{"id":117571,"date":"2017-04-03T18:13:04","date_gmt":"2017-04-03T20:13:04","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117571"},"modified":"2017-04-03T18:13:04","modified_gmt":"2017-04-03T20:13:04","slug":"o-pais-das-quimeras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-pais-das-quimeras","title":{"rendered":"O Pa\u00eds das Quimeras"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Publicado originalmente em O Futuro 1862<\/p>\n<p>(CONTO FANT\u00c1STICO)<\/p>\n<p>Arrependera-se Cat\u00e3o de haver ido algumas vezes por mar quando podia ir por terra. O virtuoso romano tinha raz\u00e3o. Os carinhos de Anfitrite s\u00e3o um tanto raivosos, e muitas vezes funestos. Os feitos mar\u00edtimos dobram de valia por esta circunst\u00e2ncia, e \u00e9 tamb\u00e9m por esta circunst\u00e2ncia que se esquivam de navegar as almas pacatas, ou, para falar mais decentemente, os esp\u00edritos prudentes e seguros.<\/p>\n<p>Mas, para justificar o prov\u00e9rbio que diz: debaixo dos p\u00e9s se levantam os trabalhos \u2014 a via terrestre n\u00e3o \u00e9 absolutamente mais segura que a via mar\u00edtima, e a hist\u00f3ria dos caminhos de ferro, pequena embora, conta j\u00e1 n\u00e3o poucos e tristes epis\u00f3dios.<\/p>\n<p>Absorto nestas e noutras reflex\u00f5es estava o meu amigo Tito, poeta aos vinte anos, sem dinheiro e sem bigode, sentado \u00e0 mesa carunchosa do trabalho, onde ardia silenciosamente uma vela.<\/p>\n<p>Devo proceder ao retrato f\u00edsico e moral do meu amigo Tito.<\/p>\n<p>Tito n\u00e3o \u00e9 nem alto nem baixo, o que equivale a dizer que \u00e9 de estatura mediana, a qual estatura \u00e9 aquela que se pode chamar francamente elegante na minha opini\u00e3o. Possuindo um semblante ang\u00e9lico, uns olhos meigos e profundos, o nariz descendente leg\u00edtimo e direto do de Alcib\u00edades, a boca graciosa, a fronte larga como o verdadeiro trono do pensamento, Tito pode servir de modelo \u00e0 pintura e de objeto amado aos cora\u00e7\u00f5es de quinze e mesmo de vinte anos.<\/p>\n<p>Como as medalhas, e como todas as coisas deste mundo de compensa\u00e7\u00f5es, Tito tem um reverso. Oh! triste coisa que \u00e9 o reverso das medalhas! Podendo ser, do colo para cima, modelo \u00e0 pintura, Tito \u00e9 uma lastimosa pessoa no que toca ao resto. P\u00e9s prodigiosamente tortos, pernas zambras, tais s\u00e3o os contras que a pessoa do meu amigo oferece a quem se extasia diante dos magn\u00edficos pr\u00f3s da cara e da cabe\u00e7a. Parece que a natureza se dividira para dar a Tito o que tinha de melhor e o que tinha de pior, e p\u00f4-lo na miser\u00e1vel e desconsoladora condi\u00e7\u00e3o do pav\u00e3o, que se enfeita e contempla radioso, mas cujo orgulho se abate e desfalece quando olha para as pernas e para os p\u00e9s.<\/p>\n<p>No moral Tito apresenta o mesmo aspecto duplo do f\u00edsico. N\u00e3o tem v\u00edcios, mas tem fraquezas de car\u00e1ter que quebram, um tanto ou quanto, as virtudes que o enobrecem. \u00c9 bom e tem a virtude evang\u00e9lica da caridade; sabe, como o divino Mestre, partir o p\u00e3o da subsist\u00eancia e dar de comer ao faminto, com verdadeiro j\u00fabilo de consci\u00eancia e de cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o consta, al\u00e9m disso, que jamais fizesse mal ao mais impertinente bicho, ou ao mais insolente homem, duas coisas id\u00eanticas, nos curtos dias da sua vida. Pelo contr\u00e1rio, conta-se que a sua piedade e bons instintos o levaram uma vez a ficar quase esmagado, procurando salvar da morte uma galga que dormia na rua, e sobre a qual ia quase passando um carro. A galga, salva por Tito, afei\u00e7oou-se-lhe tanto que nunca mais o deixou; \u00e0 hora em que o vemos absorto em pensamentos vagos est\u00e1 ela estendida sobre a mesa a contempl\u00e1-lo grave e sisuda.<\/p>\n<p>S\u00f3 h\u00e1 que censurar em Tito as fraquezas de car\u00e1ter, e deve-se crer que elas s\u00e3o filhas mesmo das suas virtudes. Tito vendia outrora as produ\u00e7\u00f5es da sua musa, n\u00e3o por meio de uma permuta leg\u00edtima de livro e moeda, mas por um meio desonroso e nada digno de um filho de Apolo. As vendas que fazia eram absolutas, isto \u00e9, trocando por dinheiro os seus versos, o poeta perdia o direito da paternidade sobre essas produ\u00e7\u00f5es. S\u00f3 tinha um fregu\u00eas; era um sujeito rico, man\u00edaco pela fama de poeta, e que, sabendo da facilidade com que Tito rimava, apresentou-se um dia no modesto albergue do poeta e entabulou a negocia\u00e7\u00e3o por estes termos:<\/p>\n<p>\u2014 Meu caro, venho propor-lhe um neg\u00f3cio da China.<\/p>\n<p>\u2014 Pode falar, respondeu Tito.<\/p>\n<p>\u2014 Ouvi dizer que voc\u00ea fazia versos&#8230; \u00c9 verdade?<\/p>\n<p>Tito conteve-se a custo diante da familiaridade do tratamento, e respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem. Proponho-lhe o seguinte: compro-lhe por bom pre\u00e7o todos os seus versos, n\u00e3o os feitos, mas os que fizer de hoje em diante, com a condi\u00e7\u00e3o de que os hei de dar \u00e0 estampa como obra da minha lavra. N\u00e3o ponho outras condi\u00e7\u00f5es ao neg\u00f3cio: advirto-lhe, por\u00e9m, que prefiro as odes e as poesias de sentimento. Quer?<\/p>\n<p>Quando o sujeito acabou de falar, Tito levantou-se e com um gesto mandou-o sair. O sujeito pressentiu que, se n\u00e3o sa\u00edsse logo, as coisas poderiam acabar mal. Preferiu tomar o caminho da porta, dizendo entre dentes: \u201c<\/p>\n<p>O meu poeta esqueceu no dia seguinte a aventura da v\u00e9spera, mas os dias passaram-se e as necessidades urgentes apresentaram-se \u00e0 porta com o olhar suplicante e as m\u00e3os amea\u00e7adoras. Ele n\u00e3o tinha recursos; depois de uma noite atribulada, lembrou-se do sujeito, e tratou de procur\u00e1-lo; disse-lhe quem era, e que estava disposto a aceitar o neg\u00f3cio; o sujeito, rindo-se com um riso diab\u00f3lico, fez o primeiro adiantamento, sob a condi\u00e7\u00e3o de que o poeta lhe levaria no dia seguinte uma ode aos Polacos. Tito passou a noite a arregimentar palavras sem id\u00e9ia, tal era seu estado, e no dia seguinte levou a obra ao fregu\u00eas, que achou boa e dignou-se apertar-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a face moral de Tito. A virtude de ser pagador em dia levava-o a mercar com os dons de Deus; e ainda assim vemos n\u00f3s que ele resistiu, e s\u00f3 foi vencido quando se achou com a corda ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>A mesa \u00e0 qual Tito estava encostado era um traste velho e de lavor antigo; herdara-a de uma tia que lhe havia morrido fazia dez anos. Um tinteiro de osso, uma pena de ave, algum papel, eis os instrumentos de trabalho de Tito. Duas cadeiras e uma cama completavam a sua mob\u00edlia. J\u00e1 falei na vela e na galga.<\/p>\n<p>\u00c0 hora em que Tito se engolfava em reflex\u00f5es e fantasias era noite alta. A chuva ca\u00eda com viol\u00eancia, e os rel\u00e2mpagos que de instante a instante rompiam o c\u00e9u deixavam ver o horizonte pejado de nuvens negras e t\u00fami-das. Tito nada via, porque estava com a cabe\u00e7a encostada nos bra\u00e7os, e estes sobre a mesa; e \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o ouvisse, porque se entretinha em refletir nos perigos que oferecem os diferentes modos de viajar.<\/p>\n<p>Mas qual o motivo destes pensamentos em que se engolfava o poeta? \u00c9 isso que eu vou explicar \u00e0 legitima curiosidade dos leitores. Tito, como todos os homens de vinte anos, poetas e n\u00e3o poetas, sentia-se afetado da doen\u00e7a do amor. Uns olhos pretos, um porte senhoril, uma vis\u00e3o, uma criatura celestial, qualquer coisa por este teor, havia influ\u00eddo por tal modo no cora\u00e7\u00e3o de Tito, que o pusera, pode-se dizer, \u00e0 beira da sepultura. O amor em Tito come\u00e7ou por uma febre; esteve tr\u00eas dias de cama, e foi curado (da febre e n\u00e3o do amor) por uma velha da vizinhan\u00e7a, que conhecia o segredo das plantas virtuosas, e que p\u00f4s o meu poeta de p\u00e9, com o que adquiriu mais um t\u00edtulo \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o de feiticeira, que os seus milagrosos curativos lhe haviam granjeado.<\/p>\n<p>Passado o per\u00edodo agudo da doen\u00e7a, ficou-lhe este resto de amor, que, apesar da calma e da placidez, nada perde da sua intensidade. Tito estava ardentemente apaixonado, e desde ent\u00e3o come\u00e7ou a defraudar o fregu\u00eas das odes, subtraindo-lhe algumas estrofes inflamadas, que dedicava ao objeto dos seus \u00edntimos pensamentos, tal qual como aquele sr.d\u2019alma, e quando ele acabou de falar disse-lhe que era melhor voltar \u00e0 vida real, e deixar musas e amores, para cuidar do alinho da pr\u00f3pria pessoa. N\u00e3o presuma o leitor que a dama de quem lhe falo tinha a vida t\u00e3o desenvolta como a l\u00edngua. Era, pelo contr\u00e1rio, um modelo da mais ser\u00e1fica pureza e do mais perfeito recato de costumes; recebera a educa\u00e7\u00e3o austera de seu pai, antigo capit\u00e3o de mil\u00edcias, homem de incr\u00edvel boa f\u00e9, que, neste s\u00e9culo desabusado, ainda acreditava em duas coisas: nos programas pol\u00edticos e nas cebolas do Egito.<\/p>\n<p>Desenganado de uma vez nas suas pretens\u00f5es, Tito n\u00e3o teve for\u00e7a de \u00e2nimo para varrer da mem\u00f3ria a filha do militar: e a resposta crua e desapiedada da mo\u00e7a estava-lhe no cora\u00e7\u00e3o como um punhal frio e penetrante. Tentou arranc\u00e1-lo, mas a lembran\u00e7a, viva sempre, como ara de Vesta, trazia-lhe as fatais palavras ao meio das suas horas mais alegres ou menos tristes da sua vida, como aviso de que a sua satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia durar e que a tristeza era o fundo real dos seus dias. Era assim que os eg\u00edpcios mandavam p\u00f4r um sarc\u00f3fago no meio de um festim, como lembran\u00e7a de que a vida \u00e9 transit\u00f3ria, e que s\u00f3 na sepultura existe a grande e eterna verdade.<\/p>\n<p>Quando, depois de voltar a si, Tito conseguiu encadear duas id\u00e9ias e tirar delas uma conseq\u00fc\u00eancia, dois projetos se lhe apresentaram, qual mais pr\u00f3prio a granjear-lhe a vilta de pusil\u00e2nime; um conclu\u00eda pela trag\u00e9dia, outro pela asneira; triste alternativa dos cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o compreendidos! O primeiro desses projetos era simplesmente deixar este mundo; o outro, limitava-se a uma viagem, que o poeta faria por mar ou por terra, a fim de deixar por algum tempo a capital. J\u00e1 o poeta abandonava o primeiro por ach\u00e1-lo sanguinolento e definitivo; o segundo parecia-lhe melhor, mais consent\u00e2neo com a sua dignidade e sobretudo com os seus instintos de conserva\u00e7\u00e3o. Mas qual o meio de mudar de s\u00edtio? Tomaria por terra? tomaria por mar? Qualquer destes dois meios tinha seus inconvenientes. Estava o poeta nestas averigua\u00e7\u00f5es, quando ouviu que batiam \u00e0 porta tr\u00eas pancadinhas. Quem seria? Quem poderia ir procurar o poeta \u00e0quela hora? Lembrou-se que tinha umas encomendas do homem das odes e foi abrir a porta disposto a ouvir resignado a muito plaus\u00edvel sarabanda que ele lhe vinha naturalmente pregar. Mas, \u00f3 pasmo! mal o poeta abriu a porta, eis que uma s\u00edlfide, uma criatura celestial, vaporosa, fant\u00e1stica, trajando vestes alvas, nem bem de pano, nem bem de n\u00e9voas, uma coisa entre as duas esp\u00e9cies, p\u00e9s al\u00edgeros, rosto sereno e insinuante, olhos negros e cintilantes, cachos louros do mais leve e delicado cabelo, a ca\u00edrem-lhe graciosos pelas esp\u00e1duas nuas, divinas, como as tuas, \u00f3 Afrodite! eis que uma criatura assim invade o aposento do poeta e, estendendo a m\u00e3o, ordena-lhe que feche a porta e tome assento \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>Tito estava assombrado. Maquinalmente voltou ao seu lugar sem tirar os olhos da vis\u00e3o. Esta sentou-se defronte dele e come\u00e7ou a brincar com a galga que dava mostras de n\u00e3o usado contentamento. Passaram-se nisto dez minutos; depois do que a peregrina singular criatura cravando os seus olhos nos do poeta, perguntou-lhe com uma do\u00e7ura de voz nunca ouvida:<\/p>\n<p>\u2014 Em que pensas, poeta? Pranteias algum amor mal parado? Sofres com a injusti\u00e7a dos homens? D\u00f3i-te a desgra\u00e7a alheia, ou \u00e9 a pr\u00f3pria que te sombreia a fronte?<\/p>\n<p>Esta indaga\u00e7\u00e3o era feita de um modo t\u00e3o insinuante que Tito sem inquirir o motivo de curiosidade, respondeu imediatamente:<\/p>\n<p>\u2014 Penso na injusti\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 contradit\u00f3ria a express\u00e3o; Deus \u00e9 a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9. Se fosse teria repartido irm\u00e3mente a ternura pelos cora\u00e7\u00f5es e n\u00e3o consentiria que um ardesse inutilmente pelo outro. O fen\u00f4meno da simpatia devia ser sempre rec\u00edproco, de maneira que a mulher n\u00e3o pudesse olhar com frieza para o homem, quando o homem levantasse olhos de amor para ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9s tu quem fala, poeta. \u00c9 o teu amor-pr\u00f3prio ferido pela m\u00e1 paga do teu afeto. Mas de que te servem as musas? Entra no santu\u00e1rio da poesia, engolfa-te no seio da inspira\u00e7\u00e3o, esquecer\u00e1s a\u00ed a dor da chaga que o mundo te abriu.<\/p>\n<p>\u2014 Coitado de mim, respondeu o poeta, que tenho a poesia fria, e apagada a inspira\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 De que precisas tu para dar vida \u00e0 poesia e \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Preciso do que me falta&#8230; e falta-me tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo? \u00c9s exagerado. Tens o selo com que Deus te distinguiu dos outros homens e isso te basta. Cismavas em deixar esta terra?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Bem; venho a prop\u00f3sito. Queres ir comigo?<\/p>\n<p>\u2014 Para onde?<\/p>\n<p>\u2014 Que importa? Queres vir?<\/p>\n<p>\u2014 Quero. Assim me distrairei. Partiremos amanh\u00e3. \u00c9 por mar, ou por terra?<\/p>\n<p>\u2014 Nem amanh\u00e3, nem por mar, nem por terra; mas hoje, e pelo ar.<\/p>\n<p>Tito levantou-se e recuou. A vis\u00e3o levantou-se tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Tens medo? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Medo, n\u00e3o, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vamos. Faremos uma deliciosa viagem.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se Tito esperava um bal\u00e3o para a viagem a\u00e9rea a que o convidava a inesperada visita; mas, o que \u00e9 certo, \u00e9 que os seus olhos se arregalaram prodigiosamente quando viu abrirem-se das esp\u00e1duas da vis\u00e3o duas longas e brancas asas que ela come\u00e7ou a agitar e das quais ca\u00eda uma poeira de ouro.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, disse a vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Tito repetiu maquinalmente:<\/p>\n<p>\u2014 Vamos!<\/p>\n<p>E ela tomou-o nos bra\u00e7os, subiu com ele at\u00e9 o teto, que se rasgou, e passaram ambos, vis\u00e3o e poeta. A tempestade tinha, como por encanto, cessado; estava o c\u00e9u limpo, transparente, luminoso, verdadeiramente celeste, enfim. As estrelas fulgiam com a sua melhor luz, e um luar branco e po\u00e9tico ca\u00eda sobre os telhados das casas e sobre as flores e a relva dos campos.<\/p>\n<p>Os dois subiram.<\/p>\n<p>Durou a ascens\u00e3o algum tempo. Tito n\u00e3o podia pensar; ia atordoado, e subia sem saber para onde, nem a raz\u00e3o por qu\u00ea. Sentia que o vento agitava os cabelos louros da vis\u00e3o, e que eles lhe batiam docemente na face, do que resultava uma exala\u00e7\u00e3o celeste que embriagava e adormecia. O ar estava puro e fresco. Tito, que se havia distra\u00eddo algum tempo da ocupa\u00e7\u00e3o das musas no estudo das leis f\u00edsicas, contava que, naquele subir continuado, breve chegariam a sentir os efeitos da rarefa\u00e7\u00e3o da atmosfera. Engano dele! Subiam sempre, e muito, mas a atmosfera conservava-se sempre a mesma, e quanto mais ele subia melhor respirava.<\/p>\n<p>Isto passou r\u00e1pido pela mente do poeta. Como disse, ele n\u00e3o pensava; ia subindo sem olhar para a terra. E para que olharia para a terra? A vis\u00e3o n\u00e3o podia conduzi-lo sen\u00e3o ao c\u00e9u.<\/p>\n<p>Em breve come\u00e7ou Tito a ver os planetas fronte por fronte. Era j\u00e1 sobre a madrugada. V\u00eanus, mais p\u00e1lida e loura que de costume, ofuscava as estrelas com o seu clar\u00e3o e com a sua beleza. Tito teve um olhar de admira\u00e7\u00e3o para a deusa da manh\u00e3. Mas subia, subiam sempre. Os planetas passavam \u00e0 ilharga do poeta, como se fossem corc\u00e9is desenfreados. Afinal penetraram em uma regi\u00e3o inteiramente diversa das que haviam atravessado naquela assombrosa viagem. Tito sentia expandir-se-lhe a alma na nova atmosfera. Seria aquilo o c\u00e9u? O poeta n\u00e3o ousava perguntar, e mudo esperava o termo da viagem. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o que penetravam nessa regi\u00e3o ia-se a alma do poeta rompendo em j\u00fabilo; da\u00ed a algum tempo entravam em um planeta; a fada dep\u00f4s o poeta e come\u00e7aram a fazer o trajeto a p\u00e9.<\/p>\n<p>Caminhando, os objetos, at\u00e9 ent\u00e3o vistos atrav\u00e9s de um nevoeiro, tomavam aspecto de coisas reais. Tito p\u00f4de ver ent\u00e3o que se achava em uma nova terra, a todos os respeitos estranha: o primeiro aspecto vencia ao que oferece a po\u00e9tica Istambul ou a po\u00e9tica N\u00e1poles. Mais entravam, por\u00e9m, mais os objetos tomavam o aspecto da realidade. Assim chegaram \u00e0 grande pra\u00e7a onde estavam constru\u00eddos os reais pa\u00e7os. A habita\u00e7\u00e3o r\u00e9gia era, por assim dizer, uma reuni\u00e3o de todas as ordens arquitet\u00f4nicas, sem excluir a chinesa, sendo de notar que esta \u00faltima fazia n\u00e3o mediana despesa na estrutura do pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>Tito quis sair da \u00e2nsia em que estava por saber em que pa\u00eds acabava de entrar, e aventurou uma pergunta \u00e0 sua companheira.<\/p>\n<p>\u2014 Estamos no pa\u00eds das Quimeras, respondeu ela.<\/p>\n<p>\u2014 No pa\u00eds das Quimeras?<\/p>\n<p>\u2014 Das Quimeras. Pa\u00eds para onde viaja tr\u00eas quartas partes do g\u00eanero humano, mas que n\u00e3o se acha consignado nas t\u00e1buas da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Tito contentou-se com a explica\u00e7\u00e3o. Mas refletiu sobre o caso. Por que motivo iria parar ali? A que era levado? Estava nisto quando a fada o advertiu de que eram chegados \u00e0 porta do pal\u00e1cio. No vest\u00edbulo havia uns vinte ou trinta soldados que fumavam em grosso cachimbo de escuma do mar, e que se embriagavam com outros tantos padix\u00e1s, na contempla\u00e7\u00e3o dos novelos de fumo azul e branco que lhe sa\u00edam da boca. \u00c0 entrada dos dois houve contin\u00eancia militar. Subiram pela grande escadaria, e foram ter aos andares superiores.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos falar aos soberanos, disse a companheira do poeta. Atravessaram muitas salas e galerias. Todas as paredes, como no poema de Dinis, eram forradas de papel prateado e lantejoulas.<\/p>\n<p>Afinal penetraram na grande sala. O g\u00eanio das bagatelas, de que fala Elpino, estava sentado em um trono de casquinha, tendo de ornamento dois pav\u00f5es, um de cada lado. O pr\u00f3prio soberano tinha por coifa um pav\u00e3o vivo, atado pelos p\u00e9s a uma esp\u00e9cie de solid\u00e9u, maior que os dos nossos padres, o qual por sua vez ficava firme na cabe\u00e7a por meio de duas largas fitas amarelas, que vinham atar-se debaixo dos reais queixos. Coifa id\u00eantica adornava a cabe\u00e7a dos g\u00eanios da corte, que correspondem aos viscondes deste mundo e que cercavam o trono do brilhante rei. Todos aqueles pav\u00f5es, de minuto a minuto, armavam-se, apavoneavam-se, e davam os guinchos do costume.<\/p>\n<p>Quando Tito entrou na grande sala pela m\u00e3o da vis\u00e3o, houve um murm\u00fario entre os fidalgos quim\u00e9ricos. A vis\u00e3o declarou que ia apresentar um filho da terra. Seguiu-se a cerim\u00f4nia da apresenta\u00e7\u00e3o, que era uma enfiada de cortesias, passagens e outras coisas quim\u00e9ricas, sem excluir a formalidade do beija-m\u00e3o. N\u00e3o se pense que Tito foi o \u00fanico a beijar a m\u00e3o ao g\u00eanio soberano; todos os presentes fizeram o mesmo, porque, segundo Tito ouviu depois, n\u00e3o se d\u00e1 naquele pa\u00eds o ato mais insignificante sem que esta formalidade seja preenchida.<\/p>\n<p>Depois da cerim\u00f4nia da apresenta\u00e7\u00e3o perguntou o soberano ao poeta que tratamento tinha na terra, para dar-se-lhe cicerone correspondente.<\/p>\n<p>\u2014 Eu, disse Tito, tenho, se tanto, uma triste Merc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 isso? Pois h\u00e1 de ter o desprazer de ser acompanhado pelo cicerone comum. N\u00f3s temos c\u00e1 a Senhoria, a Excel\u00eancia, a Grandeza, e outras mais; mas, quanto \u00e0 Merc\u00ea, essa, tendo habitado algum tempo este pa\u00eds, tornou-se t\u00e3o pouco \u00fatil que julguei melhor despedi-la.<\/p>\n<p>A este tempo a Senhoria e a Excel\u00eancia, duas criaturas empertigadas, que se haviam aproximado do poeta, voltaram-lhe as costas, encolhendo os ombros e deitando-lhe um olhar de trav\u00e9s com a maior express\u00e3o de desd\u00e9m e pouco caso.<\/p>\n<p>Tito quis perguntar \u00e0 sua companheira o motivo deste ato daquelas duas quim\u00e9ricas pessoas; mas a vis\u00e3o puxou-lhe pelo bra\u00e7o, e fez-lhe ver com um gesto que estava desatendendo ao G\u00eanio das Bagatelas, cujos sobrolhos se contra\u00edram, como dizem os poetas antigos que se contra\u00edam os de J\u00fapiter Tonante.<\/p>\n<p>Neste momento entrou um bando de mo\u00e7oilas frescas, l\u00e9pidas, bonitas e louras&#8230; oh! mas de um louro que se n\u00e3o conhece entre n\u00f3s, os filhos da terra! Entraram elas a correr, com a agilidade de andorinhas que voam; e depois de apertarem galhofeiramente a m\u00e3o aos g\u00eanios da corte foram ao G\u00eanio soberano, diante de quem fizeram umas dez ou doze mesuras.<\/p>\n<p>Quem eram aquelas raparigas? O meu poeta estava de boca aberta. Indagou da sua guia, e soube. Eram as Utopias e as Quimeras que iam da terra, onde haviam passado a noite na companhia de alguns homens e mulheres de todas as idades e condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As Utopias e as Quimeras foram festejadas pelo soberano, que se dignou sorrir-lhes e bater-lhes na face. Elas alegres e risonhas receberam os carinhos reais como coisa que lhes era devida; e depois de dez ou doze mesuras, repeti\u00e7\u00e3o das anteriores, foram-se da sala, n\u00e3o sem abra\u00e7arem ou beliscarem o meu poeta, que olhava espantado para elas sem saber por que se tornara objeto de tanta jovialidade. O seu espanto crescia de ponto quando ouvia a cada uma delas esta express\u00e3o muito usada nos bailes de m\u00e1scaras: Eu te conhe\u00e7o!<\/p>\n<p>Depois que sa\u00edram todas, o G\u00eanio fez um sinal, e toda a aten\u00e7\u00e3o concentrou-se no soberano, a ver o que ia sair-lhe dos l\u00e1bios. A expectativa foi burlada, porque o gracioso soberano apenas com um gesto indicou ao cicerone comum o misero h\u00f3spede que daqui tinha ido. Seguiu-se a cerim\u00f4nia da sa\u00edda, que durou longos minutos, em virtude das mesuras, cortesias e beija-m\u00e3o do estilo.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas, o poeta, a fada condutora e o cicerone, passaram \u00e0 sala da rainha. A real senhora era uma pessoa digna de aten\u00e7\u00e3o a todos os respeitos; era imponente e graciosa; trajava vestido de gaze e roupa da mesma fazenda, borzeguins de cetim alvo, pedras finas de todas as esp\u00e9cies e cores, nos bra\u00e7os, no pesco\u00e7o e na cabe\u00e7a; na cara trazia posturas fin\u00edssimas, e com tal arte, que parecia haver sido corada pelo pincel da natureza; dos cabelos recendiam ativos cosm\u00e9ticos e delicados \u00f3leos.<\/p>\n<p>Tito n\u00e3o disfar\u00e7ou a impress\u00e3o que lhe causava um todo assim. Voltou-se para a companheira de viagem e perguntou como se chamava aquela deusa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o a v\u00ea? respondeu a fada; n\u00e3o v\u00ea as trezentas raparigas que trabalham em torno dela? Pois ent\u00e3o? \u00e9 a Moda, cercada de suas trezentas belas, caprichosas filhas.<\/p>\n<p>A estas palavras Tito lembrou-se do Hissope. N\u00e3o duvidava j\u00e1 de que estava no pa\u00eds das Quimeras; mas, raciocinou ele, para que Dinis falasse de algumas destas coisas, \u00e9 preciso que c\u00e1 tivesse vindo e voltasse, como est\u00e1 averiguado. Portanto, n\u00e3o devo recear de c\u00e1 ficar morando eternamente. Descansado por este lado, passou a atentar para os trabalhos das companheiras da rainha; eram umas novas modas que se estavam arranjando, para vir a este mundo substituir as antigas.<\/p>\n<p>Houve apresenta\u00e7\u00e3o com o cerimonial do estilo. Tito estremeceu quando pousou os l\u00e1bios na m\u00e3o fina e macia da soberana; esta n\u00e3o reparou, porque tinha na m\u00e3o esquerda um psych\u00e9, onde se mirava de momento em momento.<\/p>\n<p>Impetraram os tr\u00eas licen\u00e7a para continuar a visita do pal\u00e1cio e seguiram pelas galerias e salas do alc\u00e1\u00e7ar. Cada sala era ocupada por um grupo de pessoas, homens ou mulheres, algumas vezes mulheres e homens, que se ocupavam nos diferentes misteres de que estavam incumbidos pela lei do pa\u00eds, ou por ordem arbitr\u00e1ria do soberano. Tito percorria essas diversas salas com o olhar espantado, estranhando o que via, aquelas ocupa\u00e7\u00f5es, aqueles costumes, aqueles caracteres. Em uma das salas um grupo de cem pessoas ocupava-se em adelga\u00e7ar uma massa branca, leve e balofa. Naturalmente este lugar \u00e9 a ucharia, pensou Tito; est\u00e3o preparando alguma iguaria singular para o almo\u00e7o do rei. Indagou do cicerone se havia acertado. O cicerone respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor; estes homens est\u00e3o ocupados em preparar massa cerebral para um certo n\u00famero de homens de todas as classes: estadistas, poetas, namorados, etc.; serve tamb\u00e9m a mulheres. Esta massa \u00e9 especialmente para aqueles que, no seu planeta, vivem com verdadeiras disposi\u00e7\u00f5es do nosso pa\u00eds, aos quais fazemos presentes deste elemento constitutivo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 massa quim\u00e9rica?<\/p>\n<p>\u2014 Da melhor que se h\u00e1 visto at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ver-se?<\/p>\n<p>O cicerone sorriu-se; chamou o chefe da sala, a quem pediu um pouco de massa. Este foi com prontid\u00e3o ao dep\u00f3sito e tirou uma por\u00e7\u00e3o que entregou a Tito. Mal o poeta a tomou das m\u00e3os do chefe desfez-se a massa, como se fora composta de fumo. Tito ficou confuso; mas o chefe, batendo-lhe no ombro:<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 descansado, disse; n\u00f3s temos \u00e0 m\u00e3o mat\u00e9ria-prima; \u00e9 da nossa pr\u00f3pria atmosfera que nos servimos; e a nossa atmosfera n\u00e3o se esgota.<\/p>\n<p>Este chefe tinha uma cara insinuante, mas, como todos os quim\u00e9ricos, era sujeito a abstra\u00e7\u00f5es, de modo que Tito n\u00e3o p\u00f4de arrancar-lhe mais uma palavra, porque ele, ao dizer as \u00faltimas, come\u00e7ou a olhar para o ar e a contemplar o v\u00f4o de uma mosca.<\/p>\n<p>Este caso atraiu os companheiros que se chegaram a ele e mergulharam-se todos na contempla\u00e7\u00e3o do alado inseto.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas continuaram caminho.<\/p>\n<p>Mais adiante era uma sala onde muitos quim\u00e9ricos, \u00e0 roda de mesas, discutiam os diferentes modos de inspirar aos diplomatas e diretores deste nosso mundo os pretextos para encher o tempo e apavorar os esp\u00edritos com futilidades e espantalhos. Esses homens tinham ares de finos e espertos. Havia ordem do soberano para n\u00e3o se entrar naquela sala em horas de trabalho; um guarda estava \u00e0 porta. A menor distra\u00e7\u00e3o daquele congresso seria considerada uma calamidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Andou o meu poeta de sala em sala, de galeria em galeria, aqui, visitando um museu, ali, um trabalho ou um jogo; teve tempo de ver tudo, de tudo examinar, com aten\u00e7\u00e3o e pelo mi\u00fado. Ao passar pela grande galeria que dava para a pra\u00e7a, viu que o povo, reunido embaixo das janelas, cercava uma forca. Era uma execu\u00e7\u00e3o que ia ter lugar. Crime de morte? perguntou Tito, que tinha a nossa legisla\u00e7\u00e3o na cabe\u00e7a. N\u00e3o, responderam-lhe, crime de lesa-cortesia. Era um quim\u00e9rico que havia cometido o crime de n\u00e3o fazer a tempo e com gra\u00e7a uma contin\u00eancia; este crime \u00e9 considerado naquele pa\u00eds como a maior aud\u00e1cia poss\u00edvel e imagin\u00e1vel. O povo quim\u00e9rico contemplou a execu\u00e7\u00e3o como se assistisse a um espet\u00e1culo de saltimbancos, entre aplausos e gritos de prazer.<\/p>\n<p>Entretanto era hora do almo\u00e7o real. \u00c0 mesa do g\u00eanio soberano s\u00f3 se sentavam o rei, a rainha, dois ministros, um m\u00e9dico e a encantadora fada que havia levado o meu poeta \u00e0quelas alturas. A fada, antes de sentar-se \u00e0 mesa, implorou do rei a merc\u00ea de admitir Tito ao almo\u00e7o; a resposta foi afirmativa; Tito tomou assento. O almo\u00e7o foi o mais sucinto e r\u00e1pido que \u00e9 poss\u00edvel imaginar. Durou alguns segundos, depois do que todos se levantaram, e abriu-se mesa para o jogo das reais pessoas; Tito foi assistir ao jogo; em roda da sala havia cadeiras, onde estavam sentadas as Utopias e as Quimeras; \u00e0s costas dessas cadeiras empertigavam-se os fidalgos quim\u00e9ricos, com os seus pav\u00f5es e as suas vestiduras de escarlate. Tito aproveitou a ocasi\u00e3o para saber como \u00e9 que o conheciam aquelas assanhadas raparigas. Encostou-se a uma cadeira e indagou da Utopia que se achava nesse lugar. Esta impetrou licen\u00e7a, e depois das formalidades do costume, retirou-se a uma das salas com o poeta, e a\u00ed perguntou-lhe :<\/p>\n<p>\u2014 Pois deveras n\u00e3o sabes quem somos? N\u00e3o nos conheces?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o as conhe\u00e7o, isto \u00e9, conhe\u00e7o-as agora, e isso d\u00e1-me verdadeiro pesar, porque quisera t\u00ea-las conhecido h\u00e1 mais tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! sempre poeta!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que deveras s\u00e3o de uma gentileza sem rival. Mas onde \u00e9 que me viram?<\/p>\n<p>\u2014 Em tua pr\u00f3pria casa.<\/p>\n<p>\u2014 Oh!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te lembras? \u00c0 noite, cansado das lutas do dia, recolhes-te ao aposento, e a\u00ed, abrindo velas ao pensamento, deixas-te ir por um mar sereno e calmo. Nessa viagem acompanham-te algumas raparigas&#8230; somos n\u00f3s, as Utopias, n\u00f3s, as Quimeras.<\/p>\n<p>Tito compreendeu afinal uma coisa que se lhe estava a dizer havia tanto tempo. Sorriu-se, e cravando os seus belos e namorados olhos nos da Utopia que tinha diante de si, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! sois v\u00f3s, \u00e9 verdade! Consoladora companhia que me distrai de todas as mis\u00e9rias e pesares. \u00c9 no seio de v\u00f3s que eu enxugo as minhas l\u00e1grimas. Ainda bem! Conforta-me ver-vos a todas de face e embaixo de forma palp\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 E queres saber, tornou a Utopia, quem nos leva a todas para tua companhia? Olha, v\u00ea.<\/p>\n<p>O poeta voltou a cabe\u00e7a e viu a peregrina vis\u00e3o, sua companheira de viagem.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u00e9 ela! disse o poeta.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade. \u00c9 a loura Fantasia, a companheira desvelada dos que pensam e dos que sentem.<\/p>\n<p>A Fantasia e a Utopia entrela\u00e7aram-se as m\u00e3os e olhavam para Tito. Este, como que enlevado, olhava para ambas. Durou isto alguns segundos; o poeta quis fazer algumas perguntas, mas quando ia falar reparou que as duas se haviam tornado mais delgadas e vaporosas. Articulou alguma coisa; por\u00e9m, vendo que elas iam ficando cada vez mais transparentes, e distinguindo-lhes j\u00e1 pouco as fei\u00e7\u00f5es, soltou estas palavras: \u2014 Ent\u00e3o! que \u00e9 isto? por que se desfazem assim? \u2014 Mais e mais as sombras desapareciam, o poeta correu \u00e0 sala do jogo; espet\u00e1culo id\u00eantico o esperava; era pavoroso; todas as figuras se desfaziam como se fossem feitas de n\u00e9voa. At\u00f4nito e palpitante, Tito percorreu algumas galerias e afinal saiu \u00e0 pra\u00e7a; todos os objetos estavam sofrendo a mesma transforma\u00e7\u00e3o. Dentro de pouco Tito sentiu que lhe faltava apoio aos p\u00e9s e viu que estava solto no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Nesta situa\u00e7\u00e3o soltou um grito de dor.<\/p>\n<p>Fechou os olhos e deixou-se ir como se tivesse de encontrar por termo de viagem a morte.<\/p>\n<p>Era na verdade o mais prov\u00e1vel. Passados alguns segundos, Tito abriu os olhos e viu que ca\u00eda perpendicularmente sobre um ponto negro que lhe parecia do tamanho de um ovo. O corpo rasgava como um raio o espa\u00e7o. O ponto negro cresceu, cresceu, e cresceu at\u00e9 fazer-se do tamanho de uma esfera. A queda do poeta tinha alguma coisa de diab\u00f3lica; ele soltava de vez em quando um gemido; o ar, batendo-lhe nos olhos, obrigava-o a fech\u00e1-los de instante a instante. Afinal, o ponto negro que havia crescido, continuava a crescer, at\u00e9 aparecer ao poeta com o aspecto da terra. \u00c9 a terra! disse Tito consigo.<\/p>\n<p>Creio que n\u00e3o haver\u00e1 express\u00e3o humana para mostrar a alegria que sentiu aquela alma, perdida no espa\u00e7o, quando reconheceu que se aproximava do planeta natal. Curta foi a alegria. Tito pensou, e pensou bem, que naquela velocidade quando tocasse em terra seria para nunca mais levantar. Teve um calafrio: viu a morte diante de si, e encomendou a alma a Deus. Assim foi, foi, ou antes, veio, veio, at\u00e9 que \u2014 milagre dos milagres! \u2014 caiu sobre uma praia, de p\u00e9, firme como se n\u00e3o houvesse dado aquele infernal salto.<\/p>\n<p>A primeira impress\u00e3o, quando se viu em terra, foi de satisfa\u00e7\u00e3o; depois tratou de ver em que regi\u00e3o do planeta se achava; podia ter ca\u00eddo na Sib\u00e9ria ou na China; verificou que se achava a dois passos de casa. Apressou-se o poeta e voltar aos seus pac\u00edficos lares.<\/p>\n<p>A vela estava gasta; a galga, estendida sob a mesa, tinha os olhos fitos na porta. Tito entrou e atirou-se sobre a cama, onde adormeceu, refletindo no que lhe acabava de acontecer.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o Tito possui um olhar de lince, e diz, \u00e0 primeira vista, se um homem traz na cabe\u00e7a miolos ou massa quim\u00e9rica. Devo declarar que poucos encontra que n\u00e3o fa\u00e7am provis\u00e3o desta \u00faltima esp\u00e9cie. Diz ele, e tenho raz\u00f5es para crer, que eu entro no n\u00famero das pouqu\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es. Em que pese aos meus desafei\u00e7oados, n\u00e3o posso retirar a minha confian\u00e7a de um homem que acaba de fazer t\u00e3o pasmosa viagem, e que p\u00f4de olhar de face o trono cintilante do rei das Bagatelas.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em O Futuro 1862 (CONTO FANT\u00c1STICO) Arrependera-se Cat\u00e3o de haver ido algumas vezes por mar quando podia ir por terra. O virtuoso romano tinha raz\u00e3o. Os carinhos de Anfitrite s\u00e3o um tanto raivosos, e muitas vezes funestos. 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