{"id":117139,"date":"2017-03-31T18:46:28","date_gmt":"2017-03-31T20:46:28","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117139"},"modified":"2017-03-31T18:46:28","modified_gmt":"2017-03-31T20:46:28","slug":"o-imortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-imortal","title":{"rendered":"O Imortal"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO<\/b><\/p>\n<p>\u2014 MEU PAI NASCEU em 1600&#8230; \u2014 Perd\u00e3o, em 1800, naturalmente&#8230; \u2014 N\u00e3o, senhor, replicou o dr. Le\u00e3o, de um modo grave e triste; foi em 1600. Estupefa\u00e7\u00e3o dos ouvintes, que eram dous, o coronel Bertioga, e o tabeli\u00e3o da vila, Jo\u00e3o Linhares. A vila era na prov\u00edncia fluminense; suponhamos Itabora\u00ed ou Sapucaia. Quanto \u00e0 data, n\u00e3o tenho d\u00favida em dizer que foi no ano de 1855, uma noite de novembro, escura como breu, quente como um forno, passante de nove horas. Tudo sil\u00eancio. O lugar em que os tr\u00eas estavam era a varanda que dava para o terreiro. Um lampi\u00e3o de luz frouxa, pendurado de um prego, sublinhava a escurid\u00e3o exterior. De quando em quando, gania um seco e \u00e1spero vento, mesclando-se ao som mon\u00f3tono de uma cachoeira pr\u00f3xima. Tal era o quadro e o momento, quando o dr. Le\u00e3o insistiu nas primeiras palavras da narrativa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor; nasceu em 1600.<\/p>\n<p>M\u00e9dico homeopata \u2014 a homeopatia come\u00e7ava a entrar nos dom\u00ednios da nossa civiliza\u00e7\u00e3o \u2014, este dr. Le\u00e3o chegara \u00e0 vila, dez ou doze dias antes, provido de boas cartas de recomenda\u00e7\u00e3o, pessoais e pol\u00edticas. Era um homem inteligente, de fino trato e cora\u00e7\u00e3o benigno. A gente da vila notou-lhe certa tristeza no gesto, algum retraimento nos h\u00e1bitos, e at\u00e9 uma tal ou qual sequid\u00e3o de palavras, sem embargo da perfeita cortesia; mas tudo foi atribu\u00eddo ao acanho dos primeiros dias e \u00e0s saudades da Corte. Contava trinta anos, tinha um princ\u00edpio de calva, olhar ba\u00e7o e m\u00e3os episcopais. Andava propagando o novo sistema. Os dous ouvintes continuavam pasmados. A d\u00favida fora posta pelo dono da casa, o coronel Bertioga, e o tabeli\u00e3o ainda insistiu no caso, mostrando ao m\u00e9dico a impossibilidade de ter o pai nascido em 1600. Duzentos e cinq\u00fcenta e cinco anos antes! dous s\u00e9culos e meio! Era imposs\u00edvel. Ent\u00e3o, que idade tinha ele? e de que idade morreu o pai?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho interesse em contar-lhes a vida de meu pai, respondeu o dr. Le\u00e3o. Falaram-me no macr\u00f3bio que mora nos fundos da matriz; disse-lhes que, em neg\u00f3cio de macr\u00f3bios, conheci o que h\u00e1 mais espantoso no mundo, um homem imortal&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas seu pai n\u00e3o morreu? disse o coronel.<\/p>\n<p>\u2014 Morreu.<\/p>\n<p>\u2014 Logo, n\u00e3o era imortal, concluiu o tabeli\u00e3o triunfante. Imortal se diz quando uma pessoa n\u00e3o morre, mas seu pai morreu.<\/p>\n<p>\u2014 Querem ouvir-me?<\/p>\n<p>\u2014 Homem, pode ser, observou o coronel meio abalado. O melhor \u00e9 ouvir a hist\u00f3ria. S\u00f3 o que digo \u00e9 que mais velho do que o Capataz nunca vi ningu\u00e9m. Est\u00e1 mesmo caindo de maduro. Seu pai devia estar tamb\u00e9m muito velho&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e3o mo\u00e7o como eu. Mas para que me fazem perguntas soltas? Para se espantarem cada vez mais, porque na verdade a hist\u00f3ria de meu pai n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de crer. Posso cont\u00e1-la em poucos minutos.<\/p>\n<p>Excitada a curiosidade, n\u00e3o foi dif\u00edcil impor-lhes sil\u00eancio. A fam\u00edlia toda estava acomodada, os tr\u00eas eram s\u00f3s na varanda, o dr. Le\u00e3o contou enfim a vida do pai, nos termos em que o leitor vai ver, se se der o trabalho de ler o segundo e os outros cap\u00edtulos.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO II<\/b><\/p>\n<p>\u2014 MEU PAI NASCEU em 1600, na cidade de Recife.<\/p>\n<p>Aos vinte e cinco anos tomou o h\u00e1bito franciscano, por vontade de minha av\u00f3, que era profundamente religiosa. Tanto ela como o marido eram pessoas de bom nascimento \u2014 \u201cbom sangue\u201d, como dizia meu pai, afetando a linguagem antiga.<\/p>\n<p>Meu av\u00f4 descendia da nobreza de Espanha, e minha av\u00f3 era de uma grande casa do Alentejo. Casaram-se ainda na Europa, e, anos depois, por motivos que n\u00e3o v\u00eam ao caso dizer, transportaram-se ao Brasil, onde ficaram e morreram. Meu pai dizia que poucas mulheres tinha visto t\u00e3o bonitas como minha av\u00f3. E olhem que ele amou as mais espl\u00eandidas mulheres do mundo. Mas n\u00e3o antecipemos.<\/p>\n<p>Tomou meu pai o h\u00e1bito, no convento de Iguara\u00e7u, onde ficou at\u00e9 1639, ano em que os holandeses, ainda uma vez, assaltaram a povoa\u00e7\u00e3o. Os frades deixaram precipitadamente o convento; meu pai, mais remisso do que os outros (ou j\u00e1 com o intento de deitar o h\u00e1bito \u00e0s urtigas), deixou-se ficar na cela, de maneira que os holandeses o foram achar no momento em que recolhia alguns livros pios e objetos de uso pessoal. Os holandeses n\u00e3o o trataram mal. Ele os regalou com o melhor da ucharia franciscana, onde a pobreza \u00e9 de regra. Sendo uso daqueles frades alternarem-se no servi\u00e7o da cozinha, meu pai entendia da arte, e esse talento foi mais um encanto ao aparecer do inimigo.<\/p>\n<p>No fim de duas semanas, o oficial holand\u00eas ofereceu-lhe um salvo-conduto, para ir aonde lhe parecesse; mas meu pai n\u00e3o o aceitou logo, querendo primeiro considerar se devia ficar com os holandeses, e, \u00e0 sombra deles desamparar a Ordem, ou se lhe era melhor buscar vida por si mesmo. Adotou o segundo alvitre, n\u00e3o s\u00f3 por ter o esp\u00edrito aventureiro, curioso e audaz, como porque era patriota, e bom cat\u00f3lico, apesar da repugn\u00e2ncia \u00e0 vida mon\u00e1stica, e n\u00e3o quisera misturar-se com o herege invasor. Aceitou o salvo-conduto e deixou Iguara\u00e7u.<\/p>\n<p>N\u00e3o se lembrava ele, quando me contou essas cousas, n\u00e3o se lembrava mais do n\u00famero de dias que despendeu sozinho por lugares ermos, fugindo de prop\u00f3sito ao povoado, n\u00e3o querendo ir a Olinda ou Recife, onde estavam os holandeses. Comidas as provis\u00f5es que levava, ficou dependente de alguma ca\u00e7a silvestre e frutas. Deitara, com efeito, o h\u00e1bito \u00e0s urtigas; vestia uns cal\u00e7\u00f5es flamengos, que o oficial lhe dera, e uma camisola ou jaquet\u00e3o de couro. Para encurtar raz\u00f5es, foi ter a uma aldeia de gentio, que o recebeu muito bem, com grandes carinhos e obs\u00e9quios. Meu pai era talvez o mais insinuante dos homens. Os \u00edndios ficaram embei\u00e7ados por ele, mormente o chefe, um guerreiro velho, bravo e generoso, que chegou a dar-lhe a filha em casamento. J\u00e1 ent\u00e3o minha av\u00f3 era morta, e meu av\u00f4 desterrado para a Holanda, not\u00edcias que meu pai teve, casualmente, por um antigo servo da casa. Deixou-se estar, pois, na aldeia, o gentio, at\u00e9 o ano de 1642, em que o guerreiro faleceu. Este caso do falecimento \u00e9 que \u00e9 maravilhoso: pe\u00e7o-lhes a maior aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O coronel e o tabeli\u00e3o agu\u00e7aram os ouvidos, enquanto o dr. Le\u00e3o extra\u00eda pausadamente uma pitada e inseria-a no nariz, com a pachorra de quem est\u00e1 negaceando uma cousa extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO III<\/b><\/p>\n<p>UMA NOITE, o chefe ind\u00edgena \u2014 chamava-se Piraju\u00e1 \u2014 foi \u00e0 rede de meu pai, anunciou-lhe que tinha de morrer, pouco depois de nascer o sol, e que ele estivesse pronto para acompanh\u00e1-lo fora, antes do momento \u00faltimo. Meu pai ficou alvoro\u00e7ado, n\u00e3o por lhe dar cr\u00e9dito, mas por sup\u00f4-lo delirante. Sobre a madrugada, o sogro veio ter com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, disse-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, agora n\u00e3o: est\u00e1s fraco, muito fraco&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vamos! repetiu o guerreiro.<\/p>\n<p>E, \u00e0 luz de uma fogueira expirante, viu-lhe meu pai a express\u00e3o intimativa do rosto, e um certo ar diab\u00f3lico, em todo caso extraordin\u00e1rio, que o aterrou. Levantou-se, acompanhou-o na dire\u00e7\u00e3o de um c\u00f3rrego. Chegando ao c\u00f3rrego, seguiram pela margem esquerda, acima, durante um tempo que meu pai calculou ter sido um quarto de hora. A madrugada acentuava-se; a lua fugia diante dos primeiros an\u00fancios do sol. Contudo, e apesar da vida do sert\u00e3o que meu pai levava desde alguns tempos, a aventura assustava-o; seguia vigiando o sogro, com receio de alguma trai\u00e7\u00e3o. Piraju\u00e1 ia calado, com os olhos no ch\u00e3o, e a fronte carregada de pensamentos, que podiam ser cru\u00e9is ou somente tristes. E andaram, andaram, at\u00e9 que Piraju\u00e1 disse:<\/p>\n<p>\u2014 Aqui.<\/p>\n<p>Estavam diante de tr\u00eas pedras, dispostas em tri\u00e2ngulo. Piraju\u00e1 sentou-se numa, meu pai noutra. Depois de alguns minutos de descanso:<\/p>\n<p>\u2014 Arreda aquela pedra, disse o guerreiro, apontando para a terceira, que era a maior.<\/p>\n<p>Meu pai levantou-se e foi \u00e0 pedra. Era pesada, resistiu ao primeiro impulso; mas meu pai teimou, aplicou todas as for\u00e7as, a pedra cedeu um pouco, depois mais, enfim foi removida do lugar.<\/p>\n<p>\u2014 Cava o ch\u00e3o, disse o guerreiro.<\/p>\n<p>Meu pai foi buscar uma lasca de pau, uma taquara ou n\u00e3o sei qu\u00ea, e come\u00e7ou a cavar o ch\u00e3o. J\u00e1 ent\u00e3o estava curioso de ver o que era. Tinha-lhe nascido uma id\u00e9ia \u2014 algum tesouro enterrado, que o guerreiro, receoso de morrer, quisesse entregar-lhe. Cavou, cavou, cavou, at\u00e9 que sentiu um objeto rijo; era um vaso tosco, talvez uma iga\u00e7aba. N\u00e3o o tirou, n\u00e3o chegou mesmo a arredar a terra em volta dele. O guerreiro aproximou-se, desatou o peda\u00e7o de couro de anta que lhe cobria a boca, meteu dentro o bra\u00e7o, e tirou um boi\u00e3o. Este boi\u00e3o tinha a boca tapada com outro peda\u00e7o de couro.<\/p>\n<p>\u2014 Vem c\u00e1, disse o guerreiro.<\/p>\n<p>Sentaram-se outra vez. O guerreiro tinha o boi\u00e3o sobre os joelhos, tapado, misterioso, agu\u00e7ando a curiosidade de meu pai, que ardia por saber o que havia ali dentro.<\/p>\n<p>\u2014 Piraju\u00e1 vai morrer, disse ele; vai morrer para nunca mais. Piraju\u00e1 ama guerreiro branco, esposo de Maracuj\u00e1, sua filha; e vai mostrar um segredo como n\u00e3o h\u00e1 outro.<\/p>\n<p>Meu pai estava tr\u00eamulo. O guerreiro desatou lentamente o couro que tapava o boi\u00e3o. Destapado, olhou para dentro, levantou-se, e veio mostr\u00e1-lo a meu pai. Era um l\u00edquido amarelado, de um cheiro acre e singular.<\/p>\n<p>\u2014 Quem bebe isto, um gole s\u00f3, nunca mais morre.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! bebe, bebe! exclamou meu pai com vivacidade.<\/p>\n<p>Foi um movimento de afeto, um ato irrefletido de verdadeira amizade filial, porque s\u00f3 um instante depois \u00e9 que meu pai advertiu que n\u00e3o tinha, para crer na not\u00edcia que o sogro lhe dava, sen\u00e3o a palavra do mesmo sogro, cuja raz\u00e3o supunha perturbada pela mol\u00e9stia. Piraju\u00e1 sentiu o espont\u00e2neo da palavra de meu pai, e agradeceu-lha; mas abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, disse ele; Piraju\u00e1 n\u00e3o bebe, Piraju\u00e1 quer morrer. Est\u00e1 cansado, viu muita lua, muita lua. Piraju\u00e1 quer descansar na terra, est\u00e1 aborrecido. Mas Piraju\u00e1 quer deixar este segredo a guerreiro branco; est\u00e1 aqui; foi feito por um velho paj\u00e9 de longe, muito longe&#8230; Guerreiro branco bebe, n\u00e3o morre mais.<\/p>\n<p>Dizendo isto, tornou a tapar a boca do boi\u00e3o, e foi met\u00ea-lo outra vez dentro da iga\u00e7aba. Meu pai fechou depois a boca da mesma iga\u00e7aba, e rep\u00f4s a pedra em cima. O primeiro clar\u00e3o do sol vinha apontando. Voltaram para casa depressa; antes mesmo de tomar a rede, Piraju\u00e1 faleceu.<\/p>\n<p>Meu pai n\u00e3o acreditou na virtude do elixir. Era absurdo supor que um tal l\u00edquido pudesse abrir uma exce\u00e7\u00e3o na lei da morte. Era naturalmente algum rem\u00e9dio, se n\u00e3o fosse algum veneno; e neste caso, a mentira do \u00edndio estava explicada pela turva\u00e7\u00e3o mental que meu pai lhe atribuiu. Mas, apesar de tudo, nada disse aos demais \u00edndios da aldeia, nem \u00e0 pr\u00f3pria esposa. Calou-se; \u2014 nunca me revelou o motivo do sil\u00eancio: creio que n\u00e3o podia ser outro sen\u00e3o o pr\u00f3prio influxo do mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Tempos depois, adoeceu, e t\u00e3o gravemente que foi dado por perdido. O curandeiro do lugar anunciou a Maracuj\u00e1 que ia ficar vi\u00fava. Meu pai n\u00e3o ouviu a not\u00edcia, mas leu-a em uma p\u00e1gina de l\u00e1grimas, no rosto da consorte, e sentiu em si mesmo que estava acabado. Era forte, valoroso, capaz de encarar todos os perigos; n\u00e3o se aterrou, pois, com a id\u00e9ia de morrer, despediu-se dos vivos, fez algumas recomenda\u00e7\u00f5es e preparou-se para a grande viagem.<\/p>\n<p>Alta noite, lembrou-se do elixir, e perguntou a si mesmo se n\u00e3o era acertado tent\u00e1-lo. J\u00e1 agora a morte era certa, que perderia ele com a experi\u00eancia? A ci\u00eancia de um s\u00e9culo n\u00e3o sabia tudo; outro s\u00e9culo vem e passa adiante. Quem sabe, dizia ele consigo, se os homens n\u00e3o descobrir\u00e3o um dia a imortalidade, e se o elixir cient\u00edfico n\u00e3o ser\u00e1 esta mesma droga selv\u00e1tica? O primeiro que curou a febre maligna fez um prod\u00edgio. Tudo \u00e9 incr\u00edvel antes de divulgado. E, pensando assim, resolveu transportar-se ao lugar da pedra, \u00e0 margem do arroio; mas n\u00e3o quis ir de dia, com medo de ser visto. De noite, ergueu-se, e foi, tr\u00f4pego, vacilante, batendo o queixo. Chegou \u00e0 pedra, arredou-a, tirou o boi\u00e3o, e bebeu metade do conte\u00fado. Depois sentou-se para descansar. Ou o descanso, ou o rem\u00e9dio, alentou-o logo. Ele tornou a guardar o boi\u00e3o; da\u00ed a meia hora estava outra vez na rede. Na seguinte manh\u00e3 estava bom&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bom de todo? perguntou o tabeli\u00e3o Jo\u00e3o Linhares, interrompendo o narrador.<\/p>\n<p>\u2014 De todo.<\/p>\n<p>\u2014 Era algum rem\u00e9dio para febre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Foi isto mesmo o que ele pensou, quando se viu bom. Era algum rem\u00e9dio para febre e outras doen\u00e7as; e nisto ficou; mas, apesar do efeito da droga, n\u00e3o a descobriu a ningu\u00e9m. Entretanto, os anos passaram, sem que meu pai envelhecesse; qual era no tempo da mol\u00e9stia, tal ficou. Nenhuma ruga, nenhum cabelo branco. Mo\u00e7o, perpetuamente mo\u00e7o. A vida do mato come\u00e7ara a aborrec\u00ea-lo; ficara ali por gratid\u00e3o ao sogro; as saudades da civiliza\u00e7\u00e3o vieram tom\u00e1-lo. Um dia, a aldeia foi invadida por uma horda de \u00edndios de outra, n\u00e3o se sabe por que motivo, nem importa ao nosso caso. Na luta pereceram muitos, meu pai foi ferido, e fugiu para o mato. No dia seguinte veio \u00e0 aldeia, achou a mulher morta. As feridas eram profundas; curou-as com o emprego de rem\u00e9dios usuais; e restabeleceu-se dentro de poucos dias. Mas os sucessos confirmaram-no no prop\u00f3sito de deixar a vida semi-selvagem e tornar \u00e0 vida civilizada e crist\u00e3. Muitos anos se tinham passado depois da fuga do convento de Iguara\u00e7u; ningu\u00e9m mais o reconheceria. Um dia de manh\u00e3 deixou a aldeia, com o pretexto de ir ca\u00e7ar; foi primeiro ao arroio, desviou a pedra, abriu a iga\u00e7aba, tirou o boi\u00e3o, onde deixara um resto do elixir. A id\u00e9ia dele era fazer analisar a droga na Europa, ou mesmo em Olinda ou no Recife, ou na Bahia, por algum entendido em cousas de qu\u00edmica e farm\u00e1cia. Ao mesmo tempo n\u00e3o podia furtar-se a um sentimento de gratid\u00e3o; devia \u00e0quele rem\u00e9dio a sa\u00fade. Com o boi\u00e3o ao lado, a mocidade nas pernas e a resolu\u00e7\u00e3o no peito, saiu dali, caminho de Olinda e da eternidade.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO IV<\/b><\/p>\n<p>\u2014 N\u00c3O POSSO demorar-me em pormenores, disse o dr. Le\u00e3o aceitando o caf\u00e9 que o coronel mandara trazer. S\u00e3o quase dez horas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que tem? perguntou o coronel. A noite \u00e9 nossa; e, para o que temos de fazer amanh\u00e3, podemos dormir quando bem nos parecer. Eu por mim n\u00e3o tenho sono. E voc\u00ea, sr. Jo\u00e3o Linhares?<\/p>\n<p>\u2014 Nem um pingo, respondeu o tabeli\u00e3o.<\/p>\n<p>E teimou com o dr. Le\u00e3o para contar tudo, acrescentando que nunca ouvira nada t\u00e3o extraordin\u00e1rio. Note-se que o tabeli\u00e3o presumia ser lido em hist\u00f3rias antigas, e passava na vila por um dos homens mais ilustrados do Imp\u00e9rio; n\u00e3o obstante, estava pasmado. Ele contou ali mesmo, entre dous goles de caf\u00e9, o caso de Matusal\u00e9m, que viveu novecentos e sessenta e nove anos, e o de Lameque, que morreu com setecentos e setenta e sete; mas, explicou logo, porque era um esp\u00edrito forte, que esses e outros exemplos da cronologia hebraica n\u00e3o tinham fundamento cient\u00edfico&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, vamos ver agora o que aconteceu a seu pai, interrompeu o coronel.<\/p>\n<p>O vento, de esfalfado, morrera; e a chuva come\u00e7ava a rufar nas folhas das \u00e1rvores, a princ\u00edpio com intermit\u00eancias, depois mais cont\u00ednua e basta. A noite refrescou um pouco. O dr. Le\u00e3o continuou a narra\u00e7\u00e3o, e, apesar de dizer que n\u00e3o podia demorar-se nos pormenores, contou-os com tanta miudeza, que n\u00e3o me atrevo a p\u00f4-los tais quais nestas p\u00e1ginas; seria fastidioso. O melhor \u00e9 resumi-lo.<\/p>\n<p>Rui de Le\u00e3o, ou antes Rui Garcia de Meireles e Castro Azevedo de Le\u00e3o, que assim se chamava o pai do m\u00e9dico, pouco tempo se demorou em Pernambuco. Um ano depois, em 1654, cessava o dom\u00ednio holand\u00eas. Rui de Le\u00e3o assistiu \u00e0s alegrias da vit\u00f3ria, e passou-se ao reino, onde casou com uma senhora nobre de Lisboa. Teve um filho; e perdeu o filho e a mulher no mesmo m\u00eas de mar\u00e7o de 1661. A dor que ent\u00e3o padeceu foi profunda; para distrair-se visitou a Fran\u00e7a e a Holanda. Mas na Holanda, ou por motivo de uns amores secretos, ou por \u00f3dio de alguns judeus descendentes ou naturais de Portugal, com quem entreteve rela\u00e7\u00f5es comerciais na Haia, ou enfim por outros motivos desconhecidos, Rui de Le\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de viver tranq\u00fcilo muito tempo; foi preso e conduzido para a Alemanha, de onde passou \u00e0 Hungria, a algumas cidades italianas, \u00e0 Fran\u00e7a, e finalmente \u00e0 Inglaterra. Na Inglaterra estudou o ingl\u00eas profundamente; e, como sabia o latim, aprendido no convento, o hebraico, que lhe ensinara na Haia o famoso Spinoza, de quem foi amigo, e que talvez deu causa ao \u00f3dio que os outros judeus lhe criaram; \u2014 o franc\u00eas e o italiano, parte do alem\u00e3o e do h\u00fangaro, tornou-se em Londres objeto de verdadeira curiosidade e venera\u00e7\u00e3o. Era buscado, consultado, ouvido, n\u00e3o s\u00f3 por pessoas do vulgo ou idiotas, como por letrados, pol\u00edticos e personagens da corte.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m dizer que em todos os pa\u00edses por onde andara tinha ele exercido os mais contr\u00e1rios of\u00edcios: soldado, advogado, sacrist\u00e3o, mestre de dan\u00e7a, comerciante e livreiro. Chegou a ser agente secreto da \u00c1ustria, guarda pontif\u00edcio e armador de navios. Era ativo, engenhoso, mas pouco persistente, a julgar pela variedade das cousas que empreendeu; ele, por\u00e9m, dizia que n\u00e3o, que a sorte \u00e9 que sempre lhe foi adversa. Em Londres, onde o vemos agora, limitou-se ao mister de letrado e gamenho; mas n\u00e3o tardou que voltasse a Haia, onde o esperavam alguns dos amores velhos, e n\u00e3o poucos recentes.<\/p>\n<p>Que o amor, for\u00e7a \u00e9 diz\u00ea-lo, foi uma das causas da vida agitada e turbulenta do nosso her\u00f3i. Ele era pessoalmente um homem galhardo, insinuante, dotado de um olhar cheio de for\u00e7a e magia. Segundo ele mesmo contou ao filho, deixou muito longe o algarismo dom-juanesco das mille e tre. N\u00e3o podia dizer o n\u00famero exato das mulheres a quem amara, em todas as latitudes e l\u00ednguas, desde a selvagem Maracuj\u00e1 de Pernambuco, at\u00e9 \u00e0 bela cipriota ou \u00e0 fidalga dos sal\u00f5es de Paris e Londres; mas calculava em n\u00e3o menos de cinco mil mulheres. Imagina-se facilmente que uma tal multid\u00e3o devia conter todos os g\u00eaneros poss\u00edveis da beleza feminil: louras, morenas, p\u00e1lidas, coradas, altas, me\u00e3s, baixinhas, magras ou cheias, ardentes ou l\u00e2nguidas, ambiciosas, devotas, lascivas, po\u00e9ticas, prosaicas, inteligentes, est\u00fapidas; \u2014 sim, tamb\u00e9m est\u00fapidas, e era opini\u00e3o dele que a estupidez das mulheres tinha o sexo feminino, era graciosa, ao contr\u00e1rio da dos homens, que participava da aspereza viril.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 casos, dizia ele, em que uma mulher est\u00fapida tem o seu lugar.<\/p>\n<p>Na Haia, entre os novos amores, deparou-se-lhe um que o prendeu por longo tempo: lady Emma Sterling, senhora inglesa, ou antes escocesa, pois descendia de uma fam\u00edlia de Dublin. Era formosa, resoluta, e audaz; \u2014 t\u00e3o audaz que chegou a propor ao amante uma expedi\u00e7\u00e3o a Pernambuco para conquistar a capitania, e aclamarem-se reis do novo Estado. Tinha dinheiro, podia levantar muito mais, chegou mesmo a sondar alguns armadores e comerciantes, e antigos militares que ardiam por uma desforra. Rui de Le\u00e3o ficou aterrado com a proposta da amante, e n\u00e3o lhe deu cr\u00e9dito; mas lady Ema insistiu e mostrou-se t\u00e3o de rocha, que ele reconheceu enfim achar-se diante de uma ambiciosa verdadeira. Era, todavia, homem de senso; viu que a empresa, por mais bem organizada que fosse, n\u00e3o passaria de tentativa desgra\u00e7ada; disse-lho a ela; mostrou-lhe que, se a Holanda inteira tinha recuado, n\u00e3o era f\u00e1cil que um particular chegasse a obter ali dom\u00ednio seguro, nem ainda instant\u00e2neo. Lady Ema abriu m\u00e3o do plano, mas n\u00e3o perdeu a id\u00e9ia de o exal\u00e7ar a alguma grande situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tu ser\u00e1s rei ou duque&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ou cardeal, acrescentava ele rindo.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o cardeal?<\/p>\n<p>Lady Ema fez com que Rui de Le\u00e3o entrasse da\u00ed a pouco na conspira\u00e7\u00e3o que deu em resultado a invas\u00e3o da Inglaterra, a guerra civil, e a morte enfim dos principais cabos da rebeli\u00e3o. Vencida esta, lady Ema n\u00e3o deu por vencida. Ocorreu-lhe ent\u00e3o uma id\u00e9ia espantosa. Rui de Le\u00e3o inculcava ser o pr\u00f3prio pai do duque de Monmouth, suposto filho natural de Carlos II, e caudilho principal dos rebeldes. A verdade \u00e9 que eram parecidos como duas gotas d\u2019\u00e1gua. Outra verdade \u00e9 que lady Ema, por ocasi\u00e3o da guerra civil, tinha o plano secreto de fazer matar o duque, se ele triunfasse, e substitu\u00ed-lo pelo amante, que assim subiria ao trono de Inglaterra. O pernambucano, escusado \u00e9 diz\u00ea-lo, n\u00e3o soube de semelhante aleivosia, nem lhe daria o seu assentimento. Entrou na rebeli\u00e3o, viu-a perecer ao sangue e no supl\u00edcio, e tratou de esconder-se. Ema acompanhou-o; e, como a esperan\u00e7a do cetro n\u00e3o lhe sa\u00eda do cora\u00e7\u00e3o, passado algum tempo fez correr que o duque n\u00e3o morrera, mas sim um amigo t\u00e3o parecido com ele, e t\u00e3o dedicado, que o substituiu no supl\u00edcio.<\/p>\n<p>\u2014 O duque est\u00e1 vivo, e dentro de pouco aparecer\u00e1 ao nobre povo da Gr\u00e3-Bretanha, sussurrava ela aos ouvidos.<\/p>\n<p>Quando Rui de Le\u00e3o efetivamente apareceu, a estupefa\u00e7\u00e3o foi grande, o entusiasmo reviveu, o amor deu alma a uma causa, que o carrasco supunha ter acabado na Torre de Londres. Donativos, presentes, armas, defensores, tudo veio \u00e0s m\u00e3os do audaz pernambucano, aclamado rei, e rodeado logo de um tro\u00e7o de var\u00f5es resolutos a morrer pela mesma causa.<\/p>\n<p>\u2014 Meu filho \u2014 disse ele, s\u00e9culo e meio depois, ao m\u00e9dico homeopata \u2014, dependeu de muito pouco n\u00e3o teres nascido pr\u00edncipe de Gales&#8230; Cheguei a dominar cidades e vilas, expedi leis, nomeei ministros, e, ainda assim, resisti a duas ou tr\u00eas sedi\u00e7\u00f5es militares que pediam a queda dos dous \u00faltimos gabinetes. Tenho para mim que as dissens\u00f5es internas ajudaram as for\u00e7as legais, e devo-lhes a minha derrota. Ao cabo, n\u00e3o me zanguei com elas; a luta fatigara-me; n\u00e3o minto dizendo que o dia da minha captura foi para mim de al\u00edvio. Tinha visto, al\u00e9m da primeira, duas guerras civis, uma dentro da outra, uma cruel, outra rid\u00edcula, ambas insensatas. Por outro lado, vivera muito, e uma vez que me n\u00e3o executassem, que me deixassem preso ou me exilassem para os confins da terra, n\u00e3o pedia nada mais aos homens, ao menos durante alguns s\u00e9culos&#8230; Fui preso, julgado e condenado \u00e0 morte. Dos meus auxiliares n\u00e3o poucos negaram tudo; creio mesmo que um dos principais morreu na C\u00e2mara dos Lords. Tamanha ingratid\u00e3o foi um princ\u00edpio de supl\u00edcio. Ema, n\u00e3o; essa nobre senhora n\u00e3o me abandonou; foi presa, condenada, e perdoada; mas n\u00e3o me abandonou. Na v\u00e9spera de minha execu\u00e7\u00e3o, veio ter comigo, e passamos juntos as \u00faltimas horas. Disse-lhe que n\u00e3o me esquecesse, dei-lhe uma tran\u00e7a de cabelos, pedi-lhe que perdoasse ao carrasco&#8230; Ema prorrompeu em solu\u00e7os; os guardas vieram busc\u00e1-la. Ficando s\u00f3, recapitulei a minha vida, desde Iguara\u00e7u at\u00e9 a Torre de Londres. Est\u00e1vamos ent\u00e3o em 1686; tinha eu oitenta e seis anos, sem parecer mais de quarenta. A apar\u00eancia era a da eterna juventude; mas o carrasco ia destru\u00ed-la num instante. N\u00e3o valia a pena ter bebido metade do elixir e guardado comigo o misterioso boi\u00e3o, para acabar tragicamente no cepo do cadafalso&#8230; Tais foram as minhas id\u00e9ias naquela noite. De manh\u00e3 preparei-me para a morte. Veio o padre, vieram os soldados, e o carrasco. Obedeci maquinalmente. Caminhamos todos, subi ao cadafalso, n\u00e3o fiz discurso; inclinei o pesco\u00e7o sobre o cepo, o carrasco deixou cair a arma, senti uma dor penetrante, uma ang\u00fastia enorme, como que a parada s\u00fabita do cora\u00e7\u00e3o; mas essa sensa\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o grande como r\u00e1pida; no instante seguinte tornara ao estado natural. Tinha no pesco\u00e7o algum sangue, mas pouco e quase seco. O carrasco recuou, o povo bramiu que me matassem. Inclinaram-me a cabe\u00e7a, e o carrasco fazendo apelo a todos os seus m\u00fasculos e princ\u00edpios, descarregou outro golpe, e maior, se \u00e9 poss\u00edvel, capaz de abrir-me ao mesmo tempo a sepultura, como j\u00e1 se disse de um valente. A minha sensa\u00e7\u00e3o foi igual \u00e0 primeira na intensidade e na brevidade; reergui a cabe\u00e7a. Nem o magistrado nem o padre consentiram que se desse outro golpe. O povo abalou-se, uns chamaram-me santo, outros diabo, e ambas essas opini\u00f5es eram defendidas nas tabernas \u00e0 for\u00e7a de punho e de aguardente. Diabo ou santo, fui presente aos m\u00e9dicos da corte. Estes ouviram o depoimento do magistrado, do padre, do carrasco, de alguns soldados, e conclu\u00edram que, uma vez dado o golpe, os tecidos do pesco\u00e7o ligavam-se outra vez rapidamente, e assim os mesmos ossos, e n\u00e3o chegavam a explicar um tal fen\u00f4meno. Pela minha parte, em vez de contar o caso do elixir, calei-me; preferi aproveitar as vantagens do mist\u00e9rio. Sim, meu filho; n\u00e3o imaginas a impress\u00e3o de toda a Inglaterra, os bilhetes amorosos que recebi das mais finas duquesas, os versos, as flores, os presentes, as met\u00e1foras. Um poeta chamou-me Anteu. Um jovem protestante demonstrou-me que eu era o mesmo Cristo.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO V<\/b><\/p>\n<p>O NARRADOR continuou:<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 v\u00eaem, pelo que lhes contei, que n\u00e3o acabaria hoje nem em toda esta semana, se quisesse referir miudamente a vida inteira de meu pai. Algum dia o farei, mas por escrito, e cuido que a obra dar\u00e1 cinco volumes, sem contar os documentos&#8230; \u2014 Que documentos? perguntou o tabeli\u00e3o. \u2014 Os muitos documentos comprobat\u00f3rios que possuo, t\u00edtulos, cartas, traslados de senten\u00e7as, de escrituras, c\u00f3pias de estat\u00edsticas&#8230; Por exemplo, tenho uma certid\u00e3o do recenseamento de um certo bairro de G\u00eanova, onde meu pai morreu em 1742; traz o nome dele, com declara\u00e7\u00e3o do lugar em que nasceu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E com a verdadeira idade? perguntou o coronel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Meu pai andou sempre entre os quarenta e os cinq\u00fcenta. Chegando aos cinq\u00fcenta, cinq\u00fcenta e poucos, voltava para tr\u00e1s; \u2014 e era-lhe f\u00e1cil fazer isto, porque n\u00e3o esquentava lugar; vivia cinco, oito, dez, doze anos numa cidade, e passava a outra&#8230; Pois tenho muitos documentos que juntarei, entre outros o testamento de lady Ema, que morreu pouco depois da execu\u00e7\u00e3o gorada de meu pai. Meu pai dizia-me que entre as muitas saudades que a vida lhe ia deixando, lady Ema era das mais fortes e profundas. Nunca viu mulher mais sublime, nem amor mais constante, nem dedica\u00e7\u00e3o mais cega. E a morte confirmou a vida, porque o herdeiro de lady Ema foi meu pai. Infelizmente, a heran\u00e7a teve outros reclamantes, e o testamento entrou em processo. Meu pai, n\u00e3o podendo residir em Inglaterra, concordou na proposta de um amigo providencial que veio a Lisboa dizer-lhe que tudo estava perdido; quando muito poderia salvar um restozinho de nada, e ofereceu-lhe por esse direito problem\u00e1tico uns dez mil cruzados. Meu pai aceitou-os; mas, t\u00e3o caipora que o testamento foi aprovado, e a heran\u00e7a passou \u00e0s m\u00e3os do comprador&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E seu pai ficou pobre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Com os dez mil cruzados, e pouco mais que apurou. Teve ent\u00e3o id\u00e9ia de meter-se no neg\u00f3cio de escravos; obteve privil\u00e9gio, armou um navio, e transportou africanos para o Brasil. Foi a parte da vida que mais lhe custou; mas afinal acostumou-se \u00e0s tristes obriga\u00e7\u00f5es de um navio negreiro. Acostumou-se, e enfarou-se, que era outro fen\u00f4meno na vida dele. Enfarava-se dos of\u00edcios. As longas solid\u00f5es do mar alargaram-lhe o vazio interior. Um dia refletiu, e perguntou a si mesmo, se chegaria a habituar-se tanto \u00e0 navega\u00e7\u00e3o, que tivesse de varrer o oceano, por todos os s\u00e9culos dos s\u00e9culos. Criou medo; e compreendeu que o melhor modo de atravessar a eternidade era vari\u00e1-la&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Em que ano ia ele?<\/p>\n<p>\u2014 Em 1694; fins de 1694.<\/p>\n<p>\u2014 Veja s\u00f3! Tinha ent\u00e3o noventa e quatro anos, n\u00e3o era? Naturalmente, mo\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e3o mo\u00e7o que casou da\u00ed a dous anos, na Bahia, com uma bela senhora que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Diga.<\/p>\n<p>\u2014 Digo, sim; porque ele mesmo me contou a hist\u00f3ria. Uma senhora que amou a outro. E que outro! Imaginem que meu pai, em 1695, entrou na conquista da famosa rep\u00fablica dos Palmares. Bateu-se como um bravo, e perdeu um amigo, um amigo \u00edntimo, crivado de balas, pelado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pelado?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade; os negros defendiam-se tamb\u00e9m com \u00e1gua fervendo, e este amigo recebeu um pote cheio; ficou uma chaga. Meu pai contava-me esse epis\u00f3dio com dor, e at\u00e9 com remorso, porque, no meio da refrega, teve de pisar o pobre companheiro; parece at\u00e9 que ele expirou quando meu pai lhe metia as botas na cara&#8230;<\/p>\n<p>O tabeli\u00e3o fez uma careta; e o coronel, para disfar\u00e7ar o horror, perguntou o que tinha a conquista dos Palmares com a mulher que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tem tudo, continuou o m\u00e9dico. Meu pai, ao tempo que via morrer um amigo, salvara a vida de um oficial, recebendo ele mesmo uma flecha no peito. O caso foi assim. Um dos negros, depois de derrubar dous soldados, envergou o arco sobre a pessoa do oficial, que era um rapaz valente e simp\u00e1tico, \u00f3rf\u00e3o de pai, tendo deixado a m\u00e3e em Olinda&#8230; Meu pai compreendeu que a flecha n\u00e3o lhe faria mal a ele, e ent\u00e3o, de um salto, interp\u00f4s-se. O golpe feriu-o no peito; ele caiu. O oficial, Dami\u00e3o&#8230; Dami\u00e3o de tal. N\u00e3o digo o nome todo, porque ele tem alguns descendentes para as bandas de Minas. Dami\u00e3o basta. Dami\u00e3o passou a noite ao p\u00e9 da cama de meu pai, agradecido, dedicado, louvando-lhe uma a\u00e7\u00e3o t\u00e3o sublime. E chorava. N\u00e3o podia suportar a id\u00e9ia de ver morrer o homem que lhe salvara a vida por um modo t\u00e3o raro. Meu pai sarou depressa, com pasmo de todos. A pobre m\u00e3e do oficial quis beijar-lhe as m\u00e3os: \u2014 \u201cBasta-me um pr\u00eamio, disse ele; a sua amizade e a do seu filho\u201d. O caso encheu de pasmo Olinda inteira. N\u00e3o se falava em outra cousa; e da\u00ed a algumas semanas a admira\u00e7\u00e3o p\u00fablica trabalhava em fazer uma lenda. O sacrif\u00edcio, como v\u00eaem, era nenhum, pois meu pai n\u00e3o podia morrer; mas o povo, que n\u00e3o sabia disso, buscou uma causa ao sacrif\u00edcio, uma causa t\u00e3o grande como ele, e descobriu que o Dami\u00e3o devia ser filho de meu pai, e naturalmente filho ad\u00faltero. Investigaram o passado da vi\u00fava; acharam alguns recantos que se perdiam na obscuridade. O rosto de meu pai entrou a parecer conhecido de alguns; n\u00e3o faltou mesmo quem afirmasse ter ido a uma merenda, vinte anos antes, em casa da vi\u00fava, que era ent\u00e3o casada, e visto a\u00ed meu pai. Todas estas patranhas aborreceram tanto a meu pai, que ele determinou passar \u00e0 Bahia, onde casou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Com a tal senhora?<\/p>\n<p>\u2014 Justamente&#8230; Casou com D. Helena, bela como o sol, dizia ele. Um ano depois morria em Olinda a vi\u00fava, e o Dami\u00e3o vinha \u00e0 Bahia trazer a meu pai uma madeixa dos cabelos da m\u00e3e, e um colar que a moribunda pedia para ser usado pela mulher dele. D. Helena soube do epis\u00f3dio da flecha, e agradeceu a lembran\u00e7a da morta. Dami\u00e3o quis voltar para Olinda; meu pai disse-lhe que n\u00e3o, que fosse no ano seguinte. Dami\u00e3o ficou. Tr\u00eas meses depois uma paix\u00e3o desordenada&#8230; Meu pai soube da aleivosia de ambos, por um comensal da casa. Quis mat\u00e1-los; mas o mesmo que os denunciou avisou-os do perigo, e eles puderam evitar a morte. Meu pai voltou o punhal contra si, e enterrou-o no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cFilho, dizia-me ele, contando o epis\u00f3dio; dei seis golpes, cada um dos quais bastava para matar um homem, e n\u00e3o morri.\u201d Desesperado saiu de casa, e atirou-se ao mar. O mar restituiu-o \u00e0 terra. A morte n\u00e3o podia aceit\u00e1-lo: ele pertencia \u00e0 vida por todos os s\u00e9culos. N\u00e3o teve outro recurso mais do que fugir; veio para o Sul, onde alguns anos depois, no princ\u00edpio do s\u00e9culo passado, podemos ach\u00e1-lo na descoberta das minas. Era um modo de afogar o desespero, que era grande, pois amara muito a mulher, como um louco&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E ela? \u2014 S\u00e3o contos largos, e n\u00e3o me sobra tempo. Ela veio ao Rio de Janeiro, depois das duas invas\u00f5es francesas; creio que em 1713. J\u00e1 ent\u00e3o meu pai enriquecera com as minas, e residia na cidade fluminense, benquisto, com id\u00e9ias at\u00e9 de ser nomeado governador. D. Helena apareceu-lhe, acompanhada da m\u00e3e e de um tio. M\u00e3e e tio vieram dizer-lhe que era tempo de acabar com a situa\u00e7\u00e3o em que meu pai tinha colocado a mulher. A cal\u00fania pesara longamente sobre a vida da pobre senhora. Os cabelos iam-lhe embranquecendo: n\u00e3o era s\u00f3 a idade que chegava, eram principalmente os desgostos, as l\u00e1grimas. Mostraram-lhe uma carta escrita pelo comensal denunciante, pedindo perd\u00e3o a D. Helena da cal\u00fania que lhe levantara e confessando que o fizera levado de uma criminosa paix\u00e3o. Meu pai era uma boa alma; aceitou a mulher, a sogra e o tio. Os anos fizeram o seu of\u00edcio; todos tr\u00eas envelheceram, menos meu pai. Helena ficou com a cabe\u00e7a toda branca; a m\u00e3e e o tio voavam para a decrepitude; e nenhum deles tirava os olhos de meu pai, espreitando as c\u00e3s que n\u00e3o vinham, e as rugas ausentes. Um dia meu pai ouviu-lhes dizer que ele devia ter parte com o diabo. T\u00e3o forte! E acrescentava o tio: \u201cDe que serve o testamento, se temos de ir antes?\u201d Duas semanas depois morria o tio; a sogra acabou pateta, da\u00ed a um ano. Restava a mulher, que pouco mais durou.<\/p>\n<p>\u2014 O que me parece, aventurou o coronel, \u00e9 que eles vieram ao cheiro dos cobres&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Decerto.<\/p>\n<p>\u2014 &#8230;e que a tal D. Helena (Deus lhe perdoe!) n\u00e3o estava t\u00e3o inocente como dizia. \u00c9 verdade que a carta do denunciante&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O denunciante foi pago para escrever a carta, explicou o dr. Le\u00e3o; meu pai soube disso, depois da morte da mulher ao passar pela Bahia&#8230; Meia-noite! Vamos dormir; \u00e9 tarde; amanh\u00e3 direi o resto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, agora mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, senhores&#8230; S\u00f3 se for muito por alto.<\/p>\n<p>\u2014 Seja por alto.<\/p>\n<p>O doutor levantou-se e foi espiar a noite, estendendo o bra\u00e7o para fora, e recebendo alguns pingos de chuva na m\u00e3o. Depois voltou-se e deu com os dous olhando um para o outro, interrogativos. Fez lentamente um cigarro, acendeu-o, e, puxadas umas tr\u00eas fuma\u00e7as, concluiu a singular hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO VI<\/b><\/p>\n<p>\u2014 MEU PAI deixou pouco depois o Brasil, foi a Lisboa, e dali passou-se \u00e0 \u00cdndia, onde se demorou mais de cinco anos, e de onde voltou a Portugal, com alguns estudos feitos acerca daquela parte do mundo. Deu-lhes a \u00faltima lima, e f\u00ea-los imprimir, t\u00e3o a tempo, que o governo mandou-o chamar para entregar-lhe o governo de Goa. Um candidato ao cargo, logo que soube do caso, p\u00f4s em a\u00e7\u00e3o todos os meios poss\u00edveis e imposs\u00edveis. Empenhos, intrigas, maledic\u00eancia, tudo lhe servia de arma. Chegou a obter, por dinheiro, que um dos melhores latinistas da pen\u00ednsula, homem sem escr\u00fapulos, forjasse um texto latino da obra de meu pai, e o atribu\u00edsse a um frade agostinho, morto em Ad\u00e9m. E a tacha de plagi\u00e1rio acabou de eliminar meu pai, que perdeu o governo de Goa, o qual passou \u00e0s m\u00e3os do outro; perdendo tamb\u00e9m, o que \u00e9 mais, toda a considera\u00e7\u00e3o pessoal. Ele escreveu uma longa justifica\u00e7\u00e3o, mandou cartas para a \u00cdndia, cujas respostas n\u00e3o esperou, porque no meio desses trabalhos aborreceu-se tanto, que entendeu melhor deixar tudo, e sair de Lisboa. Esta gera\u00e7\u00e3o passa, disse ele, e eu fico. Voltarei c\u00e1 daqui a um s\u00e9culo, ou dous.<\/p>\n<p>\u2014 Veja isto, interrompeu o tabeli\u00e3o, parece cousa de ca\u00e7oada! Voltar da\u00ed a um s\u00e9culo \u2014 ou dous, como se fosse um ou dous meses. Que diz, \u201cseu\u201d coronel?<\/p>\n<p>\u2014 Ah! eu quisera ser esse homem! \u00c9 verdade que ele n\u00e3o voltou um s\u00e9culo depois&#8230; Ou voltou?<\/p>\n<p>\u2014 Ou\u00e7a-me. Saiu dali para Madri, onde esteve de amores com duas fidalgas, uma delas vi\u00fava e bonita como o sol, a outra casada, menos bela, por\u00e9m amorosa e terna como uma pomba-rola. O marido desta chegou a descobrir o caso, e n\u00e3o quis bater-se com meu pai, que n\u00e3o era nobre; mas a paix\u00e3o do ci\u00fame e da honra levou esse homem ofendido \u00e0 pr\u00e1tica de uma aleivosia, igual \u00e0 outra: mandou assassinar meu pai; os esbirros deram-lhe tr\u00eas punhaladas e quinze dias de cama. Restabelecido, deram-lhe um tiro; foi o mesmo que nada. Ent\u00e3o, o marido achou um meio de eliminar meu pai; tinha visto com ele alguns objetos, notas, e desenhos de cousas religiosas da \u00cdndia, e denunciou-o ao Santo Of\u00edcio, como dado a pr\u00e1ticas supersticiosas. O Santo Of\u00edcio, que n\u00e3o era omisso nem frouxo nos seus deveres, tomou conta dele, e condenou-o a c\u00e1rcere perp\u00e9tuo. Meu pai ficou aterrado. Na verdade, a pris\u00e3o perp\u00e9tua para ele devia ser a cousa mais horrorosa do mundo. Prometeu, o mesmo Prometeu foi desencadeado&#8230; N\u00e3o me interrompa, sr. Linhares, depois direi quem foi esse Prometeu. Mas, repito: ele foi desencadeado, enquanto que meu pai estava nas m\u00e3os do Santo Of\u00edcio, sem esperan\u00e7a. Por outro lado, ele refletiu consigo que, se era eterno, n\u00e3o o era o Santo Of\u00edcio. O Santo Of\u00edcio h\u00e1 de acabar um dia, e os seus c\u00e1rceres, e ent\u00e3o ficarei livre. Depois, pensou tamb\u00e9m que, desde que passasse um certo n\u00famero de anos, sem envelhecer nem morrer, tornar-se-ia um caso t\u00e3o extraordin\u00e1rio, que o mesmo Santo Of\u00edcio lhe abriria as portas. Finalmente, cedeu a outra considera\u00e7\u00e3o. \u201cMeu filho, disse-me ele, eu tinha padecido tanto naqueles longos anos de vida, tinha visto tanta paix\u00e3o m\u00e1, tanta mis\u00e9ria, tanta calamidade, que agradeci a Deus, o c\u00e1rcere e uma longa pris\u00e3o; e disse comigo que o Santo Of\u00edcio n\u00e3o era t\u00e3o mau, pois que me retirava por algumas dezenas de anos, talvez um s\u00e9culo, do espet\u00e1culo exterior&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 Ora essa!<\/p>\n<p>\u2014 Coitado! N\u00e3o contava com a outra fidalga, a vi\u00fava, que p\u00f4s em campo todos os recursos de que podia dispor, e alcan\u00e7ou-lhe a fuga da\u00ed a poucos meses. Sa\u00edram ambos de Espanha, meteram-se em Fran\u00e7a, e passaram \u00e0 It\u00e1lia, onde meu pai ficou residindo por longos anos. A vi\u00fava morreu-lhe nos bra\u00e7os; e, salvo uma paix\u00e3o que teve em Floren\u00e7a, por um rapaz nobre, com quem fugiu e esteve seis meses, foi sempre fiel ao amante. Repito, morreu-lhe nos bra\u00e7os, e ele padeceu muito, chorou muito, chegou a querer morrer tamb\u00e9m. Contou-me os atos de desespero que praticou; porque, na verdade, amara muito a formosa madrilena. Desesperado, meteu-se a caminho, e viajou por Hungria, Dalm\u00e1cia, Val\u00e1quia; esteve cinco anos em Constantinopla; estudou o turco a fundo, e depois o \u00e1rabe. J\u00e1 lhes disse que ele sabia muitas l\u00ednguas; lembra-me de o ver traduzir o padre-nosso em cinq\u00fcenta idiomas diversos. Sabia muito. E ci\u00eancias! Meu pai sabia uma infinidade de cousas: filosofia, jurisprud\u00eancia, teologia, arqueologia, qu\u00edmica, f\u00edsica, matem\u00e1ticas, astronomia, bot\u00e2nica; sabia arquitetura, pintura, m\u00fasica. Sabia o diabo.<\/p>\n<p>\u2014 Na verdade&#8230; \u2014 Muito, sabia muito. E fez mais do que estudar o turco; adotou o maometanismo. Mas deixou-o da\u00ed a pouco. Enfim, aborreceu-se dos turcos: era a sina dele aborrecer-se facilmente de uma cousa ou de um of\u00edcio. Saiu de Constantinopla, visitou outras partes da Europa, e finalmente passou-se a Inglaterra aonde n\u00e3o fora desde longos anos. Aconteceu-lhe a\u00ed o que lhe acontecia em toda a parte: achou todas as caras novas; e essa troca de caras no meio de uma cidade, que era a mesma deixada por ele, dava-lhe a impress\u00e3o de uma pe\u00e7a teatral, em que o cen\u00e1rio n\u00e3o muda, e s\u00f3 mudam os atores. Essa impress\u00e3o, que a princ\u00edpio foi s\u00f3 de pasmo, passou a ser de t\u00e9dio; mas agora, em Londres, foi outra cousa pior, porque despertou nele uma id\u00e9ia, que nunca tivera, uma id\u00e9ia extraordin\u00e1ria, pavorosa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que foi?<\/p>\n<p>\u2014 A id\u00e9ia de ficar doido um dia. Imaginem: um doido eterno. A como\u00e7\u00e3o que esta id\u00e9ia lhe dava foi tal que quase enlouqueceu ali mesmo. Ent\u00e3o lembrou-se de outra cousa. Como tinha o boi\u00e3o do elixir consigo, lembrou de dar o resto a alguma senhora ou homem, e ficariam os dous imortais. Sempre era uma companhia. Mas, como tinha tempo diante de si, n\u00e3o precipitou nada; achou melhor esperar pessoa cabal. O certo \u00e9 que essa id\u00e9ia o tranq\u00fcilizou&#8230; Se lhe contasse as aventuras que ele teve outra vez na Inglaterra, e depois em Fran\u00e7a, e no Brasil, onde voltou no vice-reinado do conde de Resende, n\u00e3o acabava mais, e o tempo urge, al\u00e9m do que o sr. coronel est\u00e1 com sono&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual sono!<\/p>\n<p>\u2014 Pelo menos est\u00e1 cansado.<\/p>\n<p>\u2014 Nem isso. Se eu nunca ouvi uma cousa que me interessasse tanto. Vamos; conte essas aventuras.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; direi somente que ele achou-se em Fran\u00e7a por ocasi\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o de 1789, assistiu a tudo, \u00e0 queda e morte do rei, dos girondinos, de Danton, de Robespierre; morou algum tempo com Filinto El\u00edsio, o poeta, sabem? Morou com ele em Paris; foi um dos elegantes do Diret\u00f3rio, deu-se com o primeiro C\u00f4nsul&#8230; Quis at\u00e9 naturalizar-se e seguir as armas e a pol\u00edtica; podia ter sido um dos marechais do imp\u00e9rio, e pode ser at\u00e9 que n\u00e3o tivesse havido Waterloo. Mas ficou t\u00e3o enjoado de algumas apostasias pol\u00edticas, e t\u00e3o indignado, que recusou a tempo. Em 1808 achamo-lo em viagem com a corte real para o Rio de Janeiro. Em 1822 saudou a independ\u00eancia; e fez parte da Constituinte; trabalhou no 7 de Abril; festejou a Maioridade; h\u00e1 dous anos era deputado. Neste ponto os dous ouvintes redobraram de aten\u00e7\u00e3o. Compreenderam que iam chegar ao desenlace, e n\u00e3o quiseram perder uma s\u00edlaba daquela parte da narra\u00e7\u00e3o, em que iam saber da morte do imortal. Pela sua parte, o dr. Le\u00e3o parara um pouco; podia ser uma lembran\u00e7a dolorosa; podia tamb\u00e9m ser um recurso para agu\u00e7ar mais o apetite. O tabeli\u00e3o ainda lhe perguntou, se o pai n\u00e3o tinha dado a algu\u00e9m o resto do elixir, como queria; mas o narrador n\u00e3o lhe respondeu nada. Olhava para dentro; enfim, terminou deste modo:<\/p>\n<p>\u2014 A alma de meu pai chegara a um grau de profunda melancolia. Nada o contentava; nem o sabor da gl\u00f3ria, nem o sabor do perigo, nem o do amor. Tinha ent\u00e3o perdido minha m\u00e3e, e viv\u00edamos juntos, como dous solteir\u00f5es. A pol\u00edtica perdera todos os encantos aos olhos dum homem que pleiteara um trono, e um dos primeiros do universo. Vegetava consigo; triste, impaciente, enjoado. Nas horas mais alegres fazia projetos para o s\u00e9culo XX e XXIV, porque j\u00e1 ent\u00e3o me desvendara todo o segredo da vida dele. N\u00e3o acreditei, confesso; e imaginei que fosse alguma perturba\u00e7\u00e3o mental; mas as provas foram completas, e demais a observa\u00e7\u00e3o mostrou-me que ele estava em plena sa\u00fade. S\u00f3 o esp\u00edrito, como digo, parecia abatido e desencantado. Um dia, dizendo-lhe eu que n\u00e3o compreendia tamanha tristeza, quando eu daria a alma ao diabo para ter a vida eterna, meu pai sorriu com uma tal express\u00e3o de superioridade, que me enterrou cem palmos abaixo do ch\u00e3o. Depois, respondeu que eu n\u00e3o sabia o que dizia; que a vida eterna afigurava-se-me excelente, justamente porque a minha era limitada e curta; em verdade, era o mais atroz dos supl\u00edcios. Tinha visto morrer todas as suas afei\u00e7\u00f5es; devia perder-me um dia, e todos os mais filhos que tivesse pelos s\u00e9culos adiante. Outras afei\u00e7\u00f5es e n\u00e3o poucas o tinham enganado; e umas e outras, boas e m\u00e1s, sinceras e p\u00e9rfidas, era-lhe for\u00e7oso repeti-las, sem tr\u00e9gua, sem um respiro ao menos, porquanto a experi\u00eancia n\u00e3o lhe podia valer contra a necessidade de agarrar-se a alguma cousa, naquela passagem r\u00e1pida dos homens e das gera\u00e7\u00f5es. Era uma necessidade da vida eterna; sem ela, cairia na dem\u00eancia. Tinha provado tudo, esgotado tudo; agora era a repeti\u00e7\u00e3o, a monotonia, sem esperan\u00e7as, sem nada. Tinha de relatar a outros filhos, vinte ou trinta s\u00e9culos mais tarde, o que me estava agora dizendo; e depois a outros, e outros, e outros, um n\u00e3o acabar mais nunca. Tinha de estudar novas l\u00ednguas, como faria An\u00edbal, se vivesse at\u00e9 hoje: e para qu\u00ea? para ouvir os mesmos sentimentos, as mesmas paix\u00f5es&#8230; E dizia-me tudo isso, verdadeiramente abatido. N\u00e3o parece esquisito? Enfim um dia, como eu fizesse a alguns amigos uma exposi\u00e7\u00e3o do sistema homeop\u00e1tico, vi reluzir nos olhos de meu pai um fogo desusado e extraordin\u00e1rio. N\u00e3o me disse nada. De noite, vieram chamar-me ao quarto dele. Achei-o moribundo; disse-me ent\u00e3o, com a l\u00edngua tr\u00f4pega, que o princ\u00edpio homeop\u00e1tico fora para ele a salva\u00e7\u00e3o. Similia similibus curantur. Bebera o resto do elixir, e assim como a primeira metade lhe dera a vida, a segunda dava-lhe a morte. E, dito isto, expirou.<\/p>\n<p>O coronel e o tabeli\u00e3o ficaram algum tempo calados, sem saber que pensassem da famosa hist\u00f3ria; mas a seriedade do m\u00e9dico era t\u00e3o profunda, que n\u00e3o havia duvidar. Creram no caso, e creram tamb\u00e9m definitivamente na homeopatia. Narrada a hist\u00f3ria a outras pessoas, n\u00e3o faltou quem supusesse que o m\u00e9dico era louco; outros atribu\u00edram-lhe o intuito de tirar ao coronel e ao tabeli\u00e3o o desgosto manifestado por ambos de n\u00e3o poderem viver eternamente, mostrando-lhes que a morte \u00e9, enfim, um benef\u00edcio. Mas a suspeita de que ele apenas quis propagar a homeopatia entrou em alguns c\u00e9rebros, e n\u00e3o era inveross\u00edmil. Dou este problema aos estudiosos. Tal \u00e9 o caso extraordin\u00e1rio, que h\u00e1 anos, com outro nome, e por outras palavras, contei a este bom povo, que provavelmente j\u00e1 os esqueceu a ambos.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAP\u00cdTULO PRIMEIRO \u2014 MEU PAI NASCEU em 1600&#8230; \u2014 Perd\u00e3o, em 1800, naturalmente&#8230; \u2014 N\u00e3o, senhor, replicou o dr. Le\u00e3o, de um modo grave e triste; foi em 1600. Estupefa\u00e7\u00e3o dos ouvintes, que eram dous, o coronel Bertioga, e o tabeli\u00e3o da vila, Jo\u00e3o Linhares. A vila era na prov\u00edncia fluminense; suponhamos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-117139","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Imortal, Machado de Assis, Obra Completa O Imortal<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Imortal, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Imortal\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O 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