores!<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO III \/ AGORA TU, CAL\u00cdOPE, ME ENSINA&#8230;<\/b><\/p>\n<p>N\u00c3O SE PODE saber com certeza \u2014 com a certeza necess\u00e1ria a uma afirma\u00e7\u00e3o que tem de correr mundo \u2014 se a primeira estrofe do Romualdo foi anterior ao primeiro amor, ou se este precedeu a poesia. Suponhamos que foram contempor\u00e2neos. N\u00e3o \u00e9 inveross\u00edmil, porque se a primeira paix\u00e3o foi uma pessoa vulgar e sem gra\u00e7a, a primeira composi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica era um lugar-comum.<\/p>\n<p>Em 1858, data da estr\u00e9ia liter\u00e1ria, existia ainda uma folha, que veio a morrer antes de 1870, o Correio Mercantil. Foi por a\u00ed que o nosso Romualdo declarou ao mundo que o s\u00e9culo era enorme, que as barreiras todas estavam por terra, que, enfim, era preciso dar ao homem a coroa imortal que lhe competia. Eram trinta ou quarenta versos, feitos com \u00edmpeto, broslados de adjetivos e impreca\u00e7\u00f5es, muitos s\u00f3is, basto condor, in\u00fameras coisas robustas e espl\u00eandidas. Romualdo dormiu mal a noite; apesar disso, acordou cedo, vestiu-se, saiu; foi comprar o Correio Mercantil. Leu a poesia \u00e0 porta mesmo da tipografia, \u00e0 Rua da Quitanda; depois dobrou cautelosamente o jornal, e foi tomar caf\u00e9. No trajeto da tipografia ao botequim n\u00e3o fez mais do que recitar mentalmente os versos; s\u00f3 assim se explicam dous ou tr\u00eas encontr\u00f5es que deu em outras pessoas.<\/p>\n<p>Em todo caso, no botequim, uma vez sentado, desdobrou a folha e releu os versos, lentamente, umas quatro vezes seguidas; com uma que leu depois de pagar a x\u00edcara de caf\u00e9, e a que j\u00e1 lera \u00e0 porta da tipografia, foram nada menos de seis leituras, no curto espa\u00e7o de meia hora; fato tanto mais de espantar quanto que ele tinha a poesia de cor. Mas o espanto desaparece desde que se adverte na diferen\u00e7a que vai do manuscrito ou decorado ao impresso. Romualdo lera, \u00e9 certo, a poesia manuscrita; e, \u00e0 for\u00e7a de a ler, tinha-a \u201cimpressa na alma\u201d, para falar a linguagem dele mesmo. Mas o manuscrito \u00e9 vago, derramado; e o decorado assemelha-se a hist\u00f3rias velhas, sem data, nem autor, ouvidas em crian\u00e7a; n\u00e3o h\u00e1 por onde se lhe pegue, nem mesmo a t\u00fanica flutuante e cambiante do manuscrito. Tudo muda com o impresso. O impresso fixa. Aos olhos de Romualdo era como um edif\u00edcio levantado para desafiar os tempos; a igualdade das letras, a reprodu\u00e7\u00e3o dos mesmos contornos, davam aos versos um aspecto definitivo e acabado. Ele mesmo descobriu-lhes belezas n\u00e3o premeditadas; em compensa\u00e7\u00e3o, deu com uma v\u00edrgula mal posta, que o desconsolou.<\/p>\n<p>No fim daquele ano tinha o Romualdo escrito e publicado algumas vinte composi\u00e7\u00f5es diversas sobre os mais variados assuntos. Congregou alguns amigos \u2014 da mesma idade \u2014, persuadiu a um tip\u00f3grafo, distribuiu listas de assinaturas, recolheu algumas, e fundou um peri\u00f3dico liter\u00e1rio, o Mosaico, em que fez as suas primeiras armas da prosa. A id\u00e9ia secreta do Romualdo era criar alguma coisa semelhante \u00e0 Revista dos Dous Mundos, que ele via em casa do advogado, de quem era amanuense. N\u00e3o lia nunca a Revista, mas ouvira dizer que era uma das mais importantes da Europa, e entendeu fazer coisa igual na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Posto que esse brilhante sonho fenecesse com o m\u00eas de maio de 1859, n\u00e3o acabaram com ele as labuta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias O mesmo ano de 1859 viu o primeiro tomo das Verdades e Quimeras. Digo o primeiro tomo, porque tais eram a indica\u00e7\u00e3o tipogr\u00e1fica, e o plano do Romualdo. Que \u00e9 a poesia, dizia ele, sen\u00e3o uma mistura de quimera e verdade? O Goethe chamando \u00e0s suas mem\u00f3rias Verdade e Poesia, cometeu um pleonasmo rid\u00edculo: o segundo voc\u00e1bulo bastava a exprimir os dous sentidos do autor. Portanto, quaisquer que tivessem de ser as fases do seu esp\u00edrito, era certo que a poesia traria em todos os tempos os mesmos caracteres essenciais: logo podia intitular Verdades e quimeras as futuras obras po\u00e9ticas. Da\u00ed a indica\u00e7\u00e3o de primeiro tomo dada ao volume de versos com que o Romualdo brindou as letras no m\u00eas de dezembro de 1859. Esse m\u00eas foi para ele ainda mais brilhante e delicioso que o da estr\u00e9ia no Correio Mercantil. \u2014 Sou autor impresso, dizia rindo, quando recebeu os primeiros exemplares da obra. E abria um e outro, folheava de diante para tr\u00e1s e de tr\u00e1s para diante, corria os olhos pelo \u00edndice, lia tr\u00eas, quatro vezes o pr\u00f3logo, etc. Verdades e Quimeras! Via esse t\u00edtulo nos peri\u00f3dicos, nos cat\u00e1logos, nas cita\u00e7\u00f5es, nos floril\u00e9gios de poesia nacional; enfim, cl\u00e1ssico. Via citados tamb\u00e9m os outros tomos, com a designa\u00e7\u00e3o num\u00e9rica de cada um, em caracteres romanos, t. II, t. III, t. IV, t. IX. Que podiam escrever um dia as folhas p\u00fablicas sen\u00e3o um estribilho? \u201cCada ano que passa pode-se dizer que este distinto e infatig\u00e1vel poeta nos d\u00e1 um volume das suas admir\u00e1veis Verdades e Quimeras; foi em 1859 que encetou essa cole\u00e7\u00e3o, e o efeito n\u00e3o podia ser mais lisonjeiro para um estreante, que etc., etc.\u201d<\/p>\n<p>Lisonjeiro, na verdade. Toda a imprensa saudou com benevol\u00eancia o primeiro livro de Romualdo; dous amigos disseram mesmo que ele era o Gonzaga do Romantismo. Em suma, um sucesso.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO IV \/ QUINZE ANOS, BONITA E RICA<\/b><\/p>\n<p>A \u201cPESSOA vulgar e sem gra\u00e7a\u201d que foi o primeiro amor de Romualdo passou naturalmente como a chama de um f\u00f3sforo. O segundo amor veio no tempo em que ele se preparava para ir estudar em S. Paulo, e n\u00e3o p\u00f4de ir adiante.<\/p>\n<p>Tinha preparat\u00f3rios o Romualdo; e, havendo adquirido com o advogado certo gosto ao of\u00edcio, entendeu que sempre era tempo de ganhar um diploma. Foi para S. Paulo, entregou-se aos estudos com afinco, dizendo consigo e a ningu\u00e9m mais, que ele seria citado algum dia entre os Nabucos, os Zacarias, os Teixeiras de Freitas, etc. Jurisconsulto! E soletrava esta palavra com amor, com paci\u00eancia, com del\u00edcia, achando-lhe a express\u00e3o profunda e larga. Jurisconsulto! Os Zacarias, os Nabucos, os Romualdos! E estudava, metia-se pelo direito dentro, impetuoso.<\/p>\n<p>N\u00e3o esque\u00e7amos duas coisas: que ele era rapaz, e tinha a voca\u00e7\u00e3o das letras. Rapaz, amou algumas mo\u00e7as, p\u00e1ginas acad\u00eamicas, machucadas de m\u00e3os estudiosas. Durante os dous primeiros anos nada h\u00e1 que apurar que mere\u00e7a a pena e a honra de uma transcri\u00e7\u00e3o. No terceiro ano&#8230; O terceiro ano oferece-nos uma lauda primorosa. Era uma mo\u00e7a de quinze anos, filha de um fazendeiro de Guaratinguet\u00e1, que tinha ido \u00e0 capital da prov\u00edncia. Romualdo, de escassa bolsa, trabalhando muito para ganhar o diploma, compreendeu que o casamento era uma solu\u00e7\u00e3o. O fazendeiro era rico. A mo\u00e7a gostava dele: era o primeiro amor dos seus quinze anos.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 de ser minha!\u201d jurou Romualdo a si mesmo.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es entre eles vieram por um sobrinho do fazendeiro, Josino M&#8230;, colega de ano do Romualdo, e, como ele, cultor das letras. O fazendeiro retirou-se para Guaratinguet\u00e1; era obsequiador, exigiu do Romualdo a promessa de que, nas f\u00e9rias, iria v\u00ea-lo. O estudante prometeu que sim; e nunca o tempo lhe correu mais devagar. N\u00e3o eram dias, eram s\u00e9culos. O que lhe valia \u00e9 que, ao menos, davam para construir e reconstruir os seus admir\u00e1veis planos de vida. A escolha entre o casar imediatamente ou depois de formado n\u00e3o foi coisa que se fizesse do p\u00e9 para a m\u00e3o: comeu-lhe algumas boas semanas. Afinal, assentou que era melhor o casamento imediato. Outra quest\u00e3o que lhe tomou tempo, foi a de saber se concluiria os estudos no Brasil ou na Europa. O patriotismo venceu; ficaria no Brasil. Mas, uma vez formado, seguiria para Europa, onde estaria dous anos, observando de perto as coisas pol\u00edticas e sociais, adquirindo a experi\u00eancia necess\u00e1ria a quem viria ser ministro de Estado. Eis o que por esse tempo escreveu a um amigo do Rio de Janeiro:<\/p>\n<p>&#8230;Prepara-te, pois, meu bom Fernandes, para irmos daqui a algum tempo viajar; n\u00e3o te dispenso, nem aceito desculpa. N\u00e3o nos faltar\u00e3o meios, gra\u00e7as a Deus, e meios de viajar \u00e0 larga&#8230; Que felicidade! Eu, Lucinda, o bom Fernandes&#8230;<\/p>\n<p>Bentas f\u00e9rias! Ei-las que chegam; ei-las que tomam do Romualdo e do Josino, e os levam \u00e0 fazenda2 da namorada. Agora n\u00e3o os solto mais, disse o fazendeiro.<\/p>\n<p>Lucinda apareceu aos olhos do nosso her\u00f3i com todos os esplendores de uma madrugada. Foi assim que ele definiu esse momento, em uns versos publicados da\u00ed a dias no Eco de Guaratinguet\u00e1. Ela era bela, na verdade, viva e graciosa, rosada e fresca, todas as qualidades am\u00e1veis de uma menina. A compara\u00e7\u00e3o da madrugada, por mais cedi\u00e7a que fosse, era a melhor de todas.<\/p>\n<p>Se as f\u00e9rias gastaram tempo em chegar, uma vez chegadas, voaram depressa. Tinham asas os dias, asas de pluma ang\u00e9lica, das quais, se alguma coisa lhe ficou ao nosso Romualdo, n\u00e3o passou de ser um certo aroma delicioso e fresco. Lucinda, em casa, pareceu-lhe ainda mais bela do que a vira na capital da prov\u00edncia. E note-se que a boa impress\u00e3o que ele lhe fizera a princ\u00edpio cresceu tamb\u00e9m, e extraordinariamente, depois da conviv\u00eancia de algumas semanas. Em resumo, e para poupar estilo, os dous amavam-se. Os olhos de ambos, incapazes de guardar o segredo dos respectivos cora\u00e7\u00f5es, contaram tudo uns aos outros, e com tal estr\u00e9pito, que os olhos de um terceiro ouviram tamb\u00e9m. Esse terceiro foi o primo de Lucinda, o colega de ano de Romualdo.<\/p>\n<p>\u2014 Vou dar-te uma not\u00edcia agrad\u00e1vel, disse o Josino ao Romualdo, uma noite, no quarto em que dormiam. Adivinha o que \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ter um casamento daqui a meses&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem?<\/p>\n<p>\u2014 O juiz municipal.<\/p>\n<p>\u2014 Com quem casa?<\/p>\n<p>\u2014 Com a prima Lucinda.<\/p>\n<p>Romualdo deu um salto, p\u00e1lido, fremente; depois conteve-se, e come\u00e7ou a disfar\u00e7ar. Josino, que trazia o plano de cor, confiou ao colega um romance em que o juiz municipal fazia o menos judici\u00e1rio dos pap\u00e9is, e a prima aparecia como a mais louca das namoradas. Concluiu dizendo que a demora do casamento era porque o tio, profundo cat\u00f3lico, mandara pedir ao papa a fineza de vir casar a filha em Guaratinguet\u00e1. O papa chegaria em maio ou junho. Romualdo, entre pasmado e incr\u00e9dulo, n\u00e3o tirava os olhos do colega; este soltou, enfim, uma risada. Romualdo compreendeu tudo e contou-lhe tudo.<\/p>\n<p>Cinco dias depois, veio ele \u00e0 corte, lacerado de saudades e coroado de esperan\u00e7as. Na corte, come\u00e7ou a escrever um livro, que era nada menos que o pr\u00f3prio caso de Guaratinguet\u00e1: um poeta de grande talento, futuro ministro, futuro homem de Estado, cora\u00e7\u00e3o puro, car\u00e1ter elevado e nobre, que amava uma mo\u00e7a de quinze anos, um anjo, bela como a aurora, santa como a Virgem, alma digna de emparelhar com a dele, filha de um fazendeiro, etc. Era s\u00f3 p\u00f4r os pontos nos is. Este romance, \u00e0 medida que ele o ia escrevendo, lia-o ao amigo Fernandes, o mesmo a quem confiara o projeto do casamento e da viagem \u00e0 Europa, como se viu daquele trecho de uma carta. \u201cN\u00e3o nos faltar\u00e3o meios, gra\u00e7as a Deus, e meios de viajar \u00e0 larga&#8230;<\/p>\n<p>Que felicidade! Eu, Lucinda, o bom Fernandes&#8230;\u201d Era esse.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, pronto? palavra? Vais conosco? dizia-lhe na corte o Romualdo.<\/p>\n<p>\u2014 Pronto.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9 coisa feita. Este ano, em chegando as f\u00e9rias, vou a Guaratinguet\u00e1, e pe\u00e7o-a&#8230; Eu podia pedi-la antes, mas n\u00e3o me conv\u00e9m. Ent\u00e3o \u00e9 que h\u00e1s de p\u00f4r o caiporismo na rua&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ele volta depois, suspirava o Fernandes.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o volta; digo-te que n\u00e3o volta; fecho-lhe a porta com chave de ouro.<\/p>\n<p>E toca a escrever o livro, a contar a uni\u00e3o das duas almas, perante Deus e os homens, com muito luar claro e transparente, muita cita\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, algumas em latim. O romance foi acabado em S. Paulo, e mandado para o Eco de Guaratinguet\u00e1, que come\u00e7ou logo a public\u00e1-lo, recordando que o autor era o mesmo dos versos dados por ele no ano anterior.<\/p>\n<p>Romualdo consolou-se do vagar dos meses, da tirania dos professores e do fastio dos livros, carteando-se com o Fernandes e falando ao Josino, s\u00f3 e unicamente a respeito da gentil paulista. Josino contou-lhe muita reminisc\u00eancia caseira, epis\u00f3dios da inf\u00e2ncia de Lucinda, que o Romualdo escutava cheio de um sentimento religioso, mesclado de um certo desvanecimento de marido. E tudo era mandado depois ao Fernandes, em cartas que n\u00e3o acabavam mais, de cinco em cinco dias, pela mala daquele tempo. Eis o que dizia a \u00faltima das cartas, escrita ao entrar das f\u00e9rias:<\/p>\n<p>Vou agora a Guaratinguet\u00e1. Conto pedi-la daqui a pouco; e, em breve, estarei casado na corte; e daqui a algum tempo mar em fora. Prepara as malas, patife; anda, tratante, prepara as malas. Velhaco! \u00c9 com o fim de viajar que me animaste no namoro? Pois agora ag\u00fcenta-te&#8230;<\/p>\n<p>E tr\u00eas laudas mais dessas ironias graciosas, meigas indigna\u00e7\u00f5es de amigo, que o outro leu, e a que respondeu com estas palavras: \u201cPronto para o que der e vier!\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o ficou pronto para o que desse e viesse; n\u00e3o ficou pronto, por exemplo, para a cara triste, abatida, com que dous meses depois lhe entrou em casa, \u00e0 Rua da Miseric\u00f3rdia, o nosso Romualdo. Nem para a cara triste, nem para o gesto indignado com que atirou o chap\u00e9u ao ch\u00e3o. Lucinda tra\u00edra-o! Lucinda amava o promotor! E contou-lhe como o promotor, mancebo de vinte e seis anos, nomeado poucos meses antes, tratara logo de cortejar a mo\u00e7a, e t\u00e3o tenazmente que ela em pouco tempo estava ca\u00edda.<\/p>\n<p>\u2014 E tu?<\/p>\n<p>\u2014 Que havia de fazer?<\/p>\n<p>\u2014 Teimar, lutar, vencer.<\/p>\n<p>\u2014 Pensas que n\u00e3o? Teimei; fiz o que era poss\u00edvel, mas&#8230; Ah! se tu soubesses que as mulheres&#8230; Quinze anos! Dezesseis anos, quando muito! P\u00e9rfida desde o ber\u00e7o&#8230; Teimei&#8230; Pois n\u00e3o havia de teimar? E tinha por mim o Josino, que lhe disse as \u00faltimas. Mas que queres? O tal promotor das d\u00fazias&#8230; Enfim, v\u00e3o casar.<\/p>\n<p>\u2014 Casar?<\/p>\n<p>\u2014 Casar, sim! berrou o Romualdo, irritado.<\/p>\n<p>E ro\u00eda as unhas, calado ou dando umas risadinhas concentradas, de raiva; depois, passava as m\u00e3os pelos cabelos, dava socos, deitava-se na rede, a fumar cinco, dez, quinze cigarros&#8230;<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO V \/ NO ESCRIT\u00d3RIO<\/b><\/p>\n<p>DE ORDIN\u00c1RIO, o estudo \u00e9 tamb\u00e9m um recurso para os que t\u00eam alguma coisa que esquecer na vida. Isto pensou o nosso Romualdo, isto praticou imediatamente, recolhendo-se a S. Paulo, onde continuou at\u00e9 acabar o curso jur\u00eddico. E, realmente, n\u00e3o foram precisos muitos meses para convalescer da triste paix\u00e3o de Guaratinguet\u00e1. \u00c9 certo que, ao ver a mo\u00e7a, dous anos depois do desastre, n\u00e3o evitou uma tal ou qual como\u00e7\u00e3o; mas, o principal estava feito.<\/p>\n<p>\u201cVir\u00e1 outra\u201d, pensava ele consigo.<\/p>\n<p>E, com os olhos no casamento e na farda de ministro, fez as suas primeiras armas pol\u00edticas no \u00faltimo ano acad\u00eamico. Havia ent\u00e3o na capital da prov\u00edncia uma folha puramente comercial; Romualdo persuadiu o editor a dar uma parte pol\u00edtica, e encetou uma s\u00e9rie de artigos que agradaram. Tomado o grau, deu-se uma elei\u00e7\u00e3o provincial; ele apresentou-se candidato a um lugar na Assembl\u00e9ia, mas, n\u00e3o estando ligado a nenhum partido, recolheu pouco mais de dez votos, talvez quinze. N\u00e3o se pense que a derrota o abateu; ele recebeu-a como um fato natural, e alguma coisa o consolou: a inscri\u00e7\u00e3o do seu nome entre os votados. Embora poucos, os votos eram votos; eram peda\u00e7os da soberania popular que o vestiam a ele, como digno da escolha.<\/p>\n<p>Quantos foram os crist\u00e3os no dia do Calv\u00e1rio? Quantos eram naquele ano de 1864? Tudo estava sujeito \u00e0 lei do tempo.<\/p>\n<p>Romualdo veio pouco depois para a corte, e abriu escrit\u00f3rio de advocacia. Simples pretexto. Afeta\u00e7\u00e3o pura. Com\u00e9dia. O escrit\u00f3rio era um ponto no globo, onde ele podia, tranq\u00fcilamente, fumar um charuto e prometer ao Fernandes uma viagem ou uma inspetoria de alf\u00e2ndega, se n\u00e3o preferisse seguir a pol\u00edtica. O Fernandes estava por tudo; tinha um lugar no foro, lugar \u00ednfimo, de poucas rendas e sem futuro. O vasto programa do amigo, companheiro de inf\u00e2ncia, um programa em que os diamantes de uma senhora reluziam ao p\u00e9 da farda de um ministro, no fundo de um coup\u00e9, com ordenan\u00e7as atr\u00e1s, era dos que arrastam consigo todas as ambi\u00e7\u00f5es adjacentes. O Fernandes fez esse racioc\u00ednio: \u2014 Eu, por mim, nunca hei de ser nada; o Romualdo n\u00e3o esquecer\u00e1 que fomos meninos. E toca a andar para o escrit\u00f3rio do Romualdo. \u00c0s vezes, achava-o a escrever um artigo pol\u00edtico, ouvia-o ler, copiava-o se era necess\u00e1rio, e no dia seguinte servia-lhe de trombeta: um artigo magn\u00edfico, uma obra-prima, n\u00e3o dizia s\u00f3 como erudi\u00e7\u00e3o, mas como estilo, principalmente como estilo, coisa muito superior ao Otaviano, ao Rocha, ao Paranhos, ao Firmino, etc. \u2014 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, conclu\u00eda ele; \u00e9 o nosso Paul-Louis Courier.<\/p>\n<p>Um dia, o Romualdo recebeu-o com esta not\u00edcia:<\/p>\n<p>\u2014 Fernandes, creio que a espingarda que me h\u00e1 de matar est\u00e1 fundida.<\/p>\n<p>\u2014 Como? n\u00e3o entendo.<\/p>\n<p>\u2014 Vi-a ontem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A espingarda?<\/p>\n<p>\u2014 A espingarda, o obus, a pistola, o que tu quiseres; uma arma deliciosa.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!&#8230; alguma pequena? disse vivamente o Fernandes.<\/p>\n<p>\u2014 Qual pequena! Grande, uma mulher alta, muito alta. Cousa de truz. Vi\u00fava e fresca: vinte e seis anos. Conheceste o B&#8230;? \u00e9 a vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 A vi\u00fava do B&#8230;? Mas \u00e9 realmente um primor! Tamb\u00e9m eu a vi, ontem, no Largo de S\u00e3o Francisco de Paula; ia entrar no carro&#8230; Sabes que \u00e9 um cobrinho bem bom? Dizem que duzentos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Duzentos? P\u00f5e-lhe mais cem.<\/p>\n<p>\u2014 Trezentos, heim? Sim, senhor; \u00e9 papa-fina!<\/p>\n<p>E enquanto ele dizia isto, e outras coisas, com o fim, talvez, de animar o Romualdo, este ouvia-o calado, torcendo a corrente do rel\u00f3gio, e olhando para o ch\u00e3o, com um ar de riso complacente \u00e0 flor dos l\u00e1bios&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tlin, tlin, tlin, bateu o rel\u00f3gio de repente.<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00eas horas! exclamou Romualdo levantando-se. Vamos!<\/p>\n<p>Mirou-se a um espelho, cal\u00e7ou as luvas, p\u00f4s o chap\u00e9u na cabe\u00e7a, e sa\u00edram.<\/p>\n<p>No dia seguinte e nos outros, a vi\u00fava foi o assunto, n\u00e3o principal, mas \u00fanico, da conversa dos dous amigos, no escrit\u00f3rio, entre onze horas e tr\u00eas. O Fernandes cuidava de manter o fogo sagrado, falando da vi\u00fava ao Romualdo, dando-lhe not\u00edcias dela, quando casualmente a encontrava na rua. Mas n\u00e3o era preciso tanto, porque o outro n\u00e3o pensava em coisa diferente; ia aos teatros, a ver se a achava, \u00e0 Rua do Ouvidor, a alguns saraus, fez-se s\u00f3cio do Cassino. No teatro, por\u00e9m, s\u00f3 a viu algumas vezes, e no Cassino, dez minutos, sem ter tempo de lhe ser apresentado ou trocar um olhar com ela; dez minutos depois da chegada dele, retirava-se a vi\u00fava, acometida de uma enxaqueca.<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, \u00e9 caiporismo! dizia ele no dia seguinte, contando o caso ao Fernandes.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o desanimes por isso, redarg\u00fcia este. Quem desanima, n\u00e3o faz nada. Uma enxaqueca n\u00e3o \u00e9 a coisa mais natural do mundo?<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 isso \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Romualdo apertou a m\u00e3o ao Fernandes, cheio de reconhecimento, e o sonho continuou entre os dous, cintilante, vibrante, um sonho que valia por duas m\u00e3os cheias de realidade. Trezentos contos! O futuro certo, a pasta de ministro, o Fernandes inspetor de alf\u00e2ndega, e, mais tarde, bispo do Tesouro, dizia familiarmente o Romualdo. Era assim que eles enchiam as horas do escrit\u00f3rio; digo que enchiam as horas do escrit\u00f3rio, porque o Fernandes para ligar de uma vez a sua fortuna \u00e0 de C\u00e9sar, deixou o emprego \u00ednfimo que tinha no foro e aceitou o lugar de escrevente que o Romualdo lhe ofereceu, com o ordenado de oitenta mil-r\u00e9is. N\u00e3o h\u00e1 ordenado pequeno ou grande, sen\u00e3o comparado com a soma de trabalho que imp\u00f5e. Oitenta mil-r\u00e9is, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades do Fernandes, podia ser uma retribui\u00e7\u00e3o escassa, mas cotejado com o servi\u00e7o efetivo eram os presentes de Artaxerxes. O Fernandes tinha f\u00e9 em todos os raios da estrela do Romualdo: \u2014 o conjugal, o forense, o pol\u00edtico. Enquanto a estrela guardava os raios por baixo de uma nuvem grossa, ele, que sabia que a nuvem era passageira, deitava-se no sof\u00e1, dormitando e sonhando de parceria com o amigo.<\/p>\n<p>Nisto apareceu um cliente ao Romualdo. Nem este, nem o Fernandes estavam preparados para um tal fen\u00f4meno, verdadeira fantasia do destino. Romualdo chegou ao extremo de crer que era um emiss\u00e1rio da vi\u00fava, e esteve a ponto de piscar o olho ao Fernandes, que se retirasse, para dar mais liberdade ao homem. Este, por\u00e9m, cortou de uma tesourada essa ilus\u00e3o; vinha \u201cpropor uma causa ao senhor doutor\u201d. Era outro sonho, e se n\u00e3o t\u00e3o belo, ainda belo. Fernandes apressou-se em dar cadeira ao homem, tirar-lhe o chap\u00e9u e o guarda-chuva, perguntar se lhe fazia mal o ar nas costas, enquanto o Romualdo, com uma intui\u00e7\u00e3o mais verdadeira das coisas, recebia-o e ouvia-o com um ar cheio de clientes, uma fisionomia de quem n\u00e3o faz outra coisa desde manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 noite, sen\u00e3o arrazoar libelos e apela\u00e7\u00f5es. O cliente, lisonjeado com as maneiras do Fernandes, ficou atado e medroso diante do Romualdo; mas ao mesmo tempo deu gra\u00e7as ao c\u00e9u por ter vindo a um escrit\u00f3rio onde o advogado era t\u00e3o procurado e o escrevente t\u00e3o atencioso. Exp\u00f4s o caso, que era um embargo de obra nova, ou coisa equivalente. Romualdo acentuava cada vez mais o fastio da fisionomia, levantando o l\u00e1bio, abrindo as narinas, ou co\u00e7ando o queixo com a faca de marfim; ao despedir o cliente, deu-lhe a ponta dos dedos; o Fernandes levou-o at\u00e9 o patamar da escada.<\/p>\n<p>\u2014 Recomende muito o meu neg\u00f3cio ao senhor doutor, disse-lhe o cliente.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe estar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se esque\u00e7a; ele pode esquecer no meio de tanta coisa, e o patife&#8230; Quero mostrar \u00e0quele patife, que me n\u00e3o h\u00e1 de embolar&#8230; n\u00e3o; n\u00e3o esque\u00e7a, e creia que&#8230; n\u00e3o me esquecerei tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deixe estar.<\/p>\n<p>O Fernandes esperou que ele descesse; ele desceu, fez-lhe de baixo uma profunda zumbaia, e enfiou pelo corredor fora, content\u00edssimo com a boa inspira\u00e7\u00e3o que tivera em subir \u00e0quele escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Quando o Fernandes voltou \u00e0 sala, j\u00e1 o Romualdo folheava um formul\u00e1rio para redigir a peti\u00e7\u00e3o inicial. O cliente ficara de lhe trazer da\u00ed a pouco a procura\u00e7\u00e3o; trouxe-a; o Romualdo recebeu-a glacialmente; o Fernandes tirou daquela presteza as mais vivas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? dizia ele ao Romualdo, com as m\u00e3os na cintura; que me dizes tu a este come\u00e7o? Trata bem da causa, e ver\u00e1s que \u00e9 uma prociss\u00e3o delas pela escada acima.<\/p>\n<p>Romualdo estava realmente satisfeito. Todas as ordena\u00e7\u00f5es do Reino, toda a legisla\u00e7\u00e3o nacional bailavam no c\u00e9rebro dele, com a sua numera\u00e7\u00e3o \u00e1rabe e romana, os seus par\u00e1grafos, abreviaturas, coisas que, por secund\u00e1rias que fossem, eram aos olhos dele como as fitas dos toucados, que n\u00e3o trazem beleza \u00e0s mulheres feias, mas d\u00e3o realce \u00e0s bonitas. Sobre esta simples causa edificou o Romualdo um castelo de vit\u00f3rias jur\u00eddicas. O cliente foi visto multiplicar-se em clientes, os embargos em embargos; os libelos vinham repletos de outros libelos, uma torrente de demandas.<\/p>\n<p>Entretanto, o Romualdo conseguiu ser apresentado \u00e0 vi\u00fava, uma noite, em casa de um colega. A vi\u00fava recebeu-o com certa frieza; estava de enxaqueca. Romualdo saiu de l\u00e1 exaltad\u00edssimo; pareceu-lhe (e era verdade) que ela n\u00e3o rejeitara dous ou tr\u00eas olhares dele. No dia seguinte, contou tudo ao Fernandes, que n\u00e3o ficou menos contente.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! exclamou ele. Eu n\u00e3o te disse? \u00c9 ter paci\u00eancia; tem paci\u00eancia. Ela ofereceu-te a casa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; estava de enxaqueca.<\/p>\n<p>\u2014 Outra enxaqueca! Parece que n\u00e3o padece de mais nada? N\u00e3o faz mal; \u00e9 mol\u00e9stia de mo\u00e7a bonita.<\/p>\n<p>Vieram buscar um artigo para a folha pol\u00edtica; Romualdo, que o n\u00e3o escrevera, mal p\u00f4de alinhar, \u00e0 pressa, alguns conceitos chochos, a que a folha adversa respondeu com muita superioridade. O Fernandes, logo depois, lembrou-lhe que findava-lhe certo prazo no embargo da obra nova; ele arrazoou5 nos autos, tamb\u00e9m \u00e0s pressas, t\u00e3o \u00e0s pressas que veio a perder a demanda. Que importa? A vi\u00fava era tudo. Trezentos contos! Da\u00ed a dias, era o Romualdo convidado para um baile. N\u00e3o se descreve a alma com que ele saiu para essa festa, que devia ser o in\u00edcio da bem-aventuran\u00e7a. Chegou; vinte minutos depois soube que era o primeiro e \u00faltimo baile da vi\u00fava, que dali a dous meses casava com um capit\u00e3o-de-fragata.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO VI \/ TROCA DE ARTIGOS<\/b><\/p>\n<p>A SEGUNDA queda amorosa do Romualdo f\u00ea-lo desviar os olhos do cap\u00edtulo feminino. As mulheres sabem que elas s\u00e3o como o melhor vinho de Chipre, e que os protestos de namorados n\u00e3o diferem dos que fazem os b\u00eabados. Acresce que o Romualdo era levado tamb\u00e9m, e principalmente, da ambi\u00e7\u00e3o, e que a ambi\u00e7\u00e3o permanecia nele, como alicerce de casa derrubada. Acresce mais que o Fernandes, que pusera no Romualdo um mundo de esperan\u00e7as, forcejava por levant\u00e1-lo e anim\u00e1-lo a outra aventura.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem? dizia-lhe. Pois uma mulher que se casa deve agora fazer com que um homem n\u00e3o se case mais? Isso at\u00e9 nem se diz; voc\u00ea n\u00e3o deve contar a ningu\u00e9m que teve semelhante id\u00e9ia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Conto&#8230; Se conto!<\/p>\n<p>\u2014 Ora essa!<\/p>\n<p>\u2014 Conto, confesso, digo, proclamo, replicava o Romualdo, tirando as m\u00e3os das algibeiras das cal\u00e7as, e agitando-as no ar.<\/p>\n<p>Depois tornou a guardar as m\u00e3os, e continuou a passear de um lado para outro.<\/p>\n<p>O Fernandes acendeu um cigarro, tirou duas fuma\u00e7as e prosseguiu no discurso anterior. Mostrou-lhe que, afinal de contas, a culpa era do acaso; ele viu-a tarde; j\u00e1 ela estava de namoro com o capit\u00e3o-de-fragata. Se aparece mais cedo, a vit\u00f3ria era dele. N\u00e3o havia duvidar, que seria dele a vit\u00f3ria. E agora, falando franco, agora \u00e9 que ele devia casar com outra, para mostrar que n\u00e3o lhe faltam noivas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, acrescentou o Fernandes; esse gostinho de ficar solteiro \u00e9 que eu n\u00e3o lhe dava. Voc\u00ea n\u00e3o conhece as mulheres, Romualdo.<\/p>\n<p>\u2014 Seja o que for.<\/p>\n<p>N\u00e3o insistiu o Fernandes; contou decerto, que a ambi\u00e7\u00e3o do amigo, as circunst\u00e2ncias e o acaso trabalhariam melhor do que todos os seus racioc\u00ednios.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom, n\u00e3o falemos mais nisso, concluiu ele.<\/p>\n<p>Tinha um c\u00e1lculo o Romualdo: trocar os artigos do programa. Em vez de ir do casamento para o Parlamento, e de marido a ministro de Estado, resolveu proceder inversamente: primeiro seria deputado e ministro, depois casaria rico. Entre n\u00f3s, dizia ele consigo, a pol\u00edtica n\u00e3o exige riqueza; n\u00e3o \u00e9 preciso muitos cabedais para ocupar um lugar na C\u00e2mara ou no Senado, ou no minist\u00e9rio. E, ao contr\u00e1rio, um ministro candidato \u00e0 m\u00e3o de uma vi\u00fava \u00e9 prov\u00e1vel que ven\u00e7a qualquer outro candidato, embora forte, embora capit\u00e3o-de-fragata. N\u00e3o acrescentou que no caso de um capit\u00e3o-de-fragata, a vit\u00f3ria era matematicamente certa se ele fosse ministro da Marinha, porque uma tal reflex\u00e3o exigiria esp\u00edrito jovial e repousado, e o Romualdo estava deveras abatido.<\/p>\n<p>Decorreram alguns meses. Em v\u00e3o o Fernandes chamava a aten\u00e7\u00e3o do Romualdo para cem rostos de mulheres, falava-lhe de herdeiras ricas, fazendeiras vi\u00favas; nada parecia impressionar o jovem advogado, que s\u00f3 cuidava agora de pol\u00edtica. Entregara-se com alma ao jornal, freq\u00fcentava as influ\u00eancias parlamentares, os chefes das deputa\u00e7\u00f5es. As esperan\u00e7as pol\u00edticas come\u00e7aram a vi\u00e7ar na alma dele, com uma exuber\u00e2ncia descomunal, e passavam \u00e0 alma do Fernandes, que afinal entrara no racioc\u00ednio do amigo, e concordava em que ele casasse depois de ministro. O Romualdo vivia deslumbrado; os chefes davam-lhe sorrisos prenhes de votos, de lugares, de pastas; batiam-lhe no ombro; apertavam-lhe a m\u00e3o com certo mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Antes de dous anos, tudo isto muda, dizia ele confidencialmente ao Fernandes.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 est\u00e1 mudado, acudiu o outro<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o achas?<\/p>\n<p>\u2014 Muito mudado.<\/p>\n<p>Com efeito, os pol\u00edticos que freq\u00fcentavam o escrit\u00f3rio e a casa do Romualdo diziam a este que as elei\u00e7\u00f5es estavam perto e que o Romualdo devia vir para a C\u00e2mara. Era uma ingratid\u00e3o do partido, se n\u00e3o viesse. Alguns repetiam-lhe frases ben\u00e9volas dos chefes; outros aceitavam jantares, por conta dos que ele tinha de dar depois de eleito. Vieram as elei\u00e7\u00f5es; e o Romualdo apresentou-se candidato pela corte. Aqui nasceu, aqui era conhecido, aqui devia ter a vit\u00f3ria ou a derrota. Os amigos afirmavam-lhe que seria a vit\u00f3ria, custasse o que custasse.<\/p>\n<p>A campanha, na verdade, foi rude. O Romualdo teve de vencer primeiramente os competidores, as intrigas, as desconfian\u00e7as, etc. N\u00e3o dispondo de dinheiro, cuidou de o pedir emprestado, para certas despesas preliminares, embora poucas; e, vencida essa segunda parte da luta, entrou na terceira, que foi a dos cabos eleitorais e arranjos de votos. O Fernandes deu ent\u00e3o a medida do que vale um amigo sincero e dedicado, um agente convencido e resoluto; fazia tudo, artigos, c\u00f3pias, leitura de provas, recados, pedidos, ia de um lado para outro, suava, bufava, comia mal, dormia mal, chegou ao extremo de brigar em plena rua com um agente do candidato adverso, que lhe fez uma contus\u00e3o na face.<\/p>\n<p>Veio o dia da elei\u00e7\u00e3o. Nos tr\u00eas dias anteriores, a luta assumira propor\u00e7\u00f5es herc\u00faleas. Mil not\u00edcias nasciam e morriam dentro de uma hora. Eram capangas vendidos, cabos paroquiais suspeitos de trai\u00e7\u00e3o, c\u00e9dulas roubadas, ou extraviadas: era o diabo. A noite da v\u00e9spera foi terr\u00edvel de ansiedade. Nem o Romualdo nem o Fernandes puderam conciliar o sono antes das tr\u00eas horas da manh\u00e3; e, ainda assim, o Romualdo acordou tr\u00eas ou quatro vezes, no meio das perip\u00e9cias de um sonho delicioso. Ele via-se eleito, orando na C\u00e2mara, propondo uma mo\u00e7\u00e3o de desconfian\u00e7a, triunfando, chamado pelo novo presidente do Conselho a ocupar a pasta da Marinha. Ministro, fez uma brilhante figura; muitos o louvavam, outros muitos o mordiam, complemento necess\u00e1rio \u00e0 vida p\u00fablica. Subitamente, aparece-lhe uma vi\u00fava bela e rica, pretendida por um capit\u00e3o-de-fragata; ele manda o capit\u00e3o-de-fragata para as Antilhas, dentro de vinte e quatro horas, e casa com a vi\u00fava. Nisto acordou; eram sete horas.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos \u00e0 luta, disse ele ao Fernandes.<\/p>\n<p>Sa\u00edram para a luta eleitoral. No meio do caminho, o Romualdo teve uma reminisc\u00eancia de Bonaparte, e disse ao amigo: \u201cFernandes, \u00e9 o sol de Austerlitz!\u201d Pobre Romualdo, era o sol de Waterloo.<\/p>\n<p>\u2014 Ladroeira! bradou o Fernandes. Houve ladroeira de votos! Eu vi o miolo de algumas c\u00e9dulas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que n\u00e3o reclamaste na ocasi\u00e3o? disse Romualdo.<\/p>\n<p>\u2014 Supus que era da nossa gente, confessou o Fernandes mudando de tom.<\/p>\n<p>Com miolo ou sem miolo, a verdade \u00e9 que o p\u00e3o eleitoral passou \u00e0 boca do advers\u00e1rio, que deixou o Romualdo em jejum. O desastre abateu-o muito; come\u00e7ava a ficar cansado da luta. Era um simples advogado sem causas. De todo o programa da adolesc\u00eancia, nenhum artigo se podia dizer cumprido, ou em caminho de o ser. Tudo lhe fugia, ou por culpa dele, ou por culpa das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>A tristeza do Romualdo foi complicada pelo des\u00e2nimo do Fernandes, que come\u00e7ava a descrer da estrela de C\u00e9sar, e a arrepender-se de ter trocado de emprego. Ele dizia muitas vezes ao amigo, que a moleza era m\u00e1 qualidade, e que o foro come\u00e7ava a aborrec\u00ea-lo; duas afirma\u00e7\u00f5es, \u00e0 primeira vista, incoerentes, mas que se ajustavam neste pensamento impl\u00edcito: \u2014 Voc\u00ea nunca h\u00e1 de ser coisa nenhuma, e eu n\u00e3o estou para atur\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Com efeito, da\u00ed a alguns meses, o Fernandes meteu-se em n\u00e3o sei que empresa, e retirou-se para Curitiba. O Romualdo ficou s\u00f3. Tentou alguns casamentos que, por um ou outro motivo, falharam; e tornou \u00e0 imprensa pol\u00edtica, em que criou, com poucos meses, d\u00edvidas e inimigos. Deixou a imprensa, e foi para a ro\u00e7a. Disseram-lhe que a\u00ed podia fazer alguma coisa.<\/p>\n<p>De fato, alguma coisa o procurou, e ele n\u00e3o foi malvisto; mas, meteu-se na pol\u00edtica local, e perdeu-se. Gastou cinco anos inutilmente; pior do que inutilmente, com preju\u00edzo. Mudou de localidade; e tendo a experi\u00eancia da primeira, p\u00f4de viver algum tempo, e com certa mediania. Entretanto, casou; a senhora n\u00e3o era opulenta, como ele inserira no programa, mas era fecunda; ao cabo de cinco anos, tinha o Romualdo seis filhos. Seis filhos n\u00e3o se educam nem se sustentam com seis vint\u00e9ns. As necessidades do Romualdo cresceram; os recursos, naturalmente, diminu\u00edram. Os anos avizinhavam-se.<\/p>\n<p>\u201cOnde os meus sonhos? onde o meu programa?\u201d dizia ele consigo, \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>As saudades vinham, principalmente, nas ocasi\u00f5es de grandes crises pol\u00edticas no pa\u00eds, ou quando chegavam as not\u00edcias parlamentares da corte. Era ent\u00e3o que ele remontava at\u00e9 \u00e0 adolesc\u00eancia, aos planos de Bonaparte rapaz, feitos por ele e n\u00e3o realizados nunca. Sim, criar na mente um imp\u00e9rio, e governar um escrit\u00f3rio modesto de poucas causas&#8230; Mas isso mesmo foi amortecendo com os anos. Os anos, com o seu grande peso no esp\u00edrito do Romualdo, cercearam-lhe a compreens\u00e3o das ambi\u00e7\u00f5es enormes; e o espet\u00e1culo das lutas locais acanhou-lhe o horizonte. J\u00e1 n\u00e3o lutava, deixara a pol\u00edtica: era simples advogado. S\u00f3 o que fazia era votar com o governo, abstraindo do pessoal pol\u00edtico dominante, e abra\u00e7ando somente a id\u00e9ia superior do poder. N\u00e3o poupou alguns desgostos, \u00e9 verdade, porque nem toda a vila chegava a entender a distin\u00e7\u00e3o; mas, enfim, n\u00e3o se deixou levar de paix\u00f5es, e isso bastava a afugentar uma por\u00e7\u00e3o de males.<\/p>\n<p>No meio de tudo, os filhos eram a melhor das compensa\u00e7\u00f5es. Ele amava-os a todos igualmente com uma queda particular ao mais velho, menino esperto, e \u00e0 \u00faltima, menina gracios\u00edssima. A m\u00e3e criara-os a todos e estava disposta a criar o que havia de vir, e contava cinco meses de gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Seja o que for, dizia o Romualdo \u00e0 mulher; Deus nos h\u00e1 de ajudar.<\/p>\n<p>Dous pequenos morreram-lhe de saramp\u00e3o; o \u00faltimo nasceu morto.<\/p>\n<p>Ficou reduzido a quatro filhos. J\u00e1 ent\u00e3o ia em quarenta e cinco anos, estava todo grisalho, fisionomia cansada; felizmente, gozava sa\u00fade, e ia trabalhando. Tinha d\u00edvidas, \u00e9 verdade, mas pagava-as, restringindo certa ordem de necessidades. Aos cinq\u00fcenta anos estava alquebrado; educava os filhos; ele mesmo ensinara-lhes as primeiras letras.<\/p>\n<p>Vinha \u00e0s vezes \u00e0 corte e demorava-se pouco. Nos primeiros tempos, mirava-a com pesar, com saudades, com uma certa esperan\u00e7a de melhora. O programa reluzia-lhe aos olhos. N\u00e3o podia passar pela frente da casa onde tivera escrit\u00f3rio, sem apertar-se-lhe o cora\u00e7\u00e3o e sentir uns \u00edmpetos de mocidade. A Rua do Ouvidor, as lojas elegantes, tudo lhe dava ares do outro tempo, e emprestavam-lhe alguma energia, que ele levava para a ro\u00e7a. E ent\u00e3o nos primeiros tempos, trabalhava com uma lamparina de esperan\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o. Mas o azeite era pouco, e a lamparina apagava-se depressa. Isso mesmo cessou com o tempo. J\u00e1 vinha \u00e0 corte, fazia o que tinha de fazer, e voltava, frio, indiferente, resignado.<\/p>\n<p>Um dia, tinha ele cinq\u00fcenta e tr\u00eas anos, os cabelos brancos, o rosto encarquilhado, vindo \u00e0 corte com a mulher, encontrou na rua um homem que lhe pareceu o Fernandes. Estava avelhantado, \u00e9 certo; mas a cara n\u00e3o podia ser de outro. O que menos se parecia com ele era o resto da pessoa, a sobrecasaca esmerada, o botim de verniz, a camisa dura com um bot\u00e3o de diamante ao peito.<\/p>\n<p>\u2014 Querem ver? \u00e9 o Romualdo! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Como est\u00e1s, Fernandes?<\/p>\n<p>\u2014 Bem; e tu, que andas fazendo?<\/p>\n<p>\u2014 Moro fora; advogado da ro\u00e7a. Tu \u00e9s naturalmente banqueiro&#8230;<\/p>\n<p>Fernandes sorriu lisonjeado. Levou-o a jantar, e explicou-lhe que se metera em empresa lucrativa, e fora aben\u00e7oado pela sorte. Estava bem. Morava fora, no Paran\u00e1. Veio \u00e0 corte ver se podia arranjar uma comenda. Tinha um h\u00e1bito; mas tanta gente lhe dava o t\u00edtulo de comendador, que n\u00e3o havia rem\u00e9dio sen\u00e3o fazer do dito certo.<\/p>\n<p>\u2014 Ora o Romualdo!<\/p>\n<p>\u2014 Ora o Fernandes!<\/p>\n<p>\u2014 Estamos velhos, meu caro.<\/p>\n<p>\u2014 Culpa dos anos, respondeu tristemente o Romualdo.<\/p>\n<p>Dias depois o Romualdo voltou \u00e0 ro\u00e7a, oferecendo a casa ao velho amigo. Este ofereceu-lhe tamb\u00e9m os seus pr\u00e9stimos em Curitiba. De caminho, o Romualdo recordava, comparava e refletia.<\/p>\n<p>\u2014 No entanto, ele n\u00e3o fez programa, dizia amargamente. E depois:<\/p>\n<p>\u2014 Foi talvez o programa que me fez mal; se n\u00e3o pretendesse tanto&#8230;<\/p>\n<p>Mas achou os filhos \u00e0 porta da casa; viu-os correr a abra\u00e7\u00e1-lo e \u00e0 m\u00e3e, sentiu os olhos \u00famidos, e contentou-se com o que lhe coubera. E, ent\u00e3o, comparando ainda uma vez os sonhos e a realidade, lembrou-lhe Schiller, que lera vinte e cinco anos antes, e repetiu com ele: \u201cTamb\u00e9m eu nasci na Arc\u00e1dia&#8230;\u201d A mulher, n\u00e3o entendendo a frase, perguntou-lhe se queria alguma cousa. Ele respondeu-lhe: \u2014 A tua alegria e uma x\u00edcara de caf\u00e9<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAP\u00cdTULO PRIMEIRO \/ LI\u00c7\u00c3O DE MESTRE-ESCOLA \u2014 RAPAZES, tamb\u00e9m eu fui rapaz, disse o mestre, o Pitada, um velho mestre de meninos da Gamboa, no ano de 1850; fui rapaz, mas rapaz de muito ju\u00edzo, muito ju\u00edzo&#8230; Entenderam? \u2014 Sim, senhor. \u2014 N\u00e3o entrei no mundo como um desmiolado, dando por paus [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-117575","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the 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