{"id":117209,"date":"2017-04-03T12:11:48","date_gmt":"2017-04-03T14:11:48","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117209"},"modified":"2017-04-03T12:11:48","modified_gmt":"2017-04-03T14:11:48","slug":"oracao-aos-mocos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos","title":{"rendered":"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Rui Barbosa<\/h2>\n<p>Esgotada h\u00e1 tempos a edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que preparei em 1956, quis a Dire\u00e7\u00e3o da FCRB, em face da insist\u00eancia de pedidos, se reimpri- misse a Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os numa edi\u00e7\u00e3o popular anotada.<\/p>\n<p>Tomando por base o texto de 1956, retirei-lhe o aparato cr\u00edtico, multiplicando ao mesmo tempo as notas, destinadas a mais f\u00e1cil entendimento do famoso discurso que Rui, por motivo de sa\u00fade, n\u00e3o p\u00f4de proferir em pessoa, em 1921, perante a turma de 1920 da Faculdade de Direito de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Novo cotejo com os manuscritos permitiu se emendassem n\u00e3o apenas pequenos lapsos que haviam escapado nas cola\u00e7\u00f5es anterio- res, sen\u00e3o ainda mi\u00fadas e raras gralhas tipogr\u00e1ficas que se insinua- ram \u2013 n\u00e3o obstante o carinho com que se fez a revis\u00e3o \u2013 naquela edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esperamos, todos quantos laboramos no preparo desta edi\u00e7\u00e3o, reproduza ela, definitivamente, com a maior fidelidade, o texto de- sejado pelo alto Patrono desta Casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o se acolheram nas notas de rodap\u00e9 aqueles numerosos ter- mos cuja significa\u00e7\u00e3o se elucida mediante a simples consulta a um pequeno dicion\u00e1rio da l\u00edngua (como sejam, por exemplo, inviso, exc\u00eddio, pedil\u00favio, entre tantos mais): a preocupa\u00e7\u00e3o constante foi, t\u00e3o-somente, contribuir para a compreens\u00e3o cabal das palavras de Rui \u00e0 juventude brasileira \u2013 palavras de alento e de f\u00e9 t\u00e3o atuais e necess\u00e1rias hoje em dia \u2013, aclarando o sentido de express\u00f5es e constru\u00e7\u00f5es menos usuais. A Homero Senna agrade\u00e7o as sugest\u00f5es sem- pre l\u00facidas.<\/p>\n<p>A Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os prosseguir\u00e1 na luminosa trajet\u00f3ria que o destino lhe tra\u00e7ou, agora numa edi\u00e7\u00e3o singela, acess\u00edvel ao grande p\u00fablico e, sobretudo, num texto de todo fidedigno.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Rio de Janeiro, agosto de 1979.<\/b><\/p>\n<p><strong>Adriano da Gama Kury<\/strong><\/p>\n<p>Obs. \u2013 Nas notas de Rui Barbosa se utiliza o asterisco; as do preparador do texto s\u00e3o numeradas.<\/p>\n<p>Senhores:<\/p>\n<p>N\u00e3o quis Deus que os meus cinq\u00fcenta anos de consagra\u00e7\u00e3o ao Direito viessem receber no templo do seu ensino em S. Paulo o selo de uma grande b\u00ean\u00e7\u00e3o, associando-se hoje com a vossa admiss\u00e3o ao nosso sacerd\u00f3cio, na solenidade imponente dos votos, em que o ides esposar.<\/p>\n<p>Em verdade vos digo, jovens amigos meus, que o coincidir desta exist\u00eancia declinante com essas carreiras nascentes agora, o seu co- incidir num ponto de intersec\u00e7\u00e3o t\u00e3o magnificamente celebrado, era mais do que eu mereceria; e, negando-me a divina bondade um mo- mento de tamanha ventura, n\u00e3o me negou sen\u00e3o o a que eu n\u00e3o devia ter tido a inconsci\u00eancia de aspirar.<\/p>\n<p>Mas, recusando-me o privil\u00e9gio de um dia t\u00e3o grande, ainda me consentiu o encanto de vos falar, de conversar convosco, presente entre v\u00f3s em esp\u00edrito; o que \u00e9, tamb\u00e9m, estar presente em verdade.<\/p>\n<p>Assim que n\u00e3o me ides ouvir de longe, como a quem se sente arredado por centenas de quil\u00f4metros, mas de ao p\u00e9, de em meio a v\u00f3s, como a quem est\u00e1 debaixo do mesmo tecto, e \u00e0 beira do mesmo lar, em col\u00f3quio de irm\u00e3os, ou junto dos mesmos altares, sob os mesmos campan\u00e1rios, elevando ao Criador as mesmas ora\u00e7\u00f5es, e professando o mesmo credo.<\/p>\n<p>Direis que isto de me achar assistindo, assim, entre os de quem me vejo separado por dist\u00e2ncia t\u00e3o vasta, seria dar-se, ou supor que se est\u00e1 dando, no meio de n\u00f3s, um verdadeiro milagre?<\/p>\n<p>Ser\u00e1. Milagre do maior dos taumaturgos. Milagre de quem respi- ra entre milagres. Milagre de um santo, que cada qual tem no sacr\u00e1rio do seu peito. Milagre do cora\u00e7\u00e3o, que os sabe chover1 sobre a criatu- ra humana, como o firmamento chove1 nos campos mais \u00e1ridos e tristes a orvalhada das noites, que se esvai, com os sonhos de antemanh\u00e3, ao cair das primeiras frechas de oiro2 do disco solar.<\/p>\n<p>Embora o realismo dos ad\u00e1gios teime no contr\u00e1rio, tolerem-me3 o arrojo de afrontar uma vez a sabedoria dos prov\u00e9rbios. Eu me abalan\u00e7o a lhes3 dizer e redizer de n\u00e3o4. N\u00e3o \u00e9 certo, como corre mundo, ou, pelo menos, muitas e muit\u00edssimas vezes, n\u00e3o \u00e9 verdade, como se espalha fama, que \u201clonge da vista, longe do cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O g\u00eanio dos anexins, a\u00ed, vai longe de andar certo. Esse prol\u00f3quio tem mais mal\u00edcia que ci\u00eancia, mais epigrama que justi\u00e7a, mais enge- nho que filosofia. Vezes sem conto5, quando se est\u00e1 mais fora da vista dos olhos, ent\u00e3o (e por isso mesmo) \u00e9 que mais \u00e0 vista do cora- \u00e7\u00e3o estamos; n\u00e3o s\u00f3 bem \u00e0 sua vista, sen\u00e3o bem dentro nele6.<\/p>\n<p>1 que os sabe chover; o firmamento chove &#8230; a orvalhada \u2013 O verbo chover, habitualmente impessoal e intransitivo, emprega-o Rui, aqui por duas vezes, com sujeito (que = o cora\u00e7\u00e3o; o firmamento) e objeto direto (os = milagres; a orvalhada). 2 oiro: ouro. \u2013 Nos voc\u00e1bulos em que se apresenta a altern\u00e2ncia oi\/ou, a forma preferida de Rui \u00e9, no geral, a mais raramente usada entre n\u00f3s. Em dois e coisa, entretanto, Rui emprega a forma usual hoje em dia, se bem que, na l\u00edngua escrita do seu tempo, fossem mais comuns dous e cousa. 3 tolerem-me &#8230;; a lhes dizer. \u2013 Rui vem usando, e assim o faz at\u00e9 o fim da Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, o tratamento de segunda pessoa do plural. Causa estranheza, portanto, a um exame superficial, esta mudan\u00e7a para a terceira pessoa do plural, explic\u00e1vel, contudo, se atentarmos a que o orador, nesta passagem, se dirige a um audit\u00f3rio mais geral, especialmente aos seus futuros leitores. 4 dizer e redizer de n\u00e3o: dizer e redizer que n\u00e3o. 5 sem conto. \u2013 Variante menos comum da locu\u00e7\u00e3o sem conta. 6 dentro nele: dentro dele. \u2013 A locu\u00e7\u00e3o dentro em hoje s\u00f3 \u00e9 freq\u00fcente na expres- s\u00e3o dentro em pouco. Rui, no entanto, quase sempre a preferia, a exemplo dos cl\u00e1ssi- cos.<\/p>\n<p>N\u00e3o, filhos meus (deixai-me experimentar, uma vez que seja, convosco, este suav\u00edssimo nome); n\u00e3o: o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o fr\u00edvolo, t\u00e3o exterior, t\u00e3o carnal quanto se cuida. H\u00e1, nele, mais que um assombro fisiol\u00f3gico: um prod\u00edgio moral. \u00c9 o \u00f3rg\u00e3o da f\u00e9, o \u00f3rg\u00e3o da esperan\u00e7a, o \u00f3rg\u00e3o do ideal. V\u00ea, por isso, com os olhos d\u2019alma7, o que n\u00e3o v\u00eaem os do corpo. V\u00ea ao longe, v\u00ea em aus\u00eancia, v\u00ea no invis\u00edvel, e at\u00e9 no infinito v\u00ea. Onde p\u00e1ra o c\u00e9rebro de ver, outorgou- lhe o Senhor que ainda veja; e n\u00e3o se sabe at\u00e9 onde. At\u00e9 onde che- gam as vibra\u00e7\u00f5es do sentimento, at\u00e9 onde se perdem os surtos da poesia, at\u00e9 onde se somem os v\u00f4os da cren\u00e7a: at\u00e9 Deus mesmo, inviso como os panoramas \u00edntimos do cora\u00e7\u00e3o, mas presente ao c\u00e9u e \u00e0 terra, a todos n\u00f3s presente, enquanto nos palpite, incorrupto, no seio, o m\u00fasculo da vida e da nobreza e da bondade humana.<\/p>\n<p>Quando ele j\u00e1 n\u00e3o estende o raio visual pelo horizonte do invis\u00ed- vel, quando sua vis\u00e3o tem por limite a do nervo \u00f3ptico, \u00e9 que o cora\u00e7\u00e3o, j\u00e1 escler\u00f3tico, ou degenerescente, e saturado nos res\u00edduos de uma vida gasta no mal, apenas oscila mecanicamente no interior do arcaboi\u00e7o8, como p\u00eandula de rel\u00f3gio abandonado, que agita, com as derradeiras pancadas, os vermes e a poeira da caixa. Dele se reti- rou a centelha divina. At\u00e9 ontem lhe banhava ela de luz todo esse espa\u00e7o, que nos distanceia9 do incomensur\u00e1vel desconhecido, e lan- \u00e7ava entre este e n\u00f3s uma ponte de astros. Agora, apagados esses luzeiros, que o inundavam de radiosa claridade, l\u00e1 se foram, com o extinto cintilar das estrelas, as entreabertas do dia eterno, deixando- nos, t\u00e3o-somente, entre o long\u00ednquo mist\u00e9rio daquele termo e o ani- quilamento da nossa mis\u00e9ria desamparada, as trevas de outro \u00e9ter,<\/p>\n<p>7 d\u2019alma. \u2013 S\u00e3o omissas, para situa\u00e7\u00f5es como esta, as regras sobre o emprego do ap\u00f3strofo nas normas oficiais (V. \u201cInstru\u00e7\u00f5es para a Organiza\u00e7\u00e3o do Vocabul\u00e1rio Ortogr\u00e1fico da L\u00edngua Portuguesa\u201d, cap. XIII, anexas ao Pequeno Vocabul\u00e1rio Or- togr\u00e1fico da L\u00edngua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras \u2013 Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1943). \u2013 Conservamos essa nota\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica, uma vez que a sua supress\u00e3o implicaria uma altera\u00e7\u00e3o formal de todo desaconselh\u00e1vel. 8 arcaboi\u00e7o: arcabou\u00e7o. \u2013 V. nota 2. 9 distanceia: distancia. \u2013 Prefer\u00eancia, hoje evitada, pela variante menos comum.<\/p>\n<p>como esse que se diz encher de escurid\u00e3o o vago mist\u00e9rio do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Entre v\u00f3s, por\u00e9m, mo\u00e7os, que me estais escutando, ainda brilha em toda a sua rutil\u00e2ncia o clar\u00e3o da l\u00e2mpada sagrada, ainda arde em toda a sua energia o centro de calor, a que se aquece a ess\u00eancia d\u2019alma. Vosso cora\u00e7\u00e3o, pois, ainda estar\u00e1 incontaminado; e Deus assim o preserve.<\/p>\n<p>Metei a m\u00e3o no seio, e a\u00ed o sentireis com a sua segunda vista.<\/p>\n<p>Desta, sobre tudo10, \u00e9 que ele nutre sua vida agitada e criadora. Pois n\u00e3o sabemos que, com os antepassados, vive ele da mem\u00f3ria, do luto e da saudade? E tudo \u00e9 viver no pret\u00e9rito. N\u00e3o sentimos como, com os nossos conviventes, se alimenta ele na comunh\u00e3o dos senti- mentos e \u00edndoles, das id\u00e9ias e aspira\u00e7\u00f5es? E tudo \u00e9 viver num mun- do, em que estamos sempre fora deste, pelo amor, pela abnega\u00e7\u00e3o, pelo sacrif\u00edcio, pela caridade. N\u00e3o nos ser\u00e1 claro que, com os nossos descendentes e sobreviventes, com os nossos sucessores e p\u00f3steros, vive ele de f\u00e9, esperan\u00e7a e sonho? Ora, tudo \u00e9 viver, previvendo, \u00e9 existir, preexistindo, \u00e9 ver, prevendo. E, assim, est\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o, cada ano, cada dia, cada hora, sempre alimentado em contemplar o que n\u00e3o v\u00ea, por ter em dote dos c\u00e9us a preexcel\u00eancia de ver, ouvir e palpar o que os olhos n\u00e3o divisam, os ouvidos n\u00e3o escutam, e o tacto n\u00e3o sente.<\/p>\n<p>Para o cora\u00e7\u00e3o, pois, n\u00e3o h\u00e1 passado, nem futuro, nem aus\u00eancia.<\/p>\n<p>Aus\u00eancia, pret\u00e9rito e porvir, tudo lhe \u00e9 atualidade, tudo presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas presen\u00e7a animada e vivente, palpitante e criadora, neste rega\u00e7o interior, onde os mortos renascem, prenascem os vindoiros11, e os distanciados se ajuntam, ao influxo de um talism\u00e3, pelo qual, nesse m\u00e1gico microcosmo de maravilhas, encerrado na breve arca de um peito humano, cabe, em evoca\u00e7\u00f5es de cada instante, a humanidade toda e a mesma eternidade.<\/p>\n<p>10 sobre tudo. \u2013 Conservamos separadas as duas palavras, uma vez que o valor da express\u00e3o, acima de tudo\u201d, o admite, embora o Vocabul\u00e1rio oficial recomende se escreva sobretudo. 11 vindoiros. \u2013 V. nota 2.<\/p>\n<p>A maior de quantas dist\u00e2ncias logre a imagina\u00e7\u00e3o conceber, \u00e9 a da morte; e nem esta separa entre si os que a terr\u00edvel apartadora de homens arrebatou aos bra\u00e7os uns dos outros. Quantas vezes n\u00e3o entrevemos, nesse fundo obscuro e remot\u00edssimo, uma ima- gem cara? quantas12 vezes n\u00e3o a vemos assomar nos longes da saudade, sorridente, ou melanc\u00f3lica, alvoro\u00e7ada, ou inquieta, se- vera, ou carinhosa, trazendo-nos o b\u00e1lsamo, ou o conselho, a promessa, ou o desengano, a recompensa, o castigo, o aviso da fatalidade, ou os press\u00e1gios de bom agoiro13? Quantas nos n\u00e3o vem conversar, af\u00e1vel e tranq\u00fcila, ou pressurosa e sobressaltada, com o afago nas m\u00e3os, a do\u00e7ura na boca, a meiguice no sem- blante, o pensamento na fronte, l\u00edmpida, ou carregada, e lhe sa- \u00edmos do contacto, ora seguros e robustecidos, ora transidos de cuidado e pesadume, ora cheios de novas inspira\u00e7\u00f5es, e cisman- do, para a vida, novos rumos? Quantas outras, n\u00e3o somos n\u00f3s os que vamos chamar esses leais companheiros de al\u00e9m-mundo, e com eles renovar a pr\u00e1tica14 interrompida, ou instar com eles por alvitre, em v\u00e3o buscado, uma palavra, um movimento do rosto, um gesto, uma r\u00e9stia de luz, um tra\u00e7o do que por l\u00e1 se sabe, e aqui se ignora? Se n\u00e3o h\u00e1, pois, abismo entre duas \u00e9pocas, nem mesmo a vora- gem final desta \u00e0 outra vida, que n\u00e3o transponha a m\u00fatua atra\u00e7\u00e3o de duas almas, n\u00e3o pode haver, na mesquinha superf\u00edcie do globo terrestre, espa\u00e7os, que n\u00e3o ven\u00e7a, com os instant\u00e2neos de preste- za das vibra\u00e7\u00f5es luminosas, esse fluido incompar\u00e1vel, por onde se realiza, na esfera das comunica\u00e7\u00f5es morais, a maravilha da foto- grafia \u00e0 distancia15 no mundo positivo da ind\u00fastria moderna.<\/p>\n<p>12 Observe-se o uso de min\u00fasculas em seguida a ponto de interroga\u00e7\u00e3o, nas se- q\u00fc\u00eancias interrogativas. Hoje, \u00e9 acentuada a prefer\u00eancia pela mai\u00fascula. 13 agoiro. \u2013 V. nota 2. 14 pr\u00e1tica: conversa\u00e7\u00e3o, palestra. 15 \u00e0 distancia. \u2013 Muito se tem discutido acerca do acento no a nesta locu\u00e7\u00e3o. Rui costuma empreg\u00e1-lo. V., por exemplo, no Discurso no Col\u00e9gio Anchieta (p\u00e1g. 3 da<\/p>\n<p>T\u00e3o pouco medeia do Rio a S. Paulo! Por que16 n\u00e3o consegui- remos enxergar de um a outro cabo, em linha t\u00e3o curta? Tente- mos. Vejamos. Estendamos as m\u00e3os, entre os dois pontos que a limitam. Deste \u00e0quele j\u00e1 se estabeleceu a corrente. R\u00e1pida como o pensamento, corre a emana\u00e7\u00e3o magn\u00e9tica desta extremidade \u00e0 oposta. J\u00e1 num aperto se confundiram as m\u00e3os, que se procura- vam. J\u00e1, num amplexo de todos, nos abra\u00e7amos uns aos outros.<\/p>\n<p>Em S. Paulo estamos. Conversemos, amigos, de presen\u00e7a a pre- sen\u00e7a.<\/p>\n<p>Entrela\u00e7ando a cola\u00e7\u00e3o do vosso grau com a comemora\u00e7\u00e3o jubi- lar da minha, e dando-me a honra de vos ser eu paraninfo, urdis, desta maneira, no ingresso \u00e0 carreira que adotastes, um como v\u00edncu- lo sagrado entre a vossa exist\u00eancia intelectual, que se enceta, e a do vosso padrinho em Letras17, que se acerca do seu termo. Do ocaso de uma surde18 o arrebol da outra.<\/p>\n<p>Merc\u00ea, por\u00e9m, de circunst\u00e2ncias inopinadas, com o encerro do meu meio s\u00e9culo de trabalho na jurisprud\u00eancia se ajusta o remate dos meus cinq\u00fcenta anos de servi\u00e7os \u00e0 na\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o jurista come\u00e7ava a olhar com os primeiros toques de saudade para o instrumento,<\/p>\n<p>ed. de 1981, feita pelo Prof. Rocha Lima): \u201cDestes cimos, \u2026 o Col\u00e9gio Anchieta nos estende dist\u00e2ncia os bra\u00e7os\u201d; na Queda do Imp\u00e9rio (vol. I, Rio, 1921) : \u201cAchava-se ali \u00e0 dist\u00e2ncia um amigo, que me aguardava.\u201d (p\u00e1g. LXX) ; \u201cMais f\u00e1cil \u00e9 sempre um n\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia que rosto a rosto.\u201d(p\u00e1g. LXXII). \u2013 Esse \u00e9 o uso dos nossos melhores escritores. 16 por que. \u2013 No correr de toda a Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os Rui escreve separadamente, por que, tanto na interroga\u00e7\u00e3o direta quanto na indireta, coincidindo nisso com as normas ortogr\u00e1ficas oficiais, contestadas por muitos, uma vez que varia o uso dos escritores a esse respeito. 17 Letras. \u2013 Na sua vis\u00e3o human\u00edstica, devia Rui achar insepar\u00e1vel do cabal estudo do Direito o pleno dom\u00ednio da l\u00edngua. Da\u00ed falar em \u201cpadrinho em Letras\u201d, e n\u00e3o \u201cem Ci\u00eancias Jur\u00eddicas e Sociais\u201d. \u2013 Lembrem-se, a prop\u00f3sito, estes dizeres de San Tiago Dantas: \u201cA l\u00edngua est\u00e1 para o advogado assim como o desenho para o arquiteto.\u201d 18 surde (do v. surdir): resulta, prov\u00e9m.<\/p>\n<p>que, h\u00e1 dez lustros, lhe vibra entre os dedos, lidando pelo direito, quando a consci\u00eancia lhe mandou que despisse as modestas armas da sua luta, provadamente in\u00fatil, pela grandeza da p\u00e1tria e suas li- berdades, no parlamento.<\/p>\n<p>Essa remo\u00e7\u00e3o da metade total de um s\u00e9culo de vida laboriosa para o desentulho do tempo n\u00e3o se podia consumar sem abalo sen- s\u00edvel numa exist\u00eancia repentinamente decepada. Mas a como\u00e7\u00e3o foi salutar; porque o esp\u00edrito encontrou logo seu equil\u00edbrio na convic- \u00e7\u00e3o de que, afinal, chegava eu a conhecer a mim mesmo, reconhe- cendo a escassez de minhas reservas de energia, para acomodar o ambiente da \u00e9poca \u00e0s minhas id\u00e9ias de reconcilia\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica na- cional com o reg\u00edmen19 republicano.<\/p>\n<p>Era presun\u00e7\u00e3o, era temeridade, era inconsci\u00eancia insistir na insana pretens\u00e3o da minha fraqueza. S\u00f3 um predestinado poderia arrostar empresa tamanha. Desde 1892 me empenhava eu em lutar com esses mares e ventos. N\u00e3o os venci. Venceram-me eles a mim. Era natural.<\/p>\n<p>Deus nos d\u00e1 sempre mais do que merecemos. J\u00e1 me n\u00e3o era pouco a gra\u00e7a (pela qual erguia as m\u00e3os ao c\u00e9u) de abrir os olhos \u00e0 realidade evidente da minha impot\u00eancia, e poder recolher as velas, navegante desenganado, antes que o naufr\u00e1gio me arrancasse das m\u00e3os a ban- deira sagrada.<\/p>\n<p>Tenho o consolo de haver dado a meu pa\u00eds tudo o que me estava ao alcance: a desambi\u00e7\u00e3o, a pureza, a sinceridade, os excessos de atividade incans\u00e1vel, com que, desde os bancos acad\u00eamicos, o servi, e o tenho servido at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Por isso me sa\u00ed da longa odiss\u00e9ia sem cr\u00e9ditos de Ulisses20. Mas, se o n\u00e3o soube imitar nas artes medran\u00e7osas de pol\u00edtico f\u00e9rtil em meios e manhas, em compensa\u00e7\u00e3o tudo envidei por inculcar ao<\/p>\n<p>19 reg\u00edmen. \u2013 Prefere sempre Rui a forma alatinada \u00e0 usual regime. 20 Ulisses, her\u00f3i do poema \u00e9pico grego Odiss\u00e9ia, de Homero, era extremamente astucioso e f\u00e9rtil em estratagemas contra os troianos, seus inimigos. A esses atributos liga-se o adjetivo medran\u00e7osas da linha seguinte (que Rui deve ter conhecido no escri- tor portugu\u00eas Ant\u00f4nio Feliciano de Castilho), aqui significando aproximadamente engenhosas, produtivas\u201d.<\/p>\n<p>povo os costumes da liberdade e \u00e0 rep\u00fablica as leis do bom governo, que prosperam21 os Estados, moralizam as sociedades, e honram as na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Preguei, demonstrei, honrei a verdade eleitoral, a verdade consti- tucional, a verdade republicana. Pobres clientes estas, entre n\u00f3s, sem armas, nem oiro, nem considera\u00e7\u00e3o, mal achavam, em uma nacio- nalidade esmorecida e indiferente, nos t\u00edtulos rotos do seu direito, com que habilitar o m\u00edsero advogado a sustentar-lhes com alma, com dignidade, com sobran\u00e7aria, as desprezadas reivindica\u00e7\u00f5es. As tr\u00eas verdades n\u00e3o podiam alcan\u00e7ar melhor senten\u00e7a no tribunal da corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do que o Deus vivo no de Pilatos.<\/p>\n<p>Quem por uma causa destas combateu, abra\u00e7ado com ela, em vinte e oito anos da sua Via Dolorosa, n\u00e3o se pode ter habituado a maldizer, sen\u00e3o a perdoar, nem a descrer, sen\u00e3o a esperar. Descrer da cegueira humana, sim; mas da Provid\u00eancia, fatal nas suas solu\u00e7\u00f5es, bem que (ao parecer) tarda nos seus passos, isso nunca.<\/p>\n<p>Assim que22 a b\u00ean\u00e7\u00e3o do paraninfo n\u00e3o traz fel. N\u00e3o lhe encontrareis no fundo nem rancor, nem azedume, nem despeito. Os maus s\u00f3 lhe inspiram tristeza e piedade. S\u00f3 o mal \u00e9 o que o inflama em \u00f3dio. Porque o \u00f3dio ao mal \u00e9 amor do bem, e a ira contra o mal, entusiasmo divino. Vede Jesus despejando os vendilh\u00f5es do templo, ou Jesus provando a esponja amarga no G\u00f3lgota. N\u00e3o s\u00e3o o mesmo Cristo, esse ensang\u00fcentado Jesus do Calv\u00e1rio e aqueloutro, o Jesus iroso, o Jesus armado, o Jesus do l\u00e1tego inexor\u00e1vel? N\u00e3o ser\u00e3o um s\u00f3 Jesus, o que morre pelos bons, e o que a\u00e7oita os maus? O Padre Manuel Bernardes pregava, numa das suas Silvas: \u201cBem pode haver ira, sem haver pecado: Irascimini, et nolite peccare. E \u00e0s vezes poder\u00e1 haver pecado, se n\u00e3o houver ira: por- quanto a paci\u00eancia, e sil\u00eancio, fomenta23 a neglig\u00eancia dos maus, e<\/p>\n<p>21 prosperam: fazem prosperar. \u2013 V. tamb\u00e9m a nota 77. 22 Assim que: assim \u00e9 que. 23 porquanto a paci\u00eancia, e sil\u00eancio, fomenta a neglig\u00eancia dos maus. \u2013 A con- cord\u00e2ncia do verbo no singular justifica-se pelo fato de os dois termos do sujeito<\/p>\n<p>tenta a perseveran\u00e7a dos bons. Qui cum causa non irascitur, peccat (diz um padre); patientia enim irrationabilis vitia seminat, negligentiam nutrit, et non solum malos, sed etiam bonos invitat ad malum24 . Nem o irar-se nestes termos \u00e9 contra a mansid\u00e3o: porque esta virtude compreende dois25 atos: um \u00e9 reprimir a ira, quando \u00e9 desordenada; outro, excit\u00e1-la, quando conv\u00e9m. A ira se compara ao c\u00e3o, que ao ladr\u00e3o ladra, ao senhor festeja, ao h\u00f3spede nem festeja, nem ladra: e sempre faz o seu of\u00edcio. E assim quem se agasta nas ocasi\u00f5es, e contra as pessoas, que conv\u00e9m agastar-se, bem pode, com tudo isso, ser verdadeiramente manso. Qui igitur (disse o Fil\u00f3sofo) ad quae oportet, et quibus oportet, irascitur, laudatur, esseque is mansuetus potest.\u201d*26 Nem toda ira, pois, \u00e9 maldade; porque a ira, se, as mais das ve- zes, rebenta agressiva e daninha, muitas outras, oportuna e necess\u00e1- ria, constitui o espec\u00edfico da cura. Ora deriva da tenta\u00e7\u00e3o infernal, ora de inspira\u00e7\u00e3o religiosa. Comumente se acende em sentimentos desumanos e paix\u00f5es cru\u00e9is; mas n\u00e3o raro flameja do amor santo e da verdadeira caridade. Quando um braveja contra o bem, que n\u00e3o entende, ou que o contraria, \u00e9 \u00f3dio iroso, ou ira odienta. Quando verbera o esc\u00e2ndalo, a brutalidade, ou o orgulho, n\u00e3o \u00e9 agrestia rude, mas exalta\u00e7\u00e3o virtuosa; n\u00e3o \u00e9 soberba, que explode, mas indigna- \u00e7\u00e3o27 que ilumina; n\u00e3o \u00e9 raiva desa\u00e7aimada, mas corre\u00e7\u00e3o fraterna.<\/p>\n<p>(paci\u00eancia e sil\u00eancio) conterem, em conjunto, uma inter-rela\u00e7\u00e3o de causa e conse- q\u00fc\u00eancia \u2013 ressaltada pela pontua\u00e7\u00e3o \u2013, que os alia num todo em que sobressai o primeiro termo (paci\u00eancia). \u00c9 como se se dissesse: a paci\u00eancia (e conseq\u00fcente sil\u00eancio) fomenta a neglig\u00eancia dos maus. 24 \u201cQuem, tendo motivo, n\u00e3o se ira, peca; pois a paci\u00eancia irracional semeia v\u00edcios, alimenta a neglig\u00eancia e excita ao mal n\u00e3o apenas os maus, sen\u00e3o os bons.\u201d 25 dois. \u2013 V. nota 2. * Luz e Calor, 1\u00aa ed., 1696. P\u00e1gs. 271-272, \u00a7 XVIII. 26 \u201cLouva-se, pois, aquele que se ira com o que \u00e9 oportuno, e com quem \u00e9 opor- tuno; esse pode manter-se em mansid\u00e3o.\u201d 27 indigna\u00e7\u00e3o que ilumina. \u2013 Eis uma das rar\u00edssimas passagens em que n\u00e3o se<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o somente n\u00e3o peca o que se irar, mas pecar\u00e1, n\u00e3o se irando.<\/p>\n<p>C\u00f3lera ser\u00e1; mas c\u00f3lera da mansuetude, c\u00f3lera da justi\u00e7a, c\u00f3lera que reflete a de Deus, face tamb\u00e9m celeste do amor, da miseric\u00f3rdia e da santidade.<\/p>\n<p>Dela esfuzilam centelhas, em que se abrasa, por vezes, o ap\u00f3sto- lo, o sacerdote, o pai, o amigo, o orador, o magistrado. Essas fa\u00falhas da subst\u00e2ncia divina atravessam o p\u00falpito, a c\u00e1tedra, a tribuna, o rostro28, a imprensa, quando se debatem, ante o pa\u00eds, ou o mundo, as grandes causas humanas, as grandes causas nacionais, as grandes causas populares, as grandes causas sociais, as grandes causas da consci\u00eancia religiosa. Ent\u00e3o a palavra se eletriza, brame, lampeja, atroa, fulmina. Descargas sobre descargas rasgam o ar, incendeiam o horizonte, cruzam em raios o espa\u00e7o. \u00c9 a hora das responsabilida- des, a hora da conta e do castigo, a hora das ap\u00f3strofes, impreca\u00e7\u00f5es e an\u00e1temas, quando a voz do homem reboa como o canh\u00e3o, a arena dos combates da eloq\u00fc\u00eancia estremece como campo de batalha, e as sidera\u00e7\u00f5es da verdade, que estala sobre as cabe\u00e7as dos culpados, revolvem o ch\u00e3o, coberto de v\u00edtimas e destro\u00e7os incruentos, com abalos de terremoto. Ei-la a\u00ed a c\u00f3lera santa! Eis a ira divina! Quem, sen\u00e3o ela, h\u00e1 de expulsar do templo o renegado, o blasfe- mo, o profanador, o simon\u00edaco? quem, sen\u00e3o ela, exterminar da ci- \u00eancia o apedeuta, o plagi\u00e1rio, o charlat\u00e3o? quem, sen\u00e3o ela, banir da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? quem, sen\u00e3o ela, varrer dos servi\u00e7os do Estado o prevaricador, o concussion\u00e1rio e o ladr\u00e3o p\u00fablico? quem, sen\u00e3o ela, precipitar do governo o negocismo, a pros- titui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ou a tirania? quem, sen\u00e3o ela, arrancar a defesa da<\/p>\n<p>encontra em Rui a ora\u00e7\u00e3o adjetiva, mesmo restritiva, separada por v\u00edrgula do subs- tantivo antecedente \u2013 cacoete muito caracter\u00edstico do Mestre (V. nota 30). Isto se deve, sem d\u00favida, \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o que fez, no manuscrito, riscando o adjetivo virtuosa e sobrepondo-lhe a ora\u00e7\u00e3o que ilumina. \u2013 A reprodu\u00e7\u00e3o fac-similar da p\u00e1gina 24 do manuscrito (na p\u00e1g.7 desta edi\u00e7\u00e3o) esclarece bem o fato. V. tamb\u00e9m as notas 30 e 31. 28 rostro: tribuna adornada com proas de navios, onde os oradores romanos discursavam.<\/p>\n<p>p\u00e1tria \u00e0 cobardia, \u00e0 inconfid\u00eancia, ou \u00e0 trai\u00e7\u00e3o? Quem, sen\u00e3o ela, ela a c\u00f3lera do celeste inimigo dos vendilh\u00f5es e dos hip\u00f3critas? a c\u00f3lera do justo, crucifixo entre ladr\u00f5es? a c\u00f3lera do Verbo da verda- de, negado pelo poder da mentira? a c\u00f3lera da santidade suprema, justi\u00e7ada pela mais sacr\u00edlega das opress\u00f5es?29 Todos os que nos dessedentamos nessa fonte, os que nos sacia- mos desse p\u00e3o, os que adoramos esse ideal, nela vamos buscar a chama incorrupt\u00edvel. \u00c9 dela que, ao espet\u00e1culo \u00edmpio do mal tripudiante sobre os reveses do bem, rebenta em labaredas a indig- na\u00e7\u00e3o, golfa a c\u00f3lera em borbot\u00f5es das fr\u00e1guas da consci\u00eancia, e a palavra sai, rechinando, esbraseando, chispando como o metal can- dente dos seios da fornalha.<\/p>\n<p>Esse metal nobre, por\u00e9m, na incandesc\u00eancia da sua ebuli\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixa esc\u00f3ria. Pode crestar os l\u00e1bios, que30 atravessa. Poder\u00e1 infla- mar por momentos o irritado cora\u00e7\u00e3o, de onde30 jorra. Mas n\u00e3o o degenera, n\u00e3o o macula, n\u00e3o o resseca, n\u00e3o o caleja, n\u00e3o o endurece; e, no fundo s\u00e3o da urna31 onde tumultuam essas procelas, e donde<\/p>\n<p>29 Todo este par\u00e1grafo \u00e9 exemplo vivo dos procedimentos ret\u00f3ricos utilizados por Rui Barbosa, especialmente no campo da REITERA\u00c7\u00c3O, tendo em vista obter sobre os ouvintes efeito imediato: a INTERROGA\u00c7\u00c3O RET\u00d3RICA \u2013 puramente afetiva, e da qual n\u00e3o se espera resposta; a AN\u00c1FORA \u2013 repeti\u00e7\u00e3o de termos no in\u00edcio de cada ora\u00e7\u00e3o; a GRADA\u00c7\u00c3O ou CL\u00cdMAX \u2013 repeti\u00e7\u00e3o ampliada de termos de significado cada vez mais intenso; a REITERA\u00c7\u00c3O da id\u00e9ia contida na palavra motivadora \u2013 ira \u2013, seja por meio de um sin\u00f4nimo (c\u00f3lera), seja do pronome substitu- to (ela); enfim a ANT\u00cdTESE (justo \u2013 ladr\u00f5es, verdade \u2013 mentira, santidade suprema \u2013 a mais sacr\u00edlega das opress\u00f5es). \u00c9 de imaginar o impacto de tais recursos \u2013 constantes na obra orat\u00f3ria de Rui \u2013 sobre o jovem audit\u00f3rio. \u2013 Observe-se ainda o emprego de min\u00fasculas em seguida aos pontos-de-interroga\u00e7\u00e3o que separam as v\u00e1rias frases com- ponentes dos dois blocos em que se divide o par\u00e1grafo. (V. tamb\u00e9m a nota 12.) 30 l\u00e1bios, que atravessa; cora\u00e7\u00e3o, de onde jorra \u2013 Na \u00faltima fase de sua produ\u00e7\u00e3o escrita, Rui Barbosa, quase invariavelmente, separa por v\u00edrgula do substantivo ante- cedente o pronome relativo que o segue, se bem que a norma (j\u00e1 ent\u00e3o seguida em geral) seja somente us\u00e1-la quando se trate de ora\u00e7\u00e3o adjetiva explicativa. 31 urna onde tumultuam. \u2013 V. nota 27.<\/p>\n<p>borbotam essas erup\u00e7\u00f5es, n\u00e3o assenta um rancor, uma inimizade, uma vingan\u00e7a. As rea\u00e7\u00f5es da luta cessam, e fica, de envolta com o aborrecimento ao mal, o relevamento dos males padecidos.<\/p>\n<p>Nest\u2019alma32, tantas vezes ferida e traspassada tantas vezes, nem de agress\u00f5es, nem de infama\u00e7\u00f5es, nem de preteri\u00e7\u00f5es, nem de ingra- tid\u00f5es, nem de persegui\u00e7\u00f5es, nem de trai\u00e7\u00f5es, nem de expatria\u00e7\u00f5es perdura o menor rasto, a menor id\u00e9ia de revindicta. Deus me \u00e9 teste- munha de que tudo tenho perdoado. E, quando lhe digo, na ora\u00e7\u00e3o dominical: \u201cPerdoai-nos, Senhor, as nossas d\u00edvidas, assim como n\u00f3s perdoamos aos nossos devedores\u201d33, julgo n\u00e3o lhe estar mentindo; e a consci\u00eancia me atesta que, at\u00e9 onde alcance a imperfei\u00e7\u00e3o huma- na, tenho conseguido, e consigo todos os dias obedecer ao sublime mandamento. Assim me perdoem, tamb\u00e9m, os a quem tenho agra- vado, os com quem houver sido injusto, violento, intolerante, malig- no, ou descaridoso.<\/p>\n<p>Estou-vos abrindo o livro da minha vida. Se me n\u00e3o quiserdes aceitar como express\u00e3o fiel da realidade esta vers\u00e3o rigorosa de uma de suas p\u00e1ginas, com que mais me consolo, recebei-a, ao menos, como ato de f\u00e9, ou como conselho de pai a filhos, quando n\u00e3o como o testamento de uma carreira, que poder\u00e1 ter discrepado, muitas vezes, do bem, mas sempre o evangelizou com entusiasmo, o procu- rou com fervor, e o adorou com sinceridade.<\/p>\n<p>Desde que o tempo come\u00e7ou, lento lento, a me decantar o esp\u00edri- to do sedimento das paix\u00f5es, com que o verdor dos anos e o amargor das lutas o enturbavam, entrando eu a considerar com filosofia nas leis da natureza humana, fui sentindo quanto esta necessita da con- tradi\u00e7\u00e3o, como a lima dos sofrimentos a melhora, a que ponto o acerbo das prova\u00e7\u00f5es a expurga, a tempera, a nobilita, a regenera.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vim a perceber vivamente que imensa d\u00edvida cada criatura da<\/p>\n<p>32 Nest\u2019alma. \u2013 V. nota 7. 33 Assim era enunciado este trecho do tradicional \u201cPadre-Nosso\u201d, hoje \u201cPai- Nosso\u201d(\u201cPerdoai-nos as nossas ofensas, assim como n\u00f3s perdoamos a quem nos tem ofendido.\u201d).<\/p>\n<p>nossa esp\u00e9cie deve aos seus inimigos e desfortunas. Por mais desagrestes34 que sejam os contratempos da sorte e as maldades dos homens, raro nos causam mal tamanho, que nos n\u00e3o fa\u00e7am ainda maior bem. Ai de n\u00f3s, se esta purifica\u00e7\u00e3o gradual, que nos deparam as vicissitudes cru\u00e9is da exist\u00eancia, n\u00e3o encontrasse a colabora\u00e7\u00e3o providencial da fortuna35 adversa e dos nossos desafetos. Ningu\u00e9m mete em conta o servi\u00e7o cont\u00ednuo, de que lhes est\u00e1 em obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dir\u00edeis, at\u00e9, que, mandando-nos amar aos nossos inimigos, em boa parte nos quis o divino legislador entremostrar o muito, de que eles nos s\u00e3o credores. A caridade com os que nos malquerem, e os que nos malfazem, n\u00e3o \u00e9, em bem larga escala, sen\u00e3o pago dos bene- f\u00edcios, que, mal a seu grado, mas muito deveras, eles nos granjeiam.<\/p>\n<p>Destarte, n\u00e3o equivocaremos a apar\u00eancia com a realidade, se, nos dissabores que malquerentes e malfazentes nos propinam, discernirmos a quota de lucro, com que eles, n\u00e3o levando em tal o sentido, quase sempre nos favorecem. Quanto \u00e9 pela minha parte, o melhor do que sou, bem assim o melhor do que me acontece, freq\u00fcentemente acaba o tempo convencendo-me de que n\u00e3o me vem das do\u00e7uras da fortuna prop\u00edcia, ou da verdadeira amizade, sen\u00e3o sim que o devo, principalmente, \u00e0s maquina\u00e7\u00f5es dos mal\u00e9volos e \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es da sorte madrasta. Que seria, hoje, de mim, se o veto dos meus advers\u00e1rios, sistem\u00e1tico e pertinaz, me n\u00e3o houvesse pou- pado aos tremendos riscos dessas alturas, \u201calturas de Satan\u00e1s\u201d, como as de que fala o Apocalipse, em que tantos se t\u00eam perdido, mas a que tantas vezes me tem tentado exal\u00e7ar o voto dos meus amigos? Ami- gos e inimigos est\u00e3o, ami\u00fade, em posi\u00e7\u00f5es trocadas. Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos trazem o mal.<\/p>\n<p>N\u00e3o poucas vezes, pois, raz\u00e3o \u00e9 lastimar o zelo dos amigos, e agradecer a malevol\u00eancia dos opositores. Estes nos salvam, quando<\/p>\n<p>34 desagrestes: muito agrestes. \u2013 O prefixo des- \u00e9 aqui intensivo, e n\u00e3o negativo. Cf. nota 39. 35 fortuna: sorte, destino.<\/p>\n<p>aqueles nos extraviam. De sorte que, no perdoar aos inimigos, mui- ta vez n\u00e3o vai somente caridade crist\u00e3, sen\u00e3o tamb\u00e9m justi\u00e7a ordin\u00e1- ria e reconhecimento humano. E, ainda quando, aos olhos do mun- do, como aos do nosso ju\u00edzo descaminhado, tenham logrado a nossa desgra\u00e7a, bem pode ser que, aos olhos da filosofia, aos da cren\u00e7a e aos da verdade suprema, n\u00e3o nos hajam contribu\u00eddo sen\u00e3o para a felicidade.<\/p>\n<p>Este, senhores, ser\u00e1 um saber vulgar, um saber rasteiro,<\/p>\n<p><b>\u201cum saber s\u00f3 d\u2019experi\u00eancias feito\u201d.36<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o saber da ci\u00eancia, que se libra acima das nuvens, e alteia o v\u00f4o soberbo, al\u00e9m das regi\u00f5es siderais, at\u00e9 aos p\u00e1ramos indevass\u00e1veis do infinito. Mas, ainda assim, este saber f\u00e1cil mereceu a Cam\u00f5es o ter a sua legenda insculpida em versos imortais; quanto mais a n\u00f3s outros, \u201cbichos da terra t\u00e3o pequenos\u201d37, a ninharia de ocupar diva- ga\u00e7\u00f5es, como estas, de um dia, folhas de \u00e1rvore morta, que, talvez, n\u00e3o vinguem ao de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Da ci\u00eancia estamos aqui numa catedral. N\u00e3o cabia em um velho catec\u00fameno vir ensinar a religi\u00e3o aos seus bispos e pont\u00edfices, nem aos que agora nela recebem as ordens do seu sacerd\u00f3cio. E hoje \u00e9 f\u00e9ria, ensejo para tr\u00e9guas ao trabalho ordin\u00e1rio, quase dia santo.<\/p>\n<p>Labutastes a semana toda, o vosso curso de cinco anos, com teorias, hip\u00f3teses e sistemas, com princ\u00edpios, teses e demonstra\u00e7\u00f5es, com leis, c\u00f3digos e jurisprud\u00eancias, com expositores, int\u00e9rpretes e escolas.<\/p>\n<p>Chegou o momento de vos assentardes, m\u00e3o por m\u00e3o38, com os vos- sos sentimentos, de vos pordes \u00e0 fala com a vossa consci\u00eancia, de praticardes familiarmente com os vossos afetos, esperan\u00e7as e prop\u00f3- sitos.<\/p>\n<p>36 Cam\u00f5es, Os Lus\u00edadas, IV, 94. 37 Cf. o \u00faltimo verso do canto I de Os Lus\u00edadas: \u201cContra um bicho da terra t\u00e3o pequeno.\u201d 38 m\u00e3o por m\u00e3o: intimamente, a s\u00f3s.<\/p>\n<p>Eis ao que vem o padrinho, o velho, o abendi\u00e7oador, carregado de anos e tradi\u00e7\u00f5es, versado nas longas li\u00e7\u00f5es do tempo, mestre de humildade, arrependimento e desconfian\u00e7a, nulo entre os grandes da intelig\u00eancia, grande entre os experimentados na fraqueza huma- na. Que se feche, pois, alguns momentos o livro da ci\u00eancia; e folhe- emos juntos o da experi\u00eancia. Desaliviemo-nos39 do saber humano, carga formid\u00e1vel, e voltemo-nos uma hora para este outro, leve, comezinho, desalinhado, convers\u00e1vel, seguro, sem altitudes, nem despenhadeiros.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m, senhores meus, que empreenda uma jornada extraor- din\u00e1ria, primeiro que meta o p\u00e9 na estrada se esquecer\u00e1 de entrar em conta com as suas for\u00e7as, por saber se a levar\u00e3o ao cabo. Mas, na grande viagem, na viagem de tr\u00e2nsito deste a outro mundo, n\u00e3o h\u00e1 \u201cpossa, ou n\u00e3o possa\u201d, n\u00e3o h\u00e1 querer, ou n\u00e3o querer. A vida n\u00e3o tem mais que duas portas: uma de entrar, pelo nascimento; outra de sair, pela morte. Ningu\u00e9m, cabendo-lhe a vez, se poder\u00e1 furtar \u00e0 entrada. Ningu\u00e9m, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se conseguir\u00e1 evadir \u00e0 sa\u00edda. E, de um ao outro extremo, vai o cami- nho, longo, ou breve, ningu\u00e9m o sabe, entre cujos termos fatais se debate o homem, pesaroso de que entrasse, receioso40 da hora em que saia, cativo de um e outro mist\u00e9rio, que lhe confinam a passa- gem terrestre.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada mais tr\u00e1gico do que a fatalidade inexor\u00e1vel deste destino, cuja rapidez ainda lhe agrava a severidade.<\/p>\n<p>Em t\u00e3o breve trajeto cada um h\u00e1 de acabar a sua tarefa. Com que elementos? Com os que herdou, e os que cria. Aqueles s\u00e3o a parte da natureza. Estes, a do trabalho.<\/p>\n<p>39 Desaliviemo-nos. \u2013 O prefixo des- \u00e9 aqui intensivo: aliviemo-nos totalmente. Cf. nota 34. 40 Receioso. \u2013 Nas primeiras d\u00e9cadas deste s\u00e9culo ainda era comum a escrita do ditongo ei \u00e1tono em voc\u00e1bulos como receioso, freiar, passeiando (hoje escritos receo- so, frear, passeando). Conservamos a escrita com ditongo, pois deve representar a pron\u00fancia da \u00e9poca.<\/p>\n<p>A parte da natureza varia ao infinito. N\u00e3o h\u00e1, no universo, duas coisas41 iguais. Muitas se parecem umas \u00e0s outras. Mas todas entre si diversificam. Os ramos de uma s\u00f3 \u00e1rvore, as folhas da mesma planta, os tra\u00e7os da polpa de um dedo humano, as gotas do mesmo fluido, os argueiros do mesmo p\u00f3, as raias do espectro de um s\u00f3 raio solar ou estelar. Tudo assim, desde os astros no c\u00e9u, at\u00e9 os micr\u00f3bios no sangue, desde as nebulosas no espa\u00e7o, at\u00e9 aos alj\u00f4fares do rocio na relva dos prados.<\/p>\n<p>A regra da igualdade n\u00e3o consiste sen\u00e3o em quinhoar desigual- mente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desi- gualdade social, proporcionada \u00e0 desigualdade natural, \u00e9 que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais s\u00e3o desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a desi- guais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e n\u00e3o igualdade real. Os apetites humanos conceberam inverter a norma universal da cria\u00e7\u00e3o, pretendendo, n\u00e3o dar a cada um, na raz\u00e3o do que vale, mas atribuir o mesmo a todos, como se todos se equivalessem.<\/p>\n<p>Esta blasf\u00eamia contra a raz\u00e3o e a f\u00e9, contra a civiliza\u00e7\u00e3o e a hu- manidade, \u00e9 a filosofia da mis\u00e9ria, proclamada em nome dos direi- tos do trabalho; e, executada, n\u00e3o faria sen\u00e3o inaugurar, em vez da supremacia do trabalho, a organiza\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Mas, se a sociedade n\u00e3o pode igualar os que a natureza criou desiguais, cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as desigualdades nativas, pela educa\u00e7\u00e3o, atividade e perseve- ran\u00e7a. Tal a miss\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Os portentos, de que esta for\u00e7a \u00e9 capaz, ningu\u00e9m os calcula. Suas vit\u00f3rias na reconstitui\u00e7\u00e3o da criatura maldotada s\u00f3 se comparam \u00e0s da ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora\u00e7\u00e3o e trabalho s\u00e3o os recursos mais poderosos na cria\u00e7\u00e3o moral do homem. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00edntimo sublimar-se d\u2019alma pelo contacto com Deus. O trabalho \u00e9 o inteirar, o desenvolver, o apurar<\/p>\n<p>41 coisas. \u2013 V. nota 2.<\/p>\n<p>das energias do corpo e do esp\u00edrito, mediante a a\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de cada um sobre si mesmo e sobre o mundo onde labutamos.<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo que trabalha, acerca-se continuamente do autor de todas as coisas, tomando na sua obra uma parte, de que depende tamb\u00e9m a dele. O criador come\u00e7a, e a criatura acaba a cria\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Quem quer, pois, que trabalhe, est\u00e1 em ora\u00e7\u00e3o ao Senhor. Ora- \u00e7\u00e3o pelos atos, ela emparelha com a ora\u00e7\u00e3o pelo culto. Nem pode ser que uma ande verdadeiramente sem a outra. N\u00e3o \u00e9 trabalho dig- no de tal nome o do mau; porque a mal\u00edcia do trabalhador o conta- mina. N\u00e3o \u00e9 ora\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel a do ocioso; porque a ociosidade a dessagra. Mas, quando o trabalho se junta \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, e a ora\u00e7\u00e3o com o trabalho, a segunda cria\u00e7\u00e3o do homem, a cria\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, semelha \u00e0s vezes, em maravilhas, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do homem pelo divino Criador.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m desanime, pois, de que o ber\u00e7o lhe n\u00e3o fosse generoso, ningu\u00e9m se creia malfadado, por lhe minguarem de nascen\u00e7a have- res e qualidades. Em tudo isso n\u00e3o h\u00e1 surpresas, que se n\u00e3o possam esperar da tenacidade e santidade no trabalho. Quem n\u00e3o conhece a hist\u00f3ria do P.e Su\u00e1rez, o autor do tratado Das Leis e de Deus Legis- lador, De Legibus ac Deo Legislatore, monumento jur\u00eddico, a que os trezentos anos de sua idade ainda n\u00e3o gastaram o conceito de honra das letras castelhanas? De cinq\u00fcenta aspirantes, que, em 1564, soli- citavam, em Salamanca, ingresso \u00e0 Companhia de Jesus, esse foi o \u00fanico rejeitado, por curto de entendimento e revesso ao ensino. Ad- mitido, todavia, a insist\u00eancias suas, com a nota de \u201cindiferente\u201d, embora primasse entre os mais aplicados, tudo lhe eram, no estudo, espessas trevas. N\u00e3o avan\u00e7ava um passo. Afinal, por consenso de todos, passava por invenc\u00edvel a sua incapacidade. Confessou-a, por fim, ele mesmo, requerendo ao reitor, o c\u00e9lebre P.e Mart\u00edn Guti\u00e9rrez, que o escusasse da vida escolar, e o entregasse aos misteres corporais de irm\u00e3o coadjutor. Guti\u00e9rrez animou-o a orar, persistir, e esperar.<\/p>\n<p>De repente se lhe alagou de claridade a intelig\u00eancia. Mergulhou-se, ent\u00e3o, cada vez mais no estudo; e da\u00ed, com estupenda mudan\u00e7a, co- me\u00e7a a deixar ver o a que era destinada aquela extraordin\u00e1ria cabe- \u00e7a, at\u00e9 esse tempo submersa em densa escuridade.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 mestre insigne, j\u00e1 encarna todo o saber da renascen\u00e7a teol\u00f3- gica, em que brilham as letras de Espanha42. Sucessivamente ilustra as cadeiras de Filosofia, Teologia e C\u00e2nones nas mais famosas uni- versidades europ\u00e9ias: em Seg\u00f3via, em Valhadolid, em Roma, em Alcal\u00e1, em Salamanca, em \u00c1vila, em Coimbra. Nos seus setenta anos de vida, professa as Ci\u00eancias Teol\u00f3gicas durante quarenta e sete, escreve cerca de duzentos volumes, e morre comparado com Santo Agostinho e S. Tom\u00e1s, abaixo de quem houve quem o consi- derasse \u201co maior engenho, que tem tido a igreja\u201d *; sendo tal a sua nomeada, ainda entre os protestantes, que deste jesu\u00edta, como te\u00f3- logo e fil\u00f3sofo, chegou a dizer Gr\u00f3cio que \u201capenas havia quem o igualasse\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 vedes que ao trabalho nada \u00e9 imposs\u00edvel. Dele n\u00e3o h\u00e1 extre- mos, que n\u00e3o sejam de esperar. Com ele nada pode haver, de que desesperar.<\/p>\n<p>Mas, do s\u00e9culo XVI ao s\u00e9culo XX, o que as ci\u00eancias cresceram, \u00e9 incomensur\u00e1vel. Entre o curr\u00edculo da Teologia e Filosofia, no pri- meiro, e o programa de um curso jur\u00eddico, no segundo, a dist\u00e2ncia \u00e9 infinita. Sobre os mestres, os s\u00e1bios e os estudantes de agora pesam montanhas e montanhas mais de quest\u00f5es, problemas e estudos que quantos, h\u00e1 tr\u00eas ou quatro s\u00e9culos, se abrangiam no saber humano.<\/p>\n<p>O trabalho, pois, vos h\u00e1 de bater \u00e0 porta dia e noite; e nunca vos negueis \u00e0s suas visitas, se quereis honrar vossa voca\u00e7\u00e3o, e estais dis- postos a cavar nos veios de vossa natureza, at\u00e9 dardes com os tesoiros43, que a\u00ed vos haja reservado, com \u00e2nimo benigno, a dadivo-<\/p>\n<p>42 de Espanha. \u2013 Rui, seguindo os cl\u00e1ssicos da l\u00edngua, dispensa o artigo antes do nome de pa\u00edses e regi\u00f5es familiarmente ligados a Portugal, como Espanha, Fran\u00e7a, Inglaterra, \u00c1frica. Lembrem-se as suas Cartas de Inglaterra. * P.e Francisco Su\u00e1rez: Tratado de las Leyes y de Dios Legislador. Ed. de Madrid, 1918. Tomo I, p\u00e1g. XXXVII. 43 tesoiros. \u2013 V. nota 2.<\/p>\n<p>sa Provid\u00eancia. Ouvistes o aldrabar da m\u00e3o oculta, que vos chama ao estudo? Abri, abri, sem deten\u00e7a. Nem, por vir muito cedo, lho leveis a mal, lho44 tenhais \u00e0 conta de importuna. Quanto mais matu- tinas essas interrup\u00e7\u00f5es do vosso dormir, mais lhas deveis agradecer.<\/p>\n<p>O amanhecer do trabalho h\u00e1 de antecipar-se ao amanhecer do dia. N\u00e3o vos fieis muito de quem esperta j\u00e1 sol nascente, ou sol nado. Curtos se fizeram os dias, para que n\u00f3s os dobr\u00e1ssemos, ma- drugando. Experimentai, e vereis quanto vai do deitar tarde ao acor- dar cedo. Sobre a noite o c\u00e9rebro pende ao sono. Antemanh\u00e3, tende a despertar.<\/p>\n<p>N\u00e3o invertais a economia do nosso organismo: n\u00e3o troqueis a noite pelo dia, dedicando este \u00e0 cama, e aquela \u00e0s distra\u00e7\u00f5es. O que se esperdi\u00e7a para o trabalho com as noitadas in\u00fateis, n\u00e3o se lhe reco- bra com as manh\u00e3s de extempor\u00e2neo dormir, ou as tardes de cansa- do labutar. A ci\u00eancia, zelosa do escasso tempo que nos deixa a vida, n\u00e3o d\u00e1 lugar aos tresnoites libertinos. Nem a cabe\u00e7a j\u00e1 exausta, ou estafada nos prazeres, tem onde caiba o inquirir, o revolver, o medi- tar do estudo.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios estudiosos desacertam, quando, iludidos por um h\u00e1bito de invers\u00e3o, antep\u00f5em o trabalho, que entra pela noite, ao que precede o dia. A natureza nos est\u00e1 mostrando com exemplos a verdade. Toda ela, nos viventes, ao anoitecer, inclina para o sono. A esta li\u00e7\u00e3o geral s\u00f3 abrem triste exce\u00e7\u00e3o os animais sinistros e os carniceiros. Mas, quando se avizinha o volver da luz, muito antes que ela arraie a natureza, e ainda primeiro que alvore\u00e7a no firmamento, j\u00e1 rompeu na terra em c\u00e2nticos a alvorada, j\u00e1 se or- questram de harmonias e melodias campos e selvas, j\u00e1 o galo, n\u00e3o o galo triste do luar dos sert\u00f5es do nosso Catulo, mas o galo festivo<\/p>\n<p>44 lho tenhais conta de importuna. \u2013 Assim est\u00e1 no manuscrito, p\u00e1g. 50. O sentido e a reg\u00eancia exigiriam, por\u00e9m, a em vez de lho: \u201cNem, por vir muito cedo [o aldrabar da m\u00e3o oculta], lhe leveis isso a mal, nem a [a m\u00e3o oculta] tenhais conta de importuna.\u201d\u2013 A discrep\u00e2ncia se deve a uma emenda de Rui, substituindo, ap\u00f3s o segundo lho, um verbo, que riscou, por outro.<\/p>\n<p>das madrugadas, retine ao longe a estrid\u00eancia dos seus clarins, vi- brantes de jubilosa alegria.<\/p>\n<p>Ouvi, no poema de J\u00f3, a voz do Senhor, perguntando a seu servo, onde estava, quando o louvavam as estrelas da manh\u00e3: \u201cUbi eras\u2026 cum me laudarent simul astra matutina?\u201d E que t\u00eam mais as estrelas da manh\u00e3, dizia um grande escritor nosso45 , \u201cque t\u00eam mais as estre- las da manh\u00e3, que as da tarde, ou as da noite, para fazer Deus mais caso do louvor de umas que das outras? n\u00e3o \u00e9 ele o Senhor do tem- po, que deve ser louvado a todo o tempo, n\u00e3o s\u00f3 da luz, sen\u00e3o tam- b\u00e9m das trevas? Assim \u00e9: por\u00e9m as estrelas da manh\u00e3 t\u00eam esta van- tagem que madrugam, antecipam-se, e despertam aos outros, que se levantem a servir a Deus. Pois disto \u00e9 que Deus se honra, e agrada, em presen\u00e7a de J\u00f3.\u201d* Tomai exemplo, estudantes e doutores, tomai exemplo das estre- las da manh\u00e3, e gozareis das mesmas vantagens: n\u00e3o s\u00f3 a de levantardes mais cedo a Deus a ora\u00e7\u00e3o do trabalho, mas a de antecederdes aos demais, logrando mais para v\u00f3s mesmos, e estimu- lando os outros a que vos rivalizem no ganho bendito.<\/p>\n<p>H\u00e1 estudar, e estudar. H\u00e1 trabalhar, e trabalhar. Desde que o mundo \u00e9 mundo, se vem dizendo que o homem nasce para o traba- lho: \u201cHomo nascitur ad laborem.\u201d** Mas o trabalhar \u00e9 como o se- mear, onde tudo vai muito das saz\u00f5es, dos dias e das horas. O c\u00e9re- bro, cansado e seco do laborar diurno, n\u00e3o acolhe bem a semente: n\u00e3o a recebe fresco e de bom grado, como a terra orvalhada. Nem a colheita acode t\u00e3o suave \u00e0s m\u00e3os do lavrador, quando o torr\u00e3o j\u00e1 lhe n\u00e3o est\u00e1 sorrindo entre o sereno da noite e os alvores do dia.<\/p>\n<p>Assim, todos sabem que para trabalhar nascemos. Mas muitos somos os que ignoramos certas condi\u00e7\u00f5es, talvez as mais elementa- res, do trabalho, ou, pelo menos, mui poucos os que as praticamos.<\/p>\n<p>45 escritor nosso: quer dizer, de nossa l\u00edngua, como o cl\u00e1ssico portugu\u00eas Padre Manuel Bernardes. * Padre M. Bernardes: Serm\u00f5es e Pr\u00e1ticas, 1.\u00aa ed., de 1762. Parte I, p\u00e1g. 297. ** J\u00f3, V, 7.<\/p>\n<p>Quantos ser\u00e3o os que acreditam que os melhores trabalhadores se- jam os melhores madrugadores? que os mais estudiosos n\u00e3o sejam os que oferecem ao estudo os sobejos do dia, mas os que o honram com as prim\u00edcias da manh\u00e3? Dir\u00e3o que tais trivialidades, cedi\u00e7as e corriqueiras, n\u00e3o s\u00e3o para contempladas46 num discurso acad\u00eamico, nem para escutadas entre doutores, lentes e s\u00e1bios. Cada um se av\u00e9m como entende, e faz o que pode. Mas eu, nisto aqui, fa\u00e7o ainda o que devo. Porque, vindo pregar-vos experi\u00eancia, cumpria que relevasse mais a que mais so- bressai na minha estirada carreira de estudante.<\/p>\n<p>Estudante sou. Nada mais. Mau sabedor, fraco jurista, mesqui- nho advogado, pouco mais sei do que saber estudar, saber como se estuda, e saber que tenho estudado. Nem isso mesmo sei se saberei bem. Mas, do que tenho logrado saber, o melhor devo \u00e0s manh\u00e3s e madrugadas. Muitas lendas se t\u00eam inventado, por a\u00ed, sobre excessos da minha vida laboriosa. Deram, nos meus progressos intelectuais, larga parte ao uso em abuso do caf\u00e9 e ao est\u00edmulo habitual dos p\u00e9s mergulhados n\u2019\u00e1gua47 fria. Contos de imaginadores. Refrat\u00e1rio sou ao caf\u00e9. Nunca recorri a ele como a estimulante cerebral. Nem uma s\u00f3 vez na minha vida busquei num pedil\u00favio o espantalho do sono.<\/p>\n<p>Ao que devo, sim, o mais dos frutos do meu trabalho, a relativa exabund\u00e2ncia da sua fertilidade, a parte produtiva e dur\u00e1vel da sua safra, \u00e9 \u00e0s minhas madrugadas. Menino ainda, assim que entrei ao<\/p>\n<p>46 n\u00e3o s\u00e3o para contempladas: para serem contempladas; para escutadas: para serem escutadas. Elipse usual do verbo auxiliar ser na linguagem cl\u00e1ssica. Cf. Cam\u00f5es, Os Lus\u00edadas, X, 152:<\/p>\n<p>\u201cFazei, Senhor, que nunca os admirados Alem\u00e3es, Galos, \u00cdtalos e Ingleses Possam dizer que s\u00e3o pera mandados, Mais que pera mandar os Portugueses.\u201d<\/p>\n<p>47 n\u2019\u00e1gua. \u2013 V. nota 7.<\/p>\n<p>col\u00e9gio48 alvidrei eu mesmo a conveni\u00eancia desse costume, e da\u00ed avante o observei, sem cessar, toda a vida. Eduquei nele o meu c\u00e9rebro, a ponto de espertar exatamente \u00e0 hora, que comigo mesmo assentara, ao dormir. Sucedia, muito ami\u00fade, encetar eu a minha solit\u00e1ria ban- ca de estudo \u00e0 uma ou \u00e0s duas da antemanh\u00e3. Muitas vezes me man- dava meu pai volver ao leito; e eu fazia apenas que lhe obedecia, tornando, logo ap\u00f3s, \u00e0quelas amadas lucubra\u00e7\u00f5es, as de que me lem- bro com saudade mais deleitosa e entranh\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tenho, ainda hoje, convic\u00e7\u00e3o de que nessa observ\u00e2ncia persisten- te est\u00e1 o segredo feliz, n\u00e3o s\u00f3 das minhas primeiras vit\u00f3rias no tra- balho, mas de quantas vantagens alcancei jamais levar aos meus con- correntes, em todo o andar dos anos, at\u00e9 \u00e0 velhice. Muito h\u00e1 que j\u00e1 n\u00e3o subtraio tanto \u00e0s horas da cama, para acrescentar \u00e0s do estudo.<\/p>\n<p>Mas o sistema ainda perdura, bem que largamente cerceado nas an- tigas imodera\u00e7\u00f5es. At\u00e9 agora, nunca o sol deu comigo deitado e, ainda hoje, um dos meus raros e modestos desvanecimentos \u00e9 o de ser grande madrugador, madrugador impenitente.<\/p>\n<p>Mas, senhores, os que madrugam no ler, conv\u00e9m madrugarem tamb\u00e9m no pensar. Vulgar \u00e9 o ler, raro o refletir. O saber n\u00e3o est\u00e1 na ci\u00eancia alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas id\u00e9ias pr\u00f3- prias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmuta\u00e7\u00e3o, por que passam, no esp\u00edrito49 que os assimila. Um sabedor n\u00e3o \u00e9 arm\u00e1rio de sabedoria armazenada, mas transforma- dor reflexivo de aquisi\u00e7\u00f5es digeridas.<\/p>\n<p>J\u00e1 se v\u00ea quanto vai do saber aparente ao saber real. O saber de apar\u00eancia cr\u00ea e ostenta saber tudo. O saber de realidade, quanto mais real, mais desconfia, assim do que vai aprendendo, como do que elabora.<\/p>\n<p>Haveis de conhecer, como eu conhe\u00e7o, pa\u00edses, onde quanto me- nos ci\u00eancia se apurar, mais s\u00e1bios florescem. H\u00e1, sim, dessas regi\u00f5es<\/p>\n<p>48 entrei ao col\u00e9gio. \u2013 Reg\u00eancia rara, em lugar da usual entrei para o col\u00e9gio. 49 no esp\u00edrito que os assimila. \u2013 Outra das raras ocasi\u00f5es em que a ora\u00e7\u00e3o adjetiva restritiva n\u00e3o vem separada por v\u00edrgula do seu substantivo. \u2013 V. nota 27.<\/p>\n<p>por este mundo al\u00e9m. Um homem (nessas terras de promiss\u00e3o) que nunca se mostrou lido ou sabido em coisa nenhuma, tido e havido \u00e9 por corrente e moente50 no que quer que seja; porque assim o acla- mam as trombetas da pol\u00edtica, do elogio m\u00fatuo, ou dos corrilhos pessoais, e o povo subscreve a n\u00e9scia atoarda. Financeiro, adminis- trador, estadista, chefe de Estado, ou qualquer outro lugar de ingen- te situa\u00e7\u00e3o e assustadoras responsabilidades, \u00e9 a pedir de boca51 , o que se diz m\u00e3o de pronto desempenho52 , f\u00f3rmula viva a quaisquer dificuldades, chave de todos os enigmas.<\/p>\n<p>Tenham por averiguado que, onde quer que o colocarem, dar\u00e1 conta o sujeito das mais \u00e1rduas empresas e solu\u00e7\u00e3o aos mais emara- nhados problemas. Se em nada se aparelhou, est\u00e1 em tudo e para tudo aparelhado. Ningu\u00e9m vos saber\u00e1 informar por qu\u00ea. Mas todo o mundo vo-lo dar\u00e1 por l\u00edquido e certo. N\u00e3o aprendeu nada, e sabe tudo. Ler, n\u00e3o leu. Escrever, n\u00e3o escreveu. Ruminar, n\u00e3o ruminou.<\/p>\n<p>Produzir, n\u00e3o produziu. \u00c9 um improviso onisciente, o fen\u00f4meno de que poetava Dante:<\/p>\n<p>\u201cIn picciol tempo gran dottor si feo\u201d. * 53<\/p>\n<p>A esses homens-panac\u00e9ias, a esses empreiteiros de todas as em- preitadas, a esses aviadores de todas as encomendas, se escancelam os port\u00f5es da fama, do poderio, da grandeza, e, n\u00e3o contentes de lhes aplaudir entre os da terra a nulidade, ainda, quando Deus quer, a mandam expor \u00e0 admira\u00e7\u00e3o do estrangeiro.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, os que se tem por not\u00f3rio e incontest\u00e1vel excede-<\/p>\n<p>50 corrente e moente. \u2013 A express\u00e3o antiga moente e corrente, nesta ordem registrada nos dicion\u00e1rios, significa \u201cem bom estado de uso\u201d, ou ent\u00e3o \u201cmuito habitual\u201d. Aqui, invertendo os termos, Rui quer dizer, sem d\u00favida, \u201centendido, capaz, habilitado.\u201d 51 a pedir de boca: conforme se deseje, se pe\u00e7a. 52 m\u00e3o de pronto desempenho, etc.: indiv\u00edduo apto a desempenhar sua tarefa, a resolver qualquer problema. * Paradiso, XII, 85. 53 \u201cEm pouco tempo gr\u00e3o doutor se fez.\u201d<\/p>\n<p>rem o n\u00edvel da instru\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria, esses para nada servem. Por qu\u00ea? Porque \u201csabem demais\u201d. Sustenta-se a\u00ed que a compet\u00eancia reside, justamente, na incompet\u00eancia. Vai-se, at\u00e9, ao incr\u00edvel de se inculcar \u201co medo aos preparados\u201d, de hav\u00ea-los como cidad\u00e3os perigosos, e ter-se por dogma que um homem, cujos estudos passarem da craveira vulgar, n\u00e3o poderia ocupar qualquer posto mais grado no governo, em pa\u00eds de analfabetos. Se o povo \u00e9 analfabeto, s\u00f3 ignorantes esta- r\u00e3o em termos de o governar. Na\u00e7\u00e3o de analfabetos, governo de analfabetos. \u00c9 o que eles, muita vez \u00e0s esc\u00e2ncaras, e em letra redon- da, por a\u00ed dizem.<\/p>\n<p>S\u00f3crates, certo dia, numa das suas conversa\u00e7\u00f5es que o Primeiro Alcib\u00edades54 nos deixa escutar ainda hoje, dava grande li\u00e7\u00e3o de mo- d\u00e9stia ao interlocutor, dizendo-lhe, com a costumada lhaneza: \u201cA pior esp\u00e9cie de ignor\u00e2ncia \u00e9 cuidar uma pessoa saber o que n\u00e3o sabe&#8230;<\/p>\n<p>Tal, meu caro Alcib\u00edades, o teu caso. Entraste pela pol\u00edtica, antes de a teres estudado. E n\u00e3o \u00e9s tu s\u00f3 o que te vejas nessa condi\u00e7\u00e3o: \u00e9 esta mesma a da mor parte dos que se metem nos neg\u00f3cios da rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Apenas excetuo ex\u00edguo n\u00famero, e pode ser que, unicamente, a P\u00e9ricles, teu tutor; porque tem cursado os fil\u00f3sofos.\u201d Vede agora os que intentais exercitar-vos na ci\u00eancia das leis, e vir a ser seus int\u00e9rpretes, se de tal jeito \u00e9 que conceber\u00edeis sab\u00ea-las, e execut\u00e1-las. Desse jeito; isto \u00e9: como as entendiam os pol\u00edticos da Gr\u00e9cia, pintada pelo mestre de Plat\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma vez, que Alcib\u00edades discutia com P\u00e9ricles, em palestra regis- trada por Xenofonte, acertou55 de se debater o que seja lei, e quando exista, ou n\u00e3o exista.<\/p>\n<p>\u201c\u2013 Que vem a ser lei?\u201d, indaga Alcib\u00edades.<\/p>\n<p>\u201c\u2013 A express\u00e3o da vontade do povo\u201d, responde P\u00e9ricles.<\/p>\n<p>\u201c\u2013 Mas que \u00e9 o que determina esse povo? O bem ou o mal?\u201d replica-lhe o sobrinho.<\/p>\n<p>54 Nome de um di\u00e1logo de Plat\u00e3o, por interm\u00e9dio de quem, sobretudo, nos fo- ram transmitidos os ensinamentos de S\u00f3crates. 55 acertou: aconteceu.<\/p>\n<p>\u201c\u2013 Certo que o bem, mancebo.\u201d \u201c\u2013 Mas, sendo uma oligarquia quem mande, isto \u00e9, um dimi- nuto n\u00famero de homens, ser\u00e3o, ainda assim, respeit\u00e1veis as leis?\u201d \u201c\u2013 Sem d\u00favida.\u201d \u201c\u2013 Mas, se a disposi\u00e7\u00e3o vier de um tirano? Se ocorrer viol\u00ean- cia, ou ilegalidade? Se o poderoso coagir o fraco? Cumprir\u00e1, toda- via, obedecer?\u201d P\u00e9ricles hesita; mas acaba admitindo: \u201c\u2013 Creio que sim.\u201d \u201c\u2013 Mas ent\u00e3o\u201d, insiste Alcib\u00edades, \u201co tirano, que constrange os cidad\u00e3os a lhe acatarem os caprichos, n\u00e3o ser\u00e1, esse sim, o inimi- go das leis?\u201d \u201c\u2013 Sim; vejo agora que errei em chamar leis \u00e0s ordens de um tirano, costumado a mandar, sem persuadir.\u201d \u201c\u2013 Mas, quando um diminuto n\u00famero de cidad\u00e3os imp\u00f5e seus arb\u00edtrios \u00e0 multid\u00e3o, daremos, ou n\u00e3o, a isso o nome de viol\u00eancia?\u201d \u201c\u2013 Parece-me a mim\u201d, concede P\u00e9ricles, cada vez mais vaci- lante, \u201cque, em caso tal, \u00e9 de viol\u00eancia que se trata, n\u00e3o de lei.\u201d Admitido isso, j\u00e1 Alcib\u00edades triunfa: \u201c\u2013 Logo, quando a multid\u00e3o, governando, obrigar os ricos, sem consenso destes, n\u00e3o ser\u00e1, tamb\u00e9m, viol\u00eancia, e n\u00e3o lei?\u201d P\u00e9ricles n\u00e3o acha que responder; e a pr\u00f3pria raz\u00e3o n\u00e3o o acharia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 lei a lei, sen\u00e3o quando assenta no consentimento da maioria, j\u00e1 que, exigido o de todos, desiderandum56 irrealiz\u00e1vel, n\u00e3o haveria meio jamais de se chegar a uma lei.<\/p>\n<p>Ora, senhores bacharelandos, pesai bem que vos ides consagrar \u00e0 lei, num pa\u00eds onde a lei absolutamente n\u00e3o exprime o consentimento da maioria, onde s\u00e3o as minorias, as oligarquias mais acanhadas, mais impopulares e menos respeit\u00e1veis, as que p\u00f5em, e disp\u00f5em, as que mandam, e desmandam em tudo; a saber: num pa\u00eds, onde, ver-<\/p>\n<p>56 desiderandum. \u2013 Preferindo esta forma latina \u00e0 usual desideratum (j\u00e1 aportuguesada em desiderato), ter\u00e1 Rui desejado emprestar ao termo o car\u00e1ter de necessidade, contido no sufixo -nd-. Assim, desiderandum seria \u201co idealmente desej\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>dadeiramente, n\u00e3o h\u00e1 lei, n\u00e3o o h\u00e1, moral, pol\u00edtica ou juridicamente falando.<\/p>\n<p>Considerai, pois, nas dificuldades, em que se v\u00e3o enleiar57 os que professam a miss\u00e3o de sustent\u00e1culos e auxiliares da lei, seus mestres e executores.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a execu\u00e7\u00e3o corrige, ou atenua, muitas vezes, a legisla\u00e7\u00e3o de m\u00e1 nota. Mas, no Brasil, a lei se deslegitima, anula e torna inexistente, n\u00e3o s\u00f3 pela bastardia da origem, sen\u00e3o ainda pe- los horrores da aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, dizia S. Paulo que boa \u00e9 a lei, onde se executa legitimamen- te. \u201cBona est lex, si quis ea legitime utatur.\u201d* Quereria dizer: Boa \u00e9 a lei, quando executada com retid\u00e3o. Isto \u00e9: boa ser\u00e1, em havendo no executor a virtude, que no legislador n\u00e3o havia. Porque s\u00f3 a modera\u00e7\u00e3o, a inteireza e a eq\u00fcidade, no aplicar das m\u00e1s leis, as po- deriam, em certa medida, escoimar da impureza, dureza e maldade, que encerrarem. Ou, mais lisa e claramente, se bem o entendo, pre- tenderia significar o ap\u00f3stolo das gentes que mais vale a lei m\u00e1, quan- do inexecutada, ou mal executada (para o bem), que a boa lei, sofis- mada e n\u00e3o observada (contra ele).<\/p>\n<p>Que extraordin\u00e1rio, que imensur\u00e1vel, que, por assim dizer, estu- pendo e sobre-humano, logo, n\u00e3o ser\u00e1, em tais condi\u00e7\u00f5es, o papel da justi\u00e7a! Maior que o da pr\u00f3pria legisla\u00e7\u00e3o. Porque, se dignos s\u00e3o os ju\u00edzes, como parte suprema, que constituem, no executar das leis \u2013 em sendo justas, lhes manter\u00e3o eles a sua justi\u00e7a, e, injustas, lhes poder\u00e3o moderar, se n\u00e3o, at\u00e9, no seu tanto, corrigir a injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>De nada aproveitam leis, bem se sabe, n\u00e3o existindo quem as ampare contra os abusos; e o amparo sobre todos essencial \u00e9 o de uma justi\u00e7a t\u00e3o alta no seu poder, quanto na sua miss\u00e3o. \u201cA\u00ed temos as leis\u201d, dizia o Florentino. \u201cMas quem lhes h\u00e1 de ter m\u00e3o?58 Nin- gu\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>57 enleiar \u2013 V. nota 40. * S. Paulo: I Tim. I, 8. 58 Quem lhes h\u00e1 de ter m\u00e3o?: Quem garantir\u00e1 o seu cumprimento?<\/p>\n<p>\u201cLe leggi son, ma chi pon mano ad esse? Nullo\u201d*<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s n\u00e3o seria l\u00edcito responder assim t\u00e3o em absoluto \u00e0 in- terroga\u00e7\u00e3o do poeta. Na Constitui\u00e7\u00e3o brasileira, a m\u00e3o que ele n\u00e3o via na sua rep\u00fablica e em sua \u00e9poca, a m\u00e3o sustentadora das leis, a\u00ed a temos, hoje, criada, e t\u00e3o grande, que nada lhe iguala a majestade, nada lhe rivaliza o poder. Entre as leis, aqui, entre as leis ordin\u00e1rias e a lei das leis, \u00e9 a justi\u00e7a quem decide, fulminando aquelas, quando com esta colidirem.<\/p>\n<p>Soberania tamanha s\u00f3 nas federa\u00e7\u00f5es de molde norte-americano cabe ao poder judici\u00e1rio, subordinado aos outros poderes nas de- mais formas de governo, mas, nesta, superior a todos.<\/p>\n<p>Dessas democracias, pois, o eixo \u00e9 a justi\u00e7a, eixo n\u00e3o abstrato, n\u00e3o suposit\u00edcio, n\u00e3o meramente moral, mas de uma realidade pro- funda, e t\u00e3o seriamente implantado no mecanismo do reg\u00edmen, t\u00e3o praticamente embebido atrav\u00e9s de todas as suas pe\u00e7as, que, falsean- do ele ao seu mister, todo o sistema cair\u00e1 em paralisia, desordem e subvers\u00e3o. Os poderes constitucionais entrar\u00e3o em conflitos insol\u00fa- veis, as franquias constitucionais ruir\u00e3o por terra, e da organiza\u00e7\u00e3o constitucional, do seu car\u00e1ter, das suas fun\u00e7\u00f5es, das suas garantias apenas restar\u00e3o destro\u00e7os.<\/p>\n<p>Eis o de que nos h\u00e1 de preservar a justi\u00e7a brasileira, se a deixa- rem sobreviver, ainda que agredida, oscilante e malsegura, aos ou- tros elementos constitutivos da rep\u00fablica, no meio das ru\u00ednas, em que mal se conservam ligeiros tra\u00e7os da sua verdade.<\/p>\n<p>Ora, senhores, esse poder eminencialmente necess\u00e1rio, vital e sal- vador tem os dois bra\u00e7os, nos quais ag\u00fcenta a lei, em duas institui- \u00e7\u00f5es: a magistratura e a advocacia, t\u00e3o velhas como a sociedade huma- na, mas elevadas ao cem-dobro, na vida constitucional do Brasil, pela estupenda import\u00e2ncia, que o novo reg\u00edmen veio dar \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Meus amigos, \u00e9 para colaborardes em dar exist\u00eancia a essas duas institui\u00e7\u00f5es que hoje sa\u00eds daqui habilitados. Magistrados ou advoga-<\/p>\n<p>* Dante: Purgat\u00f3rio, XVI, 97-98.<\/p>\n<p>dos sereis. S\u00e3o duas carreiras quase sagradas, insepar\u00e1veis uma da outra, e, tanto uma como a outra, imensas nas dificuldades, respon- sabilidades e utilidades.<\/p>\n<p>Se cada um de v\u00f3s meter bem a m\u00e3o na consci\u00eancia, certo que tremer\u00e1 da perspectiva. O tremer pr\u00f3prio \u00e9 dos que se defrontam com as grandes voca\u00e7\u00f5es, e s\u00e3o talhados para as desempenhar. O tremer, mas n\u00e3o o descor\u00e7oar. O tremer, mas n\u00e3o o renunciar. O tremer, com o ousar. O tremer, com o empreender. O tremer, com o confiar. Confiai, senhores. Ousai. Reagi. E haveis de ser bem-sucedi- dos. Deus, p\u00e1tria e trabalho. Metei no rega\u00e7o essas tr\u00eas f\u00e9s, esses tr\u00eas amores, esses tr\u00eas signos santos. E segui, com o cora\u00e7\u00e3o puro. N\u00e3o hajais medo a que a sorte vos ludibrie. Mais pode59 que os seus aza- res a const\u00e2ncia, a coragem e a virtude.<\/p>\n<p>Idealismo? N\u00e3o: experi\u00eancia da vida. N\u00e3o h\u00e1 for\u00e7as, que mais a senhoreiem, do que essas. Experimentai-o, como eu o tenho experi- mentado. Poder\u00e1 ser que resigneis certas situa\u00e7\u00f5es, como eu as te- nho resignado. Mas meramente para variar de posto, e, em vos sen- tindo incapazes de uns, buscar outros, onde vos venha ao encontro o dever, que a Provid\u00eancia vos haja reservado.<\/p>\n<p>Encarai, jovens colegas meus, nessas60 duas estradas, que se vos patenteiam. Tomai a que vos indicarem vossos pressentimentos, gos- tos e explora\u00e7\u00f5es, no campo dessas nobres disciplinas, com que lida a ci\u00eancia das leis e a distribui\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a. Abra\u00e7ai a que vos sentirdes indicada pelo conhecimento de v\u00f3s mesmos. Mas n\u00e3o primeiro que hajais buscado na experi\u00eancia de outrem um pouco da que vos \u00e9 mister, e que ainda n\u00e3o tendes, para eleger a melhor derrota61, entre as duas que se oferecem \u00e0 carta de idoneidade, hoje obtida.<\/p>\n<p>59 Mais pode &#8230; a const\u00e2ncia, a coragem e a virtude. \u2013 Concord\u00e2ncia do verbo anteposto (pode) com o primeiro dos termos (const\u00e2ncia) do sujeito composto, con- siderados, no seu conjunto, como um todo. 60 Encarai &#8230; nessas duas estradas. \u2013 Reg\u00eancia incomum do verbo encarar, mais habitualmente transitivo direto. 61 derrota: rota.<\/p>\n<p>Pelo que me toca, escassamente avalio at\u00e9 onde, nisso, vos pode- ria eu ser \u00fatil. Muito vi em cinq\u00fcenta anos. Mas o que constitui a experi\u00eancia, consiste menos no ver, que no saber observar. Observar com clareza, com desinteresse, com sele\u00e7\u00e3o. Observar, deduzindo, induzindo, e generalizando, com pausa, com crit\u00e9rio, com desconfi- an\u00e7a. Observar, apurando, contrasteando, e guardando.<\/p>\n<p>Que esp\u00e9cie de observador seja eu, n\u00e3o vo-lo poderia dizer. Mas, seguro, ou n\u00e3o, no averiguar e discernir \u2013 de uma qualidade, ao menos, me posso abonar a mim mesmo: a de exato e consciencioso no expender e narrar.<\/p>\n<p>Como me dilataria, por\u00e9m, numa ou noutra coisa, quando t\u00e3o longamente, aqui, j\u00e1 me tenho excedido em abusar de v\u00f3s e de mim mesmo? N\u00e3o recontarei, pois, senhores, a minha experi\u00eancia, e muito menos tentarei explan\u00e1-la. Cingir-me-ei, estritamente, a falar-vos como falaria a mim pr\u00f3prio, se v\u00f3s estiv\u00e9sseis em mim, sabendo o que tenho experimentado, e eu me achasse em v\u00f3s, tendo que resol- ver essa escolha.<\/p>\n<p>Todo pai \u00e9 conselheiro natural. Todos os pais aconselham, se bem que nem todos possam jurar pelo valor dos seus conselhos. Os meus ser\u00e3o os a que me julgo obrigado, na situa\u00e7\u00e3o em que momen- taneamente estou, pelo vosso arb\u00edtrio, de pai espiritual dos meus afilhados em Letras, nesta solenidade.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00e0 magistratura que vos ides votar? Elegeis, ent\u00e3o, a mais eminente das profiss\u00f5es, a que um homem se pode entregar neste mundo. Essa eleva\u00e7\u00e3o me impressiona seria- mente; de modo que n\u00e3o sei se a como\u00e7\u00e3o me n\u00e3o atalhar\u00e1 o ju\u00edzo, ou tolher\u00e1 o discurso. Mas n\u00e3o se dir\u00e1 que, em boa vontade, fiquei aqu\u00e9m dos meus deveres.<\/p>\n<p>Ser\u00e3o, talvez, meras vulgaridades, t\u00e3o singelas, qu\u00e3o sabidas, mas onde o senso comum, a moral e o direito, associando-se \u00e0 experi\u00ean- cia, lhe62 nobilitam os ditames. Vulgaridades, que qualquer outro<\/p>\n<p>62 lhe est\u00e1 por lhes (= vulgaridades). \u00c9 emprego arcaizante, ca\u00eddo em desuso ap\u00f3s o s\u00e9c. XVII.<\/p>\n<p>orador se avantajaria em esmaltar de melhor linguagem, mas que, na ocasi\u00e3o, a mim tocam, e no meu ensoado vern\u00e1culo h\u00e3o de ser ditas. Baste, por\u00e9m, que se digam com isen\u00e7\u00e3o, com firmeza, com lealdade; e assim h\u00e3o de ser ditas, hoje, desta nobre tribuna.<\/p>\n<p>Mo\u00e7os, se vos ides medir com o direito e o crime na cadeira de ju\u00edzes, come\u00e7ai, esquadrinhando as exig\u00eancias aparentemente me- nos altas dos vossos cargos, e proponde-vos caprichar nelas com dobrado rigor; porque, para sermos fi\u00e9is no muito, o devemos ser no pouco. \u201cQui fidelis est in minimo, et in majori fidelis est; et qui in modico iniquus est, et in majori iniquus est.\u201d*63 Ponho exemplo, senhores. Nada se leva em menos conta, na ju- dicatura, a uma boa f\u00e9 de of\u00edcio que o vezo de tardan\u00e7a nos despa- chos e senten\u00e7as. Os c\u00f3digos se cansam debalde em o punir. Mas a geral habitualidade e a coniv\u00eancia geral o entret\u00eam, inocentam e universalizam. Destarte se incrementa e desmanda ele em propor- \u00e7\u00f5es incalcul\u00e1veis, chegando as causas a contar a idade por lustros, ou d\u00e9cadas, em vez de anos.<\/p>\n<p>Mas justi\u00e7a atrasada n\u00e3o \u00e9 justi\u00e7a, sen\u00e3o injusti\u00e7a qualificada e manifesta. Porque a dila\u00e7\u00e3o ilegal nas m\u00e3os do julgador contraria o direito escrito das partes, e, assim, as lesa no patrim\u00f4nio, honra e liberdade. Os ju\u00edzes tardinheiros s\u00e3o culpados, que a lassid\u00e3o co- mum vai tolerando. Mas sua culpa tresdobra com a terr\u00edvel agra- vante de que o lesado n\u00e3o tem meio de reagir contra o delinq\u00fcente poderoso, em cujas m\u00e3os jaz a sorte do lit\u00edgio pendente.<\/p>\n<p>N\u00e3o sejais, pois, desses magistrados, nas m\u00e3os de quem os autos penam como as almas do purgat\u00f3rio, ou arrastam sonos esquecidos como as pregui\u00e7as do mato.<\/p>\n<p>N\u00e3o vos pare\u00e7ais com esses outros ju\u00edzes, que, com tabuleta de escrupulosos, imaginam em risco a sua boa fama, se n\u00e3o evitarem o<\/p>\n<p>* Lucas, XVI, 10. 63 \u201cQuem \u00e9 fiel nas coisas m\u00ednimas tamb\u00e9m o \u00e9 nas maiores; e quem \u00e9 injusto nas coisas m\u00e9dias tamb\u00e9m o \u00e9 nas maiores.\u201d<\/p>\n<p>contacto dos pleiteantes, recebendo-os com m\u00e1 sombra64, em lugar de os ouvir a todos com despreven\u00e7\u00e3o, do\u00e7ura e serenidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o imiteis os que, em se lhes oferecendo o mais leve pretexto, a si mesmos p\u00f5em suspei\u00e7\u00f5es rebuscadas, para esquivar responsabili- dades, que seria do seu dever arrostar sem quebra de \u00e2nimo ou de confian\u00e7a no prest\u00edgio dos seus cargos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sigais os que argumentam com o grave das acusa\u00e7\u00f5es, para se armarem de suspeita e execra\u00e7\u00e3o contra os acusados; como se, pelo contr\u00e1rio, quanto mais odiosa a acusa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o houvesse o juiz de se precaver mais contra os acusadores, e menos perder de vista a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia, comum a todos os r\u00e9us, enquanto n\u00e3o liqui- dada a prova e reconhecido o delito.<\/p>\n<p>N\u00e3o acompanheis os que, no pret\u00f3rio, ou no j\u00fari, se convertem de julgadores em verdugos, torturando o r\u00e9u com severidades ino- portunas, descabidas, ou indecentes; como se todos os acusados n\u00e3o tivessem direito \u00e0 prote\u00e7\u00e3o dos seus ju\u00edzes, e a lei processual, em todo o mundo civilizado, n\u00e3o houvesse por sagrado o homem, sobre quem recai acusa\u00e7\u00e3o ainda inverificada.<\/p>\n<p>N\u00e3o estejais com os que agravam o rigor das leis, para se acredi- tar com o nome de austeros e ilibados. Porque n\u00e3o h\u00e1 nada menos nobre e aplaus\u00edvel que agenciar uma reputa\u00e7\u00e3o malignamente obti- da em preju\u00edzo da verdadeira intelig\u00eancia dos textos legais.<\/p>\n<p>N\u00e3o julgueis por considera\u00e7\u00f5es de pessoas, ou pelas do valor das quantias litigadas, negando as somas, que se pleiteiam, em raz\u00e3o da sua grandeza, ou escolhendo, entre as partes na lide, segundo a situ- a\u00e7\u00e3o social delas, seu poderio, opul\u00eancia e conspicuidade. Porque quanto mais armados est\u00e3o de tais armas os poderosos, mais incli- nados \u00e9 de receiar65 que sejam \u00e0 extors\u00e3o contra os menos ajudados da fortuna66; e, por outro lado, quanto maiores s\u00e3o os valores de-<\/p>\n<p>64 com m\u00e1 sombra: de m\u00e1 catadura.<\/p>\n<p>65 receiar. \u2013 V. nota 40.<\/p>\n<p>66 fortuna. \u2013 V. nota 35.<\/p>\n<p>mandados e maior, portanto, a les\u00e3o arg\u00fcida, mais grave iniq\u00fcidade ser\u00e1 negar a repara\u00e7\u00e3o, que se demanda.<\/p>\n<p>N\u00e3o vos mistureis com os togados, que contra\u00edram a doen\u00e7a de achar sempre raz\u00e3o ao Estado, ao Governo, \u00e0 Fazenda; por onde os condecora o povo com o t\u00edtulo de \u201cfazendeiros\u201d. Essa presun\u00e7\u00e3o de terem, de ordin\u00e1rio, raz\u00e3o contra o resto do mundo, nenhuma lei a reconhece \u00e0 Fazenda, ao Governo, ou ao Estado.<\/p>\n<p>Antes, se admiss\u00edvel fosse a\u00ed qualquer presun\u00e7\u00e3o, havia de ser em sentido contr\u00e1rio; pois essas entidades s\u00e3o as mais irrespons\u00e1veis, as que mais abundam em meios de corromper, as que exercem as perse- gui\u00e7\u00f5es, administrativas, pol\u00edticas e policiais, as que, demitindo fun- cion\u00e1rios indemiss\u00edveis, rasgando contratos solenes, consumando les\u00f5es de toda a ordem (por n\u00e3o serem os perpetradores de tais aten- tados os que os pagam), acumulam, continuamente, sobre o Tesoiro p\u00fablico terr\u00edveis responsabilidades.<\/p>\n<p>No Brasil, durante o Imp\u00e9rio, os liberais tinham por artigo do seu programa cercear os privil\u00e9gios, j\u00e1 espantosos, da Fazenda Na- cional. Pasmoso \u00e9 que eles67, sob a Rep\u00fablica, se cem-dobrem ainda, conculcando-se, at\u00e9, a Constitui\u00e7\u00e3o, em pontos de alto melindre, para assegurar ao Fisco esta situa\u00e7\u00e3o monstruosa, e que ainda haja quem, sobre todas essas conquistas, lhe68 queira granjear a de um lugar de predile\u00e7\u00f5es e vantagens na consci\u00eancia judici\u00e1ria, no foro \u00edntimo de cada magistrado.<\/p>\n<p>Magistrados futuros, n\u00e3o vos deixeis contagiar de cont\u00e1gio69 t\u00e3o maligno. N\u00e3o negueis jamais ao Er\u00e1rio, \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o, \u00e0 Uni\u00e3o os seus direitos. S\u00e3o t\u00e3o inviol\u00e1veis, como quaisquer outros. Mas o direito dos mais miser\u00e1veis dos homens, o direito do mendigo, do escravo, do criminoso, n\u00e3o \u00e9 menos sagrado, perante a justi\u00e7a, que o do mais alto dos poderes. Antes, com os mais miser\u00e1veis \u00e9 que a justi\u00e7a deve ser mais atenta, e redobrar de escr\u00fapulo; porque s\u00e3o os<\/p>\n<p>67 eles: os privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>68 lhe: ao Fisco, \u00e0 Fazenda.<\/p>\n<p>69 contagiar de cont\u00e1gio: repeti\u00e7\u00e3o enf\u00e1tica.<\/p>\n<p>mais maldefendidos, os que suscitam menos interesse, e os contra cujo direito conspiram a inferioridade na condi\u00e7\u00e3o com a m\u00edngua nos recursos.<\/p>\n<p>Preservai, ju\u00edzes de amanh\u00e3, preservai vossas almas juvenis des- ses baixos e abomin\u00e1veis sofismas. A ningu\u00e9m importa mais do que \u00e0 magistratura fugir do medo, esquivar humilha\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o conhecer cobardia. Todo o70 bom magistrado tem muito de her\u00f3ico em si mesmo, na pureza imaculada e na pl\u00e1cida rigidez, que a nada se dobre, e de nada se tema, sen\u00e3o da outra justi\u00e7a, assente, c\u00e1 embai- xo, na consci\u00eancia das na\u00e7\u00f5es, e culminante, l\u00e1 em cima, no ju\u00edzo divino.<\/p>\n<p>N\u00e3o tergiverseis com as vossas responsabilidades, por mais atribula\u00e7\u00f5es que vos imponham, e mais perigos a que vos exponham.<\/p>\n<p>Nem receieis71 soberanias da terra: nem a do povo, nem a do poder.<\/p>\n<p>O povo \u00e9 uma torrente, que rara vez se n\u00e3o deixa conter pelas a\u00e7\u00f5es magn\u00e2nimas. A intrepidez do juiz, como a bravura do soldado, o arrebatam e fascinam. Os governos investem contra a justi\u00e7a, pro- vocam e desrespeitam a tribunais; mas, por mais que lhes72 espu- mem contra as senten\u00e7as, quando justas, n\u00e3o ter\u00e3o, por muito tem- po, a cabe\u00e7a erguida em amea\u00e7a ou desobedi\u00eancia diante dos magis- trados, que os enfrentem com dignidade e firmeza.<\/p>\n<p>Os presidentes de certas rep\u00fablicas s\u00e3o, \u00e0s vezes, mais intoleran- tes com os magistrados, quando lhes resistem, como devem, do que os antigos monarcas absolutos. Mas, se os chefes das democracias de tal jaez se esquecem do seu lugar, at\u00e9 o extremo de se haverem, quando lhes pica o orgulho, com os ju\u00edzes vital\u00edcios e inamov\u00edveis de hoje, como se haveriam com os ouvidores e desembargadores del-Rei Nosso Senhor, fr\u00e1geis instrumentos nas m\u00e3os de d\u00e9spotas<\/p>\n<p>70 Todo o bom magistrado: qualquer bom magistrado. \u2013 Hoje em dia procura-se distinguir todo o (= \u201cinteiro\u201d) de todo (= \u201cqualquer\u201d), o que n\u00e3o faziam os cl\u00e1ssicos, que Rui gostava de tomar por modelo. 71 receieis. \u2013 V. nota 40. 72 lhes espumem contra as senten\u00e7as: espumem contra as suas senten\u00e7as.<\/p>\n<p>coroados \u2013 cumpre aos amesquinhados pela jact\u00e2ncia dessas rebel- dias ter em mente que, instituindo-os em guardas da Constitui\u00e7\u00e3o contra os legisladores e da lei contra os governos, esses pactos de liberdade n\u00e3o os revestiram de prerrogativas ultramajest\u00e1ticas, se- n\u00e3o para que a sua autoridade n\u00e3o tor\u00e7a \u00e0s exig\u00eancias de nenhuma potestade humana.<\/p>\n<p>Os tiranos e b\u00e1rbaros antigos tinham, por vezes, mais compreen- s\u00e3o real da justi\u00e7a que os civilizados e democratas de hoje. Haja vista a hist\u00f3ria, que nos conta um pregador do s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p>\u201cA todo o que faz pessoa de juiz, ou ministro\u201d, dizia o orador sacro, \u201cmanda Deus que n\u00e3o considere na parte a raz\u00e3o de pr\u00edncipe poderoso, ou de pobre desvalido, sen\u00e3o s\u00f3 a raz\u00e3o do seu pr\u00f3xi- mo &#8230; * Bem praticou esta virtude Canuto, rei dos V\u00e2ndalos, que, mandando justi\u00e7ar uma quadrilha de salteadores, e pondo um deles embargos de que era parente del-Rei, respondeu: Se provar ser nos- so parente, raz\u00e3o \u00e9 que lhe fa\u00e7am a forca mais alta.\u201d** Bom \u00e9 que os b\u00e1rbaros tivessem deixado li\u00e7\u00f5es t\u00e3o inesperadas \u00e0s nossas democracias. Bem poderia ser que, barbarizando-se com esses modelos, antepusessem elas, enfim, a justi\u00e7a ao parentesco, e nos livrassem da peste das parentelas, em mat\u00e9rias de governo.<\/p>\n<p>Como vedes, senhores, para me n\u00e3o chamarem a mim revolucio- n\u00e1rio, ando a catar minha literatura de hoje nos livros religiosos.<\/p>\n<p>Outro ponto dos maiores na educa\u00e7\u00e3o do magistrado: corar me- nos de ter errado que de se n\u00e3o emendar. Melhor ser\u00e1 que a senten\u00e7a n\u00e3o erre. Mas, se cair em erro, o peior73 \u00e9 que se n\u00e3o corrija. E, se o pr\u00f3prio autor do erro o remediar, tanto melhor; porque tanto mais cresce, com a confiss\u00e3o, em cr\u00e9dito de justo, o magistrado, e tanto mais se soleniza a repara\u00e7\u00e3o dada ao ofendido.<\/p>\n<p>Muitas vezes, ainda, teria eu de vos dizer: N\u00e3o fa\u00e7ais, n\u00e3o<\/p>\n<p>* Lev\u00edtico, XIX, 15.<\/p>\n<p>** P.e M. Bernardes: Serm\u00f5es, Parte I, p\u00e1gs. 263-4.<\/p>\n<p>73 peior. \u2013 Assim est\u00e1 no manuscrito aut\u00f3grafo.<\/p>\n<p>fa\u00e7ais. Mas j\u00e1 \u00e9 tempo de cassar74 as velas ao discurso. Pouco agora vos direi.<\/p>\n<p>N\u00e3o anteponhais o draconianismo \u00e0 eq\u00fcidade. Dados a t\u00e3o cruel mania, ganhar\u00edeis, com raz\u00e3o, conceito de maus, e n\u00e3o de retos.<\/p>\n<p>N\u00e3o cultiveis sistemas, extravag\u00e2ncias e singularidades. Por esse meio lucrar\u00edeis a n\u00e9scia reputa\u00e7\u00e3o de originais; mas nunca a de s\u00e1- bios, doutos, ou conscienciosos.<\/p>\n<p>N\u00e3o militeis em partidos, dando \u00e0 pol\u00edtica o que deveis \u00e0 impar- cialidade. Dessa maneira vender\u00edeis as almas e famas ao dem\u00f4nio da ambi\u00e7\u00e3o, da intriga e da servid\u00e3o \u00e0s paix\u00f5es mais detest\u00e1veis.<\/p>\n<p>N\u00e3o cortejeis a popularidade. N\u00e3o transijais com as conveni\u00ean- cias. N\u00e3o tenhais neg\u00f3cios em secretarias. N\u00e3o delibereis por conse- lheiros, ou assessores. N\u00e3o deis votos de solidariedade com outros, quem quer que sejam. Fazendo aos colegas toda a honra, que lhes deverdes, prestai-lhes o cr\u00e9dito, a que sua dignidade houver direito; mas n\u00e3o tanto que delibereis s\u00f3 de os ouvir, em mat\u00e9ria onde a con- fian\u00e7a n\u00e3o substitua a inspe\u00e7\u00e3o direta. N\u00e3o prescindais, em suma, do conhecimento pr\u00f3prio, sempre que a prova terminante vos esteja ao alcance da vista, e se ofere\u00e7a \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o imediata do tribunal.<\/p>\n<p>Por derradeiro, amigos de minha alma, por derradeiro, a \u00faltima, a melhor li\u00e7\u00e3o da minha experi\u00eancia. De quanto no mundo tenho visto, o resumo se abrange nestas cinco75 palavras: N\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a, onde n\u00e3o haja Deus.<\/p>\n<p>Querer\u00edeis que vo-lo demonstrasse? Mas seria perder tem- po, se j\u00e1 n\u00e3o encontrastes a demonstra\u00e7\u00e3o no espet\u00e1culo atual da terra, na cat\u00e1strofe da humanidade. O g\u00eanero humano afundiu-se na mat\u00e9ria, e no oceano violento da mat\u00e9ria flutu-<\/p>\n<p>74 Cassar \u00e9 como est\u00e1 no manuscrito, ou seja, \u201crecolher\u201d(as velas). Curiosamen- te, o que muitos dicion\u00e1rios, antigos e modernos, registram \u00e9 a express\u00e3o \u201cca\u00e7ar as velas\u201d, significando \u201ci\u00e7ar as escotas de uma vela\u201d(para que esta apresente toda a sua superf\u00edcie ao vento), acelerando-se a marcha do barco; o sentido, portanto, \u00e9 o opos- to. \u00c0 li\u00e7\u00e3o desses dicion\u00e1rios se deve o engano das edi\u00e7\u00f5es anteriores. 75 cinco palavras: N\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a, onde n\u00e3o haja Deus. \u2013 A reda\u00e7\u00e3o primitiva \u2013<\/p>\n<p>am, hoje, os destro\u00e7os da civiliza\u00e7\u00e3o meio destru\u00edda. Esse fatal exc\u00eddio est\u00e1 clamando por Deus. Quando ele tornar a n\u00f3s, as na\u00e7\u00f5es abandonar\u00e3o a guerra, e a paz, ent\u00e3o, assomar\u00e1 entre elas, a paz das leis e da justi\u00e7a, que o mundo ainda n\u00e3o tem, porque ainda n\u00e3o cr\u00ea.<\/p>\n<p>\u00c0 justi\u00e7a humana cabe, nessa regenera\u00e7\u00e3o, papel essencial.<\/p>\n<p>Assim o saiba ela honrar. Trabalhai por isso os que abra\u00e7ardes essa carreira, com a influ\u00eancia da alt\u00edssima dignidade, que do seu exerc\u00edcio recebereis.<\/p>\n<p>Dela vos falei, da sua grandeza e dos seus deveres, com a incompet\u00eancia de quem n\u00e3o a tem exercido. N\u00e3o tive a honra de ser magistrado. Advogado sou, h\u00e1 cinq\u00fcenta anos, e, j\u00e1 ago- ra, morrerei advogado.<\/p>\n<p>\u00c9, entretanto, da advocacia no Brasil, da minha profiss\u00e3o, do que nela, em experi\u00eancia, acumulei, praticando-a, que me n\u00e3o ser\u00e1 dado agora tratar. A extens\u00e3o j\u00e1 demasiad\u00edssima deste col\u00f3quio em desalinho n\u00e3o me consentiria acr\u00e9scimo tamanho.<\/p>\n<p>Mas que perdereis, com tal omiss\u00e3o? Nada.<\/p>\n<p>Na miss\u00e3o do advogado tamb\u00e9m se desenvolve uma esp\u00e9cie de magistratura. As duas se entrela\u00e7am, diversas nas fun\u00e7\u00f5es, mas id\u00eanticas no objeto e na resultante: a justi\u00e7a. Com o advo- gado, justi\u00e7a militante. Justi\u00e7a imperante, no magistrado.<\/p>\n<p>Legalidade e liberdade s\u00e3o as t\u00e1buas da voca\u00e7\u00e3o do advoga- do. Nelas se encerra, para ele, a s\u00edntese de todos os mandamen- tos. N\u00e3o desertar a justi\u00e7a, nem cortej\u00e1-la. N\u00e3o lhe faltar com a fidelidade, nem lhe recusar o conselho. N\u00e3o transfugir da le- galidade para a viol\u00eancia, nem trocar a ordem pela anarquia.<\/p>\n<p>N\u00e3o antepor os poderosos aos desvalidos, nem recusar patroc\u00ed- nio a estes contra aqueles. N\u00e3o servir sem independ\u00eancia \u00e0 jus- ti\u00e7a, nem quebrar da verdade76 ante o poder. N\u00e3o colaborar<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a sem Deus \u2013 continha realmente cinco palavras. Alterando-a depois, esqueceu-se Rui de que a nova frase possui mais duas palavras. 76 quebrar da verdade. \u2013 Emprego incomum do verbo quebrar, no sentido de<\/p>\n<p>em persegui\u00e7\u00f5es ou atentados, nem pleitear pela iniq\u00fcidade ou imoralidade. N\u00e3o se subtrair \u00e0 defesa das causas impopulares, nem \u00e0 das perigosas, quando justas. Onde for apur\u00e1vel um gr\u00e3o, que seja, de verdadeiro direito, n\u00e3o regatear ao atribulado o consolo do amparo judicial. N\u00e3o proceder, nas consultas, sen\u00e3o com im- parcialidade real do juiz nas senten\u00e7as. N\u00e3o fazer da banca balc\u00e3o, ou da ci\u00eancia mercatura. N\u00e3o ser baixo com os grandes, nem arro- gante com os miser\u00e1veis. Servir aos opulentos com altivez e aos indigentes com caridade. Amar a p\u00e1tria, estremecer o pr\u00f3ximo, guardar f\u00e9 em Deus, na verdade e no bem.<\/p>\n<p>Senhores, devo acabar. Quando, h\u00e1 cinq\u00fcenta anos, sa\u00eda eu da- qui, na velha Paulic\u00e9ia, solit\u00e1ria e brumosa, como hoje sa\u00eds da trans- figurada metr\u00f3pole do m\u00e1ximo Estado brasileiro, bem outros eram este pa\u00eds e todo o mundo ocidental.<\/p>\n<p>O Brasil acabava de varrer do seu territ\u00f3rio a invas\u00e3o paraguaia, e, na Am\u00e9rica do Norte, poucos anos antes, a guerra civil limpara da grande rep\u00fablica o cativeiro negro, cuja agonia esteve a pique de a so\u00e7obrar77 despeda\u00e7ada. Eram dois pren\u00fancios de uma alvo- rada, que doirava os cimos do mundo crist\u00e3o, anunciando futuras vit\u00f3rias da liberdade.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo, a invas\u00e3o germ\u00e2nica alagava terras de Fran\u00e7a, deixando-a violada, traspassada no cora\u00e7\u00e3o e cruelmente mutilada, aos olhos secos e indiferentes das outras pot\u00eancias e mais na\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias, grandes, ou pequenas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m percebeu que se estavam semeando o cativeiro e a subvers\u00e3o do mundo. Da\u00ed a menos de cinq\u00fcenta anos, aquela atroz exacerba\u00e7\u00e3o do ego\u00edsmo pol\u00edtico envolvia culpados e inocentes numa s\u00e9rie de convuls\u00f5es, tal, que acreditar\u00edeis haver-se despejado o inferno entre as na\u00e7\u00f5es da terra, dando ao inaudito fen\u00f4meno humano propor\u00e7\u00f5es quase capazes de representar, na sua espanto- sa imensidade, um cataclismo c\u00f3smico. Parecia estar-se desman-<\/p>\n<p>\u201cdesviar-se de\u201d, \u201cinfringir\u201d.<\/p>\n<p>77 so\u00e7obrar: fazer so\u00e7obrar. \u2013 V. tamb\u00e9m a nota 21.<\/p>\n<p>chando e aniquilando o mundo. Mas era a eterna justi\u00e7a que se mostrava. Era o velho continente que principiava a expiar a velha pol\u00edtica, desalmada, mercantil e c\u00ednica, dos Napole\u00f5es, Metternichs e Bismarcks, num ciclone de abomina\u00e7\u00f5es inenarr\u00e1veis, que bem depressa abrangeria, como abrangeu, na zona das suas tremendas como\u00e7\u00f5es, os outros continentes, e deixaria revolvido o orbe intei- ro em tormentas catastr\u00f3ficas, s\u00f3 Deus sabe por quantas gera\u00e7\u00f5es al\u00e9m dos nossos dias.<\/p>\n<p>O Briareu78 do inexor\u00e1vel mercantilismo que explorava a hu- manidade, o colosso do ego\u00edsmo universal, que, durante um s\u00e9cu- lo, assistira impass\u00edvel \u00e0 entroniza\u00e7\u00e3o dos c\u00e1lculos dos governos sobre os direitos dos povos, o reinado \u00edmpio da ambi\u00e7\u00e3o e da for\u00e7a rolava, e se desfazia, num desmoronamento pavoroso, levando por a\u00ed a rojo imp\u00e9rios e dinastias, reis, dom\u00ednios, constitui\u00e7\u00f5es e trata- dos. Mas a medonha interven\u00e7\u00e3o dos poderes tenebrosos do nosso destino mal estava come\u00e7ada. Ningu\u00e9m poderia conjecturar ainda como e quando acabar\u00e1.<\/p>\n<p>Neste canto da terra, o Brasil \u201cda hegemonia sul-americana\u201d, entreluzida com a guerra do Paraguai, n\u00e3o cultivava tais veleida- des, ainda bem que, hoje, de todo em todo extintas. Mas encetara uma era de aspira\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e revolu\u00e7\u00f5es incruentas. Em 1888 aboliu a propriedade servil. Em 1889 baniu a coroa, e organizou a rep\u00fablica. Em 1907 entrou, pela porta de Haia, ao concerto das na\u00e7\u00f5es. Em 1917 alistou-se na alian\u00e7a da civiliza\u00e7\u00e3o, para empe- nhar a sua responsabilidade e as suas for\u00e7as navais na guerra das guerras, em socorro do direito das gentes, cujo c\u00f3digo ajudara a organizar na Segunda Confer\u00eancia da Paz.<\/p>\n<p>Mas, de s\u00fabito, agora, um movimento desvairado parece estar- nos levando, empuxados de uma corrente submarina, a um recuo inexplic\u00e1vel. Dir\u00edeis que o Brasil de 1921 tendesse, hoje, a repudiar o Brasil de 1917. Por qu\u00ea? Porque a nossa pol\u00edtica nos descurou<\/p>\n<p>78 Briareu: gigante da mitologia greco-romana, provido de 50 cabe\u00e7as e 100 bra\u00e7os.<\/p>\n<p>dos interesses, e, ante isso, delirando em acesso de fr\u00edvolo despeito, ir\u00edamos desmentir a excelsa tradi\u00e7\u00e3o, t\u00e3o gloriosa, qu\u00e3o inteligente e fecunda? N\u00e3o: senhores, n\u00e3o seria poss\u00edvel. Na resolu\u00e7\u00e3o de 1917 o Bra- sil ascendeu \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o mais alta de toda a nossa hist\u00f3ria. N\u00e3o descer\u00e1.<\/p>\n<p>Amigos meus, n\u00e3o. Compromissos daquela natureza, daquele alcance, daquela dignidade n\u00e3o se revogam. N\u00e3o convertamos uma quest\u00e3o de futuro em quest\u00e3o de relance. N\u00e3o transformemos uma quest\u00e3o de previd\u00eancia em quest\u00e3o de cobi\u00e7a. N\u00e3o reduzamos uma imensa quest\u00e3o de princ\u00edpios a vil quest\u00e3o de interesses. N\u00e3o de- mos de barato79 a ess\u00eancia eterna da justi\u00e7a por uma rasteira desa- ven\u00e7a de mercadores. N\u00e3o barganhemos o nosso porvir a troco de um mesquinho prato de lentilhas. N\u00e3o arrastemos o Brasil ao es- c\u00e2ndalo de se dar em espet\u00e1culo \u00e0 terra toda como a mais f\u00fatil das na\u00e7\u00f5es, na\u00e7\u00e3o que, \u00e0 dist\u00e2ncia de quatro anos, se desdissesse de um dos mais memor\u00e1veis atos de sua vida, trocasse de id\u00e9ias, variasse de afei\u00e7\u00f5es, mudasse de car\u00e1ter, e se renegasse a si mesma.<\/p>\n<p>\u00d3, senhores, n\u00e3o, n\u00e3o e n\u00e3o! Paladinos, ainda ontem, do direito e da liberdade, n\u00e3o vamos agora mostrar os punhos contra\u00eddos aos irm\u00e3os, com que comung\u00e1vamos, h\u00e1 pouco, nessa verdadeira cru- zada. N\u00e3o percamos, assim, o equil\u00edbrio da dignidade, por amor de uma pend\u00eancia de estreito car\u00e1ter comercial, ainda mal liquida- da, sobre a qual as explica\u00e7\u00f5es dadas \u00e0 na\u00e7\u00e3o pelos seus agentes, at\u00e9 esta data, s\u00e3o inconsistentes e furta-cores. N\u00e3o culpemos o es- trangeiro das nossas decep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no exterior, antes de ave- riguarmos se os culpados n\u00e3o se achariam aqui mesmo, entre os a quem se depara, nestas cegas agita\u00e7\u00f5es de \u00f3dio a outros povos, a divers\u00e3o80 mais oportuna dos nossos erros e mis\u00e9rias intestinas.<\/p>\n<p>O Brasil, em 1917, plantou a sua bandeira entre as da civiliza-<\/p>\n<p>79 N\u00e3o demos de barato: N\u00e3o troquemos por pre\u00e7o vil.<\/p>\n<p>80 divers\u00e3o: mudan\u00e7a de dire\u00e7\u00e3o para uma e outra parte; desvio, diversionismo. \u00c9 o sentido etimol\u00f3goco da palavra.<\/p>\n<p>\u00e7\u00e3o nos mares da Europa. Da\u00ed n\u00e3o se retrocede facilmente, sem que- bra da seriedade e do decoro81, sen\u00e3o dos pr\u00f3prios interesses. Mais cuidado tiv\u00e9ssemos, em tempo, com os nossos, nos conselhos da paz, se neles quis\u00e9ssemos brilhar melhor do que brilhamos nos atos da guerra, e acabar sem contratempos ou dissabores.<\/p>\n<p>Agora, o que a pol\u00edtica e a honra nos indicam, \u00e9 outra coisa. N\u00e3o busquemos o caminho de volta \u00e0 situa\u00e7\u00e3o colonial. Guardemo-nos das prote\u00e7\u00f5es internacionais. Acautelemo-nos das invas\u00f5es econ\u00f4- micas. Vigiemo-nos das pot\u00eancias absorventes e das ra\u00e7as expansionistas. N\u00e3o nos temamos tanto dos grandes imp\u00e9rios j\u00e1 sa- ciados, quanto dos ansiosos por se fazerem tais \u00e0 custa dos povos indefesos e malgovernados. Tenhamos sentido nos ventos, que so- pram de certos quadrantes do c\u00e9u. O Brasil \u00e9 a mais cobi\u00e7\u00e1vel das presas; e, oferecida, como est\u00e1, incauta, ing\u00eanua, inerme, a todas as ambi\u00e7\u00f5es, tem, de sobejo, com que fartar duas ou tr\u00eas das mais for- mid\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas o que lhe importa \u00e9 que d\u00ea come\u00e7o a governar-se a si mes- mo; porquanto nenhum dos \u00e1rbitros da paz e da guerra leva em conta uma nacionalidade adormecida e anemizada na tutela perp\u00e9- tua de governos, que n\u00e3o escolhe. Um povo dependente no seu pr\u00f3- prio territ\u00f3rio e nele mesmo sujeito ao dom\u00ednio de senhores n\u00e3o pode almejar seriamente, nem seriamente manter a sua independ\u00ean- cia para com o estrangeiro.<\/p>\n<p>Eia, senhores! Mocidade viril! Intelig\u00eancia brasileira! Nobre na- \u00e7\u00e3o explorada! Brasil de ontem e amanh\u00e3! Dai-nos o de hoje, que nos falta.<\/p>\n<p>M\u00e3os \u00e0 obra da reivindica\u00e7\u00e3o de nossa perdida autonomia; m\u00e3os \u00e0 obra da nossa reconstitui\u00e7\u00e3o interior; m\u00e3os \u00e0 obra de reconciliar- mos a vida nacional com as institui\u00e7\u00f5es nacionais; m\u00e3os \u00e0 obra de substituir pela verdade o simulacro pol\u00edtico da nossa exist\u00eancia en- tre as na\u00e7\u00f5es. Trabalhai por essa que h\u00e1 de ser a salva\u00e7\u00e3o nossa. Mas<\/p>\n<p>81 decoro. \u2013 No manuscrito se l\u00ea dec\u00f3ro, sinal da pron\u00fancia aberta que Rui daria ao o t\u00f4nico do voc\u00e1bulo.<\/p>\n<p>n\u00e3o buscando salvadores. Ainda vos podereis salvar a v\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 sonho, meus amigos: bem sinto eu, nas pulsa\u00e7\u00f5es do sangue, essa ressurrei\u00e7\u00e3o ansiada. Oxal\u00e1 n\u00e3o se me fechem os olhos, antes de lhe ver os primeiros ind\u00edcios no horizonte. Assim o queira Deus.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Barbosa Esgotada h\u00e1 tempos a edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que preparei em 1956, quis a Dire\u00e7\u00e3o da FCRB, em face da insist\u00eancia de pedidos, se reimpri- misse a Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os numa edi\u00e7\u00e3o popular anotada. Tomando por base o texto de 1956, retirei-lhe o aparato cr\u00edtico, multiplicando ao mesmo tempo as notas, destinadas a mais f\u00e1cil [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-117209","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, N\u00e3o quis Deus que os meus cinq\u00fcenta, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, N\u00e3o quis Deus que os meus cinq\u00fcenta, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-04-03T14:11:48+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"77 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/oracao-aos-mocos#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/oracao-aos-mocos\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os\",\"datePublished\":\"2017-04-03T14:11:48+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/oracao-aos-mocos\"},\"wordCount\":15323,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/oracao-aos-mocos#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/oracao-aos-mocos\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/oracao-aos-mocos\",\"name\":\"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-04-03T14:11:48+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, N\u00e3o quis Deus que os meus cinq\u00fcenta, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/oracao-aos-mocos#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/oracao-aos-mocos\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/oracao-aos-mocos#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os","description":"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, N\u00e3o quis Deus que os meus cinq\u00fcenta, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os","og_description":"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, N\u00e3o quis Deus que os meus cinq\u00fcenta, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-04-03T14:11:48+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"77 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os","datePublished":"2017-04-03T14:11:48+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos"},"wordCount":15323,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos","name":"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-04-03T14:11:48+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os, Rui Barbosa, Texto, N\u00e3o quis Deus que os meus cinq\u00fcenta, Literatura, Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/oracao-aos-mocos#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/117209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=117209"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/117209\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=117209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=117209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=117209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}