{"id":117323,"date":"2017-04-03T13:19:01","date_gmt":"2017-04-03T15:19:01","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117323"},"modified":"2017-04-03T13:19:01","modified_gmt":"2017-04-03T15:19:01","slug":"obras-seletas-volume-vi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/obras-seletas-volume-vi","title":{"rendered":"Obras Seletas &#8211; Volume VI"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"656\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Radical Paulistano<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Di\u00e1rio da Bahia<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Dois de Julho<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">O Pa\u00eds<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">O Bezerro de Palha<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Jornal do Commercio<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">O Dever da Oposi\u00e7\u00e3o<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#8\" class=\"links\">A Lega\u00e7\u00e3o do Vaticano<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">O Bispo Diocesano<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Nossa Constitui\u00e7\u00e3o, A Espada<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">A Espionagem<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Militares e Pol\u00edtica<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Rui Barbosa<\/h2>\n<p><b>Pref&aacute;cio<\/b><\/p>\n<p>Ao planejar, em 1921, a publica&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica de suas<br \/>\n    obras com o editor A. J. de Castilho, denominou Rui Barbosa Campanhas Jornal&iacute;sticas<br \/>\n    a s&eacute;rie dos escritos de imprensa. Com esse t&iacute;tulo geral apareceram,<br \/>\n    de fato, os dois primeiros tomos da Queda do Imp&eacute;rio, ambos com a indica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geral de Parte Primeira.<\/p>\n<p>Em esbo&ccedil;o de seu punho, sem data, mas evidentemente anterior, sob<br \/>\n    o t&iacute;tulo geral de Imprensa, planejou ele a publica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos escritos de jornal na seguinte ordem: &#8220;O fim do Imp&eacute;rio,<br \/>\n    2 vols. &#8212;, a Ditadura de 1893, 1 vol. &#8212;, Dois anos de imprensa,<br \/>\n    2 vols. &#8212;&#8221;, e &#8220;Folhas esparsas, 1 vol.&#8221; Partia nos<br \/>\n    dois casos da campanha de 1889, relegando a um s&oacute; volume os artigos<br \/>\n    em jornais acad&ecirc;micos, oito anos do Di&aacute;rio da Bahia, os artigos<br \/>\n    n&#8217;O Pa&iacute;s e a campanha nos &#8220;a pedidos&#8221; do Jornal do<br \/>\n    Com&shy;mer&shy;cio em 1885.<\/p>\n<p>Ali&aacute;s parece que ele visava antes uma sele&ccedil;&atilde;o que uma<br \/>\n    publica&ccedil;&atilde;o completa, porque mesmo a s&eacute;rie ent&atilde;o<br \/>\n    chamada Fim do Imp&eacute;rio ficava reduzida a dois tomos, quando A Queda<br \/>\n    do Imp&eacute;rio, iniciada em 1921, nos dois tomos aparecidos s&oacute; alcan&ccedil;ou<br \/>\n    o m&ecirc;s de maio de 1889, e a campanha vai terminar somente a 15 de novembro.<\/p>\n<p>O nome de Campanhas Jornal&iacute;sticas parece assim que se ajusta a uma<br \/>\n    colet&acirc;nea de artigos como a presente.<\/p>\n<p>A revis&atilde;o dos textos coube ao professor Sousa e Silva, como nos tomos<br \/>\n    anteriores, da Tribuna Parlamentar. A prepara&ccedil;&atilde;o geral das Obras<br \/>\n    Seletas continua a cargo do t&eacute;cnico e bibli&oacute;grafo A. Sim&otilde;es<br \/>\n    dos Reis.<\/p>\n<p>J&aacute; est&atilde;o em preparo os tomos seguintes: Tribuna Judici&aacute;ria,<br \/>\n    Tribuna Liter&aacute;ria e Tribuna Popular.<\/p>\n<p>A boa acolhida que t&ecirc;m recebido os tomos desta s&eacute;rie bem justifica<br \/>\n    a sua publica&ccedil;&atilde;o paralela &agrave; das Obras Completas.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Casa de Rui Barbosa, maio de 1956.<br \/>\n    A. J. L.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"1\"><b>RADICAL PAULISTANO<\/b><\/a><\/h4>\n<p><b>A EMANCIPA&Ccedil;&Atilde;O PROGRIDE<\/b><\/p>\n<p>Quando a seiva do esp&iacute;rito p&uacute;blico entra a derramar-se no g&eacute;rmen<br \/>\n    de uma reforma, &eacute; porque a Provid&ecirc;ncia j&aacute; a &shy;aben&ccedil;oou.<\/p>\n<p>Nas &eacute;pocas de incuba&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica como a atual,<br \/>\n    em que a vontade popular vacila entre a antiguidade de um abuso arreigado<br \/>\n    nas institui&ccedil;&otilde;es e a santidade de uma id&eacute;ia vener&aacute;vel,<br \/>\n    ungida pelo prest&iacute;gio da verdade eterna, cada receio que se destr&oacute;i<br \/>\n    &eacute; uma promessa, cada convers&atilde;o que se efetua uma vit&oacute;ria,<br \/>\n    cada ensaio que se tenta uma conquista.<\/p>\n<p>Os princ&iacute;pios s&atilde;o inviol&aacute;veis e imortais. Inviol&aacute;veis,<br \/>\n    porque t&ecirc;m como asilo a consci&ecirc;ncia, e enquanto eles se ajuntam,<br \/>\n    gota a gota, no esp&iacute;rito dos homens para transformar-se na vaga enorme<br \/>\n    das revolu&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o h&aacute; lei que os reprima, nem<br \/>\n    inquisi&ccedil;&atilde;o que os alcance.<\/p>\n<p>Imortais, porque encerram em si, contra a a&ccedil;&atilde;o corrosiva dos<br \/>\n    preconceitos humanos, o car&aacute;ter, a subst&acirc;ncia e a energia de<br \/>\n    uma lei invari&aacute;vel, absoluta e universal.<\/p>\n<p>O que, por&eacute;m, determina principalmente a sua ineg&aacute;vel supremacia<br \/>\n    perante as concep&ccedil;&otilde;es do interesse e da for&ccedil;a, nas grandes<br \/>\n    lutas sociais, o que deve desanimar sobretudo aos propugnadores do passado,<br \/>\n    &eacute; o cont&aacute;gio irresist&iacute;vel de sua influ&ecirc;ncia, a<br \/>\n    virtude reprodutora de seus resultados e a inalienabilidade maravilhosa de<br \/>\n    suas aquisi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Enquanto a semente divina dorme no sulco, podeis lan&ccedil;ar-lhe o sal<br \/>\n    da maldi&ccedil;&atilde;o, podeis plantar-lhe em derredor a parasita insaci&aacute;vel,<br \/>\n    podeis abaf&aacute;-la com escolhos, negar-lhe o ar e a luz, o orvalho do<br \/>\n    c&eacute;u e as car&iacute;cias da esta&ccedil;&atilde;o, os recursos da arte<br \/>\n    e os desvelos do lavrador.<\/p>\n<p>&Eacute; simplesmente um embuste, porque a rea&ccedil;&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de ultrapassar os obst&aacute;culos, e a verdade germinar&aacute; sempre,<br \/>\n    mas &eacute; um embuste proveitoso para os interessados.<\/p>\n<p>Tem sua raz&atilde;o de ser.<\/p>\n<p>Os pobres de esp&iacute;rito que n&atilde;o percebem o desenvolvimento subterr&acirc;neo<br \/>\n    da reforma, n&atilde;o acreditam sua exist&ecirc;ncia*. &Eacute; uma veia<br \/>\n    abundante para os exploradores h&aacute;beis.<\/p>\n<p>Ai deles, por&eacute;m, ai dos refrat&aacute;rios, quando uma s&oacute; verg&ocirc;ntea<br \/>\n    atravessar esses empecilhos!<\/p>\n<p>Neste caso a resist&ecirc;ncia fecunda, a oposi&ccedil;&atilde;o consolida<br \/>\n    e o contraste fortifica.<\/p>\n<p>&Eacute; a hidra invenc&iacute;vel da f&aacute;bula.<\/p>\n<p>&Eacute; a hist&oacute;ria da emancipa&ccedil;&atilde;o da escravatura entre<br \/>\n    n&oacute;s.<\/p>\n<p>Outrora a escravid&atilde;o pareceria fadada a perpetuidade neste pa&iacute;s.<br \/>\n    Falar em extingui-la seria uma blasf&ecirc;mia. Fizeram-na esposar a lavoura,<br \/>\n    cuidando uni-las para sempre. A na&ccedil;&atilde;o tinha edificado a sua<br \/>\n    fortuna sobre um crime, consagrando-o nos seus c&oacute;digos como uma neces&shy;sidade<br \/>\n    social.<\/p>\n<p>Hoje o princ&iacute;pio emancipador, difundido pela civiliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    lavrou por toda a parte.<\/p>\n<p>Na Europa e na Am&eacute;rica desapareceu a escravid&atilde;o.<\/p>\n<p>S&oacute; n&oacute;s alimentamos no seio esta ignom&iacute;nia.<\/p>\n<p>A press&atilde;o formid&aacute;vel das id&eacute;ias cresce de dia para dia<br \/>\n    em volta de n&oacute;s como um oceano prenhe de tempestades.<\/p>\n<p>No meio de tudo isto o que fez o Governo? Nada; absolutamente nada!<\/p>\n<p>A fala do trono de 1869 &eacute; uma vergonha indel&eacute;vel. O Sr. D.<br \/>\n    Pedro II, que em 1867 e em 1868 havia proclamado solenemente a urg&ecirc;ncia<br \/>\n    da reforma abolicionista, que tinha celebrado compromissos p&uacute;blicos<br \/>\n    com o pa&iacute;s e com a Europa, que alardeava de todo modo tend&ecirc;ncias<br \/>\n    humanit&aacute;rias, vem rasgar aos olhos do mundo o &uacute;nico t&iacute;tulo<br \/>\n    merit&oacute;rio com que at&eacute; hoje podia ufanar-se o despotismo de sua<br \/>\n    autoridade retratando com o sil&ecirc;ncio todas as suas promes&shy;sas para<br \/>\n    envolver-se numa absten&ccedil;&atilde;o misteriosa e injus&shy;tific&aacute;vel.<\/p>\n<p>E ainda h&aacute; quem diga que a emancipa&ccedil;&atilde;o neste pa&iacute;s<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; quest&atilde;o de partidos!<\/p>\n<p>Sim, n&atilde;o devia s&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>Mas a &iacute;ndole mesquinha de nossa pol&iacute;tica tem convertido esse<br \/>\n    reclamo da consci&ecirc;ncia nacional em arma de hostilidades.<\/p>\n<p>Algum dia, quando a liberdade n&atilde;o for mais o privil&eacute;gio dos<br \/>\n    brancos no Brasil, quando a posteridade examinar os nossos feitos com o facho<br \/>\n    da Hist&oacute;ria na m&atilde;o, a justi&ccedil;a dos vindouros h&aacute;<br \/>\n    de gravar na mem&oacute;ria do Partido Conservador o estigma da reprova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    eterna, porque ele sacrificou aos interesses moment&acirc;neos do poder, o<br \/>\n    interesse imorredouro da verdade; aos c&aacute;lculos est&eacute;reis do ego&iacute;smo,<br \/>\n    as necessidades imperiosas do futuro, e &agrave; pequenhez das considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pessoais os direitos inalien&aacute;veis de uma ra&ccedil;a escravizada.<\/p>\n<p>N&atilde;o protesteis! Se a emancipa&ccedil;&atilde;o em 1867 e em 1868 era<br \/>\n    t&atilde;o urgente, que o imperador a mandava estudar pelo conselho d&#8217;estado,<br \/>\n    e a consignava nos discursos da coroa como a necessidade capital do pa&iacute;s,<br \/>\n    invocando para ela a reflex&atilde;o do parlamento, como &eacute; que de um<br \/>\n    ano para o outro esta necessidade urgente e imediata torna-se t&atilde;o secund&aacute;ria,<br \/>\n    t&atilde;o indiferente, t&atilde;o remota que nem sequer merece ser mencionada<br \/>\n    na fala do trono?<\/p>\n<p>Felizmente, por&eacute;m, h&aacute; um preceito e um fato de observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que nos animam.<\/p>\n<p>O primeiro &eacute; que desde que a verdade chega a amadurecer com os acontecimentos,<br \/>\n    cada embara&ccedil;o com que trabalhamos por contrari&aacute;-la, &eacute;<br \/>\n    um acr&eacute;scimo de for&ccedil;a para a sua multiplica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O segundo &eacute; o imponente movimento do esp&iacute;rito nacional que<br \/>\n    vai-se formando lentamente no pa&iacute;s.<\/p>\n<p>A servid&atilde;o em que temos vivido at&eacute; hoje, a aus&ecirc;ncia completa<br \/>\n    de anima&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do pa&iacute;s, tem-nos habituado<br \/>\n    a desdenhar esses fatos, que, sob a mod&eacute;stia de suas fei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ocultam graves sistemas* de regenera&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>Ao nobre exemplo das prov&iacute;ncias do Piau&iacute;, de Santa Catarina<br \/>\n    e de Pernambuco, acaba de responder brilhantemente a prov&iacute;ncia de S.<br \/>\n    Paulo decretando uma verba de vinte contos de r&eacute;is para a reden&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de crian&ccedil;as cativas.<\/p>\n<p>Honra lhe seja!<\/p>\n<p>Bem haja a assembl&eacute;ia provincial, que, neste ponto, soube entender<br \/>\n    a sua miss&atilde;o! Bem haja ela, que assim acaba de penhorar a gratid&atilde;o<br \/>\n    de seus constituintes! Bem haja ela, porque assim amou a justi&ccedil;a e<br \/>\n    serviu a causa da verdade!<\/p>\n<p>N&oacute;s a saudamos em nome de nossos pais, cuja mem&oacute;ria clama em<br \/>\n    nossas almas pela reden&ccedil;&atilde;o dessa iniq&uuml;idade tremenda a<br \/>\n    que os arrastaram, em nome do pa&iacute;s, que reclama constantemente o desagravo<br \/>\n    dessa afronta, em nome do futuro, que se encaminha para n&oacute;s, e que<br \/>\n    ser&aacute; implac&aacute;vel se lhe deixarmos este legado de opr&oacute;brio,<br \/>\n    em nome das id&eacute;ias radicais, em nome da felicidade de nossos filhos,<br \/>\n    em nome do evangelho que &eacute; a grande constitui&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    povos livres!<\/p>\n<p>N&oacute;s a saudamos, em nome de Deus!&#8230; Num pa&iacute;s descentralizado<br \/>\n    este fato seria uma expans&atilde;o natural das prov&iacute;ncias, um acontecimento<br \/>\n    regular sem significa&ccedil;&atilde;o precisa, sem alcance pol&iacute;tico,<br \/>\n    sem resultados ulteriores.<\/p>\n<p>Entre n&oacute;s, por&eacute;m, onde o Governo constitui-se pai, tutor, administrador<br \/>\n    da prov&iacute;ncia, do munic&iacute;pio, do cidad&atilde;o, este fato encerra<br \/>\n    um protesto expressivo contra essa minoridade perp&eacute;tua que nos aniquila.<\/p>\n<p>&#8220;A centraliza&ccedil;&atilde;o administrativa &eacute; o la&ccedil;o<br \/>\n    mais eficaz das na&ccedil;&otilde;es pouco adiantadas, exclama o poder; o<br \/>\n    que falta ao povo deve salvar* no Governo, para manter o equil&iacute;brio<br \/>\n    vital. Trabalhemos pela unidade administrativa: &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fundamental da nossa exist&ecirc;ncia.&#8221;<\/p>\n<p>Bem: mas onde est&atilde;o os efeitos ben&eacute;ficos deste sistema? Nas<br \/>\n    finan&ccedil;as? Estamos exaustos. Na guerra? N&atilde;o se pode conceber<br \/>\n    dire&ccedil;&atilde;o mais infeliz. No funcionalismo? &Eacute; o nosso maior<br \/>\n    flagelo. Nas rela&ccedil;&otilde;es exteriores? Somos o lud&iacute;brio de<br \/>\n    todos os governos.<\/p>\n<p>Que &eacute; da fecundidade t&atilde;o preconizada com que legitimais a centraliza&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>Que reformas se promovem? que melhoramentos se estabelecem? que abusos se<br \/>\n    extirpam?<\/p>\n<p>O que diz, o que faz o Governo diante da grande revolu&ccedil;&atilde;o social<br \/>\n    que nos est&aacute; iminente, a supress&atilde;o do trabalho servil?<\/p>\n<p>Emudece.<\/p>\n<p>O Governo deserta a causa da emancipa&ccedil;&atilde;o! Ele, que se inculca<br \/>\n    como o civilizador, o mestre, o magistrado do pa&iacute;s, acaba de renegar<br \/>\n    a justi&ccedil;a, a verdade e a civiliza&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>E as prov&iacute;ncias, eternas pupilas de seus administradores, &eacute;<br \/>\n    que hasteiam a bandeira libertadora, a bela, e venerada bandeira da consci&ecirc;ncia<br \/>\n    e da honestidade nacional.<\/p>\n<p>Diante desta escandalosa contradi&ccedil;&atilde;o que homem de bem, que<br \/>\n    alma patri&oacute;tica ser&aacute; capaz de negar o influxo pernicioso da<br \/>\n    unidade administrativa?<\/p>\n<p>Conven&ccedil;am-se todos de que s&oacute; h&aacute; para o Brasil um meio<br \/>\n    de reabilita&ccedil;&atilde;o: &eacute; o sistema federativo, &eacute; a iniciativa<br \/>\n    provincial. As assembl&eacute;ias de Santa Catarina, Piau&iacute;, Per&shy;nam&shy;buco<br \/>\n    e S. Paulo demonstram, com o seu procedimento, a exatid&atilde;o deste asserto.<\/p>\n<p>Governe cada um a si mesmo: &eacute; a norma dos estados representativos<br \/>\n    e dos Estados Unidos, da Inglaterra, da B&eacute;lgica, da Holanda, da Su&iacute;&ccedil;a.<\/p>\n<p>Ao lado, por&eacute;m, desta reforma erga outra que esses mesmos acontecimentos<br \/>\n    proclamam com a eloq&uuml;&ecirc;ncia respeit&aacute;vel dos fatos.<\/p>\n<p>&Eacute; o interesse urgente da emancipa&ccedil;&atilde;o. O Brasil, segundo<br \/>\n    a express&atilde;o de Laboulaye no Congresso Abolicionista de 1867, o Brasil<br \/>\n    est&aacute; bloqueado pelo mundo.<\/p>\n<p>O poder cruza os bra&ccedil;os? Pior para ele; a torrente o destruir&aacute;.<\/p>\n<p>A aboli&ccedil;&atilde;o da escravid&atilde;o, quer o Governo queira quer<br \/>\n    n&atilde;o queira, h&aacute; de ser efetuada num futuro pr&oacute;ximo.<\/p>\n<p>Tal &eacute; a realidade.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Radical Paulistano, 25 de junho de 1869.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"2\">DI&Aacute;RIO DA BAHIA<\/a><\/h4>\n<p><b>PELOS ESCRAVOS!<\/b><\/p>\n<p><b>&Agrave;S SENHORAS BAIANAS<\/b><\/p>\n<p>A&iacute; vai j&aacute; por mais de quatro anos.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o muitas dentre as leitoras, resplandecentes hoje na sua expandida<br \/>\n    formosura como as rosas de Casimira no luxo das suas cem p&eacute;talas, eram<br \/>\n    ainda apenas feiticeiros bot&otilde;ezinhos, meio escondidos no verde c&aacute;lix<br \/>\n    dos seus onze anos, t&iacute;midos e sorridentes.<\/p>\n<p>Nos longes da sua fantasia conjeturo eu que ainda agora poderiam vislumbrar,<br \/>\n    transformada em vis&atilde;o remot&iacute;ssima e indefinida, uma suave reminisc&ecirc;ncia<br \/>\n    de certo dia de abril.*<\/p>\n<p>O g&ecirc;nio irresist&iacute;vel da poesia pairava-lhes em torno, desprendendo<br \/>\n    das asas, como pranto do c&eacute;u, as harmonias da caridade; e cada gota<br \/>\n    melodiosa daquele orvalho, recebida, numa alma, convertia-se numa p&eacute;rola<br \/>\n    de amor, numa car&iacute;cia, num consolo para um grande infort&uacute;nio<br \/>\n    vivo entre n&oacute;s.<\/p>\n<p>Assim contam lendas orientais que as chuvas do fir&shy;ma&shy;mento, acolhidas<br \/>\n    nas conchas rec&ocirc;nditas do oceano, cristalizam-se nessas lindas j&oacute;ias<br \/>\n    marinhas t&atilde;o cobi&ccedil;adas para adere&ccedil;o de belas.<\/p>\n<p>Era Castro Alves, invocando pelos escravos a piedade civilizadora da mulher.<\/p>\n<p>A inspira&ccedil;&atilde;o, consciente da sua energia, emudecera nos l&aacute;bios<br \/>\n    do poeta a cad&ecirc;ncia embevecedora do verso.<\/p>\n<p>Mas, na sua prosa, modulada como prece, ouvia-se gemer encantadamente a c&iacute;tara,<br \/>\n    como nas p&aacute;ginas do cantor de Cimodoc&eacute;ia, Atala e Renato.<\/p>\n<p>Hoje desapareceu a musa; e o cisne voga al&eacute;m, para l&aacute; desse<br \/>\n    lago azul em cujo seio Deus deixou a terra como esmeralda esquecida num inv&oacute;lucro<br \/>\n    de safira.<\/p>\n<p>As vibra&ccedil;&otilde;es plangentes daquela s&uacute;plica esparziram-se<br \/>\n    no ar, confundidas &agrave; m&uacute;sica infinita e perene da poesia, que<br \/>\n    esses peregrinos do c&eacute;u perpetuam na terra, como no murm&uacute;rio<br \/>\n    das vagas, dos segredos impercept&iacute;veis do z&eacute;firo, do di&aacute;logo<br \/>\n    incessante das &aacute;rvores, da bulha misteriosa das folhas secas, dos gemidos<br \/>\n    solenes da montanha, do chilrear dos p&aacute;ssaros condensa-se esse acordo<br \/>\n    inef&aacute;vel e cont&iacute;nuo da natureza, que nos circunda, nos inebria,<br \/>\n    nos vivifica, e nos domina.<\/p>\n<p>Debalde o atrevido folhetinista de hoje apura toda a subtileza dos sentidos,<br \/>\n    e tenta desentranhar de si faculdades ignotas, para colher no v&ocirc;o um<br \/>\n    t&ecirc;nue eco perdido dessa voz, que n&atilde;o ouvimos mais.<\/p>\n<p>Ah que, se o pudesse, com que sofreguid&atilde;o e que amor o n&atilde;o<br \/>\n    fixara ao instrumento mudo e inerte da sua imaginativa!<\/p>\n<p>Ent&atilde;o levantar&iacute;eis a m&atilde;o do teclado, ou deix&aacute;-la-&iacute;eis<br \/>\n    cair insensivelmente sobre a costura; e, embebidos os olhos dessa umidade,<br \/>\n    em que o &ecirc;xtase envolve a pupila dos que cismam, fitos os ouvidos e<br \/>\n    a alma, ir&iacute;eis seguindo, sem cuidar, a repercuss&atilde;o dessa toada<br \/>\n    long&iacute;nqua, como haveis de seguir, em mente, ainda hoje, em muita hora<br \/>\n    de saudade, a doce cantilena materna com que se vos embalou o ber&ccedil;o.<\/p>\n<p>Mas, j&aacute; que n&atilde;o &eacute; com prest&iacute;gios desta nossa<br \/>\n    esfera que se h&atilde;o de cativar os silfos esquivos e sussurrantes desse<br \/>\n    outro mundo m&aacute;gico, fiquem embora a&iacute;, em sua monotonia silenciosa,<br \/>\n    as cordas prosaicas e terrenas, incapazes de m&oacute;dulos celestes.<\/p>\n<p>Esque&ccedil;am o folhetinista, que n&atilde;o passa de um diletante, presumido<br \/>\n    talvez, com certeza impertinente.<\/p>\n<p>Deixem palpitar somente o cora&ccedil;&atilde;o das minhas circunstantes,<br \/>\n    coro de harpas e&oacute;lias que, ao resvalar do sopro indistinto e permanente<br \/>\n    dos sofrimentos humanos, estremecem, ressoam e exaurem-se deliciosamente num<br \/>\n    lamento de dor, de consola&ccedil;&atilde;o e de f&eacute;.<\/p>\n<p>Escutem.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; mais a uniforme surdina da aragem percorrendo melancolicamente<br \/>\n    a plan&iacute;cie nua, sem promessa de arbusto onde poise, baloice-se, e embeba<br \/>\n    o frescor da sombra.<\/p>\n<p>&Eacute; o flutuar convidativo e po&eacute;tico da vira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    num desses retalhos de terra verdejante, dispersos no deserto, onde h&aacute;<br \/>\n    a t&eacute;pida atmosfera dos tr&oacute;picos para conforto, arvoredo por<br \/>\n    cortinado ao sono, e a nepentes com as suas flores e as urnas graciosas cheias<br \/>\n    de &aacute;gua cristalina, furtada ao sol, para o forasteiro sedento.<\/p>\n<p>&Eacute; uma inenarr&aacute;vel sinfonia de almas comovidas que estala com<br \/>\n    paix&atilde;o magoada, quebra e adormenta-se como canto inspirador de sonhos<br \/>\n    bons &agrave; cabeceira de doente amado, freme como a alegria em consci&ecirc;ncia<br \/>\n    iluminada pela bondade, prolonga-se como um desses &oacute;sculos de casto<br \/>\n    afeto em fronte de desconsolado esposo, e solu&ccedil;a, reprimindo-se, como<br \/>\n    pranto interrompido e enxugado pela esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Para isso mais n&atilde;o era mister que uma id&eacute;ia, uma sugest&atilde;o,<br \/>\n    um toque, a rubrica deste folhetim, um instant&acirc;neo re&shy;lan&shy;ce<br \/>\n    de olhos a essa enorme e secular desgra&ccedil;a do cati&shy;veiro.<\/p>\n<p>Deu o Onipotente &agrave; mulher a complei&ccedil;&atilde;o da flor.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; uma galanteria &agrave;s senhoras presentes.<\/p>\n<p>Nesta figura, em que tanto se comprazem literatos e namorados, h&aacute;<br \/>\n    a express&atilde;o de uma verdade t&atilde;o instintiva, que, numa das l&iacute;nguas<br \/>\n    de &Aacute;sia, primitiva p&aacute;tria do homem, mulher e flor se conhecem<br \/>\n    por um nome s&oacute;.<\/p>\n<p>Flor de tanto mimo e mais melindre ainda que a sensitiva pudica e nervosa,<br \/>\n    &#8212; &agrave; terr&iacute;vel lembran&ccedil;a dessa desventura incompar&aacute;vel,<br \/>\n    que tem devorado gera&ccedil;&otilde;es inteiras, desse milen&aacute;rio crime,<br \/>\n    que desumaniza toda uma fam&iacute;lia de irm&atilde;os nossos, desse como<br \/>\n    estigma de Caim gravado at&eacute; hoje nas esp&aacute;duas deste grandioso<br \/>\n    pa&iacute;s, &#8212; a esse pensamento de ang&uacute;stia, como se h&atilde;o<br \/>\n    de ter as fr&aacute;geis criaturas divinas, que se n&atilde;o contraiam de<br \/>\n    aflitas, inclinem-se de haste para o ch&atilde;o, e exalem-se no seu aroma<br \/>\n    de inextingu&iacute;vel afeto?<\/p>\n<p>Est&atilde;o vendo, portanto, as ben&eacute;volas ouvintes e o c&iacute;rculo<br \/>\n    de mirones que a&iacute; ondeia por fora, sem convite, a invejar-me o audit&oacute;rio,<br \/>\n    e espiar-me a palestra; est&atilde;o vendo j&aacute; que o folhetinista n&atilde;o<br \/>\n    vem de m&atilde;o estendida ao &oacute;bolo de generosidade por esses infelizes.<\/p>\n<p>Fora mais que uma superfluidade: uma ofensa.<\/p>\n<p>Implorar &eacute; antecipar-se &agrave; previd&ecirc;ncia do benfeitor, supri-la,<br \/>\n    ter malsegura a confian&ccedil;a nela, na sua certeza, na sua prontid&atilde;o,<br \/>\n    na sua liberalidade.<\/p>\n<p>Diante de Deus, sim, prostre-se o pecador, e ore; porque, se &eacute; bom,<br \/>\n    &eacute; tamb&eacute;m severo; &eacute; pai, mas h&aacute; de ser sentenciador;<br \/>\n    &eacute; a miseric&oacute;rdia, mas &eacute;, ao mesmo tempo, a justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>Mas perante a mulher, por que os joelhos no p&oacute;, a postura s&uacute;plice,<br \/>\n    os olhos envergonhados?<\/p>\n<p>Pedir-lhe &eacute; desconhecer nela a Provid&ecirc;ncia universal do desvalimento<br \/>\n    e da mis&eacute;ria.<\/p>\n<p>Falar-lhe em esmola &eacute; pungi-la ingratamente.<\/p>\n<p>A esmola &eacute; o esfor&ccedil;o, a priva&ccedil;&atilde;o, o sacrif&iacute;cio.<br \/>\n    Bela e bem fadada palavra, mas que n&atilde;o condiz sen&atilde;o &agrave;queles<br \/>\n    entre quem a abnega&ccedil;&atilde;o &eacute; um acidente, ao sexo endurecido<br \/>\n    no labor agro do mundo, em que a caridade &eacute; uma refletida conquista<br \/>\n    do esp&iacute;rito sobre o interesse.<\/p>\n<p>Mais sedutor, por&eacute;m, ainda, e mais digno de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os<br \/>\n    o nome a que tem direito o sexo lindo; porque ele &eacute; a caridade mesma.<\/p>\n<p>N&atilde;o pratica a virtude; tem-na consubstanciada em si.<\/p>\n<p>N&atilde;o se desapega a mulher, como n&oacute;s, por uma rea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    violenta e dolorosa, da sua personalidade, para acudir ao desamparo: entrega-se<br \/>\n    ao infort&uacute;nio alheio, e vive, identifica-se, medra nele, inteira, serena,<br \/>\n    absorta, feliz. Mais constante que o relento ben&eacute;fico da noite, n&atilde;o<br \/>\n    tem alternativas a sua dedica&ccedil;&atilde;o, ininterrompida como o ar,<br \/>\n    o movimento e o calor. N&atilde;o se queixa, porque n&atilde;o forceja; n&atilde;o<br \/>\n    tem que resignar-se, porque se n&atilde;o constrange; faz o bem como n&oacute;s<br \/>\n    respiramos, como as aves trinam, como o sol irradia.<\/p>\n<p>&Eacute;, digamos assim, a sua fun&ccedil;&atilde;o vital.<\/p>\n<p>Dir-me-&atilde;o que deste modo, o nosso papel &eacute; mais he&shy;r&oacute;ico.<\/p>\n<p>Responderei que o delas &eacute; ang&eacute;lico, e, entre anjos e her&oacute;is,<br \/>\n    pelos anjos ser&aacute; sempre o meu voto.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute;, pois, esmolar para os cativos o que vim fazer; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; nem as alv&iacute;ssaras do festim libertador o que aspira o folhetinista.<\/p>\n<p>Tarde chegaria sempre a not&iacute;cia, por mais que se apressasse a pena;<br \/>\n    que, onde surdiu ocasi&atilde;o de entornar b&aacute;lsamo num mart&iacute;rio,<br \/>\n    a&iacute; chegou, por instinto, antes de ningu&eacute;m, a m&atilde;o da mulher<br \/>\n    com a &acirc;nfora da caridade.<\/p>\n<p>Essa propriedade ador&aacute;vel infundiu-vos o Criador, como &agrave;s plantas<br \/>\n    a de pressentirem e adivinharem a luz.<\/p>\n<p>Vai um experimentador implac&aacute;vel, toma um reben&shy;tozinho vi&ccedil;oso,<br \/>\n    nutrido de raios solares, e o consagra &agrave;s trevas, nas profundezas da<br \/>\n    terra, em alguma obscura escava&ccedil;&atilde;o, onde passos de mineiro se<br \/>\n    n&atilde;o afoitariam, sem a l&acirc;mpada salvadora de Davy, nem olhos de<br \/>\n    nictalope descobririam vest&iacute;gios de um reflexo luminoso.<\/p>\n<p>Deixai atuar o tempo&#8230; Vereis o pobre vegetal supliciado, exausto e desbotado<br \/>\n    de saudades do sol, crescer no meio da sua tristeza, estender dia a dia o<br \/>\n    colo filiforme, despido e p&aacute;lido; serpear; retrair-se diante dos obst&aacute;culos,<br \/>\n    e margin&aacute;-los; sumir-se pelo ch&atilde;o, e ressurgir; dilatar-se persistente,<br \/>\n    incessante, infatig&aacute;vel; subir, estirando-se pela parede negra da galeria;<br \/>\n    apalpar-lhe as sali&ecirc;ncias; enfiar-se por algum interst&iacute;cio inexplorado,<br \/>\n    longo, tortuoso, estreito; &shy;atirar-se, onde ningu&eacute;m pensara, por<br \/>\n    alguma fisga im&shy;percept&iacute;vel do solo; evadiar-se, afinal, atrav&eacute;s<br \/>\n    do relvado, &agrave; pris&atilde;o subterr&acirc;nea; e, saudando, no seu<br \/>\n    verdor mal corado ainda, as florinhas do campo, receber avidamente o primeiro<br \/>\n    beijo dos esplendores do dia.<\/p>\n<p>De sorte que trazer-vos novas da festa de 5 de setembro fora ingenuidade,<br \/>\n    que uma delicada zombaria vossa, disfar&ccedil;ada num af&aacute;vel agradecimento,<br \/>\n    puniria bem.<\/p>\n<p>A mal&iacute;cia, transparente na polidez do sorriso com que hav&iacute;eis<br \/>\n    de acolher o apressurado, mas ser&ocirc;dio, noticiador, ser-lhe-ia para o<br \/>\n    amor-pr&oacute;prio uma decep&ccedil;&atilde;o mortal.<\/p>\n<p>Todo o meu prop&oacute;sito, a minha aud&aacute;cia toda, pois, reduz-se<br \/>\n    a querer estar assim convosco, praticando, na familiaridade inestim&aacute;vel<br \/>\n    do sentimento, sobre a sorte dos m&iacute;seros que tiritam no frio do cativeiro,<br \/>\n    sob esta azulada ab&oacute;bada, onde tantos astros quantas as minhas ouvintes<br \/>\n    abrigam no rega&ccedil;o tesoiros de calor vivificante.<\/p>\n<p>Dentre as pensativas circunstantes calculo eu n&atilde;o haver&aacute; uma<br \/>\n    s&oacute;, que, da sua varanda, n&atilde;o tenha muita vez festejado, a sorrir<br \/>\n    de inconsciente admira&ccedil;&atilde;o, a hora do despertar no c&eacute;u<br \/>\n    e na terra.<\/p>\n<p>Abris, alvoro&ccedil;ada, a janela, por onde j&aacute; vos andava de fora,<br \/>\n    talvez, a aragem matutina a ciciar queixumes de lhe n&atilde;o terdes vindo<br \/>\n    receber mais cedo as fragr&acirc;ncias, com que por v&oacute;s madrugou.<\/p>\n<p>Na retina, de onde se vos vai apagando a &uacute;ltima imagem dos sonhos<br \/>\n    caprichosos, por entre as p&aacute;lpebras ainda apenas a meio descerradas,<br \/>\n    o matiz da paisagem espelha-se-vos, fulgindo como num alj&ocirc;far de orvalho.<\/p>\n<p>A brisa embalsamada, a que franqueastes o recesso inspirativo de vossos pur&iacute;ssimos<br \/>\n    segredos, passa-vos, brincando, pelos cabelos desatados, para ir deter-se,<br \/>\n    entrando, amorosamente no travesseiro da criancinha adormecida; e o primeiro<br \/>\n    raio travesso do sol vem descansar-vos de soslaio na fronte, como diadema<br \/>\n    de uma realeza que n&atilde;o tem sen&atilde;o adoradores.<\/p>\n<p>De ao p&eacute; de v&oacute;s o jasmineiro, entornando-se de sua poisada<br \/>\n    a&eacute;rea, contente, no seu ex&iacute;lio, entre os vossos carinhos, arrasta<br \/>\n    solta a sua vestidura verde, esmaltada de estrelinhas alvas, enquanto, mais<br \/>\n    acima, no beirado de casa, empina-se a avezinha, l&aacute; do ninho temer&aacute;rio,<br \/>\n    a gorjear, e a rir.<\/p>\n<p>Parecer-vos-&aacute; ent&atilde;o que desse panorama indescrit&iacute;vel<br \/>\n    n&atilde;o quis Deus que houvesse outros contempladores vivos, sen&atilde;o<br \/>\n    v&oacute;s e o alado m&uacute;sico da alvorada.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o; iludis-vos.<\/p>\n<p>A par desses dois mundos, num dos quais vive cantando o p&aacute;ssaro, e<br \/>\n    no outro as minhas leitoras s&atilde;o rainhas, terceiro mundo a&iacute; se<br \/>\n    vos est&aacute; desdobrando aos olhos cheio de vida e mist&eacute;rios como<br \/>\n    o nosso.<\/p>\n<p>&Eacute; o mundo extenso, calado e solit&aacute;rio da vegeta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Vive a planta, como n&oacute;s, tamb&eacute;m, leitoras, ela que &eacute;<br \/>\n    condi&ccedil;&atilde;o de nossa vida.<\/p>\n<p>Como n&oacute;s, nasce fr&aacute;gil, s&ocirc;frega do seio materno; cresce<br \/>\n    entre beijos e afagos, como vossos filhos; tem sede de seiva e de luz; respira<br \/>\n    e decomp&otilde;e o ar como os pulm&otilde;es humanos; sente, deseja, e sofre;<br \/>\n    luta pela exist&ecirc;ncia com a tenacidade imperiosa do instinto animal;<br \/>\n    estremece de amor em sensa&ccedil;&otilde;es desconhecidas, e reproduz-se;<br \/>\n    refaz-se no sono das noites; ergue-se jubilosa, ao alvorecer; cora apaixonada<br \/>\n    ao brando contacto das auras tropicais; definha entre as brumas; ao ardor<br \/>\n    do areal estala sequiosa; na sombra, empalidece; e &agrave; tarde parece que<br \/>\n    devaneia.<\/p>\n<p>Quer mais o meu audit&oacute;rio?<\/p>\n<p>Pois vou apontar-lhe ainda outra regi&atilde;o de criaturas animadas, em<br \/>\n    cuja parecen&ccedil;a conosco bem raro atenta o homem.<\/p>\n<p>Leitoras, no meio do campo luxuriante, vede a senzala nua e esboroada.<\/p>\n<p>Sob esses tetos h&aacute; um mundo, que vegeta, como a planta vive; entes<br \/>\n    que t&ecirc;m paix&otilde;es, filhos, enfermidades, agonia e morte, bem que<br \/>\n    n&atilde;o conhe&ccedil;am p&aacute;tria, nem noivado, nem lar, nem olhos<br \/>\n    chorosos sobre o t&uacute;mulo.<\/p>\n<p>Um e outro, o vegetal e o escravo, elaboram-nos o p&atilde;o; um e outro<br \/>\n    consomem-se por n&oacute;s; de um e outro somos os soberanos.<\/p>\n<p>Todavia, nem num, nem noutro, podemos, podeis, empregar o nosso, o vosso<br \/>\n    amor.<\/p>\n<p>Porque o amor &eacute; a identifica&ccedil;&atilde;o, a unidade; e entre<br \/>\n    eles e n&oacute;s h&aacute; o abismo do esp&iacute;rito, da liberdade que<br \/>\n    lhes falta.<\/p>\n<p>Notareis apenas que, no reino silencioso das plantas, consentiu o Onipotente<br \/>\n    os efeitos prism&aacute;ticos da luz, a folhagem viridente, a flor de cores<br \/>\n    festivais, os pomos de oiro.<\/p>\n<p>A multid&atilde;o cativa, por&eacute;m, traz nas carnes inviol&aacute;vel<br \/>\n    luto.<\/p>\n<p>Dir-se-ia o manto im&oacute;vel de um f&eacute;retro sem ourop&eacute;is.<br \/>\n    F&eacute;retro de um povo.<\/p>\n<p>Sabeis a narrativa evang&eacute;lica de L&aacute;zaro e Jesus.<\/p>\n<p>Pela caridade, pela origem comum, pelo comum destino, sois, como Maria, irm&atilde;s<br \/>\n    dos que em vida a&iacute; jazem na sepultura da escravid&atilde;o.<\/p>\n<p>Uma palavra, uma emo&ccedil;&atilde;o fraterna, um olhar de ternura, e&#8230;<br \/>\n    quantos n&atilde;o ser&atilde;o redivivos, aben&ccedil;oando-vos?<\/p>\n<p>Leitoras, antes que me increpem, acusar-me-ei eu &shy;pr&oacute;prio.<\/p>\n<p>Essa compara&ccedil;&atilde;o minha &eacute; uma injusti&ccedil;a ao Criador<br \/>\n    e uma complac&ecirc;ncia imerecida, com os homens.<\/p>\n<p>Negou o Senhor &agrave; planta a t&ecirc;mpera do pensamento e da vontade<br \/>\n    livre; mas influiu-lhe gozos, belezas e privil&eacute;gios encantadores.<\/p>\n<p>N&oacute;s descoroamos da liberdade aos que de Deus a houveram sacrossanta,<br \/>\n    e com isso os abatemos ao &iacute;nfimo grau da escala criada: at&eacute;<br \/>\n    abaixo do reino vegetativo.<\/p>\n<p>Segue o heliotropo, com afetuosa perseveran&ccedil;a, desde o dardejante<br \/>\n    oriente ao poente rubro, o curso do sol espl&ecirc;n&shy;dido.<\/p>\n<p>Ao escravo, por&eacute;m, onde fica o astro da sua voca&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>Sens&iacute;vel como virgem, a mimosa dos prados foge, &shy;assusta-se, desfalece<br \/>\n    ao nosso contacto, ao simples h&aacute;lito &shy;nosso.<\/p>\n<p>Mas a mulher cativa quem lhe deu o direito da pureza?<\/p>\n<p>Pendente do caule, a desm&oacute;dia oscilante balanceia-se, contando insofrida<br \/>\n    os segundos, com a certeza de um p&ecirc;ndulo, como alma impaciente pela<br \/>\n    ventura que tarda.<\/p>\n<p>E o escravo esqueceu at&eacute; o dia do nascimento, porque todos os seus<br \/>\n    dias s&atilde;o iguais.<\/p>\n<p>Nada a valisn&eacute;ria faceira e florida &agrave; tona do lago pl&aacute;cido;<br \/>\n    o esposo, abismado nos seus desejos, preso ao &aacute;lveo, sob a &aacute;gua<br \/>\n    di&aacute;fana, acaricia-lhe os p&eacute;s; &eacute; vinda, enfim, a c&aacute;lida<br \/>\n    esta&ccedil;&atilde;o das n&uacute;pcias; quebrou a flor masculina os v&iacute;nculos<br \/>\n    da sua timidez; despega-se do fundo; alteia-se; emerge; enla&ccedil;a voluptuosamente<br \/>\n    a corola &agrave; desposada gentil; e a flor, m&atilde;e, despreza o toucado<br \/>\n    e as galas, para se engolfar no retiro cristalino, onde v&aacute; desvelar<br \/>\n    tranq&uuml;ila o fruto, o mimo, o pr&ecirc;mio dos seus amores.<\/p>\n<p>Leitoras, quem deu &agrave; escrava amores impolutos, fecundidade bendita,<br \/>\n    solit&aacute;ria obscuridade dom&eacute;stica? &agrave; escrava, para quem<br \/>\n    &eacute; ignom&iacute;nia a maternidade, que vos santifica?<\/p>\n<p>Vede a folhagem risonha do laranjal. De dia &eacute; toda oxig&ecirc;nio,<br \/>\n    que aviventa, e perfumes inofensivos; de noite sob essas exala&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    bals&acirc;micas insinua-se o carbono, que as&shy;fixia.<\/p>\n<p>Assim o homem.<\/p>\n<p>Banhado nas ondas luminosas da liberdade, fertilizar&aacute; o globo.<\/p>\n<p>Reduzido, na opress&atilde;o, &agrave;s trevas, encher&aacute; de morte em<br \/>\n    derredor a atmosfera empobrecida.<\/p>\n<p>H&aacute; nada mais inocente que o l&iacute;rio amor&aacute;vel dos vales?<\/p>\n<p>Entretanto, povoai deles, &agrave; tardinha, a alcova, e&#8230; bem pode ser<br \/>\n    que n&atilde;o acordeis mais.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m no escravo est&aacute; deposto o g&eacute;rmen fragrante da<br \/>\n    virtude. Por que &eacute;, pois, que a sua conviv&ecirc;ncia vos empesta o<br \/>\n    ambiente do lar?<\/p>\n<p>Leitoras, restitu&iacute; os coitados ao ar livre, e a sua vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o vos h&aacute; de aterrar como a de p&acirc;ntano estagnado:<br \/>\n    desprofanareis o santu&aacute;rio do amor conjugal; restaurareis a obra divina;<br \/>\n    expiareis o nosso atentado.<\/p>\n<p>Lembram cren&ccedil;as populares da &Iacute;ndia que divindades gigantescas<br \/>\n    e cru&eacute;is pelejaram contra as peris, et&eacute;reas criaturinhas do<br \/>\n    para&iacute;so, mantidas da ess&ecirc;ncia das flores, e, depois de as vencerem,<br \/>\n    as dependuraram em pris&otilde;es de ferro &agrave; ramaria de &aacute;rvores<br \/>\n    alt&iacute;ssimas.<\/p>\n<p>As m&iacute;seras prisioneiras viam de longe os c&ocirc;moros vicejantes,<br \/>\n    as borboletas, os nen&uacute;fares, e finavam-se no supl&iacute;cio atroz.<\/p>\n<p>Leitoras, em cada cativo h&aacute; tamb&eacute;m uma alma, enca&shy;dea&shy;da,<br \/>\n    a espreitar l&aacute; de dentro a bem-aventuran&ccedil;a da liberdade nos<br \/>\n    outros.<\/p>\n<p>Aqui as Divas sois v&oacute;s: uma inflex&atilde;o do vosso olhar, e triunfareis<br \/>\n    dos opressores, envergonhando-os.<\/p>\n<p>Sereis ent&atilde;o semelhantes a Deus.<\/p>\n<p>Perdoem-me as ouvintes bondosas; n&atilde;o &eacute; tent&aacute;-las como<br \/>\n    a serpente b&iacute;blica.<\/p>\n<p>Se entrarem, recolhidas, em si, advirtam que h&atilde;o de ouvir talvez essa<br \/>\n    tenta&ccedil;&atilde;o, mas&#8230; do seu anjo da guarda.<\/p>\n<p>Leitoras, &eacute; para um leil&atilde;o que vos convidam.<\/p>\n<p>Ora que, se n&atilde;o fosse puerilidade brigar por um nome, sempre me havia<br \/>\n    de enfadar aqui muito com os meus bons amigos, os abolicionistas, por esse<br \/>\n    malsoante batismo.<\/p>\n<p>Verdade &eacute; que &agrave; m&iacute;ngua de outro&#8230;<\/p>\n<p>Acerquem-se as senhoras, sem medo, que n&atilde;o v&ecirc;m assistir a nenhuma<br \/>\n    almoeda mercantil, a nenhuma feira de compra e venda.<\/p>\n<p>Estas prendas n&atilde;o t&ecirc;m pre&ccedil;o. Cada uma, no conv&iacute;vio<br \/>\n    emancipador, &eacute; o s&iacute;mbolo de uma a&ccedil;&atilde;o boa. Quer<br \/>\n    dizer: vale todas as opul&ecirc;ncias da terra e as recompensas infinitas<br \/>\n    do c&eacute;u.<\/p>\n<p>Cada uma &eacute; uma b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>M&atilde;e, que vos revedes na meiga gentileza da filha, aquele ramalhete<br \/>\n    de madressilvas agrestes, que ela anda, ali na mesa, a namorar, de ambiciosa,<br \/>\n    assentava-lhe t&atilde;o bem! Parecem-vos mortas? Mas reparai que s&atilde;o<br \/>\n    recendentes e orvalhadas: recendentes da m&atilde;o de fada que as teceu;<br \/>\n    orvalhadas do suor de amargura, que h&atilde;o de estancar ao escravo redimido.<br \/>\n    Onde lhe achareis outro enfeite assim, virg&iacute;neo e celestial?<\/p>\n<p>Noivo, que, sem d&uacute;vida, antes de mim advertistes j&aacute; na insist&ecirc;ncia<br \/>\n    de certos olhos fascinantes, repartida ali entre os vossos e o primorzinho<br \/>\n    art&iacute;stico daquele beija-flor de plumagem vivaz e cambiante como as<br \/>\n    vossas esperan&ccedil;as, por que n&atilde;o h&aacute; de ir ele, por v&oacute;s,<br \/>\n    poisar nas tran&ccedil;as daquela am&aacute;vel invejosa? Que mais auspicioso<br \/>\n    agoiro para vossos amores?<\/p>\n<p>Pai, que a&iacute; vos estais distra&iacute;do no filho, a quem o colorido<br \/>\n    cintilante daquele brinco infantil cativou os desejos, &#8212; se o pre&ccedil;o<br \/>\n    dessa inoc&ecirc;ncia do pequenito fosse a ressurrei&ccedil;&atilde;o de um<br \/>\n    esp&iacute;rito?&#8230; Se um dia lhe pud&eacute;sseis referir que um capricho<br \/>\n    de sua puer&iacute;cia fora a salva&ccedil;&atilde;o de um opri&shy;mido?<\/p>\n<p>Ah! que afinal agora sou o penitente ante os meus patr&iacute;cios da Libertadora&#8230;<br \/>\n    Excelente raz&atilde;o tinham, para olhar t&atilde;o pouco ao nome, quando<br \/>\n    a cena enfeiti&ccedil;a assim.<\/p>\n<p>Feito era do folhetinista, se n&atilde;o estivesse agora entre filantropos!<\/p>\n<p>Refletisse mais, e vira que feio nome e ign&oacute;bil coisa era cruz, e,<br \/>\n    contudo, tem para terra o vulto sublime do Cristo e dois bra&ccedil;os de<br \/>\n    paz estendidos sobre o g&ecirc;nero humano.<\/p>\n<p>Sabem as perspicazes interlocutoras desta minha confer&ecirc;ncia que, dentre<br \/>\n    os muitos apan&aacute;gios e licen&ccedil;as de que disp&otilde;e o folhetinista,<br \/>\n    a menos lisonjeira n&atilde;o &eacute; a da curiosidade impune.<\/p>\n<p>Do &aacute;lbum que a m&atilde;o vos folheia inscientemente, enquando a vossa<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o me est&aacute; honrando, que de sedutoras cria&ccedil;&otilde;ezinhas<br \/>\n    do pincel e do l&aacute;pis a avara mod&eacute;stia da artista me vai escondendo!<\/p>\n<p>Flores e p&aacute;ssaros; perfis de mo&ccedil;as e crian&ccedil;as; ovais<br \/>\n    de cabe&ccedil;as rom&acirc;nticas e cismativas; l&aacute;bios como corolas<br \/>\n    de rosas &uacute;midas na antemanh&atilde;; c&iacute;lios baixos como v&eacute;u<br \/>\n    de ligeira obscuridade em enseada l&iacute;mpida e azul, ou erguidos a entremostrar<br \/>\n    a alma; um encontro, uma despedida; uma vindima rumorosa, uma seara ondulando<br \/>\n    ao vento, um partir de madrugada para o trabalho em herdade campestre, um<br \/>\n    volver com a colheita &agrave; noitinha; algum correr de c&atilde;es na floresta<br \/>\n    ao encal&ccedil;o de gamo perseguido, ou malogro de ca&ccedil;ador, mirando<br \/>\n    ao longe a lebre, que lhe salta de ao p&eacute;; um ermo &agrave; beira-mar;<br \/>\n    um campan&aacute;rio sozinho entre serros como saudade em cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    despovoado; uma encosta com o seu moinho de leques rodopiantes; o baixar manso<br \/>\n    da sombra &agrave; tarde pela montanha; o clar&atilde;o da lua cheia a desoras;<br \/>\n    o oceano gemente, deserto, com as suas fosforesc&ecirc;ncias brilhantes e<br \/>\n    alguma vela no horizonte como alc&iacute;on boiando&#8230;<\/p>\n<p>Ah! leitoras, a minha indiscri&ccedil;&atilde;o contraria-vos&#8230;<\/p>\n<p>Pois negai-me embora o repert&oacute;rio das vossas horas vagas; arrecadai<br \/>\n    tamb&eacute;m na cesta os prod&iacute;gios da agulha milagrosa.<\/p>\n<p>Para daqui a tr&ecirc;s semanas vos empraza o folhetinista, e, daqui, &agrave;<br \/>\n    f&eacute; de vossa caridade vos juro que esse tesouro de violetas, recatadas<br \/>\n    agora assim pertinazmente, l&aacute; se achar&aacute; todo semeado, &agrave;<br \/>\n    luz p&uacute;blica, entre as obla&ccedil;&otilde;es &agrave; reden&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos cativos.<\/p>\n<p>N&atilde;o ser&aacute;, pois, &agrave;s leitoras, mas a eles, aos vossos<br \/>\n    protegidos, que hei de agradecer o suspirado enlevo dessa exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de maravilhas.<\/p>\n<p>Apenas, se as circunstantes devassarem ent&atilde;o o inc&oacute;gnito do<br \/>\n    folhetinista, n&atilde;o se ressintam da malignidade com que saborear&aacute;<br \/>\n    essa revela&ccedil;&atilde;o da vossa mestria, recusada hoje &agrave; minha<br \/>\n    cobi&ccedil;a, e aos vossos escr&uacute;pulos mais tarde imposta pelos vossos<br \/>\n    bons cora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Di&aacute;rio da Bahia, 15 de agosto de 1875.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"3\"><b>DOIS DE JULHO<\/b><\/a><\/h4>\n<p>Nas festas da liberdade e do povo, o lugar de honra pertence indisputavelmente<br \/>\n    &agrave; verdade. Nos grandes dias comemorativos da p&aacute;tria, a maior<br \/>\n    das homenagens a ela &eacute;, sem d&uacute;vida nenhuma, a sinceridade austera<br \/>\n    do dever.<\/p>\n<p>Quando esta cidade, amanh&atilde;, tomar, em sauda&ccedil;&atilde;o reconhecida<br \/>\n    &agrave; gloriosa mem&oacute;ria de nossos maiores, as &uacute;ltimas pobres<br \/>\n    roupas de festa que a sua decad&ecirc;ncia lhe permite, e de cada uma das<br \/>\n    almas que abriram os olhos &agrave; luz da vida no ber&ccedil;o desta risonha<br \/>\n    natureza o prest&iacute;gio das tradi&ccedil;&otilde;es populares esprema<br \/>\n    ainda a amortecida e extrema seiva do antigo fervor, que as prova&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da atualidade n&atilde;o tenham de todo extinguido na expansiva e generosa<br \/>\n    complei&ccedil;&atilde;o deste povo, a imprensa liberal n&atilde;o deixar&aacute;<br \/>\n    de associar-se, fraternalmente, &agrave; pureza e &agrave; eleva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deste sentimento, cuja flama benfazeja teve energia bastante para atravessar<br \/>\n    tantas amarguras p&uacute;blicas sem apagar-se.<\/p>\n<p>Nessas belas manifesta&ccedil;&otilde;es, impregnadas de tanta poesia e de<br \/>\n    reminisc&ecirc;ncias t&atilde;o caras a todos os filhos desta terra, vimos<br \/>\n    e veremos sempre um princ&iacute;pio de espontaneidade&shy; popular, que,<br \/>\n    num pa&iacute;s cujo v&iacute;cio, n&atilde;o diremos cons&shy;titucional,<br \/>\n    mas cr&ocirc;nico, &eacute; a in&eacute;rcia, cumpre nutrir e desenvolver<br \/>\n    zelosamente; vimos e veremos sempre essa fidelidade da gratid&atilde;o &agrave;s<br \/>\n    leg&iacute;timas gl&oacute;rias nacionais, que entre as na&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    livres &eacute; um sinal da sua dignidade, e nos povos oprimidos um desmentimento<br \/>\n    &agrave;s pretens&otilde;es da tirania.<\/p>\n<p>Quando tudo o que era eminente se vai arruinando, e tudo o que impunha respeito<br \/>\n    desmoraliza-se, esse culto do passado pode ser um protesto in&uacute;til contra<br \/>\n    o presente, uma aspira&ccedil;&atilde;o eficaz para o futuro, um elemento<br \/>\n    de vida, de regenera&ccedil;&atilde;o, de progresso; e entre os infort&uacute;nios<br \/>\n    que se desfecham tantos e tamanhos, uns ap&oacute;s outros, como golpes de<br \/>\n    um acinte infatig&aacute;vel no mal, sobre este desventurado pa&iacute;s,<br \/>\n    suave &eacute; o ref&uacute;gio dessa consola&ccedil;&atilde;o oferecida pelos<br \/>\n    fastos de uma &eacute;poca her&oacute;ica aos que padecem e esperam contra<br \/>\n    a aridez e a corrup&ccedil;&atilde;o de nossos dias.<\/p>\n<p>N&atilde;o deixemos prescrever esse formoso costume de nossos antepassados.<br \/>\n    Preservemo-lo como um dos raros ind&iacute;cios percept&iacute;veis hoje da<br \/>\n    juvenilidade de uma na&ccedil;&atilde;o que as degeneresc&ecirc;ncias de uma<br \/>\n    senilidade aparente, fruto do estragado reg&iacute;men administrativo que<br \/>\n    nos esmaga, extenuam e afligem. Sintoma de uma virilidade sopitada, mas robusta<br \/>\n    nas suas disposi&ccedil;&otilde;es latentes, essas ova&ccedil;&otilde;es p&oacute;stumas<br \/>\n    da gera&ccedil;&atilde;o atual aos lidadores que cimentaram com o pr&oacute;prio<br \/>\n    sangue a inaugura&ccedil;&atilde;o de nossa exist&ecirc;ncia independente,<br \/>\n    demonstram pelo menos as &iacute;ntimas simpatias, as afinidades indestrut&iacute;veis<br \/>\n    deste povo com a t&ecirc;mpera varonil dos que, com ele e por ele, tiveram<br \/>\n    f&eacute;, combateram e triunfaram no direito.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o consintamos tamb&eacute;m que entre as explos&otilde;es dessa<br \/>\n    imponente comemora&ccedil;&atilde;o, entre o tumulto e os risos desse desafogo<br \/>\n    festivo, buscado nas reminisc&ecirc;ncias de uma data imortal, contra a mesquinhez<br \/>\n    e os dissabores desta idade, perca-se esquecida a li&ccedil;&atilde;o enorme<br \/>\n    das calamidades que nos cercam, emude&ccedil;a a voz de nossa consci&ecirc;ncia<br \/>\n    envergonhada nas horas calmas da medita&ccedil;&atilde;o e do trabalho.<\/p>\n<p>Um povo digno de dominar os seus destinos, de ser indisputadamente senhor<br \/>\n    de si mesmo, n&atilde;o delira, n&atilde;o se atordoa, n&atilde;o fecha os<br \/>\n    olhos &agrave; realidade severa da sua posi&ccedil;&atilde;o. Nas horas mais<br \/>\n    frementes do regozijo, quando a imagina&ccedil;&atilde;o e o entusiasmo dourarem<br \/>\n    das suas irradia&ccedil;&otilde;es os feitos de nossos pais, ou&ccedil;amos,<br \/>\n    cada um no seio de sua alma, o murm&uacute;rio do sangue deles em n&oacute;s,<br \/>\n    e lembremo-nos de que o primeiro de nossos deveres filiais, tanto quanto a<br \/>\n    maior de nossas obriga&ccedil;&otilde;es patri&oacute;ticas, &eacute; igual&aacute;-los<br \/>\n    na independ&ecirc;ncia, na tenacidade, no amor do torr&atilde;o natal.<\/p>\n<p>Entre os esplendores e as harmonias dessa inocente, querida e confortadora<br \/>\n    solenidade, recolhamo-nos uns instantes &agrave; obscuridade silenciosa de<br \/>\n    nosso senso &iacute;ntimo. Se a voz dele tivesse, neste pa&iacute;s, esse<br \/>\n    grande eco exterior, esse sopro criador e onipotente, que em terras mais felizes<br \/>\n    se chama opini&atilde;o, e rege o mundo livre, grande risco teria que correr<br \/>\n    o j&uacute;bilo dos nossos lares, e das nossas ruas, de que o turvasse uma<br \/>\n    imensa tristeza; porque essa vibra&ccedil;&atilde;o coletiva das nossas consci&ecirc;ncias<br \/>\n    seria asperamente exprobradora, e havia de lembrar-nos verdades cruelmente<br \/>\n    amargas.<\/p>\n<p>Ela nos recordaria que essa emancipa&ccedil;&atilde;o, cujo anivers&aacute;rio<br \/>\n    vamos celebrar, esterilizou-se e degenerou em frutos de opress&atilde;o e<br \/>\n    mis&eacute;ria.<\/p>\n<p>Vossa fraqueza, diria, deixou conspurcar, anular, explorar contra v&oacute;s<br \/>\n    a heran&ccedil;a de vossos ascendentes. As institui&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    o patriotismo deles implantou neste solo como &aacute;rvore sagrada, a cuja<br \/>\n    sombra se acolhessem sucessivamente as gera&ccedil;&otilde;es de sua descend&ecirc;ncia,<br \/>\n    por culpa vossa fenecem incultas em m&atilde;os de especuladores de todas<br \/>\n    as classes, de todas as gradua&ccedil;&otilde;es, de toda a esp&eacute;cie<br \/>\n    de cometimentos reprovados; e delas j&aacute; n&atilde;o h&aacute; mais do<br \/>\n    que ru&iacute;nas, simulacros e reminisc&ecirc;ncias, cada uma das quais &eacute;<br \/>\n    uma increpa&ccedil;&atilde;o indel&eacute;vel contra os sucessores descuidados<br \/>\n    e desamorosos de seus pais, que deixaram malbaratar-se o cabedal da grande<br \/>\n    fam&iacute;lia comum. Ferida a liberdade nas suas partes vitais, inv&aacute;lida,<br \/>\n    impotente, tudo havia de perder-se como se perde sempre com ela, o vigor,<br \/>\n    a considera&ccedil;&atilde;o, a fortuna. As opul&ecirc;ncias inexaur&iacute;veis<br \/>\n    de nossa natureza n&atilde;o podem j&aacute; ensoberbecer-vos: humilham-vos.<br \/>\n    Cada uma de vossas irm&atilde;s, primog&ecirc;nita das formosas do Cruzeiro,<br \/>\n    &eacute; uma indigente entregue a uma tutela de pr&oacute;digos, devorada<br \/>\n    de d&iacute;vidas, cativa de mil credores, coberta de farrapos que j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o se disfar&ccedil;am. Intelectual, moral e economicamente, tudo<br \/>\n    a olhos vistos, decai. V&oacute;s mesma, gema ridente do Norte, briosa prov&iacute;ncia<br \/>\n    que nunca recuastes da vanguarda entre os melhores na paz e na guerra, vede:<br \/>\n    a vossa maternidade inesgot&aacute;vel de talentos, de heroicidade e de civismo<br \/>\n    n&atilde;o vos salva da depress&atilde;o, do arruinamento geral. O term&ocirc;metro<br \/>\n    do vosso futuro baixa rapidamente.<\/p>\n<p>O funcionalismo voraz, a afilhadagem insaci&aacute;vel, a multid&atilde;o<br \/>\n    infinita dos impostos paira sobre v&oacute;s, ceva-se da vossa vida, apascenta-se<br \/>\n    na vossa pobreza crescente. Vossa pr&oacute;pria capital, a p&eacute;rola<br \/>\n    ridente do Norte, traz j&aacute; impressa na fronte, sens&iacute;vel a todos,<br \/>\n    a sombra das afli&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas: seus edif&iacute;cios,<br \/>\n    seus institutos, o ar mesmo de sua popula&ccedil;&atilde;o, tudo exprime fadiga,<br \/>\n    velhice, mis&eacute;ria, desmoronamento. Amai e relembrai as grandezas de<br \/>\n    vossos av&oacute;s; mas o que eles foram por v&oacute;s, n&atilde;o vos esque&ccedil;a<br \/>\n    que deveis s&ecirc;-lo por vossos descendentes. A mem&oacute;ria inextingu&iacute;vel<br \/>\n    dos que vos criaram e legaram a p&aacute;tria emancipada n&atilde;o quer o<br \/>\n    culto de um est&eacute;ril entusiasmo. Enquanto eles vos herdaram desbravado<br \/>\n    e semeado o terreno para a liberdade constitucional, n&atilde;o o vades transmitir<br \/>\n    aos vossos filhos, aos netos de vossos pais, extenuado, empobrecido, aridificado<br \/>\n    pela servid&atilde;o. A cautela do absolutismo &eacute; o vosso flagelo, o<br \/>\n    vosso abatimento, a vossa morte inevit&aacute;vel. Conquistai pac&iacute;fica<br \/>\n    e legalmente, pois, o uso das institui&ccedil;&otilde;es liberais, reassumi<br \/>\n    a vossa soberania constitucional, ascendei ao governo de v&oacute;s mesmos,<br \/>\n    e sereis felizes moralizados, invenc&iacute;veis; sereis dignos do c&eacute;u<br \/>\n    que vos cobre, da natureza que vos circunda, da hist&oacute;ria que vos precede.<\/p>\n<p>Esta a linguagem da consci&ecirc;ncia universal, a linguagem dos fatos e<br \/>\n    do bom-senso. Queremos que seja a nossa, desagrade embora.<\/p>\n<p>Para uma festa, ainda assim cremos que n&atilde;o destoar&aacute;. S&atilde;o<br \/>\n    flores tamb&eacute;m. S&atilde;o as flores agrestes, mas puras da verdade.<\/p>\n<p>V&atilde;o melhor as alegrias populares do que as galas mentidamente risonhas<br \/>\n    de um otimismo falso.<\/p>\n<p>Quando das grinaldas patri&oacute;ticas as outras houverem murchado, estas<br \/>\n    ficar&atilde;o, porque a sua vida n&atilde;o &eacute; de um dia, como a dos<br \/>\n    jardins, &eacute; eterna como a liberdade, que elas coroam.<\/p>\n<p>Em torno deste emblema, sim, podem reunir-se dignamente os nossos concidad&atilde;os.<br \/>\n    Por ora &eacute; apenas uma imagem: pode ser uma realidade, quando eles seriamente<br \/>\n    o quiserem.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Di&aacute;rio da Bahia, 2 de julho de 1877<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"4\">O PA&Iacute;S<\/a><\/h4>\n<p><b>ARTIGO-PROGRAMA<\/b><\/p>\n<p>Por menos acreditados que estejam na vida p&uacute;blica os programas de<br \/>\n    todo o g&ecirc;nero, n&atilde;o h&aacute;, contudo, armar tenda entre as fileiras<br \/>\n    mais ativas da imprensa, sem come&ccedil;ar por dar conta aos nossos ju&iacute;zes<br \/>\n    da voca&ccedil;&atilde;o ou do pensamento a que obedecemos.<\/p>\n<p>Num centro de civiliza&ccedil;&atilde;o como este, onde a opul&ecirc;ncia<br \/>\n    intelectual da nossa p&aacute;tria se reflete por tantas faces e t&atilde;o<br \/>\n    brilhantemente no jornalismo, em &oacute;rg&atilde;os que honram o pa&iacute;s,<br \/>\n    a nossa espontaneidade seria uma ousadia, se o lugar que reclamamos n&atilde;o<br \/>\n    fosse apenas o de modesta colabora&ccedil;&atilde;o entre os mais humildes<br \/>\n    trabalhadores na lida obscura de repartir manh&atilde; por manh&atilde; o<br \/>\n    p&atilde;o do esp&iacute;rito, em pequeninos, ao c&iacute;rculo dos que l&ecirc;em<br \/>\n    e meditam.<\/p>\n<p>O Pa&iacute;s n&atilde;o traz &agrave; arena das lides pelo bem geral pretens&otilde;es,<br \/>\n    nem malqueren&ccedil;as, preconceitos, nem intentos reservados. N&atilde;o<br \/>\n    o anima, tampouco, interesse algum, ainda mesmo de qualquer das classes sociais,<br \/>\n    que n&atilde;o se confunda com os interesses comuns desta esperan&ccedil;osa<br \/>\n    nacionali&shy;dade.<\/p>\n<p>O seu empenho preponderante consiste em estar em comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &iacute;ntima com as necessidades mais inteligentes e as id&eacute;ias mais<br \/>\n    progressistas da nossa &eacute;poca; em pugnar pelas mais adiantadas aspira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do povo e pelas exig&ecirc;n&shy;cias mais liberais do nosso futuro.<\/p>\n<p>Sem esquecer que, entre as na&ccedil;&otilde;es, como esta, onde t&atilde;o<br \/>\n    atrasada corre a educa&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito popular, a opini&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; de ser, at&eacute; certo ponto, obra da imprensa, &eacute;, todavia,<br \/>\n    nosso especial prop&oacute;sito fazer, quanto poss&iacute;vel, da nossa folha<br \/>\n    um espelho leal das impress&otilde;es p&uacute;blicas de cada dia, em presen&ccedil;a<br \/>\n    de cada acontecimento, de cada id&eacute;ia, de cada problema.<\/p>\n<p>Claro est&aacute;, pois, que entre n&oacute;s e as parcialidades militantes<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; liames de esp&eacute;cie alguma, aparentes ou rec&ocirc;nditos,<br \/>\n    pr&oacute;ximos ou remotos. N&atilde;o &eacute; que n&atilde;o compreendamos<br \/>\n    a utilidade pol&iacute;tica dos partidos e a necessidade social da pol&iacute;tica.<br \/>\n    Dela e deles &eacute; uso, muita vez entre os que fazem profiss&atilde;o de<br \/>\n    imparcialidade, malsinar como de excresc&ecirc;ncias passageiras no organismo<br \/>\n    nacional ou explora&ccedil;&otilde;es mais ou menos h&aacute;beis do Governo<br \/>\n    a benef&iacute;cio das classes que especialmente o requestam. N&atilde;o participamos,<br \/>\n    por&eacute;m, deste erro, que a superficialidade, ou a ignor&acirc;ncia gera<br \/>\n    e divulga.<\/p>\n<p>Enquanto o reg&iacute;men parlamentar for, como at&eacute; hoje, a mais perfeita<br \/>\n    express&atilde;o da intelig&ecirc;ncia humana aplicada &agrave; administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das sociedades civilizadas, os partidos, que constituem a alma desse reg&iacute;men,<br \/>\n    continuar&atilde;o a ser necessidades nacionais da ordem mais elevada. A causa<br \/>\n    das inconveni&ecirc;ncias que se lhes costumam atribuir n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    &agrave; exist&ecirc;n&shy;cia deles que se liga, mas &agrave; sua degenera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    incons&shy;ci&ecirc;ncia e fraqueza.<\/p>\n<p>Destarte, pois, fora dos partidos ainda se nos abre vasto espa&ccedil;o ao<br \/>\n    exerc&iacute;cio da atividade patri&oacute;tica no jornalismo, onde eles carecem<br \/>\n    de &oacute;rg&atilde;os, mas tamb&eacute;m de aquilatadores e fiscais.<\/p>\n<p>Este &eacute; o nosso ponto de vista: seguir, com indefessa vigil&acirc;ncia,<br \/>\n    sem disposi&ccedil;&atilde;o preconcebida, a vida pol&iacute;tica e social<br \/>\n    da na&ccedil;&atilde;o, praticando, n&atilde;o a falsa imparcialidade, que,<br \/>\n    por medo, ou pessimismo, se traduz numa esp&eacute;cie de maledic&ecirc;ncia<br \/>\n    convencional, em um sistem&aacute;tico descontentamento, mas a imparcialidade<br \/>\n    verdadeira e isenta, que diz o que pensa, agrade, ou desagrade &agrave; oposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ou governos.<\/p>\n<p>Ao desenvolvimento do bem, n&atilde;o menos funesto do que o otimismo, com<br \/>\n    as suas miragens e fal&aacute;cias, &eacute; o pessimismo habitual, com as<br \/>\n    suas leviandades e cruezas. A veia epigram&aacute;tica tem a sua fun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    essencial na imprensa; mas n&atilde;o h&aacute; de ser a grande art&eacute;ria<br \/>\n    desse organismo. Diante de tudo quanto respeit&aacute;vel for, nos homens,<br \/>\n    nas institui&ccedil;&otilde;es, nas tradi&ccedil;&otilde;es e nos princ&iacute;pios,<br \/>\n    buscaremos lembrar-nos sempre de que o jornalismo, por isso mesmo que &eacute;<br \/>\n    uma exigente escola de cr&iacute;tica, h&aacute; de ser uma escrupulosa escola<br \/>\n    de respeito.<\/p>\n<p>O curso do esp&iacute;rito reformista no pa&iacute;s acelera-se atualmente;<br \/>\n    e conv&eacute;m aceler&aacute;-lo. Atravessamos uma agitada fase de transforma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e recomposi&ccedil;&otilde;es, em que o meio de servir aos interesses da ordem<br \/>\n    &eacute; abra&ccedil;ar com lealdade e con&shy;fian&ccedil;a a causa das reformas<br \/>\n    refletidas, mas francas. Honremos a &iacute;ndole progressista do nosso pa&iacute;s,<br \/>\n    revelada pelo curso da sua evolu&ccedil;&atilde;o em sessenta anos, n&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o acanhada, como alguns afiguram, se considerarmos nessa fatal inferioridade<br \/>\n    imposta pelas leis absolutas da natureza a toda a comunh&atilde;o possuidora<br \/>\n    de escravos.<\/p>\n<p>O Pa&iacute;s tem a sua origem no com&eacute;rcio; nele assenta particularmente<br \/>\n    o apoio das simpatias a que deve a sua exist&ecirc;ncia; com ele se honra<br \/>\n    de associar-se na devo&ccedil;&atilde;o aos eminentes interesses nacionais<br \/>\n    que essa nobre classe representa. Os assuntos, portanto, que tocarem, por<br \/>\n    esse lado, &agrave; prosperidade p&uacute;blica, conseguintemente os assuntos<br \/>\n    econ&ocirc;micos, agr&iacute;colas, industriais, ter&atilde;o, em nossas colunas,<br \/>\n    o lugar de maior distin&ccedil;&atilde;o, sem omiss&atilde;o, todavia, nem<br \/>\n    menospre&ccedil;o, das quest&otilde;es que pertencem &agrave; esfera moral,<br \/>\n    &agrave; cultura da nossa mentalidade, &agrave; ci&ecirc;ncia, &agrave; literatura,<br \/>\n    ao &shy;gosto.<\/p>\n<p>Discutir os neg&oacute;cios provinciais, cuja gravidade merecer a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do pa&iacute;s, &eacute; um dos nossos intuitos mais gratos. Das prov&iacute;ncias,<br \/>\n    pelo comum, tirante as ocorr&ecirc;n&shy;cias capazes de alimentar curiosidade<br \/>\n    ou os enredos eleitorais, com que os partidos reciprocamente se enxovalham,<br \/>\n    rara not&iacute;cia tem a capital, que as centraliza, para, em geral, esquec&ecirc;-las.<br \/>\n    Por mui felizes nos daremos, se pudermos&shy; contribuir para agitar aqui<br \/>\n    o exame das mat&eacute;rias impor&shy;tantes desta ordem, promovendo esse<br \/>\n    v&iacute;nculo de simpatia entre elas e a corte.<\/p>\n<p>A publicidade de que dispusermos, oferecemo-la desde j&aacute; a todos os<br \/>\n    homens de talento e patriotismo. O Pa&iacute;s prezar-se-&aacute; de honrar<br \/>\n    o seu nome, abrindo campo a todas as opini&otilde;es desinteressadas, tolerantes<br \/>\n    e inteligentes.<\/p>\n<p>Encetando a sua carreira rodeado de ades&otilde;es que j&aacute; lhe ultrapassam<br \/>\n    largamente a expectativa, cumpre-lhe agradecer a benevol&ecirc;ncia dessa<br \/>\n    ampla coopera&ccedil;&atilde;o, que o favorece, de esp&iacute;ritos superiores<br \/>\n    em tantas esferas da experi&ecirc;ncia e do saber.<\/p>\n<p>Dessa coadjuva&ccedil;&atilde;o, a que diligenciaremos corresponder, ao menos<br \/>\n    com a inteireza de &acirc;nimo, a coer&ecirc;ncia de esp&iacute;rito e a firmeza<br \/>\n    de prop&oacute;sito; da benignidade p&uacute;blica, t&atilde;o generosa no<br \/>\n    seu gasalhado para com todas as tentativas &uacute;teis; dos conselhos dos<br \/>\n    nossos confrades na imprensa, t&atilde;o habituados a alentar os fracos e<br \/>\n    guiar os inexperientes, &#8212; deste tr&iacute;plice aux&iacute;lio fiamos<br \/>\n    o nosso destino, e esperamos a efic&aacute;cia dos nossos esfor&ccedil;os<br \/>\n    pelo engrandecimento da nossa terra.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>O Pa&iacute;s, 1 de outubro de 1884.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"5\">O BEZERRO DE PALHA<\/a><\/h4>\n<p>N&atilde;o faremos pra&ccedil;a de devo&ccedil;&atilde;o aos agricultores.<br \/>\n    O zelo pelos interesses da lavoura, que, bem entendidos, n&atilde;o v&ecirc;m<br \/>\n    a ser mais que um aspecto dos interesses gerais da p&aacute;tria, queremos<br \/>\n    exerc&ecirc;-lo sem alarde, com a sinceridade e isen&ccedil;&atilde;o de amigos<br \/>\n    leais.<\/p>\n<p>Por isso timbraremos em n&atilde;o lisonjear-lhe preocupa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que a arte da estrat&eacute;gia pol&iacute;tica se empenha em alimentar, sempre<br \/>\n    que se trata de classes poderosas, cujos h&aacute;bitos de sossego a solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    iminente de um grande problema vem momentaneamente perturbar.<\/p>\n<p>Num pa&iacute;s onde a ind&uacute;stria do cultivo da terra tem a vasta preponder&acirc;ncia<br \/>\n    que entre n&oacute;s, a lavoura constitui uma for&ccedil;a incompar&aacute;vel,<br \/>\n    que as conveni&ecirc;ncias pol&iacute;ticas da atua&shy;lidade, interessadas<br \/>\n    em mudar a ordem de cousas existentes no Governo, se esmerar&atilde;o naturalmente<br \/>\n    em propiciar, antes acariciando-a, do que dirigindo-a. De bom conselho &eacute;,<br \/>\n    pois, que ela se ponha de sobreaviso contra os afagos de quem emprega toda<br \/>\n    a sua habilidade em n&atilde;o contrariar-lhe, de leve sequer, as predisposi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    indigitando-lhe como inimigos todos os que n&atilde;o conspiram na mesma linguagem,<br \/>\n    e falando-lhe s&oacute; aos sentimentos, como o medo, que impossibilitam a<br \/>\n    serenidade de esp&iacute;rito, e toldam a limpidez da raz&atilde;o.<\/p>\n<p>O p&acirc;nico terror adensado, em 1884, no &acirc;nimo dos propriet&aacute;rios<br \/>\n    rurais pela fraseologia dos agitadores pol&iacute;ticos, &eacute; a quarta<br \/>\n    edi&ccedil;&atilde;o das tempestades de ret&oacute;rica trovejadas em 1831,<br \/>\n    em 1851, em 1871, a prop&oacute;sito do mesmo assunto, e em proveito dos mesmos<br \/>\n    interesses.<\/p>\n<p>De cada vez que, do lado do futuro, se projeta no horizonte a quest&atilde;o<br \/>\n    servil, a ru&iacute;na da lavoura come&ccedil;a a anun&shy;ciar-se entre gemidos<br \/>\n    e vocifera&ccedil;&otilde;es. A grande propriedade, sobressaltada, presta<br \/>\n    ouvidos, mais ou menos cr&eacute;dulos, ao alarido prof&eacute;tico dos terroristas.<br \/>\n    N&atilde;o obstante, a energia evolutiva do direito, cuja torrente a resist&ecirc;ncia<br \/>\n    mal aconselhada avolumou, represando, acaba por triunfar. A reforma efetuou-se.<br \/>\n    Todavia o novo reg&iacute;men, criado por ela, em vez de aniquilar, prospera<br \/>\n    a fortuna agr&iacute;cola.<\/p>\n<p>Se a tranq&uuml;ilidade e a satisfa&ccedil;&atilde;o, restitu&iacute;das<br \/>\n    aos esp&iacute;ritos pela influ&ecirc;ncia pacificadora da reforma, n&atilde;o<br \/>\n    levassem a esquecer as predi&ccedil;&otilde;es infaustas da v&eacute;spera,<br \/>\n    solenemente desmentidas pela realidade do dia seguinte, o artif&iacute;cio,<br \/>\n    descoberto e gasto, estaria desmoralizado para sempre. Infelizmente n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o que tem acontecido. A experi&ecirc;ncia dos press&aacute;gios malogrados<br \/>\n    n&atilde;o precata as v&iacute;timas do engano contra a reprodu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do estratagema. A prosperidade e o descanso, fru&iacute;dos &agrave; sombra<br \/>\n    da reforma, e gra&ccedil;as a ela, desluz-lhes rapidamente da mem&oacute;ria<br \/>\n    as tintas de horror, com que pouco antes os exploradores se compraziam em<br \/>\n    futurizar-lhe os resultados. O instrumento de alicia&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica,<br \/>\n    que dir-se-ia olvidado, estragado, in&uacute;til, n&atilde;o perdeu nada o<br \/>\n    prest&iacute;gio para novas hostilidades contra medidas da mesma natureza.<br \/>\n    Ponto &eacute; dar-se ocasi&atilde;o igual. V&ecirc;-lo-eis operar prod&iacute;gios.<\/p>\n<p>Mas nunca esse lud&iacute;brio urdido pela m&aacute; pol&iacute;tica em preju&iacute;zo<br \/>\n    dos interesses reais da lavoura foi t&atilde;o mal encoberto como agora. Nunca<br \/>\n    a ilus&atilde;o foi t&atilde;o calva. Nunca foi t&atilde;o f&aacute;cil &agrave;<br \/>\n    propriedade agr&iacute;cola desenlear-se da trama peri&shy;gosa.<\/p>\n<p>Compreende-se o seu erro, a facilidade da capta&ccedil;&atilde;o de que ela<br \/>\n    foi objeto em 1831. Era ent&atilde;o o primeiro grito da humanidade contra<br \/>\n    a institui&ccedil;&atilde;o maldita. Cong&ecirc;nita, por assim dizer, com<br \/>\n    a nossa nacionalidade, ela parecia-lhe consubstancial. Ningu&eacute;m ainda<br \/>\n    ousara tocar-lhe. Apenas a voz de alguns raros videntes patriotas denunciava<br \/>\n    ao longe, no oriente, o ponto negro do problema. Habituada ime&shy;mo&shy;rialmente<br \/>\n    a ver nas areias inesgot&aacute;veis da &Aacute;frica o emp&oacute;rio das<br \/>\n    suas m&aacute;quinas de trabalho, a classe afortunada era natural que n&atilde;o<br \/>\n    concebesse outra organiza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica. Estancar de repente<br \/>\n    esse manancial devia afigurar-se-lhe um crime contra a ordem, um ato de revolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a decreta&ccedil;&atilde;o da indig&ecirc;ncia geral.<\/p>\n<p>Em 1851 a situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era mais clara. O afluxo torrencial<br \/>\n    do contrabando, que, em vinte anos, introduzira criminosamente em nossas plagas<br \/>\n    n&atilde;o menos de seiscentos mil cativos, agravara a pujan&ccedil;a dos<br \/>\n    interesses envolvidos na subsist&ecirc;ncia da escravid&atilde;o; e a ostentosa,<br \/>\n    a escandalos&iacute;ssima viola&ccedil;&atilde;o dos tratados e da lei de<br \/>\n    7 de novembro devia ter refor&ccedil;ado profundamente, entre os propriet&aacute;rios<br \/>\n    territoriais, a persuas&atilde;o da estabilidade, da invencibilidade, da necessidade<br \/>\n    do elemento servil.<\/p>\n<p>Em 1871 n&atilde;o podia deixar de ser grande o alvoroto entre os interessados.<br \/>\n    O projeto do gabinete 7 de mar&ccedil;o atacava a escravid&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    extrinsecamente, defendendo-lhe reabastecer-se em regi&otilde;es long&iacute;nquas,<br \/>\n    mas intrinsecamente, fechando-lhe, no seio da ra&ccedil;a oprimida, a fonte<br \/>\n    renovadora do nascimento. Ainda ent&atilde;o parlamentares e jurisconsultos<br \/>\n    eminentes podiam sustentar que o filho do escravo &eacute; t&atilde;o propriedade<br \/>\n    do senhor como os seus progenitores. A proposta Rio Branco, tornando ing&ecirc;nua,<br \/>\n    como a dos homens livres, a prole do cativo, era a primeira nega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    legislativa desse car&aacute;ter de propriedade ligado &agrave; escravid&atilde;o,<br \/>\n    na jurisprud&ecirc;ncia civil. O golpe era atordoador. O esp&iacute;rito da<br \/>\n    lavoura n&atilde;o estava preparado para o abalo. O desconcerto, a c&oacute;lera,<br \/>\n    o clamor eram explic&aacute;veis.<\/p>\n<p>Hoje todos os prest&iacute;gios e espectros se dissiparam. A agricultura,<br \/>\n    tr&ecirc;s ou quatro vezes espavorida sob as amea&ccedil;as de destrui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o cessou de medrar. A propriedade servil pode ser formalmente negada,<br \/>\n    em 1867, no Conselho de Estado, pelos projetos do Sr. Bar&atilde;o de Muritiba;<br \/>\n    em 1871, no parlamento, pelo parecer da comiss&atilde;o especial, em uma c&acirc;mara<br \/>\n    conservadora.<\/p>\n<p>Para que a lavoura, pois, acabe de desoprimir-se do pesadelo, basta-lhe atentar<br \/>\n    na fisionomia atual dos partidos.<\/p>\n<p>Quem se op&otilde;e &agrave; reforma?<\/p>\n<p>H&aacute;, &eacute; certo, desse lado, grupos republicanos, que julgam fomentar<br \/>\n    o ideal da rep&uacute;blica, privilegiando a coroa com a honra das reformas<br \/>\n    que mais nos dignificam ante o mundo e o s&eacute;culo. H&aacute;, entre os<br \/>\n    liberais, a parte ing&ecirc;nua, esquecedi&ccedil;a, que se desagregou da<br \/>\n    imensa maioria dos seus correligion&aacute;rios, repudiando a bandeira de<br \/>\n    1869, onde se inscrevera, entre os compromissos imediatos do partido, &#8220;a<br \/>\n    liberta&ccedil;&atilde;o gradual das gera&ccedil;&otilde;es presentes&#8221;.<br \/>\n    H&aacute;, entre os conservadores, um n&uacute;cleo de intransig&ecirc;ncia,<br \/>\n    que quase exclusivamente se comp&otilde;e de propriet&aacute;rios ou aderentes<br \/>\n    diretos &agrave; grande propriedade por depend&ecirc;ncias eleitorais.<\/p>\n<p>Mas a maioria da opini&atilde;o conservadora como pensa?<\/p>\n<p>Enquanto deliberava o parlamento, e era poss&iacute;vel conquistar o poder<br \/>\n    sem compromissos, e presidir as elei&ccedil;&otilde;es gerais sem indisposi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ningu&eacute;m lhe devassou o sigilo. Enquanto se pleiteava no Rio de Janeiro<br \/>\n    a elei&ccedil;&atilde;o de senador, a mesma impenetrabilidade rodeava esse<br \/>\n    mist&eacute;rio. Agora, por&eacute;m, um chefe do partido, aclamado pont&iacute;fice<br \/>\n    por outro chefe, rompe o v&eacute;u do segredo, entregando aos aplausos do<br \/>\n    pa&iacute;s esta declara&ccedil;&atilde;o patri&oacute;tica: &#8220;O Partido<br \/>\n    Conservador quer, deve e pode ir al&eacute;m da lei de 28 de setembro&#8221;.<\/p>\n<p>Este lema sanciona a reforma, e perde-se nas regi&otilde;es do desconhecido.<\/p>\n<p>Ainda acreditar&aacute; a lavoura que a reforma seja a sua perdi&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>H&aacute;, entre as popula&ccedil;&otilde;es rurais da Esc&oacute;cia, um<br \/>\n    costume singular que os partidos pol&iacute;ticos parecem ter parodiado em<br \/>\n    algumas das suas artes. Quando a teta, mungida com insist&ecirc;ncia, recusa<br \/>\n    ao camp&ocirc;nio o leite saboroso, um couro de novilho, ajeitado e recheado<br \/>\n    de palha, basta para fazer verter copiosamente o l&iacute;quido cobi&ccedil;ado.<\/p>\n<p>H&aacute; espantalhos contra o progresso das boas causas, que s&atilde;o<br \/>\n    verdadeiros empalhamentos, ou empalha&ccedil;&otilde;es partid&aacute;rias,<br \/>\n    amanhadas para extrair &agrave; popula&ccedil;&atilde;o incauta e honesta<br \/>\n    o leite da sua for&ccedil;a sob a forma de votos.<\/p>\n<p>&Agrave; beira das elei&ccedil;&otilde;es pr&oacute;ximas, essa abantesma<br \/>\n    da ru&iacute;na da lavoura pela emancipa&ccedil;&atilde;o, depois das en&eacute;rgicas<br \/>\n    palavras do eminente Sr. de Cotegipe, n&atilde;o induz a pensar na inven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    escocesa?<\/p>\n<p>Os cidad&atilde;os inteligentes que se acautelem do bezerro de palha!<\/p>\n<p align=\"right\"><b>O Pa&iacute;s, 2 de outubro de 1884.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"6\">JORNAL DO COMMERCIO<\/a><\/h4>\n<p><b>(APEDIDOS)<br \/>\n    <\/b><b>A LEGALIDADE SERVIL<\/b><\/p>\n<p>Li&ccedil;&atilde;o de um mestre, oferecida &agrave; reflex&atilde;o dos<br \/>\n    obstinados<\/p>\n<p>O escravismo fala atualmente contra a reforma a mesma linguagem com que a<br \/>\n    Idade M&eacute;dia se opunha &agrave; filosofia de cujo seio saiu a revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a sociedade moderna. A nossa posi&ccedil;&atilde;o hoje, por&eacute;m, &eacute;<br \/>\n    duplamente vantajosa. A tirania exercida pela nobreza feudal era um privil&eacute;gio;<br \/>\n    mas esse privil&eacute;gio estribava em foros legais. Com o cativeiro entre<br \/>\n    n&oacute;s n&atilde;o sucede o mesmo: &eacute; um privil&eacute;gio o direito<br \/>\n    dos senhores, mas um privil&eacute;gio ilegal. J&aacute; o demonstramos.<\/p>\n<p>Demos, todavia, a sua legalidade. Ainda assim, basta essa condi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    para que ele se sinta sobranceiro &agrave; reforma e apoiado no direito? N&atilde;o.<br \/>\n    Acima do direito formal, da legalidade estrita, existe um direito, mais positivo<br \/>\n    do que esse, porque &eacute;, a um tempo, mais leg&iacute;timo e mais forte:<br \/>\n    o direito que resulta do desenvolvimento humano.<\/p>\n<p>H&aacute;, entre os nossos advers&aacute;rios muita gente que, uns por obceca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e interesse, outros por ignor&acirc;ncia e boa-f&eacute;, revestem-se de toda<br \/>\n    a gravidade da ci&ecirc;ncia jur&iacute;dica, e olham com desprezo, como profissionais<br \/>\n    a leigos, os partid&aacute;rios da aboli&ccedil;&atilde;o. Pois enganam-se<br \/>\n    esses senhores. N&atilde;o somos t&atilde;o profanos, nem eles t&atilde;o<br \/>\n    jurisconsultos, quanto presumem. Os abolicionistas n&atilde;o s&atilde;o nenhuns<br \/>\n    ap&oacute;stolos de uma aspira&ccedil;&atilde;o ideal, devotos de uma utopia,<br \/>\n    revolucionadores do direito. &Eacute; no direito, cientificamente real, da<br \/>\n    nossa &eacute;poca e da nossa nacionalidade que nos firmamos contra a legalidade<br \/>\n    caduca do cativeiro.<\/p>\n<p>Sorriam embora de desd&eacute;m os Tribonianos do escra&shy;vis&shy;mo. N&atilde;o<br \/>\n    havemos de ficar sem padrinho e fiador; e, para evitar exce&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    iremos busc&aacute;-lo na terra cl&aacute;ssica da jurisprud&ecirc;ncia cient&iacute;fica<br \/>\n    e do direito hist&oacute;rico, na grande Alemanha, a alma mater de todos os<br \/>\n    jurisconsultos.<\/p>\n<p>Entre os homens que, daquele cimo iluminado, derramam sobre o mundo o verbo<br \/>\n    da ci&ecirc;ncia jur&iacute;dica, sobressai, nos primeiros lugares, como um<br \/>\n    dos pont&iacute;fices desse magist&eacute;rio supremo, o professor Holtzendorff.<\/p>\n<p>Os livros desse jurisconsulto, desse civilista, desse criminalista, desse<br \/>\n    publicista extraordin&aacute;rio t&ecirc;m impressio&shy;nado profundamente<br \/>\n    a Europa com a seriedade, a originalidade e a superioridade do seu ensino.<\/p>\n<p>De uma recent&iacute;ssima obra, Princ&iacute;pios de Pol&iacute;tica, ainda<br \/>\n    n&atilde;o vertida em idioma algum, do autor da Enciclop&eacute;dia Jur&iacute;dica<br \/>\n    &#8212; extra&iacute;mos hoje um cap&iacute;tulo, que parece escrito para<br \/>\n    os escravistas pertinazes de nossa terra.<\/p>\n<p>Ou&ccedil;amos Holtzendorff:<\/p>\n<p>&#8220;O &uacute;nico expediente regular (para revogar uma lei que n&atilde;o<br \/>\n    se acha de acordo com as necessidades de uma na&ccedil;&atilde;o) &eacute;<br \/>\n    o rem&eacute;dio que pode provir do Poder Legislativo. Mas que cumprir&aacute;<br \/>\n    fazer, quando esse poder permane&ccedil;a inativo, porque as classes dominantes<br \/>\n    sejam interessadas na conserva&ccedil;&atilde;o dos abusos? Quando, descuidado<br \/>\n    dos seus deveres e por pr&oacute;pria comodidade, proceda parcialmente? E<br \/>\n    principalmente quando deixe de dar o rem&eacute;dio legal reclamado, por denegarem<br \/>\n    o seu assentimento os que devem participar na reforma?<\/p>\n<p>&#8220;A resposta &eacute; simples. Se o tino do juiz ou do p&uacute;blico,<br \/>\n    como freq&uuml;entemente sucede, eludir a aplica&ccedil;&atilde;o da lei,<br \/>\n    ent&atilde;o desaparece o mal. Pelo contr&aacute;rio, &eacute; iminente o<br \/>\n    perigo, quando os grandes aparelhos da vida do Estado obstam a esse meio paliativo.<br \/>\n    Nesta alternativa, a pol&iacute;tica, sem hesitar, deve infringir a lei e,<br \/>\n    em lugar da injusti&ccedil;a legal, fazer imperar como lei o direito acomodado<br \/>\n    &agrave;s necessidades &shy;sociais.<\/p>\n<p>&#8220;Dada a hip&oacute;tese que acabamos de definir, n&atilde;o vem absolutamente<br \/>\n    ao caso desculpar a viol&ecirc;ncia contra a lei positiva; &eacute;, ao inv&eacute;s,<br \/>\n    indispens&aacute;vel reconhecer nesse procedimento uma necessidade moral,<br \/>\n    um dever, a que povos e governos s&atilde;o obrigados a obedecer. Por maior<br \/>\n    que seja o valor da lei, sob o ponto de vista formal, &eacute; apenas relativo,<br \/>\n    e nunca absoluto. Ningu&eacute;m se preocupe com o receio de que o arb&iacute;trio<br \/>\n    possa explorar este princ&iacute;pio em interesse seu, e abusar dele. Uma<br \/>\n    lei que se torna incorrig&iacute;vel e irrevog&aacute;vel, por isso mesmo<br \/>\n    que interrompe o desenvolvimento hist&oacute;rico do direito, e obsta que<br \/>\n    se empregue o rem&eacute;dio legal para corrigir-lhe o dano, deve ser posta<br \/>\n    fora do terreno do direito.<\/p>\n<p>&#8220;As condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas atuais do Mecklemburgo<br \/>\n    demonstram que as classes privilegiadas, confiando em um pretenso direito<br \/>\n    hist&oacute;rico, quase sempre deixam escapar as melhores ocasi&otilde;es<br \/>\n    de iniciar medidas de maior prud&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8220;A hist&oacute;ria do direito p&uacute;blico est&aacute; repleta de<br \/>\n    aplica&ccedil;&otilde;es do princ&iacute;pio que estabelecemos. A viola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    formal da lei &eacute; necess&aacute;ria e moralmente justificada, sempre<br \/>\n    que as classes privilegiadas recusam o seu concurso, legalmente preciso, para<br \/>\n    a aboli&ccedil;&atilde;o dos pr&oacute;prios privil&eacute;gios, na ocasi&atilde;o<br \/>\n    em que o pensamento da igualdade pessoal penetra as classes oprimidas, ou<br \/>\n    a seguran&ccedil;a do Estado &eacute; amea&ccedil;ada por esses privil&eacute;gios.<br \/>\n    A aboli&ccedil;&atilde;o violenta da escravid&atilde;o, da servid&atilde;o<br \/>\n    e da adscri&ccedil;&atilde;o &agrave; gleba sem indeniza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    bem como a extin&ccedil;&atilde;o dos antigos feudos pela monarquia absoluta,<br \/>\n    foram imposi&ccedil;&otilde;es da justi&ccedil;a hist&oacute;rica.&#8221;<\/p>\n<p>Ora, depois desta li&ccedil;&atilde;o, deixem-me acreditar que a lavoura<br \/>\n    brasileira, se quiser refletir no assunto, bem pode mandar a ci&ecirc;ncia<br \/>\n    jur&iacute;dica da resist&ecirc;ncia escravista, pregada pelos Srs. Paulino<br \/>\n    de Sousa e Andrade Figueira, para as cole&ccedil;&otilde;es de f&oacute;sseis,<br \/>\n    ou os museus de m&uacute;mias.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>GREY.<\/b><\/p>\n<p align=\"right\"><b>Jornal do Commercio, 4 de mar&ccedil;o de 1885.<br \/>\n    Publica&ccedil;&otilde;es a pedido.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"6\">O DEVER DA OPOSI&Ccedil;&Atilde;O<\/a><\/h4>\n<p>Provocados pelo ilustre Sr. A. Celso a deixarem refolhos e enunciarem as<br \/>\n    suas id&eacute;ias acerca da quest&atilde;o servil, os Srs. Paulino de Sousa<br \/>\n    e Jo&atilde;o Alfredo negaram ao Governo o direito de exigir dos seus advers&aacute;rios<br \/>\n    no parlamento esse ato de franqueza.<\/p>\n<p>O escudo com que S. Ex.as se arrodelaram na defesa dessa tese &eacute; a<br \/>\n    hist&oacute;ria parlamentar da Inglaterra.<\/p>\n<p>Folgamos de ver que os ingleses j&aacute; servem para alguma coisa entre<br \/>\n    t&atilde;o eminentes estadistas. A birra desses consp&iacute;cuos var&otilde;es<br \/>\n    contra os assuntos dessa proveni&ecirc;ncia n&atilde;o se estende sen&atilde;o<br \/>\n    aos casos em que a autoridade dos precedentes brit&acirc;nicos se op&otilde;e<br \/>\n    &agrave;s doutrinas falsas em que S. Ex.as se transviaram ou procuram transviar<br \/>\n    a opini&atilde;o. Os amigos do Sr. Jo&atilde;o Alfredo, nos debates de 1871,<br \/>\n    mordicavam em Jos&eacute; de Alencar, porque o famoso orador perpetrara a<br \/>\n    vergonha de citar trinta vezes num s&oacute; discurso o nome de Robert Peel.<\/p>\n<p>No escrito de hoje vamos incorrer em crime semelhante. Mas a culpa &eacute;<br \/>\n    dos preclaros senadores, que, trazendo contra n&oacute;s a p&uacute;blico<br \/>\n    falsas no&ccedil;&otilde;es dos costumes pol&iacute;ticos do Reino Unido,<br \/>\n    obrigam-nos a restabelecer a verdade, adulterada por pessoas de posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social t&atilde;o res&shy;peit&aacute;vel.<\/p>\n<p>Se &eacute; l&iacute;cito aos nossos antagonistas expandirem-se com a satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de quem deu com um tesouro, ou venceu uma batalha, quando nos podem atirar<br \/>\n    com uma lambujem de hist&oacute;ria inglesa, e derrancada, a n&oacute;s nos<br \/>\n    deve tocar o direito de vingar a realidade grosseiramente deturpada em preju&iacute;zo<br \/>\n    das boas normas parlamentares.<\/p>\n<p>De Robert Peel o primeiro exemplo alegado agora &eacute; o de 1831. Esse<br \/>\n    estadista, numa carta a Mr. Croker, expendeu a resolu&ccedil;&atilde;o, em<br \/>\n    que estava, quanto &agrave; reforma parlamentar, de n&atilde;o ter com o Governo<br \/>\n    &#8220;comunica&ccedil;&atilde;o alguma, direta ou indireta&#8221;. Mas R.<br \/>\n    Peel adotou essa posi&ccedil;&atilde;o de reserva absoluta, porque era adverso<br \/>\n    a toda reforma eleitoral. Onde est&aacute;, pois, aqui o argumento invoc&aacute;vel<br \/>\n    entre aqueles, como o Sr. Jo&atilde;o Alfredo, que declaram a sua convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da necessidade da reforma?<\/p>\n<p>Narrou S. Ex.&ordf; que Lord John Russell, chamado a organizar gabinete ap&oacute;s<br \/>\n    o malogro dos primeiros esfor&ccedil;os de Robert Peel pela reforma das leis<br \/>\n    cereais, sabendo que o seu advers&aacute;rio, em uma carta &agrave; rainha,<br \/>\n    prometera apoio &agrave; tentativa que no mesmo sentido se propusesse a fazer<br \/>\n    um minist&eacute;rio whig, &#8220;dirigiu-se a Sir Robert Peel, e pediu-lhe<br \/>\n    que lhe comunicasse as id&eacute;ias segundo as quais ele achava que a reforma<br \/>\n    deveria ser feita&#8221;. Robert Peel, acrescenta S. Ex.&ordf;, negou-se;<br \/>\n    e, formulando Lord Russell o seu projeto, &#8220;apresentou-o &agrave;quele<br \/>\n    a quem ia suceder no poder, pediu-lhe que ao menos dissesse a sua opini&atilde;o<br \/>\n    sobre os pormenores; ao que Sir Robert Peel ainda&shy; se recusou.&#8221;<\/p>\n<p>Esta exposi&ccedil;&atilde;o &eacute; err&ocirc;nea. S. Ex.&ordf; leu distraidamente<br \/>\n    &#8220;os comentadores&#8221;, a que alude. N&oacute;s, para n&atilde;o receber<br \/>\n    os fatos em segunda m&atilde;o, iremos busc&aacute;-los no manancial primitivo,<br \/>\n    nas pr&oacute;prias Mem&oacute;rias de Robert Peel, dadas &agrave; estampa<br \/>\n    em 1858, pelos seus testamenteiros, Lord Mahon e E. Cardwell.<\/p>\n<p>R. Peel, na carta &agrave; rainha a que se refere o nobre senador (8 de dezembro,<br \/>\n    1845), dizia: &#8220;O princ&iacute;pio de acordo com o qual Sir Robert Peel1<br \/>\n    tencionava recomendar a modifica&ccedil;&atilde;o das leis concernentes &agrave;<br \/>\n    importa&ccedil;&atilde;o dos v&iacute;veres de primeira necessidade est&aacute;,<br \/>\n    em geral (in general accordance), de conformidade com as id&eacute;ias exprimidas<br \/>\n    no derradeiro par&aacute;grafo da carta de Lord J. Russell aos eleitores de<br \/>\n    Londres.&#8221;2. O pensamento de Russell era, portanto, conhecido, e R. Peel<br \/>\n    declarou estar de acordo com ele. &Eacute; falso, pois, que o grande estadista<br \/>\n    conservador se recusasse a desvendar o seu pensamento sobre a reforma cometida<br \/>\n    aos seus advers&aacute;rios.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o a que foi que n&atilde;o quis anuir R. Peel?<\/p>\n<p>Lord Russell n&atilde;o pediu, como o nobre senador cuida, a R. Peel que<br \/>\n    lhe comunicasse as suas id&eacute;ias sobre o assunto. O que fez, foi, pelo<br \/>\n    contr&aacute;rio, oferecer ao seu antagonista a comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu plano (comunica&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o chegou a realizar-se,<br \/>\n    como o Sr. Jo&atilde;o Alfredo erradamente sup&otilde;e), declarando que declinaria<br \/>\n    de aceitar o governo, &#8220;se (s&atilde;o palavras dele) R. Peel o desaprovasse,<br \/>\n    e n&atilde;o se comprometesse a sustent&aacute;-lo.&#8221;3. As id&eacute;ias<br \/>\n    capitais de Peel sobre a reforma estavam enunciadas; e o que dele se solicitava,<br \/>\n    era um pacto pr&eacute;vio, respeito de pormenores caracter&iacute;sticos<br \/>\n    do projeto de seu sucessor.<\/p>\n<p>Eis, textualmente, os motivos e termos da recusa de R. Peel a esse convite,<br \/>\n    expostos por ele mesmo, na sua missiva &agrave; soberana, em 15 de dezembro<br \/>\n    de 1845:<\/p>\n<p>&#8220;Todas as considera&ccedil;&otilde;es do dever p&uacute;blico concorrem<br \/>\n    em induzir Sir R. Peel a facilitar e promover, em vez de embara&ccedil;ar<br \/>\n    quaisquer provid&ecirc;ncias que tendam a resolver esta grande quest&atilde;o.<br \/>\n    Mas Sir R. Peel tem profunda convic&ccedil;&atilde;o de que para as probabilidades<br \/>\n    do bom &ecirc;xito n&atilde;o contribuiria a comunica&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    se lhe fizesse, dos lineamentos de um projeto, com o fim de estipular-se a<br \/>\n    promessa preliminar de seu apoio. O projeto h&aacute; de naturalmente abranger<br \/>\n    uma s&eacute;rie de medidas que ainda n&atilde;o podem estar meditadamente<br \/>\n    estudadas. Ainda depois de estudadas, podem passar por modifica&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que os ministros de Vossa Majestade devem manter plena liberdade para levar<br \/>\n    a efeito; e a explica&ccedil;&atilde;o subseq&uuml;ente dos motivos dessas<br \/>\n    altera&ccedil;&otilde;es a uma pessoa que n&atilde;o se acha a servi&ccedil;o<br \/>\n    de Vossa Majestade seria cheia de dificuldades. Sir R. Peel est&aacute; persuadido<br \/>\n    de que um ajuste pr&eacute;vio, um pr&eacute;vio compromisso seu (a previous<br \/>\n    concert, or a previous pledge) de ades&atilde;o a certos e determinados alvitres,<br \/>\n    seria mal aceito &agrave; C&acirc;mara dos Comuns e empecivo &agrave; a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todos os partidos.&#8221;4<\/p>\n<p>Sir R. Peel tinha-se pronunciado sobre a quest&atilde;o at&eacute; onde [podia],<br \/>\n    n&atilde;o estando no Governo. Revelara o seu ju&iacute;zo em favor de uma<br \/>\n    reforma direta e profunda nas leis cereais. Obrigara-se a acompanhar o Governo<br \/>\n    ainda adverso, que a quisesse fazer. Chegara at&eacute; a esposar explicitamente<br \/>\n    os princ&iacute;pios gerais do plano de Lord Russell. Tratava-se, por&eacute;m,<br \/>\n    de um problema aduaneiro, de uma quest&atilde;o de direitos de alf&acirc;ndega.<br \/>\n    Peel n&atilde;o podia, pois, ir mais longe. N&atilde;o podia antecipadamente,<br \/>\n    sem as luzes do debate nas C&acirc;maras e o aux&iacute;lio dos dados oficiais<br \/>\n    que at&eacute; a reuni&atilde;o do parlamento se estariam completando, particularizar<br \/>\n    a sua opini&atilde;o sobre especialidades, e empenhar de antem&atilde;o o<br \/>\n    seu apoio a medidas fiscais, a cujo respeito o pr&oacute;prio gabinete at&eacute;<br \/>\n    ao &uacute;ltimo momento podia ser levado a modificar as suas id&eacute;ias,<br \/>\n    e reconsiderar a sua proposta. &Eacute; a esse conv&ecirc;nio antecipado,<br \/>\n    anti&shy;parlamentar e extraparlamentar que o grande reformador ingl&ecirc;s<br \/>\n    se escusou.<\/p>\n<p>Que paridade pode haver entre isso e a interroga&ccedil;&atilde;o do Sr.<br \/>\n    Afonso Celso em plena sess&atilde;o do parlamento? Entre aquela hipoteca pr&eacute;via<br \/>\n    do voto a um esbo&ccedil;o de projeto e a enuncia&ccedil;&atilde;o franca<br \/>\n    exigida aqui aos chefes conservadores, em presen&ccedil;a de um projeto formulado,<br \/>\n    conhecido, estudado, em torno do qual girou solenemente um apelo da coroa<br \/>\n    ao pa&iacute;s? Entre o desassombro de Peel, que justamente por manifestar<br \/>\n    sem ambages a sua convic&ccedil;&atilde;o da urg&ecirc;ncia de uma reforma<br \/>\n    franca, n&atilde;o p&ocirc;de conservar nas m&atilde;os o poder, e os subterf&uacute;gios<br \/>\n    de uma oposi&ccedil;&atilde;o que, pelo contr&aacute;rio, imagina facilitar<br \/>\n    o seu acesso a ele, ocultando as suas id&eacute;ias em rodeios, tangentes<br \/>\n    e f&oacute;rmulas sibilinas?<\/p>\n<p>A doutrina que reserva &agrave; oposi&ccedil;&atilde;o o direito de criticar,<br \/>\n    sem aconselhar, de destruir, sem comprometer-se, &eacute; desleal e insensata.<\/p>\n<p>A Inglaterra protesta com seu exemplo decisivo contra essa teoria da insinceridade<br \/>\n    erigida em dever Parlamentar.<\/p>\n<p>O Times dizia o ano passado: &#8220;Desorganizado est&aacute; o partido cujo<br \/>\n    acordo reduz-se a reconhecer o princ&iacute;pio negativo de que a fun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da oposi&ccedil;&atilde;o consiste em &shy;opor-se.&#8221;5<\/p>\n<p>Criticando a franqueza dos chefes conservadores, a dubiedade das suas enuncia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ante os grandes problemas da pol&iacute;tica interior e exterior do pa&iacute;s,<br \/>\n    escrevia, por essa &eacute;poca, o grande &oacute;rg&atilde;o da opini&atilde;o<br \/>\n    conservadora em Inglaterra:<\/p>\n<p>&#8220;Lord Beaconsfield sabia que para acometer, com possibilidade de triunfo,<br \/>\n    a posi&ccedil;&atilde;o de um minist&eacute;rio sustentado por vasta maioria<br \/>\n    parlamentar, a oposi&ccedil;&atilde;o deve estar deliberada a lan&ccedil;ar-se<br \/>\n    audazmente ao cimo de alguma das ondas que se adiantam, e sobranceiam na opini&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica. Quando se oferece esse ensejo, o chefe, h&aacute;bil em capita&shy;near,<br \/>\n    deixar-se-&aacute; de retic&ecirc;ncias e reservas, anunciando valorosa e<br \/>\n    lucidamente uma pol&iacute;tica, que consubstancie e interprete os sentimentos<br \/>\n    mal conscientes do povo. Tais passos n&atilde;o se d&atilde;o sem responsabilidade<br \/>\n    e perigo de reveses; mas essas conting&ecirc;ncias, todo o estadista que aspira<br \/>\n    ao governo, deve estar decidido a arrost&aacute;-las.&#8221;6<\/p>\n<p>Acrescentava o Times, em palavras que parecem ditadas para n&oacute;s:<\/p>\n<p>&#8220;&Eacute; contra os interesses do Estado que a oposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seja fraca e mal organizada; mas ainda pior do que a fraqueza e a desorganiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; essa frouxid&atilde;o de inten&ccedil;&otilde;es e esse receio de<br \/>\n    responsabilidade, do que nos vai fornecendo doloroso exemplo o procedimento<br \/>\n    dos conservadores. Sir Stafford Northcote tentou justificar-se&#8230; Alegou que<br \/>\n    um partido que n&atilde;o est&aacute; no poder n&atilde;o pode ser chamado<br \/>\n    a revelar particularidades de um plano pol&iacute;tico, quando n&atilde;o<br \/>\n    lhe s&atilde;o franqueadas as fontes de informa&ccedil;&atilde;o oficiais.<br \/>\n    Mas isso, para n&atilde;o dizer pior, &eacute; uma med&iacute;ocre defesa.<br \/>\n    Ningu&eacute;m espera que a oposi&ccedil;&atilde;o dilucide agora pormenores<br \/>\n    da sua pol&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o ao Egito; o que se pede, &eacute;<br \/>\n    que delineie os tra&ccedil;os gerais dela.&#8221;7<\/p>\n<p>E que outra coisa se est&aacute; pedindo ao Sr. Jo&atilde;o Alfredo, ao Sr.<br \/>\n    Paulino de Sousa, a todos os chefes da cruzada contra o projeto?<\/p>\n<p>Atendam os Srs. Paulino e Jo&atilde;o Alfredo:<\/p>\n<p>&#8220;Tem havido &eacute; certo muitas express&otilde;es vagas de simpatia<br \/>\n    por uma linha de a&ccedil;&atilde;o mais viril, sincera e destemida, e evidentemente<br \/>\n    os chefes conservadores est&atilde;o ansiosos por converter em proveito seu<br \/>\n    o descontentamento suscitado pelos erros do gabinete. Todavia, temos o direito<br \/>\n    de exigir mais que isso de estadistas que pedem ao parlamento e ao pa&iacute;s<br \/>\n    a demiss&atilde;o de um gabinete e o advento de um minist&eacute;rio conservador<br \/>\n    ao Governo. A na&ccedil;&atilde;o tem tido sobejos motivos para desconfiar<br \/>\n    de frases indefinidas e sonoras, quando de permeio com elas sobressaem ind&iacute;cios<br \/>\n    palp&aacute;veis desse medo a responsabilidades.&#8221;8<\/p>\n<p>Mais aten&ccedil;&atilde;o, Srs. Jo&atilde;o Alfredo e Paulino:<\/p>\n<p>&#8220;N&atilde;o se pode p&ocirc;r em d&uacute;vida que, se Lord Beaconsfield<br \/>\n    estivesse &agrave; frente da oposi&ccedil;&atilde;o durante a crise atual,<br \/>\n    teria escolhido afoutamente o campo de batalha, que os seus sucessores t&ecirc;m<br \/>\n    empregado toda a sua arte em evitar.&#8221;9<\/p>\n<p>Na Inglaterra o Partido Conservador acabou por compreender a necessidade<br \/>\n    impreter&iacute;vel de definir-se. Lord Randolph Churchill, que se tem assinalado<br \/>\n    pelo seu tino em interpretar as opini&otilde;es dos seus correligion&aacute;rios10,<br \/>\n    &#8220;sentiu a urg&ecirc;ncia&#8221;, diz o Economist, &#8220;de formular<br \/>\n    um plano pol&iacute;tico acerca do Egito, e tra&ccedil;ou de um modo preciso<br \/>\n    aquele que o seu partido almejava, o adotado pelos seus chefes, alvidrando<br \/>\n    que a Inglaterra assuma, com o assenso da Europa reunida em congresso, um<br \/>\n    protetorado permanente naquele pa&iacute;s&#8221;.11<\/p>\n<p>Vede como ali se aprecia essa atitude do chefe conservador:<\/p>\n<p>&#8220;&Eacute; uma pol&iacute;tica essa a que se suscitam muitas e graves<br \/>\n    obje&ccedil;&otilde;es&#8230; Mas &eacute; clara, definida, pr&aacute;tica, ao<br \/>\n    mesmo passo que corresponde aos &iacute;ntimos desejos do seu partido&#8230;&#8221;12<br \/>\n    &#8220;O novo leader possui a faculdade de exprimir com for&ccedil;a e intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    o pensamento dominante no esp&iacute;rito do seu partido.&#8221;13 &#8220;Ele<br \/>\n    declarou que o seu partido ambicionava empunhar o leme, e exp&ocirc;s claramente<br \/>\n    o que seu partido faria, se o leme lhe fosse confiado pelo pa&iacute;s.&#8221;14<\/p>\n<p>Na quest&atilde;o da reforma eleitoral as circunst&acirc;ncias, tais quais<br \/>\n    se passaram, est&atilde;o ensinando aos nossos homens de Estado a mesma li&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Eis o que escrevia o Times em outubro de 1884:<\/p>\n<p>&#8220;Que desejam realmente os conservadores? A representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das minorias segundo o princ&iacute;pio de Hare formulado por Mr. Dogdson,<br \/>\n    a coloca&ccedil;&atilde;o dos burgos rurais em condi&ccedil;&otilde;es particulares,<br \/>\n    ou a igualdade na divis&atilde;o dos distritos eleitorais, advogada por Lord<br \/>\n    R. Churchill e muitos pensadores radicais, dos mais adiantados?&#8230; Se alguns<br \/>\n    desses alvitres, ou qualquer outro que se possa imaginar, ser&aacute; mais<br \/>\n    bem aceito aos conservadores do que o plano de cauteloso ensaio esbo&ccedil;ado<br \/>\n    por Mr. Gladstone, cumpre que quanto antes o pa&iacute;s saiba as prefer&ecirc;ncias<br \/>\n    desse partido, que ele quanto antes lha declare. Enquanto, por&eacute;m, as<br \/>\n    coisas correrem como v&atilde;o, &eacute; manifesto que os conservadores n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m pol&iacute;tica assentada, n&atilde;o meditaram plano algum, nem<br \/>\n    nutrem outro prop&oacute;sito, sen&atilde;o o de oporem-se, com quantos argumentos<br \/>\n    a ocasi&atilde;o lhes sugira, a tudo o que o Governo tentar.&#8221;15<\/p>\n<p>A essa t&aacute;tica de reservas e meias palavras teve que renunciar, afinal,<br \/>\n    constrangido pela opini&atilde;o p&uacute;blica o Partido Conservador. Da&iacute;<br \/>\n    resultou descobrir-se uma harmonia singular em v&aacute;rios pontos importantes<br \/>\n    entre as id&eacute;ias de Lord Salisbury e Gladstone, quanto &agrave; base<br \/>\n    da representa&ccedil;&atilde;o parlamentar. As declara&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    um e outro lado permitiram estabelecer-se uma intelig&ecirc;ncia fecunda entre<br \/>\n    o minist&eacute;rio e a oposi&ccedil;&atilde;o, a cujo acordo se deve o bill<br \/>\n    reformando a divis&atilde;o eleitoral na Inglaterra, bill formulado pelo chefe<br \/>\n    das duas parcialidades opostas. A lei que desse compromisso nasceu, importou<br \/>\n    para aquele pa&iacute;s (s&atilde;o palavras do Economist) uma revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pac&iacute;fica. Seriam poss&iacute;veis esses resultados, admitida a doutrina<br \/>\n    de equ&iacute;vocos e san&shy;cadilhas, que a sinagoga conservadora entre<br \/>\n    n&oacute;s preconiza e quer legitimar com a li&ccedil;&atilde;o falsificada<br \/>\n    das praxes brit&acirc;&shy;nicas.<\/p>\n<p>No come&ccedil;o de 1884 refletia o Economist:<\/p>\n<p>&#8220;Indubitavelmente o pa&iacute;s acha-se agastado com o Governo pelos<br \/>\n    erros e desastres da sua pol&iacute;tica no Egito. Mas &eacute; sinal de incur&aacute;vel<br \/>\n    cegueira nos membros do minist&eacute;rio Beaconsfield imaginarem que a na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se resolva a confiar os seus destinos &agrave; dire&ccedil;&atilde;o desses<br \/>\n    estadistas, quando n&atilde;o t&ecirc;m a mais vaga no&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    caminho que eles pretendam seguir, e da dire&ccedil;&atilde;o em que a tencionem<br \/>\n    levar.&#8221;16<\/p>\n<p>Agora, no &uacute;ltimo n&uacute;mero da Fortnightly Review que nos acaba<br \/>\n    de chegar &agrave;s m&atilde;os, lemos a mesma coisa:<\/p>\n<p>&#8220;Est&atilde;o os conservadores preparados com um programa completo<br \/>\n    e definido a respeito do Soudan? Se n&atilde;o est&atilde;o, que direito lhes<br \/>\n    assiste de esperar que o povo ingl&ecirc;s transfira a eles a sua confian&ccedil;a,<br \/>\n    em vez de anistiar a Mr. Gladstone por erros j&aacute; agora irremedi&aacute;veis?&#8221;17<\/p>\n<p>Eis como se procede e se pensa na Inglaterra. E aqui uns generais de ciladas<br \/>\n    pretendem apadrinhar com a sombra dessa pol&iacute;tica s&eacute;ria e leal<br \/>\n    uma oposi&ccedil;&atilde;o de capa e sombreiro carregado sobre os ombros!<\/p>\n<p>Estamos num pa&iacute;s onde o que habilita um estadista para solver uma<br \/>\n    grande quest&atilde;o nacional &eacute; n&atilde;o ter programa e viver envolto<br \/>\n    em nuvens impenetr&aacute;veis.<\/p>\n<p>Ser&aacute; poss&iacute;vel que baix&aacute;ssemos tanto?<\/p>\n<p>Mas isso n&atilde;o &eacute; reg&iacute;men parlamentar; &eacute; a imita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica das bestas de rapina, alapadas no covil, &agrave; espera do<br \/>\n    momento para ferrar no salto a presa cobi&ccedil;ada.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>GREY.<br \/>\n    <\/b><b>Jornal do Commercio, 8 de abril de 1885.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"8\">A LEGA&Ccedil;&Atilde;O DO VATICANO<\/a><\/h4>\n<p>A destitui&ccedil;&atilde;o do Conde de Santo Agostinho, recebida com intransigente<br \/>\n    desagrado pelos cat&oacute;licos fluminenses em sua generalidade e encarada,<br \/>\n    nos c&iacute;rculos pol&iacute;ticos, como um mau sintoma para as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    entre a Igreja e a Rep&uacute;blica, inspirou a um representante da na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelo Estado do Rio de Janeiro um projeto, apresentado &agrave; C&acirc;mara<br \/>\n    dos Deputados, suprimindo a nossa lega&ccedil;&atilde;o perante o Vaticano.*<\/p>\n<p>Conquanto admitamos essa medida como possibilidade eventual, n&atilde;o na<br \/>\n    aprovar&iacute;amos sen&atilde;o em hip&oacute;tese extrema, cuja imin&ecirc;ncia<br \/>\n    n&atilde;o nos parece prov&aacute;vel. Abolir a miss&atilde;o brasileira junto<br \/>\n    ao Sumo Pont&iacute;fice, em retors&atilde;o imediata &agrave; nomea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do bispo Esberard, afigura-se-nos uma leviandade, condenada pelos interesses<br \/>\n    da ordem republicana e da pr&oacute;pria liberdade religiosa, pela qual estremece,<br \/>\n    como n&oacute;s, o cora&ccedil;&atilde;o patri&oacute;tico do autor do projeto.<\/p>\n<p>Nunca nos impressionou o argumento dos l&oacute;gicos contra a consentaneidade<br \/>\n    entre essa homenagem ao catolicismo, ou antes &agrave; import&acirc;ncia dos<br \/>\n    interesses sociais ligados a ele, num pa&iacute;s onde esse culto &eacute;<br \/>\n    de fato a religi&atilde;o nacional, e o princ&iacute;pio da absoluta liberdade<br \/>\n    religiosa, que conquistamos em 7 de janeiro de 1890, e consolidamos em 24<br \/>\n    de fevereiro de 1891. A l&oacute;gica n&atilde;o pode ter no governo dos homens<br \/>\n    a soberania, que os esp&iacute;ritos radicais lhe atribuem. Os estadistas<br \/>\n    mais &uacute;teis aos Estados n&atilde;o t&ecirc;m sido os melhores exemplares<br \/>\n    de dial&eacute;tica aplicada. Quem n&atilde;o tiver a coragem, algu&shy;mas<br \/>\n    vezes, de sacrificar &agrave; contradi&ccedil;&atilde;o, divindade im&shy;pe&shy;&shy;riosa,<br \/>\n    que, desde o princ&iacute;pio dos tempos, reina, pelo t&iacute;tulo indiscut&iacute;vel<br \/>\n    da necessidade, sobre uma vasta parte dos interesses humanos, h&aacute; de<br \/>\n    for&ccedil;osamente sacrificar ao capricho dos sistemas, &iacute;dolo v&atilde;o,<br \/>\n    cujos benef&iacute;cios a humanidade n&atilde;o conhece. Costuma-se dizer<br \/>\n    que os princ&iacute;pios s&atilde;o tudo. N&atilde;o ser&iacute;amos n&oacute;s<br \/>\n    quem contestasse esta verdade, sensatamente en&shy;ten&shy;dida. Cultor mais<br \/>\n    devoto deles do que n&oacute;s, n&atilde;o queremos que o haja. Mas o primeiro<br \/>\n    de todos os princ&iacute;pios &eacute; o da relatividade pr&aacute;tica na<br \/>\n    aplica&ccedil;&atilde;o deles &agrave; variabilidade infinita das circunst&acirc;ncias<br \/>\n    dominantes. Estas n&atilde;o raro nos imp&otilde;em transigir, a benef&iacute;cio<br \/>\n    das grandes leis, das grandes verdades, das grandes garantias liberais, cuja<br \/>\n    ess&ecirc;ncia &eacute; sagrada, com a exterioridade de certas formas, cujo<br \/>\n    antagonismo superficial pode traduzir uma coopera&ccedil;&atilde;o valiosa<br \/>\n    para resultados superiores.<\/p>\n<p>Escola entre todas vener&aacute;vel da arte dessas transa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    oferecem-nos os Estados Unidos. Ali teve seu ber&ccedil;o o dogma contempor&acirc;neo<br \/>\n    da independ&ecirc;ncia dos cultos; ali encontra ele o seu padr&atilde;o pr&aacute;tico<br \/>\n    mais completo, mais eloq&uuml;ente, mais prestigioso. Nossa Constitui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a esse respeito, &eacute; apenas, com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; deles,<br \/>\n    uma c&oacute;pia menos correta do que o original. Nem por isso, entretanto,<br \/>\n    o cris&shy;tianismo deixa de estender ali o seu manto sobre as institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    secularizadas, envolvendo na solenidade de sua consagra&ccedil;&atilde;o os<br \/>\n    atos mais s&eacute;rios da pol&iacute;tica, da administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da justi&ccedil;a americana.<\/p>\n<p>Washington, na sua fala inaugural, proferida em 30 de abril de 1789, n&atilde;o<br \/>\n    julgou desacatar os princ&iacute;pios constitu&shy;cionais, de que foi o primeiro<br \/>\n    e o mais severo executor, abrigando a sua investidura no poder sob uma espl&ecirc;ndida<br \/>\n    invoca&ccedil;&atilde;o crist&atilde;: &#8220;Seria singularmente impr&oacute;prio&#8221;,<br \/>\n    dizia o au&shy;gus&shy;to patriarca, &#8220;omitir, no primeiro dos nossos<br \/>\n    atos oficiais, as nossas mais fervorosas s&uacute;plicas a essa Onipot&ecirc;ncia,<br \/>\n    que rege o universo, que preside aos conselhos das na&ccedil;&otilde;es, e<br \/>\n    cujo aux&iacute;lio providencial pode remediar todos os defeitos humanos,<br \/>\n    exorando-a a sagrar, com as suas b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os, &agrave; liberdade<br \/>\n    e felicidade do povo um governo por ele mesmo institu&iacute;do para esses<br \/>\n    fins essenciais, predispondo os instrumentos empregados em sua administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a desempenharem com acerto as fun&ccedil;&otilde;es de sua tarefa. Rendendo<br \/>\n    este preito ao grande Autor de todo o bem, p&uacute;blico, ou privado, exprimo<br \/>\n    n&atilde;o menos os vossos sentimentos do que os meus, n&atilde;o menos os<br \/>\n    da na&ccedil;&atilde;o em geral do que os nossos.&#8221; Oito anos depois<br \/>\n    (setembro de 1796) a sua mensagem de adeus ao povo americano ardia no mesmo<br \/>\n    esp&iacute;rito de adora&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, como o cib&oacute;rio<br \/>\n    de um templo.<\/p>\n<p>Essa tradi&ccedil;&atilde;o perpetuou-se. Todos os presidentes dos Estados<br \/>\n    Unidos, em seus discursos inaugurais, em suas mensagens &acirc;nuas, em v&aacute;rios<br \/>\n    outros documentos oficiais, falando &agrave; opini&atilde;o, abrindo as c&acirc;maras<br \/>\n    legislativas, ou fixando ao povo dias de jejum e a&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as,<br \/>\n    reconhecem, mais ou menos positivamente, a depend&ecirc;ncia entre a vida<br \/>\n    nacional e essas supremas inspira&ccedil;&otilde;es religiosas, que unem,<br \/>\n    apaziguam e moralizam as na&ccedil;&otilde;es. Jefferson foi o &uacute;nico<br \/>\n    presidente, que teve escr&uacute;pulos constitucionais em decretar datas de<br \/>\n    ora&ccedil;&atilde;o e sacrif&iacute;cio p&uacute;blico. Mas deixou esse cuidado<br \/>\n    ao poder executivo nos Estados, e, divergindo de seus predecessores, n&atilde;o<br \/>\n    quis negar aos sucessores o direito de fazer o que, segundo ali se pensa,<br \/>\n    se n&atilde;o &eacute; expressamente autorizado, ainda menos proibido &eacute;<br \/>\n    na Constitui&ccedil;&atilde;o. Os discursos mais solenes de Lincoln durante<br \/>\n    a guerra civil s&atilde;o, &agrave;s vezes, ver&shy;da&shy;deiros salmos,<br \/>\n    de uma un&ccedil;&atilde;o que os livros sagrados n&atilde;o excedem. Chefe<br \/>\n    da na&ccedil;&atilde;o retalhada pela guerra fratricida, sua palavra soava<br \/>\n    como a pr&eacute;dica de um profeta, entre as duas partes beligerantes, &#8220;ambas<br \/>\n    as quais&#8221;, dizia ele, &#8220;l&ecirc;em a mesma B&iacute;blia, e oram<br \/>\n    ao mesmo Deus, invocando-o uma contra a outra&#8221;.<\/p>\n<p>Quem n&atilde;o sabe que o or&ccedil;amento americano subsidia capel&atilde;es<br \/>\n    para o Senado, para a C&acirc;mara, para o ex&eacute;rcito, para a armada,<br \/>\n    para as escolas navais e militares? Esses sacerdotes, equiparados aos outros<br \/>\n    funcion&aacute;rios p&uacute;blicos, s&atilde;o nomea&shy;dos mediante recomenda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das autoridades eclesi&aacute;sticas. Os Estados observam a mesma regra, instituindo,<br \/>\n    dentre os ministros crist&atilde;os regularmente ordenados, cape&shy;l&atilde;es<br \/>\n    para os seus congressos, a sua mil&iacute;cia, as suas pris&otilde;es e penitenci&aacute;rias,<br \/>\n    os seus hosp&iacute;cios de alienados. Cada c&eacute;lula, nos c&aacute;rceres,<br \/>\n    tem a sua B&iacute;blia. O congresso federal, em 1882, subvencionou a vers&atilde;o<br \/>\n    nova da Escritura Sagrada. Dentre as escolas p&uacute;blicas, franqueadas<br \/>\n    &agrave; popula&ccedil;&atilde;o de todos os credos, quatro quintos, pelo<br \/>\n    menos, observam a leitura dos livros santos, o uso de hinos sacros, a recita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de preces abrindo e encerrando os exerc&iacute;cios cotidianos. Atos solenes<br \/>\n    do governo ordenam a maior pontualidade na observ&acirc;ncia do servi&ccedil;o<br \/>\n    dominical. A Constitui&ccedil;&atilde;o excetua o domingo do dec&ecirc;ndio<br \/>\n    outorgado ao presidente para o exerc&iacute;cio do veto. E, contudo, n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; pa&iacute;s, no mundo, onde a emancipa&ccedil;&atilde;o dos cultos<br \/>\n    seja t&atilde;o real como naquele, onde as fun&ccedil;&otilde;es do Estado<br \/>\n    revistam mais essencialmente o car&aacute;ter leigo, a imparcialidade entre<br \/>\n    todas as confiss&otilde;es religiosas.<\/p>\n<p>N&atilde;o se envergonhe, portanto, a nossa austeridade l&oacute;gica de<br \/>\n    conservar, do reg&iacute;men abolido pelo div&oacute;rcio entre a religi&atilde;o<br \/>\n    e o Estado, resqu&iacute;cios t&atilde;o inocentes como a lega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Vaticano. Nem porque ela deixou uma vez de impedir um mal obvi&aacute;vel,<br \/>\n    condenemo-la no mesmo ponto &agrave; elimina&ccedil;&atilde;o. Amanh&atilde;<br \/>\n    outro incidente despertaria correntes opostas. E de arrependimentos em arrependimentos,<br \/>\n    de infantilidades em infan&shy;tilidades, nos expor&iacute;amos, cada vez<br \/>\n    mais, ao rid&iacute;culo do mundo. Com esta mania de revogar e desfazer, a<br \/>\n    melhor constitui&ccedil;&atilde;o do universo &eacute; um castelo de cartas<br \/>\n    entre os dedos de uma crian&ccedil;a. Mudando assim todo dia de prefer&ecirc;ncias<br \/>\n    nos assuntos mais s&eacute;rios, somos uma sociedade de areia e um governo<br \/>\n    de aluvi&atilde;o, onde as mar&eacute;s e as enxurradas transformam o solo<br \/>\n    a cada passo. N&atilde;o h&aacute; constru&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel,<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; tradi&ccedil;&atilde;o cri&aacute;vel. Reclamamos hoje<br \/>\n    o parlamentarismo, antes de experimentado o presidencialismo, porque ontem<br \/>\n    o substitu&iacute;ramos, com a mesma facilidade, com que amanh&atilde; regres&shy;&shy;sar&iacute;amos<br \/>\n    para a monarquia, antes de ensaiada a rep&uacute;blica, por que, h&aacute;<br \/>\n    pouco, a troc&aacute;vamos. E, assim como agora extirp&aacute;ssemos at&eacute;<br \/>\n    a &uacute;ltima rad&iacute;cula as nossas liga&ccedil;&otilde;es com a igreja,<br \/>\n    amanh&atilde;, de rold&atilde;o, a outro movimento irrefletido e impetuoso,<br \/>\n    ser&iacute;amos levados a abolir a liberdade espiritual, restabelecendo o<br \/>\n    monop&oacute;lio religioso. Isto n&atilde;o &eacute; educar um povo: &eacute;<br \/>\n    dissolv&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>Se, a prop&oacute;sito do acinte aparente &agrave; opini&atilde;o republicana,<br \/>\n    principi&aacute;ssemos a trovejar contra a Santa S&eacute;, ter&iacute;amos<br \/>\n    tido logo depois motivos, para nos convencer de precipita&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    porque uma declara&ccedil;&atilde;o de pessoa semi-oficial publi&shy;cada<br \/>\n    nO Pa&iacute;s de ontem,* veio revelar que o governo n&atilde;o foi t&atilde;o<br \/>\n    estranho, como se supunha, &agrave; nomea&ccedil;&atilde;o do bispo Esberard,<br \/>\n    sobre a qual o inter&shy;n&uacute;ncio se dirigira ao ex-ministro interino<br \/>\n    do Exterior. A ser exato, como &eacute; de crer, o asserto, est&aacute; justificada<br \/>\n    a Santa S&eacute; de n&atilde;o ter ouvido o nosso representante em Roma,<br \/>\n    e, ainda quando o ouvisse, entre ele e o secret&aacute;rio do Presidente da<br \/>\n    Rep&uacute;blica, diretamente consultado, n&atilde;o podia vacilar.<\/p>\n<p>*O Pa&iacute;s de 2 de junho publicou o seguinte t&oacute;pico:<\/p>\n<h4><a name=\"9\">O BISPO DIOCESANO<\/a><\/h4>\n<p>Estas linhas deveriam ter por t&iacute;tulo o tema Viver &agrave;s claras;<br \/>\n    mas n&oacute;s preferimos manter a ep&iacute;grafe usada desde come&ccedil;o,<br \/>\n    para o caso em que a pol&iacute;tica da intriga, disfar&ccedil;ada sob vestes<br \/>\n    talares, afastou da diocese fluminense o virtuoso Conde de Santo Agostinho,<br \/>\n    considerado um estorvo &agrave;s pretens&otilde;es atentat&oacute;rias da<br \/>\n    Rep&uacute;blica.<\/p>\n<p>O Rev.mo Monsenhor Lustosa articulou anteontem numa das folhas da manh&atilde;<br \/>\n    a afirmativa de que o governo, com a devida anteced&ecirc;ncia, teve conhecimento<br \/>\n    de que a c&uacute;ria ia nomear monsenhor Esberard arcebispo do Rio de Janeiro,<br \/>\n    e nisso mostrara-se de acordo.<\/p>\n<p>Demos, por&eacute;m, o contr&aacute;rio: nem foi interrogado aqui o governo,<br \/>\n    nem o nosso ministro na capital do mundo cat&oacute;lico. Seria, por&eacute;m,<br \/>\n    judicioso responder a essa omiss&atilde;o com o rompimento alvitrado no Congresso?<\/p>\n<p>Adota-se uma delibera&ccedil;&atilde;o, pelas vantagens que nos proporciona.<br \/>\n    Toma-se uma desforra, pelo mal que faz ao inimigo, ou ao agressor.<\/p>\n<p>Ora, perguntamos, a c&uacute;ria romana seria precisamente prejudicada com<br \/>\n    a nossa retalia&ccedil;&atilde;o? Em rela&ccedil;&otilde;es de pot&ecirc;ncia<br \/>\n    a pot&ecirc;ncia esta quest&atilde;o poderia ser de ordem inferior. Nesse<br \/>\n    g&ecirc;nero de casos o melindre magoado de um governo n&atilde;o vai medir<br \/>\n    considera&ccedil;&otilde;es de utilidade. Os casus belli estabelecem-se n&atilde;o<br \/>\n    raro por simples motivos de honra. Uma quebra de cortesia diplom&aacute;tica,<br \/>\n    um desvio da pragm&aacute;tica internacional podem levantar a inimizade entre<br \/>\n    duas na&ccedil;&otilde;es, e arremess&aacute;-las uma contra a outra. Mas<br \/>\n    Roma &eacute; uma soberania moral. Seus conflitos n&atilde;o se resolvem pelas<br \/>\n    armas. Sua fraqueza &eacute; a sua for&ccedil;a. As viol&ecirc;ncias dos poderosos<br \/>\n    divinizam-na. Sua autoridade ap&oacute;ia-se, entre os povos civilizados,<br \/>\n    numa base tal de respeito, que desafi&aacute;-la &eacute; travar porfias desiguais,<br \/>\n    em que todas as probabilidades est&atilde;o de um lado, em que uma das partes<br \/>\n    nada arrisca, e a outra n&atilde;o aventura pouco, com um advers&aacute;rio<br \/>\n    favorecido pelo privil&eacute;gio sem igual de contar legi&otilde;es de almas<br \/>\n    a seu favor no pr&oacute;prio seio dos povos, contra quem luta.<\/p>\n<p>Imaginais que, separadas, como est&atilde;o oficialmente as duas sociedades,<br \/>\n    cessaram os motivos razo&aacute;veis, para termos uma representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    perante o trono de S. Pedro. Mas quem n&atilde;o v&ecirc; que, justamente<br \/>\n    por isso, o menos arriscado a perder com a supress&atilde;o desse &uacute;ltimo<br \/>\n    la&ccedil;o &eacute; o governo espiritual do Supremo Pont&iacute;fice, a quem<br \/>\n    as institui&ccedil;&otilde;es atuais abriram, no Brasil, uma esfera aut&ocirc;noma<br \/>\n    na jerarquia, na administra&ccedil;&atilde;o, na propaganda? De que meios<br \/>\n    regulares disp&otilde;e, hoje, o Governo, entre n&oacute;s, para ferir a Igreja?<br \/>\n    N&atilde;o no vemos. Mas quem poderia calcular os recursos acess&iacute;veis<br \/>\n    &agrave; Igreja, para malfazer &agrave; Rep&uacute;blica, indispondo contra<br \/>\n    ela os crentes, sem transpor os limites da a&ccedil;&atilde;o espiritual?<br \/>\n    Numa na&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica, onde o catolicismo vive independente<br \/>\n    do Estado, o governo temporal n&atilde;o tem nada que dar &agrave; Igreja;<br \/>\n    mas pode receber dela alguma coisa, e receb&ecirc;-lo dignamente, com proveito<br \/>\n    para o pa&iacute;s e para as institui&ccedil;&otilde;es liberais. Estas, na<br \/>\n    sua fase de organiza&ccedil;&atilde;o inicial, batidas pelos ventos de todos<br \/>\n    os pontos do c&eacute;u, necessitam fundamentalmente da paz, que se obt&eacute;m<br \/>\n    pelo concurso dos elementos conservadores; e a benevol&ecirc;ncia do mundo<br \/>\n    religioso exprime o maior de todos os ascendentes sobre esta esp&eacute;cie<br \/>\n    de simpatias. Desprez&aacute;-las, hostiliz&aacute;-las, arred&aacute;-las<br \/>\n    &eacute; brincar com um perigo.<\/p>\n<p>A representa&ccedil;&atilde;o brasileira perante o Vaticano tem, portanto,<br \/>\n    agora mais do que nunca, um papel necess&aacute;rio, t&atilde;o discreto,<br \/>\n    qu&atilde;o grave, t&atilde;o prof&iacute;cuo, qu&atilde;o reservado. Se por<br \/>\n    al n&atilde;o valer, valer&aacute; imensamente como express&atilde;o do g&ecirc;nio<br \/>\n    benigno da Rep&uacute;blica, da sua miss&atilde;o nacional. Quando o novo<br \/>\n    reg&iacute;men j&aacute; n&atilde;o contar inimigos subterr&acirc;neos, e<br \/>\n    a sua sombra se estender pac&iacute;fica sobre o pa&iacute;s, as duas esferas<br \/>\n    prescindir&atilde;o, talvez, desse contacto, Roma e o Rio de Janeiro n&atilde;o<br \/>\n    necessitar&atilde;o desse mediador. Mas, at&eacute; l&aacute;, a Rep&uacute;blica<br \/>\n    precisa de ter uma voz junto ao chefe dessa sociedade espiritual, cujos limites,<br \/>\n    entre n&oacute;s, coincidem quase inteiramente com os da nossa consci&ecirc;ncia<br \/>\n    e os da nossa sociedade.<\/p>\n<p>O que cumpre, logo, n&atilde;o &eacute; extinguir a lega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Vaticano, mas confi&aacute;-la a um patriota sem o ran&ccedil;o do velho<br \/>\n    monar&shy;quismo. Se a rep&uacute;blica encontrar escolhos na metr&oacute;pole<br \/>\n    da cristandade, se os encontra, se os tem encontrado, nossa &eacute; a culpa.<br \/>\n    Por mais que nos queiramos abster de alus&otilde;es individuais, h&aacute;,<br \/>\n    nesta &eacute;poca, invers&otilde;es do dever p&uacute;blico, a que &eacute;<br \/>\n    preciso p&ocirc;r o ferro em brasa. N&atilde;o apreciamos: consignamos fatos,<br \/>\n    dos quais h&aacute;, entre n&oacute;s, as mais autorizadas testemunhas. O<br \/>\n    nosso ministro atual em Roma &eacute; esse mesmo diplomata, cuja presen&ccedil;a<br \/>\n    em S&atilde;o Petersburgo n&atilde;o permitiu que o governo da R&uacute;ssia<br \/>\n    nos reconhecesse, enquanto o do Brasil n&atilde;o se fez representar por outro<br \/>\n    brasileiro. Na corte pontif&iacute;cia o seu procedimento &eacute; an&aacute;logo:<br \/>\n    denunciando o princ&iacute;pio da liberdade religiosa em sua p&aacute;tria<br \/>\n    como um estado transit&oacute;rio, execrado pela na&ccedil;&atilde;o, condenado<br \/>\n    a desaparecer, logo que o povo tenha o governo de si mesmo, retratando as<br \/>\n    institui&ccedil;&otilde;es republicanas como um artefato ef&ecirc;mero de<br \/>\n    uma revolu&ccedil;&atilde;o malfazeja, entret&eacute;m no c&iacute;rculo papal<br \/>\n    a d&uacute;vida, a preven&ccedil;&atilde;o e o descr&eacute;dito contra n&oacute;s.<br \/>\n    Roma n&atilde;o conhece o Brasil novo sen&atilde;o por uma imagem falsa e<br \/>\n    odiosa, pintada pelo nosso procurador oficial.<\/p>\n<p>Com essas e outras almas do outro mundo a representarem a Rep&uacute;blica<br \/>\n    no estrangeiro, teremos sempre entre n&oacute;s e a Europa essa regi&atilde;o<br \/>\n    de al&eacute;m-t&uacute;mulo, onde os coveiros do imp&eacute;rio se ocupam<br \/>\n    em reerguer tronos com a terra dos mortos, e assombrar o mundo dos vivos com<br \/>\n    a mentira de seus fantasmas.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Jornal do Brasil, 3 de junho de 1893.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"10\">NOSSA CONSTITUI&Ccedil;&Atilde;O, A ESPADA<\/a><\/h4>\n<p>Teve ontem o destino previsto a den&uacute;ncia apresentada &agrave; C&acirc;mara<br \/>\n    dos Deputados contra o presidente da Rep&uacute;blica. Nosso parecer expl&iacute;cito<br \/>\n    ao primeiro dos signat&aacute;rios do projeto, quando nos comunicou a sua<br \/>\n    inten&ccedil;&atilde;o, foi contr&aacute;rio a esse passo no momento em que<br \/>\n    ele se deu. N&atilde;o basta &agrave;s oposi&ccedil;&otilde;es discriminar<br \/>\n    responsabilidades. &Eacute; mister, ainda, exercer esse direito do modo mais<br \/>\n    &uacute;til &agrave; causa que advogam. Os bons princ&iacute;pios t&ecirc;m<br \/>\n    tamb&eacute;m a sua t&aacute;tica de combate; e sacrific&aacute;-la, &agrave;s<br \/>\n    vezes, &eacute; sacrific&aacute;-los, ao menos temporariamente. O Governo<br \/>\n    necessita de uma divers&atilde;o solene contra as quest&otilde;es de &aacute;rdua<br \/>\n    atualidade, que o enleiam. A oposi&ccedil;&atilde;o deu-lha. Essas quest&otilde;es<br \/>\n    representavam outras tantas batalhas, nas quais a administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tinha de atravessar sucessivamente a prova do debate parlamentar. O advers&aacute;rio,<br \/>\n    precipitando-se, encarregou-se de facilitar-lhe a situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    permitindo-lhe, num ataque geral, desen&shy;vol&shy;ver todas as suas for&ccedil;as,<br \/>\n    e tomar de assalto, por um voto englobado, todas as dificuldades s&eacute;rias,<br \/>\n    que o amea&ccedil;avam.<\/p>\n<p>Oxal&aacute; que das vantagens dessa fortuna o poder executivo saiba tirar<br \/>\n    os corol&aacute;rios razo&aacute;veis, encarando-a, n&atilde;o como um triunfo<br \/>\n    para o seu amor-pr&oacute;prio, mas como uma clareira de serenidade para a<br \/>\n    transforma&ccedil;&atilde;o da sua pol&iacute;tica desabrida e provocadora<br \/>\n    numa pol&iacute;tica de paz. Seus precedentes n&atilde;o autorizam esta esperan&ccedil;a.<br \/>\n    E, demais, &eacute; extremamente dif&iacute;cil retroceder para o bem, quando<br \/>\n    se tem nas m&atilde;os a for&ccedil;a ilimitada, e, entre os que nos deviam<br \/>\n    coibir, n&atilde;o encontramos sen&atilde;o coniv&ecirc;ncia a aplausos no<br \/>\n    erro. Mas, resolvido a lutar a todo transe contra a l&oacute;gica pessimista<br \/>\n    da realidade, n&atilde;o renunciaremos em absoluto &agrave; hip&oacute;tese<br \/>\n    de uma inspira&ccedil;&atilde;o boa no &acirc;nimo dos que nos governam; at&eacute;<br \/>\n    porque, quando se tem chegado aos confins aparentes do mal, &eacute; dif&iacute;cil<br \/>\n    piorar.<\/p>\n<p>Seja qual for, por&eacute;m, a dire&ccedil;&atilde;o, que o vencedor se disponha<br \/>\n    a dar &agrave; sua triste vit&oacute;ria, o car&aacute;ter moral desta &eacute;<br \/>\n    sempre o mesmo; e &agrave;queles que tomaram a si o compromisso de acompanhar<br \/>\n    com o p&uacute;blico os epis&oacute;dios not&aacute;veis no panorama dos fatos,<br \/>\n    cabe o dever de registrar fielmente a nomenclatura dos resultados.<\/p>\n<p>Mais uma ru&iacute;na avulta no campo da Constitui&ccedil;&atilde;o republicana.<br \/>\n    O princ&iacute;pio da responsabilidade presidencial desapareceu. O imp&eacute;rio<br \/>\n    era a inviolabilidade do chefe da na&ccedil;&atilde;o, temperada pela responsabilidade<br \/>\n    dos ministros. A rep&uacute;blica &eacute; a intangibilidade do poder executivo<br \/>\n    em todos os seus membros: imacul&aacute;veis os ministros, como secret&aacute;rios<br \/>\n    do presidente; improfan&aacute;vel o presidente, como &oacute;rg&atilde;o<br \/>\n    da enfeuda&ccedil;&atilde;o militar sancionada pela covardia paisana. Fados<br \/>\n    singulares os deste reg&iacute;men! Para lhe conservar a exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio encar&aacute;-lo unicamente como espe&shy;&shy;t&aacute;culo<br \/>\n    apraz&iacute;vel &agrave; vista. Se o tocais, se lhe tomais a s&eacute;rio<br \/>\n    as institui&ccedil;&otilde;es, que ele nos oferece como defesas da liberdade,<br \/>\n    o mesmo &eacute; p&ocirc;r-lhes a m&atilde;o implorativa, que v&ecirc;-las<br \/>\n    desmancharem-se em p&oacute;, como as m&uacute;mias ime&shy;moriais do Egito.<br \/>\n    J&aacute; assististes &agrave; abertura de um t&uacute;mulo, para trasladar<br \/>\n    os ossos de um morto? Olhai: &eacute; a apar&ecirc;ncia do vivo. Ponde-lhe<br \/>\n    os dedos: desfaz-se como sombra, deixando-vos apenas o arcaboi&ccedil;o e<br \/>\n    a mortalha. Assim as nossas garantias democr&aacute;ticas. Ao aspecto, espl&ecirc;ndidas:<br \/>\n    speciem populi imitan&shy;tur. Valei-vos delas, por&eacute;m, tentai abrigar-vos<br \/>\n    sob a sua autoridade, e encontrareis, em vez de um baluarte, um pouco de cinza<br \/>\n    e a decep&ccedil;&atilde;o do nada.<\/p>\n<p>Dando por foro ao chefe do Estado, nos crimes que interessam a dignidade<br \/>\n    da sua magistratura, o congresso, a representa&ccedil;&atilde;o nacional,<br \/>\n    dividida em c&acirc;mara de acusa&ccedil;&atilde;o e c&acirc;mara de julgamento,<br \/>\n    o pacto federal pensou ter resguardado a rep&uacute;blica da maior de todas<br \/>\n    as humilha&ccedil;&otilde;es e do mais corrutor de todos os espet&aacute;culos.<br \/>\n    Instituindo esses altos tribunais, dizia Odilon Barrot, em 1849, no Nacional,<br \/>\n    &#8220;corresponde o legislador a essa necessidade, permanente nas sociedades,<br \/>\n    de elevar, de fortificar as garantias da justi&ccedil;a em certos casos nos<br \/>\n    quais o crime excede as propor&ccedil;&otilde;es comuns, e a justi&ccedil;a<br \/>\n    comum dobraria ante ele&#8221;. O Duque de Broglie, nas suas Id&eacute;ias<br \/>\n    sobre o Governo da Fran&ccedil;a, preconiza essa necessidade como irrefrag&aacute;vel:<br \/>\n    &#8220;N&atilde;o &eacute; demais o concurso de duas c&acirc;maras, uma como<br \/>\n    acusadora, outra como juiz, para reduzir o poder executivo na pessoa de seus<br \/>\n    agentes.&#8221; Com quanto mais for&ccedil;a n&atilde;o se aplica &agrave;<br \/>\n    rep&uacute;blica presidencial a verdade firmada como indiscut&iacute;vel pelo<br \/>\n    publicista conservador a respeito da monarquia representativa?<\/p>\n<p>Longe de responder, por&eacute;m, ao seu objeto, acautelando-nos contra &#8220;o<br \/>\n    duplo risco das paix&otilde;es populares e das intrigas do poder&#8221;, esse<br \/>\n    freio constitucional, nas m&atilde;os de uma c&acirc;mara enfraquecida pela<br \/>\n    preocupa&ccedil;&atilde;o exclusiva da sua reele&shy;gibi&shy;lidade, serviu<br \/>\n    apenas, para estreitar a depend&ecirc;ncia entre a representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    popular e o Governo, proporcionando &agrave; maioria a ocasi&atilde;o mais<br \/>\n    &uacute;til de recomendar-se &agrave; benevol&ecirc;ncia da administra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mais uma prova (que pode remeter-se ao idealismo dos parlamentaristas) de<br \/>\n    que as institui&ccedil;&otilde;es, quanto mais sensatas, tanto mais degener&aacute;veis,<br \/>\n    onde n&atilde;o houver homens, que as executem, onde s&oacute; houver interesses,<br \/>\n    que as explorem.<\/p>\n<p>A manha do antigo reg&iacute;men, reunida ao desembara&ccedil;o do atual,<br \/>\n    n&atilde;o custou muito em fabricar, para a emerg&ecirc;ncia, a teo&shy;ria<br \/>\n    oportuna. Constitucionalistas de largo v&ocirc;o, desses que enxameiam nas<br \/>\n    quadras m&aacute;s como as arriba&ccedil;&otilde;es de certas aves, descobriram<br \/>\n    que na miss&atilde;o dada &agrave; C&acirc;mara dos Deputados contra os atos<br \/>\n    respon&shy;sabiliz&aacute;veis do presidente da Rep&uacute;blica, o legislador<br \/>\n    lhe atribu&iacute;ra uma arma de arb&iacute;trio, uma faculdade discricion&aacute;ria.<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; uma magistratura o que essa corpora&ccedil;&atilde;o exerce<br \/>\n    em tais casos; &eacute; uma fun&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, a saber,<br \/>\n    um instrumento de partido, um meio de permutar servi&ccedil;os com o poder,<br \/>\n    a que essa garantia era destinada a atalaiar. Hoje esse poder &eacute; forte,<br \/>\n    e a C&acirc;mara dispensa soberanamente na lei, para absolver o criminoso.<br \/>\n    Amanh&atilde; ser&aacute; fraco; e os representantes do povo abstrair&atilde;o<br \/>\n    da aus&ecirc;ncia de qualifica&ccedil;&atilde;o legal, para acusar o inocente.<br \/>\n    Mendicantes agora, mais tarde imperiosos, estar&atilde;o per&shy;&shy;pe&shy;tua&shy;&shy;mente<br \/>\n    fora da lei em nome da pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>O maldito princ&iacute;pio da onipot&ecirc;ncia parlamentar n&atilde;o sai<br \/>\n    da pele desses parlamentares mal-enroupados na fraseologia republicana. Em<br \/>\n    verdade n&atilde;o h&aacute; doutrina compar&aacute;vel a essa, para aninhar<br \/>\n    despotismos irrespons&aacute;veis sob o envolt&oacute;rio das formas populares.<\/p>\n<p>Nem ao menos houve, por&eacute;m, coer&ecirc;ncia na liga preparada para<br \/>\n    forjar a nova jurisprud&ecirc;ncia. Se a C&acirc;mara, nessas fun&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    &eacute; uma entidade pol&iacute;tica, a deposit&aacute;ria de uma atribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    soberana, cujas regras s&atilde;o unicamente os ditames da sua consci&ecirc;ncia<br \/>\n    coletiva, n&atilde;o se compreende que suas aprecia&ccedil;&otilde;es fiquem<br \/>\n    submetidas ao formul&aacute;rio usual da prova, a cuja observ&acirc;ncia o<br \/>\n    parecer pretende adscrever-se no exame da acu- &shy;sa&shy;&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Destarte, ao passo que exagera em propor&ccedil;&otilde;es desmesuradas o<br \/>\n    papel daquela casa, atrofia os direitos da defesa social, equiparando os crimes<br \/>\n    de responsabilidade pol&iacute;tica aos delitos de a&ccedil;&atilde;o particular,<br \/>\n    em que a justi&ccedil;a estaca diante da prova fornecida pelo autor, e n&atilde;o<br \/>\n    pode ampli&aacute;-la. Nos crimes de a&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica h&aacute;<br \/>\n    o minist&eacute;rio de um magistratura, institu&iacute;da especialmente para<br \/>\n    promover a acusa&ccedil;&atilde;o, iniciando-a, ou refor&ccedil;ando-a, quando<br \/>\n    iniciada por ato individual. Esse m&uacute;nus, no julgamento pol&iacute;tico,<br \/>\n    incumbe &agrave; C&acirc;mara dos Deputados, cuja miss&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; somente apurar a prova ministrada pelo denunciante, mas, segundo<br \/>\n    os arts. 5 e 8 da lei de 8 de janeiro, desenvolver essa prova, esclarec&ecirc;-la,<br \/>\n    complet&aacute;-la.<\/p>\n<p>Mas, em suma, n&atilde;o se podia embara&ccedil;ar em nugas quem n&atilde;o<br \/>\n    hesitou em pisar aos p&eacute;s, na mais desabusada homenagem a uma conveni&ecirc;ncia<br \/>\n    de ocasi&atilde;o, todas as verdades elementares da nossa organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    constitucional.<\/p>\n<p>A delibera&ccedil;&atilde;o de ontem n&atilde;o &eacute; s&oacute; a exculpa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do presidente da Rep&uacute;blica: &eacute; a promulga&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    novo direito federal. A C&acirc;mara dos Deputados, institu&iacute;da por<br \/>\n    uma constitui&ccedil;&atilde;o, obra do seu pr&oacute;prio mandato, na qual<br \/>\n    o congresso &eacute;, como todos os outros poderes, servo da lei fundamental,<br \/>\n    acaba de reivindicar, para si, a onipot&ecirc;ncia do parlamento de Inglaterra.<\/p>\n<p>Dissemos mal. A chamada onipot&ecirc;ncia do parlamento ingl&ecirc;s n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o poder absoluto. Ela tem limites no common law, o direito consuetudin&aacute;rio<br \/>\n    do pa&iacute;s, que, naquela terra, &eacute; uma realidade viva, uma fonte<br \/>\n    perene da justi&ccedil;a, na sucess&atilde;o dos precedentes, autoridade sempre<br \/>\n    invocada e sempre poderosa, na opini&atilde;o p&uacute;blica, que ali &eacute;<br \/>\n    uma for&ccedil;a irresist&iacute;vel. A essas restri&ccedil;&otilde;es coibitivas<br \/>\n    acrescem as regras concernentes &agrave; forma e &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de exerc&iacute;cio, &agrave;s quais a pr&oacute;pria soberania parlamentar<br \/>\n    se acha circunscrita no uso dessa fun&ccedil;&atilde;o suprema. &Eacute; assim<br \/>\n    que o parlamento brit&acirc;nico n&atilde;o disp&otilde;e de outro meio, para<br \/>\n    legalizar as infra&ccedil;&otilde;es escus&aacute;veis da coroa, a n&atilde;o<br \/>\n    serem os atos de indeni&shy;dade. (Atos, ou leis; n&atilde;o bills, como vulgar<br \/>\n    e impropriamente lhe chamam: o bill &eacute; o projeto, ulteriormente convertido<br \/>\n    em lei.) Mas os atos de indenidade s&atilde;o resolu&ccedil;&otilde;es legislativas.<br \/>\n    &#8220;Eles representam&#8221; (&eacute; de Dicey a li&ccedil;&atilde;o),<br \/>\n    &#8220;eles representam o exerc&iacute;cio arbitr&aacute;rio do poder soberano;<br \/>\n    mas quando o soberano legal &eacute; uma assembl&eacute;ia parlamentar, at&eacute;<br \/>\n    esses atos assumem a forma de legisla&ccedil;&atilde;o regular, e este fato<br \/>\n    por si mesmo mant&eacute;m em n&atilde;o pequeno grau a supremacia, n&atilde;o<br \/>\n    aparente s&oacute;, mas real, da lei.&#8221; E, como todas as leis, essas<br \/>\n    se formam pelo concurso dos tr&ecirc;s ramos do poder legislativo &#8212;<br \/>\n    rei, lordes e comuns &#8212;, mediante o mesmo n&uacute;mero de discuss&otilde;es,<br \/>\n    com os seus tr&acirc;mites usuais. Mas aqui n&atilde;o: uma simples mo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de qualquer das duas c&acirc;maras isenta o Governo &#8220;das peias da lei&#8221;.<br \/>\n    Isto &eacute;: para fazer a lei se requer, constitucionalmente, a coopera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de duas c&acirc;maras, com tr&ecirc;s discuss&otilde;es em cada uma, e a san&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    complementar. Para cass&aacute;-la, a benef&iacute;cio do executivo, basta<br \/>\n    uma simples mo&ccedil;&atilde;o, a saber, um projeto de uma s&oacute; discuss&atilde;o<br \/>\n    em qual&shy;quer das duas casas do congresso. Infinitamente mais f&aacute;cil<br \/>\n    acabar com a lei do que form&aacute;-la, n&atilde;o &eacute; assim?<\/p>\n<p>Esta novidade inventou-se ad usum Brasiliorum. Ningu&eacute;m a imaginara<br \/>\n    at&eacute; hoje; porque, se algu&eacute;m a tivesse concebido, muito h&aacute;<br \/>\n    que o sult&atilde;o da Turquia teria adotado a rep&uacute;blica presidencial.<\/p>\n<p>A onipot&ecirc;ncia do parlamento ingl&ecirc;s reduz-se &agrave;s propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de uma brincadeira, comparada a esta onipot&ecirc;ncia sem praias, em que<br \/>\n    se acaba de submergir de um sorvo o pacto federal. E de quem &eacute; ela?<br \/>\n    Aparentemente da C&acirc;mara dos Deputados, que se pavoneia nessas ins&iacute;gnias,<br \/>\n    mas realmente do poder executivo, que a conquistou, e a domina.<\/p>\n<p>Tem raz&atilde;o o parecer: nas rela&ccedil;&otilde;es entre o Governo e<br \/>\n    a legislatura, &#8220;ambos t&ecirc;m funcionado de perfeito acordo, e este<br \/>\n    acordo n&atilde;o se rompeu nem nas horas de crise&#8221;. O acordo &eacute;<br \/>\n    o mais tocante na hist&oacute;ria dos sentimentos am&aacute;veis, desde Paulo<br \/>\n    e Virg&iacute;nia. E como havia de turbar-se essa harmonia, se, desde que<br \/>\n    o mundo &eacute; mundo, onde um n&atilde;o quer dois n&atilde;o brigam? Para<br \/>\n    legisladores, que lhe adivinham os sonhos, pode haver presidente brigador?<\/p>\n<p>A rejei&ccedil;&atilde;o da den&uacute;ncia n&atilde;o admira a ningu&eacute;m.<br \/>\n    Estava na ordem constante das anteced&ecirc;ncias: o pr&oacute;prio parecer<br \/>\n    da comiss&atilde;o especial buscou lig&aacute;-la, por uma ascend&ecirc;ncia<br \/>\n    de honra, &agrave; mo&ccedil;&atilde;o dos poderes ilimitados e &agrave; absolvi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    incondicional dos atos de abril. Revogada a Constitui&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    rep&uacute;blica&#8230; pelo pr&oacute;prio congresso que a fez. Constituinte<br \/>\n    ontem, hoje desconstituinte.<\/p>\n<p>O essencial &eacute; que o n&atilde;o dissolvam. Ele ir&aacute; dissolvendo<br \/>\n    tudo. Mas n&oacute;s n&atilde;o precisamos de outra Constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais que a espada do presidente. Os nossos constitucionalistas andam alvoro&ccedil;ados<br \/>\n    a ver se lhe descobrem nos copos, sob a m&atilde;o munificente, o nome do<br \/>\n    sucessor. Paz, senhores, e ju&iacute;zo, enquanto os patriotas decifram o<br \/>\n    enigma, e v&ecirc;em se se encartam no testamento.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Jornal do Brasil, 9 de junho de 1893.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"11\">A ESPIONAGEM<\/a><\/h4>\n<p>O punhal de Calisto, o secreta, expediu duas mortes. Outras v&iacute;timas,<br \/>\n    malferidas, curam lentamente, no hospital, os estragos do ferro assassino.<br \/>\n    Quando as cutiladas cicatrizarem, &eacute; prov&aacute;vel que na consci&ecirc;ncia<br \/>\n    difluente desta sociedade digna de sua sorte, deste povo homog&ecirc;neo de<br \/>\n    seu governo, se haja desbotado a &uacute;ltima impress&atilde;o do esc&acirc;ndalo<br \/>\n    sangrento. O mecanismo da solidariedade oficial trabalhar&aacute; ent&atilde;o<br \/>\n    sutilmente, para atenuar a responsabilidade ao serventu&aacute;rio p&uacute;blico<br \/>\n    imolado por uma exagera&ccedil;&atilde;o inoportuna das qualidades profissionais.<br \/>\n    E o suor do contribuinte continuar&aacute; a subsidiar a institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    destinada a estrip&aacute;-lo, num dia de azar, a qualquer canto de rua.<\/p>\n<p>N&atilde;o conviria, entretanto, que o fato mergulhasse de todo no esquecimento,<br \/>\n    antes de lhe estudarmos ao menos os aspectos d&#8217;arte, que a sua fisionomia<br \/>\n    revela. A m&atilde;o daquele agente n&atilde;o &eacute; a de um loira&ccedil;a<br \/>\n    no of&iacute;cio. A per&iacute;cia magistral daqueles golpes, convergentes<br \/>\n    sempre &agrave; regi&atilde;o inferior do tronco humano, onde as entranhas<br \/>\n    se oferecem sem o obst&aacute;culo do osso &agrave; faca do cortador, est&aacute;<br \/>\n    denunciando a compet&ecirc;ncia do artista. O magarefe e o anatomista talham<br \/>\n    na carne morta, inerte. O vivissector imobiliza primeiro a v&iacute;tima na<br \/>\n    banca do laborat&oacute;rio, para n&atilde;o errar o alvo no meneio da lanceta.<br \/>\n    O cirurgi&atilde;o opera sobre o paciente insensibilizado como o auto&shy;psista<br \/>\n    no cad&aacute;ver. S&oacute; o capoeira tem no punho a vibra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    infal&iacute;vel da flecha contra o p&aacute;ssaro no v&ocirc;o; s&oacute;<br \/>\n    ele disseca o homem vivo e livre na plenitude do movimento e da defesa, com<br \/>\n    a certeira instantaneidade do escalpelo na mesa de anatomia.<\/p>\n<p>Quando, por&eacute;m, n&atilde;o bastassem, para confirma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deste ju&iacute;zo, os caracteres da profiss&atilde;o, impressos nas circunst&acirc;n&shy;cias<br \/>\n    do crime (crime, ou excesso de zelo?), a&iacute; estava, para acabar com a<br \/>\n    d&uacute;vida, a navalha, o instrumento t&iacute;pico dessa especialidade<br \/>\n    fluminense, encontrada nas m&atilde;os do matador.<\/p>\n<p>De tempos a esta data h&aacute; de ter notado o p&uacute;blico que a capoeiragem<br \/>\n    como que se despede de n&oacute;s. Esse fen&ocirc;meno coincide paralelamente<br \/>\n    com a multiplica&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o secreto. Dir-se-ia que<br \/>\n    influ&ecirc;ncias benfazejas da a&ccedil;&atilde;o policial contribu&iacute;ram<br \/>\n    decisivamente para esse resultado. De onde poderiam concluir os publicistas<br \/>\n    oficiais que esses executores das proe&shy;zas clandestinas da pol&iacute;cia<br \/>\n    t&ecirc;m uma fun&ccedil;&atilde;o providencial, como a do sapo, nos brejos<br \/>\n    de hortali&ccedil;a, contra certos anim&aacute;l&shy;culos daninhos. Mas,<br \/>\n    se considerarmos que n&atilde;o h&aacute; not&iacute;cia, at&eacute; hoje,<br \/>\n    de um rasgo de hostilidade por parte do secreta contra o capoeira, ao passo<br \/>\n    que, por outro lado, o capoeira acaba de descobrir-se embiocado no secreta,<br \/>\n    n&atilde;o ser&aacute; precipitada a infer&ecirc;ncia de que entre o capoeira<br \/>\n    e o secreta houve apenas fus&atilde;o, ou transforma&ccedil;&atilde;o evolutiva.<br \/>\n    Um era a lagarta do outro. A ninfa deixou o casulo, transfigurada pela investidura<br \/>\n    de uma dignidade &uacute;til. O navalhista empregou-se numa profiss&atilde;o<br \/>\n    honesta, p&ocirc;s a sua destreza ao servi&ccedil;o da ordem, e fez sociedade<br \/>\n    com o C&oacute;digo Penal. &Eacute; a pol&iacute;tica da concilia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e do ju&iacute;zo. Duas pot&ecirc;ncias andavam em rixa: o olho da Rua do<br \/>\n    Lavradio e o cambap&eacute; do Largo de Santa Rita. Est&atilde;o aliados na<br \/>\n    paz da rep&uacute;blica. As pra&ccedil;as esvaziaram-se; porque o merecimento<br \/>\n    desses cidad&atilde;os, ingratamente retribu&iacute;do e desconhecido noutros<br \/>\n    tempos, passa a ser aproveitado agora em seguir a pista aos malfeitores de<br \/>\n    nossa ordem. Ora gra&ccedil;as que j&aacute; um habitante desta capital pode<br \/>\n    ter a certeza de que, se deixar um dia os intestinos na cal&ccedil;ada, n&atilde;o<br \/>\n    ser&aacute; por obra de algum r&eacute;u de pol&iacute;cia.<\/p>\n<p>Este cons&oacute;rcio tem a seu favor tradi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas<br \/>\n    da mais alta linhagem. Quem n&atilde;o conhece as gl&oacute;rias de Vidocq,<br \/>\n    o c&eacute;lebre Vidocq? Vagabundo, histri&atilde;o, desertor, fals&aacute;rio,<br \/>\n    calceta, o famoso aventureiro acabou por oferecer os servi&ccedil;os &agrave;<br \/>\n    ordem p&uacute;blica, no primeiro imp&eacute;rio, demonstrando, em grave mem&oacute;ria<br \/>\n    dirigida ao Bar&atilde;o Pasquier, que, &#8220;para descobrir ladr&otilde;es,<br \/>\n    &eacute; preciso t&ecirc;-lo sido&#8221;. Acolhido pela administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    imperial, foi preposto como chefe &agrave; brigada de seguran&ccedil;a. Mais<br \/>\n    tarde, regressando &agrave; Fran&ccedil;a os Bourbons, foi ele quem quebrou<br \/>\n    a martelo as espigas que fixavam a est&aacute;tua de Napole&atilde;o na coluna<br \/>\n    Vend&ocirc;me, e lhe amarrou os tirantes, que deviam lan&ccedil;&aacute;-la<br \/>\n    por terra. Chefe de seguran&ccedil;a em 1817, em remunera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tamanhos servi&ccedil;os, Vidocq comandava, em 1821, um corpo de agentes,<br \/>\n    todos antigos gal&eacute;s, ou antigos h&oacute;spedes das penitenci&aacute;rias,<br \/>\n    como ele. E, ainda em 1830, o governo de Lu&iacute;s Filipe n&atilde;o se<br \/>\n    desdenhou de utiliz&aacute;-lo. Verdade seja que, dessa vez, os truques do<br \/>\n    of&iacute;cio deram no ch&atilde;o, em momentos, com uma vida inteira de espionagem<br \/>\n    vitoriosa. Para demonstrar a imprescindibilidade de seu concurso ao prefeito<br \/>\n    da pol&iacute;cia, Gisquet, &#8212; o dedicado sustent&aacute;culo das tr&ecirc;s<br \/>\n    coroas que reinaram, neste s&eacute;culo, sobre aquele pa&iacute;s, fez tramar<br \/>\n    um roubo por v&aacute;rios apaniguados seus, todos antigos habitantes das<br \/>\n    pris&otilde;es. Os salteadores foram presos, e o maquinador do crime agraciado<br \/>\n    com o lugar de alta confian&ccedil;a, que cobi&ccedil;ava, &agrave; frente<br \/>\n    da pol&iacute;cia reservada. Mas um dos seus instrumentos viu-se colhido na<br \/>\n    rede, preso, condenado a dois anos de cadeia. O caso fez estrondo. A imprensa,<br \/>\n    de mais a mais, maligna sempre, descobrira, e explorava umas parecen&ccedil;as<br \/>\n    de mau efeito entre a cabe&ccedil;a do armador do crime e a do monarca. Vidocq<br \/>\n    foi demitido, e um decreto, de 15 de novembro de 1833, dissolveu-lhe a brigada,<br \/>\n    estabelecendo que ningu&eacute;m mais poderia ser admitido ao servi&ccedil;o<br \/>\n    policial sem boa folha corrida.<\/p>\n<p>J&aacute; se v&ecirc; que, rememorando este epis&oacute;dio, n&atilde;o podemos<br \/>\n    aconselhar &agrave; rep&uacute;blica a imita&ccedil;&atilde;o do precedente<br \/>\n    Orl&eacute;ans, quanto &agrave; &uacute;ltima parte: a resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    imprudente, em que a autoridade abriu m&atilde;o de um meio, t&atilde;o necess&aacute;rio<br \/>\n    aos povos morigerados e aos governos honestos, de fazer dos inocentes criminosos,<br \/>\n    quando o bem p&uacute;blico o exija. Uma pol&iacute;cia, que n&atilde;o disponha<br \/>\n    de recursos eficazes, para desembara&ccedil;ar limpamente o governo de seus<br \/>\n    inimigos, &eacute; tolice. A rep&uacute;blica, entre n&oacute;s, felizmente,<br \/>\n    sabe repelir com horror os exemplos da realeza, quando eles podem ensinar-nos<br \/>\n    os preconceitos vulgares da legalidade e da dec&ecirc;ncia, e adot&aacute;-los<br \/>\n    com sofreguid&atilde;o, quando apadrinham abusos corajosos, ou esc&acirc;ndalos<br \/>\n    brilhantes. O modelo, portanto, cuja recomenda&ccedil;&atilde;o naturalmente<br \/>\n    se colige das nossas escava&ccedil;&otilde;es policiais, &eacute; o do sistema<br \/>\n    Vidocq, nobilitado pelo consenso do primeiro imp&eacute;rio, da Restaura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da monarquia de julho. N&atilde;o queremos ir at&eacute; &agrave; N&aacute;poles<br \/>\n    do rei Bomba. N&atilde;o. Seria presun&ccedil;&atilde;o quase irreverente<br \/>\n    ao culto dos antepassados, de que podemos aproximar-nos, sem ter a imod&eacute;stia<br \/>\n    de pensar em rivaliz&aacute;-los.<\/p>\n<p>Os secretas, j&aacute; se v&ecirc;, s&atilde;o de boa estirpe. A Constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o lhes permite foro de nobreza. Mas uma &aacute;rvore de costado<br \/>\n    regada pelas virtudes oficiais de tantas gera&ccedil;&otilde;es de grilhetas<br \/>\n    pode bem zombar das formas de governo, estendendo sobre todas a sombra indiferente<br \/>\n    da sua prote&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Jornal do Brasil, 11 de junho de 1893.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"12\">MILITARES E POL&Iacute;TICA<\/a><\/h4>\n<p>Habituado aos desazos da franqueza em mat&eacute;ria pol&iacute;tica, o Jornal<br \/>\n    do Brasil cair&aacute;, talvez, hoje ainda, num desses erros do seu procedimento<br \/>\n    usual.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m sente melhor do que n&oacute;s os males do militarismo. Ningu&eacute;m<br \/>\n    lhe oporia, se pudesse, rem&eacute;dios mais radicais. Nossa opini&atilde;o<br \/>\n    geral, para resumirmos, &eacute; a que Burke, o s&aacute;bio estadista ingl&ecirc;s,<br \/>\n    condensou nestas admir&aacute;veis palavras: &#8220;Um ex&eacute;rcito disciplinado<br \/>\n    &eacute;, de sua ess&ecirc;ncia, perigoso &agrave; liberdade; um ex&eacute;rcito<br \/>\n    indisciplinado &eacute; a ru&iacute;na da sociedade.&#8221; Em particular,<br \/>\n    quanto ao Brasil, consideramos a organiza&ccedil;&atilde;o imperial do ex&eacute;rcito,<br \/>\n    a certos respeitos, como uma superfeta&ccedil;&atilde;o mortal para o organismo<br \/>\n    republicano. Conservamos do passado mon&aacute;rquico institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    marciais, que quadravam perfeitamente nele, mas que s&atilde;o de todo ponto<br \/>\n    incomposs&iacute;veis com a democracia federativa. Assaz nos tem ensinado<br \/>\n    a experi&ecirc;ncia o para que valem, por via de regra, os distritos militares.<br \/>\n    S&atilde;o sentinelas &agrave; vista, postas aos governos locais, para os<br \/>\n    esmagar, ao menor aceno do centro. Chumbada a esse argol&atilde;o do antigo<br \/>\n    reg&iacute;men, a vida federativa ter&aacute; por medida a extens&atilde;o<br \/>\n    da cadeia, que lhe arbitrarem. Na &iacute;ndole do sistema que adotamos, o<br \/>\n    ex&eacute;rcito &eacute; a trincheira viva das fronteiras. Guarda normal da<br \/>\n    ordem &eacute; e deve ser t&atilde;o-somente a administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos estados.<\/p>\n<p>N&atilde;o nos poder&atilde;o suspeitar, por conseq&uuml;&ecirc;ncia, de<br \/>\n    queda pelo elemento armado, se tomamos a liberdade de dizer que pouco confiamos<br \/>\n    nesse movimento promovido para afastar da pol&iacute;tica os militares, bem<br \/>\n    como nas medidas legislativas alvitradas com esse fim. Merece todos os nossos<br \/>\n    aplausos a propaganda. Mas esses aplausos v&atilde;o resfriados pelo sentimento,<br \/>\n    oxal&aacute; que err&ocirc;neo, de que lutamos com uma degeneresc&ecirc;ncia<br \/>\n    infinitamente superior aos rem&eacute;dios propostos. O ex&eacute;rcito que<br \/>\n    fez uma revolu&ccedil;&atilde;o, e por ela e ap&oacute;s ela saboreou o prazer<br \/>\n    divino da soberania, nunca mais se reconciliar&aacute; com a submiss&atilde;o<br \/>\n    e a ordem. A sociedade, a cuja epiderme ele adere, viver&aacute; da&iacute;<br \/>\n    em diante inevitavelmente dilacerada pelo terr&iacute;vel corrosivo. Para<br \/>\n    edifica&ccedil;&atilde;o, tem o Brasil, em sua pr&oacute;pria hist&oacute;ria,<br \/>\n    o exemplo cl&aacute;ssico de 1831 e seu desfecho. &#8220;O ex&eacute;rcito,<br \/>\n    que aprendeu o direito p&uacute;blico, deixou de ser ex&eacute;rcito: ou se<br \/>\n    desagrega, ou recusa obedecer.&#8221;<\/p>\n<p>N&atilde;o foi s&oacute; &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o brasileira que<br \/>\n    coube a sorte, pouco estim&aacute;vel, de nascer nos bra&ccedil;os do militarismo.<br \/>\n    Nem essa &eacute; unicamente uma fei&ccedil;&atilde;o peculiar &agrave;s revolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    hispano-americanas. Rivarol, em suas c&eacute;lebres Mem&oacute;rias, acentua<br \/>\n    que o que aniquilou a realeza, em Fran&ccedil;a, nos fins do s&eacute;culo<br \/>\n    dezoito &#8220;foi a deser&ccedil;&atilde;o do ex&eacute;rcito, convertido<br \/>\n    &agrave;s id&eacute;ias do terceiro estado&#8221;. &#8220;Regimentos inteiros&#8221;,<br \/>\n    diz um publicista franc&ecirc;s, &#8220;tinham-se revoltado, bandeando-se<br \/>\n    para a sedi&ccedil;&atilde;o, e apoderando-se de seus chefes. Quase por toda<br \/>\n    a parte os soldados constitu&iacute;am juntas revolucion&aacute;rias, que<br \/>\n    recusavam, depunham, julgavam, e ami&uacute;de executavam seus oficiais.&#8221;<br \/>\n    Lu&iacute;s XVI acordou uma manh&atilde; desamparado pela sua guarda. &#8212;<br \/>\n    &#8220;Para que estes canh&otilde;es?&#8221; perguntavam as mulheres do povo<br \/>\n    &agrave;s pra&ccedil;as de artilheria. &#8220;Quereis matar vossas m&atilde;es,<br \/>\n    vossas mulheres, vossas filhas&#8221;? &#8212; &#8220;N&atilde;o tenhais medo&#8221;,<br \/>\n    respondiam os soldados. &#8220;Estas bocas-de-fogo ser&atilde;o assestadas<br \/>\n    contra o pal&aacute;cio dos tiranos; n&atilde;o contra v&oacute;s&#8221;.<\/p>\n<p>A luta com a Europa n&atilde;o permitiu que a revolu&ccedil;&atilde;o depus&shy;sesse<br \/>\n    as armas. O jacobinismo dominante, desde 1792, sobre as ru&iacute;nas do trono,<br \/>\n    n&atilde;o se divorciou do elemento formid&aacute;vel, gra&ccedil;as ao qual<br \/>\n    as reivindica&ccedil;&otilde;es populares levaram a cabo a rep&uacute;blica,<br \/>\n    que a grande maioria da na&ccedil;&atilde;o n&atilde;o queria em 1789, rebelando-se,<br \/>\n    n&atilde;o contra a realeza, mas contra o antigo reg&iacute;&shy;men, a cuja<br \/>\n    ru&iacute;na inevit&aacute;vel a coroa se obstinava em associar o seu destino.<br \/>\n    Quando o ex&eacute;rcito reapareceu na cena interior, em 1795, ficou desde<br \/>\n    ent&atilde;o suspenso sobre o pa&iacute;s (todos os publicistas o reconheceram)<br \/>\n    o instrumento, a cujos golpes a rep&uacute;blica tinha de perecer. O 13 vindimi&aacute;rio,<br \/>\n    com a dissolu&ccedil;&atilde;o das se&ccedil;&otilde;es de Paris pela metralha<br \/>\n    de Bonaparte, iniciou a rea&ccedil;&atilde;o militar, que havia de extinguir<br \/>\n    a ordem revolucion&aacute;ria criada pela a&ccedil;&atilde;o militar.<\/p>\n<p>&#8220;Um dos caracteres dessa data&#8221;, diz um dos maiores historiadores<br \/>\n    pol&iacute;ticos da Fran&ccedil;a, &#8220;&eacute; o advento do militarismo,<br \/>\n    o soldado sucedendo ao povo, gra&ccedil;as &agrave;s proezas violentas da<br \/>\n    pol&iacute;tica interior. Era um fen&ocirc;meno novo e grave na hist&oacute;ria<br \/>\n    da Revolu&ccedil;&atilde;o. Em 1789 o ex&eacute;rcito s&oacute; aparece um<br \/>\n    momento, para debandar ante a insurrei&ccedil;&atilde;o. Depois desaparece<br \/>\n    da pra&ccedil;a p&uacute;blica, de onde o conservam zelosamente afastado.<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o se mostra sen&atilde;o de longe, na fronteira. Ali se<br \/>\n    afaz &agrave; guerra, e corporifica-se, enquanto a na&ccedil;&atilde;o se<br \/>\n    entibia, e dissolve; ilustra-se, enquanto os partidos se desonram; cresce,<br \/>\n    ao passo que tudo se rebaixa. Eis sen&atilde;o quando, no 13 vindimi&aacute;rio,<br \/>\n    s&atilde;o os pr&oacute;prios republicanos revolucion&aacute;rios, que, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o tendo apoio nenhum na opini&atilde;o, mas n&atilde;o querendo privar-se<br \/>\n    do poder, v&atilde;o buscar esse ex&eacute;rcito, para os defender, acoro&ccedil;oam-no<br \/>\n    a tomar partido, levam-no a votar com estr&eacute;pito, convidam-lhe os generais<br \/>\n    a se fazerem homens pol&iacute;ticos, adulam-no, enaltecem-no, pegam-no, digamos<br \/>\n    assim, pela m&atilde;o, para induzi-lo a transpor essa fronteira ideal da<br \/>\n    liberdade civil, esse Rubicon, que, como na rep&uacute;blica romana, detinha<br \/>\n    as legi&otilde;es longe do senado, e, afinal, o introduzem, de arma em punho,<br \/>\n    no Forum. Uma vez dentro, ele nunca mais sair&aacute;. Protetor do Governo<br \/>\n    hoje, ser&aacute; seu senhor amanh&atilde;. Defendendo-se, aprendeu a desprez&aacute;-lo.<br \/>\n    Instruindo-se em sua for&ccedil;a e na fraqueza do povo fatigado pela revolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    p&ocirc;de avaliar a facilidade de certas vit&oacute;rias.&#8221;<\/p>\n<p>Pouco depois a oposi&ccedil;&atilde;o legislativa desgostando o conquistador<br \/>\n    da It&aacute;lia, ateara no cora&ccedil;&atilde;o de Bonaparte um sentimento<br \/>\n    cong&ecirc;nere ao que presentemente se explora entre n&oacute;s contra os<br \/>\n    homens pol&iacute;ticos, equiparados, outro dia, num discurso semi&shy;militar,<br \/>\n    aos estrangeiros. Sua correspond&ecirc;ncia com o Diret&oacute;rio amea&ccedil;ava<br \/>\n    &#8220;os poltr&otilde;es desses advogados, esses miser&aacute;veis linguareiros&#8221;.<br \/>\n    Excitando-o a &#8220;salvar de um s&oacute; golpe a rep&uacute;blica&#8221;,<br \/>\n    ele oferecia-lhe o concurso dos ex&eacute;rcitos vitorio&shy;sos, e animava-o<br \/>\n    a quebrar os prelos aos jornalistas. Produzia-se &#8220;um movimento de opini&atilde;o<br \/>\n    moderada, que podia terminar pela funda&ccedil;&atilde;o de um governo est&aacute;vel,<br \/>\n    fechando a porta &agrave; ditadura militar&#8221;. O g&ecirc;nio do futuro<br \/>\n    imperador dos franceses acompanhava-o com olhos desconfiados. Abolir a rep&uacute;blica<br \/>\n    era j&aacute; o seu pensamento. Mas com que intuito? &#8220;Eu quero&#8221;,<br \/>\n    dizia ele a Miot de Melito, &#8220;enfraquecer o Partido Repu&shy;bli&shy;cano,<br \/>\n    mas em meu proveito.&#8221; O homem, que sob o Terror pusera a m&aacute;scara<br \/>\n    jaco&shy;bina, para, mais tarde, renegar Robespierre aniquilado, representava<br \/>\n    ent&atilde;o a com&eacute;dia da regenera&ccedil;&atilde;o da p&aacute;tria<br \/>\n    contra a corrup&ccedil;&atilde;o representativa. Os brindes levantados nos<br \/>\n    festins militares, com que ele arrastava as suas legi&otilde;es a se engolfarem<br \/>\n    na refrega pol&iacute;tica, incitavam o ex&eacute;rcito a &#8220;purificar<br \/>\n    a Fran&ccedil;a&#8221;. Passaremos como o raio, dizia-se. E passaram. O atentado<br \/>\n    militar do 18 frutidor violou a representa&ccedil;&atilde;o nacional, pelas<br \/>\n    m&atilde;os dos emiss&aacute;rios do grande ambicioso, arrebatando a flor<br \/>\n    da honra, do talento e do patrio&shy;tismo ao conselho dos anci&atilde;os<br \/>\n    e ao conselho dos quinhentos. E o Diret&oacute;rio, que fora apenas um aut&ocirc;mato<br \/>\n    dos projetos do p&eacute;rfido corso, recebia dos restos mutilados e at&ocirc;nitos<br \/>\n    dessas duas corpora&ccedil;&otilde;es o agradecimento p&uacute;blico, por<br \/>\n    ter salvado a liberdade. Era a farsa parlamentar ap&oacute;s a trag&eacute;dia<br \/>\n    marcial, juntando &agrave;s festas nacionais, por um decreto da legis&shy;latura<br \/>\n    espavorida e aviltada, a comemora&ccedil;&atilde;o da ru&iacute;na ignominiosa<br \/>\n    do reg&iacute;men eletivo com a qual se preludiava &agrave; ditadura napo&shy;le&ocirc;nica.<br \/>\n    E esse crime, a que Washington, deste lado do oceano, chamava o c&uacute;mulo<br \/>\n    do despotismo, era saudado, em Fran&ccedil;a, como a vit&oacute;ria das institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    liberais contra a anarquia oposicionista.<\/p>\n<p>&Eacute; assim que os triunfos do militarismo desnaturam as leis, corrompem<br \/>\n    as id&eacute;ias, transp&otilde;em a l&oacute;gica, e invertem o nome &agrave;s<br \/>\n    coisas, preparando o naufr&aacute;gio dos direitos populares, em cujo nome<br \/>\n    se anunciam as suas conquistas.<\/p>\n<p>A pena foi-nos talvez demasiado longe na divaga&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica.<br \/>\n    A muitos se afigurar&aacute; ela uma hip&eacute;rbole despropositada. Mas<br \/>\n    n&atilde;o tivemos propriamente em mira estabelecer analogias, sen&atilde;o<br \/>\n    sim avivar no&ccedil;&otilde;es, em que o nosso racioc&iacute;nio depois estribar&aacute;.<br \/>\n    Se n&atilde;o temos Napole&otilde;es, n&atilde;o chegamos a ser a Fran&ccedil;a.<br \/>\n    Somos uma popula&ccedil;&atilde;o rarefeita, quase inteiramente dominada por<br \/>\n    algumas capitais. Um esp&iacute;rito inferior, servido por um largo sistema<br \/>\n    de corrup&ccedil;&atilde;o e uma vasta cobi&ccedil;a, poderia consumar, aqui,<br \/>\n    surpresas, que, numa na&ccedil;&atilde;o grande e vivaz, reclamariam o g&ecirc;nio<br \/>\n    dos Napole&otilde;es. Contra essa hip&oacute;tese, que Deus afaste de n&oacute;s,<br \/>\n    a propaganda agora iniciada, no seio mesmo do ex&eacute;rcito, pela sua absten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica &eacute; um movimento excelente, mil vezes louv&aacute;vel.<\/p>\n<p>Mas at&eacute; onde ser&aacute; exeq&uuml;&iacute;vel, at&eacute; onde pode<br \/>\n    ter seriedade essa tend&ecirc;ncia, quando o ex&#038;eacuteeacute;rcito se move nas m&atilde;os<br \/>\n    de uma individualidade substancialmente pol&iacute;tica, e essa individualidade<br \/>\n    &eacute; dominada, sem partilha, pelo esp&iacute;rito militarista? &Eacute;<br \/>\n    a quest&atilde;o, que buscaremos ventilar.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Jornal do Brasil, 15 de junho de 1893.<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Radical Paulistano Di\u00e1rio da Bahia Dois de Julho O Pa\u00eds O Bezerro de Palha Jornal do Commercio O Dever da Oposi\u00e7\u00e3o A Lega\u00e7\u00e3o do Vaticano O Bispo Diocesano Nossa Constitui\u00e7\u00e3o, A Espada A Espionagem Militares e Pol\u00edtica Rui Barbosa Pref&aacute;cio Ao planejar, em 1921, a publica&ccedil;&atilde;o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-117323","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Obras Seletas - Volume VI, Rui Barbosa, Radical Paulistano, Literatura, Obras Seletas - Volume VI<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Obras Seletas - Volume VI, Rui Barbosa, Radical Paulistano, Di\u00e1rio da Bahia, Dois de Julho, Literatura, Obras Seletas - Volume VI\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Obras Seletas - Volume VI, Rui Barbosa, Radical Paulistano, Literatura, Obras Seletas - Volume VI\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Obras Seletas - Volume VI, Rui Barbosa, Radical Paulistano, Di\u00e1rio da Bahia, Dois de Julho, Literatura, Obras Seletas - Volume VI\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/obras-seletas-volume-vi\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-04-03T15:19:01+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"120 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/obras-seletas-volume-vi#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/obras-seletas-volume-vi\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Obras Seletas &#8211; 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