{"id":117130,"date":"2017-03-31T18:29:34","date_gmt":"2017-03-31T20:29:34","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117130"},"modified":"2017-03-31T18:29:34","modified_gmt":"2017-03-31T20:29:34","slug":"o-caso-do-romoaldo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-caso-do-romoaldo","title":{"rendered":"O Caso do Romoaldo"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>UM DIA, de manh\u00e3, D. Maria Soares, que estava em casa, descansando de um baile para ir a outro, foi procurada por D. Carlota, companheira antiga de col\u00e9gio, e s\u00f3cia agora da vida elegante. Considerou isso um benef\u00edcio do acaso, ou antes um favor do c\u00e9u, com o fim \u00fanico de lhe matar as horas aborrecidas. E merecia esse favor, pois de madrugada, ao voltar do baile, n\u00e3o deixou de cumprir as rezas do costume, e, logo \u00e0 noite, antes de ir para o outro, n\u00e3o deixar\u00e1 de persignar-se.<\/p>\n<p>D. Carlota entrou. Ao p\u00e9 uma da outra pareciam irm\u00e3s; a dona da casa era, talvez, um pouco mais alta, e tinha os olhos de outra cor; eram castanhos, os de D. Carlota pretos. Outra diferen\u00e7a: esta era casada, D. Maria Soares, vi\u00fava: \u2014 ambas possu\u00edam alguma cousa, e n\u00e3o chegavam a trinta anos; parece que a vi\u00fava contava apenas vinte e nove, posto confessasse vinte e sete, e a casada andava nos vinte e oito. Agora, como \u00e9 que uma vi\u00fava de tal idade, bonita e abastada, n\u00e3o contra\u00eda segundas n\u00fapcias \u00e9 o que toda a gente ignorou sempre. N\u00e3o se pode supor que fosse fidelidade ao morto, pois \u00e9 sabido que<br \/>\nela n\u00e3o o amava muito nem pouco; foi um casamento de arranjo. Talvez n\u00e3o se pode crer que lhe faltassem pretendentes; tinha-os \u00e0s d\u00fazias.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea chegou muito a prop\u00f3sito, disse a vi\u00fava a Carlota; vamos falar de ontem&#8230; Mas que \u00e9 isso? que cara \u00e9 essa?<\/p>\n<p>Na verdade, a cara de Carlota trazia impressa uma tempestade interior; os olhos faiscavam, e as narinas moviam-se deixando passar uma respira\u00e7\u00e3o violenta e col\u00e9rica. A vi\u00fava insistiu na pergunta, mas a outra n\u00e3o lhe disse nada; atirou-se a um sof\u00e1, e s\u00f3 no fim de uns dez segundos, proferiu algumas palavras que explicaram a agita\u00e7\u00e3o. Tratava-se de um arrufo, n\u00e3o briga com o marido, por causa de um homem. Ci\u00fames? N\u00e3o, n\u00e3o, nada de ci\u00fames. Era um homem, com que ela antipatizava profundamente, e que ele queria fazer amigo da casa. Nada menos, nada mais, e antes assim. Mas por que \u00e9 que ele queria relacion\u00e1-lo com a mulher?<\/p>\n<p>Custa diz\u00ea-lo: ambi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Vieira quer ser deputado por um distrito do Cear\u00e1, e Romualdo tem ali influ\u00eancia, e trata de fazer vingar a candidatura do amigo. Ent\u00e3o este, n\u00e3o s\u00f3 quer met\u00ea-lo em casa \u2014 e j\u00e1 ali o levou duas vezes \u2014 como tem o plano de lhe dar um jantar solene, em despedida, porque o Romualdo embarca para o Norte dentro de uma semana. A\u00ed est\u00e1<br \/>\ntodo o motivo do dissentimento.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, Carlota, dizia ele \u00e0 mulher, repara que \u00e9 a minha carreira. Romualdo \u00e9 trunfo no distrito. E depois n\u00e3o sei que embirra\u00e7\u00e3o \u00e9 essa, n\u00e3o entendo&#8230;<\/p>\n<p>Carlota n\u00e3o dizia nada; torcia a ponta de uma franja.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 que achas nele?<\/p>\n<p>\u2014 Acho-o antip\u00e1tico, aborrecido&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nunca trocaram mais de oito palavras, se tanto, e j\u00e1 o achas aborrecido!<\/p>\n<p>\u2014 Tanto pior. Se ele \u00e9 aborrecido calado, imagina o que ser\u00e1 falando. E depois&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bem, mas n\u00e3o podes sacrificar-me alguma cousa? Que diabo \u00e9 uma ou duas horas de constrangimento, em benef\u00edcio meu? E mesmo teu, porque, eu na C\u00e2mara, tu ficas sendo mulher de deputado, e pode ser&#8230; quem sabe? Pode ser at\u00e9 que de ministro, um dia. Desta massa \u00e9 que eles se fazem.<\/p>\n<p>Vieira gastou uns dez minutos em sacudir diante da mulher as pompas de um grande cargo, uma pasta, ordenan\u00e7as, fard\u00e3o ministerial, correios do pa\u00e7o, e as audi\u00eancias, e os pretendentes, e as cerim\u00f4nias&#8230; Carlota n\u00e3o se abalava. Afinal, exasperada, fez ao marido uma revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ouviu bem? O tal seu amigo persegue-me com os olhos de mosca-morta, e das oito palavras que me disse, tr\u00eas, pelo menos, foram atrevidas.<\/p>\n<p>Vieira ficou alguns instantes sem dizer nada; depois come\u00e7ou a mexer com a corrente do rel\u00f3gio, afinal acendeu um charuto. Estes tr\u00eas gestos correspondiam a tr\u00eas momentos do esp\u00edrito. O primeiro foi de pasmo e raiva. Vieira amava a mulher, e, por outro lado, cria que os intuitos do Romualdo eram puramente pol\u00edticos. A descoberta de que a prote\u00e7\u00e3o da candidatura tinha uma paga, e paga adiantada, foi para ele um assombro. Veio depois o segundo momento, que foi o da ambi\u00e7\u00e3o, a cadeira na C\u00e2mara, a reputa\u00e7\u00e3o parlamentar, a influ\u00eancia, um minist\u00e9rio&#8230; Tudo isso atenuou a primeira impress\u00e3o. Ent\u00e3o ele perguntou a si mesmo, se, estando certo da mulher, n\u00e3o era j\u00e1 uma grande habilidade pol\u00edtica explorar o favor do amigo, e deix\u00e1-lo ir-se de cabe\u00e7a baixa. Em rigor, a pretens\u00e3o do Romualdo n\u00e3o seria \u00fanica; Carlota teria outros namorados in petto. N\u00e3o se havia de brigar com o mundo inteiro. Aqui entrou o terceiro momento, o da resolu\u00e7\u00e3o. Vieira determinou-se a aproveitar o favor pol\u00edtico do outro, e assim o declarou \u00e0 mulher, mas come\u00e7ou por dissuadi-la.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser que voc\u00ea se engane. As mo\u00e7as bonitas est\u00e3o expostas a serem olhadas muita vez por admira\u00e7\u00e3o, e se cuidarem que j\u00e1 isso \u00e9 amor, ent\u00e3o nem podem mais aparecer.<\/p>\n<p>Carlota sorriu com desd\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 As palavras? disse o marido. N\u00e3o podiam ser palavras de cumprimento? Podiam, decerto&#8230;<\/p>\n<p>E, depois de um instante, como lhe visse persistir o ar desdenhoso:<\/p>\n<p>\u2014 Juro que se tivesse a certeza do que me dizes, castigava-o&#8230; Mas, por outro lado, \u00e9 justamente a vingan\u00e7a melhor; fa\u00e7o-o trabalhar, e&#8230; justamente! Querem saber uma cousa. A vida \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de interesses&#8230; O que eu quero \u00e9 fazer-te ministra de Estado, e&#8230;<\/p>\n<p>Carlota deixou-o falar, \u00e0 toa. Como ele insistisse, ela prorrompeu e disse-lhe cousas duras. Estava sinceramente irritada. Gostava muito do marido, n\u00e3o era loureira, e nada podia agrav\u00e1-la mais do que o acordo que o marido procurava entre a conveni\u00eancia pol\u00edtica e os sentimentos dela. Ele, afinal, saiu zangado; ela vestiu-se e foi para a casa da amiga.<\/p>\n<p>H\u00e3o de perguntar-me como se explica que, tendo mediado algumas horas, entre a briga e a chegada \u00e0 casa da amiga, Carlota ainda estava no grau agudo da exaspera\u00e7\u00e3o. Respondo que em alguma cousa h\u00e1 de uma mo\u00e7a ser faceira, e pode ser que a nossa Carlota gostasse de ostentar os seus sentimentos de amor ao marido e de honra conjugal, como outras mostram de prefer\u00eancia os olhos e o m\u00e9todo de mexer com eles. Digo que pode ser; n\u00e3o afian\u00e7o nada.<\/p>\n<p>Ouvida a hist\u00f3ria, D. Maria Soares concordou em parte com a amiga, em parte com o marido, posto que, realmente, s\u00f3 concordasse consigo mesma, e acreditasse piamente que o maior desastre que podia suceder a uma criatura humana, depois de uma noite de baile, era entrar-lhe em casa uma quest\u00e3o daquelas.<\/p>\n<p>Carlota tratou de provar que tinha raz\u00e3o em tudo, e n\u00e3o parcialmente; e a vi\u00fava diante da amea\u00e7a de maior desastre, foi admitindo que sim, que afinal quem tinha toda a raz\u00e3o era ela, mas que o melhor de tudo era deixar andar o marido.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o melhor, Carlota; voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 certa de si? Pois ent\u00e3o deixe-o andar&#8230; Vamos n\u00f3s \u00e0 Rua do Ouvidor? ou vamos mais perto, um passeiozinho&#8230;<\/p>\n<p>Era um meio de acabar com o assunto; Carlota aceitou, D. Maria foi vestir-se, e da\u00ed a pouco sa\u00edram ambas. Vieram \u00e0 Rua do Ouvidor, onde n\u00e3o foi dif\u00edcil esquecer o assunto, e tudo acabou ou ficou adiado. Contribuiu para isso o baile da v\u00e9spera; a vi\u00fava alcan\u00e7ou finalmente que falassem das impress\u00f5es trazidas, falaram por muito tempo, esquecidas do resto, e para n\u00e3o voltar logo para a casa, foram comprar alguma cousa a uma loja. Que cousa? Nunca se soube claramente o que foi; h\u00e1 raz\u00f5es para crer que foi um metro de fita, outros dizem que dous, alguns opinam por uma d\u00fazia de len\u00e7os. O \u00fanico ponto liquidado \u00e9 que estiveram na loja at\u00e9 quatro horas.<\/p>\n<p>Ao voltar para casa, perto da Rua Gon\u00e7alves Dias, Carlota disse precipitadamente \u00e0 amiga:<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 est\u00e1 ele!<\/p>\n<p>\u2014 Quem?<\/p>\n<p>\u2014 O Romualdo.<\/p>\n<p>\u2014 Onde est\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 aquele de barbas grandes, que est\u00e1 co\u00e7ando o queixo com a bengala, explicou a mo\u00e7a olhando para outra parte.<\/p>\n<p>D. Maria Soares relanceou os olhos pelo grupo, disfar\u00e7adamente, e viu o Romualdo. N\u00e3o ocultou a impress\u00e3o; confessou que era, na verdade, um sujeito antip\u00e1tico; podia ser trunfo em pol\u00edtica; em amor, devia ser carta branca. Mas, al\u00e9m de antip\u00e1tico, tinha um certo ar de matuto, que n\u00e3o convidava a am\u00e1-lo. Elas foram andando, e n\u00e3o escaparam ao Romualdo, que vira Carlota e veio cumpriment\u00e1-la, afetuoso, posto que tamb\u00e9m acanhado; perguntou-lhe pelo marido, e se ia naquela noite, ao baile, disse tamb\u00e9m que o dia estava fresco, que tinha visto umas senhoras conhecidas de Carlota, e que a rua parecia mais animada naquele dia do que na v\u00e9spera. Carlota foi respondendo com palavras frouxas, entre dentes.<\/p>\n<p>\u2014 Exagerei? perguntou ela \u00e0 vi\u00fava no bond.<\/p>\n<p>\u2014 Qual exageraste! O sujeito \u00e9 insuport\u00e1vel, acudiu a vi\u00fava; mas, Carlota, n\u00e3o te acho raz\u00e3o na zanga. Pareces crian\u00e7a! Um sujeito assim n\u00e3o faz zangar ningu\u00e9m. A gente ouve o que ele diz, n\u00e3o lhe responde nada, ou fala do sol e da lua, e est\u00e1 acabado; \u00e9 at\u00e9 um divertimento. J\u00e1 tive muitos do mesmo g\u00eanero&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas n\u00e3o tens um marido que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho, mas tive; o Alberto era do mesmo g\u00eanero; eu \u00e9 que n\u00e3o brigava, nem lhe revelava nada; ria-me. Faze a mesma cousa; vai rindo&#8230; Realmente, o sujeito tem um olhar espantado, e quando sorri fica mesmo com uma cara de poucos amigos; parece que s\u00e9rio \u00e9 menos carrancudo.<\/p>\n<p>\u2014 E \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bem vi que era. Ora zangar-se a gente por t\u00e3o pouca cousa! Demais, ele n\u00e3o vai embora esta semana? Que te custa suport\u00e1-lo?<\/p>\n<p>D. Maria Soares tinha aplacado inteiramente a amiga; enfim, o tempo e a rua perfizeram a melhor parte da obra. Para o fim da viagem, riam ambas, n\u00e3o s\u00f3 da figura do Romualdo, mas tamb\u00e9m das palavras que ele dissera a Carlota, as tais palavras atrevidas, que n\u00e3o ponho aqui por n\u00e3o haver not\u00edcia exata delas; estas, por\u00e9m, confiou-as \u00e0 vi\u00fava, n\u00e3o as tendo dito ao marido. A vi\u00fava opinou que elas eram menos atrevidas que burlescas. E ditas por ele deviam ser ainda piores. Era mordaz esta vi\u00fava, e amiga de rir e brincar como se tivesse vinte anos.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que Carlota voltou para casa tranq\u00fcila, e disposta ao banquete. Vieira, que esperava a continua\u00e7\u00e3o da luta, n\u00e3o p\u00f4de encobrir o contentamento de a ver mudada. Confessou que ela tinha raz\u00e3o em mortificar-se, e que ele, se n\u00e3o estivessem as cousas em andamento, abriria m\u00e3o da candidatura; j\u00e1 o n\u00e3o podia fazer sem esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Chegou o dia do jantar, que foi espl\u00eandido, assistindo a ele v\u00e1rios personagens pol\u00edticos e outros. De senhoras, apenas duas, Carlota e D. Maria Soares. Um dos brindes de Romualdo foi feito a ela \u2014 um longo discurso, arrastado, cantado, assoprado, cheio de anjos, de um ou dous sacr\u00e1rios, de caras esposas, acabando tudo per um cumprimento ao nosso venturoso amigo. Vieira interiormente mandou-o ao diabo; mas, levantou o copo e agradeceu sorrindo.<\/p>\n<p>Dias depois, seguia Romualdo para o Norte. A noite da v\u00e9spera foi passada em casa do Vieira, que se desfez em demonstra\u00e7\u00f5es de aparente considera\u00e7\u00e3o. De manh\u00e3, levantou-se este cedo para ir a bordo, acompanh\u00e1-lo; recebeu muitos cumprimentos para a mulher, \u00e0 despedida, e prometeu que da\u00ed a pouco iria ter com ele. O aperto de m\u00e3o foi significativo;<br \/>\num tremia de esperan\u00e7as, outro de saudades, ambos pareciam p\u00f4r naquele arranco final todo o cora\u00e7\u00e3o, e punham t\u00e3o-somente o interesse, \u2014 ou de amor ou de pol\u00edtica, \u2014 mas o velho interesse, t\u00e3o amigo da gente e t\u00e3o caluniado.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, seguiu o Vieira para o Norte, a cuidar da elei\u00e7\u00e3o. As despedidas foram naturalmente chorosas, e por pouco, esteve Carlota disposta a seguir tamb\u00e9m com ele; mas a viagem n\u00e3o duraria muito tempo, e depois, ele teria de percorrer o distrito, cuidar de cousas que tornavam dif\u00edcil a condu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ficando s\u00f3, Carlota cuidou de matar o tempo, para torn\u00e1-lo mais curto. N\u00e3o foi a teatros nem bailes; mas visitas e passeios eram com ela. D. Maria Soares continuava a ser a melhor das companheiras, rindo muito, reparando em tudo, e mordendo sem piedade. Naturalmente, o Romualdo foi esquecido; Carlota chegou mesmo a arrepender-se de ter ido confiar \u00e0 amiga<br \/>\numa cousa, que agora lhe parecia m\u00ednima. Demais, a id\u00e9ia de ver o marido deputado, e provavelmente ministro, come\u00e7ava a domin\u00e1-la, e a quem o deveria, sen\u00e3o ao Romualdo? Tanto bastava para n\u00e3o torn\u00e1-lo odioso nem rid\u00edculo. A segunda carta do marido confirmou-a nesse sentimento de indulg\u00eancia; dizia que a candidatura tinha esbarrado num grande obst\u00e1culo, que o Romualdo destru\u00edra, gra\u00e7as a um imenso esfor\u00e7o, em que at\u00e9 perdeu um amigo de vinte anos.<\/p>\n<p>Tudo caminhou assim, enquanto Carlota, aqui na corte, ia matando o tempo, segundo ficou dito. J\u00e1 disse tamb\u00e9m que D. Maria Soares ajudava-a nessa empresa. Resta dizer, que n\u00e3o sempre, mas \u00e0s vezes, tinham ambas um parceiro, que era o Dr. Andrade, companheiro de escrit\u00f3rio do Vieira, e encarregado de todos os seus neg\u00f3cios, durante a aus\u00eancia. Este era um<br \/>\nadvogado recente, vinte e cinco anos, n\u00e3o deselegante, nem feio. Tinha talento, era ativo, instru\u00eddo, e n\u00e3o pouco sagaz, em neg\u00f3cios do foro; para o resto das cousas, conservava a ingenuidade primitiva.<\/p>\n<p>Corria que ele gostava de Carlota, e mal se compreende um tal boato, pois a ningu\u00e9m confiou nada, nem mesmo a ela, por palavras ou obras. Pouco ia l\u00e1; e quando ia procedia de modo que n\u00e3o desse azo a nenhuma suspeita. \u00c9 certo, por\u00e9m, que ele gostava dela, e muito, e se nunca lho declarou, menos o faria agora. Evitava at\u00e9 ir l\u00e1; mas Carlota convidou-o algumas vezes a jantar, com outras pessoas; D. Maria Soares, que o viu ali, tamb\u00e9m o convidou, e foi assim que ele achou-se mais vezes do que pretendia em contacto com a senhora do outro.<\/p>\n<p>D. Maria Soares desconfiou previamente do amor do Andrade. Era um dos seus princ\u00edpios desconfiar dos cora\u00e7\u00f5es de vinte e cinco a trinta e quatro anos. Antes de ver nada, suspeitou que o Andrade amava a amiga, e s\u00f3 \u2014 tratou de ver se a amiga lhe correspondia. N\u00e3o viu nada; mas concluiu alguma cousa. Ent\u00e3o considerou que esse cora\u00e7\u00e3o abandonado, tiritando de frio na rua, podia ela receb\u00ea-lo, agasalh\u00e1-lo, dar-lhe o principal lugar, numa palavra, casar com ele. Pensou nisto um dia; no dia seguinte, acordou apaixonada. J\u00e1? J\u00e1, e explica-se. D. Maria Soares gostava da vida brilhante, ruidosa, dispendiosa, e o Andrade, al\u00e9m das outras qualidades, n\u00e3o viera a este mundo sem uma av\u00f3, nem esta av\u00f3 se deixara viver at\u00e9 aos setenta e<br \/>\nquatro anos, na fazenda sem uns oitocentos contos. Constava estar na dependura; e foi a pr\u00f3pria Carlota que lho disse a ela.<\/p>\n<p>\u2014 Parece que at\u00e9 j\u00e1 est\u00e1 pateta.<\/p>\n<p>\u2014 Oitocentos contos? repetiu D. Maria Soares.<\/p>\n<p>\u2014 Oitocentos; \u00e9 uma boa fortuna.<\/p>\n<p>D. Maria Soares olhou para um dos quadros que Carlota tinha na saleta: uma paisagem da Su\u00ed\u00e7a. Bela terra \u00e9 a Su\u00ed\u00e7a! disse ela. Carlota admitiu que o fosse, mas confessou que preferia viver em Paris, na grande cidade de Paris&#8230; D. Maria Soares suspirou, e olhou para o espelho. O espelho respondeu-lhe sem cumprimento: \u201cPode tentar a empresa, ainda est\u00e1 muito<br \/>\nbonita\u201d.<\/p>\n<p>Assim se explica o primeiro convite de D. Maria Soares ao Andrade, para ir jantar \u00e0 casa dela, com a amiga, e outras pessoas. Andrade foi, jantou, conversou, tocou piano \u2014 pois tamb\u00e9m sabia tocar piano \u2014 e recebeu da vi\u00fava os mais ardentes enc\u00f4mios. Realmente, nunca tinha visto tocar assim; n\u00e3o conhecia amador que pudesse competir com ele. Andrade gostou de ouvir isto, principalmente porque era dito ao p\u00e9 de Carlota. Para provar que a vi\u00fava n\u00e3o elogiava a um ingrato, voltou ao piano, e deu sonatas, barcarolas, r\u00eaveries, Mozart, Schubert, nomes novos e antigos. D. Maria Soares estava<br \/>\nencantada.<\/p>\n<p>Carlota percebeu que ela come\u00e7ava a cortej\u00e1-lo, e sentiu n\u00e3o ter intimidade com ele, que lhe permitisse dizer-lho por brinco; era um modo de os casar mais depressa, e Carlota estimaria ver a amiga em segundas n\u00fapcias, com oitocentos contos \u00e0 porta. Em compensa\u00e7\u00e3o disse-o \u00e0 amiga, que pela regra eterna das cousas negou-o a p\u00e9s juntos.<\/p>\n<p>\u2014 Pode negar, mas eu bem vejo que voc\u00ea anda ferida, insistiu Carlota.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o \u00e9 ferida que n\u00e3o d\u00f3i, porque eu n\u00e3o sinto nada, replicou a vi\u00fava.<\/p>\n<p>Em casa, por\u00e9m, advertiu que Carlota lhe falara com tal ingenuidade e interesse, que era melhor dizer tudo, e utiliz\u00e1-la na conquista do advogado. Na primeira ocasi\u00e3o, negou sorrindo e vexada; depois, abriu o cora\u00e7\u00e3o, previamente aparelhado para receb\u00ea-lo, cheio de amor por todos os cantos. Carlota viu tudo, andou por ele, e saiu convencida de que, apesar da diferen\u00e7a<br \/>\nde idade, nem ele podia ter melhor esposa, nem ela melhor marido. A quest\u00e3o era uni-los, e Carlota disp\u00f4s-se \u00e0 obra.<\/p>\n<p>Eram ent\u00e3o passados dous meses depois da sa\u00edda do Vieira, e chegou uma carta dele com a not\u00edcia de estar de cama. A letra pareceu t\u00e3o tr\u00eamula, e a carta era t\u00e3o curta, que lan\u00e7ou o esp\u00edrito de Carlota na maior perturba\u00e7\u00e3o. No primeiro instante, a sua id\u00e9ia foi embarcar e ir ter com o marido; mas o advogado e a vi\u00fava procuravam aquiet\u00e1-la, dizendo-lhe que n\u00e3o era caso<br \/>\ndisso, e que provavelmente j\u00e1 estaria bom; em todo caso, era melhor esperar outra carta.<\/p>\n<p>Veio outra carta, mas do Romualdo, dizendo que o estado do Vieira era grave, n\u00e3o desesperado; os m\u00e9dicos aconselhavam que tornasse para o Rio de Janeiro; eles viriam na primeira ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlota ficou desesperada. Come\u00e7ou por n\u00e3o crer na carta. \u201cMeu marido morreu, solu\u00e7ava ela; est\u00e3o me enganando.\u201d Entretanto, veio terceira carta do Romualdo, mais esperan\u00e7ada. O doente j\u00e1 podia embarcar, e viria no vapor que dali sairia dous dias depois; ele o acompanharia com todas as cautelas, e a mulher podia n\u00e3o ter cuidado nenhum. A carta era simples,<br \/>\nverdadeira, dedicada e p\u00f4s um calmante no esp\u00edrito da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Com efeito, Romualdo embarcou, acompanhando o doente, que passou bem o primeiro dia de mar. No segundo piorou, e o estado agravou-se de modo que, ao chegar \u00e0 Bahia, pensou o Romualdo que era melhor desembarcar; mas o Vieira recusou formalmente uma e muitas vezes, dizendo que se tivesse de morrer, preferia vir morrer ao p\u00e9 da fam\u00edlia. N\u00e3o houve rem\u00e9dio sen\u00e3o ceder, e por mal dele, expirou vinte e quatro horas depois.<\/p>\n<p>Poucas horas antes de morrer, o advogado sentiu que era chegado o termo fatal, e fez algumas recomenda\u00e7\u00f5es ao Romualdo, relativamente a neg\u00f3cios de fam\u00edlia e do foro; umas deviam ser transmitidas \u00e0 mulher; outras ao Andrade, companheiro de escrit\u00f3rio, outras a parentes. S\u00f3 uma importa ao nosso caso.<\/p>\n<p>\u2014 Diga \u00e0 minha mulher que a \u00faltima prova de amor que lhe pe\u00e7o \u00e9 que n\u00e3o se case&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim&#8230; sim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, se ela, a todo o transe entender que se deve casar, pe\u00e7a-lhe que a escolha do marido recaia no Andrade, meu amigo e companheiro, e&#8230;<\/p>\n<p>Romualdo n\u00e3o entendeu essa preocupa\u00e7\u00e3o da \u00faltima hora, nem provavelmente o leitor, nem eu \u2014 e o melhor, em tal caso, \u00e9 contar e ouvir a cousa sem pedir explica\u00e7\u00e3o. Foi o que ele fez; ouviu, disse que sim, e poucas horas depois, expirava o Vieira. No dia seguinte, entrava o vapor no porto, trazendo a Carlota um cad\u00e1ver, em vez do marido que daqui partira.<br \/>\nImaginem a dor da pobre mo\u00e7a, que ali\u00e1s receava isso mesmo, desde a \u00faltima carta de Romualdo. Chorara em todo esse tempo, e rezou muito, e prometeu missas, se o pobre Vieira lhe chegasse vivo e s\u00e3o: mas nem rezas, nem promessas, nem l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Romualdo veio \u00e0 terra, e correu \u00e0 casa de D. Maria Soares, pedindo a sua interven\u00e7\u00e3o para preparar a recente vi\u00fava a receber a fatal not\u00edcia; e ambos passaram \u00e0 casa de Carlota, que adivinhou tudo, apenas os viu. O golpe foi o que devia ser, n\u00e3o \u00e9 preciso narr\u00e1-lo. Nem o golpe, nem o enterro, nem os primeiros dias. Saiba-se que Carlota retirou-se da cidade por algumas semanas, e s\u00f3 voltou \u00e0 antiga casa, quando a dor lhe consentiu v\u00ea-la, mas n\u00e3o p\u00f4de v\u00ea-la sem l\u00e1grimas. Ainda assim n\u00e3o quis outra; preferia padecer, mas queria as mesmas paredes e lugares que tinham visto o marido e a sua felicidade.<\/p>\n<p>Passados tr\u00eas meses, Romualdo tratou de desempenhar-se da incumb\u00eancia que o Vieira lhe dera, \u00e0 \u00faltima hora, e nada mais dif\u00edcil para ele, n\u00e3o porque amasse a vi\u00fava do amigo \u2014 realmente, tinha sido uma cousa passageira \u2014, mas pela natureza mesmo da incumb\u00eancia. Entretanto, era for\u00e7oso faz\u00ea-lo. Escreveu-lhe uma carta, dizendo que tinha de dizer-lhe, em particular, cousas graves que ouvira ao marido, poucas horas antes de morrer. Carlota respondeu-lhe com este bilhete:<\/p>\n<p>Pode vir quanto antes, e se quiser hoje mesmo, ou amanh\u00e3, depois do meio-dia; mas prefiro que seja hoje. Desejo saber o que \u00e9, e ainda uma vez agradecer-lhe a dedica\u00e7\u00e3o que mostrou ao meu infeliz marido.<\/p>\n<p>Romualdo foi nesse mesmo dia, entre tr\u00eas e quatro horas. Achou ali D. Maria Soares, que n\u00e3o se demorou muito, e os deixou s\u00f3s. Eram duas vi\u00favas, e ambas de preto, e Romualdo p\u00f4de compar\u00e1-las, e achou que a diferen\u00e7a era imensa; D. Maria Soares dava a sensa\u00e7\u00e3o de uma pessoa que escolhera a viuvez por of\u00edcio e comodidade. Carlota estava ainda acabrunhada, p\u00e1lida e s\u00e9ria. Diferen\u00e7a de data ou de temperamento? Romualdo n\u00e3o p\u00f4de averigu\u00e1-lo, n\u00e3o chegou sequer a formular a quest\u00e3o. Med\u00edocre de esp\u00edrito, este homem tinha uma dose grande de sensibilidade, e a figura de Carlota<br \/>\nimpressionou-o de modo, que n\u00e3o lhe deu lugar a mais do que \u00e0 compara\u00e7\u00e3o das pessoas. Houve mesmo da parte de D. Maria Soares duas ou tr\u00eas frases que pareceram ao Romualdo um tanto esquisitas. Uma delas foi esta:<\/p>\n<p>\u2014 Veja se persuade a nossa amiga a conformar-se com a sorte; l\u00e1grimas n\u00e3o ressuscitam ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Carlota sorriu sem vontade, para responder alguma cousa, e Romualdo rufou com os dedos sobre o joelho, olhando para o ch\u00e3o. D. Maria Soares levantou-se afinal, e saiu. Carlota, que a acompanhou at\u00e9 \u00e0 porta, voltou ansiosa ao Romualdo, e pediu que lhe dissesse tudo, tudo, as palavras dele, e a doen\u00e7a, e como foi que come\u00e7ou, e os cuidados que lhe deu, e que ela<br \/>\nsoube aqui e lhe agradecia muito. Tinha visto uma carta de pessoa da prov\u00edncia, dizendo que a dedica\u00e7\u00e3o dele n\u00e3o podia ser maior. Carlota falava \u00e0s pressas, cheia de como\u00e7\u00e3o, sem ordem nas id\u00e9ias.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o falemos do que fiz, disse o Romualdo; cumpri um dever natural.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, mas eu agrade\u00e7o-lhe por ele e por mim, replicou ela estendendo-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Romualdo apertou-lhe a m\u00e3o, que estava tr\u00eamula, e nunca lhe pareceu t\u00e3o deliciosa. Ao mesmo tempo, olhou para ela e viu que a cor p\u00e1lida ia-lhe bem, e com o vestido preto, tinha um tom asc\u00e9tico e particularmente interessante. Os olhos cansados de chorar n\u00e3o traziam o mesmo fulgor de outro tempo, mas eram muito melhores assim, como uma esp\u00e9cie de meia-luz de alcova,<br \/>\nabafada pelas cortinas e venezianas fechadas.<\/p>\n<p>Nisto pensou na comiss\u00e3o que o levava ali, e estremeceu. Come\u00e7ava a palpitar, outra vez, por ela, e agora que a achava livre, ia levantar duas barreiras entre ambos: \u2014 que se n\u00e3o casasse, e que, a faz\u00ea-lo, casasse com outro, uma pessoa determinada. Era exigir demais. Romualdo pensou em n\u00e3o dizer nada, ou dizer outra cousa qualquer. Que cousa? Qualquer cousa. Podia atribuir ao marido uma recomenda\u00e7\u00e3o de ordem geral, que se lembrasse dele, que lhe sufragasse a alma por certa maneira. Tudo era cr\u00edvel, e n\u00e3o prenderia assim o futuro com uma palavra. Carlota, sentada defronte, esperava que ele falasse; chegou a repetir o pedido. Romualdo sentiu um repel\u00e3o da consci\u00eancia. No momento de formular a recomenda\u00e7\u00e3o falsa, recuou, teve vergonha, e disp\u00f4s-se \u00e0 verdade. Ningu\u00e9m sabia o que se passara entre ele e o finado, sen\u00e3o a consci\u00eancia dele, mas a consci\u00eancia bastava, e ele obedeceu. Paci\u00eancia! era esquecer o passado, e adeus.<\/p>\n<p>\u2014 Seu marido \u2014 come\u00e7ou \u2014, no mesmo dia em que morreu, disse-me que tinha um grande favor que pedir-me, e fez-me prometer que cumpriria tudo. Respondi-lhe que sim. Ent\u00e3o, disse-me ele que era um grande benef\u00edcio que a senhora lhe fazia, se se conservasse vi\u00fava, e que lhe pedisse isto, como um desejo da hora da morte. Entretanto, dado que n\u00e3o pudesse faz\u00ea-lo&#8230;<\/p>\n<p>Carlota interrompeu-o com o gesto: n\u00e3o queria ouvir nada, era penoso. Mas o Romualdo insistiu, tinha de cumprir&#8230;<\/p>\n<p>Foram interrompidos por um criado; o Dr. Andrade acabava de chegar, trazendo \u00e0 vi\u00fava uma comunica\u00e7\u00e3o urgente.<br \/>\nAndrade entrou, e pediu a Carlota para lhe falar em particular.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 preciso, retorquiu a mo\u00e7a, este senhor \u00e9 nosso amigo, pode ouvir tudo.<\/p>\n<p>Andrade obedeceu e disse ao que vinha; este incidente \u00e9 sem valor para o nosso caso. Depois, conversaram os tr\u00eas durante alguns minutos. Romualdo olhava para o Andrade com inveja, e tornou a perguntar a si mesmo se lhe convinha dizer alguma cousa. A id\u00e9ia de dizer outra cousa qualquer come\u00e7ou a turvar-lhe novamente o esp\u00edrito. Ao ver o jovem advogado t\u00e3o gracioso, t\u00e3o atraente, Romualdo concluiu \u2014 e n\u00e3o concluiu mal \u2014 que o pedido do morto era um incitamento; e se Carlota nunca pensara em casar, era ocasi\u00e3o de faz\u00ea-lo. O pedido chegou a parecer-lhe t\u00e3o absurdo, que a id\u00e9ia de alguma desconfian\u00e7a do marido veio naturalmente, e atribuiu-lhe assim a inten\u00e7\u00e3o de punir moralmente a mulher: \u2014 conclus\u00e3o, por outro lado, n\u00e3o menos absurda, \u00e0 vista do amor que ele testemunhara no casal.<\/p>\n<p>Carlota, na conversa\u00e7\u00e3o, manifestou o desejo de retirar-se para a fazenda de uma tia, logo que acabasse o invent\u00e1rio; mas, se demorasse muito tempo iria em breve.<\/p>\n<p>\u2014 Farei o que puder para ir depressa, disse o Andrade.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco saiu este, e Carlota, que o acompanhara at\u00e9 a porta, voltou ao Romualdo, para dizer-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero saber o que foi que meu marido lhe confiou. Ele pede-me o que por mim mesmo faria: \u2014 ficarei vi\u00fava..<br \/>\n.<br \/>\nRomualdo podia n\u00e3o ir adiante, e desejou isso mesmo. Estava certo da sinceridade da vi\u00fava, e da resolu\u00e7\u00e3o anunciada; mas o diabo do Andrade com os seus modos finos e olhos c\u00e1lidos fazia-lhe travessuras no c\u00e9rebro. Entretanto, a solenidade da promessa tornou a aparecer-lhe como um pacto que se havia de cumprir, custasse o que custasse. Ocorreu-lhe um<br \/>\nmeio-termo: obedecer \u00e0 vi\u00fava, e calar-se, e, um dia, se ela deveras se mostrasse disposta a contrair segundas n\u00fapcias, completar-lhe a declara\u00e7\u00e3o.Mas n\u00e3o tardou em ver que isto era uma infidelidade disfar\u00e7ada; em primeiro lugar, ele poderia morrer antes, ou estar fora, em servi\u00e7o ou doente; em segundo lugar, poderia ser que lhe falasse, quando ela estivesse apaixonada por outro. Resolveu dizer tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Como ia dizendo, continuava ele, seu marido&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o diga mais nada, interrompeu Carlota; para qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 in\u00fatil, mas devo cumprir o que prometi ao meu pobre amigo. A senhora pode dispens\u00e1-lo, eu \u00e9 que n\u00e3o. Pede-lhe que se conserve vi\u00fava; mas que, no caso de n\u00e3o lhe ser poss\u00edvel, pedir-lhe-ia bem que a sua escolha reca\u00edsse no&#8230; Dr. Andrade&#8230;<\/p>\n<p>Carlota n\u00e3o p\u00f4de ocultar o espanto, e n\u00e3o teve s\u00f3 um, mas dous, um atr\u00e1s do outro. Quando Romualdo conclu\u00eda o pedido, antes de dizer o nome do Andrade, Carlota imaginou que ia citar o dele mesmo; e, r\u00e1pido, tanto lhe pareceu um desejo do marido como uma ast\u00facia do portador, que a cortejara antes. Esta segunda suspeita entornou-lhe na alma um grande desgosto e desprezo. Tudo isso passou como um rel\u00e2mpago, e quando chegou ao fim, ao nome do Andrade, mudou de espanto, e n\u00e3o foi menor. Esteve calada alguns segundos, olhando \u00e0 toa; depois, repetiu o que j\u00e1 dissera.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pretendo casar.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto melhor, disse ele, para os desejos \u00faltimos de seu marido. N\u00e3o lhe nego que o pedido me pareceu exceder do direito de um moribundo; mas n\u00e3o me cabe discuti-lo: \u00e9 quest\u00e3o entre a senhora e a sua consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Romualdo levantou-se.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1? disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Jante comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7o-lhe que n\u00e3o; virei outro dia, disse ele estendendo-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlota estendeu-lhe a m\u00e3o. Pode ser que se ela estivesse com o esp\u00edrito quieto, percebesse nos modos do Romualdo alguma cousa que n\u00e3o era a aud\u00e1cia de outrora. Na verdade, ele estava agora acanhado, comovido, e a m\u00e3o tremia-lhe um tanto. Carlota apertou-lha cheia de agradecimento; ele saiu.<\/p>\n<p>Ficando s\u00f3, Carlota refletiu em tudo o que se passara. A lembran\u00e7a do marido pareceu-lhe tamb\u00e9m extraordin\u00e1ria; e, n\u00e3o tendo ela jamais pensado no Andrade, n\u00e3o p\u00f4de furtar-se a pensar nele e na simples indica\u00e7\u00e3o do moribundo. Tanto pensou em tudo isso, que lhe ocorreu finalmente a posi\u00e7\u00e3o do Romualdo. Esse homem tinha-a cortejado, parecia quer\u00ea-la, recebeu do marido, prestes a expirar, a confid\u00eancia \u00faltima, o pedido da viuvez e a designa\u00e7\u00e3o de um sucessor, que n\u00e3o era ele, mas outro; e, n\u00e3o obstante, cumpriu tudo fielmente. O procedimento pareceu-lhe her\u00f3ico. E da\u00ed pode ser que j\u00e1 n\u00e3o a amasse: e foi, talvez, um capricho de momento; estava acabado; nada mais natural.<\/p>\n<p>No dia seguinte, ocorreu a Carlota a id\u00e9ia de que Romualdo, sabendo da amizade do marido com o Andrade, podia ir comunicar a este o pedido do moribundo, se j\u00e1 o n\u00e3o tinha feito. Mais que depressa, lembrou-se de mandar cham\u00e1-lo, e pedir-lhe que viesse v\u00ea-la; chegou mesmo a escrever-lhe um bilhete, mas mudou de id\u00e9ia, e, em vez de pedir-lho de viva voz, determinou faz\u00ea-lo por escrito. Eis o que escreveu:<\/p>\n<p>Estou certa de que as \u00faltimas palavras de meu marido foram apenas repetidas a mim e a ningu\u00e9m mais; entretanto, como h\u00e1 outra pessoa, que poderia ter interesse em saber&#8230;<\/p>\n<p>Chegando a este ponto da carta, releu-a, e rasgou-a. Parecia-lhe que a frase tinha um tom misterioso, inconveniente na situa\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou outra, e n\u00e3o lhe agradou tamb\u00e9m; ia escrever terceira, quando vieram anunciar-lhe a presen\u00e7a do Romualdo; correu \u00e0 sala.<\/p>\n<p>\u2014 Escrevia-lhe agora mesmo, disse ela logo depois.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Referiu aquelas palavras de meu marido a algu\u00e9m?<\/p>\n<p>\u2014 A ningu\u00e9m. N\u00e3o podia faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Sei que n\u00e3o o faria; entretanto, n\u00f3s, as mulheres, somos naturalmente medrosas, e o receio de que algu\u00e9m mais, quem quer que seja saiba do que se passou, pe\u00e7o-lhe que por nenhuma cousa refira a outra pessoa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Certamente que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Era isto o que lhe dizia a carta.<\/p>\n<p>Romualdo vinha despedir-se; seguia da\u00ed tr\u00eas dias para o Norte. Pedia-lhe desculpa de n\u00e3o ter aceitado o convite de jantar, mas na volta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Volta? interrompeu ela.<\/p>\n<p>\u2014 Conto voltar.<\/p>\n<p>\u2014 Quando?<\/p>\n<p>\u2014 Daqui a dous meses ou dous anos.<\/p>\n<p>\u2014 Cortemos ao meio; seja daqui a quatro meses.<\/p>\n<p>\u2014 Depende.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, ent\u00e3o, sem jantar comigo uma vez? Hoje, por exemplo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Hoje estou comprometido.<\/p>\n<p>\u2014 E amanh\u00e3?<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3 vou a Juiz de Fora.<\/p>\n<p>Carlota fez um gesto de resigna\u00e7\u00e3o; depois perguntou-lhe se na volta do Norte.<\/p>\n<p>\u2014 Na volta.<\/p>\n<p>\u2014 Daqui a quatro meses?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso afirmar nada.<\/p>\n<p>Romualdo saiu; Carlota ficou pensativa algum tempo.<\/p>\n<p>\u201cSingular homem! pensou ela. Achei-lhe a m\u00e3o fria e, entretanto&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Depressa passou a Carlota a impress\u00e3o que lhe deixara o Romualdo. Este seguiu, e ela retirou-se \u00e0 fazenda da tia, enquanto o Dr. Andrade continuou o invent\u00e1rio. Quatro meses depois, voltou Carlota a esta corte, mais curada das saudades, e em todo caso cheia de resigna\u00e7\u00e3o. A amiga encarregou-se de acabar a cura, e n\u00e3o lhe foi dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Carlota n\u00e3o esquecera o marido; ele estava presente ao cora\u00e7\u00e3o, mas o cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m cansa de chorar. Andrade que a freq\u00fcentava, n\u00e3o pensara em substituir o finado marido; ao contr\u00e1rio, parece que principalmente gostava da outra. Pode ser tamb\u00e9m que fosse mais cortes\u00e3o com ela, por ela ser menos recente vi\u00fava. O que toda a gente cria \u00e9 que dali, qualquer que fosse a escolhida, tinha de nascer um casamento com ele. N\u00e3o tardou que as pretens\u00f5es de Andrade se inclinassem puramente \u00e0 outra.<\/p>\n<p>\u201cTanto melhor\u201d pensou Carlota, logo que o percebeu.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de Carlota \u00e9 que, sendo assim, n\u00e3o ficava ela obrigada a despos\u00e1-lo; mas esta id\u00e9ia n\u00e3o a formulou inteiramente; era confessar que estaria inclinada a casar.<\/p>\n<p>Passaram-se ainda algumas semanas, oito ou dez, at\u00e9 que um dia anunciaram os jornais a chegada de Romualdo. Ela mandou-lhe um cart\u00e3o de cumprimento, e ele deu-se pressa em pagar-lhe a visita. Acharam-se mudados; ela pareceu-lhe menos p\u00e1lida, um pouco mais tranq\u00fcila, para n\u00e3o dizer alegre; ele menos \u00e1spero no aspecto, e at\u00e9 mais gracioso. Carlota<br \/>\nconvidou-o a jantar com ela da\u00ed a dias. A amiga estava presente.<\/p>\n<p>Romualdo foi circunspecto com ambas, e, posto que trivial, conseguia p\u00f4r nas palavras uma nota de interesse. O que, por\u00e9m, real\u00e7ava a pessoa dele era \u2014 em rela\u00e7\u00e3o a uma, a transmiss\u00e3o do recado do marido, e a respeito da outra a paix\u00e3o que sentira pela primeira, e a possibilidade de vir a despos\u00e1-la. A verdade \u00e9 que ele passou uma noite excelente, e saiu de l\u00e1 encantado. A segunda convidou-o tamb\u00e9m para jantar da\u00ed a dias, e os tr\u00eas reuniram-se outra vez.<\/p>\n<p>\u2014 Ele ainda gosta de ti? perguntava uma.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, acabou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acabou.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o? H\u00e1 tanto tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Que importa o tempo?<\/p>\n<p>E teimava que o tempo era cousa importante, mas tamb\u00e9m n\u00e3o valia nada, principalmente em certos casos. Romualdo parecia pertencer \u00e0 fam\u00edlia dos apaixonados s\u00e9rios. Enquanto dizia isso, olhava para ela a ver se lhe descobria alguma cousa; mas era dif\u00edcil ou imposs\u00edvel. Carlota levantava os ombros.<\/p>\n<p>Andrade sup\u00f4s tamb\u00e9m alguma cousa, por insinua\u00e7\u00e3o da outra vi\u00fava, e tratou de ver se descobria a verdade; n\u00e3o descobriu cousa nenhuma. O amor de Andrade ia crescendo. N\u00e3o tardou que o ci\u00fame viesse fazer-lhe cortejo. Pareceu-lhe que a amada via o Romualdo com olhos singulares; e a verdade \u00e9 que estava muita vez com ele.<\/p>\n<p>Para quem se lembra das primeiras impress\u00f5es das duas vi\u00favas, h\u00e1 de ser dif\u00edcil ver na observa\u00e7\u00e3o do nosso Andrade; mas eu sou historiador fiel, e a verdade antes de tudo. A verdade \u00e9 que ambas as vi\u00favas come\u00e7avam a cerc\u00e1-lo de especiais aten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Romualdo n\u00e3o o percebeu logo, porque era modesto, apesar de audaz, \u00e0s vezes; e da parte de Carlota n\u00e3o chegou mesmo a perceber nada; a outra, por\u00e9m, houve-se de maneira que n\u00e3o tardou em descobrir-se. Era certo que o cortejava.<\/p>\n<p>Daqui nasceram os primeiros elementos de um drama. Romualdo n\u00e3o acudiu ao chamado da bela dama, e esse procedimento n\u00e3o fez mais do que irrit\u00e1-la e dar-lhe o gosto de teimar e vencer. Andrade, ao ver-se posto de lado, ou quase, determinou lutar tamb\u00e9m e destruir o rival nascente, que podia ser em breve triunfante. J\u00e1 isso bastava; mas eis que Carlota, curiosa da alma do Romualdo, sentiu que este objeto de estudo podia escapar-se-lhe, desde que a outra o quisesse para si. J\u00e1 ent\u00e3o eram passados treze meses da morte do marido, o luto estava aliviado, e a beleza dela, com ou sem luto, fechado ou aliviado, estava no cume.<\/p>\n<p>A luta que ent\u00e3o come\u00e7ou teve diferentes fases, e durou cerca de cinco meses mais. Carlota, no meio dela, sentiu que alguma cousa batia no cora\u00e7\u00e3o de Romualdo. As duas vi\u00favas em breve descobriram as baterias; Romualdo solicitado por ambas, n\u00e3o se demorou na escolha; mas o desejo do morto? No fim de cinco meses as duas vi\u00favas estavam brigadas, para sempre; e no fim de mais tr\u00eas (custa-me diz\u00ea-lo, mas \u00e9 verdade), no fim de mais tr\u00eas meses, Romualdo e Carlota iam meditar juntos e unidos sobre a desvantagem de morrer primeiro.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis UM DIA, de manh\u00e3, D. Maria Soares, que estava em casa, descansando de um baile para ir a outro, foi procurada por D. Carlota, companheira antiga de col\u00e9gio, e s\u00f3cia agora da vida elegante. 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