{"id":116905,"date":"2017-03-31T10:53:36","date_gmt":"2017-03-31T12:53:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116905"},"modified":"2017-03-31T10:53:36","modified_gmt":"2017-03-31T12:53:36","slug":"poesias-raul-pompeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poesias-raul-pompeia","title":{"rendered":"Poesias &#8211; Raul Pomp\u00e9ia"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"524\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">A Mudan\u00e7a da Capital da Rep\u00fablica<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">A Noite<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">A Persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s Cartomantes<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Amarelo, Desespero<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">As Can\u00e7\u00f5es sem Metro<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">As Greves<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Azul, Ci\u00fame<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Branco, Paz<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Ind\u00fastria<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Inverno<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Negro, Morte<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">O Ventre<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Rosa, Amor<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Roxo, Tristeza<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Ver\u00e3o<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Verde, Esperan\u00e7a<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Vermelho, Guerra<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Via\u00e7\u00e3o Urbana<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">Voto Feminino e Voto Estudantil<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Raul Pomp&eacute;ia<\/h2>\n<h4><a name=\"1\">A Mudan\u00e7a da Capital da Rep\u00fablica<\/a><\/h4>\n<p>Enquanto se debatem estas atribui&ccedil;&otilde;es da vida popular, h&aacute;<br \/>\n    fil&oacute;sofos admir&aacute;veis, de bastante calma para meditar a mudan&ccedil;a<br \/>\n    da capital da Rep&uacute;blica. <\/p>\n<p>Foi uma das id&eacute;ias da semana a da mudan&ccedil;a, nada menos (mudan&ccedil;a<br \/>\n    de capital&#8230;) do Rio de Janeiro para o sert&atilde;o de Goi&aacute;s! <\/p>\n<p>Houve ing&ecirc;nuos que admiraram a simples transfer&ecirc;ncia de um obelisco<br \/>\n    das margens do Nilo para a capital da Fran&ccedil;a. A vingar a id&eacute;ia<br \/>\n    de mudan&ccedil;a da capital da Rep&uacute;blica para o s&iacute;tio da Formosa<br \/>\n    da Imperatriz do chapad&atilde;o goiano, teremos ocasi&atilde;o de ver coisa<br \/>\n    muito mais espantosa, a transfer&ecirc;ncia total, em conjunto ou por partes,<br \/>\n    de uma enorme cidade. <\/p>\n<p>H&aacute; coisas nessa transfer&ecirc;ncia que s&oacute; pensar nelas perturba<br \/>\n    a imagina&ccedil;&atilde;o. Que se levem as est&aacute;tuas das pra&ccedil;as,<br \/>\n    concebe-se &#8212; dentro de caixas apropriadas e convenientemente s&oacute;lidas.<br \/>\n    Que se leve o chafariz do antigo Largo do Pa&ccedil;o ou o zimb&oacute;rio<br \/>\n    da Candel&aacute;ria, tamb&eacute;m se concebe; basta que se o pegue por cima<br \/>\n    do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pir&acirc;mide, pela esfera<br \/>\n    armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimb&oacute;rio<br \/>\n    da Candel&aacute;ria, pega-se pela cruz. Compreende-se que v&aacute; tamb&eacute;m<br \/>\n    a caixa d&#8217;&aacute;gua da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como<br \/>\n    um carrinho de caix&atilde;o de meninos. Pode-se at&eacute; aproveitar o espa&ccedil;o<br \/>\n    v&atilde;o e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do<br \/>\n    Aqueduto de Santa Tereza. Os edif&iacute;cios tamb&eacute;m &eacute; f&aacute;cil<br \/>\n    imaginar que ir&atilde;o desconjuntados, parede por parede, escada por escada,<br \/>\n    teto por teto, desde que se numerem as diferentes pe&ccedil;as para se n&atilde;o<br \/>\n    confundirem. N&atilde;o foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris<br \/>\n    at&eacute; aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade,<br \/>\n    conjetura-se igualmente: s&atilde;o de terra: podem ir aos bocados em carro&ccedil;as,<br \/>\n    por exemplo, e l&aacute; no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura<br \/>\n    n&atilde;o se est&aacute; fazendo a mudan&ccedil;a pouco a pouco de alguns<br \/>\n    desses morros para dentro da ba&iacute;a?&#8230; Mas h&aacute; mudan&ccedil;as<br \/>\n    inconceb&iacute;veis. Como conseguir&atilde;o os mudadores da capital trasladar<br \/>\n    o Corcovado?. Rochas, &aacute;guas, florestas e a estrada de ferro. Como h&atilde;o<br \/>\n    de poder mudar para l&aacute;, para o sert&atilde;o da Formosa o P&atilde;o<br \/>\n    de A&ccedil;&uacute;car, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da<br \/>\n    nossa bela capital que mudada sem eles n&atilde;o se teria mudado?! <\/p>\n<h4><a name=\"2\">A Noite<\/a><\/h4>\n<p>&#8230; le ciel Se ferme lentement comme une grande alc&ocirc;ve, Et l&#8217;homme<br \/>\n    impatient se change en b&ecirc;te fauve. <\/p>\n<p><b>C. BAUDELAIRE <\/b><\/p>\n<p>Chamamos treva &agrave; noite. A noite vem do Oriente como a luz. Adiante,<br \/>\n    voam-lhe os g&ecirc;nios da sombra, distribuindo estrelas e pirilampos.<\/p>\n<p> A noite, soberana, desce. Por estranha magia revelam-se os fantasmas de<br \/>\n    s&uacute;bito. Saem as paix&otilde;es m&aacute;s e obscenas; a hipocrisia<br \/>\n    descasca-se e aparece; levantam-se no escuro as vesgas trai&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    crispando os punhos ao cabo dos punhais; &agrave; sombra do bosque e nas ruas<br \/>\n    ermas, a alma perversa e a alma bestial encontram-se como amantes apalavrados;<br \/>\n    tresanda o miasma da orgia e da maldade &#8212; suja o ambiente; cada nova<br \/>\n    l&acirc;mpada que se acende, cada l&acirc;mpada que expira &eacute; um olhar<br \/>\n    torvo ou um olhar l&uacute;brico; familiares e insolentes, d&atilde;o-se as<br \/>\n    m&atilde;os o v&iacute;cio e o crime &#8212; dois b&ecirc;bedos. <\/p>\n<p>Longe da&iacute; a gemedora maternidade elabora a certeza das orgias vindouras.\n  <\/p>\n<p>E a escurid&atilde;o, de pudor, cerra-se, mais intensa e mais negra. Chamamos<br \/>\n    treva &agrave; noite &#8212; a noite que nos revela a subnatureza dos homens<br \/>\n    e o espet&aacute;culo incompar&aacute;vel das estrelas. <\/p>\n<h4><a name=\"3\">A Persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s Cartomantes<\/a><\/h4>\n<p>A persegui&ccedil;&atilde;o &agrave;s cartomantes, que constitui boa parte<br \/>\n    do movimento da semana, n&atilde;o se pode dizer que esteja de acordo com<br \/>\n    a liberdade de cultos que existe e que se apregoa na atualidade. <\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida. <\/p>\n<p>A supersti&ccedil;&atilde;o &eacute; a filosofia dos pobres. Dos pobres de<br \/>\n    esp&iacute;rito por natureza, e dos que, somente porque n&atilde;o encontraram<br \/>\n    nos recursos materiais da vida um meio de serem ricos de esp&iacute;rito,<br \/>\n    tiveram de permanecer irremediavelmente na pen&uacute;ria. Ser tolo, que imenso<br \/>\n    mal! Crer no milagre e na revela&ccedil;&atilde;o da cartomante&#8230; Porventura<br \/>\n    ser&aacute; uma obriga&ccedil;&atilde;o possuir a filosofia dos atilados?\n  <\/p>\n<p>Todos n&oacute;s temos no c&eacute;rebro uma por&ccedil;&atilde;o mais ou<br \/>\n    menos consider&aacute;vel de imagina&ccedil;&atilde;o voltada para o sobrenatural.<br \/>\n    Desde que se n&atilde;o acha meio de imaginar. Por exemplo, a correta religi&atilde;o,<br \/>\n    a gente vai-se arranjando com um cultozinho de meia tigela, que &eacute; um<br \/>\n    rid&iacute;culo para muitos, mas que para a gente &eacute; uma grande coisa<br \/>\n    e d&aacute; satisfa&ccedil;&atilde;o sofrivelmente a todas as suspeitas e<br \/>\n    curiosidade da ignor&acirc;ncia. <\/p>\n<p>A seita das cartomantes &eacute; desta esp&eacute;cie. Vem da necessidade<br \/>\n    entre profana e religiosa do milagre barato. Quem n&atilde;o tem cabe&ccedil;a<br \/>\n    nem latim para se entender familiarmente com o mist&eacute;rio da Transubstancia&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    vai-se arranjando com o misteriozinho de Mme. Jos&eacute;phine, que &eacute;<br \/>\n    capaz de adivinhar, sem mais nem menos, onde est&aacute; o gato ou quem matou<br \/>\n    o c&atilde;o. <\/p>\n<p>Mas especulam, recebem dinheiro pelas consultas velhacas. Que tem a pol&iacute;cia<br \/>\n    com a despesa particular dos tolos? A curatela dos insensatos que desperdi&ccedil;am<br \/>\n    n&atilde;o foi ainda armada de apito para entrar em fun&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Espere a pol&iacute;cia que transpare&ccedil;a um caso de fraude comum ou<br \/>\n    de viol&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>Outrora, no tempo da f&eacute; privilegiada, elas viviam livres, as cartomantes,<br \/>\n    com o seu baralho m&aacute;gico, carteando a sua jogatina com os tolos e os<br \/>\n    tolos perdendo sempre. <\/p>\n<p>Pensava-se que os que perdiam, lucravam contudo a embriaguez da sua toleima,<br \/>\n    que voltava da consulta lisonjeada e aplaudida. Que necessitam em rigor as<br \/>\n    &acirc;nsias espirituais? Que um processo espiritual as acalme. Imaginem a<br \/>\n    tolice assoberbada por uma grande ansiedade moral, parecida com essas que<br \/>\n    para os esp&iacute;ritos de melhor quilate encontrariam desafogo num conselho<br \/>\n    filos&oacute;fico ou num preceito religioso, o terror bo&ccedil;al de um feiti&ccedil;o,<br \/>\n    por exemplo. A cartomante em vez de aplicar ao caso a regra de um fil&oacute;sofo<br \/>\n    ou de um padre da igreja, raciocinava que a tolice &eacute; tola e como tola<br \/>\n    deve ser tratada, e, para a asneira do feiti&ccedil;o, receitava com sucesso<br \/>\n    a asneira do contrafeiti&ccedil;o. Poder-se-ia considerar a v&iacute;tima<br \/>\n    de uma fraude algu&eacute;m que &agrave;s cartomantes recorria para alcan&ccedil;ar<br \/>\n    o seu sossego de esp&iacute;rito, e voltava da consulta realmente sossegado?\n  <\/p>\n<p>Permitia-se ent&atilde;o outrora que a religi&atilde;o da tolice fizesse<br \/>\n    sua vida, com a condi&ccedil;&atilde;o apenas de se n&atilde;o patentear pela<br \/>\n    forma exterior de nenhum esc&acirc;ndalo. <\/p>\n<p>Se assim sucedia outrora, como &eacute; que hoje, que os foros da cidade<br \/>\n    foram facilitados a todos os cultos, vai-se contra a pobre e simp&aacute;tica<br \/>\n    religi&atilde;o dos tolos desenvolver a oposi&ccedil;&atilde;o das amea&ccedil;as<br \/>\n    aterradoras do xadrez?! <\/p>\n<p>Se ao folhetim se consultasse qual deveria ser o procedimento l&oacute;gico<br \/>\n    do momento, dir-se-ia aqui em resposta: liberdade aos tolos da sua tolice;<br \/>\n    que se deixem esfolar os parvos pelo pre&ccedil;o da sua parvo&iacute;ce;<br \/>\n    d&ecirc;em cartas as cartomantes como um mand&atilde;o da ro&ccedil;a; conselhos,<br \/>\n    medicina, adivinha&ccedil;&otilde;es, toda a esp&eacute;cie de sortil&eacute;gio<br \/>\n    do desfrute tenha livre pr&aacute;tica. Re&uacute;nam-se at&eacute; em sinagoga,<br \/>\n    se quiserem, todas as espertas ledoras de buena dicha. Quando a todas as religi&otilde;es<br \/>\n    se permite a liberdade absoluta dos seus ritos &eacute; de elementar eq&uuml;idade<br \/>\n    que aos tolos se faculte a religi&atilde;o da toleima, o livre exerc&iacute;cio<br \/>\n    do seu culto, a livre presen&ccedil;a do seu templo, mesmo, se eles ambicionarem<br \/>\n    na linha ordin&aacute;ria de todas as outras casas de culto, com a forma exterior<br \/>\n    que muito bem resolvam, assinalando em plena evid&ecirc;ncia a arquitetura<br \/>\n    simb&oacute;lica da letra T. <\/p>\n<h4><a name=\"4\">Amarelo, Desespero<\/a><\/h4>\n<p>Ouro e sol; ouro, o desespero da cobi&ccedil;a, sol, o desespero da contempla&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    a cor dos ideais perdidos. <\/p>\n<p>Sobre o leito, o cheiro mau das chagas era como uma antecipa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da morte. Descamava-se a pele em crostas &aacute;speras sobre o grude do pus.<br \/>\n    Ela morria, alcan&ccedil;ada pelo sorteio inexor&aacute;vel da Peste. &Agrave;<br \/>\n    porta, o anjo negro da maldi&ccedil;&atilde;o; longe, a espavorida caridade.\n  <\/p>\n<p>Ali, na parede, havia flores adornando um retrato de mo&ccedil;o. Simples<br \/>\n    lembran&ccedil;a da P&aacute;scoa, flores da aleluia, colhidas numa escapada<br \/>\n    de amantes. Amor n&atilde;o faz quaresma&#8230; Cobertas de ouro as &aacute;rvores&#8230;<br \/>\n    Ela tamb&eacute;m triunfante: ouro sobre o esplendor adorado do sexo&#8230; Agora<br \/>\n    fitava as flores secas. Junto dela, o filho, pequeno animal sem vontade, sem<br \/>\n    vida, que lhe chegava aos l&aacute;bios um copo d&#8217;&aacute;gua. <\/p>\n<p>Sobrara-lhe um filho nos desperd&iacute;cios do passado, para vigiar-lhe<br \/>\n    a agonia. Ningu&eacute;m mais, ningu&eacute;m mais, nem Deus com ela: apenas<br \/>\n    as flores do desespero e aquele copo d&#8217;&aacute;gua de vez em quando, que ela<br \/>\n    sorvia como uma medicina amarga de l&aacute;grimas&#8230; <\/p>\n<h4><a name=\"5\">As Can\u00e7\u00f5es sem Metro<\/a><\/h4>\n<p><b>Vibra&ccedil;&otilde;es <\/b><\/p>\n<p>Comme des longs &eacute;chos qui de loin se confondent<br \/>\n    Dans une t&eacute;n&eacute;breuse et profonde unit&eacute;,<br \/>\n    Vaste comme la nuit et comme la clart&eacute;,<br \/>\n    Les parfums, les couleurs et les sons se repondent.<br \/>\n    C. BAUDELAIRE <\/p>\n<p>Vibrar, viver. Vibra o abismo et&eacute;reo &agrave; m&uacute;sica das esferas;<br \/>\n    vibra a convuls&atilde;o do verme, no segredo subterr&acirc;neo dos t&uacute;mulos.<br \/>\n    Vive a luz, vive o perfume, vive o som, vive a putrefa&ccedil;&atilde;o. Vivem<br \/>\n    &agrave; semelhan&ccedil;a os &acirc;nimos. <\/p>\n<p>A harpa do sentimento canta no peito, ora o entusiasmo, um hino, ora o ad&aacute;gio<br \/>\n    oscilante da cisma. A cada nota, uma cor, tal qual nas vibra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da luz. O conjunto &eacute; a sinfonia das paix&otilde;es. Eleva-se a grada&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    crom&aacute;tica at&eacute; &agrave; suprema intensidade rutilante; baixa<br \/>\n    &agrave; profunda e escura vibra&ccedil;&atilde;o das elegias. <\/p>\n<p>Sonoridade, colorido: eis o sentimento. <\/p>\n<p>Da&iacute; o simbolismo popular das cores. <\/p>\n<h4><a name=\"6\">As Greves<\/a><\/h4>\n<p>Depois, n&atilde;o carecemos de culpas reprov&aacute;veis para ter a agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    popular no Rio de Janeiro. A&iacute; est&atilde;o as gr&egrave;ves. <\/p>\n<p>Supunha-se que era privil&eacute;gio das popula&ccedil;&otilde;es oper&aacute;rias<br \/>\n    da velha Europa. As gr&egrave;ves foram pouco a pouco emigrando para o nosso<br \/>\n    continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela<br \/>\n    carta geogr&aacute;fica e invadiram o Chile. Agora est&atilde;o na capital<br \/>\n    fluminense. <\/p>\n<p>&Eacute; justi&ccedil;a, contudo, reconhecer que as nossas gr&egrave;ves<br \/>\n    de um povo feliz, s&atilde;o calmas e moderadas, quase circunspectas; o que,<br \/>\n    longe de enfraquec&ecirc;-las, deve ao contr&aacute;rio prestigi&aacute;-las<br \/>\n    diante daquelas contra quem representam. <\/p>\n<p>Em aten&ccedil;&atilde;o a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os<br \/>\n    patr&otilde;es cuidar em atend&ecirc;-los da melhor vontade. <\/p>\n<p>A ind&uacute;stria mal come&ccedil;a a existir entre n&oacute;s, a opini&atilde;o<br \/>\n    oper&aacute;ria, por assim dizer, come&ccedil;a apenas a constituir-se. Mas<br \/>\n    com o natural progresso ela h&aacute; de ter voto en&eacute;rgico, aqui como<br \/>\n    em toda parte, e &eacute; bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para<br \/>\n    estabelecer-se entre o capital e o trabalho, v&atilde;o desde j&aacute; implantando,<br \/>\n    entre os seus subordinados, pela eq&uuml;idade das concess&otilde;es, os h&aacute;bitos<br \/>\n    de harmonia e m&uacute;tuo bom humor indispens&aacute;veis &agrave; vida econ&ocirc;mica<br \/>\n    da produ&ccedil;&atilde;o. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte<br \/>\n    se vai conceder? O meio-tempo n&atilde;o passa de um prazo &uacute;til de<br \/>\n    azedume. <\/p>\n<p>Dir-se-&aacute; que, enquanto a impaci&ecirc;ncia dos grevistas vai e vem,<br \/>\n    folgam alguns lucros. Mas a ind&uacute;stria n&atilde;o &eacute; com certeza<br \/>\n    uma coisa ef&ecirc;mera, que se adstrinja &agrave;s vantagens de um momento.\n  <\/p>\n<p>E resistir &eacute; unicamente adiar, isto mesmo quando a resist&ecirc;ncia<br \/>\n    &eacute; prof&iacute;cua; e adiar &eacute; instituir a reclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    perp&eacute;tua em regime; &eacute; arvorar em mal cr&ocirc;nico uma crise<br \/>\n    passageira. Acrescendo a consci&ecirc;ncia de que a resist&ecirc;ncia fatalmente<br \/>\n    sucumbir&aacute; por fim, o que a faz insensata sobre mal&eacute;vola. <\/p>\n<p>Reparem bem no que &eacute; a gr&egrave;ve. <\/p>\n<p>A gr&egrave;ve &eacute; a transforma&ccedil;&atilde;o moderna da guerra.\n  <\/p>\n<p>&Euml; mais do que a transforma&ccedil;&atilde;o: &eacute; a pr&oacute;pria<br \/>\n    guerra invertida. A guerra &eacute; um movimento de agress&atilde;o; a gr&egrave;ve<br \/>\n    &eacute; a imobilidade agressiva. A gr&egrave;ve disp&otilde;e da mais poderosa<br \/>\n    das for&ccedil;as da natureza, a celebrada for&ccedil;a da in&eacute;rcia.<br \/>\n    Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela gr&egrave;ve faria coisa mais<br \/>\n    dif&iacute;cil: venceria o comandante. Se a guerra e a gr&egrave;ve se confundissem,<br \/>\n    por efeito de uma conspira&ccedil;&atilde;o generosa das classes armadas,<br \/>\n    a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambi&ccedil;&otilde;es internacionais<br \/>\n    morreria paral&iacute;tico. <\/p>\n<p>Esta reforma da estrat&eacute;gia das lutas sociais veio da altera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da &iacute;ndole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro<br \/>\n    uma aurora evidente de paz. <\/p>\n<p>Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decad&ecirc;ncia<br \/>\n    da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O s&eacute;culo XIX, chamado<br \/>\n    s&eacute;culo do oper&aacute;rio, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente<br \/>\n    mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justi&ccedil;a, n&atilde;o<br \/>\n    custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar.<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida. A paz a&iacute; vem. E porque ela promete<br \/>\n    vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo&#8230; como diremos? arma de<br \/>\n    guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos comp&ecirc;ndios<br \/>\n    de t&aacute;tica que a guerra &eacute; principalmente a mobiliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    recorreu-se ao princ&iacute;pio contr&aacute;rio da imobiliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    para conhecer-lhe a efic&aacute;cia hostilizadora. O velho princ&iacute;pio<br \/>\n    da hostilidade &eacute; atacar; o novo princ&iacute;pio &eacute; n&atilde;o<br \/>\n    atacar, mas em compensa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o fazer mais nada. Bra&ccedil;os<br \/>\n    cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacr&ocirc;nico<br \/>\n    &#8212; &Agrave;s armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau;<br \/>\n    com a gr&egrave;ve nova deixam de correr os juros, o que &eacute; mil vezes<br \/>\n    pior. <\/p>\n<p>Vejam l&aacute; os chefes industriais que inc&ocirc;moda situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lhes pode reservar a teoria da resist&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>Entre n&oacute;s porque a massa dos trabalhadores n&atilde;o &eacute; numerosa<br \/>\n    e a imigra&ccedil;&atilde;o de pessoal para o trabalho &eacute; quotidiana,<br \/>\n    ainda pode haver o apelo para gente nova, em substitui&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    seus antecessores incontestados. Basta, por&eacute;m, que se forme o povo<br \/>\n    oper&aacute;rio domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com<br \/>\n    a intimidade de pr&oacute;ximas e antigas camaradagens, para que j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o haja outro recurso sen&atilde;o, como na Europa desabusada, o das<br \/>\n    absurdas coa&ccedil;&otilde;es brutais e mort&iacute;feras. <\/p>\n<h4><a name=\"7\">Azul, Ci\u00fame<\/a><\/h4>\n<p>C&eacute;u e oceano, a soledade sem fim. O ci&uacute;me &eacute; isolamento,<br \/>\n    queixa sem ecos do cora&ccedil;&atilde;o solit&aacute;rio. <\/p>\n<p>Ao despertar, estava s&oacute; na triste c&acirc;mara. Enferma e abandonada!<br \/>\n    Calcadas aos p&eacute;s as juras de ontem, como destro&ccedil;os de um &iacute;dolo<br \/>\n    quebrado. Fronteira ao leito, a janela parecia alargar-se mais e mais para<br \/>\n    mostrar o firmamento. Sob o reflexo azul sonhara Rosita o abandono, eles felizes<br \/>\n    numa concha de safira, levados &agrave; flor do grande lago, docemente, cantando,<br \/>\n    docemente, se a barcarola os levasse. Morreu, fechando na p&aacute;lpebra<br \/>\n    a estampa diurna daquele azul fundo, deserto<\/p>\n<h4><a name=\"8\">Branco, Paz<\/a><\/h4>\n<p>Arminho imaculado e virginais capelas, o sagrado leito das m&atilde;es, o<br \/>\n    rosto calmo dos mortos, os tranq&uuml;ilos fantasmas. <\/p>\n<p>&quot;Terminada a luta, minha boa Irene. Torno a ver-te enfim e aos queridinhos.<br \/>\n    Ver-me-&aacute;s tamb&eacute;m. Como se fica velho neste ambiente de p&oacute;lvora<br \/>\n    queimada!&quot; <\/p>\n<p>Dizia assim a carta, datada do acampamento. Irene ergueu os olhos para a<br \/>\n    tarde, os olhos rasos de pranto. Expirava o crep&uacute;sculo na ditosa agonia<br \/>\n    dos patriarcas, lenta e mansa; errava no ocidente a neblina l&uacute;cida<br \/>\n    da &uacute;ltima hora, saudade apenas no dia extinto. A estrela pl&aacute;cida<br \/>\n    das tardes parecia olhar a terra; em frente alava-se a lua e o luar noct&acirc;mbulo<br \/>\n    ia, pelos caminhos, semeando a difus&atilde;o suav&iacute;ssima da paz. <\/p>\n<p>Irene abandonou-se ao &ecirc;xtase contemplativo, gozando o crep&uacute;sculo,<br \/>\n    como se lhe invadisse o sentimento a letargia ed&ecirc;nica do anoitecer.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">Ind\u00fastria<\/a><\/h4>\n<p>Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux, <br \/>\n    Nuit et jour et sans fin, tourmentent les m&eacute;taux! <\/p>\n<p><b>A. BRIZEUX. <\/b><\/p>\n<p> O homem bate-se contra o mundo.<\/p>\n<p> Cada for\u00e7a viva \u00e9 um inimigo. \u00c0 parte a luta das paix\u00f5es, trava-se na sociedade<br \/>\n    a batalha perene das ind\u00fastrias. Combate-se contra o tempo que atrasa e contra<br \/>\n    a dist\u00e2ncia que afasta. <\/p>\n<p>A locomotiva atravessa as plan\u00edcies como um turbilh\u00e3o de ferro; a rede nervosa<br \/>\n    da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade na face do globo; o<br \/>\n    steamer suprime o oceano; o milagre de Guttemberg precipita em tempestade<br \/>\n    as id\u00e9ias, reduzindo o esfor\u00e7o cerebral; exacerbam-se os \u00edmpetos produtores<br \/>\n    do solo, com a energia vertiginosa das m\u00e1quinas. Vibram as cidades ao rumor<br \/>\n    hom\u00e9rico das caldeiras. <\/p>\n<p>Cada dia, o combate ganha uma nova fei\u00e7\u00e3o e o ventre fecundo, o ventre inexaur\u00edvel<br \/>\n    das forjas, para as novas pugnas, produz novas armas. Bendita febre industrial!<br \/>\n    Bendito o oper\u00e1rio, m\u00e1rtir das ind\u00fastrias! Estenda-se por todo o firmamento<br \/>\n    o fumo que paira sobre as cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplid\u00e3o<br \/>\n    e os signos impenetr\u00e1veis das esferas. <\/p>\n<h4><a name=\"10\">Inverno<\/a><\/h4>\n<p>Ya la esperanza a los hombres <br \/>\n    Para siempre abandon&oacute;: <br \/>\n    Los recuerdos son tan solo <br \/>\n    Pasto de su corazon. <\/p>\n<p><b>J. DE ESPRONCEDA. <br \/>\n    (El Diablo mundo). <\/b><\/p>\n<p>Inverno! inverno! inverno! Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva<br \/>\n    boreal, descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente,<br \/>\n    para l\u00e1 do horizonte, perp\u00e9tua solid\u00e3o in\u00f3spita, onde apenas se ouve a voz<br \/>\n    do vento que passa uivando como uma legi\u00e3o de lobos, atrav\u00e9s da cidade de<br \/>\n    catedrais e t\u00famulos de cristal na plan\u00edcie, fantasmas que a miragem povoam<br \/>\n    e animam, tudo isto: decep\u00e7\u00f5es, obscuridade, solid\u00e3o, desespero e a hora invis\u00edvel<br \/>\n    que passa como o vento, tudo isto \u00e9 o frio inverno da vida. <\/p>\n<p>H\u00e1 no esp\u00edrito o luto profundo daquele c\u00e9u de bruma dos lugares onde a natureza<br \/>\n    dorme por meses, \u00e0 espera do sol avaro que n\u00e3o vem. <\/p>\n<p>Nem ao menos a letargia acorda ao clar\u00e3o de falsas auroras, nem uma vez ao<br \/>\n    menos a c\u00fapula unida das n\u00e9voas abre um postigo para o outro c\u00e9u, a regi\u00e3o<br \/>\n    dos astros. Nada! Nada! Procuramos encontrar fora de n\u00f3s alguma coisa do que<br \/>\n    nos falta e os pobres olhos cansados n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m dos cabelos brancos que<br \/>\n    caem pela fronte; sofre-se o desengano do invernado que da fria choupana contasse<br \/>\n    ver a seara loura dos bons dias por entre as franjas de neve que os tetos<br \/>\n    babam ao frio. <\/p>\n<p>Tudo sombrio e triste. Triste o derradeiro consolo do inverno que embriaga<br \/>\n    entretanto como o \u00faltimo vinho dos condenados: a recorda\u00e7\u00e3o dos dias idos,<br \/>\n    a acerba saudade da primavera. <\/p>\n<h4><a name=\"11\">Negro, Morte<\/a><\/h4>\n<p>O contraste da luz &eacute; a noite negra. <\/p>\n<p>Sente-se na epiderme a car&iacute;cia do calefrio; envolve-nos um clima glacial;<br \/>\n    estranha brisa penetra-nos, feita de agulhas de gelo. Em v&atilde;o flameja<br \/>\n    o sol a pino. Sente-se dentro na altura a noite negra, invernosa, polar; sofre-se<br \/>\n    o contato da Sombra. Tudo trevas, sinistramente trevas. O dia, resplandecente<br \/>\n    na alvura dos edif&iacute;cios, produz o efeito da prata nos catafalcos. Vemos<br \/>\n    as flores, o prado. Monstros! Reclamam a carne do p&eacute; que os pisa; o<br \/>\n    verme s&ocirc;frego espreita-nos atrav&eacute;s da terra&#8230; Rir?! Mas o riso<br \/>\n    tem a cruel vantagem de acentuar, sob a pele, a caveira&#8230; <\/p>\n<p>H&aacute; destas escuras noites no esp&iacute;rito.<\/p>\n<h4><a name=\"12\">O Ventre<\/a><\/h4>\n<p>A atra\u00e7\u00e3o sideral \u00e9 uma forma do ego\u00edsmo. O equil\u00edbrio dos ego\u00edsmos, derivado<br \/>\n    em turbilh\u00e3o, faz a ordem nas cousas. Passa-se assim em presen\u00e7a do homem:<br \/>\n    a f\u00faria sedenta das ra\u00edzes penetra a terra buscando alimento; na espessura,<br \/>\n    o le\u00e3o persegue o ant\u00edlope; nas frondes, vingam os pomos assassinando as flores.<br \/>\n    O ego\u00edsmo cobi\u00e7a a destrui\u00e7\u00e3o. A sede inabrand\u00e1vel do mar tenta beber o rio,<br \/>\n    o rio pretende dar vaz\u00e3o \u00e0s nuvens, a nuvem ambiciona sorver o oceano. E vivem<br \/>\n    perpetuamente as flores, e vivem os animais nas brenhas, e vive a floresta;<br \/>\n    o rio corre sempre, a nuvem reaparece ainda. Esta luta de morte \u00e9 o quadro<br \/>\n    estupendo da vida na terra; como o equil\u00edbrio das atra\u00e7\u00f5es \u00e1vidas dos mundos,<br \/>\n    tr\u00e9gua for\u00e7ada de \u00f3dios, apelida-se a paz dos c\u00e9us. A fome \u00e9 a suprema doutrina.<br \/>\n    Consumir \u00e9 a lei. A chama devora e cintila; a terra devora e floresce; o tigre<br \/>\n    devora e ama. <\/p>\n<p> O abismo prenhe de auroras alimenta-se de s&eacute;culos. <\/p>\n<p>A ordem social tamb\u00e9m \u00e9 o turbilh\u00e3o perene ao redor de um centro. Giram as<br \/>\n    institui\u00e7\u00f5es, gravitam as hipocrisias, passam os Estados, bradam as cidades&#8230;<br \/>\n    O ventre, soberano como um deus, preside e engorda. <\/p>\n<h4><a name=\"13\">Rosa, Amor<\/a><\/h4>\n<p>O sorrir das virgens, e o ador&aacute;vel pudor, e a primeira luz da manh&atilde;.\n  <\/p>\n<p>Esta crian&ccedil;a pensativa. Acompanha com a vista o revoar dos pombos;<br \/>\n    escuta o misterioso segredo dos casais pousados. Vive-lhe ainda no semblante<br \/>\n    a candura da inf&acirc;ncia e nos formosos cabelos o c&aacute;lido aroma do<br \/>\n    ber&ccedil;o. S&uacute;bito, duas pombas partem. V&atilde;o. Longe, s&atilde;o<br \/>\n    como pontos brancos no azul; o bater das asas imita cintila&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    v&atilde;o, espa&ccedil;o a fora, estrelas enamoradas. <\/p>\n<p>A cismadora crian&ccedil;a experimenta a vertigem do azul e a alma escapa,<br \/>\n    sedenta de amplid&atilde;o, e voa ao encal&ccedil;o das estrelas. <\/p>\n<p>H&aacute; noites de pavor nas almas, h&aacute; belos dias igualmente e gratas<br \/>\n    expans&otilde;es matinais, auroras de rosa como em Homero. <\/p>\n<p>H&aacute; tamb&eacute;m nas almas o incolor di&aacute;fano do vidro. <\/p>\n<p>Dinheiro, amor, honraria, sucesso, nada me falta. O programa das ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tracei, realizei. Tive a meu servi&ccedil;o a intelig&ecirc;ncia estudiosa<br \/>\n    do Ocidente e a sensualidade amestrada do Levante. Tive por mim as mulheres<br \/>\n    como deusas e os homens como c&atilde;es. Nada me falta e disto pade&ccedil;o.<br \/>\n    Todos dizem: aspira&ccedil;&atilde;o! e eu n&atilde;o aspiro. Todos sentem<br \/>\n    a m&uacute;sica do universo e a harmonia colorida dos aspectos. Para mim s&oacute;,<br \/>\n    v&iacute;tima da saciedade! tudo &eacute; vazio, escancarado, nulo como um<br \/>\n    bocejo. <\/p>\n<p>E os dias passam, que vou contando lento, lento torturado pela implac&aacute;vel<br \/>\n    cor de vidro que me persegue. <\/p>\n<p>H&aacute;, enfim, a colora&ccedil;&atilde;o indistinta dos sentimentos, nas<br \/>\n    almas deformadas. <\/p>\n<p>Veio de longe, muito longe, m&iacute;sero! Teve outrora um c&eacute;u, uma<br \/>\n    p&aacute;tria, muitas afei&ccedil;&otilde;es, a cabana da aldeia. Agora s&oacute;<br \/>\n    tem o &oacute;dio. O &oacute;dio mora-lhe no peito, como um tigre na furna.<br \/>\n    Tiraram-lhe a p&aacute;tria, a companheira, votaram-lhe &agrave; morte os<br \/>\n    filhos, as filhas &agrave; torpeza; deram-lhe em compensa&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Mostrava a face preta, o sangue a correr. Quem s&atilde;o os teus algozes?\n  <\/p>\n<p>&#8211; Os homens brancos. <\/p>\n<p>Ela odeia os homens brancos; odeia a torre aguda, ao longe, como um punhal<br \/>\n    voltado contra os c&eacute;us: odeia o trem medonho de fogo e ferro, que muge<br \/>\n    e passa, troando, esc&acirc;ndalo do ermo. <\/p>\n<h4><a name=\"14\">Roxo, Tristeza<\/a><\/h4>\n<p>Tinta tomada &agrave; palheta do ocaso e &agrave;s flores da morte. <\/p>\n<p>Alegre, ela. Muita luz no espa&ccedil;o; bailava no ar o c&acirc;ntico sereno<br \/>\n    da manh&atilde;; na relva os arbustos orvalhados tinham um pequenino sol em<br \/>\n    cada folha. Somente as violetas sofriam, pungidas pelo dia. <\/p>\n<p>Outra manh&atilde;, tudo mudado. Na atmosfera, um torpor g&eacute;lido e<br \/>\n    sombrio. Os extremos da paisagem gastam-se na cerra&ccedil;&atilde;o como<br \/>\n    as orlas de uma pintura velha: nem sol nem p&aacute;ssaros na relva. <\/p>\n<p>Agora, &oacute;rf&atilde;. <\/p>\n<p>As violetas revivem, as melanc&oacute;licas, desabrochando em suspiros, sob<br \/>\n    as l&aacute;grimas da chuva. <\/p>\n<h4><a name=\"15\">Ver\u00e3o<\/a><\/h4>\n<p>La D&eacute;bauche et la Mort sont deux animables filles, <br \/>\n    Prodigues de baisers et riches de sant&eacute;, <br \/>\n    Dont le flanc toujours vierge et drap&eacute; de guenilles <br \/>\n    Sous l&#8217;&eacute;ternel labeur n&#8217;a jamais enfant&eacute;. <\/p>\n<p><b>C. BAUDELAIRE <\/b><\/p>\n<p>O ver\u00e3o \u00e9 o \u00eaxtase do fogo. Desabrocha francamente a primavera p\u00fabere. O<br \/>\n    esplendor vi\u00e7oso das formas da juventude aguarda a car\u00edcia da asa do estio<br \/>\n    que aquece e fecunda. <\/p>\n<p>Chega ent\u00e3o a festa do amor, a orgia do fogo. Fulge no abrasado z\u00eanite o<br \/>\n    sol, como um trof\u00e9u de espadas nuas e a natureza enleada pelas serpentes da<br \/>\n    lasc\u00edvia estival, debate-se \u00e0 luz, vencida, \u2014 bela amante que sucumbe ao amor<br \/>\n    carn\u00edvoro, pungente de um semideus guerreiro, na pr\u00f3pria tenda de campanha,<br \/>\n    b\u00eabedo ainda do furor do recontro, excitado pelo cheiro cruento da matan\u00e7a.<br \/>\n    Ser amada assim! suspirava a selvagem Rute, meiga e a\u00e9rea crian\u00e7a, no fundo<br \/>\n    misterioso do sangue. <\/p>\n<p>Amor de ver\u00e3o! Viver a intensidade mortal da vida, arder, arder e morrer,<br \/>\n    como o fogo que cresce, cresce e de si mesmo morre, enfermo do seu triunfo.\n  <\/p>\n<h4><a name=\"16\">Verde, Esperan\u00e7a<\/a><\/h4>\n<p>A impetuosa alegria da terra, &agrave; passagem de Flora, a primavera verde,<br \/>\n    compromisso maternal do outono e da opul&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>N&aacute;ufragos no mar. <\/p>\n<p>Sem p&atilde;o, sem rumo. Em roda, o gume afiado do horizonte, a reverbera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do sol nas &aacute;guas e o sil&ecirc;ncio solene da calmaria. A vela do barco,<br \/>\n    fl&aacute;cida, pendente &#8211; imagem do abatimento. Ligeira vira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    depois; denso nevoeiro&#8230; quatro dias! sud&aacute;rio de brumas que envolve<br \/>\n    o barco, elimina o c&eacute;u. V&atilde;o acabar assim, amortalhados na bruma.<br \/>\n    Um ramo, apenas, sobre as &aacute;guas, um ramo cor da esperan&ccedil;a. Salvos!<br \/>\n    Adivinha-se o continente salvador atrav&eacute;s da n&eacute;voa e o panorama<br \/>\n    verde das florestas<\/p>\n<h4><a name=\"17\">Vermelho, Guerra<\/a><\/h4>\n<p>Sangue, c&oacute;lera, vingan&ccedil;a, os hinos marciais, golpes, o inc&ecirc;ndio,<br \/>\n    vermelho o manto dos tiranos e Marte, o astro dos combates. <\/p>\n<p>Da casinha &agrave; beira-mar, olhos em febre, a velha m&atilde;e arg&uuml;&iacute;a<br \/>\n    a dist&acirc;ncia. L&aacute;, mergulhara o vapor que lhe roubava o filho para<br \/>\n    a guerra. A tarde passa e a noite; a velha, im&oacute;vel, marmorizada na<br \/>\n    dor, como uma escultura do Stabat Mater. E vem a aurora, uma aurora brutal<br \/>\n    de chama e sangue. A m&atilde;e do soldado caiu como morta. <\/p>\n<p>Ouvira, das bandas da aurora, um grito de morte e a voz perdida do agonizante<br \/>\n    era a voz do filho.<\/p>\n<h4><a name=\"18\">Via\u00e7\u00e3o Urbana<\/a><\/h4>\n<p>Sem sair do assunto de via&ccedil;&atilde;o urbana. <\/p>\n<p>Os carros do Rio de Janeiro fazem a sua vida e a sua sociedade a par da popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humana, infelizmente algumas vezes por cima dela; uma vida interessante cheia<br \/>\n    de epis&oacute;dios, de anima&ccedil;&atilde;o, de variedade. <\/p>\n<p>Os ve&iacute;culos t&ecirc;m o seu car&aacute;ter e vive cada um a seu modo;<br \/>\n    uns s&atilde;o aristocr&aacute;ticos, outros s&atilde;o plebeus; uns s&atilde;o<br \/>\n    ativos, outros s&atilde;o lerdos; h&aacute; ricos e pobres, modestos e arrogantes,<br \/>\n    honrados e perversos. T&ecirc;m suas paix&otilde;es: o caminh&atilde;o odeia<br \/>\n    o bond, o bond odeia a vit&oacute;ria. Brigam freq&uuml;entemente, sempre<br \/>\n    tal qual a sociedade dos homens, o mais forte, mesmo o mais injusto, tomando-lhe<br \/>\n    o lugar, ou esmagando o mais fraco. Atrav&eacute;s dessas intrigas rodantes,<br \/>\n    passa a honrada carro&ccedil;a, s&eacute;ria, com a sua carga de granito talhado<br \/>\n    a balan&ccedil;ar de cadeias de ferro, rude e v&aacute;lida como o trabalho.<br \/>\n    Ningu&eacute;m lhe toque, ela vai s&eacute;ria e grave o seu caminho: O bond<br \/>\n    bate-lhe tanto pior: perde a plataforma. O landau brazonado ro&ccedil;a-lhe<br \/>\n    insolente, com o p&aacute;ra-lama mete-lhe a lanterna &agrave; cara: perde<br \/>\n    o p&aacute;ra-lama, perde a lanterna. <\/p>\n<p>Fora da intriga geral, passa tamb&eacute;m o carrinho do p&atilde;o, madrugador<br \/>\n    e ativo, como que a gritar com o estr&eacute;pito das rodas que a atividade<br \/>\n    &eacute; que d&aacute; o p&atilde;o; passa o t&iacute;lburi leviano e c&eacute;lere,<br \/>\n    salvando-se da sua fraqueza pela celeridade, como os veados esquivando-se,<br \/>\n    fugindo, passando sempre adiante; esperto como um bom arranjador da vida,<br \/>\n    furtando aqui e ali um pouco de trilho ao bond, como a mostrar que a esperteza<br \/>\n    e a consci&ecirc;ncia n&atilde;o s&atilde;o geralmente predicadas complementares.<br \/>\n    Mas o que mais interessa da vida dos ve&iacute;culos &eacute; a hip&oacute;tese<br \/>\n    referida em que eles, que fazem a vida ao lado da vida da popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humana, d&atilde;o muita vez para faz&ecirc;-la por cima. .. <\/p>\n<p>Mais interessante porque mais gravemente nos afeta, e porque &eacute; um<br \/>\n    ponto de discuss&atilde;o. <\/p>\n<p>&Eacute; a quest&atilde;o da responsabilidade dos cocheiros. <\/p>\n<p>Ainda esta semana, no Campo da Aclama&ccedil;&atilde;o, deu-se um horr&iacute;vel<br \/>\n    desastre. A v&iacute;tima foi uma mulher. Contundida por um carro da Companhia<br \/>\n    de S&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o, teve o cora&ccedil;&atilde;o varado<br \/>\n    por um fragmento das costelas, que se lhe quebraram com a pancada do ve&iacute;culo,<br \/>\n    e sucumbiu imediatamente. A cr&ocirc;nica dos desastres de rua nesta cidade<br \/>\n    exagera-se, salvas as propor&ccedil;&otilde;es, sobre qualquer estat&iacute;stica<br \/>\n    cong&ecirc;nere dos centros mais populosos, registrando todos os dias tristes<br \/>\n    incidentes resultados da imprud&ecirc;ncia dos cocheiros. <\/p>\n<p>Reclamam-se provid&ecirc;ncias, inventam-se e adotam-se salva-vidas, mas<br \/>\n    a epidemia dos sinistros de rua n&atilde;o cessa. <\/p>\n<p>Indagando-se as causas de semelhante mal, considerando que j&aacute; se tem<br \/>\n    atendido a alguma coisa a esse respeito e o mal n&atilde;o decresce, pode-se<br \/>\n    com quase certeza o descobrir-lhe a principal origem na impunidade dos cocheiros.\n  <\/p>\n<p>Glosando o tema da imprud&ecirc;ncia dos transeuntes, a imprensa tem concorrido<br \/>\n    para esse regime de injusti&ccedil;a que a favorece aos culpados dos sinistros<br \/>\n    de rua, com revoltante viola&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio da seguran&ccedil;a<br \/>\n    p&uacute;blica. <\/p>\n<p>O transeunte, dizem, tem obriga&ccedil;&atilde;o de ver por onde passa, de<br \/>\n    ser atento e prudente. Porventura entender&aacute; quem assim diz, que os<br \/>\n    conselheiros gratuitos t&ecirc;m mais interesse em que um desastre n&atilde;o<br \/>\n    se d&ecirc; do que quem pode ser v&iacute;tima dele? E a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    porventura &eacute; coisa que imponha como um dever? E n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    patente que aquele que segue, preocupado com os seus graves neg&oacute;cios,<br \/>\n    absorvido por qualquer preocupa&ccedil;&atilde;o de sentimento ou de interesse,<br \/>\n    tem direito a que a sociedade vele por ele, proteja-lhe os imprudentes descuidos<br \/>\n    da sua preocupa&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Porventura poupa ele despesas de seguran&ccedil;a, pagas pelos impostos que<br \/>\n    o estado a seu favor aplica e aproveita? <\/p>\n<p>Ao condutor de um ve&iacute;culo, entretanto, que &eacute; remunerado para<br \/>\n    estar atento, que faz profiss&atilde;o da sua habilidade em guiar, livre de<br \/>\n    solavancos e desvios, o seu carro, inocenta-se, a pretexto de que o p&uacute;blico<br \/>\n    deve ter cuidado em n&atilde;o se meter embaixo das rodas. <\/p>\n<p>A respeito disto de prud&ecirc;ncia do transeunte, &eacute; de notar que<br \/>\n    as v&iacute;timas dos desastres de rua produzido pelos ve&iacute;culos s&atilde;o<br \/>\n    em maior n&uacute;mero mulheres e crian&ccedil;as, exatamente criaturas &agrave;s<br \/>\n    quais chega a assistir o direito da imprud&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>A opini&atilde;o seria outra, se para a cr&iacute;tica desta esp&eacute;cie<br \/>\n    de crimes desculpados, cuja arma &eacute; o peso de uma carruagem, se recordasse<br \/>\n    um costume, apenas, dos cocheiros, o que eles t&ecirc;m de &quot;espantar&quot;<br \/>\n    para abrir caminho ao seu carro, de espantar precipitando a carreira dos seus<br \/>\n    animais sobre o transeunte que lhe passa um tanto demorado por diante das<br \/>\n    parelhas. <\/p>\n<p>Assustado efetivamente o pobre, muitas vezes uma velha, um mendigo, um miser&aacute;vel<br \/>\n    semi-&eacute;brio, amea&ccedil;ado literalmente de morte, escapa-se o mais<br \/>\n    depressa que pode e o desastre &agrave;s vezes se evita. N&atilde;o seria,<br \/>\n    contudo, muito mais natural que os cocheiros procedessem por outra manobra,<br \/>\n    refreando a carreira do seu carro, estacando o belo galope de seus cavalos,<br \/>\n    e esperando, com a paci&ecirc;ncia de quem faz por salvar a vida de um homem,<br \/>\n    que se lhe tenha desfeito em caminho toda a probabilidade do mais horr&iacute;vel<br \/>\n    homic&iacute;dio? <\/p>\n<h4><a name=\"19\">Voto Feminino e Voto Estudantil<\/a><\/h4>\n<p>Verdade &eacute; que n&atilde;o deram voto as mulheres. <\/p>\n<p>Mas as mulheres o que precisam &eacute; de mais aten&ccedil;&otilde;es, de<br \/>\n    mais prote&ccedil;&atilde;o social, n&atilde;o &eacute; de mais direitos pol&iacute;ticos.\n  <\/p>\n<p>O direito de voto com extens&atilde;o &agrave;s mulheres seria a instui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    legal da virago, que &eacute; a mais feia da monstruosidade de que d&aacute;<br \/>\n    c&oacute;pia a sociedade, ainda pior do que a extravag&acirc;ncia oposta do<br \/>\n    maricas; porque o defeito deste est&aacute; na influ&ecirc;ncia e o da virago<br \/>\n    est&aacute; na demasia, e o mal por excesso sempre d&aacute; mais na vista.<br \/>\n    Viragos j&aacute; basta que o sejam por necessidade de temperamento algumas<br \/>\n    respeit&aacute;veis sogras, que entendem tomar excessivamente a s&eacute;rio<br \/>\n    o seu papel. <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m o Congresso n&atilde;o deu voto aos estudantes maiores de 18<br \/>\n    anos, nem de nenhuma outra idade. <\/p>\n<p>Mas, para que o voto aos estudantes? &Eacute; preciso que a gente tenha tempo<br \/>\n    de ser mo&ccedil;o, e ser mo&ccedil;o &eacute; poder fazer figas a tudo neste<br \/>\n    mundo, a come&ccedil;ar pela pol&iacute;tica. J&aacute; em S&atilde;o Paulo<br \/>\n    o jornal pol&iacute;tico da Academia matou a serenata. E todos sabem quanto<br \/>\n    perdeu a po&eacute;tica cidade dos estudantes, com a morte das guitarras.<br \/>\n    E o interessante &eacute; que os oradores dos clubs partid&aacute;rios, n&atilde;o<br \/>\n    oram hoje como cantavam antigamente os trovadores das orgias ao luar. <\/p>\n<p>O voto aos estudantes seria a consagra&ccedil;&atilde;o desse descalabro<br \/>\n    na lei; seria a aboli&ccedil;&atilde;o dos verdes anos, alguma cousa como<br \/>\n    a revoga&ccedil;&atilde;o da primavera. Com a idade de 15 anos, de 18 que<br \/>\n    fosse, entrava-se em sinistra maioridade e adeus idade dos poemas, adeus uma<br \/>\n    bo&ecirc;mia, adeus credores am&aacute;veis, adeus mesmo &agrave; risonha<br \/>\n    mesada, porque as diverg&ecirc;ncias pol&iacute;ticas paralisariam muitas<br \/>\n    vezes, a manufic&ecirc;ncia peri&oacute;dica dos cofres paternos. Era come&ccedil;ar<br \/>\n    logo a vida da responsabilidade, a vida pr&aacute;tica&#8230; Vida pr&aacute;tica.<br \/>\n    As escolas sabem o sentido destas duas terr&iacute;veis palavras na imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de quem ainda a tem ocupada pelo rev&ocirc;o das estrofes e pelo cantar das<br \/>\n    rimas. <\/p>\n<p>J&aacute; bem pouco de mo&ccedil;os t&ecirc;m os mo&ccedil;os brasileiros<br \/>\n    que t&atilde;o depressa cedem &agrave; preocupa&ccedil;&atilde;o melanc&oacute;lica<br \/>\n    da vida, para mais se agravar essa tend&ecirc;ncia de fraqueza, sobrecarregando-a<br \/>\n    com responsabilidades eleitorais. <\/p>\n<p>Nenhum mal faz que mesmo com perda para estat&iacute;stica dos c&iacute;rculos<br \/>\n    da cabala se v&atilde;o deixando os estudantes &agrave; estudantina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: A Mudan\u00e7a da Capital da Rep\u00fablica A Noite A Persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s Cartomantes Amarelo, Desespero As Can\u00e7\u00f5es sem Metro As Greves Azul, Ci\u00fame Branco, Paz Ind\u00fastria Inverno Negro, Morte O Ventre Rosa, Amor Roxo, Tristeza Ver\u00e3o Verde, Esperan\u00e7a Vermelho, Guerra Via\u00e7\u00e3o Urbana Voto Feminino e Voto Estudantil [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-116905","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Poesias - Raul Pomp\u00e9ia, Obras Liter\u00e1rias, A Noite, Literatura, Poesias - Raul Pomp\u00e9ia<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Poesias - Raul Pomp\u00e9ia, Obras Liter\u00e1rias, A Noite, A Persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s Cartomantes, As Can\u00e7\u00f5es Sem Metro, Literatura, Poesias - Raul Pomp\u00e9ia\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Poesias - Raul Pomp\u00e9ia, Obras Liter\u00e1rias, A Noite, Literatura, Poesias - Raul Pomp\u00e9ia\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Poesias - Raul Pomp\u00e9ia, Obras Liter\u00e1rias, A Noite, A Persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s Cartomantes, As Can\u00e7\u00f5es Sem Metro, Literatura, Poesias - Raul Pomp\u00e9ia\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poesias-raul-pompeia\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-03-31T12:53:36+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"33 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/poesias-raul-pompeia#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/poesias-raul-pompeia\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Poesias &#8211; 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