{"id":117573,"date":"2017-04-03T18:23:13","date_gmt":"2017-04-03T20:23:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117573"},"modified":"2017-04-03T18:23:13","modified_gmt":"2017-04-03T20:23:13","slug":"o-passado-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-passado-passado","title":{"rendered":"O Passado, Passado"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1876<\/b><\/p>\n<p>Acabara o jantar \u00e0s seis horas e meia. Era dia; a mor parte dos convivas descera \u00e0 ch\u00e1cara. Um destes, o capit\u00e3o-tenente Lu\u00eds Pinto, ficou na sala a conversar com o dono da casa, o comendador Valadares, homem gordo e pacato, para quem a digest\u00e3o era coisa s\u00e9ria, e tanto ou quanto cient\u00edfica.<\/p>\n<p>\u2014 E pretende fazer outra viagem? perguntou o comendador continuando a conversa interrompida pela sobremesa.<\/p>\n<p>\u2014 Agora, n\u00e3o. Salvo se embarcar por ordem do governo. N\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que precise de outra licen\u00e7a; em todo caso, n\u00e3o iria \u00e0 Europa, a n\u00e3o ser por mol\u00e9stia.<\/p>\n<p>\u2014 Mas gostou tanto que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que preciso descansar. Estou com quarenta e dois anos, sr. comendador, n\u00e3o \u00e9 velhice; mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 idade de travessuras; e uma segunda viagem era verdadeira travessura.<\/p>\n<p>O comendador n\u00e3o aprovou nem contestou a observa\u00e7\u00e3o do h\u00f3spede; abriu a caixa de rap\u00e9. Tomou uma pitada e interrogou o oficial de marinha a respeito de algumas particularidades da viagem. O oficial satisfez-lhe a curiosidade narrando-lhe uma p\u00e1gina das suas mem\u00f3rias de turista.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Pinto, que sabemos ser capit\u00e3o-tenente e contar quarenta e dois anos, era um homem alto, bem-feito, elegante, daquela eleg\u00e2ncia grave, pr\u00f3pria de seus anos. Tinha os olhos negros e rasgados, o olhar inteligente e bom, maneiras distintas e certo ar de superioridade natural. Era isto o f\u00edsico. O moral n\u00e3o era diferente. N\u00e3o tinha m\u00e1s qualidades, ou se as tinha eram de pequena monta. Vi\u00favo h\u00e1 dez anos, ficara-lhe do matrim\u00f4nio uma filha, que mandara educar em um col\u00e9gio. Essa crian\u00e7a era todos os seus amores na terra.<\/p>\n<p>Algum tempo antes por motivos de mol\u00e9stia, obtivera licen\u00e7a por um ano e empreendera uma viagem \u00e0 Europa, de onde viera cerca de quinze dias antes.<\/p>\n<p>A noite ca\u00edra de todo; os convivas recolheram-se \u00e0 casa, onde uns foram jogar, outros conversar ou ouvir tocar. O sarau acabaria para o oficial como outro qualquer se n\u00e3o fora a entrada de uma visita inesperada para todas as pessoas da casa e muito mais para ele.<\/p>\n<p>A visita de que se trata era uma senhora. A mulher do comendador apressou-se a receb\u00ea-la. D. Madalena Soares entrou na sala, com um passo de deusa e com ar tranq\u00fcilo e austero que lhe n\u00e3o ficava mal. Das pessoas que a n\u00e3o conheciam houve um not\u00e1vel sil\u00eancio de curiosidade. Trajava roupas escuras, de fei\u00e7\u00e3o com a sua viuvez recente; era formosa, e contava trinta anos de idade.<\/p>\n<p>Como todas as aten\u00e7\u00f5es estiveram voltadas para a rec\u00e9m-chegada ningu\u00e9m reparou na impress\u00e3o que esta produzira em Lu\u00eds Pinto. A impress\u00e3o foi de surpresa e gosto, uma como\u00e7\u00e3o que o fez ficar pregado alguns instantes na cadeira em que estava sentado. Alguns minutos depois ergueu-se e dirigiu-se a D. Madalena Soares.<\/p>\n<p>\u2014 Estarei t\u00e3o velho que j\u00e1 me n\u00e3o conhe\u00e7a? disse ele.<\/p>\n<p>Madalena estremeceu e olhou para ele.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! exclamou ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se viam h\u00e1 muito tempo? perguntou a mulher do comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Um s\u00e9culo, respondeu Madalena.<\/p>\n<p>\u2014 Seis anos pelo menos, acrescentou Lu\u00eds Pinto.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez mais. Chegou h\u00e1 pouco da Europa, ouvi dizer.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 poucos dias. Seu marido?<\/p>\n<p>\u2014 Estou vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>Interrompeu-se a conversa neste ponto; aproveitamos a interrup\u00e7\u00e3o para dizer que Madalena, tendo casado com vinte anos, retirara-se da\u00ed a quatro para uma das prov\u00edncias do Norte, de onde voltara dez meses antes, depois da morte do marido. Lu\u00eds Pinto ignorava a morte deste.<\/p>\n<p>Poucas palavras disseram mais os dois antigos conhecidos. A conversa tornou-se geral, e a noite passou-se, como se passaram as outras, sem nenhum incidente novo. Madalena, ao despedir-se, declarou ao capit\u00e3o-tenente que a sua resid\u00eancia era na Rua das Mangueiras.<\/p>\n<p>\u2014 Irei cumpriment\u00e1-la um dia destes.<\/p>\n<p>\u2014 Aturar uma velha.<\/p>\n<p>\u2014 Oh!<\/p>\n<p>A exclama\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Pinto foi repetida mentalmente pelos demais circunstantes; e a vi\u00fava retirou-se levando a admira\u00e7\u00e3o de todos. Houve um concerto de louvores \u00e0 gra\u00e7a de suas maneiras, \u00e0 beleza de seus olhos. Um s\u00f3, entre tantos, ficara calado e pensativo: o oficial de marinha.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? Vamos sab\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Pinto saiu da casa do comendador um pouco diferente do que l\u00e1 entrara. Ia absorto e pensativo. O que ele dizia consigo mesmo era:<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto? Tantos anos depois! Vi\u00fava&#8230; estava longe de sup\u00f4-lo. Vi\u00fava e formosa, t\u00e3o formosa como era naquele tempo.<\/p>\n<p>O mon\u00f3logo continuou ainda por algumas horas, sobre o mesmo tema; as id\u00e9ias bailaram-lhe no esp\u00edrito durante o sono. Na manh\u00e3 seguinte, a segunda ou terceira pessoa de quem se lembrou foi Madalena.<\/p>\n<p>Dois dias depois cumpriu Lu\u00eds Pinto a palavra dada na casa do comendador, foi \u00e0 Rua das Mangueiras. Vestiu-se mais apurado que de costume; contemplou-se repetidas vezes ao espelho, n\u00e3o por vaidade, ali\u00e1s justific\u00e1vel, porque ainda era um bonito homem, mas para ver se havia ainda em suas fei\u00e7\u00f5es um resto da primeira mocidade.<\/p>\n<p>Madalena recebeu-o com muita afabilidade. Estava com ela um menino de seis anos, seu filho; e, al\u00e9m dele, havia uma senhora idosa, tia de seu marido, que a acompanhara at\u00e9 \u00e0 corte e ficara a residir com ela. A conversa versou sobre coisas gerais; mas por mais indiferente ou insignificante que fosse o assunto, Madalena tinha a arte de o tornar interessante e elev\u00e1-lo. Passaram as horas naturalmente depressa; Lu\u00eds saiu satisfeito dessa primeira visita.<\/p>\n<p>A segunda verificou-se dali a cinco ou seis dias; Madalena por\u00e9m n\u00e3o estava em casa, e este desencontro, ali\u00e1s fortuito, pareceu enfad\u00e1-lo. Encontrou-a em caminho, na Rua dos Arcos, com o filho pela m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Venho de sua casa, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? acudiu a vi\u00fava. Eu fui visitar umas amigas de outro tempo.<\/p>\n<p>\u2014 De seis anos.<\/p>\n<p>\u2014 De dez.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda se lembra do passado? perguntou Lu\u00eds Pinto, dando \u00e0s palavras uma entoa\u00e7\u00e3o particular.<\/p>\n<p>\u2014 Minha mem\u00f3ria n\u00e3o esquece as afei\u00e7\u00f5es, respondeu ela naturalmente.<\/p>\n<p>Lu\u00eds cumprimentou-a e seguiu. A resposta da vi\u00fava n\u00e3o dizia talvez tudo: ele, contudo, deu-se por satisfeito em ter-lhe feito a pergunta.<\/p>\n<p>O passado de que ele falava, como j\u00e1 a leitora ter\u00e1 suposto, era um namoro travado entre os dois antes do casamento de ambos. N\u00e3o foi namoro ligeiro e sem ra\u00edzes, antes passatempo que outra coisa; foi paix\u00e3o s\u00e9ria e forte. O pai de Madalena opunha-se ao cons\u00f3rcio e declarou-se mortal inimigo do mo\u00e7o; empregou contra ele todas as armas de que podia dispor. Lu\u00eds Pinto afrontou tudo; para v\u00ea-la de longe, colher um sorriso, amargo embora e desconsolado, atravessava audazmente a ch\u00e1cara em que ela morava, sem embargo dos espias que o dono da casa ali punha. Ia a todos os teatros e reuni\u00f5es onde houvesse esperan\u00e7a de a ver, mantinham correspond\u00eancia, sem embargo de todas as precau\u00e7\u00f5es paternais. Madalena mostrou-se firme durante todo esse tempo; e pela sua parte usou de todas as armas que lhe inspirava o cora\u00e7\u00e3o: os rogos, as l\u00e1grimas, a reclus\u00e3o, a abstin\u00eancia de alimentos.<\/p>\n<p>Nessa luta, que se prolongou por dois anos quase, venceu o pai de Madalena. A mo\u00e7a casou com o noivo que lhe apresentaram, um sujeito honrado e bom, que naquela ocasi\u00e3o era a mais detest\u00e1vel criatura do mundo. Lu\u00eds Pinto suportou o golpe como poderia suport\u00e1-lo um cora\u00e7\u00e3o que tantas provas dera de si. Casou mais tarde. O tempo distanciou-os; perderam-se completamente de vista.<\/p>\n<p>Tal era o passado. N\u00e3o o pode haver mais pejado de recorda\u00e7\u00f5es, umas tristes, outras deliciosas; e a melhor maneira de apagar as tristes, e dar corpo \u00e0s deliciosas, era reatar o fio quebrado pelas circunst\u00e2ncias, continuando, ap\u00f3s tanto tempo, o amor interrompido, desposando-a, enfim, agora que nenhum obst\u00e1culo podia haver entre os dois.<\/p>\n<p>Lu\u00eds foi \u00e0 casa de Madalena no dia seguinte ao do encontro. Achou-a a ensinar a li\u00e7\u00e3o ao filho, com o livro sobre os seus joelhos.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-me acabar esta p\u00e1gina? perguntou ela.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Pinto fez sinal afirmativo; e a m\u00e3e concluiu a li\u00e7\u00e3o do filho. Enquanto ela meia inclinada, ia acompanhando as linhas do livro, o oficial de marinha observava \u00e0 luz do dia aquelas fei\u00e7\u00f5es que tanto amara dez anos antes. N\u00e3o era a mesma frescura juvenil; mas a beleza, que n\u00e3o diminu\u00edra, tinha agora uma express\u00e3o mais grave. Os olhos eram os mesmos, dois grandes olhos negros e cintilantes. Eram os mesmos cabelos castanhos, e bastos, o pesco\u00e7o de cisne, as m\u00e3os de princesa, o talhe esbelto, a gra\u00e7a e a morbideza dos movimentos. A vi\u00fava trajava com simplicidade, sem atavios nem arrebiques, o que dava-lhe \u00e0 beleza um realce austero e certa gravidade ador\u00e1vel. Lu\u00eds Pinto embebeu-se todo na contempla\u00e7\u00e3o do quadro e da figura. Comparava a donzela fr\u00edvola e jovial de outro tempo \u00e0 m\u00e3e desvelada e s\u00e9ria que ali tinha diante de si, e as duas fisionomias confundiam-se na mesma evoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o acabara; Madalena dirigiu-se ao capit\u00e3o-tenente com a familiaridade de pessoas conhecidas, mas ainda assim com o acanhamento natural da situa\u00e7\u00e3o. A conversa foi curta e salteada. Era natural falarem do passado; contudo, evitavam ro\u00e7ar o pensamento \u2014 a frase ao menos \u2014 pelos sucessos que romperam o v\u00ednculo de seus destinos.<\/p>\n<p>\u2014 Acha-me velho, n\u00e3o \u00e9? perguntou o oficial ao ouvir um reparo de Madalena acerca da mudan\u00e7a que o tempo fizera nele.<\/p>\n<p>\u2014 Mais velho, n\u00e3o, respondeu ela sorrindo; menos mo\u00e7o, talvez. N\u00e3o admira, tamb\u00e9m eu perdi o frescor dos primeiros anos.<\/p>\n<p>\u2014 A compara\u00e7\u00e3o \u00e9 malfeita; eu entro pela tarde da vida; a senhora est\u00e1 em pleno meio-dia. N\u00e3o v\u00ea estes cabelos grisalhos? Verdade \u00e9 que a vida n\u00e3o me foi de rosas; e os desgostos, mais do que os anos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A cor dos cabelos n\u00e3o prova nada, atalhou a mo\u00e7a como se quisesse interromper alguma confiss\u00e3o. Meu pai, aos vinte e oito anos, tinha os cabelos brancos. Caprichos da natureza. Pretende voltar \u00e0 Europa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pretendo; provavelmente n\u00e3o voltarei mais.<\/p>\n<p>\u2014 Aquilo \u00e9 t\u00e3o bonito como dizem?<\/p>\n<p>\u2014 Conforme os olhos com que se v\u00ea. Para mim \u00e9 detest\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Admira. Sabe que sempre tive grande desejo de ver a Europa. Para os filhos da Am\u00e9rica \u00e9 uma esp\u00e9cie de sonho, uma ambi\u00e7\u00e3o, que me parece natural.<\/p>\n<p>\u2014 E realiz\u00e1vel. Alguns dias de mar somente.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 agora \u00e9 preciso educar meu filho, disse Madalena afagando a cabe\u00e7a do menino.<\/p>\n<p>\u2014 Que idade tem ele?<\/p>\n<p>\u2014 Seis anos.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 muito desenvolvido.<\/p>\n<p>\u2014 Muito.<\/p>\n<p>Madalena proferiu esta palavra sorrindo e contemplando amorosamente o rosto do filho. Quando levantou os olhos deu com os de Lu\u00eds Pinto, que estavam fitos nela, e logo os desceu, algum tanto comovida. O sil\u00eancio que se seguiu foi curto. Levantou-se o oficial para despedir-se.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei se a verei ainda muitas vezes, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? perguntou Madalena com interesse.<\/p>\n<p>\u2014 O oficial de marinha nada pode afian\u00e7ar a este respeito. Amanh\u00e3 mesmo posso embarcar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas se n\u00e3o embarcar?<\/p>\n<p>\u2014 Virei v\u00ea-la, se mo permitir.<\/p>\n<p>\u2014 Com todo gosto.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Pinto saiu. Madalena ficou algum tempo calada e pensativa, como evocando o passado, que a presen\u00e7a daquele homem lhe fazia despertar. Por fim sacudiu a cabe\u00e7a, como expelindo de si aquelas mem\u00f3rias t\u00e3o doces e ao mesmo tempo t\u00e3o amargas, e beijou com ardor a testa do filho.<\/p>\n<p>Durante uma semana n\u00e3o se avistaram os nossos dois ex-namorados. Ao cabo desse tempo acharam-se ambos em casa do comendador, onde havia reuni\u00e3o. Lu\u00eds Pinto esperava esse dia para examinar a impress\u00e3o que teria produzido na vi\u00fava aquela aus\u00eancia um tanto longa para quem tivesse debaixo das cinzas uma fa\u00edsca do extinto fogo; mas a curiosidade de Madalena era igual \u00e0 dele e o olhar de ambos foi uma interroga\u00e7\u00e3o sem resposta.<\/p>\n<p>Ao oficial pareceu melhor sondar-lhe mais diretamente o cora\u00e7\u00e3o. Acabada uma valsa, dirigiram-se para uma saleta menos freq\u00fcentada.<\/p>\n<p>\u2014 Quer descansar um pouco?<\/p>\n<p>\u2014 Dois minutos apenas.<\/p>\n<p>Sentaram-se no sof\u00e1, que ficava perto de uma janela. Lu\u00eds Pinto quis fechar a janela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, disse Madalena, n\u00e3o me faz mal; sento-me aqui deste lado, e gozo ao mesmo tempo a vista da lua, que est\u00e1 deliciosa.<\/p>\n<p>\u2014 Deliciosa! respondeu o oficial maquinalmente.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o senhor parece que preferia dan\u00e7ar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu?<\/p>\n<p>\u2014 Vejo que gosta de dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>\u2014 Conforme a ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Eu gosto, confesso; meu estado n\u00e3o me permite fazer o que eu fazia outrora. Mas dan\u00e7o alguma coisa. Pare\u00e7o-lhe rid\u00edcula, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Lu\u00eds Pinto protestou contra semelhante id\u00e9ia. A vi\u00fava continuou a falar da dan\u00e7a, da noite e da reuni\u00e3o. De quando em quando ca\u00edam os dois em sil\u00eancio mais ou menos prolongado, o que deu id\u00e9ia a Lu\u00eds Pinto de fazer a seguinte observa\u00e7\u00e3o entre risonho e s\u00e9rio:<\/p>\n<p>\u2014 Calamo-nos \u00e0s vezes como se f\u00f4ramos dois namorados.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, respondeu Madalena, sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe? murmurou o oficial a medo.<\/p>\n<p>A vi\u00fava sorriu s\u00f3, mas n\u00e3o respondeu. Levantou-se; o oficial deu-lhe o bra\u00e7o. Passearam algum tempo, mais tempo do que lhes pareceu a eles, porque a conversa interessava-os realmente, at\u00e9 que ela se retirou para casa. Caminhando, Lu\u00eds Pinto fez a reflex\u00e3o seguinte:<\/p>\n<p>\u2014 Por que hei de estar com meias palavras? N\u00e3o \u00e9 melhor decidir tudo, cortar por uma dificuldade que ali\u00e1s n\u00e3o existe? Ambos somos livres; tivemos um passado&#8230; Sim, \u00e9 necess\u00e1rio dizer-lhe tudo.<\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o era mais de assentar que de executar. Lu\u00eds Pinto tentou tr\u00eas vezes falar francamente no assunto, mas em todas as tr\u00eas vezes n\u00e3o passou do intr\u00f3ito. N\u00e3o em como\u00e7\u00e3o, era frouxid\u00e3o. Talvez o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o ajudasse a l\u00edngua como convinha. Pela sua parte, a vi\u00fava compreendera a inten\u00e7\u00e3o do oficial de marinha, mas n\u00e3o lhe estava bem ir-lhe ao encontro. Auxili\u00e1-la, sim; mas tamb\u00e9m ela sentia a l\u00edngua frouxa.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, depois de um jantar em casa de terceiro, Lu\u00eds Pinto achou uma porta aberta e meteu-se por ela. Achavam-se um pouco separados da outra gente, posto que na mesma sala. N\u00e3o h\u00e1 nada como um bom jantar para dar anima\u00e7\u00e3o a um homem, e faz\u00ea-lo expansivo, quaisquer que sejam as circunst\u00e2ncias ou a irresolu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Ora, Lu\u00eds Pinto jantara largamente, apesar de namorado, donde se pode concluir que amar \u00e9 uma coisa, e comer \u00e9 outra, e que n\u00e3o sendo a mesma coisa o cora\u00e7\u00e3o e o est\u00f4mago, ambos podem funcionar simultaneamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o ouso dizer o estado de Madalena. De ordin\u00e1rio, as hero\u00ednas de romance comem pouco ou n\u00e3o comem nada. Ningu\u00e9m admite, em mulheres, ternura e arroz de forno. Helo\u00edsa, e mais existiu, nunca soube de certo o que era recheio de peru, ou mesmo trouxas d\u2019<\/p>\n<p>Estavam os dois como disse a falar de coisas estranhas ao cora\u00e7\u00e3o quando Lu\u00eds Pinto arriscou a pergunta seguinte:<\/p>\n<p>\u2014 Nunca pensou em casar outra vez?<\/p>\n<p>Madalena estremeceu um pouco.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca! disse ela da\u00ed a alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Nem casar\u00e1?<\/p>\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Tudo depende&#8230;<\/p>\n<p>Novo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Depende? repetiu o oficial.<\/p>\n<p>\u2014 Depende das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>\u2014 Quais ser\u00e3o essas circunst\u00e2ncias? perguntou Lu\u00eds Pinto sorrindo.<\/p>\n<p>Madalena sorriu igualmente.<\/p>\n<p>\u2014 Ora! disse ela, s\u00e3o as circunst\u00e2ncias que produzem todos os casamentos.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Pinto calou-se. Minutos depois:<\/p>\n<p>\u2014 Lembra-me agora que a senhora podia estar casada.<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>A pergunta pareceu perturbar o mo\u00e7o, que n\u00e3o lhe respondeu logo. A vi\u00fava repetiu a pergunta.<\/p>\n<p>\u2014 Melhor \u00e9 n\u00e3o falar do passado, disse ele enfim.<\/p>\n<p>Desta vez foi a vi\u00fava que n\u00e3o respondeu. Os dois ficaram calados algum tempo at\u00e9 que ela levantou-se para ir falar \u00e0 dona da casa. Daqui a vinte minutos acharam-se outra vez ao p\u00e9 um do outro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me responde? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 A qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Ao que lhe disse h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me fez nenhuma pergunta.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade mas fiz uma observa\u00e7\u00e3o. Concorda com ela?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a calou-se.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei que n\u00e3o concorda, observou o oficial de marinha.<\/p>\n<p>\u2014 Quem lhe disse isso?<\/p>\n<p>\u2014 Ah! concorda?<\/p>\n<p>Madalena fez um gesto de impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o declarei nada, respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, mas conclu\u00ed.<\/p>\n<p>\u2014 Concluiu mal. N\u00e3o tem nada que concluir, porque nada disse; limitei-me a calar.<\/p>\n<p>Lu\u00eds pinto ficou um pouco desconsolado.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a consolou-o dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 sempre mau falar do passado.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez, murmurou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Se foi triste, para que record\u00e1-lo? Se foi venturoso, para que amargurar mais a hora presente?<\/p>\n<p>\u2014 Sim? mas se for poss\u00edvel reproduzi-lo?<\/p>\n<p>\u2014 Reproduzi-lo?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>\u2014 Pergunte a si mesma.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 perguntei.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! exclamou Lu\u00eds Pinto.<\/p>\n<p>A vi\u00fava compreendeu que ele lhe supunha uma preocupa\u00e7\u00e3o anterior e entendeu que devia dissuadi-lo disso.<\/p>\n<p>\u2014 Perguntei agora mesmo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E que responde?<\/p>\n<p>\u2014 Respondo&#8230;<\/p>\n<p>Vieram convid\u00e1-la para cantar. Madalena levantou-se, e Lu\u00eds Pinto deu a todos os diabos o convite e a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Felizmente Madalena cantava como um anjo. Lu\u00eds Pinto ficou encantado com ouvi-la.<\/p>\n<p>Nessa noite, por\u00e9m, foi-lhe imposs\u00edvel encontrar-se mais a s\u00f3s com ela, ou porque as circunst\u00e2ncias o n\u00e3o permitiam, ou porque ela mesma se esquivasse a encontrar-se com ele.<\/p>\n<p>O oficial desesperou.<\/p>\n<p>Teve, por\u00e9m, uma grande consola\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda. A vi\u00fava, quando se despediu dele, fitou-o calada durante alguns minutos, e disse em tom significativo:<\/p>\n<p>\u2014 Talvez!<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>Lu\u00eds Pinto foi para casa satisfeito. Aquele talvez era tudo ou quase tudo.<\/p>\n<p>No dia seguinte foi visitar a vi\u00fava. A mo\u00e7a recebeu-o com o mais amor\u00e1vel de seus sorrisos.<\/p>\n<p>\u2014 Repete-me a palavra de ontem?<\/p>\n<p>\u2014 Qual palavra? perguntou Madalena.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Pinto franziu o sobrolho e n\u00e3o respondeu. Nessa ocasi\u00e3o entrou na sala o filho da vi\u00fava; esta beijou-o com ternura de m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Quer que repita a palavra?<\/p>\n<p>\u2014 Desejava.<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim.<\/p>\n<p>\u2014 Repete?<\/p>\n<p>\u2014 Repito.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos l\u00e1! Pode reproduzir-se o passado?<\/p>\n<p>\u2014 Talvez.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o afirma?<\/p>\n<p>\u2014 Nada se pode afirmar.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 em nossas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Sermos felizes.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! eu sou muito feliz! disse a vi\u00fava beijando o filho.<\/p>\n<p>\u2014 Sermos felizes os tr\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 feliz?<\/p>\n<p>\u2014 Incompletamente.<\/p>\n<p>Daqui a um pedido de casamento s\u00f3 havia um passo; e o conto acabaria a\u00ed, se pudesse acabar. Mas o conto n\u00e3o acabou, ou n\u00e3o acabou logo, conforme se ver\u00e1 das poucas linhas que vou ainda escrever.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Pinto n\u00e3o a pediu logo. Havia certeza de que o casamento era o natural desfecho da situa\u00e7\u00e3o. O oficial de marinha n\u00e3o se achou com \u00e2nimo de precipit\u00e1-lo. Os dias corriam-lhe agora suaves e felizes; ele ia todos os dias v\u00ea-la ou tr\u00eas vezes por semana, pelo menos. Encontravam-se muitas vezes em reuni\u00f5es e ali conversavam \u00e0 larga. O singular era que n\u00e3o falavam de si como acontece com os demais namorados. N\u00e3o falavam tamb\u00e9m do casamento. Gostavam de falar porque eram ambos am\u00e1veis e bons palestradores. Lu\u00eds Pinto reconheceu isto mesmo, uma noite em que se retirava para casa.<\/p>\n<p>Dois meses haviam corrido depois do \u00faltimo col\u00f3quio acima narrado, quando Lu\u00eds Pinto ouviu ao comendador a pergunta seguinte:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o parece que D. Madalena tem fuma\u00e7as de casar?<\/p>\n<p>\u2014 De casar? N\u00e3o admira; est\u00e1 mo\u00e7a e \u00e9 bonita.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Casar com quem?<\/p>\n<p>\u2014 Com o dr. \u00c1lvares.<\/p>\n<p>\u2014 O dr. \u00c1lvares!<\/p>\n<p>Lu\u00eds Pinto fez aquela exclama\u00e7\u00e3o de um modo que o comendador desconfiou alguma coisa a seu respeito.<\/p>\n<p>\u2014 Admira-se? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Ignorava o que me est\u00e1 dizendo.<\/p>\n<p>O dr. \u00c1lvares, de quem se fala agora no fim, e cuja presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria no caso, era um m\u00e9dico do Norte. Lu\u00eds Pinto n\u00e3o descobrira, nem a not\u00edcia do comendador podia ser tomada ao p\u00e9 da letra. N\u00e3o havia projeto de casamento; e aparentemente podia dizer-se que nem namoro havia. Contudo, Lu\u00eds Pinto procurou observar e nada viu.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe o que me disseram? perguntou ele da\u00ed a duas semanas a Madalena.<\/p>\n<p>\u2014 Que foi?<\/p>\n<p>\u2014 Disseram-me que ia casar com o dr. \u00c1lvares.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a n\u00e3o respondeu. O sil\u00eancio era constrangido; Lu\u00eds Pinto desconfiou que a not\u00edcia era verdadeira.<\/p>\n<p>Era verdadeira.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois daquela conversa, Madalena anunciou \u00e0s pessoas de suas rela\u00e7\u00f5es que ia casar com o dr. \u00c1lvares.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Pinto devia, n\u00e3o digo morrer, mas ficar abatido e triste. Nem triste, nem abatido. N\u00e3o ficou coisa nenhuma. Deixou de assistir ao casamento, por um simples escr\u00fapulo; e teve pena, de n\u00e3o ir comer os bolinhos das bodas.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 ent\u00e3o a moralidade do conto? A moralidade \u00e9 que n\u00e3o basta amar muito um dia para amar sempre o mesmo objeto, e que um homem pode fazer sacrif\u00edcios por uma fortuna, que mais tarde ver\u00e1 ir-se-lhe das m\u00e3os sem m\u00e1goas nem ressentimento.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1876 Acabara o jantar \u00e0s seis horas e meia. Era dia; a mor parte dos convivas descera \u00e0 ch\u00e1cara. 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