{"id":117137,"date":"2017-03-31T18:41:26","date_gmt":"2017-03-31T20:41:26","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117137"},"modified":"2017-03-31T18:41:26","modified_gmt":"2017-03-31T20:41:26","slug":"o-escrivao-coimbra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-escrivao-coimbra","title":{"rendered":"O Escriv\u00e3o Coimbra"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Publicado originalmente em Almanaque Brasileiro Garnier 1906<\/b><\/p>\n<p>Aparentemente h\u00e1 poucos espet\u00e1culos t\u00e3o melanc\u00f3licos como um anci\u00e3o comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, \u00e9 alegre; essa persist\u00eancia em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa \u00e9 ainda forte e mo\u00e7a. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o anci\u00e3o estende os dedos para escolher o n\u00famero que h\u00e1 de dar a sorte grande amanh\u00e3 \u2014 ou depois \u2014 um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com f\u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o era a f\u00e9 que faltava ao escriv\u00e3o Coimbra. Tamb\u00e9m n\u00e3o era a esperan\u00e7a. Uma coisa n\u00e3o vai sem outra. N\u00e3o confundas a f\u00e9 na Fortuna com a f\u00e9 religiosa. Tamb\u00e9m tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome; mas aos cinq\u00fcenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incr\u00e9dulo. N\u00e3o deixou logo a irmandade; a esposa p\u00f4de cont\u00ea-lo no exerc\u00edcio do cargo de mes\u00e1rio e levava-o \u00e0s festas do santo; ela, por\u00e9m, morreu, e o vi\u00favo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irm\u00e3o remido para n\u00e3o tornar l\u00e1. N\u00e3o buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da ora\u00e7\u00e3o; ele \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o rezava por si nem por ningu\u00e9m. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religi\u00e3o. Com familiares, gostava de dizer pilh\u00e9rias sobre devotas e padres.<\/p>\n<p>Aos sessenta anos, j\u00e1 n\u00e3o cria em nada, fosse do c\u00e9u ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua f\u00e9 e esperan\u00e7a. Poucos bilhetes comprava a princ\u00edpio, mas a idade, e depois a solid\u00e3o vieram apurando aquele costume, e o levaram a n\u00e3o deixar passar loteria sem bilhete.<\/p>\n<p>Nos primeiros tempos, n\u00e3o vindo a sorte grande, prometia n\u00e3o comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas l\u00e1 aparecia algu\u00e9m que o convidava a ficar com um bonito n\u00famero, comprava o n\u00famero e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora at\u00e9 chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos. O escrevente juramentado, um Amaral que ainda vive, foi o dem\u00f4nio tentador nos seus desfalecimentos. T\u00e3o depressa descobriu a devo\u00e7\u00e3o do escriv\u00e3o, come\u00e7ou a anim\u00e1-lo nela, contando-lhe lances de pessoas que tinham enriquecido de um momento para outro.<\/p>\n<p>\u2014 Fulano foi assim, Sicrano assim, dizia-lhe Amaral expondo a aventura de cada um.<\/p>\n<p>Coimbra ouvia e cria. J\u00e1 agora cedia \u00e0s mil maneiras de convidar a sorte, a que a supersti\u00e7\u00e3o pode emprestar certeza, n\u00famero de uns autos, soma de umas custas, um arranjo casual de algarismos, tudo era combina\u00e7\u00e3o para encomendar bilhetes, compr\u00e1-los e esperar. Na primeira loteria de cada ano comprava o n\u00famero do ano; empregou este m\u00e9todo desde 1884. Na \u00faltima loteria de 1892 inventou outro, trocou os algarismos da direita para a esquerda e comprou o n\u00famero 2981. J\u00e1 ent\u00e3o n\u00e3o cansava por duas raz\u00f5es fundamentais e uma acidental. Sabeis das primeiras, a necessidade e o costume; a \u00faltima \u00e9 que a Fortuna negaceava com gentileza. Nem todos os bilhetes sa\u00edam brancos. \u00c0s vezes (parecia de prop\u00f3sito) Coimbra dizia de um bilhete que era o \u00faltimo e n\u00e3o compraria outro se lhe sa\u00edsse branco; corria a roda, tirava cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is, ou cem, ou vinte, ou ainda o mesmo dinheiro. Quer dizer que tamb\u00e9m podia tirar a sorte grande; em todo caso, aquele dinheiro dava para comprar de gra\u00e7a alguns bilhetes. \u201c era a sua pr\u00f3pria express\u00e3o. Uma vez a sorte grande saiu dois n\u00fameros adiante do dele, 7377; o dele era 7375. O escriv\u00e3o criou alma nova.<\/p>\n<p>Assim viveu os \u00faltimos anos do Imp\u00e9rio e os primeiros da Rep\u00fablica, sem j\u00e1 crer em nenhum dos dois regimes. N\u00e3o cria em nada. A pr\u00f3pria justi\u00e7a, em que era oficial, n\u00e3o tinha a sua f\u00e9; parecia-lhe uma institui\u00e7\u00e3o feita para conciliar ou perpetuar os desacordos humanos, mas por diversos e contr\u00e1rios caminhos, ora \u00e0 direita, ora \u00e0 esquerda. N\u00e3o conhecendo as Ordena\u00e7\u00f5es do Reino, salvo de nome, nem as leis imperiais e republicanas, acreditava piamente que tanto valiam na boca de autores como de r\u00e9us, isto \u00e9, que formavam um reposit\u00f3rio de disposi\u00e7\u00f5es avessas e cabidas a todas as situa\u00e7\u00f5es e pretens\u00f5es. N\u00e3o lhe atribuas nenhum ceticismo elegante; n\u00e3o era dessa casta de esp\u00edritos que temperam a descren\u00e7a nos homens e nas coisas com um sorriso fino e amigo. N\u00e3o, a descren\u00e7a era nele como uma capa esfarrapada.<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 vez saiu do Rio de Janeiro; foi para ir ao Esp\u00edrito Santo \u00e0 cata de uns diamantes que n\u00e3o achou. Houve quem dissesse que essa aventura \u00e9 que lhe pegou o gosto e a f\u00e9 na loteria; tamb\u00e9m n\u00e3o faltou quem sugerisse o contr\u00e1rio, que a f\u00e9 na loteria \u00e9 que lhe dera a vista antecipada dos diamantes. Uma e outra explica\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel terceira explica\u00e7\u00e3o, alguma causa comum a diamantes e pr\u00eamios. A alma humana \u00e9 t\u00e3o sutil e complicada que traz confus\u00e3o \u00e0 vista nas suas opera\u00e7\u00f5es exteriores. Fosse como fosse, s\u00f3 daquela vez saiu do Rio de Janeiro. O mais do tempo viveu nesta cidade, onde envelheceu e morreu. A irmandade de S. Bernardo tomou a si dar-lhe cova e t\u00famulo, n\u00e3o que lhe faltassem a ele meios disso, como se vai ver, mas por uma esp\u00e9cie de obriga\u00e7\u00e3o moral com o seu fundador.<\/p>\n<p>Morreu no come\u00e7o da presid\u00eancia Campos Sales, em 1899, fins de abril. Vinha de assistir ao casamento do escrevente Amaral, na qualidade de testemunha, quando foi acometido de uma congest\u00e3o, e antes da meia-noite era defunto. Os conselhos que se lhe acharam no testamento podem todos resumir-se nesta palavra: persistir. Amaral requereu traslado daquele documento para uso e guia do filho, que vai em cinco anos, e entrou para o col\u00e9gio. F\u00ea-lo com sinceridade, e n\u00e3o sem tristeza, porque a morte de Coimbra sempre lhe pareceu efeito de seu caiporismo; n\u00e3o dera tempo a nenhuma lembran\u00e7a afetuosa do velho amigo, testemunha do casamento e prov\u00e1vel compadre.<\/p>\n<p>Antes do golpe que o levou, Coimbra n\u00e3o padecia nada, n\u00e3o tinha a menor les\u00e3o, apenas algum cansa\u00e7o. Todos os seus \u00f3rg\u00e3os funcionavam bem, e o mesmo c\u00e9rebro, se nunca foi grande coisa, n\u00e3o era agora menos que dantes. Talvez a mem\u00f3ria acusasse alguma debilidade, mas ele consolava-se do mal dizendo que \u201c. No foro era benquisto, e no cart\u00f3rio respeitado. Em 1897, pelo S. Jo\u00e3o, o escrevente Amaral insinuou-lhe a conveni\u00eancia de descansar e prop\u00f4s-se a ficar \u00e0 testa do cart\u00f3rio para seguir \u201c. Coimbra recusou, agradecendo. Entretanto, n\u00e3o deixava de temer que viesse a fraquear e cair de todo, sem mais corpo nem alma que dar ao of\u00edcio. J\u00e1 n\u00e3o sa\u00eda do cart\u00f3rio, \u00e0s tardes, sem um olhar de saudades pr\u00e9vias.<\/p>\n<p>Chegou o Natal de 1898. Desde a primeira semana de dezembro foram postos \u00e0 venda os bilhetes da grande loteria de quinhentos contos, chamada por alguns cambistas, nos an\u00fancios, loteria-monstro. Coimbra comprou um. Parece que dessa vez n\u00e3o cedeu a nenhuma combina\u00e7\u00e3o de algarismos; escolheu o bilhete dentre os que lhe apresentaram no balc\u00e3o. Em casa, guardou-o na gaveta da mesa e esperou.<\/p>\n<p>\u2014 Desta vez, sim, disse ele no dia seguinte ao escrevente Amaral, desta vez cesso de tentar fortuna; se n\u00e3o tirar nada, deixo de jogar na loteria.<\/p>\n<p>Amaral ia aprovar a resolu\u00e7\u00e3o, mas uma id\u00e9ia contr\u00e1ria suspendeu a palavra antes que ela lhe ca\u00edsse da boca, e ele trocou a afirma\u00e7\u00e3o por uma consulta. Por que deixar para sempre? Loteria \u00e9 mulher, pode acabar cedendo um dia.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 n\u00e3o estou em idade de esperar, retrucou o escriv\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Esperan\u00e7a n\u00e3o tem idade, sentenciou Amaral, recordando uns versos que fizera outrora, e concluiu com este velho ad\u00e1gio: Quem espera sempre alcan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu n\u00e3o esperarei e n\u00e3o alcan\u00e7arei, teimou o escriv\u00e3o; este bilhete \u00e9 o \u00faltimo.<\/p>\n<p>Tendo afirmado a mesma coisa tantas vezes era prov\u00e1vel que ainda agora desmentisse a afirma\u00e7\u00e3o, e, malogrado no dia de Natal, voltaria \u00e0 sorte no dia de Reis. Foi o que Amaral pensou e n\u00e3o insistiu em convenc\u00ea-lo de um v\u00edcio que estava no sangue. A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que Coimbra era sincero. Tinha aquela tenta\u00e7\u00e3o por \u00faltima. N\u00e3o pensou no caso de ser favorecido, como de outras vezes, com alguns cinq\u00fcenta ou cem mil-r\u00e9is, quantia m\u00ednima para os efeitos da ambi\u00e7\u00e3o, mas bastante para convid\u00e1-lo a reincidir. P\u00f4s a alma nos dois extremos: nada ou quinhentos contos. Se fosse nada, era o fim. Faria como fez com a irmandade e a religi\u00e3o; deitaria o h\u00e1bito \u00e0s urtigas, remia-se de fregu\u00eas e iria ouvir a missa do Diabo.<\/p>\n<p>Os dias come\u00e7aram a passar, como eles costumam, com as suas vinte e quatro horas iguais umas \u00e0s outras, na mesma ordem, com a mesma sucess\u00e3o de luz e trevas, trabalho e repouso. A alma do escriv\u00e3o aguardava o dia 24, v\u00e9spera do Natal, quando devia correr a roda, e continuou os traslados, juntadas e conclus\u00f5es dos seus autos. Conv\u00e9m dizer, em louvor deste homem que nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o estranha lhe tirara o gosto \u00e0 escrivania, por mais que preferisse a riqueza ao trabalho.<\/p>\n<p>S\u00f3 quando o dia 20 alvoreceu e p\u00f4s a menor dist\u00e2ncia a data fat\u00eddica \u00e9 que a imagem dos quinhentos contos veio interpor-se de vez aos pap\u00e9is do foro. Mas n\u00e3o foi s\u00f3 a maior proximidade que trouxe este efeito, foram as conversas na rua e no mesmo cart\u00f3rio acerca de sortes grandes, e, mais que conversas, a pr\u00f3pria figura de um homem beneficiado com uma delas, cinco anos antes. Coimbra recebera um tal Guimar\u00e3es, testamenteiro de um importador de sapatos, que ali foi assinar um termo. Enquanto se lavrava o termo, algu\u00e9m que ia com ele perguntou-lhe se estava \u201c.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, disse Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m nem sempre h\u00e1 de ser feliz.<\/p>\n<p>Coimbra n\u00e3o teve tempo de perguntar nada; o amigo do testamenteiro deu-lhe not\u00edcia de que este, em 1893, tirara duzentos contos. Coimbra fitou o testamenteiro cheio de espanto. Era ele, era o pr\u00f3prio, era algu\u00e9m que, mediante uma pequena quantia e um bilhete numerado, entrara na posse de duzentos contos de r\u00e9is. Coimbra olhou bem para o homem. Era um homem, um feliz.<\/p>\n<p>\u2014 Duzentos contos? disse ele para ouvir a confirma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>\u2014 Duzentos contos, repetiu Guimar\u00e3es. N\u00e3o foi por meu esfor\u00e7o nem desejo, explicou; n\u00e3o costumava comprar, e daquela vez quase quebro a cabe\u00e7a ao pequeno que me queria vender o bilhete; era um italiano. Guardate, signore, implorava ele metendo-me o bilhete \u00e0 cara. Cansado de ralhar, entrei num corredor e comprei o bilhete. Tr\u00eas dias depois tinha o dinheiro na m\u00e3o. Duzentos contos.<\/p>\n<p>O escriv\u00e3o n\u00e3o errou o termo porque nele j\u00e1 os dedos \u00e9 que eram escriv\u00e3es; realmente, n\u00e3o pensou em nada mais que decorar esse homem, reproduzi-lo na mem\u00f3ria, escrut\u00e1-lo, bradar-lhe que tamb\u00e9m tinha bilhete para os quinhentos contos do dia 24 e exigir-lhe o segredo de os tirar. Guimar\u00e3es assinou o termo e saiu; Coimbra teve \u00edmpeto de ir atr\u00e1s dele, apalp\u00e1-lo, ver se era mesmo gente, se era carne, se era sangue&#8230; Ent\u00e3o era verdade? Havia pr\u00eamios? Tiravam-se pr\u00eamios grandes? E a paz com que aquele sujeito contava o lance da compra! Tamb\u00e9m ele seria assim, se lhe sa\u00edssem os duzentos contos, quanto mais os quinhentos!<\/p>\n<p>Essas frases cortadas que a\u00ed ficam dizem vagamente a confus\u00e3o das id\u00e9ias do escriv\u00e3o. At\u00e9 agora trazia em si a f\u00e9, mas j\u00e1 reduzida a costume s\u00f3, um costume longo e forte, sem assombros nem sobressaltos. Agora via um homem que passara de nada a duzentos contos com um simples gesto de fastio. Que ele nem sequer tinha o gosto e a comich\u00e3o da loteria; ao contr\u00e1rio, quis quebrar a cabe\u00e7a da Fortuna; ela, por\u00e9m, com olhos de namorada, f\u00ea-lo trocar a impaci\u00eancia em condescend\u00eancia, pagar-lhe cinco ou dez mil-r\u00e9is, e tr\u00eas dias depois&#8230; Coimbra fez todo o mais trabalho do dia automaticamente.<\/p>\n<p>De tarde, caminhando para casa, foi-se-lhe metendo na alma a persuas\u00e3o dos quinhentos contos. Era mais que os duzentos do outro, mas tamb\u00e9m ele merecia mais, teimando como vinha de anos estirados, desertos e brancos, mal borrifados de algumas centenas, raras, de mil-r\u00e9is. Tinha maior direito que o outro, talvez maior que ningu\u00e9m. Jantou, foi \u00e0 casa pegada, onde nada contou pelo receio de n\u00e3o tirar coisa nenhuma e rirem-se dele. Dormiu e sonhou com o bilhete e o pr\u00eamio; foi o pr\u00f3prio cambista que lhe deu a nova da felicidade. N\u00e3o se lembrava bem, de manh\u00e3, se o cambista o procurou ou se ele procurou o cambista; lembrava-se bem das notas, eram parece que verdes, grandes e frescas. Ainda apalpou as m\u00e3os ao acordar; pura ilus\u00e3o!<\/p>\n<p>Ilus\u00e3o embora, deixara-lhe nas palmas a maciez do sonho, o fresco, o verde, o avultado dos contos. Ao passar pelo Banco da Rep\u00fablica pensou que poderia levar ali o dinheiro, antes de o empregar em casas, t\u00edtulos e outros bens. Esse dia 21 foi pior, em \u00e2nsia, que o dia 20. Coimbra estava t\u00e3o nervoso que achou o trabalho demasiado, quando de ordin\u00e1rio ficava alegre com a concorr\u00eancia de pap\u00e9is. Melhorou um pouco, \u00e0 tarde; mas, ao sair entrou a ouvir meninos que vendiam bilhetes de loteria, e esta linguagem, gritada da grande banca p\u00fablica, novamente lhe fez agitar a alma.<\/p>\n<p>Ao passar pela igreja onde era venerada a imagem de S. Bernardo, cuja irmandade ele fundou, Coimbra deitou olhos saudosos ao passado. Tempos em que ele cria! Outrora faria uma promessa ao santo; agora&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Infelizmente n\u00e3o! suspirou consigo.<\/p>\n<p>Sacudiu a cabe\u00e7a e guiou para casa. N\u00e3o jantou sem que a imagem do santo viesse espreit\u00e1-lo duas ou tr\u00eas vezes, com o olhar ser\u00e1fico e o gesto de imortal bem-aventuran\u00e7a. Ao pobre escriv\u00e3o vinha agora mais esta m\u00e1goa, este outro deserto \u00e1rido e maior. N\u00e3o cria; faltava-lhe a doce f\u00e9 religiosa, dizia consigo. Saiu a passeio, \u00e0 noite e, para encurtar caminho, enfiou por um beco. Deixando o beco, pareceu-lhe que algu\u00e9m chamava por ele, voltou a cabe\u00e7a e viu a pessoa do santo, agora mais celeste; j\u00e1 n\u00e3o era a imagem de madeira, era a pessoa, como digo, a pessoa viva do grande doutor crist\u00e3o. A ilus\u00e3o foi t\u00e3o completa que lhe pareceu ver o santo estender-lhe as m\u00e3os, e nelas as notas do sonho, aquelas notas largas e frescas.<\/p>\n<p>Imagina essa noite de 21 e a manh\u00e3 de 22. N\u00e3o chegou ao cart\u00f3rio sem passar pela igreja da irmandade e entrar outra vez nela. A raz\u00e3o que deu a si mesmo foi saber se a gente local trataria a sua institui\u00e7\u00e3o com o zelo do princ\u00edpio. Achou l\u00e1 o sacrist\u00e3o, um velho zeloso que veio para ele com a alma nos olhos, exclamando:<\/p>\n<p>\u2014 Vossa senhoria por aqui!<\/p>\n<p>\u2014 Eu mesmo, \u00e9 verdade. Passei, lembrou-me saber como \u00e9 aqui tratado o meu h\u00f3spede.<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00f3spede? perguntou o sacrist\u00e3o sem entender a linguagem figurada.<\/p>\n<p>\u2014 O meu velho S. Bernardo.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! S. Bernardo! Gomo h\u00e1 de ser tratado um santo milagroso como ele \u00e9? Vossa Senhoria veio \u00e0 festa deste ano?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pude.<\/p>\n<p>\u2014 Pois esteve muito bonita. Houve muitas esmolas e grande concorr\u00eancia. A mesa foi reeleita, sabe?<\/p>\n<p>Coimbra n\u00e3o sabia, mas disse que sim, e sinceramente achou que devia sab\u00ea-lo; chamou-se descuidado, relaxado, e voltou para a imagem olhos que sup\u00f4s contritos e pode ser que o fossem. Ao sacrist\u00e3o pareceram devotos. Tamb\u00e9m este elevou os seus \u00e0 imagem, e fez a rever\u00eancia habitual, inclinando meio corpo e dobrando a perna. Coimbra n\u00e3o foi t\u00e3o extenso, mas imitou o gesto.<\/p>\n<p>\u2014 A escola vai bem, sabe? disse o sacrist\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 A escola? Ah! sim. Ainda existe?<\/p>\n<p>\u2014 Se existe? Tem setenta e nove alunos.<\/p>\n<p>Tratava-se de uma escola que ainda em tempo da esposa do escriv\u00e3o, a irmandade fundara com o nome do santo, a escola de S. Bernardo. O desapego religioso do escriv\u00e3o chegara ao ponto de n\u00e3o acompanhar a prosperidade do estabelecimento, quase esquec\u00ea-lo de todo. Ouvindo a not\u00edcia, ficou pasmado. No tempo dele n\u00e3o houve mais de uma d\u00fazia de alunos, agora eram setenta e nove. Por algumas perguntas sobre a administra\u00e7\u00e3o, soube que a irmandade pagava a um diretor e tr\u00eas professores. No fim do ano ia haver a distribui\u00e7\u00e3o dos pr\u00eamios, grande festa a que esperavam trazer o arcebispo.<\/p>\n<p>Quando saiu da igreja, trazia Coimbra n\u00e3o sei que ressurrei\u00e7\u00f5es vagas e cinzentas. Propriamente n\u00e3o tinham cor, mas esta express\u00e3o serve a indicar uma fei\u00e7\u00e3o nem viva, como dantes, nem totalmente morta. O cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ber\u00e7o e t\u00famulo, \u00e9 tamb\u00e9m hospital. Guarda algum doente, que um dia, sem saber como, convalesce do mal, sacode a paralisia e d\u00e1 um salto em p\u00e9. No cora\u00e7\u00e3o de Coimbra o enfermo n\u00e3o deu salto, entrou a mover os dedos e os l\u00e1bios, com tais sinais de vida que pareciam chamar o escriv\u00e3o e dizer-lhe coisas de outro tempo.<\/p>\n<p>\u2014 O \u00faltimo! Quinhentos contos, bradavam os meninos, quando ele ia a entrar no cart\u00f3rio. Quinhentos contos! O \u00faltimo! Estas vozes entraram com ele e repetiram-se v\u00e1rias vezes, durante o dia, ou da boca de outros vendedores ou dos ouvidos dele mesmo. Quando voltou para casa, passou novamente pela igreja mas n\u00e3o entrou; um diabo ou o que quer que era desviou o gesto que ele come\u00e7ou a fazer.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi menos inquieto o dia 23. Coimbra lembrou-se de passar pela escola de S. Bernardo; j\u00e1 n\u00e3o era na casa antiga; estava em outra, uma boa casa assobradada, de sete janelas, port\u00e3o de ferro ao lado e jardim. Como \u00e9 que ele fora um dos primeiros autores de obra t\u00e3o consp\u00edcua? Passou duas vezes por ela, chegou a querer entrar, mas n\u00e3o saberia que dissesse ao diretor e temeu o riso dos meninos. Foi para o cart\u00f3rio e, de caminho, mil recorda\u00e7\u00f5es lhe restitu\u00edam o tempo em que aprendia a ler. Que ele tamb\u00e9m andou na escola, e evitou muita palmatoada com promessas de ora\u00e7\u00f5es a santos. Um dia, em casa, amea\u00e7ado de apanhar por haver tirado ao pai um doce, ali\u00e1s indigesto, prometeu uma vela de cera a Nossa Senhora. A m\u00e3e pediu por ele, e alcan\u00e7ou perdo\u00e1-lo; ele pediu \u00e0 m\u00e3e o pre\u00e7o da vela e cumpriu a promessa. Reminisc\u00eancias velhas e amigas que vinham temperar o \u00e1rido preparo dos pap\u00e9is. Ao mesmo S. Bernardo fizera mais de uma promessa, quando era irm\u00e3o efetivo e mes\u00e1rio, e cumpriu-as todas. Onde iam tais tempos?<\/p>\n<p>Enfim, surdiu a manh\u00e3 de 24 de dezembro. A roda tinha de correr ao meio-dia. Coimbra acordou mais cedo que de costume, mal come\u00e7ava a clarear. Conquanto trouxesse de cor o n\u00famero do bilhete, lembrou-se de o escrever na folha da carteira para hav\u00ea-lo bem fixo, e no caso de tirar a sorte grande&#8230; Esta id\u00e9ia f\u00ea-lo estremecer. Uma derradeira esperan\u00e7a (que o homem de f\u00e9 nunca perde) lhe perguntou sem palavras: que \u00e9 que lhe impedia tirar os quinhentos contos? Quinhentos contos! Tais coisas viu neste algarismo que fechou os olhos deslumbrados. O ar, como um eco, repetiu: Quinhentos contos! E as m\u00e3os apalparam a mesma quantia.<\/p>\n<p>De caminho, foi \u00e0 igreja, que achou aberta e deserta. N\u00e3o, n\u00e3o estava deserta. Uma preta velha, ajoelhada diante do altar de S. Bernardo, com um ros\u00e1rio na m\u00e3o, parecia pedir-lhe alguma coisa, se n\u00e3o \u00e9 que lhe pagava em ora\u00e7\u00f5es o beneficio j\u00e1 recebido. Coimbra viu a postura e o gesto. Advertiu que ele era o autor daquela consola\u00e7\u00e3o da devota e olhou tamb\u00e9m para a imagem. Era a mesma do seu tempo. A preta acabou beijando a cruz do ros\u00e1rio, persignou-se, levantou-se e saiu.<\/p>\n<p>Ia a sair tamb\u00e9m, quando duas figuras lhe passaram pelo c\u00e9rebro: a sorte grande, naturalmente, e a escola. Atr\u00e1s delas veio uma sugest\u00e3o, depois um c\u00e1lculo. Este c\u00e1lculo, por mais que digam do escriv\u00e3o que ele amava o dinheiro (e amava), foi desinteressado; era dar de si muita coisa, contribuir para elevar mais e mais a escola, que era tamb\u00e9m obra sua. Prometeu dar cem contos de r\u00e9is para o ensino, para a escola, escola de S. Bernardo, se tirasse a sorte grande. N\u00e3o fez a promessa nominalmente, mas por estas palavras sem sobrescrito, e todavia sinceras: \u201c. J\u00e1 na rua, considerou bem que n\u00e3o perdia nada se n\u00e3o tirasse a sorte, e ganharia quatrocentos contos, se a tirasse. Picou o passo e ainda uma vez penetrou no cart\u00f3rio, onde buscou enterrar-se no trabalho.<\/p>\n<p>N\u00e3o se contam as agonias daquele dia 24 de dezembro de 1898. Imagine-as quem j\u00e1 esperou quinhentos contos de r\u00e9is. Nem por isso deixou de receber e contar as quantias que lhe eram devidas por atos judiciais. Parece que entre onze horas e meio-dia, depois de uma autua\u00e7\u00e3o e antes de uma conclus\u00e3o, repetiu a promessa de cem contos \u00e0 escola: \u201c Bateu meio-dia e o cora\u00e7\u00e3o do Coimbra n\u00e3o bateu menos, com a diferen\u00e7a que as doze pancadas do rel\u00f3gio de S. Francisco de Paula foram o que elas s\u00e3o desde que se inventaram rel\u00f3gios, uma a\u00e7\u00e3o certa, pausada e acabada, e as do cora\u00e7\u00e3o daquele homem foram precipitadas, convulsas, desiguais, sem acabar nunca. Quando ele ouviu a \u00faltima de S. Francisco, n\u00e3o se p\u00f4de ter que n\u00e3o pensasse mais vivo na roda ou o que quer que era que faria sair os n\u00fameros e os pr\u00eamios da loteria. Era agora&#8230; Teve id\u00e9ia de ir dali saber not\u00edcias, mas recuou. Mal se concebe tanta impaci\u00eancia em jogador t\u00e3o velho. Parece que estava adivinhando o que lhe ia acontecer.<\/p>\n<p>Desconfias o que lhe aconteceu? \u00c0s quatro horas e meia, acabado o trabalho, saiu com a alma nas pernas e correu \u00e0 primeira casa de loterias. L\u00e1 estavam, escritos a giz em t\u00e1bua preta, o n\u00famero do bilhete dele e os quinhentos contos. A alma, se ele a tinha nas pernas, era de chumbo, porque elas n\u00e3o andaram mais, nem a luz lhe tornou aos olhos sen\u00e3o alguns minutos depois. Restitu\u00eddo a si, consultou a carteira; era o n\u00famero exato. Ainda assim, podia ter-se enganado, ao copi\u00e1-lo. Voou num t\u00edlburi a casa; n\u00e3o se enganara, era o n\u00famero dele.<\/p>\n<p>Tudo se cumpriu com lealdade. Cinco dias depois, a mesa da irmandade recebia os cem contos de r\u00e9is para a escola de S\u00e3o Bernardo e expedia um oficio de agradecimento ao fundador das duas institui\u00e7\u00f5es, entregue a este por todos os membros da mesa em comiss\u00e3o.<\/p>\n<p>No fim de abril, casara o escrevente Amaral, servindo-lhe Coimbra de testemunha, e morrendo na volta, como ficou dito atr\u00e1s. O enterro que a irmandade lhe fez e o t\u00famulo que lhe mandou levantar no cemit\u00e9rio de S. Francisco Xavier corresponderam aos benef\u00edcios que lhe devia. A escola tem hoje mais de cem alunos e os cem contos dados pelo escriv\u00e3o receberam a denomina\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio Coimbra.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Almanaque Brasileiro Garnier 1906 Aparentemente h\u00e1 poucos espet\u00e1culos t\u00e3o melanc\u00f3licos como um anci\u00e3o comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, \u00e9 alegre; essa persist\u00eancia em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa \u00e9 ainda forte e mo\u00e7a. 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