{"id":117328,"date":"2017-04-03T13:22:13","date_gmt":"2017-04-03T15:22:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117328"},"modified":"2017-04-03T13:22:13","modified_gmt":"2017-04-03T15:22:13","slug":"obras-seletas-volume-viii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/obras-seletas-volume-viii","title":{"rendered":"Obras Seletas &#8211; Volume VIII"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"656\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">A Imprensa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">A Miss\u00e3o Nabuco<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Um C\u00f3digo Civil<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">O C\u00f3digo Civil<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Entre Velhos Amigos<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Aqu\u00e9m e Al\u00e9m-Mancha<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">A Reprova\u00e7\u00e3o Universal<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Um Discurso Presidencial<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Danton em Ouro Preto<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Rui Barbosa<\/h2>\n<h4><a name=\"1\">A IMPRENSA<\/a><\/h4>\n<p><b>SOMOS N&Oacute;S OPOSICIONISTAS?<\/b><\/p>\n<p>Eis a interroga&ccedil;&atilde;o suscitada pelo artigo do Correio de Campinas,<br \/>\n    sobre que j&aacute; discorremos. Bem indiferente nos seria a resposta, afirmativa,<br \/>\n    ou negativa, se o que se tivesse em mira, fosse apenas verificar a nossa harmonia,<br \/>\n    ou contradi&ccedil;&atilde;o com o rumo do governo. Tem a maior relev&acirc;ncia,<br \/>\n    por&eacute;m, aos nossos olhos, desde que nos p&otilde;e em face dos nossos<br \/>\n    compromissos, para verificar se com eles estamos em conformidade, ou antagonismo.<\/p>\n<p>Para o contempor&acirc;neo tudo &eacute; o programa do presidente. Para n&oacute;s<br \/>\n    &eacute; tudo o nosso programa. O primeiro artigo do programa do governo &eacute;<br \/>\n    naturalmente o governismo. O do nosso &eacute; n&atilde;o sermos nem governistas,<br \/>\n    nem oposicionistas. Desde que n&atilde;o somos governistas estamos, pois,<br \/>\n    em diverg&ecirc;ncia da m&ocirc;nita oficial. Mas tamb&eacute;m, se f&ocirc;ssemos<br \/>\n    oposicionistas, estar&iacute;amos em discrep&acirc;ncia com o nosso programa,<br \/>\n    que &eacute; o estatuto da nossa exist&ecirc;ncia, a f&oacute;rmula das nossas<br \/>\n    obriga&ccedil;&otilde;es, voluntariamente contra&iacute;das com o pa&iacute;s.<br \/>\n    Nem governismo, pois, nem oposicionismo: eis a nossa linha convencional de<br \/>\n    proceder. Se tiv&eacute;ssemos descambado para o oposicionismo, estar&iacute;amos,<br \/>\n    portanto, em falta com a nossa promessa. E aqui est&aacute; por onde nos interessa<br \/>\n    a quest&atilde;o, que a censura do nosso colega promove.<\/p>\n<p>Definamos os termos. No vocabul&aacute;rio de todas as situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    governismo e oposicionismo s&atilde;o dois territ&oacute;rios lindados por<br \/>\n    uma divis&oacute;ria profunda, por um fosso, por um abismo. Sem admitir que<br \/>\n    todo aquele, que n&atilde;o estiver em oposi&ccedil;&atilde;o se considere<br \/>\n    estar com o governo, tem-se como certo ali, por singular inconseq&uuml;&ecirc;ncia,<br \/>\n    que n&atilde;o estar com o governo &eacute; estar na oposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Todo aquele, que diverge, impugna, ou critica, se o faz com efic&aacute;cia<br \/>\n    de uma palavra capaz de proselitismo, conte receber para logo o sambenito<br \/>\n    de oposicionista. N&atilde;o h&aacute; meio-termo: ou na canoa do governo,<br \/>\n    ou dele malvisto, a ele suspeito, por ele denunciado. Essa maneira exclusiva<br \/>\n    de ver n&atilde;o tolera a linha m&eacute;dia e exclui absolutamente a neutralidade.<\/p>\n<p>Ora, como nesta consiste precisamente o esp&iacute;rito do nosso programa<br \/>\n    jornal&iacute;stico, bem &eacute; de ver que n&atilde;o poder&iacute;amos<br \/>\n    aceitar a defini&ccedil;&atilde;o governista de governismo e oposicionismo.<br \/>\n    Demais, para tornar palp&aacute;vel a sua absurdez, basta notar que, express&atilde;o<br \/>\n    radical da intoler&acirc;ncia, elimina a hip&oacute;tese da neutralidade,<br \/>\n    indubitavel&shy;mente a mais vasta, sem compara&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel,<br \/>\n    das se&ccedil;&otilde;es, em que se divide a opini&atilde;o por toda a parte.<br \/>\n    Ora, se a neutralidade existe, com toda essa import&acirc;ncia, nem pode ser<br \/>\n    abolida, no seu dom&iacute;nio se abrange toda essa vasta escala de convic&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que, n&atilde;o tendo sistema, preven&ccedil;&atilde;o, nem interesse contra<br \/>\n    o governo, ou a seu favor, aquilatando pelo seu crit&eacute;rio independente<br \/>\n    a obra pol&iacute;tica, abra&ccedil;a dela o bem, e lhe rejeita o mal discriminativa<br \/>\n    e imparcialmente.<\/p>\n<p>Neste sentido temos observado com escr&uacute;pulo o nosso roteiro de neutros,<br \/>\n    distribuindo, na medida da nossa estimativa, o louvor ou a censura, n&atilde;o<br \/>\n    por presumirmos de autoridade, para ditar a ningu&eacute;m as nossas id&eacute;ias,<br \/>\n    mas porque n&atilde;o temos, afinal, outra luz, sen&atilde;o a da nossa consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    para discernir, em coisas humanas, o erro da verdade.<\/p>\n<p>Verdade seja que mais, muito mais temos censurado que aplaudido. Isso, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o deriva em n&oacute;s da tend&ecirc;ncia oposicionista, sen&atilde;o<br \/>\n    de que, havendo entre o nosso programa e o do governo algumas diversidades<br \/>\n    profundas, for&ccedil;osamente a superf&iacute;cie em controv&eacute;rsia<br \/>\n    entre n&oacute;s &eacute; muito mais ampla do que se, com um programa s&oacute;<br \/>\n    o houv&eacute;ssemos de louvar, ou combater unicamente segundo essa pedra<br \/>\n    de toque.<\/p>\n<p>Antes que o presidente eleito da Rep&uacute;blica endere&ccedil;asse o seu<br \/>\n    manifesto inaugural &agrave; na&ccedil;&atilde;o, A Imprensa, no papel que<br \/>\n    as nossas convic&ccedil;&otilde;es lhe impuseram, tra&ccedil;ara nitidamente<br \/>\n    a norma da sua propaganda, consagrando-se &agrave; pr&eacute;dica da revis&atilde;o<br \/>\n    constitucional. Ora, a atualidade est&aacute; de guerra aberta a esse desideratum,<br \/>\n    que ali&aacute;s apostar&iacute;amos ter penetrado e calado j&aacute;, mais<br \/>\n    ou menos conscientemente, no &acirc;nimo do chefe do estado.<\/p>\n<p>Toda vez, pois, que com os seus atos colidir a causa revisionista, ou pudermos<br \/>\n    nesses atos encontrar argumentos em aux&iacute;lio dessa causa, havemos de<br \/>\n    estar com o nosso dever, propugnando-a com a fidelidade que a honra imp&otilde;e<br \/>\n    &agrave;s almas convencidas e aos homens respons&aacute;veis. Porque, aos<br \/>\n    nossos olhos, a necessidade, como a certeza, da revis&atilde;o, &eacute; inelut&aacute;vel.<br \/>\n    Ela invadir&aacute; e tomar&aacute; de assalto, dentro em breve, toda a opini&atilde;o<br \/>\n    republicana. A constitui&ccedil;&atilde;o atual mata a rep&uacute;blica, e<br \/>\n    dissolve o pa&iacute;s. Urge reformarem-na, se n&atilde;o quiserem ir ter,<br \/>\n    por um div&oacute;rcio tempestuoso entre o pa&iacute;s e a rep&uacute;blica,<br \/>\n    na subvers&atilde;o, ou na anarquia.<\/p>\n<p>Mas, ainda antes de nascer A Imprensa, j&aacute; se achava predefinido entre<br \/>\n    n&oacute;s e o futuro governo um ponto de colis&atilde;o irremedi&aacute;vel<br \/>\n    nesse conv&ecirc;nio financeiro, cujos maus destinos de dia em dia se nos<br \/>\n    afiguram mais evidentes. O exemplo dos v&aacute;rios pa&iacute;ses, onde tal<br \/>\n    rem&eacute;dio se ensaiou em circunst&acirc;ncias semelhantes, convence-nos<br \/>\n    da sua imprestabilidade. N&atilde;o h&aacute; tradi&ccedil;&atilde;o mais<br \/>\n    infeliz e mal agoirada na hist&oacute;ria dos estados fracos e das d&iacute;vidas<br \/>\n    estrangeiras. Quis&eacute;ssemos errar. Quis&eacute;ramos que a uniformidade<br \/>\n    da experi&ecirc;ncia tivesse desta vez a sua primeira exce&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas n&atilde;o temos essa esperan&ccedil;a. Sustent&aacute;vamos, no congresso<br \/>\n    constituinte, que o sistema depois triunfante na constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    atual reduziria a Uni&atilde;o &agrave; mis&eacute;ria, &agrave; desonra e<br \/>\n    ao esfacelamento. O tempo vai-nos dando a raz&atilde;o, que s&oacute; nos<br \/>\n    negam ainda os obstinados. N&atilde;o h&aacute; morat&oacute;rias, que solvam<br \/>\n    crises financeiras, e reabilitem na&ccedil;&otilde;es falidas, quando a causa<br \/>\n    da insolv&ecirc;ncia &eacute; constitucional e, atrav&eacute;s de todos os<br \/>\n    paliativos, dura nas entranhas do estado, na ess&ecirc;ncia do seu organismo.<\/p>\n<p>Quando se t&ecirc;m convic&ccedil;&otilde;es destas, pode-se ser paciente:<br \/>\n    n&atilde;o se h&aacute; mister de opor ao governo os trope&ccedil;os de m&aacute;<br \/>\n    vontade e do sofisma. Nesses casos o oposicionismo se substitui pela cr&iacute;tica<br \/>\n    moderada, razo&aacute;vel, confiante no resultado necess&aacute;rio das leis<br \/>\n    morais. Que ela n&atilde;o &eacute; est&eacute;ril, destruidora, malfazeja,<br \/>\n    poder&iacute;amos demonstr&aacute;-lo, se quis&eacute;ssemos historiar os<br \/>\n    servi&ccedil;os por ela prestados, tantas vezes e em medidas t&atilde;o graves,<br \/>\n    &agrave; administra&ccedil;&atilde;o e ao pa&iacute;s, modificando o curso<br \/>\n    ora aos atos do congresso, ora aos do governo. Em louvor de um e outro o dizemos;<br \/>\n    porquanto h&aacute;, &agrave;s vezes, mais virtude e talento em emendar oportuna<br \/>\n    e airosamente um desacerto do que em o evitar.<\/p>\n<p>Do oposicionismo est&aacute; abrigada a atualidade pela delicadeza excepcional<br \/>\n    da situa&ccedil;&atilde;o. Nenhum governo, tolhido pelos compromissos deste,<br \/>\n    resistiria, hoje, a uma oposi&ccedil;&atilde;o em certas condi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ainda a meia for&ccedil;a. Todos o sentem, e ningu&eacute;m querer&aacute;<br \/>\n    essa responsabilidade.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>A Imprensa, 8 de mar&ccedil;o de 1899.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"2\">A MISS&Atilde;O NABUCO<\/a><\/h4>\n<p>Filosofava do p&uacute;lpito um dia o padre Vieira: &#8220;N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    maior delito no mundo que o ser melhor. Ao menos eu a quem amara das telhas<br \/>\n    abaixo, antes lhe desejara um grande delito que um grande merecimento. Um<br \/>\n    grande delito muitas vezes achou piedade: um grande merecimento nunca lhe<br \/>\n    faltou a inveja. Bem se v&ecirc; hoje no mundo: os delitos com carta de seguro,<br \/>\n    os merecimentos homi&shy;ziados&#8221;. Mas a generalidade dos aplausos com<br \/>\n    que foi acolhida a escolha do Sr. Joaquim Nabuco para a nossa representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no arbitramento sobre a pend&ecirc;ncia anglo-brasileira, a&iacute; est&aacute;<br \/>\n    deixando ver, por uma exce&ccedil;&atilde;o bem-vinda, que nem sempre se verifica<br \/>\n    o pessimismo, ainda mal quase sempre certo, do grande pregador.<\/p>\n<p>N&atilde;o era de nossa parte, que o ato do Governo podia ter d&uacute;vida<br \/>\n    na aprova&ccedil;&atilde;o. Muito h&aacute; que aconselhamos &agrave; Rep&uacute;blica<br \/>\n    a sele&ccedil;&atilde;o das capacidades em todas as opini&otilde;es, e em<br \/>\n    todos os partidos. Por outro lado, em todos os tempos, o autor destas linhas<br \/>\n    tem sido um dos que mais admira&ccedil;&atilde;o professam pelo m&eacute;rito<br \/>\n    do nomeado, cuja carreira ascendente acompanha desde os primeiros surtos.<br \/>\n    Lament&aacute;vamos a muralha, aparentemente insuper&aacute;vel, que o separava<br \/>\n    do servi&ccedil;o do pa&iacute;s, sob as institui&ccedil;&otilde;es atuais.<br \/>\n    N&atilde;o pod&iacute;amos, portanto, deixar de estimar a ocasi&atilde;o patri&oacute;tica<br \/>\n    que lhe estendeu afinal, por sobre o fosso das preven&ccedil;&otilde;es ordin&aacute;rias<br \/>\n    a ponte de honra, considerada, com raz&atilde;o, pelo nosso eminente conterr&acirc;neo,<br \/>\n    como &#8220;um presente da fortuna&#8221;.<\/p>\n<p>As qualidades org&acirc;nicas do Sr. Joaquim Nabuco n&atilde;o lhe permitiam,<br \/>\n    por mais que quisesse, furtar-se &agrave; atividade pol&iacute;tica. Sobre<br \/>\n    a compress&atilde;o que lha vedava, ela irrompia a mi&uacute;do, nos seus<br \/>\n    escritos, em ju&iacute;zos, sentimentos, sugest&otilde;es de atualidade que<br \/>\n    involuntariamente o punham em contacto com os homens, as coisas e os fatos<br \/>\n    correntes. Na Vida monumental de seu Pai e na encantadora Hist&oacute;ria<br \/>\n    de sua Forma&ccedil;&atilde;o, transborda a exuber&acirc;ncia de uma personalidade,<br \/>\n    cujo poder de a&ccedil;&atilde;o n&atilde;o lograva conter-se no ref&uacute;gio<br \/>\n    meditativo da religi&atilde;o e das letras, a que o idealismo do artista supunha<br \/>\n    ter disciplinado as exig&ecirc;ncias dos lutadores. Acedendo, logo, pelo que<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o louv&aacute;-lo, ao convite do Governo,<br \/>\n    o patriota cedia, ao mesmo tempo, insensivelmente, a uma necessidade da sua<br \/>\n    t&ecirc;mpera, a uma for&ccedil;a interior da sua voca&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    expans&atilde;o inevit&aacute;vel da sua individualidade, a um impulso do<br \/>\n    seu destino que o n&atilde;o criou s&oacute; para escrever com a sua pena<br \/>\n    a hist&oacute;ria, sen&atilde;o tamb&eacute;m para a elaborar com os seus<br \/>\n    atos.<\/p>\n<p>Habituado a proceder &#8220;como seu pr&oacute;prio chefe&#8221;, n&atilde;o<br \/>\n    faz cabedal o Dr. Joaquim Nabuco da senten&ccedil;a, em que o h&atilde;o de<br \/>\n    julgar entre as intransig&ecirc;ncias e os fanatismos de um e outro extremo.<br \/>\n    Com tais independ&ecirc;ncias n&atilde;o se acomoda a pol&iacute;tica de partido.<br \/>\n    Bem fez, por&eacute;m, o ilustre Brasileiro em n&atilde;o proceder como homem<br \/>\n    deste ou daquele bando militante, mas como amigo de sua p&aacute;tria, cuja<br \/>\n    exist&ecirc;ncia e honra, superiores a todos os regimens, n&atilde;o se ligam<br \/>\n    essencialmente &agrave; sorte de nenhum.<\/p>\n<p>Nem sempre se pode servir &agrave; nossa terra, sem desservir aos nossos<br \/>\n    correligion&aacute;rios. Nas conveni&ecirc;ncias dos seus, desfechou consider&aacute;vel<br \/>\n    golpe a atitude isenta e livre do Dr. Joaquim Nabuco, pondo acima de todos<br \/>\n    eles as do Brasil, as da sua nacionalidade, as da sua perpetuidade, as da<br \/>\n    sua integridade. Ainda que se n&atilde;o inspirasse, por&eacute;m, sen&atilde;o<br \/>\n    nos supremos interesses desta causa suprema, a colabora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    um monarquista de tamanha valia, nas responsabilidades da tarefa republicana,<br \/>\n    h&aacute; de, necessariamente, atuar como um jato de &aacute;gua fria no fervor<br \/>\n    das esperan&ccedil;as imperialistas.<\/p>\n<p>O comum dos esp&iacute;ritos n&atilde;o &eacute; capaz dessas discrimina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    delicadas. Para os membros da sua comunh&atilde;o pol&iacute;tica, este nome,<br \/>\n    que o novo reg&iacute;men acaba de incorporar ao escasso pec&uacute;lio das<br \/>\n    suas utilidades, era um desses cimos inacess&iacute;veis, que hipnotizam a<br \/>\n    confian&ccedil;a dos &uacute;ltimos confiantes. Que o zelo destes, pois, se<br \/>\n    sinta profundamente magoado no melindre de seu exclusivismo e o abalo da surpresa<br \/>\n    lhes invada o derradeiro pres&iacute;dio da sua f&eacute;, suscitando amargos<br \/>\n    ressentimentos, mui natural ser&aacute;, muito humano. Nem faltar&aacute;<br \/>\n    no acervo das queixas o concurso dos l&oacute;gicos da escola, em cuja balan&ccedil;a,<br \/>\n    pesadas, no desenlace eventual da miss&atilde;o, as duas hip&oacute;teses,<br \/>\n    se dir&aacute; talvez que a vit&oacute;ria viria aproveitar unicamente &agrave;<br \/>\n    consolida&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica, ao passo que o rev&eacute;s<br \/>\n    comprometeria a aspira&ccedil;&atilde;o monarquista, comprometendo-lhe a popularidade<br \/>\n    na pessoa de um dos seus mais altos representantes.<\/p>\n<p>Como essa como&ccedil;&atilde;o influir&aacute; no seio do monarquismo, se<br \/>\n    operando como reativo, para o decantar dos elementos duvidosos, precipitar<br \/>\n    os princ&iacute;pios jovens, e promover entre eles a homo&shy;geneidade, a<br \/>\n    coes&atilde;o, a solidez, se lavrando, pelo contr&aacute;rio, como dissolvente,<br \/>\n    para apressar a sua realiza&ccedil;&atilde;o na massa republicana, s&oacute;<br \/>\n    o tempo o dir&aacute;, pronunciando-se entre as conjeturas de hoje.<\/p>\n<p>Seja, por&eacute;m, como for, um incontest&aacute;vel servi&ccedil;o, ao<br \/>\n    menos, ter&aacute; prestado, com este proceder, o Dr. Joaquim Nabuco, &agrave;<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o dos seus correligion&aacute;rios pol&iacute;ticos neste<br \/>\n    reg&iacute;men. E esse benef&iacute;cio &eacute;, simultaneamente, um benef&iacute;cio<br \/>\n    ao pa&iacute;s. A toler&acirc;ncia, que at&eacute; hoje t&atilde;o dificilmente<br \/>\n    se lhes tem concedido, atrav&eacute;s de suspeitas e persegui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    deve-lhes estar assegurada agora na extens&atilde;o da mais plena liberdade.<br \/>\n    No h&aacute;bil convite do governo republicano ao preclaro monarquista, na<br \/>\n    anu&ecirc;ncia do monarquista ao convite republicano, est&aacute; implicitamente<br \/>\n    selado um pacto inviol&aacute;vel de reconhecimento dos direitos constitucionais<br \/>\n    da opini&atilde;o pol&iacute;tica, a cuja porta a rep&uacute;blica foi bater<br \/>\n    em busca de um auxiliar para a solu&ccedil;&atilde;o das dificuldades nacionais.<br \/>\n    E tanto maior vem a ser o alcance dessa alian&ccedil;a, a sua express&atilde;o,<br \/>\n    e sua inquebrantabilidade, quanto a iniciativa nasceu espontaneamente de um<br \/>\n    governo, cujo chefe, noutro teatro, se assinalou pela dureza de um pol&iacute;tico<br \/>\n    de rea&ccedil;&atilde;o desabrida contra a propaganda monarquista. A evolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Sr. Campos Sales &eacute; inteligente, &eacute; patri&oacute;tica, e serve<br \/>\n    melhor aos s&atilde;os interesses da rep&uacute;blica do que os mesquinhos<br \/>\n    recursos do intolerantismo oficial, cuja cr&ocirc;nica de brutalidades e sangue<br \/>\n    tanto nos envergonha. Esperemos que, de ora em diante, o pa&iacute;s n&atilde;o<br \/>\n    continue dividido em bons e maus cidad&atilde;os, pela ortodoxia do poder,<br \/>\n    e que, sob uma constitui&ccedil;&atilde;o, cujas garantias nos permitem discutir<br \/>\n    a Deus, n&atilde;o se tire a Brasileiros a faculdade de questionar a rep&uacute;blica.<br \/>\n    Esta n&atilde;o tem o direito de negar a liberdade de um partido do valor<br \/>\n    de um de cujos pr&oacute;ceres se utilize em mat&eacute;ria de t&atilde;o<br \/>\n    alta gravidade.<\/p>\n<p>Destarte se habituar&atilde;o a servir em comum &agrave; na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    as duas opini&otilde;es opostas, combatendo-se no terreno dos interesses contingentes,<br \/>\n    e completando-se na esfera dos deveres superiores*.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>A Imprensa, 13 de mar&ccedil;o, 1899.<\/b><\/p>\n<p><b>*A este artigo respondeu Joaquim Nabuco, enviando a Rui Barbosa a seguinte<br \/>\n    carta:<\/b><\/p>\n<p>&#8220;Rio, 14 de mar&ccedil;o de 1899. &#8212; Meu caro Rui &#8212; &Eacute;-me<br \/>\n    grato, depois de tanto tempo de separa&ccedil;&atilde;o, ter que lhe agradecer<br \/>\n    o seu artigo de ontem, repassado da velha camaradagem que nos liga desde a<br \/>\n    adolesc&ecirc;ncia, quando faz&iacute;amos parte do mesmo bando liberal da<br \/>\n    Academia. Os seus elogios n&atilde;o s&atilde;o outra coisa sen&atilde;o a<br \/>\n    munifici&ecirc;ncia do seu esp&iacute;rito, que pode fazer presentes destes<br \/>\n    sem despojar-se. N&atilde;o aceitei o encargo que me era oferecido sem grave<br \/>\n    relut&acirc;ncia e constrangimento, nem sem ter procurado de diversos modos<br \/>\n    afastar de mim o c&aacute;lice. &Eacute; para mim, com efeito, um penoso sacrif&iacute;cio<br \/>\n    e um grave compromisso esse de embrenhar-me intelectualmente durante anos<br \/>\n    pelo Tacutu e Rupunani, sobretudo tendo que me separar de minha m&atilde;e,<br \/>\n    que breve completa a idade perfeita dos antigos, os 81 anos, e cuja velhice<br \/>\n    feliz &eacute; hoje o meu maior empenho: consummatio tamem aetatis actae feliciter.<br \/>\n    N&atilde;o escuto, por&eacute;m, tratando-se de minhas cren&ccedil;as pol&iacute;ticas,<br \/>\n    o obliviscere populum tuum et domum patris tui, que retinia aos ouvidos de<br \/>\n    Newman ao deixar Oxford e a religi&atilde;o anglicana. A monarquia s&oacute;<br \/>\n    poderia voltar com vantagem para o pa&iacute;s se os monarquistas se mostrassem<br \/>\n    mais patriotas do que os republicanos. Eu, pelo menos, &eacute; em duelo de<br \/>\n    patriotismo que queria ver a causa nobre e justamente decidida. Creia-me muito<br \/>\n    sinceramente convencido do que pratiquei &agrave; custa do maior dos sacrif&iacute;cios,<br \/>\n    o de expor-me ao ju&iacute;zo dos Fariseus e dos Publicanos, em vez de acabar<br \/>\n    j&aacute; agora, no ref&uacute;gio meditativo da religi&atilde;o e das letras;<br \/>\n    mostro que, se morrer amanh&atilde;, n&atilde;o levo para o t&uacute;mulo<br \/>\n    somente um esp&iacute;rito monarquista e liberal, levo tamb&eacute;m o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    brasileiro. Ningu&eacute;m dir&aacute; que a pol&iacute;tica e a diplomacia<br \/>\n    brasileira pode ser hoje a mesma que era ontem, quando a Federa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    America&shy;na ainda se conformava ao conselho dos seus fundadores de n&atilde;o<br \/>\n    ter col&ocirc;nias nem querer aliados. <\/p>\n<p>Todas as altas posi&ccedil;&otilde;es e fun&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas<br \/>\n    entre n&oacute;s, seja do Governo, seja da oposi&ccedil;&atilde;o, seja da<br \/>\n    imprensa, t&ecirc;m, pois, dora em diante, que ser aceitas sob a impress&atilde;o<br \/>\n    do terror sagrado pr&oacute;prio dos que elaboram os destinos nacionais em<br \/>\n    uma &eacute;poca de crise e muta&ccedil;&atilde;o. &Eacute; este o tempo para<br \/>\n    todas as imagina&ccedil;&otilde;es sugestivas e criadoras se aproximarem,<br \/>\n    para todas as dedica&ccedil;&otilde;es e sacrif&iacute;cios se produzirem<br \/>\n    se quisermos salvar a honra e os cr&eacute;ditos da nossa gera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    &agrave; qual veio a caber uma hora de tais responsabilidades. Eu repito o<br \/>\n    que dizia meu Pai em 1865: &#8220;Deus n&atilde;o permita que a hist&oacute;ria<br \/>\n    deplore a sorte de uma na&ccedil;&atilde;o nova, cheia de recursos e de vida,<br \/>\n    mas infeliz por sua culpa.&#8221; H&aacute; um terreno superior ao das dissens&otilde;es<br \/>\n    pol&iacute;ticas em que esp&iacute;ritos de igual toler&acirc;ncia, de igual<br \/>\n    elast&eacute;rio, de igual patriotismo, podem e devem sempre colaborar uns<br \/>\n    com os outros, no interesse comum do pa&iacute;s; esse terreno pertence a<br \/>\n    leaders de opini&atilde;o, como Rui Barbosa, alargar cada vez mais, e dar-lhe<br \/>\n    a for&ccedil;a e a consist&ecirc;ncia do granito. &#8212; Creia-me com todos<br \/>\n    os meus velhos sentimentos de confraternidade liberal, amizade e admira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Sempre seu, meu caro amigo, &#8212; Joaquim Nabuco.&#8221;<\/p>\n<h4><a name=\"3\">UM C&Oacute;DIGO CIVIL<\/a><\/h4>\n<p>Do modo s&eacute;rio e judicioso de proceder no cometimento de dotar uma<br \/>\n    na&ccedil;&atilde;o com um c&oacute;digo civil digno de tal nome temos o mais<br \/>\n    perfeito e cl&aacute;ssico modelo no recente exemplo da Alemanha.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; povo, que mais pressa devesse ter, e mais urg&ecirc;ncia<br \/>\n    real&shy;mente sentisse de tal aquisi&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o menos de<br \/>\n    seis diferentes sistemas jur&iacute;dicos retalhavam entre si o imp&eacute;rio.<br \/>\n    Observavam o direito comum, isto &eacute;, o direito romano, modificado pelos<br \/>\n    direitos, privil&eacute;gios e estatutos locais, 16.500.000 habitantes; 21.200.000,<br \/>\n    o Landrecht prussiano de 1794; 6.700.000, o c&oacute;digo Napole&atilde;o,<br \/>\n    de 1804; 1.700.000 o Landrecht badense, de 1808 e 1809; 15.000 o direito dinamarqu&ecirc;s,<br \/>\n    de 1683, e 2.500 o c&oacute;digo austr&iacute;aco, de 1811.<\/p>\n<p>Bem se pode avaliar a que ponto eram intoler&aacute;veis as conseq&uuml;&ecirc;n&shy;cias<br \/>\n    dessa diversidade na maneira de pautar &agrave;s pessoas, &agrave;s coisas,<br \/>\n    aos contratos, &agrave; fam&iacute;lia, &agrave;s sucess&otilde;es, os direitos,<br \/>\n    que coordenam todas essas rela&ccedil;&otilde;es no seio da sociedade. &#8220;Que<br \/>\n    confian&ccedil;a&#8221; (disse, no Reichstag, um secret&aacute;rio de estado)<br \/>\n    &#8220;pode ter no direito o homem do povo, quando v&ecirc;, como t&atilde;o<br \/>\n    ami&uacute;de acontece, variarem absolutamente as regras da sucess&atilde;o<br \/>\n    em duas localidades confinantes: aqui, herdeira a mulher; ali, sem nenhum<br \/>\n    direito ao acervo; aqui, livelados os germanos com os consang&uuml;&iacute;neos;<br \/>\n    alguns passos adiante, completamente desirmanados nos seus direitos&#8221;.<br \/>\n    &Agrave;s vezes, na mesma cidade, imperavam duas normas de direito: &#8220;uma<br \/>\n    na regi&atilde;o urbana; outra na suburbana; porque tal cidade, outrora amurada,<br \/>\n    recebera, a esse tempo, a concep&ccedil;&atilde;o de foros particulares, ampliando-se<br \/>\n    mais tarde &agrave; campanha circunjacente, dominada pelo Landrecht prussiano&#8221;.<\/p>\n<p>Nem ao menos eram escritas em vulgar essas diferentes legisla&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Na imensa regi&atilde;o do direito comum, que, pelo centro, em vasta faixa,<br \/>\n    corta norte a sul o territ&oacute;rio imperial, reinava o Corpus Juris Civilis,<br \/>\n    os livros de Justiniano, das Institutas &agrave;s Novelas, ainda no latim<br \/>\n    e no grego primitivo. Na maior parte da zona ocidental, exclu&iacute;do apenas<br \/>\n    o gr&atilde;o-ducado de Baden, vigorava, no seu idioma sobre tamanha extens&atilde;o<br \/>\n    da superf&iacute;cie varrida outrora pelas aluvi&otilde;es armadas de Bonaparte<br \/>\n    &#8212; essa influ&ecirc;ncia, que Savigny qualificara de gangrena.<\/p>\n<p>Da&iacute; o dizerem, no parlamento alem&atilde;o, que &#8220;quatorze por<br \/>\n    cento dos habitantes do pa&iacute;s tinham de ir buscar o seu direito num<br \/>\n    c&oacute;digo franc&ecirc;s, s&oacute; aos letrados, intelig&iacute;vel, estando<br \/>\n    quarenta e seis por cento, isto &eacute;, quase meia Alemanha, sujeitos a<br \/>\n    leis exaradas em idiomas estrangeiros&#8221;.<\/p>\n<p>Muito mais favor&aacute;vel era, portanto, a situa&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria<br \/>\n    Inglaterra, condenada, ainda hoje, &agrave; gloriosa obscuridade das suas<br \/>\n    leis. Nenhuma nacionalidade poderia repetir com igual propriedade as queixas<br \/>\n    eloq&uuml;entes de Dumoulin, noutros tempos, contra a variedade e incongru&ecirc;ncia<br \/>\n    das suas institui&ccedil;&otilde;es, reclamando a unifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do direito nos textos precisos e simples de um c&oacute;digo s&oacute;, &#8220;promultis<br \/>\n    diffusissimis plurium variantissimarum contrariarum, nonnunquam obscurarum,<br \/>\n    iniquarum, ineptarum, moncarum consuetudinum libris&#8221;.<\/p>\n<p>J&aacute; ningu&eacute;m agoiraria da codifica&ccedil;&atilde;o o que o or&aacute;culo<br \/>\n    do Sistema do Moderno Direito Romano vaticinara no come&ccedil;o do s&eacute;culo,<br \/>\n    renovando os press&aacute;gios de um jurisconsulto do s&eacute;culo dezesseis:<br \/>\n    a tirania, o caos na vida civil: in aulis tirannis, in vita. O tempo dissipara<br \/>\n    o valor dessas predi&ccedil;&otilde;es. O movimento pol&iacute;tico ultimado<br \/>\n    em 1870 removera para o terreno das abstra&ccedil;&otilde;es a luta semi-secular<br \/>\n    entre a escola hist&oacute;rica e a escola filos&oacute;fica, entre os disc&iacute;pulos<br \/>\n    de Savigny e os de Thibaut, implantando na consci&ecirc;ncia nacional a aspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    irresist&iacute;vel da unidade. E a unidade pol&iacute;tica, sem a codifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Direito Civil, careceria de uma das suas bases fundamentais.<\/p>\n<p>Nada empenhou mais cedo a aten&ccedil;&atilde;o aos organizadores da confedera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    imperial. A lei de 20 de dezembro de 1873, modificando o art. 4&ordm;, n&ordm;<br \/>\n    13, da Constitui&ccedil;&atilde;o de 16 de abril de 1871, que apenas abrangia<br \/>\n    o Direito Penal e o Processo, cometeu aos &oacute;rg&atilde;os legislativos<br \/>\n    do imp&eacute;rio a redu&ccedil;&atilde;o do direito civil a um corpo de lei<br \/>\n    comum. Ent&atilde;o se instituiu uma comiss&atilde;o de cinco membros para<br \/>\n    lhe formular as bases, e, no ano subseq&uuml;ente, outra, de onze juristas,<br \/>\n    recebeu do Conselho Federal a incumb&ecirc;ncia de lucubrar o projeto. Esse<br \/>\n    trabalho, em que colaboraram celebridades da maior nota, durou treze anos.<\/p>\n<p>Apresentado, em 27 de dezembro de 1887, ao chanceler do imp&eacute;rio, mandou-se<br \/>\n    dar a lume, com a exposi&ccedil;&atilde;o de motivos, para que a na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    toda o conhecesse e profundasse. Desse plen&aacute;rio, que, durante tr&ecirc;s<br \/>\n    anos ocupou a opini&atilde;o, suscitando copiosa aflu&ecirc;ncia de estudos,<br \/>\n    resultou afinal entregar-se a obra da segunda comiss&atilde;o a terceira,<br \/>\n    composta de sumidades jur&iacute;dicas, econ&ocirc;micas, pol&iacute;ticas,<br \/>\n    mercantis, comerciais, agr&iacute;colas, cujo lavor, encetado em abril de<br \/>\n    1891, n&atilde;o findou sen&atilde;o em junho de 1895. Passou da&iacute; o<br \/>\n    projeto ao exame do Conselho Federal, e, levado ao Reichstag em janeiro de<br \/>\n    1896, f&ecirc;-lo este, ap&oacute;s um debate geral, contrastear por outra<br \/>\n    comiss&atilde;o de vinte e um retificadores, cujo relat&oacute;rio subiu ao<br \/>\n    parlamento cinco meses mais tarde. S&oacute; ent&atilde;o, mediante breve<br \/>\n    discuss&atilde;o parlamentar, que n&atilde;o absorveu mais de onze dias, se<br \/>\n    consumou a empresa da codifica&ccedil;&atilde;o civil, principiada, sem interrup&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    depois, vinte tr&ecirc;s anos antes.<\/p>\n<p>Tanto durou a gesta&ccedil;&atilde;o laboriosa do C&oacute;digo Civil na<br \/>\n    Alemanha, n&atilde;o obstante dizer o mundo inteiro que ali se acha, em nossos<br \/>\n    dias, a alma mater do Direito Civil; n&atilde;o obstante se admirar, em toda<br \/>\n    a parte, como prodigiosa e incompar&aacute;vel, a cultura jur&iacute;dica<br \/>\n    daquela terra; n&atilde;o obstante apresentar a assombrosa flora intelectual<br \/>\n    das suas universidades um viveiro inesgot&aacute;vel de mestres e s&aacute;bios<br \/>\n    na ci&ecirc;ncia da legisla&ccedil;&atilde;o; n&atilde;o obstante reunir a<br \/>\n    sua jurisprud&ecirc;ncia a mais opulenta das literaturas; n&atilde;o obstante<br \/>\n    se haver confiado a tarefa a celebridades, acerca de cuja compet&ecirc;ncia<br \/>\n    ningu&eacute;m ousaria uma frase dubitativa; n&atilde;o obstante se acharem<br \/>\n    sublimadas, naquele povo, ao mais alto requinte as virtudes do trabalho: a<br \/>\n    paci&ecirc;ncia, a seguran&ccedil;a, o escr&uacute;pulo, o m&eacute;todo,<br \/>\n    a tenacidade, a agudeza, a inven&ccedil;&atilde;o, o entusiasmo.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>A Imprensa, 14 de mar&ccedil;o de 1899.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"4\">O C&Oacute;DIGO CIVIL<\/a><\/h4>\n<p>Cumpriu quase a idade inteira de uma gera&ccedil;&atilde;o a tard&iacute;grada<br \/>\n    Alemanha, para elaborar um c&oacute;digo civil. Seria talvez o fardo de sua<br \/>\n    cerebra&ccedil;&atilde;o, a carga do saber, o peso dos loiros que lhe atrasavam<br \/>\n    os passos. Em v&atilde;o embebera at&eacute; o &acirc;mago a sua cultura na<br \/>\n    ess&ecirc;ncia luminosa desses eternos monumentos legislativos, em cuja obra<br \/>\n    pag&atilde; confessavam as constitui&ccedil;&otilde;es apost&oacute;licas<br \/>\n    resplandecer a justi&ccedil;a divina. Em v&atilde;o erigira nas suas escolas,<br \/>\n    focos de atra&ccedil;&atilde;o para o universo, verdadeiros templos aos perp&eacute;tuos<br \/>\n    lumina et numina jurisprudentiae. Foram-lhe precisos vinte e tr&ecirc;s anos,<br \/>\n    vinte e cinco in-f&oacute;lios, meia d&uacute;zia de comiss&otilde;es, montanhas<br \/>\n    de livros, estudos e contra-estudos, para lavrar os dois mil e seiscentos<br \/>\n    artigos dessa condensa&ccedil;&atilde;o, cuja brevidade caberia nas modestas<br \/>\n    propor&ccedil;&otilde;es de um manual.<\/p>\n<p>Triste condi&ccedil;&atilde;o a das superioridades, que n&atilde;o produzem<br \/>\n    sen&atilde;o ronceira e laboriosamente. Pouco invej&aacute;vel temperamento<br \/>\n    o dessas ra&ccedil;as, cujas entranhas vagarosas medem por quart&eacute;is<br \/>\n    de s&eacute;culo o processo gestativo. Nos tr&oacute;picos o vi&ccedil;o intelectual<br \/>\n    &eacute; repentista como a seiva da terra. As grandes cria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nacionais contam a sua fase embrion&aacute;ria por fra&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    ano, em vez de fra&ccedil;&otilde;es seculares. Ao remanchar da lenta Germ&acirc;nia<br \/>\n    vamos contrapor uma fulgura&ccedil;&atilde;o americana. O plano esbo&ccedil;ado<br \/>\n    nas folhas vem nos dar o C&oacute;digo Civil numa improvisata.<\/p>\n<p>Omnia vincit amor. Tudo vence o patriotismo. O ministro n&atilde;o tinha,<br \/>\n    no or&ccedil;amento, verbas, que lhe permitissem meter m&atilde;os &agrave;<br \/>\n    obra, remunerando a encomenda, como se remuneraram tentativas anteriores.<br \/>\n    Conhecia, por&eacute;m, os h&aacute;bitos modestos de um dos seus ilustres<br \/>\n    colegas no magist&eacute;rio superior. Palpitava-lhe que n&atilde;o apelaria<br \/>\n    debalde para o seu desinteresse. Apelou para ele; e ei-lo que acode, sem mais<br \/>\n    contrato que a honra do chamado, sem mais compensa&ccedil;&atilde;o que o<br \/>\n    transporte da fam&iacute;lia. Mais vale que todos os estip&ecirc;ndios a gl&oacute;ria<br \/>\n    de inscrever o nome numa cria&ccedil;&atilde;o, como deve ser um c&oacute;digo<br \/>\n    civil, aere perennius.<\/p>\n<p>Teremos assim a dupla vantagem da barateza na empreitada e da rapidez no<br \/>\n    desempenho. A excel&ecirc;ncia da m&atilde;o-de-obra d&aacute;-se como abonada<br \/>\n    pela simples sele&ccedil;&atilde;o do arquiteto. Ora, juntar a valia do trabalho<br \/>\n    &agrave; infimidade do pre&ccedil;o, em neg&oacute;cios com artistas, ordinariamente<br \/>\n    n&atilde;o menos cobi&ccedil;osos do lucro que do renome, &eacute;, sem d&uacute;vida<br \/>\n    o nec plus ultra da boa sorte. E, quando a raridade desse duplo achado se<br \/>\n    pode ter&ccedil;ar com a presteza no remoto da encomenda, seria o caso de<br \/>\n    rir da fortuna bigodeada. A luta acidentada e malograda pelo C&oacute;digo<br \/>\n    Civil entre n&oacute;s poderia acabar afinal por um Fortunae verba dedique<br \/>\n    meae.<\/p>\n<p>Est&aacute;, com efeito anunciado, que o governo espera apresentar o projeto<br \/>\n    &agrave;s c&acirc;maras antes de terminada a sess&atilde;o legislativa deste<br \/>\n    ano. N&atilde;o sabemos se se ligar&aacute; a este empenho a condi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    imposta ao codificador como impreter&iacute;vel, de n&atilde;o arredar p&eacute;<br \/>\n    da metr&oacute;pole. &Eacute; absolutamente necess&aacute;ria a sua resid&ecirc;ncia<br \/>\n    nesta capital. Por qu&ecirc;? N&atilde;o calaria a suposta explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de serem aqui mais f&aacute;ceis os elementos da consulta.<\/p>\n<p>Com esses mesmos elementos houve de lidar naturalmente o seu antecessor,<br \/>\n    a quem, pelo contr&aacute;rio, se afigurou muito mais prof&iacute;cuo o estudo<br \/>\n    &agrave; margem dos lagos da Su&iacute;&ccedil;a.<\/p>\n<p>As capitais de mais bul&iacute;cio n&atilde;o s&atilde;o as mais prop&iacute;cias<br \/>\n    &agrave; fecundidade do trabalho mental. Nem poder&iacute;amos conceber centro<br \/>\n    mais adequado para este cometimento que uma faculdade jur&iacute;dica, um<br \/>\n    n&uacute;cleo de professores, como o do Recife, t&atilde;o favor&aacute;vel,<br \/>\n    pelo seu remanso e pelo seu sil&ecirc;ncio, &agrave; produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    meditativa. Todos os elementos capitais da obra planejada est&atilde;o impressos.<br \/>\n    O construtor n&atilde;o h&aacute; de colher grande coisa, para ela, do projeto<br \/>\n    do Dr. Seabra, cadete honor&aacute;rio de um batalh&atilde;o de Minas e oficial<br \/>\n    da ordem da Rosa; porque muito mais sabia o precoce projetista, quando, j&aacute;<br \/>\n    ent&atilde;o Visconde de Seabra, veio a dotar Portugal com o seu C&oacute;digo<br \/>\n    Civil, cujas edi&ccedil;&otilde;es andam a&iacute; por todas as livrarias.<\/p>\n<p>Nessa antig&uuml;idade, pois, como nas outras, que acaso encerrarem os nossos<br \/>\n    arquivos, ou bibliotecas, n&atilde;o haver&aacute;, para a composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que se empreende, sen&atilde;o o m&eacute;rito da curiosidade. E depois nada<br \/>\n    as chumba aos raios das estantes, ou aos escaninhos das papeleiras oficiais,<br \/>\n    de onde t&ecirc;m sa&iacute;do, sem preju&iacute;zo, confiados &agrave; honra<br \/>\n    de funcion&aacute;rios brasileiros, aut&oacute;grafos, documentos capitais,<br \/>\n    verdadeiras preciosidades, para deixar o pa&iacute;s, e transpor o oceano.<\/p>\n<p>Dessa estipula&ccedil;&atilde;o, pois, de estacionar no Rio de Janeiro o<br \/>\n    motivo&shy; n&atilde;o pode ser o que se d&aacute;. Ou o que se quer, consentaneamente<br \/>\n    &agrave; urg&ecirc;ncia do mandato, ser&aacute; n&atilde;o perder em viagens<br \/>\n    os dias, ou semanas,&shy; que elas absorveriam; e dir&aacute; ent&atilde;o<br \/>\n    o bom senso p&uacute;blico se esta consi&shy;dera&ccedil;&atilde;o subalterna<br \/>\n    deve prevalecer a interesses superiores no feitio de uma coisa, que possa<br \/>\n    ter o nome de C&oacute;digo Civil. Ou, por uma inexplic&aacute;vel contradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com a alta confian&ccedil;a dispensada ao seu elaborador, o que em mente se<br \/>\n    tem, &eacute; exercer sobre essa elucubra&ccedil;&atilde;o a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    presencial, a superintend&ecirc;ncia direta das nossas secretarias de estado;<br \/>\n    o que seria, para a tarefa do erudito professor, uma calamidade, atento o<br \/>\n    div&oacute;rcio radical, cujos esc&acirc;ndalos se n&atilde;o contam, entre<br \/>\n    o senso jur&iacute;dico e a nossa decad&ecirc;ncia administrativa.<\/p>\n<p>Apuradas as contas, por&eacute;m, de tudo isso transluz, acima de outra qualquer,<br \/>\n    no governo, a preocupa&ccedil;&atilde;o da celeridade. Se lhe surtir bem o<br \/>\n    processo, teremos batido todos os demais povos, e de ora em diante os c&oacute;digos<br \/>\n    civis se manipular&atilde;o por uma receita, de cujos produtos poderemos dizer<br \/>\n    sem lisonja, ou impostura: Velocius quam asparagi coquantur.<\/p>\n<p>Ao nobre ministro da Justi&ccedil;a lhe arde no peito a leg&iacute;tima ambi&ccedil;&atilde;o&shy;<br \/>\n    da fama, t&atilde;o preciosa nos mo&ccedil;os, quando se abrasa no talento,<br \/>\n    t&atilde;o prof&iacute;cua nos administradores, quando se acompanha com o<br \/>\n    ju&iacute;zo. Quis deixar a sua mem&oacute;ria num pedestal condigno do seu<br \/>\n    merecimento.<\/p>\n<p>Viu na galeria do futuro imensa lacuna: a codifica&ccedil;&atilde;o. Teve<br \/>\n    o nobre sonho de preench&ecirc;-la. Imaginou levantar, neste campo de ru&iacute;nas,<br \/>\n    uma constru&ccedil;&atilde;o imortal; e o mesmo foi entrev&ecirc;-la que v&ecirc;-la<br \/>\n    conclu&iacute;da. Bateu &agrave; porta da amizade, recorreu &agrave; confraternidade,<br \/>\n    ao saber. E cuidou ter operado o milagre por uma esp&eacute;cie de evoca&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    dando-nos o C&oacute;digo Civil em um frigir d&#8217;ovos.<\/p>\n<p>Conceber a id&eacute;ia, gizar a tra&ccedil;a, nomear o executor pouco era<br \/>\n    para a satisfa&ccedil;&atilde;o das suas aspira&ccedil;&otilde;es. Cumpria<br \/>\n    circunscrever o maneio da empreitada em limites de tempo bastante estreitos,<br \/>\n    para assegurarem &agrave; administra&ccedil;&atilde;o atual o desvanecimento<br \/>\n    de sigilar, conclu&iacute;do, o progresso por ela mesma iniciado. Deve encerrar-se<br \/>\n    o congresso em princ&iacute;pio de setembro. Daqui at&eacute; l&aacute;, menos<br \/>\n    de seis meses. Em quatro, ou cinco, ter&aacute; surdido o improviso resplandecente,<br \/>\n    nova edi&ccedil;&atilde;o do parto cerebral de Zeus.<\/p>\n<p>Mas, como essas imita&ccedil;&otilde;es ol&iacute;mpicas t&ecirc;m derretido<br \/>\n    muitas asas, isso desde o tempo em que a f&aacute;bula convivia e se confundia<br \/>\n    com a realidade, pena foi que o honrado ministro n&atilde;o consultasse a<br \/>\n    solene experi&ecirc;ncia do passado republicano, t&atilde;o eloq&uuml;ente<br \/>\n    contra esses a&ccedil;odamentos no lavor das grandes forma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    legislativas. O atual presidente da Rep&uacute;blica certamente n&atilde;o<br \/>\n    assinaria nenhuma das leis fundamentais, que a sua passagem pela ditadura<br \/>\n    herdou ao novo reg&iacute;men, se lhe fosse permitido amadurec&ecirc;-la &agrave;<br \/>\n    luz da reflex&atilde;o. O torvelinho da impaci&ecirc;ncia revolucion&aacute;ria<br \/>\n    precipitou a organiza&ccedil;&atilde;o judicial, a reforma do processo, a<br \/>\n    Lei de Fal&ecirc;ncias, o C&oacute;digo Penal; e cada um desses trabalhos,<br \/>\n    mal-amanhados pelo afor&ccedil;uramento, exibe lamentavelmente os graves sen&otilde;es<br \/>\n    de tudo o que se faz sem pondera&ccedil;&atilde;o, sem esmero, sem capricho,<br \/>\n    sem lima.<\/p>\n<p>Na labora&ccedil;&atilde;o do C&oacute;digo Civil subiam de ponto incomparavelmente<br \/>\n    as dificuldades; pois nesse empreendimento, o mais elevado a que pode mirar<br \/>\n    a civiliza&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica de uma ra&ccedil;a, culmina, em<br \/>\n    s&iacute;ntese, em substratum, a ci&ecirc;ncia social. Acometer, portanto,<br \/>\n    uma cria&ccedil;&atilde;o destas, sem ter dispon&iacute;vel, com o m&aacute;rmore<br \/>\n    e o escopro, o tempo, &eacute; renovar o erro de 1890, mas renov&aacute;-lo<br \/>\n    com a agravante do desprezo pela experi&ecirc;ncia, e isso numa tentativa<br \/>\n    infinitamente mais delicada. For&ccedil;osamente sair&aacute; tosca, indigesta,<br \/>\n    aleijada a edifica&ccedil;&atilde;o. Teremos ent&atilde;o de melhor&aacute;-la,<br \/>\n    ou pior&aacute;-la, pelo jeito do nosso barrac&atilde;o l&iacute;rico, a remendos.<br \/>\n    Em vez de ser o padr&atilde;o da cultura de uma &eacute;poca, ficar&aacute;<br \/>\n    sendo o da sua incapacidade e da sua mania no criar embara&ccedil;os &agrave;s<br \/>\n    gera&ccedil;&otilde;es vindoiras.<\/p>\n<p>Falam nos subs&iacute;dios, que, a este respeito, j&aacute; enriquecem a<br \/>\n    nossa literatura jur&iacute;dica, os projetos de Teixeira de Freitas, Fel&iacute;cio<br \/>\n    dos Santos e Coelho Rodrigues. Mas esse concurso, de extrema utilidade para<br \/>\n    um estudo, para uma elabora&ccedil;&atilde;o paciente, para uma urdidura meditativa,<br \/>\n    seria, pelo contr&aacute;rio, numa pressa, num repente, consider&aacute;vel<br \/>\n    embara&ccedil;o. Quem tem diante de si exemplares magistrais, n&atilde;o lhes<br \/>\n    pode ficar aqu&eacute;m. Crescem desde ent&atilde;o as responsabilidades.<br \/>\n    N&atilde;o se sabe o que seja mais &aacute;rduo: a escolha, a imita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a emenda.<\/p>\n<p>Verdade seja que, na opini&atilde;o, n&atilde;o sabemos at&eacute; que ponto<br \/>\n    exata, de um homem de esp&iacute;rito, cumpriria aviar nestes cinco anos o<br \/>\n    C&oacute;digo Civil, porque al&eacute;m desse termo talvez j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    haja quem saiba ler. N&atilde;o podemos verificar se este remoque, ou este<br \/>\n    progn&oacute;stico pessimista, zoou aos ouvidos do ministro da Justi&ccedil;a,<br \/>\n    e ter&aacute; influ&iacute;do nele para a az&aacute;fama. Mas, se &eacute;<br \/>\n    por isto que nos aperta a necessidade, e bacorinha o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao governo; se, com o progresso que leva o nosso desamanho intelectual, estamos<br \/>\n    realmente amea&ccedil;ados pelo eclipse geral do iliteratismo, melhor nos<br \/>\n    fora, em vez de nos metermos pelas funduras de uma codifica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    guardar as Ordena&ccedil;&otilde;es do Reino, mais f&aacute;ceis de soletrar<br \/>\n    e entender &agrave; meia l&iacute;ngua e &agrave; meia ra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mental dos apedeutas.<\/p>\n<p>Mo&ccedil;o, como &eacute;, por&eacute;m, o nobre secret&aacute;rio de estado,<br \/>\n    cr&ecirc; naturalmente no futuro. Foi para trabalhar, pois, com endere&ccedil;o<br \/>\n    a este que resolveu convidar o seu jovem e brilhante amigo. Lamentamos que<br \/>\n    a fascina&ccedil;&atilde;o de gravar o seu fecit numa dessas obras patri&oacute;ticas,<br \/>\n    cuja ocasi&atilde;o a t&atilde;o poucas reserva o acaso, ou a nomeada, o seduzisse<br \/>\n    ao ponto de esquecer que o tempo s&oacute; respeita as obras de que foi colaborador.<\/p>\n<p>Esta comiss&atilde;o, que lhe encarregam, sob a cl&aacute;usula de tomar<br \/>\n    por molde o projeto do seu antecessor, &#8212; sob a exig&ecirc;ncia de alinhavar<br \/>\n    em meses a sua revis&atilde;o, transforma&ccedil;&atilde;o, ou hibrida&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelo enxerto de outros elementos, &#8212; sob o barbicacho, em terceiro lugar,<br \/>\n    de uma esp&eacute;cie de assessoria ministerial, pelo ajuste de n&atilde;o<br \/>\n    sair, durante o servi&ccedil;o, das imedia&ccedil;&otilde;es do governo, amesquinha<br \/>\n    a esfera do art&iacute;fice, constrange-lhe a liberdade, imp&otilde;e-lhe<br \/>\n    a situa&ccedil;&atilde;o de atamancador, sem independ&ecirc;ncia, originalidade,<br \/>\n    nem firmeza. Vamos ter uma compila&ccedil;&atilde;o mistela, ou aferventada,<br \/>\n    um desses milagres da presteza, a que se poderia aplicar a frase, com que<br \/>\n    um velho professor de Latim costumava zombar das li&ccedil;&otilde;es dos<br \/>\n    maus estudantes, preparados &agrave; carreira, detr&aacute;s da porta, sobre<br \/>\n    uma perna: post januas, in pede uno.<\/p>\n<p>Nessa mesma facilidade, se nos n&atilde;o enganamos, deu mostra sens&iacute;vel<br \/>\n    o ilustre jurista da imaturidade do seu esp&iacute;rito para incumb&ecirc;ncia<br \/>\n    t&atilde;o assoberbadora. Este ali&aacute;s fora o nosso voto, se no assunto<br \/>\n    o tiv&eacute;ssemos. Na esteira do caminho para o C&oacute;digo Civil cintilam<br \/>\n    nomes como o de Nabuco, Teixeira de Freitas, Fel&iacute;cio dos Santos, Coelho<br \/>\n    Rodrigues. Falta o de Lafayette, que, pela designa&ccedil;&atilde;o da superioridade,<br \/>\n    seria hoje, de direito, o nosso codificador.<\/p>\n<p>Pelo seu talento, pela sua voca&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, pelos<br \/>\n    seus escritos, est&aacute; fadado provavelmente o Sr. Cl&oacute;vis Bevil&aacute;qua<br \/>\n    a emparelhar com eles. Mas dizer que os rivaliza, ou se lhes aproxima, fora<br \/>\n    magoar com lisonjarias a consci&ecirc;ncia, que deve ser qualidade inata ao<br \/>\n    m&eacute;rito real. Seus livros ainda n&atilde;o s&atilde;o, como algu&eacute;m<br \/>\n    disse, monumentos. S&atilde;o ensaios not&aacute;veis: entremostram o brilhante<br \/>\n    antes da cristaliza&ccedil;&atilde;o definitiva. Esbo&ccedil;am-se neles os<br \/>\n    predicados, que h&atilde;o de constituir a gema: dar-lhe a pureza, a luminosidade,<br \/>\n    a solidez. Mas o que apresentam, por ora, &eacute; um formoso cristal, aparentemente<br \/>\n    da melhor &aacute;gua, ainda em lapidifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Aqui est&aacute; por que, ao nosso ver, a sua escolha para codificar as nossas<br \/>\n    leis civis foi um rasgo do cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o da cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Com todas as suas prendas de jurisconsulto, lente e expositor, n&atilde;o<br \/>\n    re&uacute;ne todos os atributos, entretanto, para essa miss&atilde;o entre<br \/>\n    todas melindrosa. Falta-lhe ainda a madureza das suas qualidades. Falta-lhe<br \/>\n    a consagra&ccedil;&atilde;o dos anos. Falta-lhe a evid&ecirc;ncia da autoridade.<br \/>\n    Falta-lhe um requisito prim&aacute;rio, essencial, soberano para tais obras:<br \/>\n    a ci&ecirc;ncia da sua l&iacute;ngua, a vernaculidade, a casta corre&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do escrever. H&aacute;, nos seus livros, um desalinho, uma neglig&ecirc;ncia,<br \/>\n    um desd&eacute;m pela boa linguagem, que lhes tira a concis&atilde;o, lhes<br \/>\n    tolda a clareza, lhes entibia o vigor. N&atilde;o somos os primeiros a lhes<br \/>\n    fazer este reparo. Sua frase n&atilde;o tem o sabor portugu&ecirc;s: &eacute;<br \/>\n    mais estrangeira, repassada de laivos germ&acirc;nicos e francesismos, trope&ccedil;ando<br \/>\n    por isso em impropriedades e obscuridades, que a desluzem.<\/p>\n<p>O teor verbal de um c&oacute;digo h&aacute; de ser irrepreens&iacute;vel.<br \/>\n    Qualquer falha na sua estrutura idiom&aacute;tica assume propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de deformidade. Esses trabalhos, em cada um dos quais se deve imprimir o selo<br \/>\n    de uma &eacute;poca e a &iacute;ndole de um povo, s&atilde;o feitos para longas<br \/>\n    estabilidades. Mas a limpidez da linguagem &eacute; o verniz, que preserva<br \/>\n    de corromperem-se as cria&ccedil;&otilde;es da pena. Um c&oacute;digo n&atilde;o<br \/>\n    tolera ja&ccedil;as, desigualdades, achaquilhos, m&aacute;culas no dizer.<\/p>\n<p>Um c&oacute;digo &eacute;, jur&iacute;dica e literariamente, como do alem&atilde;o<br \/>\n    se escreveu, &#8220;uma obra d&#8217;arte&#8221;. &Eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    secular. Deve apresentar as formas lapidares da dura&ccedil;&atilde;o: a sobriedade<br \/>\n    cl&aacute;ssica na sua singeleza inteiri&ccedil;a e impoluta. Deve aspirar,<br \/>\n    pela corre&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, &agrave; perpetuidade, se bem,<br \/>\n    que, no direito humano nihil est quod stare perpetuo possit.<\/p>\n<p>O caididissimus, expeditissimus, absolutissimus libellus de Dumoulin, o codex<br \/>\n    brevis, clarus sufficiens de Leibnitz h&aacute; de ser esse primor d&#8217;obra,<br \/>\n    ou melhor ser&aacute; ent&atilde;o que se n&atilde;o tente.<\/p>\n<p>Sua obriga&ccedil;&atilde;o &eacute; ser isso: um como esfor&ccedil;o de<br \/>\n    epigrafia monumental do Direito: l&oacute;gica, precis&atilde;o, nitidez,<br \/>\n    em l&iacute;ngua de bronze. E, para educar a m&atilde;o capaz de esculpir<br \/>\n    na mat&eacute;ria-prima da palavra esse resumo da consci&ecirc;ncia do seu<br \/>\n    tempo, n&atilde;o basta o g&ecirc;nio: &eacute; mister a consuma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da cultura. Tamanha vit&oacute;ria da arte n&atilde;o poder&aacute; ser sen&atilde;o<br \/>\n    o fruto supremo de uma vida na maturesc&ecirc;ncia da sua for&ccedil;a e na<br \/>\n    plenitude dos seus dias.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>A Imprensa, 15 de mar&ccedil;o de 1899.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"5\">ENTRE VELHOS AMIGOS<\/a><\/h4>\n<p>Infelizmente, retardada de um dia pela circunst&acirc;ncia de haver sido<br \/>\n    comunicada para fora da capital pelo servi&ccedil;o da folha ao seu redator-chefe,<br \/>\n    temos o prazer de dar hoje a lume, com as honras que se lhe devem, a carta,<br \/>\n    com que nos honrou o Dr. Joaquim Nabuco.<\/p>\n<p>Ainda bem que o seu nobre esp&iacute;rito fez justi&ccedil;a ao autor destas<br \/>\n    linhas em n&atilde;o descobrir em nosso editorial de trasantontem outros sentimentos<br \/>\n    al&eacute;m dos que lhe transluzem &agrave; superf&iacute;cie, sem mal&iacute;&shy;cias,<br \/>\n    retic&ecirc;ncias, nem entrelinhas. Dirigindo-se, na sua resposta, ao antigo<br \/>\n    companheiro das suas primeiras lidas intelectuais, evocando as reminisc&ecirc;ncias<br \/>\n    da confraternidade, que j&aacute; ent&atilde;o nos unia nas mesmas aspira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    liberais, na mesma voca&ccedil;&atilde;o da imprensa, no mesmo amor das letras,<br \/>\n    com a diferen&ccedil;a apenas entre n&oacute;s, da sua superioridade indiscut&iacute;vel,<br \/>\n    n&atilde;o lhe enganou o instinto do seu cora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; ainda<br \/>\n    a mesma aspira&ccedil;&atilde;o daquela &eacute;poca, a mesma cordialidade,<br \/>\n    o mesmo interesse pelo futuro de um nome, em cujos primeiros triunfos os seus<br \/>\n    condisc&iacute;pulos j&aacute; adivinhavam grandes horizontes de gl&oacute;ria,<br \/>\n    vastas perspectivas de luminosa celebridade.<\/p>\n<p>Certo que n&atilde;o pod&iacute;amos escolher acontecimento de conseq&uuml;&ecirc;n&shy;cias<br \/>\n    t&atilde;o consider&aacute;veis, quer para o seu protagonista, quer para a<br \/>\n    pol&iacute;tica da atualidade, dar o nosso ju&iacute;zo em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a um sucesso de faces t&atilde;o complexas, com uma aprecia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    inteiri&ccedil;a na aquiesc&ecirc;ncia, ou na censura, no j&uacute;bilo, ou<br \/>\n    nos receios. Tampouco nos era poss&iacute;vel saudar o advento de um homem<br \/>\n    como o Dr. Joaquim Nabuco, do seu valor, da sua express&atilde;o, da sua for&ccedil;a,<br \/>\n    a uma situa&ccedil;&atilde;o nova, e inesperada como esta, com um simples<br \/>\n    hino de ep&iacute;tetos louvaminheiros, com uma glorifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de adjetivos.<\/p>\n<p>No ponto de vista que a Imprensa tem ocupado entre os seus ilustres colegas,<br \/>\n    buscando pregar sempre aos republicanos a toler&acirc;ncia, aos monarquistas<br \/>\n    a transa&ccedil;&atilde;o, evitando constantemente os extremos, e incorrendo,<br \/>\n    por isso, tanta vez, na animadvers&atilde;o dos irreconcili&aacute;veis, t&iacute;nhamos<br \/>\n    a inevit&aacute;vel obriga&ccedil;&atilde;o e a necessidade impreter&iacute;vel<br \/>\n    de projetar sobre todos os aspectos desse fato a luz da reflex&atilde;o desinteressada<br \/>\n    e imparcial.<\/p>\n<p>Se ele fosse nos arraiais do antigo reg&iacute;men o sinal de um movimento<br \/>\n    de aproxima&ccedil;&atilde;o para o novo, seria o caso de felicitarmo-nos,<br \/>\n    vendo realizar-se, enfim, a evolu&ccedil;&atilde;o advogada por n&oacute;s,<br \/>\n    desde 1893, nas colunas do Jornal do Brasil, quando, em uma s&eacute;rie de<br \/>\n    artigos editados por essa preocupa&ccedil;&atilde;o, escrevemos dali o nosso<br \/>\n    manifesto aos conservadores.<\/p>\n<p>Se, pelo contr&aacute;rio, as fileiras monarquistas se retra&iacute;ssem,<br \/>\n    e recuassem diante &#8220;do ponto de honra&#8221;, onde n&atilde;o se deixam<br \/>\n    as convic&ccedil;&otilde;es, indo servir &agrave; p&aacute;tria nos seus reclamos<br \/>\n    superiores, seria, entre os melhores amigos do pa&iacute;s, ocasi&atilde;o<br \/>\n    de grave tristeza pela esterilidade pol&iacute;tica de sacrif&iacute;cio tamanho.<\/p>\n<p>Em todo o caso ningu&eacute;m estava em condi&ccedil;&otilde;es de avaliar<br \/>\n    melhor que o autor destas linhas, cujo esp&iacute;rito j&aacute; viu diante<br \/>\n    de si esse c&aacute;lice*, mas sem a coragem de prov&aacute;-lo, que Deus<br \/>\n    felizmente liberalizou ao nosso eminente amigo, reunindo-lhe o vigor d&#8217;alma<br \/>\n    &agrave; mais alta capacidade. &Eacute; uma circunst&acirc;ncia que, a bem<br \/>\n    da verdade hist&oacute;rica, e em defesa contra a incans&aacute;vel malignidade,<br \/>\n    somos obrigados, e com o maior constrangimento, a mencionar. Quando ao autor<br \/>\n    destas linhas ofereceu a miss&atilde;o concernente &agrave; pend&ecirc;ncia<br \/>\n    com a Fran&ccedil;a, de cuja honra ele julgou dever declinar, o Dr. Manuel<br \/>\n    Vitorino, instando pela sua anu&ecirc;ncia, declarou-lhe que essa miss&atilde;o,<br \/>\n    se o convidado a aceitasse, se estenderia tamb&eacute;m, depois, &agrave;<br \/>\n    quest&atilde;o de limites com a Guiana Holandesa e com a Guiana Inglesa. A<br \/>\n    consci&ecirc;ncia de sua fraqueza n&atilde;o lhe permitiu arrostar a imensidade<br \/>\n    dos perigos da tarefa.<\/p>\n<p>Se em nossa linguagem, pois, divisar algu&eacute;m tra&ccedil;os, que n&atilde;o<br \/>\n    sejam de pura exalta&ccedil;&atilde;o pelo ato patri&oacute;tico do Sr. Joaquim<br \/>\n    Nabuco, nada os ter&aacute; inspirado, sen&atilde;o o zelo por uma reputa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que &eacute; hoje uma das poucas fortunas de nossa vida pol&iacute;tica, por<br \/>\n    uma for&ccedil;a, em que, aos olhos dos seus condisc&iacute;pulos, dos seus<br \/>\n    amigos, dos seus conterr&acirc;neos, sempre se enxergou uma das reservas preciosas<br \/>\n    do nosso porvir.<\/p>\n<p>Fa&ccedil;amos votos &agrave; Provid&ecirc;ncia, para que ela o laureie vencedor.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>A Imprensa, 16 de mar&ccedil;o de 1899.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"6\">AQU&Eacute;M E AL&Eacute;M-MANCHA<\/a><\/h4>\n<p>Aqui h&aacute; meses, quando impugn&aacute;vamos a reforma policial, demonstrando<br \/>\n    que ela contravinha &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o Republicana, para<br \/>\n    estabelecer em perman&ecirc;ncia um reg&iacute;men de exce&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    respondeu-nos um dos nossos ilustres colegas, adepto do expediente:<\/p>\n<p>Sem d&uacute;vida que as medidas a&iacute; contidas s&atilde;o excepcionais<br \/>\n    quanto &agrave; zona em que devem ser aplicadas; mas n&atilde;o &eacute; preciso<br \/>\n    dizer, porque est&aacute; na consci&ecirc;ncia de todos, que excepcional &eacute;<br \/>\n    tamb&eacute;m a situa&ccedil;&atilde;o, a que chegou esta cidade.<\/p>\n<p>N&atilde;o recordamos esta circunst&acirc;ncia, sen&atilde;o para mostrar<br \/>\n    a facilidade, com que nos achamos sempre inclinados a figurar situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    excepcionais, para justificar todos os arb&iacute;trios do poder. Tratava-se,<br \/>\n    na hip&oacute;tese, de meras dificuldades policiais, ali&aacute;s criadas<br \/>\n    unicamente pela incapacidade, cada vez mais not&oacute;ria, da pol&iacute;cia<br \/>\n    fluminense; e tanto bastou, para que se considerasse legitimado o mais violento<br \/>\n    salto por sobre o nosso Direito Constitucional. Bem se pode avaliar, pois,<br \/>\n    que n&atilde;o seria de n&oacute;s, com essa queda pelas leis de exce&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    se lid&aacute;ssemos com uma crise pol&iacute;tica, um conflito de estado,<br \/>\n    uma situa&ccedil;&atilde;o que pusesse &agrave; prova, em face de perigos<br \/>\n    s&eacute;rios, a firmeza da legalidade.<\/p>\n<p>Aqui est&aacute; o por que nos empenhamos em discutir o esc&acirc;ndalo moral,<br \/>\n    que gerou em Fran&ccedil;a a lei de circunst&acirc;ncia. Se o que se discute,<br \/>\n    fora a criminalidade, ou inoc&ecirc;ncia do infeliz condenado da ilha do Diabo,<br \/>\n    o caso teria apenas o interesse humano da simpatia por uma desventura imerecida.<br \/>\n    Mas, desde o princ&iacute;pio, a quest&atilde;o da culpabilidade ou inculpabilidade<br \/>\n    do r&eacute;u est&aacute; no segundo plano. No prosc&ecirc;nio o que avulta,<br \/>\n    deixando tr&aacute;s si a quest&atilde;o individual e a quest&atilde;o francesa,<br \/>\n    o erro judici&aacute;rio e o espet&aacute;culo da crueldade pol&iacute;tica,<br \/>\n    &eacute; a quest&atilde;o universal da santidade das formas do processo, das<br \/>\n    regras essenciais da defesa, das garantias impreter&iacute;veis da liberdade,<br \/>\n    violadas em circunst&acirc;ncias monstruosas, a princ&iacute;pio com uma senten&ccedil;a<br \/>\n    de inquisi&ccedil;&atilde;o militar, depois com a substitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da compet&ecirc;ncia legal por uma compet&ecirc;ncia ad hoc em meio do processo.<\/p>\n<p>Da&iacute; a nossa insist&ecirc;ncia em contrastear as praxes demag&oacute;gicas<br \/>\n    do governo franc&ecirc;s com a cr&iacute;tica liberal da opini&atilde;o inglesa.<br \/>\n    H&aacute; todo um abismo nesse contraste entre os dois pa&iacute;ses, que<br \/>\n    a Mancha parece dividir apenas, por aquela estreita faixa argentina, &aacute;spero<br \/>\n    engaste da gema de Skakespeare, this precious stone set in the silver sea.<br \/>\n    Os gloriosos princ&iacute;pios de 1879 s&atilde;o, ainda hoje, ex&oacute;ticos<br \/>\n    em Fran&ccedil;a. Eles fizeram a grandeza da sua grande revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nos seus dias de filosofia e esperan&ccedil;a. Mas eram transmarinos, e ainda<br \/>\n    agora n&atilde;o deitaram ra&iacute;zes al&eacute;m da tona no esp&iacute;rito<br \/>\n    nacional. Da outra parte do canal &eacute; que tinham nascido, havia s&eacute;culos,<br \/>\n    muitos s&eacute;culos, medrando sempre, atrav&eacute;s das vicissitudes da<br \/>\n    tirania r&eacute;gia e a tirania parlamentar, at&eacute; constitu&iacute;rem,<br \/>\n    camada a camada, por uma s&eacute;rie de estratifica&ccedil;&otilde;es como<br \/>\n    as da crosta do globo, a pr&oacute;pria natureza da nacionalidade.<\/p>\n<p>Dali, do granito florescente daquelas tradi&ccedil;&otilde;es, de onde borbotam<br \/>\n    os mananciais de todas as constitui&ccedil;&otilde;es modernas, de todas as<br \/>\n    formas livres do governo do g&ecirc;nero humano, essas id&eacute;ias, essas<br \/>\n    sementes morais, transpuseram o Atl&acirc;ntico, e, depois de terem feito<br \/>\n    a Am&eacute;rica, impregnaram dos germens do direito a aluvi&atilde;o francesa<br \/>\n    no seu primeiro movimento, enquanto Mirabeau reinava, e n&atilde;o se olvidara<br \/>\n    Montesquieu. A que ponto se vieram a esquecer, com a autoridade deste, com<br \/>\n    o temperamento jur&iacute;dico e brit&acirc;nico do seu ensino, os elementos<br \/>\n    de educa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica esparsos na sua obra, acaba de evidenci&aacute;-lo<br \/>\n    a confus&atilde;o de poderes, o acesso de onipot&ecirc;ncia legislativa, a<br \/>\n    ressurrei&ccedil;&atilde;o das tradi&ccedil;&otilde;es conven&shy;cionalistas,<br \/>\n    cujo golpe de estado assentou o predom&iacute;nio dos partidos sobre a justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>Cento e dez anos de revolu&ccedil;&otilde;es e ditaduras n&atilde;o ensinaram<br \/>\n    a Fran&ccedil;a a amar a liberdade e a justi&ccedil;a. O por que ela sobre<br \/>\n    todas as coisas estremece, &eacute; pelas suas paix&otilde;es religiosas e<br \/>\n    pelas suas paix&otilde;es militares. Quando um interesse pol&iacute;tico tem<br \/>\n    a fortuna de boiar numa dessas correntes; ou ambas elas confluem, como agora,<br \/>\n    a bem do mesmo tresvario, o s&eacute;culo dezesseis ressurge inopinadamente<br \/>\n    no s&eacute;culo dezenove, e a alucina&ccedil;&atilde;o napole&ocirc;nica<br \/>\n    em pleno ensaio republicano. A grande na&ccedil;&atilde;o, am&aacute;vel,<br \/>\n    brilhante, generosa, rompe ent&atilde;o de improviso a t&ecirc;nue vestidura<br \/>\n    das suas institui&ccedil;&otilde;es e volta aos sofismas democr&aacute;ticos,<br \/>\n    aos sofismas patri&oacute;ticos, aos sofismas da gl&oacute;ria e da for&ccedil;a.<\/p>\n<p>Feliz dela se, no eclipse das suas melhores qualidades, o poder das outras<br \/>\n    a n&atilde;o despenha num desses precip&iacute;cios t&atilde;o freq&uuml;entes<br \/>\n    no curso da sua sorte. No caso atual, por&eacute;m, t&atilde;o estrondosas<br \/>\n    formas assumiu o rep&uacute;dio do direito, que ainda entre as na&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    menos liberais da Europa constitucional levantou en&eacute;rgicos pro&shy;testos.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>A Imprensa, 24 de mar&ccedil;o de 1899.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"7\">A REPROVA&Ccedil;&Atilde;O UNIVERSAL<\/a><\/h4>\n<p>Se algu&eacute;m tivesse d&uacute;vida sobre a natureza cosmopolita dos interesses<br \/>\n    morais, cuja energia luta pela vida na quest&atilde;o que por excel&ecirc;ncia<br \/>\n    se ficou chamando, em Fran&ccedil;a, l&#8217;Affaire, a maior das causas famosas,<br \/>\n    devia ter-se-lhe dissipado o erro, ao ouvir ecoar de S. Petersburgo, em pleno<br \/>\n    id&iacute;lio da alian&ccedil;a franco-russa, na mais alta emin&ecirc;ncia<br \/>\n    da magistratura do grande imp&eacute;rio eslavo, o grito de reprova&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que partiu dos l&aacute;bios do presidente do seu primeiro tribunal contra<br \/>\n    a anomalia tr&aacute;gica dessa iniq&uuml;idade.<\/p>\n<p>Se a indigna&ccedil;&atilde;o brit&acirc;nica &eacute; politicamente suspeita,<br \/>\n    neste momento, &agrave;s preven&ccedil;&otilde;es francesas, n&atilde;o lho<br \/>\n    poderia ser a opini&atilde;o dos competentes, do profissionais, dos desinteressados<br \/>\n    da pol&iacute;tica no seio da na&ccedil;&atilde;o, cuja amizade a Fran&ccedil;a<br \/>\n    acabava de celebrar com todos os del&iacute;rios do entusiasmo. E, quando<br \/>\n    quisessem acoimar de suspeita ainda a censura inglesa pelo seu ponto de vista<br \/>\n    inflex&iacute;vel em mat&eacute;ria de justi&ccedil;a, parece que se n&atilde;o<br \/>\n    poderia articular a mesma declinat&oacute;ria contra os protestos que ressoam<br \/>\n    das margens do Neva e do Dan&uacute;bio. Foi a toga que se queixou em S. Petersburgo.<br \/>\n    Em Viena &eacute; a imprensa que clama.<\/p>\n<p>A Neue Frei Presse, comentando o voto da C&acirc;mara dos Deputados, considera<br \/>\n    o projeto do governo franc&ecirc;s como um expediente ignominioso, e, depois<br \/>\n    de se espraiar sobre as excentricidades e surpresas &#8220;desse pandem&ocirc;nio<br \/>\n    legislativo&#8221;, acrescenta:<\/p>\n<p>&#8220;Das not&iacute;cias de Fran&ccedil;a a impress&atilde;o &eacute; que<br \/>\n    as coisas n&atilde;o podem continuar por muito tempo no andar em que v&atilde;o.<br \/>\n    J&aacute; se destruiu tudo o que era destrut&iacute;vel: os grandes princ&iacute;pios,<br \/>\n    a reputa&ccedil;&atilde;o no exterior e, no interior, a autoridade. Se houvesse<br \/>\n    um pretendente audaz, poderia de um s&oacute; golpe dar em terra com todo<br \/>\n    esse arrui&shy;nado edif&iacute;cio republicano.&#8221;<\/p>\n<p>O Pester Lloyd pronuncia-se assim:<\/p>\n<p>&#8220;Que se h&aacute; de ajuizar do esp&iacute;rito p&uacute;blico de um<br \/>\n    pa&iacute;s, onde um pretenso governo republicano fere deliberada e diretamente<br \/>\n    no rosto a justi&ccedil;a, como acaba de fazer com este projeto, sem insurgir,<br \/>\n    inteiro, o Partido Republicano?&#8230; Verdade seja que nada h&aacute; que recear<br \/>\n    pela tranq&uuml;ilidade da Europa. Conquanto se possam filiar ao empenho em<br \/>\n    preservar o respeito ao ex&eacute;rcito todas as monstruosidades do caso Dreyfus,<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute;, em Fran&ccedil;a, partido bastante insano, para imaginar<br \/>\n    que um ex&eacute;rcito com semelhante estado-maior &agrave; sua frente esteja<br \/>\n    apercebido para uma guerra estrangeira. Com tais chefes militares, e em presen&ccedil;a<br \/>\n    do esp&iacute;rito que t&atilde;o clamorosamente se tem manifestado na quest&atilde;o<br \/>\n    Dreyfus, a Fran&ccedil;a &eacute;, na Europa, une quantit&eacute; n&eacute;gligeable.&#8221;<\/p>\n<p>A Fremdenblatt, que &eacute; uma folha semi-oficial, exprime-se com esta<br \/>\n    severidade:<\/p>\n<p>&#8220;Dif&iacute;cil fora dizer quem, de presente, est&aacute; governando<br \/>\n    a Fran&ccedil;a. Parece que n&atilde;o ser&aacute; o governo, o qual anda<br \/>\n    a obedecer a influ&ecirc;ncias a ele alheias, de obscura origem. Por enquanto,<br \/>\n    o homem que mais influente se mostra no pa&iacute;s &eacute; o Sr. Q. de Beaurepaire&#8230;<br \/>\n    Para as gera&ccedil;&otilde;es, que por ela tem pelejado em Fran&ccedil;a,<br \/>\n    o valor da rep&uacute;blica tinha o seu centro na convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ser ela a forma de governo que melhor amparo oferecia &agrave; liberdade<br \/>\n    e &agrave; justi&ccedil;a. Se, depois de se dissiparem tantas outras ilus&otilde;es,<br \/>\n    se esva&iacute;sse tamb&eacute;m esta, ent&atilde;o a palavra rep&uacute;blica<br \/>\n    teria perdido, para a generalidade do povo, o sentido e a estima. Desvanecem-se<br \/>\n    assim os fundamentos essenciais do reg&iacute;men, que s&oacute; pela for&ccedil;a<br \/>\n    do h&aacute;bito continua a existir.&#8221;<\/p>\n<p>Num editorial epigrafado com o t&iacute;tulo: O regime da covardia, a Wiener<br \/>\n    Tagblatt verte a sua indigna&ccedil;&atilde;o nestas palavras desabridas:<\/p>\n<p>&#8220;Pode o Sr. Dupuy ficar, ou sair. Mas ser&aacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    eliminar o fato desairoso de que de ora avante mais f&aacute;cil &eacute;<br \/>\n    mover, naquele pa&iacute;s, a opini&atilde;o a poder de indignas falsidades,<br \/>\n    que pelo acatamento ao direito e &agrave; administra&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a.&#8221;<\/p>\n<p>N&atilde;o s&atilde;o menos duras as palavras da Wiener Allgemeine Zeitung,<br \/>\n    num artigo de fundo encabe&ccedil;ado, em alus&atilde;o ao membro demis&shy;sion&aacute;rio<br \/>\n    do tribunal supremo com a rubrica de Juiz Ravachol:<\/p>\n<p>&#8220;Que pa&iacute;s! V&ecirc;-se aberto um abismo, ao cogitar-lhe no futuro.<br \/>\n    Quando qualquer funcion&aacute;rio tem nas suas m&atilde;os, por meio de alguns<br \/>\n    escritos de jornais, o arb&iacute;trio de provocar virtualmente uma revolu&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    quando o parlamento, os partidos e o povo se inflamam sob a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    das investidas, incrivelmente baixas e rid&iacute;culas do primeiro sujeito,<br \/>\n    bem se podia logo entregar ao populacho das ruas a administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica, e confiar aos cont&iacute;nuos dos tribunais a distribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da justi&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p>Reina, em Fran&ccedil;a, completa anarquia. O que Beaurepaire exige, &eacute;<br \/>\n    nada mais nada menos que um golpe de estado desfechado, este, n&atilde;o pelos<br \/>\n    generais, mas pela C&acirc;mara dos Deputados, uma vez que ela rompe com o<br \/>\n    &uacute;ltimo asilo da Justi&ccedil;a, a Corte de Cassa&ccedil;&atilde;o.&#8221;<\/p>\n<p>Mas, para que n&atilde;o fique s&oacute; a estrangeiros a condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do funesto precedente, iremos pedir ao pr&oacute;prio jornalismo franc&ecirc;s<br \/>\n    dois ju&iacute;zos da mais alta autoridade.<\/p>\n<p>O primeiro &eacute; do Temps:<\/p>\n<p>&#8220;Quanto aos resultados do inqu&eacute;rito Mazeau francamente diremos<br \/>\n    que o nosso sentir &eacute; tal qual o da maioria da comiss&atilde;o, que<br \/>\n    ali&aacute;s n&atilde;o diverge nem do da comiss&atilde;o toda, nem do do<br \/>\n    primeiro presidente Mazeau, nem dos dos conselheiros inqueridores, nem do<br \/>\n    do pr&oacute;prio Governo. Consiste, nesta grande pend&ecirc;ncia, a singularidade<br \/>\n    em que toda a gente est&aacute; de acordo no ponto que &eacute;, ou devia<br \/>\n    ser capital. &#8216;N&atilde;o h&aacute;, neste inqu&eacute;rito, coisa nenhuma.&#8217;<br \/>\n    Eis, em frase familiar, mas exata, o resumo de todos os pareceres oficiais<br \/>\n    a seu respeito at&eacute; hoje. Tamb&eacute;m esse &eacute; o nosso, depois<br \/>\n    de ponderado e minucioso estudo. Afigura-nos que das s&eacute;rias acusa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    proferidas contra os membros da C&acirc;mara Criminal da Corte de Cassa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o subsiste nada. Seria imposs&iacute;vel, nos limites de um artigo<br \/>\n    de gazeta, examinar, sucessivamente e por menor, cada uma das imputa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    com a resposta que a destr&oacute;i. Os nossos leitores, cada qual de per<br \/>\n    si, poder&atilde;o refazer &agrave; sua parte este trabalho. J&aacute; o fizeram<br \/>\n    os membros da comiss&atilde;o parlamentar, com todo o cuidado que lhes impunha<br \/>\n    a sua responsabilidade. Tiveram de concluir que n&atilde;o estava provada<br \/>\n    uma s&oacute; das queixas, acoimadas pelo relat&oacute;rio R&eacute;nault-Morli&egrave;re,<br \/>\n    de mexericos, e que a inquiri&ccedil;&atilde;o da C&acirc;mara Criminal fora<br \/>\n    processada &#8220;nas condi&ccedil;&otilde;es normais&#8221;. E os dois comiss&aacute;rios<br \/>\n    dissidentes dos seus nove colegas no voto sobre o projeto de lei, puseram<br \/>\n    timbre em consignar que n&atilde;o rendiam menor homenagem &agrave; regularidade<br \/>\n    dos atos da C&acirc;mara Criminal: &#8216;Pelo que toca aos magistrados da<br \/>\n    C&acirc;mara Criminal em sua boa-f&eacute; e honorabilidade n&atilde;o temos<br \/>\n    d&uacute;vida alguma.&#8217; H&atilde;o de lembrar-se da categ&oacute;rica<br \/>\n    declara&ccedil;&atilde;o do primeiro presidente Mazeau, cuja carta se acha<br \/>\n    referendada pelos conselheiros Dareste e Voisin. O mesmo Governo, na exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de motivos, especifica nitidamente que dos magistrados em quest&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    tem a m&iacute;nima desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8220;Desde ent&atilde;o pareceria haver-se de concluir, em boa l&oacute;gica,<br \/>\n    pelo encerramento puro e simples do incidente. Se &eacute; leg&iacute;timo<br \/>\n    desaforar magistrados indignos, evidentemente o ser&aacute; desaforar magistrados<br \/>\n    irrepreens&iacute;veis. O desaforamento de uma jurisdi&ccedil;&atilde;o regular<br \/>\n    no correr de um processo, &eacute; provid&ecirc;ncia de terr&iacute;vel gravidade,<br \/>\n    contr&aacute;ria a todos os precedentes, a todos os princ&iacute;pios constitutivos<br \/>\n    das garantias onde assenta a justi&ccedil;a nos pa&iacute;ses civilizados.<br \/>\n    &#8216;&Eacute;&#8217;, disse muito bem o Sr. R&eacute;nault-Morli&egrave;re,<br \/>\n    &#8216;uma medida essencialmente ditat&oacute;ria, na pior acep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da palavra&#8217;.<\/p>\n<p>&#8220;Compreender-se-ia a iniciativa do governo se convencessem a C&acirc;mara<br \/>\n    Criminal de quebra dos seus deveres. Mas a inanidade das increpa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a ela assacadas alui pelos fundamentos o projeto. A missiva do Sr. Mazeau,<br \/>\n    concluindo pelo desaforamento, n&atilde;o era motivada. Tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    a motiva o inqu&eacute;rito publicado. Fica destarte sem explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o projeto de desaforamento.<\/p>\n<p>&#8220;Sabe-se a que o governo d&aacute;. Trata-se, ao que ele exp&otilde;e,<br \/>\n    de um ato de apazigua&ccedil;&atilde;o, e &eacute; s&oacute; com este intuito<br \/>\n    que se requer da C&acirc;mara o voto de desaforamento. Apaziguar a quem? Que<br \/>\n    coisa apaziguar? &#8212; Essa fra&ccedil;&atilde;o do povo, que arg&uacute;i<br \/>\n    a C&acirc;mara Criminal? &#8212; Mas ela a crimina sem raz&atilde;o. &Eacute;<br \/>\n    o em que conv&eacute;m o Governo. Mas ent&atilde;o lhe bastar&aacute; serem<br \/>\n    ultrajados esses ju&iacute;zes, posto que sem motivo, para que lhe pare&ccedil;a<br \/>\n    necess&aacute;rio satisfazer aos seus inimigos? A&iacute; t&ecirc;m, h&atilde;o<br \/>\n    de confessar, uma estranha teoria. De futuro, pois, n&atilde;o depender&aacute;<br \/>\n    mais que do bel-prazer de alguns jornalistas ou oradores o inabilitarem qualquer<br \/>\n    tribunal regular, que lhes houver desagradado? Caso se reproduza contra as<br \/>\n    C&acirc;maras reunidas da Corte de Cassa&ccedil;&atilde;o a campanha difamat&oacute;ria,<br \/>\n    julgar-se-&aacute; obrigado o governo a desaforar as c&acirc;maras reunidas?<br \/>\n    A conseq&uuml;&ecirc;ncia de tal sistema &eacute; impossibilitar a distribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8220;Dizia, na tribuna, h&aacute; algumas semanas, o Sr. Lebret: &#8216;N&atilde;o<br \/>\n    posso prescindir de declarar, perante a C&acirc;mara, a minha admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pela serenidade, pela calma, com que, a despeito das afrontas cada dia recebidas,<br \/>\n    a despeito das injustificadas acusa&ccedil;&otilde;es que a alvejam, a Corte<br \/>\n    de Cassa&ccedil;&atilde;o continua, em recolhimento, o exerc&iacute;cio das<br \/>\n    suas altas fun&ccedil;&otilde;es, mostrando assim ter no mais alto grau o<br \/>\n    sentimento dos grandes deveres, que lhe incumbem, e em cuja altura se saber&aacute;<br \/>\n    liberar&#8217;. No dia 4 de novembro passado o Sr. Carlos Dupuy, Presidente<br \/>\n    do Conselho, impugnando o projeto de desaforamento apresentado pelo Sr. Gerville<br \/>\n    R&eacute;ache, falava nestes termos: &#8216;T&atilde;o poss&iacute;vel &eacute;<br \/>\n    de estudar para casos futuros uma proposta deste g&ecirc;nero, qu&atilde;o<br \/>\n    imposs&iacute;vel de desaforar, como esta quer, num momento dado uma jurisdi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; preventa&#8217;. Tanto quanto era, h&aacute; tr&ecirc;s meses, a<br \/>\n    linguagem do Governo o transunto da sabedoria mesma, parece imposs&iacute;vel<br \/>\n    agora, ap&oacute;s a leitura da inquiri&ccedil;&atilde;o Mazeau, atinar com<br \/>\n    os motivos, que o determinaram a variar.&#8221;<\/p>\n<p>Fale agora o Sr. Cornelis, do Figaro, que, ap&oacute;s a sua evolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    extraordin&aacute;ria perante a rea&ccedil;&atilde;o militar, ningu&eacute;m<br \/>\n    poderia razoavelmente averbar de dreyfusismo:<\/p>\n<p>&#8220;Acaba-se de ler o volumoso inqu&eacute;rito, que h&aacute; de servir<br \/>\n    de pre&acirc;mbulo &agrave; discuss&atilde;o do projeto de lei de circunst&acirc;ncia<br \/>\n    deposto pelo governo. Esse inqu&eacute;rito foi transmitido ao guarda-selos<br \/>\n    mediante uma carta do Sr. Primeiro Presidente Mazeau que o julgado da C&acirc;mara<br \/>\n    Criminal n&atilde;o satisfa&ccedil;a a opini&atilde;o p&uacute;blica. Oi&ccedil;o<br \/>\n    agora, pela primeira vez na minha vida, sustentar a um jurista que as senten&ccedil;as<br \/>\n    da justi&ccedil;a t&ecirc;m por fim satisfazer a opini&atilde;o p&uacute;blica.<br \/>\n    At&eacute; aqui supunha eu que aos ju&iacute;zes pouco se lhes desse da opini&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica, e que os seus arestos tivessem precisamente por objeto fix&aacute;-la,<br \/>\n    n&atilde;o lhe obedecer.<\/p>\n<p>Se assim n&atilde;o fora, e o juiz tivera de consultar a opini&atilde;o popular,<br \/>\n    n&atilde;o se percebe por que haveria tribunais, e o povo n&atilde;o dispensaria<br \/>\n    justi&ccedil;a diretamente, em vez de impor o seu talante aos magistrados.<\/p>\n<p>Creio que essa carta ficar&aacute; sendo hist&oacute;rica, e, enquanto se<br \/>\n    ensinar direito neste pa&iacute;s, ser&aacute; mostrada aos jurisconsultos<br \/>\n    em novicia&shy;do como um modelo para n&atilde;o imitar.<\/p>\n<p>Aos leitores imparciais, os &uacute;nicos cujo crit&eacute;rio pesa e nos<br \/>\n    preo&shy;cupa, o inqu&eacute;rito, com os seus depoimentos e certas dessas<br \/>\n    recrimina&ccedil;&otilde;es, a cujo despejo s&oacute; se avantaja a simpleza<br \/>\n    dos queixosos, n&atilde;o parecer&aacute; certamente bastante, para subverter<br \/>\n    as regras usuais da compet&ecirc;ncia e as formas tradicionais da justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>A julgar por mim, todos esses leitores sentir-se-&atilde;o dividir entre<br \/>\n    um sentimento de admira&ccedil;&atilde;o e uma impress&atilde;o de funda tristeza.<br \/>\n    Admirar&atilde;o sinceramente esses magistrados, que se conservaram impass&iacute;veis,<br \/>\n    mudos e desdenhosos atrav&eacute;s dos conv&iacute;cios e aleives. Mas tamb&eacute;m<br \/>\n    se sentir&atilde;o entristecidos e humilhados, vendo a que ponto se enxovalhou<br \/>\n    o tribunal supremo, e por que portas estreitas e baixas for&ccedil;am a passar<br \/>\n    os seus ju&iacute;zes, para se justifi&shy;carem.<\/p>\n<p>Ah! quanto mal fizeram &agrave; sua terra os homens, que organizaram esta<br \/>\n    maquina&ccedil;&atilde;o criminosa contra a justi&ccedil;a francesa, e os<br \/>\n    que, podendo obst&aacute;-lo, lho permitiram! Talvez nem o suspeitem, e &eacute;<br \/>\n    s&oacute; a sua escusa. Mas o futuro lhes demonstrar&aacute; a monstruosidade<br \/>\n    da sua culpa.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>A Imprensa, 25 de mar&ccedil;o de 1899.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"8\">UM DISCURSO PRESIDENCIAL<\/a><\/h4>\n<p>Respondendo, no banquete de Belo Horizonte, ao speech, em que o ilustre governador<br \/>\n    de Minas Gerais assegurou &agrave; atualidade pol&iacute;tica &#8220;o apoio<br \/>\n    incondicional&#8221; daquele estado, que, se tem &#8220;a rara fortuna de<br \/>\n    ser o ber&ccedil;o da id&eacute;ia republicana no Brasil&#8221;, se ufana<br \/>\n    tamb&eacute;m de ter sido &#8220;a terra donde partiu a aclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do nome do Dr. Campos Sales para a Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica&#8221;,<br \/>\n    o eminente cidad&atilde;o, que hoje exerce essas fun&ccedil;&otilde;es, mostrou-se,<br \/>\n    ainda uma vez, o mestre, que &eacute;, dos estilos do reg&iacute;men, exordiando<br \/>\n    um discurso de excelentes promessas com a oportuna evoca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da legenda do protom&aacute;rtir.<\/p>\n<p>&#8220;Foi a esta bela regi&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o brasileira&#8221;,<br \/>\n    disse S. Ex.&ordf;, &#8220;que coube a gl&oacute;ria de oferecer &agrave;<br \/>\n    Rep&uacute;blica o seu primeiro m&aacute;rtir; e, quando j&aacute; se pode<br \/>\n    dizer que, na consci&ecirc;ncia nacional, se reconhece, se proclama que a<br \/>\n    Rep&uacute;blica &eacute; a forma definitiva de governo da nossa p&aacute;tria,<br \/>\n    parece chegado o momento de render-se homenagem ao poderoso estado&#8221;.<br \/>\n    Infelizmente n&atilde;o quiseram as circunst&acirc;ncias que a eleg&acirc;ncia<br \/>\n    dessa homenagem lhe fosse tributada no s&iacute;tio onde est&aacute; o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das suas tradi&ccedil;&otilde;es, na velha cidade onde jaz o sacr&aacute;rio<br \/>\n    das rel&iacute;quias da primeira hist&oacute;ria da nossa liberdade. Aqueles<br \/>\n    que respiraram uma vez em Ouro Preto, a antiga metr&oacute;pole mineira acastelada,<br \/>\n    sob o seu c&eacute;u puro, no fundo das devesas dos seus erros, como um baluarte<br \/>\n    natural contra as surpresas do despotismo, ficaram compreendendo que ali &eacute;<br \/>\n    que se sente bem o g&ecirc;nio nativo da nossa Helv&eacute;cia, a alma das<br \/>\n    suas lendas, a s&oacute;lida estrutura da sua moralidade, a &iacute;ndole<br \/>\n    forte, lenta e segura do seu progresso, o seu amor dos compromissos do passado,<br \/>\n    a sua circunspe&ccedil;&atilde;o contra as imprud&ecirc;ncias do presente,<br \/>\n    a sua desconfian&ccedil;a dos imprevistos do futuro. Se a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nos pudesse reviver a sombra de Tiradentes a contemplar e julgar a Rep&uacute;blica,<br \/>\n    seria erguendo-se do seio daquelas rochas dilaceradas, quando o sol lhes cintila<br \/>\n    sobre os veios do oiro, ou do alto de uma daquelas quebradas, daqueles alcantis,<br \/>\n    cuja majestade severa p&ocirc;s a coroa da cria&ccedil;&atilde;o e da hist&oacute;ria,<br \/>\n    que a m&atilde;o do homem n&atilde;o destr&oacute;i, &agrave; triste capital,<br \/>\n    hoje destronada.<\/p>\n<p>Belo Horizonte n&atilde;o nos fala do humilde orago da Inconfid&ecirc;ncia.<br \/>\n    O her&oacute;i da rea&ccedil;&atilde;o contra os excessos das cortes e os<br \/>\n    abusos dos validos, contra as institui&ccedil;&otilde;es in&iacute;quas e<br \/>\n    as leis espoliativas, n&atilde;o se comprazeria nessa faustosa inven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da prodigalidade, que converteu as economias de um estado pr&oacute;spero<br \/>\n    nos deficits de um tesoiro endividado. Belo Horizonte &eacute; uma aventura<br \/>\n    sem crit&eacute;rio, um sonho de nababos sem dinheiro, um produto dessa megalomania<br \/>\n    da cria&ccedil;&atilde;o de novas capitais, a cuja oca vaidade a constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    republicana erigiu o mais oco monumento no planalto de Goi&aacute;s. A v&iacute;tima<br \/>\n    do absolutismo extorsor n&atilde;o se reconheceria satisfeita nas galas de<br \/>\n    uma democracia perdul&aacute;ria.<\/p>\n<p>Em compensa&ccedil;&atilde;o, nada corresponderia melhor &agrave; express&atilde;o<br \/>\n    moral da mem&oacute;ria dos supliciados pela intoler&acirc;ncia dos reis que<br \/>\n    os protestos da toler&acirc;ncia republicana associados a essa obla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    hist&oacute;rica pelo chefe do Estado. Entende ele que, dada a consolida&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    definitiva do novo reg&iacute;men, a cujo respeito n&atilde;o lhe resta d&uacute;vida<br \/>\n    nenhuma, &#8220;estabelecida essa convic&ccedil;&atilde;o em todos os esp&iacute;ritos,<br \/>\n    abre-se campo para a grande pol&iacute;tica da toler&acirc;ncia, dentro da<br \/>\n    qual possam ser aproveitadas todas as aptid&otilde;es em bem da p&aacute;tria&#8221;.<br \/>\n    E, completando o seu pensamento, acrescenta: &#8220;&Eacute; fora de d&uacute;vida<br \/>\n    que os grandes males, que ainda hoje deploramos, procedem principalmente do<br \/>\n    encarni&ccedil;amento das nossas lutas internas; mas nada h&aacute; que justifique<br \/>\n    lutas dessa natureza, quando as diverg&ecirc;ncias n&atilde;o repousam em<br \/>\n    pontos fundamentais, quer na ordem das id&eacute;ias, quer na ordem dos princ&iacute;pios,<br \/>\n    diretores da p&uacute;blica administra&ccedil;&atilde;o&#8221;.<\/p>\n<p>H&aacute;, nestas palavras, grandes verdades, e n&atilde;o pequeno merecimento<br \/>\n    em as dizer, grandes compromissos, e n&atilde;o pequena responsabilidade em<br \/>\n    os contrair. Reconhecer como evid&ecirc;ncia indisput&aacute;vel que os graves<br \/>\n    males ainda hoje por n&oacute;s deplorados emanam principalmente da nossa<br \/>\n    incapacidade para o respeito das opini&otilde;es alheias, e, sobretudo, reconhec&ecirc;-lo<br \/>\n    durante a quadra em que a recrudesc&ecirc;ncia dessa disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geral para a tirania tem revestido formas ins&oacute;litas, destruidoras e<br \/>\n    cruentas, &eacute; fazer grande servi&ccedil;o &agrave; causa da benevol&ecirc;ncia<br \/>\n    entre os nossos compatriotas, flagelados pelo furor dos partidos e dos governos.<br \/>\n    Mas fazer essa confiss&atilde;o do alto do poder e sob o peso das suas culpas<br \/>\n    &eacute; assumir obriga&ccedil;&otilde;es, para cujo desempenho se requer<br \/>\n    toda a pureza da sinceridade, toda a abnega&ccedil;&atilde;o da f&eacute;<br \/>\n    e todo o hero&iacute;smo da honra.<\/p>\n<p>H&aacute;, entretanto, mais de um ponto, em que o enunciado presidencial<br \/>\n    nos parece favorecer id&eacute;ias, com que n&atilde;o podemos estar de acordo.<br \/>\n    N&oacute;s consideramos a toler&acirc;ncia como o maior passo para a consolida&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do reg&iacute;men republicano, para a consolida&ccedil;&atilde;o de todo e<br \/>\n    qualquer reg&iacute;men. N&atilde;o podemos admitir que ela seja uma concess&atilde;o,<br \/>\n    um benef&iacute;cio, uma b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o peculiar das institui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    cuja exist&ecirc;ncia criou ra&iacute;zes inabal&aacute;veis. Acreditamos,<br \/>\n    pelo contr&aacute;rio, que nenhuma constitui&ccedil;&atilde;o se firmou jamais<br \/>\n    pelos meios reacion&aacute;rios, e que s&atilde;o sobretudo as formas de governo<br \/>\n    novamente implantadas, ainda malseguras na estima dos povos, as que necessitam<br \/>\n    de mostrar a sua perfeita compatibilidade com os direitos da consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    as fun&ccedil;&otilde;es da palavra e a a&ccedil;&atilde;o legal das minorias.<\/p>\n<p>Tem por indubit&aacute;vel o Presidente da Rep&uacute;blica, associado neste<br \/>\n    sentir ao Governador de Minas, ser ela hoje o sistema definitivo da nossa<br \/>\n    organiza&ccedil;&atilde;o constitucional. Mais longe v&atilde;o ainda os dois.<br \/>\n    A seu ver, essa &eacute; &#8220;a convic&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o dos<br \/>\n    republicanos, mas de todos em geral, embora muitos a n&atilde;o confessem&#8221;.<br \/>\n    N&atilde;o queremos dizer que S. Ex.&ordf;s n&atilde;o acertem no hor&oacute;scopo<br \/>\n    de definitiva, com que agoiram o futuro da Rep&uacute;blica. Nisso nos inclinamos<br \/>\n    a crer que este &eacute; o ju&iacute;zo mais seguro, bem que sem participarmos<br \/>\n    dessa confian&ccedil;a absoluta, contra a qual nos deve prevenir a fragilidade<br \/>\n    das institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, em n&atilde;o sendo resultantes<br \/>\n    evolutivas do tempo, frutos do desenvolvimento org&acirc;nico das na&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    De ordin&aacute;rio as constitui&ccedil;&otilde;es mais anchas da sua eternidade<br \/>\n    s&atilde;o as mais enfer&shy;mi&ccedil;as, os poderes mais confiantes na sua<br \/>\n    estabilidade s&atilde;o os mais passageiros. Quando se apresentou a Bonaparte<br \/>\n    o plebiscito de dezembro de 1804, que lhes acabava de dar perto de quatro<br \/>\n    milh&otilde;es de sufr&aacute;gios, disse o imperador: &#8220;Os meus descendentes<br \/>\n    conservar&atilde;o por muito tempo este trono&#8221;. E ele durou apenas onze<br \/>\n    anos. Vendo as ilus&otilde;es, de que a Provid&ecirc;ncia rodeia o poder,<br \/>\n    exclama, a esse respeito, Chateaubriand, consola-nos a ef&ecirc;mera dura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    delas.<\/p>\n<p>Mas a Rep&uacute;blica no Brasil, forte em boa parte pela profunda fraqueza<br \/>\n    dos seus advers&aacute;rios, quase que n&atilde;o corre perigos sen&atilde;o<br \/>\n    da parte de si mesma. Crer, por&eacute;m, que toda a gente considere imagin&aacute;rios<br \/>\n    esses perigos, e que a cren&ccedil;a nesse reg&iacute;men como o estado final<br \/>\n    do pa&iacute;s seja universal, &eacute; mais do que permite o otimismo dos<br \/>\n    hist&oacute;ricos e o entusiasmo dos festins. N&atilde;o: ainda h&aacute;<br \/>\n    desconfiados, ainda h&aacute; incr&eacute;dulos, ainda h&aacute; pessimistas;<br \/>\n    e, se quisermos dar um penhor elementar da nossa toler&acirc;ncia, permitindo<br \/>\n    neste ponto a verdade, havemos de confessar que a corrente mais geral &eacute;<br \/>\n    a de apreens&otilde;es e receios. Muito h&aacute; que fazer, para lhe mudar<br \/>\n    a dire&ccedil;&atilde;o. Mas, a querer o governo encetar seriamente essa obra<br \/>\n    merit&oacute;ria, a primeira for&ccedil;a, de que se deve armar, &eacute;<br \/>\n    a magnanimidade, a justi&ccedil;a aos advers&aacute;rios, a benignidade com<br \/>\n    os dissidentes.<\/p>\n<p>Para que essa virtude seja, por&eacute;m, eficaz, necess&aacute;rio ser&aacute;<br \/>\n    que n&atilde;o abra exce&ccedil;&otilde;es; que abranja todos os matizes da<br \/>\n    hostilidade no terreno da enuncia&ccedil;&atilde;o do pensamento e do uso<br \/>\n    dos recursos leg&iacute;timos contra o poder; que n&atilde;o tenha, enfim,<br \/>\n    reservas, como as que parece transluzirem das palavras do Chefe do Estado,<br \/>\n    quando alude a &#8220;diverg&ecirc;ncias em pontos fundamentais, quer na ordem<br \/>\n    das id&eacute;ias, quer na dos princ&iacute;pios diretores da p&uacute;blica<br \/>\n    administra&ccedil;&atilde;o&#8221;. A toler&acirc;ncia n&atilde;o pode ter<br \/>\n    ressalvas sendo contra o crime. As diverg&ecirc;ncias fundamentais, as que<br \/>\n    interessam a pr&oacute;pria base pol&iacute;tica das institui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    enquanto respeitarem as leis, t&ecirc;m o mais pleno direito &agrave; prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos governos livres.*<\/p>\n<p align=\"right\"><b>A Imprensa, 26 de mar&ccedil;o de 1899.<br \/>\n    *Corrigido de acordo com a errata de 27 de mar&ccedil;o de 1899.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"9\">DANTON EM OURO PRETO<\/a><\/h4>\n<p>Por que Danton? A que prop&oacute;sito aqui o homem da aud&aacute;cia? Que<br \/>\n    associa&ccedil;&atilde;o de id&eacute;ias pode haver entre o mart&iacute;rio<br \/>\n    dos inconfidentes e a trucul&ecirc;ncia dos terroristas? Da altura, de onde<br \/>\n    fala o nobre presidente da Rep&uacute;blica, as palavras n&atilde;o chegam<br \/>\n    ao ch&atilde;o: propagam-se pelo ar, e caem nos esp&iacute;ritos, para germinar<br \/>\n    o bem, ou o mal. Eis por que nos n&atilde;o seria l&iacute;cito deixar sem<br \/>\n    nota o seu brinde do dia 24, na velha capital mineira, onde S. Ex.&ordf; disse:<br \/>\n    &#8220;Sim, senhores, vim ver a terra legend&aacute;ria e santa da liberdade.<br \/>\n    Quando pela primeira vez visitei a capital da Fran&ccedil;a, minha maior admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foi pela est&aacute;tua de Danton, como s&iacute;mbolo da aud&aacute;cia na<br \/>\n    revolu&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m ontem, quando galguei as pitorescas<br \/>\n    ladeiras de Vila Rica, entre as aclama&ccedil;&otilde;es do povo, lembrei-me<br \/>\n    dos inconfidentes mineiros. Brindo, pois, a Ouro Preto, como ber&ccedil;o<br \/>\n    da rep&uacute;blica brasileira&#8221;.<\/p>\n<p>Perdoe-nos o ilustre orador: as conclus&otilde;es n&atilde;o se acham de<br \/>\n    boa aven&ccedil;a com as premissas. O pois est&aacute; a servir ali de colchete<br \/>\n    a sentimentos, que se repelem. N&atilde;o se pode um homem lembrar dos inconfidentes<br \/>\n    mineiros com a mesma admira&ccedil;&atilde;o com que se extasiava diante da<br \/>\n    est&aacute;tua de Danton. N&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o repugn&acirc;ncia<br \/>\n    e inconciliabilidade entre as tradi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas da<br \/>\n    antiga Vila Rica e os exemplos demag&oacute;gicos de Paris. N&atilde;o pode<br \/>\n    haver sen&atilde;o antagonismo entre o ber&ccedil;o de uma rep&uacute;blica<br \/>\n    gerada sem crueldades republicanas, pelo modelo sax&ocirc;nio da submiss&atilde;o<br \/>\n    comum de todos os poderes &agrave; lei, e o laborat&oacute;rio do regic&iacute;dio,<br \/>\n    do setembrismo, da Conven&ccedil;&atilde;o, da Comuna.<\/p>\n<p>Terra de reminisc&ecirc;ncias liberais &eacute; Minas, terra consagrada &agrave;<br \/>\n    liberdade. Mas, por isso mesmo, nunca simpatizou com os ditadores, com os<br \/>\n    Dantons. O her&oacute;i de sangue, preconizado, ao lado de Francia e tantas<br \/>\n    outras encarna&ccedil;&otilde;es t&iacute;picas da ferocidade, no igrej&aacute;rio<br \/>\n    positivista a que o chefe do Estado acaba de fazer esta mesura, na &eacute;poca<br \/>\n    em que se trama e propala a reabilita&ccedil;&atilde;o judicial do atentado<br \/>\n    an&aacute;rquico de 5 de novembro, &eacute; uma das express&otilde;es mais<br \/>\n    radicais e sanguinosas da democracia iliberal, da democracia reatora, da democracia<br \/>\n    antiamericana. Minas s&oacute; teria avers&atilde;o por essa figura cl&aacute;ssica<br \/>\n    da ditadura inchada e ret&oacute;rica, atroz e retumbante. Minas, se fosse<br \/>\n    um peda&ccedil;o da Fran&ccedil;a, quando o parceiro de Marat e Robespierre<br \/>\n    a cobria de guilhotinas, seria para fechar as suas montanhas aos decretos<br \/>\n    dos proscritores, e franquear aos perseguidos essa hospitalidade, de encontro<br \/>\n    &agrave; qual se tem ido inutilizar, sob a Rep&uacute;blica, o desespero das<br \/>\n    persegui&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>A honra dos imolados pelo absolutismo colonial no Brasil, a honra da sua<br \/>\n    mem&oacute;ria crist&atilde;, de abnega&ccedil;&atilde;o e sofrimento, repele<br \/>\n    esse parentesco arbitr&aacute;rio, ex&oacute;tico, esp&uacute;rio com a carniceria<br \/>\n    dos &iacute;dolos jacobinos. Nessas imagens caras aos patriotas brasileiros<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; sangue. Esses mortos n&atilde;o oprimiram, n&atilde;o<br \/>\n    espoliaram, n&atilde;o mataram. Na sua hist&oacute;ria s&oacute; se encontra<br \/>\n    um supl&iacute;cio: o deles. Danton &eacute; o contraste deste sacrif&iacute;cio:<br \/>\n    &eacute; a pol&iacute;tica do cadafalso servida pela eloq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    de um tribuno e cinismo de um demagogo.<\/p>\n<p>As duas maiores obras do Terror foram o 2 de setembro e o tribunal revolucion&aacute;rio.<br \/>\n    No primeiro uma legi&atilde;o de gal&eacute;s e magarefes &eacute;brios, assalariados<br \/>\n    para a matan&ccedil;a, esvaziaram de milhares de inocentes as pris&otilde;es<br \/>\n    de Paris, e, numa hecatombe incompar&aacute;vel, alagaram do seu sangue as<br \/>\n    ruas da cidade. Pelo outro se organizou sistematicamente o mortic&iacute;nio<br \/>\n    judicial dos cidad&atilde;os, sem lei, processo, nem defesa. Um foi a aluvi&atilde;o<br \/>\n    do exterm&iacute;nio civil pelo processo dos invasores orientais nas regi&otilde;es<br \/>\n    conquistadas. O outro, a metodiza&ccedil;&atilde;o da chacina humana pela<br \/>\n    mais ign&oacute;bil par&oacute;dia da justi&ccedil;a. Dessas duas obras do<br \/>\n    assass&iacute;nio pol&iacute;tico em massa, o maior respons&aacute;vel foi<br \/>\n    o tipo, cuja evoca&ccedil;&atilde;o acabamos de ver numa solenidade semi-oficial<br \/>\n    como o s&iacute;mbolo da aud&aacute;cia republicana.<\/p>\n<p>N&atilde;o se pode conceber excentricidade mais inoportuna, dis&shy;son&acirc;ncia<br \/>\n    mais irritante que esse hino &agrave; aud&aacute;cia sarapintada de sangue,<br \/>\n    em seguida &agrave; boa nova da toler&acirc;ncia. No dia 21 se declarara,<br \/>\n    em Belo Horizonte, a liberdade para as consci&ecirc;ncias. No dia 24 se panegiriza,<br \/>\n    em Ouro Preto, o gigante da inquisi&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria.<br \/>\n    A impress&atilde;o dessa incongru&ecirc;ncia &eacute; amarga e desanimadora.<\/p>\n<p>Pese melhor o honrado presidente da Rep&uacute;blica as suas inconfid&ecirc;ncias.<br \/>\n    Fa&ccedil;a aos seus amigos e ao pa&iacute;s esse servi&ccedil;o. S. Ex.&ordf;<br \/>\n    ama a aud&aacute;cia. Quer convencer-se e convencer-nos de que essa &eacute;<br \/>\n    a sua qualidade prima. Cuidado, por&eacute;m, com a escolha dos modelos e<br \/>\n    o risco dos s&iacute;miles. Danton n&atilde;o simboliza a rep&uacute;blica:<br \/>\n    simboliza a ditadura. Virtude haveria no seu arrojo, se ele o houvesse utilizado<br \/>\n    em proteger aos oprimidos. Mas nunca o empregou sen&atilde;o para se entronizar<br \/>\n    entre os opressores. Se ele se servira da sua aud&aacute;cia, para se fazer<br \/>\n    o domador da demagogia, podia ter sido o Tit&atilde;o das reivindica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    populares. Cortes&atilde;o, por&eacute;m, dos maus instintos da plebe, a sua<br \/>\n    afoiteza n&atilde;o lhe prestou sen&atilde;o para disputar a primazia aos<br \/>\n    mais cru&eacute;is.<\/p>\n<p>Vede nalguns tra&ccedil;os a escala, por onde esse homem sobe &agrave; popularidade<br \/>\n    e ao poder. Aos 20 de junho de 1792, quando lhe chega a not&iacute;cia de<br \/>\n    que o motim deixara as Tulherias, sem ter degolado Lu&iacute;s XVI, rompeu-lhe<br \/>\n    da boca esta exclama&ccedil;&atilde;o: Les imb&eacute;ciles! ils ne savent<br \/>\n    donc pas que le crime a aussi son heure du berger! Na manh&atilde; de 2 de<br \/>\n    setembro, o dia da carni&ccedil;a, ao lhe anunciarem que as pris&otilde;es<br \/>\n    estavam amea&ccedil;adas e os presos espavoridos, ele, ministro da Justi&ccedil;a,<br \/>\n    respons&aacute;vel pela vida indefesa dos acusados, brame com o gesto adequado<br \/>\n    &agrave; obscenidade da palavra: &#8220;Je me f&#8230;. bien des prisonniers!<br \/>\n    qui&#8217;ls deviennent ce qu&#8217;ils pourront.&#8221; No dia seguinte inunda<br \/>\n    os departamentos de bandidos e corta-cabe&ccedil;as, revestidos das fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de comiss&aacute;rios do governo; e, quando, mais tarde, um deputado se lhe<br \/>\n    queixa dos crimes desses malfeitores, a resposta do seu protetor &eacute;<br \/>\n    outra torpeza intraduz&iacute;vel: &#8220;Eh f&#8230;! Croyez-vous qu&#8217;on<br \/>\n    vous enverra des demoiselles?&#8221;<\/p>\n<p>Semanas depois, na matan&ccedil;a das pris&otilde;es, M. de S&eacute;gur,<br \/>\n    antigo embaixador da Fran&ccedil;a na corte da Pr&uacute;ssia, com quem, na<br \/>\n    rua, Danton, uma vez, travara conversa, lhe dizia:<\/p>\n<p>&#8220;&#8212; N&atilde;o lhes posso atinar com o motivo, nem com o fim,<br \/>\n    e n&atilde;o compreendo como v&oacute;s, ministro da Justi&ccedil;a, n&atilde;o<br \/>\n    pudestes prevenir esses horrores, ou ao menos lhes atalhar o curso.&#8221;<\/p>\n<p>&#8212; &#8220;Esqueceis, senhor&#8221;, redarg&uuml;iu-lhe o audaz, &#8220;a<br \/>\n    quem est&aacute;s falando; esqueceis que sa&iacute;mos da enxurrada; que,<br \/>\n    com os vossos princ&iacute;pios, bem cedo nela tornar&iacute;amos a chafurdar,<br \/>\n    e que n&atilde;o podemos governar, sen&atilde;o metendo medo.&#8221;<\/p>\n<p>A&iacute; est&aacute; o segredo dessa aud&aacute;cia: intimidado, intimidar.<br \/>\n    Em mar&ccedil;o de 1793 o conselho geral da comuna de Amiens comunica &agrave;<br \/>\n    assembl&eacute;ia que acaba de receber de Danton, ministro da Justi&ccedil;a,<br \/>\n    uma circular, expedida pela comiss&atilde;o de vigil&acirc;ncia da Comuna,<br \/>\n    exortando os departamentos a trucidarem todos os prisioneiros e todos os traidores.<br \/>\n    Poucos dias depois um dos seus mais fa&ccedil;anhosos discursos, onde sobressa&iacute;a<br \/>\n    esta frase: &#8220;Quem quer que se atrevesse a almejar a destrui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da liberdade, afirmo que morreria pela minha m&atilde;o&#8221;, arrasta a<br \/>\n    conven&ccedil;&atilde;o a adotar um decreto pondo fora da lei os aristocratas<br \/>\n    e em movimento o tribunal revolucion&aacute;rio. No m&ecirc;s seguinte rasteja<br \/>\n    entre os aduladores do triunfo de Marat, qualificando essa data de sinistra<br \/>\n    ignom&iacute;nia como um belo dia. Por mais que aumente em presteza, no tribunal<br \/>\n    revolucion&aacute;rio, a m&aacute;quina homicida, era preciso estar sempre<br \/>\n    adiante da ferocidade dos assassinos, para n&atilde;o ser devorado por ela.<br \/>\n    Da&iacute; aquele me&shy;donho discurso de 4 de setembro de 1793, arg&uuml;indo<br \/>\n    de morosidade a incans&aacute;vel oficina de sangue, e propondo a sua divis&atilde;o<br \/>\n    em maior n&uacute;mero de sec&ccedil;&otilde;es, para lhe desenvolver cada<br \/>\n    vez mais a ativi&shy;dade.<\/p>\n<p>Estas linhas definem o &iacute;dolo dos violentos. S&oacute; eles podem amar<br \/>\n    esse perfil rubro de carn&iacute;fice, em quem a submiss&atilde;o &agrave;s<br \/>\n    paix&otilde;es da canalha, sem a desculpa do fanatismo de Robespierre, ou<br \/>\n    da loucura de Marat, subserviu &agrave;s monstruosidades inenarr&aacute;veis<br \/>\n    da revolu&ccedil;&atilde;o, dissimulando-se numa aud&aacute;cia de aparato.<\/p>\n<p>E que aproveitou ela &agrave; rep&uacute;blica? A aud&aacute;cia do dantonismo<br \/>\n    gerou o Terror. O Terror gerou a anarquia. A anarquia gerou a ditadura. A<br \/>\n    ditadura gerou o imp&eacute;rio. O imp&eacute;rio gerou a invas&atilde;o estrangeira.<br \/>\n    A invas&atilde;o gerou a restaura&ccedil;&atilde;o. Eis o valor republicano<br \/>\n    do nome, cuja reminisc&ecirc;ncia as aclama&ccedil;&otilde;es do povo mineiro<br \/>\n    despertaram no &acirc;nimo do chefe do Estado.<\/p>\n<p>O estadista foi tra&iacute;do pelas suas recorda&ccedil;&otilde;es acad&ecirc;micas.<br \/>\n    Feche S. Ex.&ordf; os Plutarcos da demagogia, escute a Hist&oacute;ria, e<br \/>\n    ver&aacute; como a sua alma de americano recua horrorizada do erro dessas<br \/>\n    admira&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>A Imprensa, 27 de mar&ccedil;o de 1899.<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: A Imprensa A Miss\u00e3o Nabuco Um C\u00f3digo Civil O C\u00f3digo Civil Entre Velhos Amigos Aqu\u00e9m e Al\u00e9m-Mancha A Reprova\u00e7\u00e3o Universal Um Discurso Presidencial Danton em Ouro Preto Rui Barbosa A IMPRENSA SOMOS N&Oacute;S OPOSICIONISTAS? 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