{"id":116900,"date":"2017-03-31T10:29:19","date_gmt":"2017-03-31T12:29:19","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116900"},"modified":"2017-03-31T10:29:19","modified_gmt":"2017-03-31T12:29:19","slug":"uma-tragedia-no-amazonas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/uma-tragedia-no-amazonas","title":{"rendered":"Uma Trag\u00e9dia no Amazonas"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"598\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Raul Pomp&eacute;ia<\/h2>\n<h4><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I: Uma habita&ccedil;&atilde;o<\/a><\/h4>\n<p>Algumas l&eacute;guas ao sul do Monte Purac&ecirc;, emanam do solo as &aacute;guas<br \/>\n    do Iapur&aacute;, que, de campina em campina, de bosque em bosque, passam<br \/>\n    o Equador e entram no grande Imp&eacute;rio americano, para a&iacute;, espumando,<br \/>\n    confundir-se com as ondas do soberano dos rios, o Amazonas.<\/p>\n<p>O viajor que subir a sua margem esquerda encontrar&aacute; a modesta povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe, e se continuar a subir, ver-se-&aacute;<br \/>\n    logo em uma espa&ccedil;osa v&aacute;rzea matizada de transparente verdura,<br \/>\n    que, de um lado, se estende a perder de vista, de outro, metamorfoseia-se<br \/>\n    em floresta, correndo por entre o Iapur&aacute; e montanhas tapetadas de um<br \/>\n    esverdeado sombrio, que corcoveando qual monstruosos golfinhos v&atilde;o<br \/>\n    ao longe desmaiar em azul o seu colorido suave.<\/p>\n<p>O povoado e essa extensa plan&iacute;cie comunicam-se por uma estreita picada.<\/p>\n<p>&Eacute; um desses caminhos de poesia selv&aacute;tica que se insinuam sob<br \/>\n    as ab&oacute;badas do arvoredo, parecendo destinados somente ao encanto do<br \/>\n    olhar.<\/p>\n<p>A sua direita ostenta-se com toda a opul&ecirc;ncia, a mata virgem do Brasil,<br \/>\n    enredada de cip&oacute;s que descrevem as mais caprichosas curvas, entre os<br \/>\n    idosos troncos guirlandados de parasitas, onde mil macaquinhos ligeiros soltam<br \/>\n    inquietos gritos, suspensos pela cauda, ou voando de ramo em ramo.<\/p>\n<p>Do meio das moitas de arbustos, saem, &agrave;s vezes, cobrinhas, que atravessam<br \/>\n    a picada avan&ccedil;ando prudentemente para o outro lado.<\/p>\n<p>&Agrave; esquerda desliza o afluente do Amazonas, murmurando ao entrar nas<br \/>\n    criptas formadas pelas rochas alcantiladas, que se empinam sobre as &aacute;guas,<br \/>\n    ora calvas, ora cobertas de vegeta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No lugar em que esta estrada desemboca da floresta, erguia-se, h&aacute;<br \/>\n    alguns anos, uma habita&ccedil;&atilde;o de apar&ecirc;ncia alegre, caiada<br \/>\n    de branco e edificada de maneira que causaria pasmo a quem n&atilde;o esperasse<br \/>\n    encontrar o civilizado em lugares onde a natureza &eacute; a rainha.<\/p>\n<p>Quase mergulhada em um magn&iacute;fico roseiral, tinha essa morada por &uacute;nica<br \/>\n    trincheira uma cerca de varas retorcidas, que ia terminar junto &agrave; palissada<br \/>\n    do redil do gado.<\/p>\n<p>A&iacute; residia Eust&aacute;quio de&#8230;, subdelegado de pol&iacute;cia,<br \/>\n    na freguesia que abrange S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe, entre outras povoa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    em companhia de sua esposa, Branca e uma linda orf&atilde;zinha de nome Rosalina,<br \/>\n    servidos por dois escravos, Ruperto e Silvano.<\/p>\n<p>Natural de Pernambuco era Eust&aacute;quio um homem en&eacute;rgico, inteligente<br \/>\n    e talvez ilustrado; quanto ao f&iacute;sico era, como se usa dizer, nem alto<br \/>\n    nem baixo, musculoso e forte possuindo uma constitui&ccedil;&atilde;o moldada<br \/>\n    aos mais ardentes climas.<\/p>\n<p>O seu rosto moreno velava, em parte, uma barba negra e cerrada como os superc&iacute;lios<br \/>\n    que sombreavam dois olhos brilhantes.<\/p>\n<p>Tinha alguma fortuna, o que era por todos ignorado.<\/p>\n<p>Branca, sua consorte, havia pouco mais de dois anos, nascera em Manaus e<br \/>\n    tendo ido completar a educa&ccedil;&atilde;o em Pernambuco de l&aacute; voltara<br \/>\n    com Eust&aacute;quio, que a desposara, levado pelos seus dotes f&iacute;sicos<br \/>\n    e morais.<\/p>\n<p>Desembarcando na cidade do seu nascimento soubera Branca que da&iacute; partira<br \/>\n    o seu pai para S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe, o que motivou a viagem que<br \/>\n    fez ela para essa povoa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Achava-se o velho sogro de Eust&aacute;quio habitando uma casinhola, que<br \/>\n    foi a moradia deste, at&eacute; findar-se a constru&ccedil;&atilde;o dessa<br \/>\n    casa mais confort&aacute;vel de que acima falamos.<\/p>\n<p>Poucos meses sobreviveu o velho &agrave; sua nova instala&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    lan&ccedil;ando o seu falecimento o luto no domic&iacute;lio de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>Havia o limiar de Branca sido franqueado a um entezinho nascido na pen&uacute;ria<br \/>\n    e para quem muito cruel se mostrara a Provid&ecirc;ncia. Era Rosalina, que<br \/>\n    assim viera adicionar um membro &aacute; pequena fam&iacute;lia do subdelegado.<\/p>\n<p>Formosa como a flor, essa crian&ccedil;a mostrou-se grata aos seus protetores,<br \/>\n    revelando em todos os movimentos uma alegria que fazia esquecer quanto a sua<br \/>\n    almazinha fora malhada pelo sofrimento e dilacerada pelo destino.<\/p>\n<p>Ruperto e Silvano eram simplesmente dois negros, mas devemos acrescentar,<br \/>\n    dois crioulos briosos e amigos devotados do seu senhor.<\/p>\n<p>Na &eacute;poca a que nos referimos no come&ccedil;o desta narra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o luto pelo pai de Branca j&aacute; desaparecera, sufocado pelo prazer que<br \/>\n    reassumia o seu lugar no lar de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>Quase todos os dias, apenas os alvores matutinos principiavam a branquear<br \/>\n    no oriente, Branca e a menina sa&iacute;am de casa e, com as vestes em desalinho,<br \/>\n    iam, &agrave; beira do rio, ver surgir o astro da luz.<\/p>\n<p>Com divertimentos semelhantes, levavam uma exist&ecirc;ncia feliz, inda que<br \/>\n    mon&oacute;tona, quando come&ccedil;aram a dar-se incidentes que trouxeram<br \/>\n    a inquieta&ccedil;&atilde;o ao &acirc;nimo de todos.<\/p>\n<p>Desapareciam animais, outros amanheciam degolados e agonizantes, planta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    devastadas e porteiras lan&ccedil;adas por terra.<\/p>\n<p>Estes danos, partos da perversidade, n&atilde;o eram, talvez, mais que o<br \/>\n    prel&uacute;dio de alguma cat&aacute;strofe remota.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio, sobressaltado, velou muitas noites e, percorrendo com Ruperto<br \/>\n    o campo e a floresta, prestava ouvidos mesmo ao sussurro do vento que curvava<br \/>\n    os altos galhos das castanheiras, ligeiramente prateadas pelo luar.<\/p>\n<p>Tudo foi embalde.<\/p>\n<p>Entretanto a import&acirc;ncia das perversidades subia gradualmente.<\/p>\n<p>O subdelegado, receoso de uma dessas correrias medonhas de selvagens, que<br \/>\n    levam a devasta&ccedil;&atilde;o &agrave;s mais magnificas paragens, deixando<br \/>\n    impressos os seus passos em uma trilha de cad&aacute;veres e de cinzas e fazendo<br \/>\n    fugir diante de si centenas de fam&iacute;lias expostas &agrave;s suas crueldades,<br \/>\n    determinou guarnecer a sua morada, assim como o povoado de uma for&ccedil;a<br \/>\n    militar, por&eacute;m n&atilde;o encontrou soldados em S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe<br \/>\n    nem nas povoa&ccedil;&otilde;es vizinhas.<\/p>\n<p>S&oacute; lhe restava, pois, pedir socorros a Manaus, onde se achavam as<br \/>\n    autoridades superiores da pol&iacute;cia, mas este proceder avultaria acontecimentos<br \/>\n    que podiam tamb&eacute;m ser simplesmente vingan&ccedil;as sem valor dos muitos<br \/>\n    inimigos que possu&iacute;a, como os possui, quem conscienciosamente administra<br \/>\n    a justi&ccedil;a, o que incutiria imotivado terror no esp&iacute;rito dos<br \/>\n    habitantes da vila.<\/p>\n<p>Para isso evitar, Eust&aacute;quio contentou-se com aguardar as circunst&acirc;ncias<br \/>\n    do futuro.<\/p>\n<p>Foram-lhe elas favor&aacute;veis, chegando ao povoado dois guardas vindos<br \/>\n    de Uarivan, que foram postos a seu servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>Quotidianamente, ao anoitecer, avistava-se os dois soldados subindo silenciosos<br \/>\n    a picada, a fim de se postarem &agrave; porta do subdelegado cujas provid&ecirc;ncias<br \/>\n    suspenderam, ao menos aparentemente, a s&eacute;rie de malvadezas contra ele<br \/>\n    praticadas.<\/p>\n<p>A vista da sua superfluidade, n&atilde;o duvidou Eust&aacute;quio em dispensar<br \/>\n    os servi&ccedil;os dos policiais, que se retiraram definitivamente para S.<br \/>\n    Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">Cap&iacute;tulo II: Dois viajantes<\/a><\/h4>\n<p>A pe&ccedil;a principal da casa de Eust&aacute;quio era uma sala, de boas<br \/>\n    dimens&otilde;es, entre paredes de imaculada alvura, que era clareada por<br \/>\n    tr&ecirc;s janelas de caixilhos brancos.<\/p>\n<p>Uma tarde, achando-se o subdelegado ausente por exig&ecirc;ncias do seu cargo,<br \/>\n    estavam Branca e Rosalina assentadas junto de uma dessas janelas, entretidas<br \/>\n    na leitura de um livro, iluminado pelo brando clar&atilde;o roxeado que algumas<br \/>\n    vezes tinge as paisagens, ao crep&uacute;sculo, quando ouviram duas leves<br \/>\n    pancadas na porta.<\/p>\n<p>&#8212; Eust&aacute;quio! exclamou a jovem filha de Manaus regozijando-se<br \/>\n    com a chegada do esposo.<\/p>\n<p>Deixando cair o livro sobre uma pequena mesa, correu &agrave; porta. Quando,<br \/>\n    por&eacute;m, come&ccedil;ava a suspender uma tranca de ferro que a refor&ccedil;ava,<br \/>\n    recuou e disse vivamente, em voz baixa:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, &eacute; imposs&iacute;vel, n&atilde;o &eacute; ele,<br \/>\n    pois que quando partiu assegurou-me que s&oacute; amanh&atilde; estaria de<br \/>\n    volta.<\/p>\n<p>Rosalina olhou Branca e viu-a tornar-se l&iacute;vida e tremer levemente.<\/p>\n<p>&#8212; Tem medo, mam&atilde;e? perguntou ela concedendo &agrave; esposa<br \/>\n    de Eust&aacute;quio esse doce ep&iacute;teto.<\/p>\n<p>&#8212; Na verdade, Rosalina, sinto-me, n&atilde;o sei porque, atemorizada&#8230;<br \/>\n    aqueles acontecimentos&#8230; a aus&ecirc;ncia de meu marido&#8230; tenho apreens&otilde;es<br \/>\n    horr&iacute;veis&#8230;<\/p>\n<p>Nesta ocasi&atilde;o, apresentou-se Silvano em uma das portas interiores,<br \/>\n    que dava entrada para um corredor, algum tanto enfuma&ccedil;ado pelos vapores<br \/>\n    da cozinha que ficava na sua extremidade.<\/p>\n<p>Branca acenou-lhe para que fosse saber quem batera. O preto abriu mui cautelosamente<br \/>\n    a porta, depois de alguns instantes fechou-a e, rindo-se da sua extrema prud&ecirc;ncia,<br \/>\n    anunciou dois viajantes.<\/p>\n<p>A senhora, tranq&uuml;ilizada, disse:<\/p>\n<p>&#8212; Convide-os a entrarem.<\/p>\n<p>Abriu-se de novo a porta, e dois indiv&iacute;duos se mostraram sobre a soleira.<\/p>\n<p>Um deles era um homem alto, cheio de corpo, de porte sereno mas intr&eacute;pido,<br \/>\n    cuja boca desaparecia, encoberta por dois bigodes louros que formavam a base<br \/>\n    de respeit&aacute;vel nariz, verdadeira pir&acirc;mide do Egito. Trajava de<br \/>\n    viajante trazendo a tiracolo uma espingarda.<\/p>\n<p>O outro era um rapazinho de dez ou doze anos. Tinha o rosto, de beleza pouco<br \/>\n    vulgar aos do seu sexo, aureolado de cabelos de ouro, tendo seus olhos um<br \/>\n    tom de atrevimento superior a sua idade.<\/p>\n<p>Estava vestido como o companheiro, possuindo como ele uma boa espingarda.<\/p>\n<p>Os rec&eacute;m-chegados e a dona da casa trocaram os cumprimentos. Em seguida<br \/>\n    Branca dirigindo-se ao mais velho deles perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Em que poderei ser-lhe &uacute;til, meu senhor?<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; vos direi, minha cara senhora, come&ccedil;ou o viajante<br \/>\n    que pela entona&ccedil;&atilde;o da voz parecia franc&ecirc;s, por&eacute;m<br \/>\n    depois que souberdes quem sou.<\/p>\n<p>&quot;Chamo-me Henrique Dugarbon, minha p&aacute;tria &eacute; a Fran&ccedil;a.<br \/>\n    Por amor de aventuras estou no Brasil, e h&aacute; j&aacute; dois anos que<br \/>\n    eu o percorro em todos os sentidos.<\/p>\n<p>&quot;Este menino &eacute; meu filho Ot&aacute;vio, que me tem seguido por<br \/>\n    toda a parte.<\/p>\n<p>&quot;Os perigos das minhas viagens t&ecirc;m crescido desde que sai de Manaus.<\/p>\n<p>&quot;Tr&ecirc;s semanas j&aacute; se passaram, depois que deixei as margens<br \/>\n    do Rio Negro, durante elas andei errando pelas florestas, rompendo os matagais<br \/>\n    e transpondo, com dificuldade e perigo, os largos p&acirc;ntanos e as regi&otilde;es<br \/>\n    dominadas pelos selvagens. vindo suspender a minha jornada diante das &aacute;guas<br \/>\n    do Iapur&aacute;, que banha os alicerces de S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    onde h&aacute; de ficar esta crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>&quot;Os motivos que me for&ccedil;am a isso s&atilde;o as prova&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que, bem o sei, me esperam nas excurs&otilde;es que tenciono fazer atrav&eacute;s<br \/>\n    da imensa por&ccedil;&atilde;o do Brasil que est&aacute; ao norte do Amazonas<br \/>\n    e a elas n&atilde;o quero sujeitar uma natureza d&eacute;bil como a de Ot&aacute;vio&#8230;<br \/>\n    Neste ponto o menino quis falar, mas, vendo o pai continuar, conteve-se, deixando<br \/>\n    rolar uma l&aacute;grima pela face rosada&#8230; O que espero da vossa bondade,<br \/>\n    devo agora dizer-vos, &eacute; unicamente o favor de indicar-me o caminho<br \/>\n    a tomar para a povoa&ccedil;&atilde;o.&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Dugarbon, muito mais tenho feito por outros peregrinos; o que<br \/>\n    o senhor me pede n&atilde;o &eacute; um favor, pois que tenho obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de o fazer.<\/p>\n<p>&quot;Eu mesma lev&aacute;-lo-ei, depois que houver ceado, at&eacute; a embocadura<br \/>\n    do caminho, que poucos passos separam daqui.&quot;<\/p>\n<p>A graciosa Branca falava com a naturalidade franca de uma provinciana brasileira.<\/p>\n<p>&#8212; Minha excelente senhora, no meu cora&ccedil;&atilde;o agradecido<br \/>\n    se perpetuar&aacute; a lembran&ccedil;a do acolhimento que me dais.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, n&atilde;o lhe admire isto, senhor, o que fa&ccedil;o qualquer<br \/>\n    outro o faria, venha portanto provar, como o seu Ot&aacute;vio, do que para<br \/>\n    v&oacute;s mandei preparar.<\/p>\n<p>Enquanto Branca, a orf&atilde;zinha e os dois franceses tomavam assento em<br \/>\n    volta da mesa de jantar, coberta com uma toalha de linho e alumiada por um<br \/>\n    lampi&atilde;o de querosene, pois j&aacute; era noite, cujo abat-jour fazia<br \/>\n    cair a claridade sobre um assado de carneiro, Silvano, contente, celebrava<br \/>\n    a recep&ccedil;&atilde;o de quatro camaradas, companheiros de viagem do franc&ecirc;s.<\/p>\n<p>Todos eles deviam se ir munir do necess&aacute;rio em S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    para continuar a jornada.<\/p>\n<p>Correu a refei&ccedil;&atilde;o perfeitamente, versando a conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobre as maravilhas vistas pelos viajantes.<\/p>\n<p>Ot&aacute;vio e Rosalina tinham travado inocente amizade e, sem que o pai<br \/>\n    visse, aquele presenteara a esta com um pedacinho de ouro grosseiro, recebendo<br \/>\n    da menina uma m&atilde;ozinha de coral que ela costumava trazer ao pesco&ccedil;o.<\/p>\n<p>J&aacute; se erguiam da mesa, quando um assobio demorado e forte feriu os<br \/>\n    ouvidos de todos.<\/p>\n<p>Fez-se absoluto sil&ecirc;ncio e cada um se interrogava mudamente.<\/p>\n<p>Branca estava grandemente assustada e o franc&ecirc;s aproximou-se, cheio<br \/>\n    de calma, da janela.<\/p>\n<p>A noite era escura, mas a luz das constela&ccedil;&otilde;es bastou-lhe para<br \/>\n    perceber tr&ecirc;s ou quatro vultos que se chegavam para o cercado.<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; novidade por aqui, disse, mas nada t&ecirc;m que temer.<\/p>\n<p>&#8212; Camaradas! gritou com voz m&aacute;scula mas serena, fogo naquela<br \/>\n    dire&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>Quatro balas partiram, por&eacute;m nada lhes respondeu.<\/p>\n<p>Fechou-se a janela.<\/p>\n<p>&#8212; Minha senhora, disse gravemente Dugarbon, ainda n&atilde;o tive a<br \/>\n    indiscri&ccedil;&atilde;o de perguntar-vos se tendes pai ou marido que more<br \/>\n    convosco mas este incidente me obriga a faz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Correis perigo, esta gente n&atilde;o me parece bem intencionada.<\/p>\n<p>&#8212; Aqueles homens que lobriguei s&atilde;o sem d&uacute;vida, continuou<br \/>\n    o franc&ecirc;s, bandidos que vos espreitam.<\/p>\n<p>&#8212; A mim n&atilde;o, interrompeu a esposa do subdelegado, mas a meu<br \/>\n    marido.<\/p>\n<p>&#8212; Assim pois, sois casada, n&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Sim senhor, com Eust&aacute;quio, subdelegado desta freguesia.<\/p>\n<p>&#8212; Podeis dizer-me onde se acha ele, agora?<\/p>\n<p>&#8212; Acha-se fora ocupado em investiga&ccedil;&otilde;es sobre um roubo<br \/>\n    de pouca valia, deve voltar amanh&atilde;, se o permitir o c&eacute;u.<\/p>\n<p>&#8212; Tenho, assim, minha senhora, o prazer de comunicar-vos que, antes<br \/>\n    da chegada do Sr. subdelegado, n&atilde;o deixarei esta casa, para vossa seguran&ccedil;a.<\/p>\n<p>Branca, que n&atilde;o encarava sem terror a id&eacute;ia de uma agress&atilde;o,<br \/>\n    aceitou contente.<\/p>\n<p>&#8212; Obrigada, disse, do seu car&aacute;ter n&atilde;o esperava outra<br \/>\n    cousa, todavia creio que a minha seguran&ccedil;a n&atilde;o exige que n&atilde;o<br \/>\n    repousem o senhor e o seu filho das suas fadigas.<\/p>\n<p>&#8212; Aquela alcova &eacute; dos viajantes e portanto do senhor. Falando<br \/>\n    assim apontava para uma porta de vidra&ccedil;as, cobertas com pequenas cortinas<br \/>\n    de cassa, que, meio-aberta, deixava entrever duas camas, comodamente paramentadas.<\/p>\n<p>O oferecimento foi bem recebido e, desejando a Branca e Rosalina boa noite,<br \/>\n    os dois peregrinos entraram para o aposento indicado.<\/p>\n<p>Silvano e os camaradas assentaram-se perto da entrada e a&iacute; adormeceram.<\/p>\n<p>Com Rosalina recolheu-se a mulher de Eust&aacute;quio, n&atilde;o antes de<br \/>\n    amortecer a chama do lampi&atilde;o, que come&ccedil;ou a espalhar pela sala<br \/>\n    essa luz escura que tanto agrada a Morfeu<\/p>\n<h4><a name=\"3\">Cap&iacute;tulo III: Primeiras desgra&ccedil;as<\/a><\/h4>\n<p>No dia seguinte, mal principiava a aurora a derramar suas torrentes de ouro<br \/>\n    sobre o dorso sinuoso dos cirrus do nascente, j&aacute; longe da cama estavam<br \/>\n    todos.<\/p>\n<p>O caf&eacute; fora servido por Silvano, que foi, depois, abrir a porteira.<\/p>\n<p>Quando voltava dois homens sa&iacute;am da picada, dirigindo-se para a morada<br \/>\n    de Branca.<\/p>\n<p>Era um Eust&aacute;quio, que volvia aos seus penates, e o outro Ruperto,<br \/>\n    seu escravo.<\/p>\n<p>Depois da explos&atilde;o de alegria que fez Branca pela volta do esposo<br \/>\n    foi o franc&ecirc;s apresentado a este que n&atilde;o p&ocirc;de deixar de<br \/>\n    o abra&ccedil;ar ao saber do interesse que por sua consorte havia mostrado.<\/p>\n<p>Henrique Dugarbon olhou, ent&atilde;o, para o oriente.<\/p>\n<p>O sol vinha nascendo, de um aspecto imponente, e os seus raios purpurinos,<br \/>\n    de horizontalidade quase perfeita, iam desenhar, na parede da casa, a sombra<br \/>\n    do grupo formado pelos seus donos e h&oacute;spedes.<\/p>\n<p>&#8212; Minha senhora, disse em tom solene, Sr. Eust&aacute;quio, a Provid&ecirc;ncia,<br \/>\n    que me trouxe a vossa casa, onde fui acolhido como nunca o esperei, ela mesma<br \/>\n    me manda hoje deixar-vos<\/p>\n<p>&quot;Vou prosseguir na minha tarefa. Talvez tenha de oferecer a minha vida<br \/>\n    em holocausto &agrave; ci&ecirc;ncia, mas se assim n&atilde;o for, eu vos<br \/>\n    juro, pelo criador daquele astro, que vos hei de pagar o que por mim tendes<br \/>\n    feito.<\/p>\n<p>&quot;Recebei os meus sinceros, ainda que insuficientes agradecimentos, que<br \/>\n    vos transmito por este adeus.&quot;<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio se declarou sentido pela r&aacute;pida partida do franc&ecirc;s,<br \/>\n    por&eacute;m este, obstinado, afastou-se para o rio, depois de ardentes abra&ccedil;os<br \/>\n    e apertos de m&atilde;o.<\/p>\n<p>O subdelegado, a mulher e Rosalina acompanharam com a vista o franc&ecirc;s<br \/>\n    e seus companheiros, at&eacute; v&ecirc;-los desaparecendo atr&aacute;s dos<br \/>\n    cacaueiros da picada.<\/p>\n<p>Em seguida o marido de Branca falou &agrave; fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>&#8212; A tentativa de ataque de que foi v&iacute;tima a nossa casa, esta<br \/>\n    noite, me parece um aviso.<\/p>\n<p>&quot;Ter&atilde;o de recome&ccedil;ar as minhas persegui&ccedil;&otilde;es?<br \/>\n    Julgo que sim.<\/p>\n<p>&quot;Devo portanto, sem demora, garantir a minha seguran&ccedil;a.&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Silvano, disse ele, dirigindo-se ao escravo, tens que ir hoje &agrave;<br \/>\n    povoa&ccedil;&atilde;o, para engajar os soldados que se te apresentarem.<\/p>\n<p>&quot;S&atilde;o dois somente, mas bastam.&quot;<\/p>\n<p>Algumas horas depois seguia o negro em dire&ccedil;&atilde;o ao povoado,<br \/>\n    de onde, pouco antes, partira Dugarbon para o norte.<\/p>\n<p>&Agrave; tarde chegaram os policiais, mas, fato estranho, Silvano n&atilde;o<br \/>\n    voltou.<\/p>\n<p>Isso excitou a curiosidade e o receio em Eust&aacute;quio que saiu logo,<br \/>\n    com os dois guardas, para S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p>No caminho encontraram grandes manchas de sangue escuro, que n&atilde;o tinham<br \/>\n    sido apercebidas pelos soldados, quando eles por a&iacute; passaram.<\/p>\n<p>Disso conclu&iacute;ram o assassinato do infeliz Silvano, pois que os policiais<br \/>\n    asseguravam que ele deixara o povoado apenas cumprida a sua miss&atilde;o.<\/p>\n<p>Verdadeira dor sentiu o subdelegado pela perda do seu dedicado servo, mas<br \/>\n    entrou em casa com ar satisfeito, dizendo que enviara o negro a Bel&eacute;m.<\/p>\n<p>Esta assevera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o p&ocirc;de desvanecer as suspeitas<br \/>\n    de Branca nem de Rosalina, principalmente depois da desgra&ccedil;a que sobreveio.<\/p>\n<p>Muitos dias fizeram os policiais o seu servi&ccedil;o, com toda a regularidade,<br \/>\n    at&eacute; que, em uma ocasi&atilde;o, vindo eles ao por do sol pela estrada,<br \/>\n    um ao lado do outro, o estalo de um tiro despertou os p&aacute;ssaros que<br \/>\n    se acomodavam nos ninhos.<\/p>\n<p>Um dos soldados fora ferido na perna esquerda e jazia ca&iacute;do.<\/p>\n<p>O outro correu direto ao tiro, cuja fuma&ccedil;a dissolvendo-se pela vira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se elevava vagarosamente acima das ervas que vegetam nas ribas do Iapur&aacute;,<br \/>\n    mas nada viu. Desceu a encosta da ribanceira, com uma pistola engatilhada,<br \/>\n    e chegando &agrave; flor d&#8217;&aacute;gua come&ccedil;ou, com os olhos investigadores<br \/>\n    a percorrer o rio.<\/p>\n<p>No fim de alguns momentos, observou que a &aacute;gua, enegrecida pela noite,<br \/>\n    j&aacute; pr&oacute;xima, se agitava ao longe.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;s l&aacute;, bandido, pensou ele, est&aacute;s aviado,<br \/>\n    ou morres afogado, ou provas uma bala desta pistola.<\/p>\n<p>O soldado, tinha suspendido a arma e a ia descarregar, mas um grito veemente<br \/>\n    de socorro f&ecirc;-lo parar.<\/p>\n<p>A voz partira do lugar da estrada que lhe ficava por cima da cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Era indubitavelmente o guarda ferido, que fora atacado por inimigos covardes.<\/p>\n<p>O seu companheiro, um mo&ccedil;o valente, voltou-se e come&ccedil;ou a galgar<br \/>\n    a ribanceira.<\/p>\n<p>N&atilde;o dera dois passos quando uma sombra surgiu ao seu lado.<\/p>\n<p>&#8212; P&aacute;ra! gritou ela, desaparecendo um momento oculta pelo clar&atilde;o<br \/>\n    forte de um tiro.<\/p>\n<p>O proj&eacute;til resvalou pelo ombro do policial, que maquinalmente disparou<br \/>\n    sobre o seu agressor. De s&uacute;bito, sumiu-se este.<\/p>\n<p>O estampido deste novo tiro abafara segundo grito, mais afastado por&eacute;m,<br \/>\n    que implorava:<\/p>\n<p>&#8212; Acuda-me! Acuda-me!<\/p>\n<p>De um salto o guarda chegou &agrave; picada. Era j&aacute; tarde e por mais<br \/>\n    que buscasse p&ocirc;de apenas certificar-se do desaparecimento do seu estimado<br \/>\n    companheiro.<\/p>\n<p>Encontrou um lago de sangue e alguns farrapos de vestu&aacute;rio, no lugar<br \/>\n    onde devera ter havido uma luta entre os assassinos, ou o assassino, e a v&iacute;tima.<\/p>\n<p>J&aacute; era esta a segunda e como a primeira fora oculta.<\/p>\n<p>No meio da escurid&atilde;o de uma noite sem lua, mais sombreada ainda pelos<br \/>\n    rolos tempestuosos de grossas nuvens que se estendiam pelo firmamento, prorrompeu<br \/>\n    o soldado em impreca&ccedil;&otilde;es contra Eust&aacute;quio, causador da<br \/>\n    morte do seu amigo e em blasf&ecirc;mias contra Deus, que n&atilde;o o fizera<br \/>\n    chegar a tempo de a evitar.<\/p>\n<p>O desespero do pobre guarda j&aacute; tinha apar&ecirc;ncias de loucura.<br \/>\n    Andava desvairado, pisando o solo com for&ccedil;a, e sem &acirc;nimo de arredar-se<br \/>\n    do terreno inda &uacute;mido pelo sangue do amigo.<\/p>\n<p>Repentinamente, o desgra&ccedil;ado sentiu uma viva dor em um dos tornozelos.<br \/>\n    Tinha sido mordido por uma serpente, ele a vira, mas sem refletir deitou a<br \/>\n    correr precipitadamente e sem rumo. Enlouquecera.<\/p>\n<p>Principiava uma chuva abundante, e o trov&atilde;o que desde muitas horas<br \/>\n    se fazia ouvir crescia em estrondo.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">Cap&iacute;tulo IV: Os tiros<\/a><\/h4>\n<p>Enquanto tinham lugar na picada t&atilde;o infandos acontecimentos, eis o<br \/>\n    que se passava em casa de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>O rel&oacute;gio redondo, que pendia da parede da sala de jantar, apresentando<br \/>\n    suas formas empoeiradas, apontava tr&ecirc;s horas da tarde.<\/p>\n<p>A mulher do subdelegado e sua amada protegida, saindo da mesa, acompanharam<br \/>\n    o subdelegado, assentando-se em cadeiras perto da porteira do roseiral.<\/p>\n<p>Se h&aacute; espet&aacute;culo grandioso no interior do Brasil &eacute; a<br \/>\n    forma&ccedil;&atilde;o de uma tormenta. Ela &eacute; lenta mas transporta<br \/>\n    a alma, que parece deixar momentaneamente a terra.<\/p>\n<p>Era uma dessas cenas que contemplavam.<\/p>\n<p>O c&eacute;u estava l&iacute;mpido, mas, de um instante para outro, come&ccedil;aram<br \/>\n    a aparecer grandes moles esf&eacute;ricas de nuvens, deslumbrantes de brancura,<br \/>\n    que nasciam detr&aacute;s da montanha, tornando-lhe n&iacute;tido o perfil<br \/>\n    verde escuro da crista, e subiam majestosamente ao encontro do sol que, declinando<br \/>\n    para o ocaso, as bordava de fulgente prata.<\/p>\n<p>J&aacute; algumas chegavam ao z&ecirc;nite encobrindo o sol, j&aacute; as<br \/>\n    mais baixas tomavam a cor de chumbo.<\/p>\n<p>A aragem que soprava deixou de balou&ccedil;ar as folhas da mata e, na ocasi&atilde;o<br \/>\n    em que a natureza emudecia, rolou ao longe um trov&atilde;o. Pren&uacute;ncio<br \/>\n    da tempestade. Ela a&iacute; vinha.<\/p>\n<p>Meia hora depois, uma tira de fogo zig-zagueou no espa&ccedil;o, seguiu-se<br \/>\n    um trov&atilde;o, menos remoto que o primeiro, que percorreu o c&eacute;u<br \/>\n    j&aacute; todo negro.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos ter uma grande trovoada, observou Rosalina.<\/p>\n<p>&#8212; Entremos, disse Eust&aacute;quio levantando-se.<\/p>\n<p>Quando subiam os degraus da porta, grossas gotas d&#8217;&aacute;gua choveram e<br \/>\n    a emana&ccedil;&atilde;o da terra se fez sentir.<\/p>\n<p>A fam&iacute;lia acercou-se de uma janela e, at&eacute; anoitecer acompanhou<br \/>\n    as perip&eacute;cias da tormenta, que serenara um pouco.<\/p>\n<p>Ainda todos estavam na janela no momento em que uma detona&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na picada chegou-lhes aos ouvidos.<\/p>\n<p>Era a hora em que deviam chegar os soldados.<\/p>\n<p>&#8212; Um tiro! exclamou Branca, benzendo-se.<\/p>\n<p>A orf&atilde;atilde;zinha a imitou e o subdelegado lhes disse:<\/p>\n<p>&#8212; Ouviram? Um tiro! S&atilde;o os miser&aacute;veis que atacam os guardas.<br \/>\n    Vou socorr&ecirc;-los!<\/p>\n<p>E quis correr, mas a mulher o conteve, n&atilde;o sem custo, conseguindo<br \/>\n    persuadi-lo da sua imprud&ecirc;ncia. Logo depois ouviram fracos gritos de<br \/>\n    apelo.<\/p>\n<p>&#8212; Pobres homens, disse surdamente Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>Foi ent&atilde;o que Rosalina que ficara na janela gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Vejam! olhem aqueles que correm em dire&ccedil;&atilde;o ao tiro!<\/p>\n<p>&#8212; Meu Deus! murmurou a esposa d&oacute; subdelegado.<\/p>\n<p>Realmente, por entre o mato distinguia-se alguns homens correndo para a picada.<\/p>\n<p>Duas detona&ccedil;&otilde;es seguiram-se, recaindo a noite no sil&ecirc;ncio<br \/>\n    poss&iacute;vel em uma tormenta.<\/p>\n<p>A trovoada recrudescia e, minutos depois, chovia a jorros.<\/p>\n<p>Entretanto, em uma estiada, como que perceberam todos um rumor long&iacute;nquo,<br \/>\n    que vinha do lado do rio.<\/p>\n<p>Sentiram o cora&ccedil;&atilde;o, term&ocirc;metro dos terrores, latejar<br \/>\n    com for&ccedil;a.<\/p>\n<p>Realmente, nada &eacute; t&atilde;o terr&iacute;vel a quem, na solid&atilde;o,<br \/>\n    espera um perigo como escutar um ru&iacute;do inexplic&aacute;vel.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio e Ruperto tomaram duas espingardas e esperaram.<\/p>\n<p>O rumor crescia e logo se p&ocirc;de conhecer que provinha da carreira de<br \/>\n    algu&eacute;m.<\/p>\n<p>Tamanha era a escurid&atilde;o que tornava imposs&iacute;vel avistar-se cousa<br \/>\n    alguma a mais de quatro passos.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio, como qualquer outro em iguais circunst&acirc;ncias, perdeu-se<br \/>\n    em medonhas conjecturas.<\/p>\n<p>Quando mais pr&oacute;ximo pareceu-lhe o corredor, gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Onde vais, homem?<\/p>\n<p>Por &uacute;nica resposta ouviu:<\/p>\n<p>&#8212; Malditos! malditos!<\/p>\n<p>E uma pistola veio cair-lhe aos p&eacute;s.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um dos guardas, disse Ruperto que, a um rel&acirc;mpago,<br \/>\n    conseguiu ver quem passava.<\/p>\n<p>Era, na verdade, o soldado que o leitor viu louco e que, por acaso, seguira<br \/>\n    na sua furiosa carreira a dire&ccedil;&atilde;o da morada de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>O policial se perdera na negrura da noite quando Ruperto saiu para agarr&aacute;-lo,<br \/>\n    porque o subdelegado reconhecera a sua loucura.<\/p>\n<p>Antes de o atingir, o escravo viu-o cair e estorcer-se, a luz r&aacute;pida<br \/>\n    do fuzil, de um modo horr&iacute;vel, e quando chegou &agrave; emin&ecirc;ncia<br \/>\n    do terreno onde ele estava deitado, achou-o sem vida.<\/p>\n<p>Fora a morte o resultado do veneno da cobra.<\/p>\n<p>Tomando aos ombros o cad&aacute;ver, Ruperto o levou para a casa onde foi<br \/>\n    depositado na sala.<\/p>\n<p>Branca e Rosalina, n&atilde;o o querendo ver retiraram-se para o interior.<\/p>\n<p>Gradualmente extinguiu-se a tempestade e as brisas da madrugada tocaram para<br \/>\n    leste as &uacute;ltimas brumas<\/p>\n<h4><a name=\"5\">Cap&iacute;tulo V: Novos engajados<\/a><\/h4>\n<p>S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe tem uma esp&eacute;cie de largo no lugar<br \/>\n    onde atracam as embarca&ccedil;&otilde;es do Iapur&aacute;.<\/p>\n<p>Para ele convergem as mal alinhadas vielas do povoado, fazendo nesse ponto<br \/>\n    o seu centro de atividade; apesar disso, a n&atilde;o ser em domingo, s&oacute;<br \/>\n    se v&ecirc;em a&iacute; uns sete ou oito ociosos que passam as horas de intermin&aacute;vel<br \/>\n    palestra. Todavia, em uma quinta-feira, o que era extraordin&aacute;rio, achavam-se<br \/>\n    numerosas pessoas reunidas em grupos que discutiam com alento.<\/p>\n<p>De vez em quando cessavam as alterca&ccedil;&otilde;es para refrescarem-se<br \/>\n    com os chap&eacute;us de abas largas, porque o calor se tornava insuport&aacute;vel.<\/p>\n<p>Depois, continuavam a aventurar hip&oacute;teses, para a explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uns tiros ouvidos durante a noite.<\/p>\n<p>J&aacute; se decidiam at&eacute; a ir &agrave; casa do subdelegado.<\/p>\n<p>De repente, escutaram um galopar de cavalo e um cavaleiro apontou, &agrave;<br \/>\n    r&eacute;dea solta, em uma rua.<\/p>\n<p>Era um negro, que sem prestar aten&ccedil;&atilde;o aos conversadores atirou-se<br \/>\n    da sela &agrave; porta de uma casinha do largo.<\/p>\n<p>Todos os olhos estavam sobre ele.<\/p>\n<p>Viram-no bater e entrar.<\/p>\n<p>Siga-o leitor.<\/p>\n<p>Apenas introduzido o preto, um padre veio-lhe ao encontro.<\/p>\n<p>&#8212; Oh Ruperto! Voc&ecirc; por aqui! O que h&aacute; de novo?<\/p>\n<p>&#8212; Muita cousa, senhor padre, respondeu o rec&eacute;m-vindo,<\/p>\n<p>&#8212; Pois fale, disse o sacerdote, que n&atilde;o era menos que um amigo<br \/>\n    de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio, senhor padre Jorge, a&iacute;<br \/>\n    tem esta carta que dir&aacute; tudo e mais ainda.<\/p>\n<p>O padre Jorge recebeu a carta que lhe apresentava Ruperto, e leu-a toda.<\/p>\n<p>O seu amigo depois de referir o que sabia sobre os soldados agredidos, pedia-lhe<br \/>\n    que enviasse, incontinenti, homens corajosos para sua guarda.<\/p>\n<p>&#8212; Vou j&aacute; satisfazer ao subdelegado, disse o padre, caminhando<br \/>\n    para a porta, onde se fizera ajuntamento de gente.<\/p>\n<p>Com a familiaridade de que usava para com esses homens, contou-lhes o que<br \/>\n    sucedera aos policiais e perguntou quem deles se queria p&ocirc;r a servi&ccedil;o<br \/>\n    de Eust&aacute;quio, mediante boa paga.<\/p>\n<p>Muitos se ofereceram por&eacute;m o padre s&oacute; escolheu os quatro mais<br \/>\n    conhecidos pela sua valentia e dedica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Eram todos uns paraenses morenos e corpulentos, cuja bondade de cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se pintava num sorriso quase constante em seus l&aacute;bios.<\/p>\n<p>Levando uma carta em que o padre fazia a apresenta&ccedil;&atilde;o dos paraenses,<br \/>\n    partiram estes e Ruperto para a morada do subdelegado.<\/p>\n<p>Em caminho foram alvo de alguns tiros sem resultado e revistadas as balsas<br \/>\n    que bordam a picada cousa alguma distinguiram al&eacute;m de vest&iacute;gios<br \/>\n    de recentes passos.<\/p>\n<p>Logo que o subdelegado os recebeu deu ordem a Ruperto de velar pela casa<br \/>\n    e, armando os improvisados guardas, fez enterrar o soldado, indo depois explorar<br \/>\n    os lugares que julgava terem sido o teatro do assass&iacute;nio.<\/p>\n<p>A chuva da noite lavara o sangue, mas pelas plantinhas quebradas e pelos<br \/>\n    fragmentos de pano esparzidos, muito devera ter sofrido a v&iacute;tima atrozmente<br \/>\n    arrastada.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio n&atilde;o sabia a quem atribuir tais crimes.<\/p>\n<p>Quem seriam os seus autores? Qual seria o seu m&oacute;vel? A primeira pergunta<br \/>\n    o seu &iacute;ntimo como que respondia, mas era-lhe incr&iacute;vel.<\/p>\n<p>Ia nestas medita&ccedil;&otilde;es, quando os exploradores que examinavam<br \/>\n    a ribanceira exclamaram:<\/p>\n<p>&#8212; Um cad&aacute;ver!<\/p>\n<p>Via-se, com efeito, meio mergulhado no rio, um corpo<\/p>\n<p>Pertencia a um negro de repelente fisionomia, e segurava com os r&iacute;gidos<br \/>\n    dedos um bacamarte.<\/p>\n<p>Era este o vulto sobre quem o jovem policial descarregara a pistola.<\/p>\n<p>O esp&iacute;rito do subdelegado foi intrigado pelo aparecimento deste cad&aacute;ver.<\/p>\n<p>Com certeza, era de um indiv&iacute;duo que atacara os guardas e devia ter<br \/>\n    sido morto por eles, mas esse negro Eust&aacute;quio julgava reconhec&ecirc;-lo,<br \/>\n    e suas reminisc&ecirc;ncias se avivando, suas id&eacute;ias se iluminaram.<\/p>\n<p>Julgava ter descoberto a verdade e uma nuvem de raiva sombria pousou-lhe<br \/>\n    na fronte.<\/p>\n<p>N&atilde;o consentiu que o corpo fosse transferido para sua casa, enviando-o<br \/>\n    para S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe, e teve o cuidado de ocultar &agrave;<br \/>\n    fam&iacute;lia suas cren&ccedil;as e suspeitas. Podiam ser falsas.<\/p>\n<p>Estabeleceu-se a vigil&acirc;ncia dos arredores do s&iacute;tio pelos quatro<br \/>\n    engajados, embora provisoriamente, porque Eust&aacute;quio escrevera para<br \/>\n    Manaus exigindo pronto refor&ccedil;o n&atilde;o s&oacute; de policiais como<br \/>\n    de muni&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>As not&iacute;cias, levadas por uma dessas embarca&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    sulcam vagorosamente o Amazonas, causaram grande sensa&ccedil;&atilde;o na<br \/>\n    capital da prov&iacute;ncia, indo ainda repercutir em Bel&eacute;m, todavia<br \/>\n    no Rio de Janeiro talvez nem divulgadas fossem.<\/p>\n<p>Seis pra&ccedil;as comandadas por um cabo seguiram de Manaus, a fim de acalmar<br \/>\n    os &acirc;nimos aterrorizados dos moradores de S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">Cap&iacute;tulo VI: Tranquilidade<\/a><\/h4>\n<p>Em todo este procedimento gastaram-se algumas semanas, durante as quais,<br \/>\n    apesar de n&atilde;o inquietados, estiveram os moradores da povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ansiosos pela chegada de novos guardas.<\/p>\n<p>Em um belo dia houve desusado movimento nela. Todos os seus habitantes corriam<br \/>\n    a assistir ao desembarque de sete soldados.<\/p>\n<p>Esp&iacute;ritos singelos! O que em centros de civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    passa desapercebido, em lugares como S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe &eacute;<br \/>\n    um fato digno de ser visto e apreciado!<\/p>\n<p>N&atilde;o se ria o leitor, pois que n&atilde;o se ri quando uma crian&ccedil;a<br \/>\n    diz admir&aacute;vel o que mais n&atilde;o &eacute; que muito natural.<\/p>\n<p>Esses r&uacute;sticos s&atilde;o as crian&ccedil;as da civiliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    os ne&oacute;fitos do progresso!<\/p>\n<p>Em lugares como esse, onde o clar&atilde;o vivificante do adiantamento n&atilde;o<br \/>\n    chegou ainda, tudo quase que &eacute; selvagem.<\/p>\n<p>Se h&aacute; virtude, ela se eleva fulgurante de cora&ccedil;&otilde;es limpos<br \/>\n    de afeta&ccedil;&atilde;o, se crime, chamejante ele se ergue, rodeado dos<br \/>\n    v&iacute;cios em toda a sua hedionda naturalidade.<\/p>\n<p>Prossigamos.<\/p>\n<p>Desembarcadas as pra&ccedil;as, apresentaram-se ao subdelegado que tomando<br \/>\n    cinco para sua casa, como ponto mais amea&ccedil;ado, deixou duas no povoado.<\/p>\n<p>Foram dispensados, ent&atilde;o, os paraenses, e os policiais entraram a<br \/>\n    render-se em quartos de ronda diurna e noturna, na resid&ecirc;ncia de Eust&aacute;quio.<br \/>\n    Escusado &eacute; dizer que os atentados cessaram.<\/p>\n<p>Meses passados, recebeu o marido de Branca a demiss&atilde;o de seu cargo.<br \/>\n    N&atilde;o trataremos dela, notaremos unicamente que o novo subdelegado, de<br \/>\n    incapacidade reconhecida, sabendo do que se passara em S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    afastou-se, indo algures buscar morada.<\/p>\n<p>Continuavam contudo os soldados em casa de Eust&aacute;quio, por quem j&aacute;<br \/>\n    sentiam profunda amizade.<\/p>\n<p>Corria o tempo. Um ano, dois anos abismaram-se nos escuros do passado e aurora<br \/>\n    feliz despontava para a fam&iacute;lia de Branca.<\/p>\n<p>Os perseguidores n&atilde;o davam provas de exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Voltara o sossego.<\/p>\n<p>Nenhum fato mencion&aacute;vel se dera nesses dois anos, se n&atilde;o considerarmos<br \/>\n    a partida de cinco soldados para Manaus e a entrada em S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe<br \/>\n    de seis espanh&oacute;is, que haviam transposto a fronteira da rep&uacute;blica<br \/>\n    do Equador.<\/p>\n<p>No fim de poucos dias estes se ausentaram, sendo totalmente esquecidos.<\/p>\n<p>Onze anos contava Rosalina, ostentando j&aacute; incompar&aacute;vel beleza.<\/p>\n<p>A beleza da orf&atilde;zinha, moldurada de uma gra&ccedil;a inef&aacute;vel,<br \/>\n    que s&oacute; d&aacute; a inoc&ecirc;ncia, realizava o ideal do &quot;anjo&quot;.<\/p>\n<p>Sorrindo a todo instante cercava-se o rosto da menina de uma atmosfera de<br \/>\n    prazer que arredava para longe a tristeza.<\/p>\n<p>Suas risadas e seus ditos infantis ecoavam pela casa e pelo roseiral, transpirando<br \/>\n    regozijo eterno.<\/p>\n<p>&Eacute; essa beleza ang&eacute;lica que certas mulheres afetadas pretendem<br \/>\n    possuir.<\/p>\n<p>S&iacute;mplices! levianas! S&oacute; conseguem conquistar do vulgo o t&iacute;tulo<br \/>\n    de &quot;delambidas&quot;.<\/p>\n<p>&Eacute; tamb&eacute;m a que todo o poeta empresta ao seu objeto idolatrado.<\/p>\n<p>Mas os poetas!&#8230; Cantam a lua antes de v&ecirc;-la atrav&eacute;s das lentes<br \/>\n    telesc&oacute;picas.<\/p>\n<p>Como o astr&ocirc;nomo deixa escapar um riso de mofa, ao ler uma poesia &agrave;<br \/>\n    lua de algum enlevado cantor, o conhecedor profundo desse bando, denominado<br \/>\n    pelos homens das nuvens, &quot;belo sexo&quot;, e mais prosaicamente mulher,<br \/>\n    n&atilde;o pode reter o esc&aacute;rnio, contemplando um hino em que um amante<br \/>\n    em del&iacute;rio exalta os grandes dotes da sua bela.<\/p>\n<p>N&atilde;o devemos enfastiar o leitor com digress&otilde;es desta ordem.<\/p>\n<p>Reentremos na narra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Tudo florescia nas margens do afluente do Amazonas. As planta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do ex-subdelegado renasciam virentes, coroavam-se as roseiras de purp&uacute;reas<br \/>\n    flores e do curral partiam balidos de ovelhas, intercalando o mugir majestoso<br \/>\n    e cheio das luzidas vacas, que olvidavam as m&iacute;seras companheiras desumanamente<br \/>\n    esfaqueadas dois anos atr&aacute;s.<\/p>\n<p>Para melhor e em menos palavras traduzir a prosperidade que reinava, basta<br \/>\n    dizer que Eust&aacute;quio, o qual j&aacute; nutrira fortes desejos de deixar<br \/>\n    a prov&iacute;ncia do Amazonas, se resolvera a permanecer em sua resid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Resolu&ccedil;&atilde;o funesta.<\/p>\n<p>As belas noites sucediam-se aos dias deliciosos, embora a temperatura, elevada<br \/>\n    exigisse freq&uuml;entes banhos no l&iacute;quido refrigerante do Iapur&aacute;.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>Pusera-se a lua, escondendo segredos al&eacute;m das colinas, depois de oferecer<br \/>\n    ao olhos do mundo um arco delgado de luz.<\/p>\n<p>Densas trevas envolveram os bosques em que se aninha S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    real&ccedil;ando as estrelas que rutilavam no c&eacute;u.<\/p>\n<p>Flutuando na massa aquosa do Iapur&aacute;, poderia ver um objeto pouco alongado<br \/>\n    quem ent&atilde;o passasse pela picada.<\/p>\n<p>O objeto vogava mansamente.<\/p>\n<p>Era uma canoa.<\/p>\n<p>Seguiu at&eacute; os terrenos do protetor de Rosalina e movendo-se parecia<br \/>\n    querer se ocultar sob as muralhas de rocha da margem.<\/p>\n<p>Logo que parou, uma sombra de baixa estatura, saltou em terra, deu alguns<br \/>\n    passos, entrou no roseiral de Eust&aacute;quio, prestou ouvidos &agrave; porta<br \/>\n    e debaixo das janelas e assentada sobre a cerca levou tranq&uuml;ilamente<br \/>\n    escutando uma hora inteira.<\/p>\n<p>&#8212; Nada h&aacute; de novo, disse enfim.<\/p>\n<p>Levantou-se, e entrando na canoa voltou para o povoado.<\/p>\n<p>Quem era essa sombra em breve saber&aacute; o leitor.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">Cap&iacute;tulo VII: Sob o v&eacute;u do mist&eacute;rio talvez haja um<br \/>\n    defensor<\/a><\/h4>\n<p>O sossego voltando fizera o novo subdelegado murmurar, contra, dizia ele,<br \/>\n    o abuso que cometia Eust&aacute;quio conservando inutilmente dois guardas,<br \/>\n    em detrimento do interesse p&uacute;blico.<\/p>\n<p>Menos que isso era suficiente para dirigir o comportamento do esposo de Branca,<br \/>\n    que apenas ouviu o que se tornara j&aacute; voz geral deu ordem aos policiais<br \/>\n    para se retirarem.<\/p>\n<p>A necessidade de vigil&acirc;ncia n&atilde;o se fez sentir imediatamente<br \/>\n    e quinze dias se foram sem a menor quebra de tranq&uuml;ilidade.<\/p>\n<p>Branca e sua pequena companheira, confiadas no desaparecimento absoluto dos<br \/>\n    tem&iacute;veis celerados, come&ccedil;aram a dar, sozinhas, demorados passeios<br \/>\n    pela estrada e pela campina, sobre cujas ondas de verde-claro adejavam lindas<br \/>\n    borboletas.<\/p>\n<p>Pela manh&atilde; e &agrave; tardinha tinham sempre lugar estes passeios,<br \/>\n    que foram enfim bruscamente interrompidos por um grav&iacute;ssimo risco e<br \/>\n    que milagrosamente escaparam as passeantes.<\/p>\n<p>Um dia ao romper d&#8217;alva a mo&ccedil;a e a menina, depois de deliciosos tragos<br \/>\n    de caf&eacute;, seguiram vagarosamente e distra&iacute;das para S. Jo&atilde;o<br \/>\n    do Pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p>Aspiravam com prazer as fragr&acirc;ncias matinais exaladas das moutas de<br \/>\n    baunilha e da relva delicada, ao passo que caminhavam.<\/p>\n<p>Finalmente, meio fatigadas assentaram-se sobre um tronco carcomido e tombado<br \/>\n    junto &agrave; estrada.<\/p>\n<p>Os primeiros raios do dia rompiam indiscretamente a folhagem, projetando<br \/>\n    no ch&atilde;o avermelhado inextrinc&aacute;veis claros e escuros que faziam<br \/>\n    os ramos.<\/p>\n<p>Esqueciam-se elas das horas e sorriam internamente ouvindo as melodias tremuladas<br \/>\n    pelas aves.<\/p>\n<p>Tinham-se levantado e por entre os troncos das seringueiras acompanharam<br \/>\n    os movimentos de um enorme jacar&eacute;, vendo-o mergulhar ao longe, no meio<br \/>\n    do rio.<\/p>\n<p>Nesse instante perceberam, atr&aacute;s de si, um barulho nos espessos matagais<br \/>\n    que encobrem as possantes ra&iacute;zes dos gigantes da floresta.<\/p>\n<p>O seu primeiro sentimento foi de curiosidade, mas logo tremeram de terror.<\/p>\n<p>Acabava de saltar para a picada uma figura&#8230; Mas que figura!<\/p>\n<p>Um negro horrendo, cujas fei&ccedil;&otilde;es angulosas e agudas emprestaria<br \/>\n    ao dem&ocirc;nio a mais tenebrosa imagina&ccedil;&atilde;o de pintor.<\/p>\n<p>Empunhava medonho fac&atilde;o &aacute;spero de ferrugem e nu da cintura<br \/>\n    para cima, vestia umas s&oacute;rdidas cal&ccedil;as que, rasgadas pelo uso,<br \/>\n    entremostravam nervudos joelhos.<\/p>\n<p>&#8212; Ol&eacute;! rugiu prolongadamente a fera, t&atilde;o cedo por aqui!<\/p>\n<p>Seguiu as palavras de um riso sat&acirc;nico capaz de estremecer de pavor<br \/>\n    o mais corajoso sertanejo.<\/p>\n<p>Rosalina sentiu o medo invadir-lhe a alma, Branca tremia de terror. Quiseram<br \/>\n    gritar, pedir socorro mas o susto o impediu.<\/p>\n<p>As pobres s&oacute; esperavam a morte, encarando o algoz que lhes sorria<br \/>\n    cruel.<\/p>\n<p>Nos olhares das v&iacute;timas lia-se uma s&uacute;plica, nos do algoz um<br \/>\n    esc&aacute;rnio.<\/p>\n<p>O negro como o tigre n&atilde;o quis sacrificar imediatamente a presa quis<br \/>\n    gozar das suas antecipadas torturas.<\/p>\n<p>A crueldade encontra, n&atilde;o sabemos que hediondo prazer nas ang&uacute;stias<br \/>\n    do paciente.<\/p>\n<p>O bruto, com o alfange j&aacute; erguido, dirigiu-se vagaroso para Branca,<br \/>\n    e sua pequena companheira. Parou um pouco, contemplou-as com ar de mofa e<br \/>\n    avan&ccedil;ou definitivamente.<\/p>\n<p>O arvoredo copado estremeceu no alto, de indigna&ccedil;&atilde;o talvez,<br \/>\n    no momento em que o agressor suspendia a arma assassina.<\/p>\n<p>O fac&atilde;o desceu, mas antes de tocar o alvo novo tremor abalou os ramos<br \/>\n    e uma l&acirc;mina, cintilando aos raios matutinos do sol, desprendeu-se das<br \/>\n    folhas, vindo se encravar no cr&acirc;nio do perverso negro e estirou-o de<br \/>\n    bru&ccedil;os.<\/p>\n<p>Branca e Rosalina estavam salvas!<\/p>\n<p>Apenas viram cair o negro a mo&ccedil;a e a menina, sem pensar na procura<br \/>\n    do seu salvador, fugiram para casa voando que n&atilde;o correndo.<\/p>\n<p>J&aacute; alto estava o sol e um dia espl&ecirc;ndido iluminava as matas<br \/>\n    do Amazonas.<\/p>\n<p>&#8212; Que houve?! exclamou Eust&aacute;quio, avistando sua mulher e Rosalina,<br \/>\n    que corriam para ele, p&aacute;lidas e exprimindo terror nos semblantes alterados.<\/p>\n<p>&#8212; Que tem voc&ecirc;, Branca?<\/p>\n<p>&#8212; E tu Rosalina?<\/p>\n<p>A jovem profundamente impressionada, n&atilde;o p&ocirc;de responder e caiu<br \/>\n    em uma cadeira, meio desmaiada, mas a orf&atilde;zinha, ao mesmo tempo que<br \/>\n    acudia as necessidades da sua protetora, abatida pelo susto, narrou circunstanciadamente<br \/>\n    a Eust&aacute;quio o seu perigo e a imprevista salva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Realmente &eacute; amea&ccedil;ador o aspecto que tomam de novo as<br \/>\n    cousas, disse ele.<\/p>\n<p>&quot;Vejo agora que a tranq&uuml;ilidade dos nossos &uacute;ltimos tempos<br \/>\n    foi uma apar&ecirc;ncia enganadora e um la&ccedil;o que nos armaram que se<br \/>\n    desvela hoje.<\/p>\n<p>&quot;Venham os miser&aacute;veis que n&atilde;o nos encontrar&atilde;o de<br \/>\n    bra&ccedil;os cruzados!<\/p>\n<p>&quot;Somos perseguidos por&eacute;m o que &eacute; not&aacute;vel &eacute;<br \/>\n    que possu&iacute;mos um defensor.&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Quem, t&atilde;o a prop&oacute;sito, estaria colocado nos ramos para<br \/>\n    vos salvar, a ti e a Branca? E&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Rosalina, n&atilde;o percebeste cousa alguma nos galhos?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, senhor, nada vi sen&atilde;o reluzir a faca que prostou<br \/>\n    o malvado, cujo cad&aacute;ver deve jazer na estrada.<\/p>\n<p>&#8212; Houve um salvador intencionado, &eacute; certo, acrescentou o ex-subdelegado,<br \/>\n    mas n&atilde;o consigo adivinhar quem seja o amigo que vela sobre n&oacute;s.<\/p>\n<p>Ditas estas palavras, Eust&aacute;quio calou-se, fixou a vista sobre um ponto<br \/>\n    do soalho e levou um momento como que inquirindo a mem&oacute;ria.<\/p>\n<p>&#8212; Que homem, dizia ele, ter&aacute; interesse em defender-me com sacrif&iacute;cio<br \/>\n    pr&oacute;prio? Ser&aacute; o padre Jorge? Isto &eacute; tolice&#8230; um pobre<br \/>\n    velho.<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; verdade que n&atilde;o deixo de ser estimado na povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por&eacute;m n&atilde;o vejo quem, a n&atilde;o ser o meu excelente padre,<br \/>\n    leve essa estima at&eacute; a dedica&ccedil;&atilde;o&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Na cozinha trabalhava Ruperto, esfregando umas facas, e de sobre o fog&atilde;o<br \/>\n    subiam filetes de odor&iacute;fero fumo deixado escapar pelas janelas mal<br \/>\n    fechadas, onde fervia ruidosamente o almo&ccedil;o.<\/p>\n<p>O escravo, ao chegar o senhor, levantou a cabe&ccedil;a, continuando diligentemente<br \/>\n    o trabalho.<\/p>\n<p>&#8212; Vem da&iacute;, disse-lhe Eust&aacute;quio, e segue para S. Jo&atilde;o<br \/>\n    do Pr&iacute;ncipe. L&aacute; dir&aacute;s ao padre Jorge que me envie os<br \/>\n    paraenses que j&aacute; aqui estiveram, h&aacute; talvez dois anos. Conv&eacute;m<br \/>\n    que tomes o cavalo para maior seguran&ccedil;a e presteza.<\/p>\n<p>Logo em seguida um robusto animal relinchou no roseiral e, montado pelo escravo,<br \/>\n    internou-se pela picada em trote r&aacute;pido.<\/p>\n<p>Depois de sepultado o cad&aacute;ver do que sucumbira ao golpe de um anjo<br \/>\n    tutelar, os engajados reentraram em casa do protetor de Rosalina, e este,<br \/>\n    observando que os atentados iam tendo j&aacute; lugar em pleno dia deu come&ccedil;o<br \/>\n    &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de uma s&oacute;lida muralha de madeira<br \/>\n    que devia limitar as suas terras, n&atilde;o s&oacute; do lado do campo e<br \/>\n    da montanha como do da mata e do Iapur&aacute;.<\/p>\n<p>Dentro de tr&ecirc;s dias os valentes filhos do Par&aacute;, de machado em<br \/>\n    punho, abateram troncos, fincaram-nos circularmente, levantando em volta da<br \/>\n    casa uma trincheira de seis p&eacute;s de altura erri&ccedil;ada de pontas<br \/>\n    agudas, previamente aparadas nos postes, que podia desafiar um bando de malfeitores.<\/p>\n<p>&#8212; Creio, disse o seu esposo a Branca, que, metidos neste baluarte,<br \/>\n    estamos perfeitamente a salvo.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o o creio eu, replicou com ar incr&eacute;dulo a mo&ccedil;a,<br \/>\n    e s&oacute; me acharei segura quando longe daqui. Tanto, que sinto muito n&atilde;o<br \/>\n    estar neste momento em Manaus ou em Bel&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8212; Se &eacute; do seu desejo, Branca, falou tristemente Eust&aacute;quio,<br \/>\n    como quem est&aacute; contrariado na sua vontade, podemos desde hoje nos preparar<br \/>\n    para a retirada, mas ou me engano inteiramente, ou n&atilde;o corremos mais<br \/>\n    risco algum.<\/p>\n<p>&#8212; Enfim&#8230;, disse Branca, cortando o di&aacute;logo. Esse &quot;enfim&quot;<br \/>\n    exprimia muita cousa. Era a resigna&ccedil;&atilde;o passiva da jovem &agrave;<br \/>\n    persist&ecirc;ncia do marido e ao mesmo tempo a passagem da responsabilidade<br \/>\n    de qualquer desgra&ccedil;a para cima de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<h4><a name=\"8\">Cap&iacute;tulo VIII: pomba e serpente<\/a><\/h4>\n<p>Estava-se a 14 de setembro de 186&#8230;<\/p>\n<p>Reinava imensa alegria em casa de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>Branca dera &agrave; luz oito dias antes, isto &eacute; na v&eacute;spera<br \/>\n    da maior festa nacional do Brasil, o anivers&aacute;rio da sua independ&ecirc;ncia<br \/>\n    do jugo portugu&ecirc;s, uma criancinha bela como um cupido que, passando<br \/>\n    de m&atilde;o em m&atilde;o, recebia afagos de toda a sorte da fam&iacute;lia<br \/>\n    inteira, sem excetuar uma mocinha de S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe, dedicada<br \/>\n    e constante veladora da esposa do ex-subdelegado, durante os inc&ocirc;modos<br \/>\n    que precederam o parto.<\/p>\n<p>Por todos esses dias a fam&iacute;lia se entregara exclusivamente ao prazer<br \/>\n    e tamb&eacute;m no povoado todos estavam contentes.<\/p>\n<p>Durante a noite, melodias campestres se elevavam das habita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da vila, cujas c&uacute;pulas de palha, servindo de pedestal a um mocho sombrio,<br \/>\n    brilhavam docemente aos &oacute;sculos luminosos do luar.<\/p>\n<p>L&aacute; dentro, entre suas pobres paredes de barro, m&atilde;os de r&uacute;stico,<br \/>\n    lassas do ferro agr&iacute;cola, tiravam das cordas de uma viola acordes cadenciados,<br \/>\n    de um encanto que s&oacute; pode avaliar quem j&aacute; os ouviu, os quais<br \/>\n    mergulhando na floresta iam suavizar o sono das avezinhas.<\/p>\n<p>Estava-se, j&aacute; o dissemos, a 14 de setembro.<\/p>\n<p>A julgar pela for&ccedil;a com que os raios de sol enchiam a atmosfera, sob<br \/>\n    o azul puro e claro do c&eacute;u americano deviam ser nove horas, quando<br \/>\n    menos.<\/p>\n<p>O leitor colocado no meio dessa plan&iacute;cie que se desdobrava ao poente<br \/>\n    da habita&ccedil;&atilde;o havia de presenciar o seguinte:<\/p>\n<p>Rosalina, alegre como sempre, chegou risonha &agrave; janela, cantarolando<br \/>\n    a delicada poesia de Dirceu:<\/p>\n<p>Como alegre vem nascendo<\/p>\n<p>A serena madrugada!<\/p>\n<p>J&aacute; d&#8217;aurora a luz dourada<\/p>\n<p>Duvidosa vem raiando.<\/p>\n<p>E tu descansando<\/p>\n<p>Marilia formosa,<\/p>\n<p>Escutar, etc.<\/p>\n<p>Toda a sua aten&ccedil;&atilde;o estava pregada em uma rosa pendente dos<br \/>\n    &uacute;ltimos ramos de uma esguia roseira que chegava a altura da janela.<br \/>\n    Estendeu o bracinho mimoso, coberto apenas por uma manga que nem lhe chegava<br \/>\n    ao cotovelo, tomando cuidadosamente entre dois dedos a flor, menos linda que<br \/>\n    ela e, depois de saborear os seus perfumes, entrou a contempl&aacute;-la conversando<br \/>\n    talvez em muda linguagem. As flores e as crian&ccedil;as se compreendem. Na<br \/>\n    mesma ocasi&atilde;o uma pessoa descendo sorrateiramente da colina escalou<br \/>\n    ousadamente a alta cerca de traves novamente constru&iacute;da, penetrando<br \/>\n    no roseiral. Esgueirou-se pela parede at&eacute; pouca dist&acirc;ncia da<br \/>\n    janela ocupada pela menina, apontando-lhe uma pistola, depois de olhar v&aacute;rias<br \/>\n    vezes para tr&aacute;s e para um lugar onde poderia distinguir alguns olhos<br \/>\n    &agrave; espreita por entre as t&aacute;buas do cercado.<\/p>\n<p>Que quadro! A candura e a inoc&ecirc;ncia de um lado, de outro a perversidade<br \/>\n    e o crime.<\/p>\n<p>Ia ressoar o tiro e Rosalina estava morta, mas a Provid&ecirc;ncia velava.<\/p>\n<p>Antes de cair o c&atilde;o da pistola do assassino, uma fuma&ccedil;a t&ecirc;nue<br \/>\n    alvejou a folhagem de uma magn&iacute;fica &aacute;rvore da margem do rio;<br \/>\n    e soltando um gemido o bandido rolou, afogado em ondas de sangue.<\/p>\n<p>Um tiro, providencial e certeiro como a faca que, dias antes, ferira um dos<br \/>\n    perseguidores de Eust&aacute;quio na picada, acabava de defender Rosalina<br \/>\n    contra a m&atilde;o infame de outro celerado.<\/p>\n<p>A orf&atilde;zinha estremeceu ao tiro, e soltando a rosa por um movimento<br \/>\n    instintivo gritou vivamente:<\/p>\n<p>&#8212; Papai!<\/p>\n<p>O esposo de Branca acudiu logo, por&eacute;m dando com a vista de um corpo<br \/>\n    ensang&uuml;entado que jazia sob a janela conheceu que o tiro partira de bra&ccedil;o<br \/>\n    amigo e n&atilde;o se assustou com ele. Correu ao lugar onde se via o corpo<br \/>\n    e p&ocirc;s-se a examinar o seu estado. Era j&aacute; cad&aacute;ver, mas<br \/>\n    o que ele estranhou foi verificar que longe de ser um negro era um homem de<br \/>\n    cor branca (o que n&atilde;o obstava que fosse de meter medo) com a tez morena,<br \/>\n    cabelos ligeiramente cacheados e imundos a cair sobre a testa onde rugas profundas<br \/>\n    estampavam a ferocidade, parecendo um espanhol.<\/p>\n<p>E o ex-subdelegado que supunha ter somente negros por inimigos n&atilde;o<br \/>\n    sabia o que pensar.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o enganei-me, dizia ele consigo. Bem pode ser.<\/p>\n<p>&#8212; Como s&atilde;o atrevidos os tratantes, j&aacute; querem entrar-me<br \/>\n    em casa. Ah! e n&atilde;o poder eu acabar com eles!<\/p>\n<p>Cumpre notar que os paraenses estavam no povoado nessa ocasi&atilde;o, e<br \/>\n    disso deviam ter ci&ecirc;ncia os bandidos que se aventuravam a aproximar-se<br \/>\n    do roseiral, cousa que nunca tinham praticado em pleno dia. Contudo um sentimento<br \/>\n    de covardia fez com que, entrando, apenas um, ficassem outros espiando da<br \/>\n    parte de fora para prevenir as eventualidades.<\/p>\n<p>Estes, cujos olhos o leitor percebeu entre as traves do cercado, correram<br \/>\n    para a montanha logo depois do tiro, arreceando-se da volta dos caboclos paraenses.<\/p>\n<p>O ex-subdelegado n&atilde;o podia fazer mais que esperar pelos engajados.<br \/>\n    Deixou pois Ruperto de espingarda ao ombro passeando pelo roseiral e entrou<br \/>\n    em casa pela porta da cozinha, conversando com Branca enquanto n&atilde;o<br \/>\n    voltavam os seus soldados.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda, voc&ecirc; n&atilde;o se convenceu dizia a mulher, de que<br \/>\n    n&atilde;o nos achamos em seguran&ccedil;a? N&atilde;o viu j&aacute; que o<br \/>\n    novo cercado n&atilde;o suspende o bra&ccedil;o dos nossos inimigos?<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio n&atilde;o tinha resposta e emudecia diante de Branca sem<br \/>\n    ter &acirc;nimo de encontrar com os seus os olhos da esposa, que ali&aacute;s<br \/>\n    falava com a maior brandura. Parecia mais uma m&atilde;e repreendendo o filho,<br \/>\n    do que uma mulher que desejava arredar o esposo de um capricho o qual talvez<br \/>\n    acarretasse conseq&uuml;&ecirc;ncias funestas, m&aacute;xime para ela.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio rompeu o sil&ecirc;ncio que conservava, falando:<\/p>\n<p>&#8212; Dou-lhe, Branca, o conselho de fazer os arranjos necess&aacute;rios<br \/>\n    porque vamos definitivamente partir.<\/p>\n<p>&#8212; Os preparativos j&aacute; est&atilde;o feitos h&aacute; muito tempo,<br \/>\n    replicou a mo&ccedil;a.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio perturbou-se, todavia continuou decidido:<\/p>\n<p>&#8212; Se assim &eacute;&#8230;<\/p>\n<p>Antes de terminada a frase entraram os paraenses, e o protetor de Rosalina<br \/>\n    que n&atilde;o tinha vontade de continuar a conversar foi ter com eles guiando-os<br \/>\n    at&eacute; o cad&aacute;ver, que estava ainda perto das janelas de uma saleta<br \/>\n    pr&oacute;xima &agrave; cozinha, no lugar onde ca&iacute;ra.<\/p>\n<p>&#8212; Quem matou este homem? perguntou um deles.<\/p>\n<p>&#8212; A mesma pessoa que matou, noutro dia, o negro da estrada, respondeu<br \/>\n    Ruperto que apresentou-se ent&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; a viu? interrogou de novo o caboclo.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, porque o tiro partiu dali, disse o escravo indicando<br \/>\n    com o dedo o cimo da &aacute;rvore que, &agrave; margem do Iapur&aacute;,<br \/>\n    oferecia sua folhagem ao sopro das brisas.<\/p>\n<p>&#8212; Que bom atirador! exclamaram todos.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade, disse Eust&aacute;quio, por&eacute;m o que eu admiro<br \/>\n    &eacute; o modo porque ele se oculta, e a const&acirc;ncia com que permanece<br \/>\n    pronto a defender a minha causa em qualquer momento.<\/p>\n<p>Depois deste col&oacute;quio o marido de Branca tirou da cinta que cingia<br \/>\n    o cad&aacute;ver um saco repleto de cartuchos e guardou tamb&eacute;m uma<br \/>\n    pistola de dois canos com que o malvado tentara assassinar a menina.<\/p>\n<p>Relativamente ao morto procedeu-se como se devia e voltou-se a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para os preparativos da partida para Manaus.<\/p>\n<p>O batismo do rec&eacute;m-nascido, que se devia realizar ent&atilde;o, foi<br \/>\n    adiado para uma &eacute;poca mais conveniente ao mesmo tempo que o esposo<br \/>\n    de Branca tomava outras disposi&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias a uma<br \/>\n    mudan&ccedil;a.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">Cap&iacute;tulo IX: A excurs&atilde;o<\/a><\/h4>\n<p>O epis&oacute;dio da tentativa de morte que acabamos de referir n&atilde;o<br \/>\n    teve por conseq&uuml;&ecirc;ncias sen&atilde;o provar que nada levantava um<br \/>\n    dique aos atentados dos criminosos, t&atilde;o horrivelmente obstinados, e<br \/>\n    que tamb&eacute;m por seu lado o incans&aacute;vel defensor trabalhava na<br \/>\n    sua invej&aacute;vel miss&atilde;o, n&atilde;o apresentando-se, mas manifestando-se<br \/>\n    nos mais oportunos momentos por uma interven&ccedil;&atilde;o muito her&oacute;ica,<br \/>\n    embora muito natural, sem contudo deixar se perceber atrav&eacute;s das sombras<br \/>\n    do inc&oacute;gnito, para talvez poupar-se aos agradecimentos de que era digno.<\/p>\n<p>Estava inteiramente decidida a viagem para Manaus, todavia Eust&aacute;quio<br \/>\n    sentia, conquanto n&atilde;o o declarasse, profunda repugn&acirc;ncia por<br \/>\n    esse passo.<\/p>\n<p>E essa repugn&acirc;ncia, ali&aacute;s contr&aacute;ria ao seu modo de pensar<br \/>\n    de outrora, n&atilde;o era sem fundamentos.<\/p>\n<p>Com grandes despesas conseguira ele edificar nos sert&otilde;es do Amazonas<br \/>\n    uma morada perfeitamente confort&aacute;vel; nela se estabelecera depois de<br \/>\n    casado; e a ela vira chegar, em primeiro lugar Rosalina, entregue pela mis&eacute;ria<br \/>\n    e depois o seu primog&ecirc;nito, entregue pelo c&eacute;u. Essa picada que<br \/>\n    agora se ostentava negra ao seu esp&iacute;rito exaltado fora o teatro da<br \/>\n    morte do seu querido servo e em &eacute;poca mais remota tamb&eacute;m vira<br \/>\n    passar o corpo inerte do seu sogro. Estas lembran&ccedil;as doces e l&uacute;gubres,<br \/>\n    aquele sacrif&iacute;cio parcial da sua fortuna na constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da casa, a amizade do padre Jorge e um desejo de vingan&ccedil;a que vegetava<br \/>\n    no &acirc;mago do seu cora&ccedil;&atilde;o eram algemas que o ligavam &agrave;quele<br \/>\n    solo, e que doloroso n&atilde;o seria para ele romp&ecirc;-las!<\/p>\n<p>Se ao condenado das gal&eacute;s se oferecesse arrancar os grilh&otilde;es<br \/>\n    levando com eles seus p&eacute;s, por certo que n&atilde;o aceitaria embora<br \/>\n    a liberdade se lhe antolhasse risonha.<\/p>\n<p>Outras n&atilde;o eram as condi&ccedil;&otilde;es de Eust&aacute;quio. Eis<br \/>\n    o que explicava a sua repugn&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Esquecia-se talvez da prud&ecirc;ncia, da seguran&ccedil;a dos seus, mas<br \/>\n    na sua vontade predominava o desejo de permanecer no seu posto, contentando-se<br \/>\n    provisoriamente com a defesa, deu-se por&eacute;m um fato que f&ecirc;-lo,<br \/>\n    se n&atilde;o tomar a posi&ccedil;&atilde;o ofensiva, ao menos dar mui en&eacute;rgicas<br \/>\n    provid&ecirc;ncias, impossibilitando a partida para fora de S. Jo&atilde;o<br \/>\n    do Pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p>Certa noite (a seguinte ao dia da tentativa de morte) dirigiu-se ele pensativo<br \/>\n    e triste ao seu quarto cuja porta abria-se para o corredor central da habita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No seu cr&acirc;nio se acumulavam atropeladamente legi&otilde;es indisciplinadas<br \/>\n    de pensamentos e enquanto tentava organiz&aacute;-las uma pequena cabe&ccedil;ada<br \/>\n    na porta lembrou-lhe a realidade.<\/p>\n<p>Viu-se ent&atilde;o no seu gabinete.<\/p>\n<p>Apesar de simples possu&iacute;a a c&acirc;mara tudo o que se podia desejar<br \/>\n    por sua utilidade.<\/p>\n<p>Duas janelas, das quais s&oacute; uma estava aberta, delineavam-se na parede<br \/>\n    fronteira &agrave; porta.<\/p>\n<p>Dessa mesma parede e de outra que a encontrava ca&iacute;a como um crescente<br \/>\n    uma rede, cujas franjas tremulavam ao frescor da noite, e aos p&eacute;s da<br \/>\n    rede havia uma pequena mesa coberta de livros empilhados em cima da qual brilhava<br \/>\n    uma luz.<\/p>\n<p>Colada a outra parede via-se uma cama coberta por uma colcha de flor&otilde;es<br \/>\n    coloridos mas desmaiados, leito habitual de Eust&aacute;quio, que, diferente<br \/>\n    dos outros habitantes do norte, gostava pouco de rede.<\/p>\n<p>O marido de Branca assentou-se na rede do quarto a qual depois de duas oscila&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ficou im&oacute;vel, ao menos tanto quanto Eust&aacute;quio, pois mergulhara-se<br \/>\n    este em uma dessas medita&ccedil;&otilde;es insond&aacute;veis que paralisam<br \/>\n    o f&iacute;sico.<\/p>\n<p>Sentia encher-se-lhe a boca de brados de &oacute;dio contra os seus cru&eacute;is<br \/>\n    perseguidores. Tinha lembran&ccedil;a de chamar em seu aux&iacute;lio a pol&iacute;cia<br \/>\n    de Manaus, mas carecia de meios para isso. Acreditava na sua superexcita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que podia pela sua influ&ecirc;ncia mandar exterminar os bandidos por todos<br \/>\n    os moradores de S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe, por&eacute;m logo abandonava<br \/>\n    essa cren&ccedil;a; e, encontrando al&iacute;vio quando lhe vinha &agrave;<br \/>\n    mem&oacute;ria o seu defensor desinteressado, dizia:<\/p>\n<p>&#8212; Oh, homem querido, aparece! Quero te abra&ccedil;ar! agradecer!<\/p>\n<p>Logo depois pensava na partida que o bem estar da fam&iacute;lia exigia.<br \/>\n    Rompiam-lhe dos l&aacute;bios palavras que eram os coriscos da eletricidade<br \/>\n    do seu c&eacute;rebro.<\/p>\n<p>&#8212; Os infames, dizia, querem for&ccedil;ar-me a fugir&#8230; E donde! Da<br \/>\n    minha casa! Eu! Deixar o que me pertence, meus amigos, o meu teto, minhas<br \/>\n    recorda&ccedil;&otilde;es! Nunca! Mas, ah! Branca deseja partir&#8230; E tem raz&atilde;o&#8230;<br \/>\n    tem medo. Eu tamb&eacute;m j&aacute; quis sair desta casa, pois estava aterrado.<br \/>\n    Acabei por mudar de resolu&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m Branca n&atilde;o<br \/>\n    mudou&#8230;<\/p>\n<p>&quot;Talvez me submeta a sua vontade, mas antes disso vou tentar uma cousa&#8230;<br \/>\n    Tenho um plano&#8230; N&atilde;o conto, infelizmente com o inepto subdelegado;<br \/>\n    irei pois, s&oacute; com os paraenses. Hei-de ir! Hei-de ir, e hei-de saber<br \/>\n    ao certo quem me persegue. Ah malvados!&quot;<\/p>\n<p>Ia-se tornando tarde, por&eacute;m, Eust&aacute;quio n&atilde;o estava em<br \/>\n    si, n&atilde;o via as horas.<\/p>\n<p>A sua medita&ccedil;&atilde;o intercortada de frases j&aacute; durara algum<br \/>\n    tempo. Ele ergueu-se e foi para a cama com a inten&ccedil;&atilde;o de dormir.<br \/>\n    Conseguiu apenas deitar-se, levantando-se logo a retomar na rede o seu primitivo<br \/>\n    lugar.<\/p>\n<p>A&iacute;, com as m&atilde;os cruzadas sustentando a testa e com os cotovelos<br \/>\n    enterrados nos joelhos, permaneceu ainda.<\/p>\n<p>Deu-se ent&atilde;o uma circunst&acirc;ncia mui importante, que o marido<br \/>\n    de Branca teria notado se a sua aten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se achasse<br \/>\n    t&atilde;o longe do seu quarto.<\/p>\n<p>Acima do parapeito de janela aberta, que se alargava no fundo como uma tela<br \/>\n    negra, apareceu a extremidade de uma vara e quase imediatamente desceu.<\/p>\n<p>Mais ou menos &agrave;s cinco horas da madrugada principiou o dia a despontar.<br \/>\n    Eust&aacute;quio, sem mesmo saber como passara a noite, chegou-se &agrave;<br \/>\n    janela.<\/p>\n<p>A vidra&ccedil;a estava suspensa, ele inclinou-se para respirar as exala&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do prado.<\/p>\n<p>Viu a estrela d&#8217;alva cintilando um pouco por sobre a montanha, cuja base<br \/>\n    jazia ainda nas trevas, e aos &uacute;ltimos clar&otilde;es da vela que j&aacute;<br \/>\n    desaparecia, vacilando no orif&iacute;cio do casti&ccedil;al, reunidos &agrave;<br \/>\n    luz l&iacute;vida e fraca que come&ccedil;ava a se espalhar pela plan&iacute;cie,<br \/>\n    distinguiu um pedacinho de papel sobre a janela.<\/p>\n<p>Estava umedecido pelo orvalho e Eust&aacute;quio querendo retir&aacute;-lo<br \/>\n    rasgou-o em dous.<\/p>\n<p>O ex-subdelegado, que n&atilde;o dera ao papel grande aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    viu logo algumas letras e ligando as duas por&ccedil;&otilde;es leu este aviso,<br \/>\n    laconicamente amedrontador:<\/p>\n<p>Sentido! Ides ser atacado seriamente.<\/p>\n<p>Um amigo.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda o meu defensor! exclamou Eust&aacute;quio, &eacute; ele quem<br \/>\n    me d&aacute; uma not&iacute;cia. Por&eacute;m o que ele diz &eacute; incr&iacute;vel!<\/p>\n<p>Releu cuidadosamente o aviso e voltando-se para a janela gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Por quem &eacute;s, ente das sombras, apresenta-te, que te quero<br \/>\n    entregar a minha vida em recompensa da tua dedica&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>Mas quem depositara o papel sobre a janela j&aacute; ia longe. Branca que<br \/>\n    ouvira as vozes do marido j&aacute; estava no quarto e perguntava:<\/p>\n<p>&#8212; Que papel &eacute; esse?<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio escondendo o papel olhou espantado para a mulher e s&oacute;<br \/>\n    depois de alguns momentos disse:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; nenhum escrito importante.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o creio, quero ver, tornou Branca, aproximando-se do marido.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o lhe queria revelar, mas se o exige, leia, terminou<br \/>\n    Eust&aacute;quio entregando a Branca os dous peda&ccedil;os de papel.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a, naturalmente medrosa empalideceu &agrave; vista do aviso e<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de deixar de perguntar quem o entregara.<\/p>\n<p>&#8212; Que homem benfazejo! disse, quando obteve resposta.<\/p>\n<p>Pouco depois ouviu Eust&aacute;quio dizer-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Branca, &eacute; imposs&iacute;vel partirmos j&aacute;, porque nem<br \/>\n    h&aacute; embarca&ccedil;&otilde;es agora, no povoado, mas hoje &agrave; noute<br \/>\n    eu irei examinar essas matas a fim de tirar as on&ccedil;as do esconderijo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, eu n&atilde;o consinto! gritou ela, n&atilde;o deixarei<br \/>\n    voc&ecirc; arriscar a vida inutilmente.<\/p>\n<p>&#8212; Inutilmente! Ent&atilde;o voc&ecirc; acaba de ler o aviso e n&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc; que estamos em perigo! Quer que morramos todos? Eu irei e hei de<br \/>\n    ser prudente.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! V&aacute;, mas eu ficarei tremendo.<\/p>\n<p>&#8212; Tenha paci&ecirc;ncia, minha Branca, &eacute; a &uacute;nica cousa<br \/>\n    que posso fazer. Ir atacar antes de ser atacado.<\/p>\n<p>Retirou-se Branca deixando Eust&aacute;quio a ruminar o plano da explora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Pelas tr&ecirc;s horas da tarde o tempo mudou. Uma poeirinha l&iacute;quida<br \/>\n    come&ccedil;ou a cair.<\/p>\n<p>&#8212; O tempo &eacute; o mais prop&iacute;cio poss&iacute;vel para a minha<br \/>\n    expedi&ccedil;&atilde;o, observou Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>&#8212; Ou para nos virem atacar, acrescentou Branca.<\/p>\n<p>Rosalina j&aacute; soubera das inten&ccedil;&otilde;es do seu protetor assim<br \/>\n    como do aviso que lhe chegara &agrave;s m&atilde;os, por&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    sentira por si, a menor emo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Tinha a alma familiarizada com a desventura, nada temia. A desgra&ccedil;a<br \/>\n    &eacute; como tudo neste mundo, tantas vezes a vemos que finalmente j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o nos impressiona. Rosalina a vira em toda a sua fealdade.<\/p>\n<p>A jovem que viera do povoado acabava de voltar para l&aacute;, porque o ex-subdelegado,<br \/>\n    julgando-se em v&eacute;speras de partir a despedira.<\/p>\n<p>E o filhinho de Branca agitava-se contente no fundo do ber&ccedil;o.<\/p>\n<p>Apenas findou-se o dia, o subdelegado disp&ocirc;s-se para a excurs&atilde;o.<\/p>\n<p>Escolhera a noite para o proteger com suas sombras visto que a lua em minguante<br \/>\n    s&oacute; mui tarde devia nascer.<\/p>\n<p>Depois de armar convenientemente os seus homens e de se agasalhar contra<br \/>\n    a umidade da noite, abra&ccedil;ou a Branca, fez estalar um beijo na testa<br \/>\n    de sua protegida, beijou ainda o menino seu filho e saiu.<\/p>\n<p>Quatro l&aacute;grimas brilharam-lhe nas extremidades dos olhos.<\/p>\n<p>Entregou a Ruperto a guarda da casa, partindo logo que viu fechar-se atr&aacute;s<br \/>\n    de si a s&oacute;lida porteira do cercado exterior.<\/p>\n<p>Caminharam os exploradores dois minutos por cima de ervas e arbustos que<br \/>\n    lhes molharam as cal&ccedil;as, penetrando em seguida em um bosque dif&iacute;cil<br \/>\n    de trilhar, gra&ccedil;as ao emaranhado de trepadeiras e cip&oacute;s, juntamente<br \/>\n    com as moutas densas que as facas cortavam desapiedadamente.<\/p>\n<p>O caminho dif&iacute;cil cessou quando os primeiros declives da montanha<br \/>\n    se fizeram sentir. Estavam os homens bastante arredados do Iapur&aacute;,<br \/>\n    sem ainda ter encontrado o menor vest&iacute;gio dos malfeitores.<\/p>\n<p>Viram-se, n&atilde;o &eacute; o termo, sentiram-se em uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de caminho que n&atilde;o parecia aberto pela natureza.<\/p>\n<p>&#8212; Estamos em uma picada, notou o paraense que seguia, na frente.<\/p>\n<p>&#8212; Que talvez nos leve ao nosso destino, disse outro.<\/p>\n<p>Estas palavras trocadas em voz baixa foram as primeiras. Reinava a mais completa<br \/>\n    escurid&atilde;o na mata que Eust&aacute;quio percorria.<\/p>\n<p>Os seus companheiros, como cegos, apalpavam o caminho com a coronha das espingardas<br \/>\n    e andavam devagar. A expedi&ccedil;&atilde;o era ousada e seria imposs&iacute;vel<br \/>\n    se a floresta n&atilde;o fosse mais ou menos conhecida pelos paraenses.<\/p>\n<p>Eles caminhavam. Para onde? N&atilde;o sabiam. O que esperavam? Tudo. Estavam<br \/>\n    preparados para fazer frente aos inimigos. Que inimigos?<\/p>\n<p>Eles n&atilde;o conheciam.<\/p>\n<p>Debaixo dos seus passos fugiam reptis, bruscamente despertados, e uma vez<br \/>\n    puderam ouvir a pouca dist&acirc;ncia o grito rouco de uma on&ccedil;a, que<br \/>\n    acelerou-lhes as palpita&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o fazendo<br \/>\n    que armassem as espingardas.<\/p>\n<p>A inten&ccedil;&atilde;o de Eust&aacute;quio era reconhecer o abrigo dos<br \/>\n    seus perseguidores e dar-lhes combate se fosse poss&iacute;vel, n&atilde;o<br \/>\n    queria por&eacute;m que fosse conhecida a sua presen&ccedil;a na floresta,<br \/>\n    por essa raz&atilde;o temia alguma luta com feras.<\/p>\n<p>Deram mais alguns passos, mas pararam logo, prestando aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a um murm&uacute;rio indeciso, que n&atilde;o vinha do alto da montanha, por&eacute;m,<br \/>\n    ao contr&aacute;rio, da plan&iacute;cie, e n&atilde;o podia ser portanto o<br \/>\n    ru&iacute;do de um acampamento de &iacute;ndios, que s&oacute; existiam do<br \/>\n    outro lado das colinas.<\/p>\n<p>&#8212; Ser&atilde;o eles? murmurou Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>&#8212; Quem sabe? respondeu-lhe um homem.<\/p>\n<p>O marido de Branca e seus homens j&aacute; se tinham voltado e examinavam<br \/>\n    as matas que se estendiam um pouco abaixo deles.<\/p>\n<p>Nada viram.<\/p>\n<p>Retomaram o caminho que tinham j&aacute; atravessado e principiaram a descer<br \/>\n    a ladeira que levava ao cimo da pequena montanha.<\/p>\n<p>Examinaram de novo a floresta. Do lado direito cousa alguma distinguiram<br \/>\n    sen&atilde;o as trevas da noite, na frente ainda nada, mas &agrave; sua esquerda<br \/>\n    avistaram ao longe, nas profundezas do bosque, um clar&atilde;o vermelho.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio apontou para esse lugar e exclamou:<\/p>\n<p>&#8212; L&aacute; est&atilde;o os assassinos!<\/p>\n<p>Tinha na voz uma entona&ccedil;&atilde;o de &oacute;dio.<\/p>\n<p>Abandonando a picada, os exploradores seguiram em linha reta para o clar&atilde;o.<br \/>\n    A lama do ch&atilde;o molhado atolava-os at&eacute; acima dos joelhos, os<br \/>\n    espinhos abriam rasg&otilde;es nas cal&ccedil;as e nos capotes chegando mesmo<br \/>\n    a feri-los, contudo eles avan&ccedil;avam com indom&aacute;vel frenesi. Encontraram<br \/>\n    nova vereda e continuaram. Percebiam melhor o clar&atilde;o. Era uma fogueira<br \/>\n    que brilhava sob a folhagem e o ru&iacute;do que se ouvia proveniente de seu<br \/>\n    crepitar.<\/p>\n<p>J&aacute; pr&oacute;ximos da fogueira, eles pararam. Estavam vacilantes,<br \/>\n    n&atilde;o por medo, porque o seu &acirc;nimo n&atilde;o conhecia medo, por&eacute;m<br \/>\n    por essa emo&ccedil;&atilde;o que sente o soldado antes do combate e que invade<br \/>\n    o esp&iacute;rito mesmo do her&oacute;i, a qual se transforma logo em ardor<br \/>\n    e lhe d&aacute; a coragem que n&atilde;o v&ecirc; perigos.<\/p>\n<p>O marido de Branca, aproveitando-se da luz vermelha e fraca que vinha da<br \/>\n    fogueira, viu no rel&oacute;gio que eram quase dez horas. A conselho de um<br \/>\n    dos paraenses, deixaram todos o caminho para adiantarem-se de rastos pelo<br \/>\n    mato. Esta manobra, habilmente executada, levou-os at&eacute; o fogacho que<br \/>\n    via-se cintilar atrav&eacute;s das folhas&#8230; Espessa massa de arbustos veio<br \/>\n    ocultar-lhes inteiramente o fogo. Nada podiam mais ver, embora ouvissem perfeitamente<br \/>\n    o estalo das madeiras que ardiam.<\/p>\n<p>A&iacute; mesmo elevava-se, retorcendo-se em amplas rugas o tronco enorme<br \/>\n    de uma gigantesca castanheira, que se esgaIhava no alto. Essa &aacute;rvore<br \/>\n    lembrou a Eust&aacute;quio a id&eacute;ia de subir a ela, para, de cima, observar<br \/>\n    melhor o que se passava embaixo.<\/p>\n<p>Assim, sendo posta em execu&ccedil;&atilde;o a id&eacute;ia, subiram todos<br \/>\n    auxiliando-se uns aos outros.<\/p>\n<p>Um galho, que se inclinava horizontalmente por sobre a fogueira. levou-os<br \/>\n    a um ponto de observa&ccedil;&atilde;o. Outro melhor n&atilde;o podiam achar.<\/p>\n<p>Ramos frondosos os encobriam por todos os lados e atrav&eacute;s desses ramos<br \/>\n    podiam facilmente ver tudo, n&atilde;o obstante o calor que a&iacute; chegava<br \/>\n    e as lufadas de denso fumo, que por vezes se enovelavam nas folhas.<\/p>\n<p>Abaixo deles formava-se uma espa&ccedil;osa clareira, no meio da qual uma<br \/>\n    grande fogueira carbonizava estrepitosamente alguns troncos. As chamas intensas<br \/>\n    inundavam-na de rubros efl&uacute;vios, que transformavam os troncos vizinhos<br \/>\n    em barras de ferro em brasa e, do meio delas, subiam fagulhas luminosas que<br \/>\n    se apagavam no alto ao tocar nas folhas.<\/p>\n<p>O zimb&oacute;rio de folhas &uacute;midas, refletindo os infernais clar&otilde;es<br \/>\n    do fogo, coroava dignamente um painel sinistro. Ao lado da fogueira viam-se<br \/>\n    dous negros, cujas faces lustrosas recebiam em cheio a sua luz, que as cobria<br \/>\n    das mais horr&iacute;veis cores.<\/p>\n<p>Um deles permanecia em p&eacute;, com os bra&ccedil;os cruzados sobre o cano<br \/>\n    de uma espingarda, e olhava inalteravelmente para o outro que, assentado,<br \/>\n    revelava pelo balancear da cabe&ccedil;a os sinais de uma luta entre a vig&iacute;lia<br \/>\n    e o sono. Mais longe, como os mortos no campo de batalha, estavam estendidos<br \/>\n    outros homens nas mais variadas posi&ccedil;&otilde;es. Tinham todos o corpo<br \/>\n    envolto em capas e pareciam dormir profundamente.<\/p>\n<p>O que estava de p&eacute; curvou-se e bateu brutalmente no ombro do companheiro,<br \/>\n    exclamando:<\/p>\n<p>&#8212; Dormes! Se dormes, encarregado da vig&iacute;lia, o que far&aacute;s,<br \/>\n    encarregado da vingan&ccedil;a?<\/p>\n<p>Desperta e vem fazer-me companhia.<\/p>\n<p>O negro que fora t&atilde;o estouvadamente despertado levantou a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    perguntando, com os olhos meio fechados:<\/p>\n<p>&#8212; O que &eacute; que quer?<\/p>\n<p>O mais mo&ccedil;o vendo que o companheiro n&atilde;o estava disposto a se<br \/>\n    levantar, largou no ch&atilde;o a espingarda e segurando-lhe os ombros, sacudiu-o<br \/>\n    com toda a for&ccedil;a. As sacudidelas tiveram bom efeito, pois o mais velho<br \/>\n    p&ocirc;s-se de p&eacute; e, estendendo os bra&ccedil;os acima da cabe&ccedil;a,<br \/>\n    curvou-se para traz como que se desentorpecendo. Em breve viu-se t&atilde;o<br \/>\n    acordado como o mais mo&ccedil;o e ambos fizeram uma volta pela clareira,<br \/>\n    atirando lascas de pau sobre as brasas.<\/p>\n<p>As labaredas cresceram de tal modo que Eust&aacute;quio quase foi for&ccedil;ado<br \/>\n    a deixar o seu posto de observa&ccedil;&atilde;o. O calor j&aacute; era intoler&aacute;vel,<br \/>\n    os exploradores suavam por todos os poros, mas, algumas palavras que ent&atilde;o<br \/>\n    ouviram os decidiram a n&atilde;o abandonar o lugar nem que as chamas os atingissem.<br \/>\n    O assunto da conversa&ccedil;&atilde;o dos negros justificou-lhes a curiosidade.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, Jos&eacute;, disse o mais velho, voc&ecirc; me falou<br \/>\n    ainda agora na vingan&ccedil;a de amanh&atilde;, mas n&atilde;o disse a que<br \/>\n    horas devemos atacar a casa.<\/p>\n<p>&#8212; Oh n&atilde;o sabes? Isto &eacute; demais!<\/p>\n<p>&#8212; Por que?<\/p>\n<p>&#8212; Porque n&atilde;o h&aacute; aqui quem ignore, devias saber.<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o sei. Diga-me, se quer.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; de manh&atilde; bem cedo. Sabes agora?<\/p>\n<p>&#8212; Muito cedo mesmo?&#8230; assim n&atilde;o terei tempo de dormir.<\/p>\n<p>&#8212; Cala a boca, rei das pregui&ccedil;as! S&oacute; cuidas em dormir.<br \/>\n    Pois h&aacute;s de estar pronto a qualquer hora, sen&atilde;o&#8230; Olhe.<\/p>\n<p>O negro acabou a frase batendo com os dedos no cabo de uma faca que trazia<br \/>\n    &agrave; cinta.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Pois voc&ecirc; meu filho!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Aqui n&atilde;o h&aacute; filho nem pai, h&aacute; vingadores!<\/p>\n<p>&#8212; Meu Jos&eacute;, voc&ecirc; fala em vingadores como se lhes houvessem<br \/>\n    feito mal.<\/p>\n<p>&#8212; Como! N&atilde;o me fizeram mal! Ent&atilde;o aquela pris&atilde;o?&#8230;<br \/>\n    os maus tratos?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ora! Ora! No tempo em que o a&ccedil;oute lhe rasgava a pele, voc&ecirc;<br \/>\n    s&oacute; pedia perd&atilde;o, e agora est&aacute; a&iacute; com delicadezas.<\/p>\n<p>&#8212; Eh! N&atilde;o te lembras de eu ter dito que pedia perd&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; para ganhar a ocasi&atilde;o de dar no senhor a foi&ccedil;ada com<br \/>\n    que o mandei para o inferno noutro dia?<\/p>\n<p>&#8212; Lembro-me, lembro-me!&#8230; Como era voc&ecirc; fingido! Apre!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pai!<\/p>\n<p>&#8212; Meu filho, eu, que te vi de joelhos diante do senhor, que te vi depois<br \/>\n    de fouce erguida, n&atilde;o te julgarei hip&oacute;crita, fraco diante do<br \/>\n    forte e forte diante do fraco?!<\/p>\n<p>&#8212; Cala-te! gritou o miser&aacute;vel negro desembainhando a faca e<br \/>\n    brandindo-a sobre a cabe&ccedil;a do pai.<\/p>\n<p>&#8212; Perd&atilde;o, Jos&eacute;! Perdoe-me! exclamou o velho segurando<br \/>\n    o pulso do assassino.<\/p>\n<p>&#8212; Perd&ocirc;o-te, mas deixa-te de censuras! N&atilde;o quiseste matar<br \/>\n    o senhor, mas te aproveitaste do que os outros fizeram.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! o cativeiro! o cativeiro!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pois, se temes o cativeiro, h&aacute;s de fazer o que quisermos.<br \/>\n    H&aacute;s de acordar-te ao romper do dia, h&aacute;s de matar gente, h&aacute;s<br \/>\n    de ajudar-nos a agarrar a tal pequerrucha&#8230; Isto &eacute; amanh&atilde;,<br \/>\n    depois&#8230; veremos.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio e os seus companheiros, possu&iacute;dos de indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    contra o perverso, mal se continham.<\/p>\n<p>&#8212; Qual ser&aacute; a gente que eles pretendem matar? Quem ser&aacute;<br \/>\n    a tal pequerrucha? perguntou o esposo de Branca, de si para si.<\/p>\n<p>Meditou um pouco e, com as p&aacute;lpebras &uacute;midas, interrogou o c&eacute;u,<br \/>\n    que as folhas deixavam entrever-se.<\/p>\n<p>Os paraenses mordiam os l&aacute;bios e fechavam os punhos apertando as armas.<\/p>\n<p>Um deles, at&eacute; em um desses movimentos convulsivos, calcou o gatilho<br \/>\n    e desarmou a espingarda.<\/p>\n<p>Teria soado uma detona&ccedil;&atilde;o, se a espoleta n&atilde;o houvesse<br \/>\n    felizmente ca&iacute;do. Todavia ouviu-se um forte estalido.<\/p>\n<p>&#8212; Quem anda l&aacute; por cima? gritou o negro mais mo&ccedil;o. Os<br \/>\n    exploradores sentiram calafrios.<\/p>\n<p>Estavam descobertos, e talvez perdidos, porque, logo que o negro gritou,<br \/>\n    um homem branco que dormia se agitou, atirou a capa para um lado e ergueu-se,<br \/>\n    perguntando:<\/p>\n<p>&#8212; O que temos? Hein, Jos&eacute;!<\/p>\n<p>O escravo, poucos segundos antes t&atilde;o altivo e insolente, tornou-se<br \/>\n    humilde e, com os olhos baixos, respondeu a meia voz:<\/p>\n<p>&#8212; Ouvi um ru&iacute;do ali por cima.<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute;s de verificar o que foi, continuou o que se despertara,<br \/>\n    num tom imperioso. Mas, antes disso&#8230; J&aacute; me ia esquecendo&#8230; Tu &eacute;s<br \/>\n    o encarregado de arrebatar a minha pequenita.<\/p>\n<p>&#8212; Sim senhor, sim senhor, respondeu apressadamente Jos&eacute;.<\/p>\n<p>&#8212; A velhaquinha, prosseguiu o homem branco, corno que falando consigo,<br \/>\n    escapou na picada e livrou-se do tratante que me quis pregar uma pe&ccedil;a,<br \/>\n    mas n&atilde;o me escapar&aacute; desta vez.<\/p>\n<p>Os exploradores tiveram &iacute;mpetos de se precipitarem da &aacute;rvore<br \/>\n    a estrangular o malvado.<\/p>\n<p>O marido de Branca conheceu a excita&ccedil;&atilde;o dos seus homens, e<br \/>\n    al&eacute;m disso, viu que os dois negros sa&iacute;am da clareira para revistar<br \/>\n    as &aacute;rvores, viu que era urgente tocar a retirada.<\/p>\n<p>A retirada n&atilde;o era f&aacute;cil. Os dous negros mostravam disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de galgar a castanheira. Felizmente, a um sopro do vento, as chamas se ativaram,<br \/>\n    crepitando estrondosamente, e uma nuvem de grossa fuma&ccedil;a os envolveu<br \/>\n    protegendo os exploradores da vista dos bandidos.<\/p>\n<p>Assim ocultos, puderam da castanheira passar a outra &aacute;rvore e, descendo<br \/>\n    corajosamente alcan&ccedil;aram o ch&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">Cap&iacute;tulo X: A volta<\/a><\/h4>\n<p>Achando-se em terra, os exploradores tomaram apressadamente o caminho de<br \/>\n    S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p>Esta povoa&ccedil;&atilde;o estava mais pr&oacute;xima que a casa de Eust&aacute;quio<br \/>\n    e portanto era mais f&aacute;cil de alcan&ccedil;ar.<\/p>\n<p>Conquanto j&aacute; fossem tr&ecirc;s horas, a escurid&atilde;o na mata ainda<br \/>\n    era absoluta, o que for&ccedil;ava os engajados de Eust&aacute;quio a seguirem<br \/>\n    trope&ccedil;ando e ganhando terreno com dificuldade.<\/p>\n<p>Doze passos n&atilde;o eram dados quando ouviram um barulho. Julgando ser<br \/>\n    ilus&atilde;o, pararam e escutaram&#8230; Algu&eacute;m os seguia. N&atilde;o<br \/>\n    havia d&uacute;vida&#8230; Subitamente luziram archotes. Os malfeitores os perseguiam.<\/p>\n<p>&#8212; Depressa! depressa! disse Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>Foi in&uacute;til a incita&ccedil;&atilde;o. Os caboclos continuavam ligeiros<br \/>\n    atrav&eacute;s do mato.<\/p>\n<p>O negrume da noute retardava-lhes um pouco a marcha todavia os escondia dos<br \/>\n    perseguidores, que alumiados pelos archotes se aproximavam rapidamente.<\/p>\n<p>Pequena dist&acirc;ncia separava um grupo do outro. A cada instante Eust&aacute;quio<br \/>\n    esperava uma luta. Em uma ocasi&atilde;o chegou a parar com os caboclos, e<br \/>\n    mandou aprontar armas, mas tamb&eacute;m nesse momento os malfeitores pararam<br \/>\n    e os exploradores ouviram a voz arrogante do mesmo homem branco da clareira:<\/p>\n<p>&#8212; O patife, disse ele, vai entrar no povoado&#8230; e est&aacute; livre.<br \/>\n    Vai nos fugir como tem fugido sempre.<\/p>\n<p>&quot;Voltemos!&quot;<\/p>\n<p>O marido de Branca n&atilde;o compreendeu de quem falavam os seus inimigos,<br \/>\n    e somente conheceu que tomavam os exploradores por uma s&oacute; pessoa e<br \/>\n    renunciavam a persegui-la.<\/p>\n<p>&#8212; Isto &eacute; melhor, falou ele consigo mesmo, ao ver os malfeitores<br \/>\n    se afastando pouco a pouco.<\/p>\n<p>Instantes depois sa&iacute;am, Eust&aacute;quio e os seus companheiros, da<br \/>\n    floresta. Sentiram o rumor vago e sereno que durante a noite parece pairar<br \/>\n    na superf&iacute;cie sossegada dos grandes rios. Estavam &agrave; margem do<br \/>\n    Iapur&aacute;. O lado oposto do rio aparecia como uma sombra horizontal e<br \/>\n    se confundia com as &aacute;guas. A esquerda os exploradores tinham o povoado.<br \/>\n    Nenhuma luz brilhava nas janelas, dos seus casebres.<\/p>\n<p>Tudo dormia.<\/p>\n<p>Entraram na povoa&ccedil;&atilde;o possu&iacute;dos desse respeito irresist&iacute;vel<br \/>\n    que se apodera de que vagueia a horas mortas.<\/p>\n<p>O sil&ecirc;ncio da noute nenhum dos homens teve ousadia de quebrar.<\/p>\n<p>Costearam o rio e algumas casinhas. Chegaram ao largo principal. Nessa ocasi&atilde;o<br \/>\n    um paraense divisou atrav&eacute;s das frestas de uma porta mal fechada a<br \/>\n    chama sang&uuml;&iacute;nea de uma candeia.<\/p>\n<p>Era na morada do padre Jorge.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio bateu com as unhas nas t&aacute;buas carunchosas da porta.<br \/>\n    A porta cedeu, apresentando-se logo o sacerdote.<\/p>\n<p>Ambos, sem outros cumprimentos, abra&ccedil;aram-se com efus&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Donde vens, querido Eust&aacute;quio, perguntou o padre, coberto<br \/>\n    de lama, coberto de rasg&otilde;es, e coberto de armas?&#8230; E acompanhado dos<br \/>\n    meus paraenses? Quase n&atilde;o te conhecia!<\/p>\n<p>&quot;Assenta-te ao meu lado e me conta o que houve&#8230;<\/p>\n<p>&quot;V&oacute;s todos estais sinistros!&quot;<\/p>\n<p>&#8212; As circunst&acirc;ncias o exigem, respondeu Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>&quot;V&oacute;s sabeis dos tristes acontecimentos que tem havido em minha<br \/>\n    casa, mas n&atilde;o sabeis que na manh&atilde; de ontem&#8230; pois que s&atilde;o<br \/>\n    tr&ecirc;s horas da manh&atilde; de sexta-feira&#8230;&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Oh! interrompeu o padre Jorge, julgava que ainda fossem dez horas<br \/>\n    da noute de quinta-feira&#8230; estava t&atilde;o entretido na leitura da hist&oacute;ria<br \/>\n    de Napole&atilde;o Bonaparte&#8230;<\/p>\n<p>E apontou para um alfarr&aacute;bio que estava aberto sobre uma velha mesa<br \/>\n    junto da l&acirc;mpada.<\/p>\n<p>&#8212; Como dizia, continuou Eust&aacute;quio, na manh&atilde; de ontem<br \/>\n    recebi por um modo extraordin&aacute;rio aviso de que ia ser atacado pelos<br \/>\n    meus velhos perseguidores.<\/p>\n<p>&quot;Ora, isto assustou-me, e decidi-me a empreender uma viagem de reconhecimento,<br \/>\n    que teve os melhores resultados, como ides ver:<\/p>\n<p>&quot;Depois de percorrer a mata encontrei os tratantes.<\/p>\n<p>&quot;Uma &aacute;rvore serviu-me de observat&oacute;rio e dela me foi poss&iacute;vel<br \/>\n    ouvir dizer que a minha morada, hoje, ao romper do dia vai ser assaltada pelos<br \/>\n    miser&aacute;veis, que s&atilde;o em numero de nove ou dez.&quot;<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; medonho! balbuciou o padre.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; s&oacute; isto. Os bandidos pretendem roubar<br \/>\n    para o chefe&#8230; Quem?! a minha pobre Rosalina&#8230; Infeliz crian&ccedil;a!<\/p>\n<p>&#8212; Eust&aacute;quio, acreditas que eles ousem?<\/p>\n<p>&#8212; Acredito, sim! Nunca pensei que eles se atrevessem a escalar-me grades<br \/>\n    em pleno dia e entretanto a coitada da Rosalina, na janela da casa, escapou<br \/>\n    de ser morta&#8230; por milagre!<\/p>\n<p>&quot;Morreria, se n&atilde;o fosse a interven&ccedil;&atilde;o de um salvador<br \/>\n    misterioso.&quot;<\/p>\n<p>O sacerdote prendeu melhor os &oacute;culos e continuou atento.<\/p>\n<p>&#8212; Eles, que t&ecirc;m a coragem de penetrar quase nas minhas salas,<br \/>\n    podem facilmente assaltar-me&#8230; Mas, meu padre, vai se fazendo dia, e eu quero<br \/>\n    receber convenientemente os meus inimigos, por isso adeus. Entrei aqui para<br \/>\n    descansar e j&aacute; estou pronto.<\/p>\n<p>O padre tomou a m&atilde;o de Eust&aacute;quio, n&atilde;o tanto para saud&aacute;-lo<br \/>\n    como para prend&ecirc;-lo e n&atilde;o o deixar sair.<\/p>\n<p>&#8212; Eust&aacute;quio, disse ele, tu n&atilde;o ir&aacute;s sem que eu<br \/>\n    v&aacute; tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>&quot;Tens somente seis contra nove ou dez. &Eacute; pouca gente. Eu serei<br \/>\n    mais um dos teus. E talvez n&atilde;o seja ainda suficiente.&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Sois um sacerdote e n&atilde;o contais a Provid&ecirc;ncia, que<br \/>\n    deve estar do meu lado?!<\/p>\n<p>&#8212; Sim,&#8230; mas quero ir. Quero morrer contigo, ou contigo me salvar.<\/p>\n<p>&quot;Partamos! N&atilde;o h&aacute; tempo a perder.&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Que! bradou Eust&aacute;quio, padre Jorge, ficai!<\/p>\n<p>Qual, amigo! Que tenho a recear? A morte? Ora! A morte j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    me pode causar dano. Deste meu lugar eu j&aacute; a avisto. Que importa que<br \/>\n    ela me alcance aqui ou ali?&#8230; Quest&atilde;o de lugar.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o! n&atilde;o haveis de ir!<\/p>\n<p>&#8212; Hei de ir certamente, replicou o padre com firmeza.<\/p>\n<p>&#8212; Padre Jorge, sejamos razo&aacute;veis. Lembrai-vos que h&aacute;<br \/>\n    almas por quem tendes de responder a Deus.<\/p>\n<p>&quot;E se morrerdes&#8230;&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Outros me h&atilde;o de substituir com muito mais aptid&atilde;o<br \/>\n    para o meu mister. Al&eacute;m disso, a tua e a dos teus n&atilde;o ser&atilde;o<br \/>\n    dessas almas por quem sou respons&aacute;vel? N&atilde;o tenho eu at&eacute;<br \/>\n    o dever de estar ao vosso lado pronto a confortar-vos em vosso &uacute;ltimo<br \/>\n    momento, se ele chegar?<\/p>\n<p>O ex-subdelegado viu que era impotente diante da vontade inabal&aacute;vel<br \/>\n    daquele velho, curvou-se e beijou as costas da m&atilde;o rugosa e magra que<br \/>\n    segurava nas suas.<\/p>\n<p>&#8212; Bem, disse comovido, sois o mais bravo dos sacerdotes e o mais dedicado<br \/>\n    dos amigos, vinde! Iremos juntos, e morreremos juntos, se for da divina vontade.<\/p>\n<p>E os dois se abra&ccedil;aram.<\/p>\n<p>Os paraenses, de p&eacute;, assistiam, calmos, mas enternecidos, as perip&eacute;cias<br \/>\n    belas dessa cena de amizade.<\/p>\n<p>Passados alguns momentos, o velho sacerdote dirigiu-se &agrave; mesa e fechou<br \/>\n    o alfarr&aacute;bio. Aos p&eacute;s do seu pobre leito havia um crucifixo<br \/>\n    de madeira negra. Beijou-o respeitosamente e veio reunir-se aos companheiros<br \/>\n    de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>Deixaram todos a casinha do padre, que talvez a ela n&atilde;o volvesse.<\/p>\n<p>Ainda os lampejos alvacentos da madrugada n&atilde;o se irradiavam pelo nascente.<br \/>\n    Era noute ainda.<\/p>\n<p>Antes de sair da povoa&ccedil;&atilde;o, um grupo de trabalhadores passou<br \/>\n    por diante de Eust&aacute;quio e dos seus, saudando respeitosamente com os<br \/>\n    chap&eacute;us ao padre Jorge e ao esposo de Branca. Eram quatro r&uacute;sticos,<br \/>\n    em trajos grosseiros, que levavam ao ombro instrumentos de lavoura.<\/p>\n<p>O padre Jorge aconselhou a Eust&aacute;quio que engajasse mais aqueles homens.<br \/>\n    Eust&aacute;quio n&atilde;o trepidou. Tratou-se, sem regateio, a recompensa,<br \/>\n    seguindo os exploradores com o novo refor&ccedil;o pela picada acima.<\/p>\n<p>Avizinhava-se o roseiral de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>A lua, vermelha como a lanterna sangrenta de algum gemo das trevas, avan&ccedil;ava<br \/>\n    tristonha pelos c&eacute;us al&eacute;m. A atmosfera, tristemente nublada,<br \/>\n    mal coava uma frouxa claridade que dava a tudo uma fei&ccedil;&atilde;o fant&aacute;stica.<br \/>\n    &Agrave; base da montanha que parecia envolta em um manto de gaze cinzenta,<br \/>\n    repousava silenciosa a casa branca do ex-subdelegado como uma t&iacute;mida<br \/>\n    pomba abrigada nas fendas de algum penhasco.<\/p>\n<p>Por sobre ela, em certos lugares escalvados da encosta da montanha, escorregavam<br \/>\n    filetes d&#8217;&aacute;gua brilhando como prata.<\/p>\n<p>Este quadro l&uacute;gubre veio encher de ligeiro pavor o &acirc;nimo atribulado<br \/>\n    de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>A l&acirc;mpada das noutes parecia-lhe um press&aacute;gio de sangue, e ao<br \/>\n    entrar em sua habita&ccedil;&atilde;o, sentiu apertar-se-lhe o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nenhuma novidade havia, felizmente; e a ansiedade com que todos esperavam<br \/>\n    pela volta do ex-subdelegado foi traduzida pelo acolhimento que teve ele.<\/p>\n<p>Logo que o dia tornou-se claro, a cozinha de Branca forneceu um almo&ccedil;o<br \/>\n    restaurador, em que todos tomaram parte.<\/p>\n<p>Foram carregadas cuidadosamente as armas de fogo e afiadas as de corte.<\/p>\n<p>Todos estavam prontos.<\/p>\n<p>Os oito engajados estavam postados, de espa&ccedil;o a espa&ccedil;o, por<br \/>\n    toda a extens&atilde;o da pali&ccedil;ada exterior. Ruperto com uma &oacute;tima<br \/>\n    espingarda de dous canos, passeava sossegadamente no roseiral, preparado para<br \/>\n    socorrer as sentinelas de fora. E finalmente Eust&aacute;quio com sua fam&iacute;lia<br \/>\n    e o padre Jorge estavam dentro da habita&ccedil;&atilde;o, transformada em<br \/>\n    casamata, tendo a sua disposi&ccedil;&atilde;o quatro pistolas e dous rewolvers.<\/p>\n<p>Reinava tranq&uuml;ilidade, porque a casa era fortemente defendida, mas ningu&eacute;m<br \/>\n    conversava.<\/p>\n<p>Tudo estava pronto. S&oacute; se esperava o ataque.<\/p>\n<h4><a name=\"11\">Cap&iacute;tulo XI: Uma fazendola<\/a><\/h4>\n<p>A natureza no norte do Brasil e, em geral, nessa zona ardente que afronta<br \/>\n    os dardos de fogo, ca&iacute;dos verticalmente de um sol intertropical, &eacute;<br \/>\n    espl&ecirc;ndida.<\/p>\n<p>Por ai corre o Amazonas. As suas n&aacute;iades e as dos seus numerosos tribut&aacute;rios,<br \/>\n    deslizando serenas, beijam com indol&ecirc;ncia os ramos floridos das seculares<br \/>\n    &aacute;rvores que se debru&ccedil;am sobre elas. Tocando apenas &agrave;s<br \/>\n    duas margens deixam-nas impregnadas de fertilidade; e realizam os belos sonhos<br \/>\n    de Orel&iacute;ana, enchendo-as de riquezas que s&oacute; esperam o bra&ccedil;o<br \/>\n    diligente e ativo para se transformarem em ouro.<\/p>\n<p>Entretanto s&oacute; rasgam-nas esses rios, correndo-as lentamente para tirarem<br \/>\n    por &uacute;nico fruto os belos madeiros que s&atilde;o vomitados no Oceano,<br \/>\n    e todas essas magnific&ecirc;ncias naturais s&atilde;o contempladas somente<br \/>\n    pelos olhos luminosos da on&ccedil;a, rainha dessas matas, ou pelo selvagem<br \/>\n    feroz e altivo, que as despreza.<\/p>\n<p>A uma sossegada ba&iacute;a cavada na margem setentrional do Amazonas encostara-se<br \/>\n    uma pesada embarca&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Sem conceder um s&oacute; olhar ao belo docel de verdejantes ramagens que<br \/>\n    se recurvava sobre elas, desembarcaram dez ou doze pessoas. Sob a dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um homem branco, as outras, que eram escravos, entregaram-se ao trabalho<br \/>\n    de descarregamento da sua barca&ccedil;a. Grandes volumes foram depositados<br \/>\n    nas ribas at&eacute; o amanhecer do dia seguinte.<\/p>\n<p>Durante a noute repousaram os viajantes da penosa navega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelo rio e, despertando-se com os passarinhos, come&ccedil;aram uma arrojada<br \/>\n    travessia pelas avenidas agrestes de uma floresta onde pela primeira vez penetrava<br \/>\n    o homem da civiliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Avan&ccedil;aram diretamente para o norte e, s&oacute; depois de avistarem<br \/>\n    atrav&eacute;s do arvoredo as lisas &aacute;guas do lago Aiam&aacute; rutilando<br \/>\n    &agrave; luz solar, modificaram a dire&ccedil;&atilde;o, seguindo para o oeste.<br \/>\n    Foram-se muitos dias antes de findar-se essa viagem que parecia sem rumo.<\/p>\n<p>Afinal, chegando a um mont&iacute;culo rodeado de elegantes palmeiras e vicejantes<br \/>\n    &aacute;rvores, o homem branco ordenou que a&iacute; se fixasse resid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Tinham lugar estes fatos dous anos antes dos que narramos nos primeiros cap&iacute;tulos<br \/>\n    deste livrinho.<\/p>\n<p>O aventureiro, coadjuvado pelos escravos, fez edifica&ccedil;&otilde;es e,<br \/>\n    sem dar satisfa&ccedil;&otilde;es sen&atilde;o a si pr&oacute;prio, principiou<br \/>\n    com ardor a cultivar o solo. Os progressos da fazendola foram r&aacute;pidos.<\/p>\n<p>Os trabalhos, presididos pelo senhor, eram admir&aacute;veis e havia a mais<br \/>\n    completa harmonia entre este e os seus escravos. Assim correram as cousas<br \/>\n    durante um ano.<\/p>\n<p>Entrou novo ano. As insofr&iacute;veis agruras do clima decidiram o fazendeiro<br \/>\n    a abandonar a dire&ccedil;&atilde;o dos trabalhos. Ele quis escolher um feitor<br \/>\n    entre os lavradores pobres que vagueavam pelas imedia&ccedil;&otilde;es da<br \/>\n    pequena fazenda. Esse homem devia vigiar os negros obtendo por isso uma remunera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas o fazendeiro para evitar despesas tomou a resolu&ccedil;&atilde;o de entregar<br \/>\n    o cargo de feitor ao seu mais fiel escravo.<\/p>\n<p>Os ci&uacute;mes nasceram logo entre os outros escravos, a inveja rebentou<br \/>\n    furiosa e nuvens negras come&ccedil;aram a encobrir o horizonte da conc&oacute;rdia.<\/p>\n<p>Estava armada a tormenta. O raio n&atilde;o podia tardar.<\/p>\n<p>De fato, depois de freq&uuml;entes desobedi&ecirc;ncias, precursoras de uma<br \/>\n    insurrei&ccedil;&atilde;o, as quais foram justamente punidas, teve lugar um<br \/>\n    horroroso crime, cuja imediata conseq&uuml;&ecirc;ncia foi a destrui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da fazenda, em outro tempo t&atilde;o esperan&ccedil;osa.<\/p>\n<p>Havia quase uma hora que o sol se pusera. Nuvenzinhas muito altas e estratos<br \/>\n    cor de fogo, no meio de uma claridade que, como um leque, se irradiava pelo<br \/>\n    firmamento, desmaiando gradualmente, lembravam apenas o facho diurno. Os grilos<br \/>\n    e as r&atilde;s, j&aacute; gritando nas matas que rodeavam a fazendola, marcavam<br \/>\n    o momento de cessar-se a lida do campo.<\/p>\n<p>Os escravos, que costumavam, a essa hora, tomar ao ombro as ferramentas agr&aacute;rias<br \/>\n    e seguir para seus domic&iacute;lios, conservavam-se im&oacute;veis e encaravam<br \/>\n    o feitor, em t&aacute;cita provoca&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O feitor, enfadado por isso, deu uma expressiva gargalhada gutural e perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Querem voc&ecirc;s passar a noute aqui?<\/p>\n<p>Um negro de pouca idade atirou-lhe &agrave; face irritante inj&uacute;ria.<br \/>\n    O ofendido agitou o l&aacute;tego em forma de amea&ccedil;a.<\/p>\n<p>Esse gesto imprudente foi para o malaventurado feitor uma senten&ccedil;a<br \/>\n    fatal. O negrinho saltou sobre ele de fouce em punho e arrebentou-lhe o cr&acirc;nio.<\/p>\n<p>A v&iacute;tima ainda com vida foi logo carregada por dous escravos at&eacute;<br \/>\n    a beira de um profundo precip&iacute;cio e l&aacute; atirada.<\/p>\n<p>Pouco depois de ouvir-se o choque abafado do corpo mergulhado na torrente<br \/>\n    que estrondava no fundo do grot&atilde;o, uma voz viril bradou de longe:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o! N&atilde;o se recolhem?<\/p>\n<p>Aparecia o fazendeiro que, achando singular a demora dos escravos no campo,<br \/>\n    viera verificar o motivo dela.<\/p>\n<p>A sua pergunta foi respondida por um desafio.<\/p>\n<p>Adiantou-se devagar o fazendeiro e correu os olhos pelos escravos.<\/p>\n<p>&#8212; O que fizeram do feitor? Respondam, miser&aacute;veis! gritou ele<br \/>\n    sentindo a falta desse negro.<\/p>\n<p>&#8212; Venha ver! disseram os escravos, apontando para umas n&oacute;doas<br \/>\n    de sangue na beira do precip&iacute;cio.<\/p>\n<p>O senhor compreendeu ent&atilde;o. Havia revolta. O feitor fora morto e lan&ccedil;ado<br \/>\n    num abismo que j&aacute; se apresentava aos olhos do fazendeiro como uma sepultura<br \/>\n    cavada tamb&eacute;m para ele.<\/p>\n<p>Os negros iam se aproximando do senhor em atitudes hostis. As fouces giravam<br \/>\n    em suas m&atilde;os, desejosas de mergulhar no sangue. O lavrador sem tremer<br \/>\n    engatilhou um rewolver.<\/p>\n<p>Dous negros mais ousados o atacaram, mas rolaram-lhes aos p&eacute;s. Terceiro<br \/>\n    foi morto ainda.<\/p>\n<p>Um quarto, por&eacute;m, com rapidez felina atirou-se a ele e a despeito<br \/>\n    da sua valentia assassinou-o.<\/p>\n<p>Os mais ferozes e enraivecidos saciaram os seus instintos no cad&aacute;ver.<\/p>\n<p>Em seguida um mont&atilde;o de carnes sem formas foi arrojado aos borbot&otilde;es<br \/>\n    espumantes da torrente, que haviam devorado o feitor.<\/p>\n<p>Estavam livres os cativos!<\/p>\n<p>Com os ferros ainda ensang&uuml;entados, correram &agrave;s habita&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Iam saque&aacute;-las. O roubo seria o primeiro emprego de uma liberdade comprada<br \/>\n    por dous homic&iacute;dios.<\/p>\n<p>Algumas horas mais tarde estava o saque terminado e o inc&ecirc;ndio rompia<br \/>\n    de toda a parte.<\/p>\n<p>Tremendo protesto acabava a escravid&atilde;o de lavrar contra a sua pr&oacute;pria<br \/>\n    perman&ecirc;ncia num meio civilizado!<\/p>\n<p>Uma escrava, a &uacute;nica que havia na fazendola, horrorizada &agrave;<br \/>\n    vista do cad&aacute;ver do senhor, fugira dentre os companheiros, que n&atilde;o<br \/>\n    notaram o seu desaparecimento sen&atilde;o quando, terminado tudo, quiseram<br \/>\n    abandonar o teatro de seus crimes.<\/p>\n<p>&#8212; Fujamos! exclamou ent&atilde;o um negro. Mariana (a escrava) foi<br \/>\n    denunciar-nos!&#8230; Eu a vi correr para S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe. Fujamos!<\/p>\n<p>Os escravos, sem perda de tempo, dispersaram-se todos, buscando um ref&uacute;gio<br \/>\n    na mata.<\/p>\n<p>Em alguns minutos, por&eacute;m, viram-se cercados, agarrados e manietados<br \/>\n    por uma multid&atilde;o de pessoas.<\/p>\n<p>O subdelegado de pol&iacute;cia, avisado pela escrava, assim os prendia auxiliado<br \/>\n    por v&aacute;rios paisanos. A pris&atilde;o n&atilde;o se efetuou sem luta.<br \/>\n    Houve at&eacute; ferimentos e a infeliz Mariana foi morta pelas facas dos<br \/>\n    criminosos.<\/p>\n<p>Deixando os presos sob a vigil&acirc;ncia de alguns homens, o subdelegado<br \/>\n    tomou um caminho que, segundo as indica&ccedil;&otilde;es da escrava, o levaria<br \/>\n    at&eacute; o lugar do crime, e a&iacute; chegou de fato e p&ocirc;de descobrir<br \/>\n    todos os sinais dos homic&iacute;dios narrados pela denunciante.<\/p>\n<p>Pouco depois da meia-noute entravam em S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe<br \/>\n    o subdelegado, os presos e os paisanos, vindo quatro destes com os fardos<br \/>\n    preparados pelos saqueadores da fazendola de que j&aacute; nada restava mais<br \/>\n    que fumegantes cinzas.<\/p>\n<p>Por falta de mais conveniente pris&atilde;o, foram os criminosos encerrados<br \/>\n    numa casa, que devia guard&aacute;-los provisoriamente.<\/p>\n<p>No dia seguinte foi o subdelegado visitar os presos.<\/p>\n<p>Qual n&atilde;o seria o seu pasmo quando, ao penetrar na pris&atilde;o, encontrou-a<br \/>\n    vazia?!&#8230;<\/p>\n<p>Os assassinos tinham se evadido. Um buraco no teto de palha e o barro da<br \/>\n    parede quebrada eram os vest&iacute;gios da fuga.<\/p>\n<h4><a name=\"12\">Cap&iacute;tulo XII: Algumas explica&ccedil;&otilde;es<\/a><\/h4>\n<p>Era simples o que se tinha passado. Os presos, logo que perceberam que ningu&eacute;m<br \/>\n    os vigiava, trataram da evas&atilde;o. A solidez das paredes e portas, em<br \/>\n    que confiara o sub-delegado, havia de zombar de seus esfor&ccedil;os, caso<br \/>\n    quisessem arromb&aacute;-las, s&oacute; o teto de palha oferecia-lhes poss&iacute;vel<br \/>\n    sa&iacute;da. Uma circunst&acirc;ncia opunha-se, todavia, &agrave; fuga dos<br \/>\n    negros por esse lugar. O teto era alto. Lembraram-se eles, por&eacute;m, de<br \/>\n    fazer de uma escada para alcan&ccedil;arem os outros as vigas em que descansava<br \/>\n    a palha. Assim fizeram. Sobre os ombros de um negro vigoroso trepou um crioulo.<br \/>\n    Com uma das m&atilde;os segurou-se a uma viga, com a outra afastou a palha,<br \/>\n    fazendo no teto uma abertura, por onde enfiou a cabe&ccedil;a. Ainda n&atilde;o<br \/>\n    rompia a madrugada. Os arredores da casa estavam desertos. Era a hora da fuga.<br \/>\n    O crioulo deixou-se escorregar pela face exterior da parede e saltou no ch&atilde;o.<br \/>\n    Depois dele os seus seis companheiros sa&iacute;ram tamb&eacute;m, sendo o<br \/>\n    que servira de degrau guindado pelos outros. Estavam de novo livres. Com toda<br \/>\n    precau&ccedil;&atilde;o arredaram-se do povoado. Passando por um pardieiro<br \/>\n    abandonado, distinguiram dentro dele um monte de objetos que a escurid&atilde;o<br \/>\n    impedia de reconhecer. Apalparam-nos. Eram armas, roupas, mantimentos, isto<br \/>\n    &eacute;, tudo o que fora transportado da fazendola pelo subdelegado.<\/p>\n<p>Feliz achado! Os fugitivos aproveitaram-se dele e bem munidos, embrenharam-se<br \/>\n    no &acirc;mago da mata virgem.<\/p>\n<p>Cada um desses escravos tinha o peito cheio de &oacute;dio, de um &oacute;dio<br \/>\n    criado por longos dias de escravid&atilde;o pesada, de um &oacute;dio ardente<br \/>\n    que s&oacute; o sangue resfriaria. O de seu desgra&ccedil;ado senhor e o do<br \/>\n    feitor n&atilde;o lhes bastavam. Queriam mais!&#8230; E, por uma evolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    efetuada insensivelmente no seu esp&iacute;rito, voltaram toda a sua sanha<br \/>\n    contra o subdelegado.<\/p>\n<p>Julgando-o apenas culpado de algumas viol&ecirc;ncias, empregadas para prend&ecirc;-los,<br \/>\n    condenavam-no contudo os negros a expiar todos os excessos praticados em outros<br \/>\n    tempos contra eles pelo fazendeiro. N&atilde;o haviam ainda saciado de todo<br \/>\n    o seu desejo de vingan&ccedil;a!<\/p>\n<p>Procuraram a morada do subdelegado. Acharam-na. Encetaram ent&atilde;o uma<br \/>\n    persegui&ccedil;&atilde;o atroz, com que feriam essa v&iacute;tima enquanto<br \/>\n    esperavam um momento prop&iacute;cio para assaltando-lhe a casa, trucidarem<br \/>\n    quem nela estivesse. Alta noute um grupo confuso de sombras surgia da floresta.<br \/>\n    Se algum raio de lua ca&iacute;a sobre essas sombras, reluziam ferros. Como<br \/>\n    uma coorte de serpentes avan&ccedil;avam arrastando-se at&eacute; a habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do subdelegado. A&iacute; devastavam tudo. Matavam o gado que dormia no curral,<br \/>\n    roubavam animais, destru&iacute;am planta&ccedil;&otilde;es e retiravam-se<br \/>\n    depois para os antros tenebrosos dos bosques.<\/p>\n<p>Assim eram as excurs&otilde;es dos negros.<\/p>\n<p>Se o subdelegado, em quem j&aacute; ter&aacute; o leitor reconhecido Eust&aacute;quio,<br \/>\n    se Eust&aacute;quio, aterrorizado por essa persegui&ccedil;&atilde;o misteriosa,<br \/>\n    tomava provid&ecirc;ncias mais s&eacute;rias, os malfeitores suspendiam-na<br \/>\n    e se ocultavam. Reapareciam depois mais terr&iacute;veis e audaciosos. As<br \/>\n    primeiras perversidades, faziam-nas de noute, passaram a cometer crimes &agrave;<br \/>\n    luz do sol.<\/p>\n<p>Emboscados &agrave; beira da picada de comunica&ccedil;&atilde;o entre S.<br \/>\n    Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe e a morada de Eust&aacute;quio, viram aproximar-se<br \/>\n    um escravo deste. Vinha do povoado. Deixaram-no passar, mas esfaquearam-no<br \/>\n    pelas costas. No mesmo lugar assassinaram pouco tempo depois um pobre soldado<br \/>\n    de pol&iacute;cia.<\/p>\n<p>Na realiza&ccedil;&atilde;o deste &uacute;ltimo atentado perderam um companheiro.<br \/>\n    Esse fato f&ecirc;-los desanimar e voltar sua aten&ccedil;&atilde;o para empresas<br \/>\n    de menos perigos e mais proveitosas deixando o subdelegado em paz.<\/p>\n<p>S&oacute; dous anos, por&eacute;m, durou a tranq&uuml;ilidade para Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>Os negros j&aacute; quase dele se haviam esquecido. Viviam errantes, cometendo<br \/>\n    pequenos roubos em lugares distantes uns dos outros, para n&atilde;o despertarem<br \/>\n    desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p>Depois de uma das suas mais ricas colheitas, estavam eles um dia de manh&atilde;,<br \/>\n    reunidos no meio de uma floresta &uacute;mida e escura, onde a luz diurna,<br \/>\n    passando dificilmente a copa do arvoredo, difundia-se em duvidosos clar&otilde;es.<\/p>\n<p>Assentados em c&iacute;rculo, conversavam.<\/p>\n<p>Ouvi tanto falar em &iacute;ndios, dizia um, e entretanto ainda n&atilde;o<br \/>\n    vimos nem um s&oacute; deles.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; mesmo de pasmar, dizia outro. H&aacute; dous anos e tanto<br \/>\n    que n&oacute;s vagamos por esses matos sem encontrar essa gente.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o falemos em &iacute;ndios, notou depois um terceiro. Contam<br \/>\n    tantas hist&oacute;rias dos tais sujeitos que eu nem quero pensar neles. Deus<br \/>\n    nos livre. Se nos agarrassem, nos tomariam tudo e s&oacute; nos haviam de<br \/>\n    pagar com uns elogios ao gosto do nosso lombo.<\/p>\n<p>&#8212; Eles comem gente. N&atilde;o &eacute;? perguntou ingenuamente um<br \/>\n    negro velho, por n&atilde;o haver compreendido a frase do companheiro.<\/p>\n<p>&#8212; Comem, respondeu esse companheiro, que olhou de repente para tr&aacute;s,<br \/>\n    como se tivesse ouvido rumor suspeito.<\/p>\n<p>&#8212; E, se s&atilde;o &iacute;ndios que a&iacute; v&ecirc;m, podemos j&aacute;<br \/>\n    nos preparar, acrescentou ele, para darmos um passeio por suas tripas. Fica<br \/>\n    bem entendido que n&atilde;o entraremos inteirinhos.<\/p>\n<p>Apesar de estar gracejando, a voz do negro denunciava medo.<\/p>\n<p>&#8212; Que cousas est&aacute; voc&ecirc; dizendo? gritaram os outros. Onde<br \/>\n    viu &iacute;ndios, maluco?<\/p>\n<p>&#8212; Escutem, disse ele.<\/p>\n<p>Todos os negros se inclinaram para ouvirem melhor alguma cousa diferente<br \/>\n    do rumorejar do vento&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Iacute;ndios! &Iacute;ndios! bradou aterrado um deles, levantando-se.<br \/>\n    Os &iacute;ndios! ai est&atilde;o eles!<\/p>\n<p>Um ru&iacute;do de folhas secas, pisadas, assinalava claramente a aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de homens ou animais.<\/p>\n<p>Os negros se tinham erguido e j&aacute; se metiam pelo mato fugindo. Apareceram<br \/>\n    ent&atilde;o seis homens, saindo dentre dons matagais.<\/p>\n<p>&#8212; Por que fogem, medrosos? gritaram para os fugitivos. Somos amigos!<\/p>\n<p>Os pretos voltaram-se, apenas ouviram essas inesperadas palavras. Viram que<br \/>\n    os rec&eacute;m-chegados n&atilde;o eram &iacute;ndios. Eram indiv&iacute;duos<br \/>\n    de cor branca, mal vestidos mas perfeitamente armados.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tenham medo, continuaram os homens brancos, n&atilde;o<br \/>\n    somos inimigos de voc&ecirc;s.<\/p>\n<p>Os negros animaram-se a se chegar para eles. Pelo instinto de bandidos, adivinhavam<br \/>\n    que os tais homens n&atilde;o eram muito melhores do que os assassinos de<br \/>\n    um pobre fazendeiro. Assentaram-se pois como amigos sobre umas ra&iacute;zes,<br \/>\n    que se alongavam, estorcendo-se fora da terra, e travaram conversa.<\/p>\n<p>Um dos homens brancos, de barbas incultas, sobrancelhas grossas e de maneiras<br \/>\n    que indicavam o h&aacute;bito de mandar, encarregou-se de dizer que esp&eacute;cie<br \/>\n    de gente eram os seus companheiros e ele. Apesar da incorre&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua linguagem, uma mistura de espanhol com portugu&ecirc;s, deu a conhecer<br \/>\n    que eram espanh&oacute;is, residentes desde longa data no Equador e que finalmente<br \/>\n    se haviam passado para o Brasil, onde pretendiam continuar a cometer latroc&iacute;nios,<br \/>\n    sua &uacute;nica profiss&atilde;o naquela rep&uacute;blica. Disse mais que<br \/>\n    tinham estado durante alguns dias na povoa&ccedil;&atilde;o de S. Jo&atilde;o<br \/>\n    do Pr&iacute;ncipe e a&iacute; ouvido falar-se da exist&ecirc;ncia de uns<br \/>\n    escravos evadidos, aos quais eram atribu&iacute;dos v&aacute;rios crimes.<br \/>\n    Confessou francamente que, depois de saberem do &oacute;dio votado por esses<br \/>\n    escravos a um certo Eust&aacute;quio, homem de uma fortuna que, segundo se<br \/>\n    suspeitava, n&atilde;o era multo pequena, tomaram a resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de procur&aacute;-los para com eles assaltarem a casa do tal rica&ccedil;o.<br \/>\n    Terminou dizendo que julgavam estar diante dos amigos em cuja procura andavam,<br \/>\n    havia mais de vinte dias, e por isso ele, falando por si e pelos seus companheiros,<br \/>\n    de quem era chefe, propunha que, de ent&atilde;o em diante, negros e espanh&oacute;is<br \/>\n    s&oacute; operassem conjuntamente.<\/p>\n<p>Os escravos responderam declarando que eram eles realmente os criminosos<br \/>\n    evadidos a que se referiram os informadores dos espanh&oacute;is e contaram<br \/>\n    toda sua hist&oacute;ria, desde o dia do assassinato do fazendeiro at&eacute;<br \/>\n    o momento em que resolveram suspender a persegui&ccedil;&atilde;o de Eust&aacute;quio,<br \/>\n    porque temiam acabar como o companheiro, que fora morto por um policial do<br \/>\n    servi&ccedil;o do perseguido.<\/p>\n<p>&#8212; Que fracalh&otilde;es! exclamou ent&atilde;o o chefe dos espanh&oacute;is.<br \/>\n    Perdem um companheiro e, longe de o vingarem, fogem como covardes!<\/p>\n<p>&#8212; Porque ningu&eacute;m gosta de morrer, desculpou um negro.<\/p>\n<p>&#8212; Ora! Quem &eacute; esperto n&atilde;o morre como qualquer tolo. Sejam<br \/>\n    mais vivos e tratem de vingar o companheiro&#8230; Se quiserem tomar vingan&ccedil;a<br \/>\n    desse Eust&aacute;quio, que tanto mal lhes fez,&#8230; estamos prontos para os<br \/>\n    auxiliarmos.<\/p>\n<p>&#8212; Queremos, queremos! disseram a uma voz os negros.<\/p>\n<p>&#8212; Aceitam pois a minha proposta?<\/p>\n<p>&#8212; Aceitamos!<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, &eacute; neg&oacute;cio feito. De hoje em diante n&oacute;s,<br \/>\n    brancos, uniremos nossos esfor&ccedil;os para facilitarmos a vingan&ccedil;a<br \/>\n    que voc&ecirc;s desejam, e voc&ecirc;s, pretos, unir&atilde;o os seus para<br \/>\n    facilitarem a nossa pretens&atilde;o, isto &eacute; a posse do dinheiro do<br \/>\n    tal Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; bom lembrar, observou um negro sorrindo, que n&oacute;s<br \/>\n    n&atilde;o queremos unicamente nos vingar&#8230; alguma cousa mais n&atilde;o<br \/>\n    destruiria o prazer da vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Pois bem, gaguejou o chefe dos espanh&oacute;is, meio desconcertado<br \/>\n    e olhando de modo estranho para os patr&iacute;cios que riam-se, do que encontrarmos<br \/>\n    voc&ecirc;s ter&atilde;o uma parte.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; dito! disseram aos ladr&otilde;es do Equador os assassinos<br \/>\n    do Brasil, est&aacute; dito! Somos companheiros.<\/p>\n<p>Assim celebrou-se a alian&ccedil;a entre as duas quadrilhas.<\/p>\n<p>Exatamente quando nas florestas se tramava a sua perda, o honrado esposo<br \/>\n    de Branca, julgando-se em seguran&ccedil;a, entregava-se as suaves alegrias<br \/>\n    dom&eacute;sticas.<\/p>\n<p>Os bandidos deixaram passar-se algum tempo antes de tomarem uma resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    definitiva. Esperavam uma ocasi&atilde;o em que pudessem surpreender facilmente,<br \/>\n    a fam&iacute;lia de Eust&aacute;quio. Entretanto alguns espi&otilde;es vigiavam-lhe<br \/>\n    a casa, de dia e de noite.<\/p>\n<p>Um desses espi&otilde;es apresentou-se uma vez ao chefe dos espanh&oacute;is,<br \/>\n    que pouco a pouco se fizera chefe de todo o bando, e lhe disse:<\/p>\n<p>&#8212; Quase sempre, pela manh&atilde; eu vejo uma mo&ccedil;a e uma menina<br \/>\n    que saem da casa do nosso amigo e v&atilde;o passear, ou pela picada, ou pelo<br \/>\n    campo&#8230; Poderei eu dar-lhes algum tiro?<\/p>\n<p>O espi&atilde;o, que era um negro, fez essa pergunta sem mais emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que sentiria se estivesse pedindo permiss&atilde;o para matar um p&aacute;ssaro.<\/p>\n<p>&#8212; Nada, nada! respondeu-lhe o chefe. Vou dizer-te o que tens a fazer.<\/p>\n<p>&quot;Quando vires essa mo&ccedil;a e essa menina, tomar&aacute;s a tua faca&#8230;<br \/>\n    faca, repara bem&#8230; Nada de tiros barulhentos&#8230;<\/p>\n<p>&quot;Tomar&aacute;s a tua faca e dar&aacute;s cabo da mo&ccedil;a. Quanto<br \/>\n    &agrave; menina, tu h&aacute;s de agarr&aacute;-la e trazer-ma. Est&aacute;s<br \/>\n    ouvindo?&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Trazer para que? perguntou o negro, encarando de modo singular o<br \/>\n    seu chefe.<\/p>\n<p>&#8212; Para&#8230; N&atilde;o &eacute; da tua conta!<\/p>\n<p>&#8212; Ora, que esquisitice! Trazer aquele mosquitinho mi&uacute;do para<br \/>\n    o senhor!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o fa&ccedil;as observa&ccedil;&otilde;es! gritou o chefe.<br \/>\n    H&aacute;s de trazer-ma! Entendes? &Eacute; o que ordeno.<\/p>\n<p>&#8212; Bem, custa pouco. Amanh&atilde; mesmo a menina estar&aacute; aqui.<\/p>\n<p>Apenas o negro acabou de fazer esta promessa, uma risada ir&ocirc;nica ressoou<br \/>\n    por tr&aacute;s de um agrupamento de arbustos.<\/p>\n<p>O espanhol ouviu-a, julgou, por&eacute;m, que fosse a gargalhada de algum<br \/>\n    d&oacute;s seus companheiros, que conversavam a pouca dist&acirc;ncia dele.<\/p>\n<p>No dia imediato ao desse col&oacute;quio Branca e Rosalina foram assaltadas<br \/>\n    na picada e, como j&aacute; referimos, salvas por um bra&ccedil;o oculto.<\/p>\n<p>Quando deram-lhe a not&iacute;cia da morte do negro encarregado de arrebatar<br \/>\n    a protegida de Eust&aacute;quio, o chefe da quadrilha fez apenas com os ombros<br \/>\n    um movimento que dizia:<\/p>\n<p>&#8212; Que me importa?<\/p>\n<p>Depois acrescentou:<\/p>\n<p>&#8212; Poltr&atilde;o! Deixou-se matar por uma mulher!<\/p>\n<p>Acreditava que tivesse sido Branca a autora da morte.<\/p>\n<p>O bandido n&atilde;o possu&iacute;a a virtude de F&aacute;bio. Conhecendo<br \/>\n    por&eacute;m que o perigo de que Branca e Rosalina haviam escapado devia ter<br \/>\n    despertado a vigil&acirc;ncia de Eust&aacute;quio, adiou a luta que pretendia<br \/>\n    desde logo romper.<\/p>\n<p>Tratou contudo de ativar as disposi&ccedil;&otilde;es para ela.<\/p>\n<p>Mandou mudar o acampamento do seu bando para um lugar menos afastado do alvo<br \/>\n    dos seus des&iacute;gnios.<\/p>\n<p>Nesse novo acampamento reconheceram os bandidos que, espiavam a morada de<br \/>\n    Eust&aacute;quio, e eram por seu turno espiados.<\/p>\n<p>Por quem? Esta pergunta faziam eles a si, sem encontrar resposta.<\/p>\n<p>Tinham por vezes descoberto pegadas na lama, e nos galhos sinais patentes<br \/>\n    de que uma pessoa estivera sobre eles. Tinham at&eacute; lobrigado ao clar&atilde;o<br \/>\n    da lua um vulto fugitivo, que inutilmente perseguiam. N&atilde;o passava por&eacute;m<br \/>\n    disso o conhecimento que tinham de quem os espreitava. Estavam entretanto<br \/>\n    convencidos de que o espi&atilde;o n&atilde;o era pessoa da fam&iacute;lia<br \/>\n    de Eust&aacute;quio, pois que, nas noutes em que avistavam a sombra fugitiva,<br \/>\n    ningu&eacute;m sa&iacute;ra da casa do perseguido, como afirmavam os negros<br \/>\n    que a vigiavam constantemente.<\/p>\n<p>Al&eacute;m do que, sempre que os malfeitores iam no encal&ccedil;o de tal<br \/>\n    sombra, viam-na refugiar-se na povoa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Passaram-se duas semanas depois da tentativa de que Branca e Rosalina foram<br \/>\n    v&iacute;timas. O chefe dos malfeitores julgava que era j&aacute; tempo de<br \/>\n    realizar os crimes que lhe ferviam na imagina&ccedil;&atilde;o pervertida.<\/p>\n<p>Reuniu, ent&atilde;o, os companheiros, n&atilde;o para comunicar-lhes a resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que tomara de atacar sem mais demora a casa de Eust&aacute;quio, porque j&aacute;<br \/>\n    o fizera dias antes, mas para dizer-lhes o que cumpria cada um fazer.<\/p>\n<p>O bandido apresentou-se diante dos seus subordinados com ar inquieto. Havia<br \/>\n    notado que entre eles n&atilde;o estava um espanhol em quem n&atilde;o depositava<br \/>\n    confian&ccedil;a e que sempre recalcitrara &agrave;s suas determina&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>A aus&ecirc;ncia desse homem n&atilde;o lhe era desagrad&aacute;vel, supunha<br \/>\n    por&eacute;m que o recalcitrante n&atilde;o aparecendo tinha alguma inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que ele n&atilde;o conhecia. Por essa raz&atilde;o, as primeiras palavras<br \/>\n    que dirigiu aos malfeitores foram para perguntar se algum deles sabia qual<br \/>\n    o motivo por que n&atilde;o estava presente o tal espanhol.<\/p>\n<p>&Agrave; interroga&ccedil;&atilde;o ningu&eacute;m respondeu. Tr&ecirc;s<br \/>\n    negros por&eacute;m abaixaram os olhos e n&atilde;o conseguiram mais levant&aacute;-los.<\/p>\n<p>O chefe repetiu a pergunta, lan&ccedil;ando a esses tr&ecirc;s negros olhares<br \/>\n    furibundos.<\/p>\n<p>Os miser&aacute;veis tremeram e quase desfaleceram quando nessa ocasi&atilde;o<br \/>\n    ouviram a voz de um dos outros negros.<\/p>\n<p>&#8212; Eu, se o senhor m&#8217;o consente, dizia ele com timidez humilde, posso&#8230;<\/p>\n<p>Os tr&ecirc;s bandidos que pareciam r&eacute;us perante o juiz quiseram prostrar-se<br \/>\n    aos p&eacute;s do que falava e rogar-lhe que se calasse, o chefe por&eacute;m<br \/>\n    bradou-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se movam!<\/p>\n<p>&#8212; Posso, continuou o que falava, dizer-lhe alguma cousa que explica<br \/>\n    a aus&ecirc;ncia do branco.<\/p>\n<p>&#8212; Dize! Dize!<\/p>\n<p>&#8212; Estes meus tr&ecirc;s parceiros, principiou ele pausadamente e estendendo<br \/>\n    a m&atilde;o para os negros cabisbaixos, me disseram, muito em segredo, que,<br \/>\n    anteontem &agrave; noute, um dos brancos (os espanh&oacute;is) pediu-lhes<br \/>\n    que fossem com ele &agrave; casa do nosso rico amigo, porque, desejando pregar<br \/>\n    uma pe&ccedil;a ao senhor, precisava de auxiliares resolutos&#8230;<\/p>\n<p>Tais palavras vieram aumentar os temores do chefe, que via com medo os tr&ecirc;s<br \/>\n    negros aterrados, como se receassem o castigo de alguma grande culpa.<\/p>\n<p>&#8212; Talvez os desgra&ccedil;ados me tenham tra&iacute;do, pensou ele.<\/p>\n<p>&#8212; Continua, falou ao denunciante.<\/p>\n<p>&#8212; Os meus parceiros anu&iacute;ram ao pedido e, ontem pela manh&atilde;,<br \/>\n    foram com efeito &agrave; tal casa, e com eles o branco. Enquanto este, penetrando<br \/>\n    no cercado, se aproximava de uma das janelas da habita&ccedil;&atilde;o, os<br \/>\n    parceiros, do lado de fora, se preparavam para prestarem-lhe socorro, caso<br \/>\n    fosse preciso. Na janela estava aquela menina que o senhor quer que se traga<br \/>\n    para aqui. O branco pretendia mat&aacute;-la. Tal seria a pe&ccedil;a pregada<br \/>\n    ao senhor, que tem sempre proibido que ofendamos a sua pequenita.<\/p>\n<p>&#8212; E matou-a? exclamou o chefe, avan&ccedil;ando com os punhos fechados<br \/>\n    para os tr&ecirc;s negros culpados de cumplicidade. E matou-a miser&aacute;vel?<\/p>\n<p>&#8212; Qual! respondeu o denunciante, deixando um pouco o tom de voz humilde.<br \/>\n    Qual! N&atilde;o matou-a n&atilde;o! Ele &eacute; que ficou com os miolos<br \/>\n    furados&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que dizes?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &#8230; por um tiro. Sim, ele &eacute; que foi morto.<\/p>\n<p>&#8212; E quem deu o tiro?<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute; &eacute; que h&aacute; um mist&eacute;rio. Os meus parceiros<br \/>\n    s&oacute; ouviram um estrondo que os fez fugir, deixando estirado o branco.<\/p>\n<p>O chefe da quadrilha, cujos receios haviam desaparecido completamente, sentiu<br \/>\n    grande j&uacute;bilo sabendo que estava livre daquele inc&ocirc;modo companheiro,<br \/>\n    contudo ocultou o prazer e voltou-se para os tr&ecirc;s criminosos de infidelidade,<br \/>\n    fingindo-se irado.<\/p>\n<p>&#8212; Infames, exclamou, o maior culpado j&aacute; foi punido como merecia,<br \/>\n    voc&ecirc;s ainda n&atilde;o. Eu devia mat&aacute;-los agora mesmo, por&eacute;m<br \/>\n    quero perdo&aacute;-los. Perd&ocirc;o, mas &agrave; primeira falta que cometerem<br \/>\n    fa&ccedil;o-os em migalhas!<\/p>\n<p>O bandido perdoava porque n&atilde;o julgava muito prudente dizimar o seu<br \/>\n    bando.<\/p>\n<p>Apesar de haver concedido perd&atilde;o aos tr&ecirc;s negros, n&atilde;o<br \/>\n    moderara o seu furor fingido. O astucioso espanhol conhecia que os malfeitores<br \/>\n    estavam impressionados com a atitude do chefe, e, para tirar partido da impress&atilde;o<br \/>\n    que causava, n&atilde;o quis mostrar-se indiferente &agrave; falta de lealdade<br \/>\n    dos tr&ecirc;s negros.<\/p>\n<p>Preparava a sua gente para receber ordens desp&oacute;ticas com estrondosas<br \/>\n    repreens&otilde;es e espantosas amea&ccedil;as. Espanh&oacute;is e negros<br \/>\n    se curvaram tr&ecirc;mulos diante do chefe.<\/p>\n<p>Este falou:<\/p>\n<p>&#8212; Amanh&atilde;, como j&aacute; esta determinado, tentaremos a a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    decisiva contra o amigo que, h&aacute; tanto tempo, nos traz atarefados. &Eacute;<br \/>\n    verdade que o meu miser&aacute;vel patr&iacute;cio, que o diabo tenha, necessariamente<br \/>\n    despertou a vigil&acirc;ncia do homem, mas este fato, que devera me fazer<br \/>\n    adiar o assalto para outra ocasi&atilde;o, vindo contrariar-nos, n&atilde;o<br \/>\n    vem sen&atilde;o favorecer um plano que concebi. Realmente: o nosso amigo<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; t&atilde;o corajoso que, vendo-se amea&ccedil;ado, n&atilde;o<br \/>\n    trate logo de tomar precau&ccedil;&otilde;es. Dessas precau&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    uma ser&aacute; por certo o engajamento de defensores, servi&ccedil;o de que<br \/>\n    deve ser encarregado o padreco da povoa&ccedil;&atilde;o, como j&aacute; o<br \/>\n    foi uma ou duas vezes. Pois bem, se voc&ecirc;s&#8230;<\/p>\n<p>O chefe indicou os seus compatriotas.<\/p>\n<p>&#8212; &#8230; forem, disfar&ccedil;ados em trabalhadores, oferecer servi&ccedil;os<br \/>\n    ao padre, acredito que ele os engajar&aacute; para defensores de seu medroso<br \/>\n    amigo.<\/p>\n<p>&quot;Introduzidos na casa do homem, voc&ecirc;s n&atilde;o far&atilde;o<br \/>\n    mais do que esperar pelo meu assobio, que conhecem, para come&ccedil;arem<br \/>\n    a luta, distraindo o rica&ccedil;o, enquanto eu e os negros, invadindo a habita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    fizermos a colheita. &Eacute; esse o meu plano. E, como, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    o nosso amigo est&aacute; assustado por causa da tentativa feita contra a<br \/>\n    pequenita, julgo que &eacute; este o mais acertado e de mais prov&aacute;vel<br \/>\n    bom &ecirc;xito. Amanh&atilde; pois, voc&ecirc;s entrar&atilde;o de madrugada<br \/>\n    no povoado para depois se apresentarem ao padre. Se ele os n&atilde;o aceitar,<br \/>\n    voltar&atilde;o a ter comigo, no caso contr&aacute;rio, cuidar&atilde;o somente<br \/>\n    em representar bem o seu papel. Por conseguinte, se voc&ecirc;s n&atilde;o<br \/>\n    aparecerem, estarei certo de haver vencido a primeira e &uacute;nica dificuldade.&quot;<\/p>\n<p>O espanhol estava convencido de que os seus patr&iacute;cios tinham interesse<br \/>\n    em ser guiados por ele e por essa raz&atilde;o, n&atilde;o receando que o<br \/>\n    tra&iacute;ssem, terminou dizendo apenas:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; in&uacute;til acrescentar que serei desapiedado para com<br \/>\n    os covardes. Nunca se esque&ccedil;am disto:<\/p>\n<p>&quot;Aquele que n&atilde;o cumprir o seu dever&#8230; queim&aacute;-lo-ei vivo!&quot;<\/p>\n<p>Esta amea&ccedil;a pavorosa foi abafar a &uacute;ltima centelha de liberdade<br \/>\n    que porventura restava nos &acirc;nimos escravos de todos que a ouviram. Esses<br \/>\n    miser&aacute;veis podiam juntos esmagar o infame que os dominava; mas cada<br \/>\n    um deles, n&atilde;o contando com o apoio dos companheiros, n&atilde;o tinha<br \/>\n    coragem de ser o primeiro a resistir. Os espanh&oacute;is, a quem o chefe<br \/>\n    confiara a parte mais perigosa da empresa, n&atilde;o ousaram fazer a menor<br \/>\n    observa&ccedil;&atilde;o &agrave;s ordens do superior. Os negros s&oacute;<br \/>\n    tiveram palavras de aplauso.<\/p>\n<p>O chefe conhecia bem a sua gente.<\/p>\n<p>Quando os bandidos se dispersaram j&aacute; o crep&uacute;sculo ia se mudando<br \/>\n    em noute.<\/p>\n<p>Depois de engolirem alguma carne mal cozida e ervas quase cruas, enrolaram-se<br \/>\n    eles em capas e estenderam-se na relva &uacute;mida, deixando a postos duas<br \/>\n    sentinelas. Estas sentinelas eram dons negros, pai e filho, que lan&ccedil;aram<br \/>\n    fogo a um monte de lenha, algum tanto molhada pela chuva que ca&iacute;ra<br \/>\n    de dia, e come&ccedil;aram a prestar aten&ccedil;&atilde;o aos ru&iacute;dos<br \/>\n    da noite.<\/p>\n<p>Um vento fresco sibilava atrav&eacute;s das &aacute;rvores. Agitando a ramagem<br \/>\n    fazia cair uma infinidade de pingos d&#8217;&aacute;gua que a chuva depositara nas<br \/>\n    folhas e curvava as chamas que principiavam a abrasar o monte de lenha.<\/p>\n<p>O negro mais velho aproximou-se do fogo e assentou-se. Meio aquecido, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a dormitar, ao passo que o filho continuava a escutar o barulho da vira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    noturna.<\/p>\n<p>Passadas duas ou tr&ecirc;s horas, ouviu este um rumor interrompido&#8230; uniforme,<br \/>\n    como se fora o caminhar receoso de alguma pessoa sobre as folhas molhadas.<\/p>\n<p>Por um momento a sentinela lembrou-se do desconhecido que costumava espiar<br \/>\n    o acampamento. O barulho, por&eacute;m, cessou e o negro, nada mais percebendo,<br \/>\n    acreditou ter ouvido apenas os passos de alguma fera, que a fogueira acabava<br \/>\n    de afugentar, e esqueceu-se do rumor para se divertir com o cabecear do companheiro<br \/>\n    que dormia assentado&#8230;<\/p>\n<p>J&aacute; se avizinhavam as primeiras horas da manh&atilde; quando o negro<br \/>\n    mais mo&ccedil;o resolveu acordar seu pai. Seguiu-se ent&atilde;o a cena que<br \/>\n    Eust&aacute;quio e os seus homens assistiram do alto da castanheira que nessa<br \/>\n    ocasi&atilde;o ocupavam.<\/p>\n<p>Como narramos em um dos precedentes cap&iacute;tulos, o estalido da espingarda<br \/>\n    de um dos paraenses denunciou a presen&ccedil;a dos exploradores no acampamento<br \/>\n    dos bandidos, cujo chefe foi despertado pelo grito da sentinela. Como tamb&eacute;m<br \/>\n    ficou narrado, o chefe ordenou que fossem examinadas as circunvizinhan&ccedil;as<br \/>\n    da clareira e o alto do arvoredo.<\/p>\n<p>Iam os dous negros trepando pelo tronco de uma &aacute;rvore, mas desceram<br \/>\n    logo e se precipitaram na clareira, gritando:<\/p>\n<p>&#8212; O espi&atilde;o! o espi&atilde;o! Vai fugindo por ali!<\/p>\n<p>Estendiam a m&atilde;o na dire&ccedil;&atilde;o do povoado de S. Jo&atilde;o<br \/>\n    do Pr&iacute;ncipe. Tinham ouvido os passos dos exploradores que fugiam.<\/p>\n<p>&#8212; Hoje temo-lo seguro! exclamou o chefe.<\/p>\n<p>Em um instante ergueram-se todos os malfeitores, acenderam alguns fachos<br \/>\n    e com eles lan&ccedil;aram-se na pista do espi&atilde;o assinalado pelas sentinelas,<br \/>\n    indo a frente o chefe. Conquanto a essa hora a lua em minguante estivesse<br \/>\n    ainda muito acima do horizonte nenhuma claridade havia na floresta que n&atilde;o<br \/>\n    fosse a dos &uacute;ltimos ti&ccedil;&otilde;es da fogueira. Logo que as balsas<br \/>\n    a encobriram, apenas os fachos dos bandidos deixaram-lhes ver o caminho.<\/p>\n<p>A persegui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o durou muito tempo. O chefe conheceu<br \/>\n    que o suposto espi&atilde;o ia escapar-lhe mais uma vez, refugiando-se na<br \/>\n    povoa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Voltemos, disse ele.<\/p>\n<p>E a quadrilha voltou para o acampamento.<\/p>\n<p>Os quatro espanh&oacute;is que estavam incumbidos de oferecer servi&ccedil;os<br \/>\n    ao padre Jorge receberam do chefe as &uacute;ltimas instru&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e, tomando ferramentas de lavoura, partiram apressadamente para o povoado&#8230;<\/p>\n<p>Um luar fraco insinuava-se por entre a habita&ccedil;&atilde;o de S. Jo&atilde;o<br \/>\n    do Pr&iacute;ncipe e cobria de l&iacute;vidas tintas o ch&atilde;o das vielas.<br \/>\n    Os bandidos transpuseram algumas habita&ccedil;&otilde;es e pararam.<\/p>\n<p>&#8212; Ou&ccedil;o vozes, disse ent&atilde;o um deles.<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; gente no largo, afirmou outro.<\/p>\n<p>&#8212; Precau&ccedil;&atilde;o! disse um terceiro.<\/p>\n<p>E prosseguiu, abafando a voz, como haviam feito os seus companheiros:<\/p>\n<p>&#8212; Passemos adiante como pac&iacute;ficos lavradores, que se levantaram<br \/>\n    cedo e v&atilde;o ao campo.<\/p>\n<p>Os malfeitores continuaram a atravessar o povoado e chegaram ao largo. A&iacute;<br \/>\n    viram v&aacute;rias pessoas que caminhavam no mesmo sentido que eles.<\/p>\n<p>No meio delas estava o padre Jorge, que eles conheciam. Os espanh&oacute;is<br \/>\n    o cumprimentaram. Em seguida, reconhecendo Eust&aacute;quio no meio do grupo,<br \/>\n    saudaram-no da mesma forma.<\/p>\n<p>Quando iam sair pelo lado oposto da povoa&ccedil;&atilde;o, o padre Jorge<br \/>\n    os chamou e disse-lhes:<\/p>\n<p>&#8212; Meus amigos, bem vejo que sois homens do campo, mas creio que apesar<br \/>\n    disso sabeis descarregar uma espingarda. Temos necessidade de companheiros<br \/>\n    valentes para repelir alguns salteadores. Quereis unir-vos a n&oacute;s?<\/p>\n<p>Os malfeitores disfar&ccedil;ados ficaram mudos e indecisos.<\/p>\n<p>O amigo de Eust&aacute;quio viu-os se olharem entre si.<\/p>\n<p>O acaso, tantas vezes favor&aacute;vel aos malvados, vinha de tal modo simplificar-lhes<br \/>\n    a miss&atilde;o que eles estavam estupefactos.<\/p>\n<p>&#8212; Se &eacute; por medo que hesitais, disse o padre Jorge, nada&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o senhor, interrompeu com vivacidade um dos bandidos, que conheceu<br \/>\n    que deviam aproveitar o ensejo. N&atilde;o hesitamos! Ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    aceitamos com prazer a vossa proposta, pois estamos certos de que a remunera&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ser&aacute; generosa, terminou o padre Jorge.<\/p>\n<p>Estas palavras e um r&aacute;pido ajuste fecharam neg&oacute;cio e os bandidos<br \/>\n    acompanharam hipocritamente aqueles que em breve deviam ver-lhes as verdadeiras<br \/>\n    fisionomias.<\/p>\n<p>O padre Jorge havia reparado no sotaque da voz do indiv&iacute;duo com quem<br \/>\n    tratara o engajamento; todavia n&atilde;o teve desconfian&ccedil;as. No povoado<br \/>\n    &agrave;s vezes apareciam estrangeiros e muitos deles at&eacute; se demoravam,<br \/>\n    tomando parte nos trabalhos de extra&ccedil;&atilde;o da borracha que iam<br \/>\n    depois vender no Par&aacute;.<\/p>\n<p>No seu acampamento, o chefe da quadrilha exultava de contentamento, vendo<br \/>\n    que os seus enviados n&atilde;o voltavam. Para ficar convencido do bom &ecirc;xito<br \/>\n    da primeira parte da sua malvada empresa, resolveu deixar o ataque para a<br \/>\n    tarde.<\/p>\n<p>Ao meio-dia reuniu os cinco pretos e, com a &aacute;spera secura que lhe<br \/>\n    era habitual e o tom feroz de que usava quando queria impor obedi&ecirc;ncia,<br \/>\n    lhes disse:<\/p>\n<p>&#8212; Cumpram cegamente o que eu mandar fazer.<\/p>\n<p>E, dirigindo-se particularmente a um deles, acrescentou:<\/p>\n<p>&#8212; Jos&eacute; n&atilde;o te esque&ccedil;as da minha pequenita.<\/p>\n<p>O bandido n&atilde;o repetiu aos negros a promessa que lhe fizera relativamente<br \/>\n    aos lucros da opera&ccedil;&atilde;o que iam tentar, mas apenas algumas amea&ccedil;as,<br \/>\n    e, seguido por eles, encaminhou-se para a habita&ccedil;&atilde;o de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>Em caminho, aquele a cujos cuidados o chefe confiara a sua pequenita, com<br \/>\n    repugnante alegria, segredou aos companheiros:<\/p>\n<p>&#8212; At&eacute; que afinal chegou o dia da vingan&ccedil;a!<\/p>\n<p>&#8212; De que nos vamos vingar, meu filho? perguntou-lhe um negro j&aacute;<br \/>\n    velho.<\/p>\n<p>O filho respondeu-lhe com um arrega&ccedil;amento desdenhoso dos bei&ccedil;os.<\/p>\n<p>Quando avistaram as pali&ccedil;adas da habita&ccedil;&atilde;o que buscavam,<br \/>\n    os malfeitores se ocultaram no mato e esperaram&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"13\">Cap&iacute;tulo XIII: Quem persegue, quem defende<\/a><\/h4>\n<p>A manh&atilde; estava triste. O sol empanado subia do nascente, clareando<br \/>\n    a paisagem com uns raios t&iacute;midos atirados de vez em quando por entre<br \/>\n    as nuvens que voavam, ora rasgadas em estreitas fitas, ora distendidas em<br \/>\n    amplos len&ccedil;&oacute;is. Por sobre os p&iacute;ncaros arredondados das<br \/>\n    montanhas resvalavam massas de nevoeiro at&eacute; se deixarem cair lento<br \/>\n    a lento pelas quebradas. Por toda a parte reinava o sil&ecirc;ncio. Somente<br \/>\n    depois de longos intervalos ouvia-se o gemer da floresta a&ccedil;outada por<br \/>\n    um golpe passageiro de vento, ou grito repetido de alguma ave perdida no mato.<\/p>\n<p>Triste como a manh&atilde;, muda como a paisagem estava a morada de Eust&aacute;quio.<br \/>\n    Por cima dela pairava alguma cousa de sinistro.<\/p>\n<p>Em torno da habita&ccedil;&atilde;o, Ruperto e os engajados permaneciam firmes<br \/>\n    nos seus postos. Os espanh&oacute;is disfar&ccedil;ados trocavam de tempos<br \/>\n    a tempos gestos suspeitos, que aos seus companheiros incautos passavam desapercebidos.<\/p>\n<p>Na sala principal via-se o esposo de Branca. Dormitava sobre um sof&aacute;.<br \/>\n    As fadigas da v&eacute;spera haviam-no acabrunhado. Ao seu lado via-se o padre<br \/>\n    Jorge. Recostado, com a cabe&ccedil;a pendida para tr&aacute;s, o sacerdote<br \/>\n    fitava um ponto do teto, onde via redemoinhando o turbilh&atilde;o das sombras<br \/>\n    criadas pelo seu meditar. Na alcova do fundo achavam-se Branca e Rosalina.<br \/>\n    A jovem, debru&ccedil;ada sobre a cabeceira do ber&ccedil;o do filhinho, contemplava<br \/>\n    com amor a crian&ccedil;a adormecida, cujo bafejo t&eacute;pido vinha-lhe<br \/>\n    at&eacute; o rosto. Rosalina, com a cabe&ccedil;a descansada sobre o ombro<br \/>\n    de Branca, olhava distraidamente para as roseiras. Atrav&eacute;s da vidra&ccedil;a,<br \/>\n    os arbustos mostravam-lhe algumas belas flores, que um &uacute;ltimo chuveiro<br \/>\n    deixara aljofaradas de diamantinas gotas&#8230;<\/p>\n<p>As horas corriam, cousa alguma, por&eacute;m, indicava aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de inimigos&#8230;<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio foi o primeiro que se moveu. Ergueu-se do lugar que ocupava<br \/>\n    e aproximou-se de uma janela. Olhou por cima da pali&ccedil;ada para a montanha<br \/>\n    e depois, voltando-se para o padre Jorge, disse:<\/p>\n<p>&#8212; Parece-me que os meus inimigos adivinharam que me preparei para receb&ecirc;-los&#8230;<br \/>\n    Est&atilde;o se demorando tanto&#8230; Teriam eles mudado de resolu&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>O padre n&atilde;o deu resposta, mas, fazendo um movimento como quem &eacute;<br \/>\n    bruscamente despertado, endireitou-se e por sua vez falou:<\/p>\n<p>&#8212; Eust&aacute;quio, nunca me disseste quem s&atilde;o os indiv&iacute;duos<br \/>\n    que te perseguem h&aacute; tanto tempo&#8230; Porventura n&atilde;o os conheces?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade&#8230; porque n&atilde;o os conhecia, agora por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ouvi-me.<\/p>\n<p>&quot;Como bem vos lembrais, quando eu ainda era subdelegado, uma escrava<br \/>\n    trouxe ao meu conhecimento a not&iacute;cia de um crime horroroso&#8230; aqueles<br \/>\n    assassinatos&#8230;&quot;<\/p>\n<p>O padre Jorge abaixou a cabe&ccedil;a mostrando que sabia a que fato se referira<br \/>\n    o amigo.<\/p>\n<p>&#8212; Os criminosos eram sete negros, prosseguiu Eust&aacute;quio. Eu os<br \/>\n    prendi, por&eacute;m os tratantes se evadiram.<\/p>\n<p>&quot;Ent&atilde;o teve princ&iacute;pio uma cruel persegui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    contra mim, e Branca, que pouco sabia das minhas ocupa&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    subdelegado, mostrou-se receosa de uma correria de &iacute;ndios. Eu, por&eacute;m,<br \/>\n    lembrei-me logo dos negros evadidos; contudo, n&atilde;o acreditando que os<br \/>\n    quilombolas tivessem motivos para me odiar, embora eu houvesse usado de viol&ecirc;ncia<br \/>\n    para prend&ecirc;-los, participei dos receios de Branca. O tempo veio mostrar<br \/>\n    que eram infundadas as nossas apreens&otilde;es, e ficamos crentes de que<br \/>\n    &eacute;ramos perseguidos por algum desses velhacos que n&atilde;o amam muito<br \/>\n    a pol&iacute;cia zelosa.<\/p>\n<p>&quot;Estava eu, pois, quase convencido de que os negros fugidos n&atilde;o<br \/>\n    eram os meus perseguidores, quando, depois do assassinato de um dos policiais<br \/>\n    que me serviam, deparei com um cad&aacute;ver que pareceu-me ser de um dos<br \/>\n    tais negros. As minhas primitivas suspeitas renasceram; mas, eu, incerto ainda,<br \/>\n    guardei-as comigo&#8230; Depois daqueles doas anos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sim, completou o padre Jorge, daqueles dous anos de sossego.<\/p>\n<p>&#8212; Os meus inimigos, prosseguiu o marido de Branca, se manifestaram<br \/>\n    de novo. H&aacute; menos de tr&ecirc;s semanas, Branca e Rosalina&#8230; e ante-ontem<br \/>\n    esta menina pela segunda vez&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Eu sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bem, com os meus inimigos apareceu ultimamente um devotado defensor<br \/>\n    da minha causa e esse defensor, quando, na picada, salvou a Branca e a Rosalina,<br \/>\n    matou um negro, que eu n&atilde;o vi&#8230;, mas quem era poss&iacute;vel que<br \/>\n    ele fosse?&#8230; Mais um fato a justificar as minhas desconfian&ccedil;as. Entretanto&#8230;<br \/>\n    ante-ontem o golpe do meu protetor n&atilde;o abateu um negro&#8230; mas um branco.<\/p>\n<p>&quot;Fiquei nadando em um mar de d&uacute;vidas. Senti o meu esp&iacute;rito<br \/>\n    se revoltar. Que culpa pretendiam fazer-me expiar? Quem eram os infames que<br \/>\n    me perseguiam? Tive a id&eacute;ia de ir procur&aacute;-los. O aviso, de que<br \/>\n    vos falei hoje, me decidiu&#8230; eu partir e&#8230; tenho agora a solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da quest&atilde;o.<\/p>\n<p>&quot;V&oacute;s me perguntastes se eu n&atilde;o os conhecia. Conhe&ccedil;o-os,<br \/>\n    s&atilde;o aqueles perversos que escaparam das m&atilde;os da pol&iacute;cia,<br \/>\n    h&aacute; pouco mais de dous anos, e outros que a eles se uniram pelo interesse<br \/>\n    &uacute;nico que pode ligar dous bandos de salteadores&#8230; S&atilde;o uns miser&aacute;veis!<br \/>\n    Uns miser&aacute;veis, que, v&oacute;s o sabeis, t&ecirc;m inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de roubar-me, assassinar-nos a mim e a Branca e de&#8230;&quot;<\/p>\n<p>O padre Jorge, tapando com os dedos a boca do amigo, n&atilde;o o deixou<br \/>\n    acabar. Rosalina estava perto.<\/p>\n<p>Alguns segundos de sil&ecirc;ncio seguiram-se &agrave;s &uacute;ltimas palavras<br \/>\n    de Eust&aacute;quio. Depois o padre Jorge, inclinando a cabe&ccedil;a para<br \/>\n    o peito, recaiu nas suas medita&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo, tudo, disse ent&atilde;o Eust&aacute;quio, suspirando, tudo<br \/>\n    se esclarece, exceto o mist&eacute;rio que encobre o meu protetor!&#8230;<\/p>\n<p>O padre Jorge, com a cabe&ccedil;a ca&iacute;da, olhou para o amigo por dos<br \/>\n    &oacute;culos, e um sorriso expressivo correu-lhe pelo rosto.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio, que n&atilde;o arredara os olhos do sacerdote, exclamou:<\/p>\n<p>&#8212; Padre Jorge, v&oacute;s conheceis!&#8230; Dizei-me quem &eacute; por<br \/>\n    favor!&#8230; Quem &eacute; esse ente misterioso que me tem protegido com tanto<br \/>\n    desinteresse. Debalde procuro na minha mem&oacute;ria alguma cousa&#8230; Uma<br \/>\n    boa a&ccedil;&atilde;o, que me houvesse granjeado o merecimento de uma dedica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    como a que ele tem testemunhado&#8230;<\/p>\n<p>Nessa ocasi&atilde;o Branca e Rosalina sa&iacute;am da alcova abra&ccedil;adas.<\/p>\n<p>O padre Jorge, indicando a menina, disse:<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;s vendo aquela crian&ccedil;a?&#8230; Deus n&atilde;o esquece<br \/>\n    os atos de caridade.<\/p>\n<p>&#8212; Explicai-vos, disse Eust&aacute;quio. Rosalina&#8230; A que aludis?&#8230;<br \/>\n    Eu amparei-a, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Deus o viu&#8230; &Eacute; por ela que algu&eacute;m te protege.<\/p>\n<p>&#8212; Padre Jorge, n&atilde;o sei quem&#8230;<\/p>\n<p>Branca e Rosalina se tinham aproximado. Eust&aacute;quio atraiu a si a menina,<br \/>\n    passou-lhe carinhosamente a m&atilde;o pelos lindos cabelos negros e beijou-lhe<br \/>\n    a fronte. Rosalina sorrindo voltou o rosto com ademanes de pombinho. Depois,<br \/>\n    ouvindo Eust&aacute;quio falar, ergueu para ele os olhos redondos que lhe<br \/>\n    brilhavam no moreno fugitivo do semblante.<\/p>\n<p>&#8212; Por ventura, dizia ele, seu pai&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Meu pai?! gritou ela de repente. Est&aacute; vivo! oh!&#8230; ent&atilde;o<br \/>\n    tenho dous pais para amar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Coitadinha murmurou o padre Jorge, vendo a alegria que se apossara<br \/>\n    de Rosalina.<\/p>\n<p>&#8212; Eust&aacute;quio, continuou ele, tu desejas saber quem 6 que te tem<br \/>\n    defendido&#8230; vou dizer-to; por&eacute;m h&aacute;s de prometer-me uma cousa:<br \/>\n    n&atilde;o procurar o teu defensor e esperar paciente que ele de modo pr&oacute;prio<br \/>\n    se apresente.<\/p>\n<p>&#8212; Prometo!<\/p>\n<p>&#8212; Tenho a tua palavra&#8230; Vou falar&#8230;<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio, Branca e Rosalina chegaram-se para o padre e esperaram<br \/>\n    com ansiosa curiosidade que ele falasse.<\/p>\n<p>&#8212; Na noute de 13 deste m&ecirc;s, come&ccedil;ou ele, o calor que fazia<br \/>\n    n&atilde;o me deixava conciliar o sono. Eu levantei-me pelas onze horas e<br \/>\n    sa&iacute; da casa. em busca de ar fresco. Pus-me a vagar pelas vizinhan&ccedil;as<br \/>\n    da minha morada. Alguns minutos depois ouvi um rumor estranho. &Agrave;quela<br \/>\n    hora a noute estrelada ainda carecia de lua, mas n&atilde;o estava escura.<br \/>\n    Eu vi um vulto passar correndo a alguns passos de dist&acirc;ncia do lugar<br \/>\n    onde eu estava. Quem seria? Acabava ele de entrar na povoa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ou ia sair dela?<\/p>\n<p>&quot;Com a curiosidade despertada, eu encaminhei-me r&aacute;pido para a<br \/>\n    viela onde vira o vulto desaparecer. Avistei-o ainda andando depressa e voltando<br \/>\n    repetidas vezes a cabe&ccedil;a. Ele deu com a minha presen&ccedil;a, pois<br \/>\n    que, afrouxando os passos, saudou-me:<\/p>\n<p>&quot;- Boa noute, senhor padre.<\/p>\n<p>&quot;Eu conheci-lhe a voz.<\/p>\n<p>&quot;- Boa noute, meu filho, respondi.<\/p>\n<p>&quot;E, admirado de ver o menino a tais horas fora de casa, continuei:<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; passeando&#8230; N&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Estou, como o senhor, disse-me ele.<\/p>\n<p>&quot;A explica&ccedil;&atilde;o dada n&atilde;o era muito aceit&aacute;vel.<br \/>\n    Eu por&eacute;m n&atilde;o pedi-lhe outras e, depois de v&ecirc;-lo entrar<br \/>\n    na sua habita&ccedil;&atilde;o, voltei para a minha&#8230;<\/p>\n<p>&quot;Disse que o tal vulto era um menino. Era-o de fato&#8230; Um rapazinho<br \/>\n    louro, que est&aacute; em S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe pouco mais h&aacute;<br \/>\n    de dous anos&#8230; O filho de um naturalista franc&ecirc;s, que l&aacute; o deixou<br \/>\n    quando passou pela povoa&ccedil;&atilde;o e que agora percorre o norte desta<br \/>\n    prov&iacute;ncia, &agrave; cata de plantas desconhecidas ou raras, dando expans&atilde;o<br \/>\n    ao seu g&ecirc;nio, que ele mesmo chama aventuroso.&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Ot&aacute;vio Dugarbon! gritaram un&iacute;ssonos Eust&aacute;quio.<br \/>\n    sua mulher e Rosalina.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, Ot&aacute;vio Dugarbon, confirmou o padre Jorge. Era ele.<\/p>\n<p>&quot;No dia seguinte, pelas seis horas da manh&atilde;, eu o vi de novo.<br \/>\n    Chamei-o. Ele veio &agrave; minha casa. Beijou-me respeitosamente a m&atilde;o<br \/>\n    e me interrogou com os olhos.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; quer saber, disse-lhe eu, depois que nos assentamos, porque<br \/>\n    o chamei. N&atilde;o &eacute;?&quot; &#8211; Sim senhor, respondeu ele.<\/p>\n<p>&#8212; Eu tenho desejo de saber o que fazia voc&ecirc;, ontem &agrave; noute,<br \/>\n    fora de casa&#8230; Diga a verdade&#8230; Eu n&atilde;o creio na tal hist&oacute;ria<br \/>\n    de passeio com que me quis iludir ontem.<\/p>\n<p>&quot;Ot&aacute;vio abaixou o rosto, que lhe enrubescera e ficou calado,<br \/>\n    olhando para as m&atilde;os.<\/p>\n<p>&quot;Julguei que o houvesse ofendido.<\/p>\n<p>&quot;- Est&aacute; zangado comigo? perguntei-lhe, suavizando mais a voz.<br \/>\n    N&atilde;o est&aacute; &#8230;&#8230;. Ent&atilde;o fale&#8230;<\/p>\n<p>&quot;O menino encarou-me com os olhos &uacute;midos e, extremamente perturbado,<br \/>\n    murmurou:<\/p>\n<p>&quot;- N&atilde;o posso&#8230;<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; f&aacute;cil imaginar qu&atilde;o grande era o meu interesse<br \/>\n    em descobrir o segredo do menino. N&atilde;o sei que voz &iacute;ntima me<br \/>\n    dizia que esse segredo estava por qualquer forma relacionado com os fatos<br \/>\n    que t&ecirc;m sucedido nesta casa&#8230; Aquela obstina&ccedil;&atilde;o de Ot&aacute;vio<br \/>\n    em calar-se vinha sobretudo me aguilhoar de modo insuport&aacute;vel a curiosidade.<br \/>\n    Devo ainda lembrar que o filho do franc&ecirc;s, fazendo-se meu amigo logo<br \/>\n    ap&oacute;s a sua chegada em S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe, juntara a<br \/>\n    essa amizade uma venera&ccedil;&atilde;o e uma confian&ccedil;a que me enterneciam.<br \/>\n    S&oacute; um motivo fort&iacute;ssimo o poderia coagir a ocultar-me qualquer<br \/>\n    cousa.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos, meu filho. Pedi-lhe. Fale&#8230; Porque n&atilde;o me faz este<br \/>\n    favor.<\/p>\n<p>Ot&aacute;vio fez ent&atilde;o um movimento de resolu&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    falou:<\/p>\n<p>&quot;- Senhor padre, eu n&atilde;o devo ter segredos para com o &#8230;&#8230;.<br \/>\n    mas um receio me tem impedido de ser inteiramente franco nas conversas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O que &eacute; que receia, Ot&aacute;vio?<\/p>\n<p>&#8212; Senhor padre, eu fiz um juramento, cujo o cumprimento ali&aacute;s<br \/>\n    n&atilde;o implica m&aacute;s a&ccedil;&otilde;es, contudo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Receia que eu n&atilde;o o deixe cumprir?!<\/p>\n<p>Ot&aacute;vio guardou sil&ecirc;ncio. Neste sil&ecirc;ncio adivinhei uma<br \/>\n    resposta afirmativa e acrescentei:<\/p>\n<p>&quot;- Ot&aacute;vio, os juramentos proferidos em um momento de irreflex&atilde;o<br \/>\n    e cujo cumprimento est&aacute; acima das nossas forcas n&atilde;o obrigam&#8230;&quot;<\/p>\n<p>&quot;- Mas o meu juramento&#8230; eu posso cumpri-lo!&#8230; E, at&eacute;, j&aacute;<br \/>\n    o tenho cumprido em parte.&quot;<\/p>\n<p>&quot;- Ent&atilde;o o que receia?&#8230; De modo nenhum me oporei aos seus atos&#8230;<br \/>\n    pelo contr&aacute;rio! eu os facilitarei como puder&#8230;&quot;<\/p>\n<p>&quot;&#8217;- Muito lho agrade&ccedil;o, disse-me ele. Vou revelar-lhe tudo&#8230;&quot;<\/p>\n<p>O padre Jorge repetiu ent&atilde;o o que lhe referira Ot&aacute;vio, isto<br \/>\n    &eacute;, aquilo que os seus ouvintes mais ansiavam por conhecer, para que<br \/>\n    se certificassem de que n&atilde;o era inexata uma suposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que as palavras do sacerdote j&aacute; lhes haviam inspirado&#8230;<\/p>\n<p>Quando Henrique Dugarbou ao retirar-se de S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe<br \/>\n    se despedia do filho, viu na m&atilde;o do menino um pequeno objeto. Era o<br \/>\n    brinco de coral com que a protegida do Eust&aacute;quio mimoseara o seu amiguinho<br \/>\n    de uma tarde.<\/p>\n<p>&#8212; Onde achaste isto, Ot&aacute;vio? perguntou o viajante com estranha<br \/>\n    vivacidade.<\/p>\n<p>Ot&aacute;vio, n&atilde;o tendo mostrado a seu pai o presente que recebera<br \/>\n    e acreditando que ia ser censurado, respondeu timidamente:<\/p>\n<p>&#8212; Foi a filhinha do subdelegado.<\/p>\n<p>Estas palavras foram trocadas &agrave; porta da habita&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    um amigo de Henrique Dugarbon, onde tinha de ficar Ot&aacute;vio.<\/p>\n<p>&Agrave; resposta do menino, a fisionomia do viajante deixou transparecer<br \/>\n    inexplic&aacute;vel alegria.<\/p>\n<p>Henrique Dugarbon, ficando &agrave; sua espera os quatro homens que o deviam<br \/>\n    acompanhar nas suas viagens, entrou de novo na habita&ccedil;&atilde;o, puxando<br \/>\n    Ot&aacute;vio pelo pulso.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, achando-se apenas com o menino e o dono da casa, pediu a Ot&aacute;vio<br \/>\n    o objeto que lhe dera Rosalina. Examinou-o por momentos e depois, possuindo-se<br \/>\n    de uma tristeza, mais inexplic&aacute;vel do que a alegria que a precedera,<br \/>\n    falou gravemente a Ot&aacute;vio, que o observava admirado:<\/p>\n<p>&#8212; Meu filho, a menina de cujas m&atilde;os recebeste este objetozinho<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; filha do subdelegado, como disseste&#8230; &Eacute; a filha<br \/>\n    de um pobre homem que morreu para salvar-me a vida.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! meu pai&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade, Ot&aacute;vio&#8230; Tens certamente na mem&oacute;ria<br \/>\n    o fato a que me refiro.<\/p>\n<p>&quot;Um dia, &iacute;amos atravessando o Amazonas&#8230;&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Oh! bem me lembro!&#8230; Uma horr&iacute;vel borrasca se desencadeara&#8230;<br \/>\n    Fomos abalroados por um tronco de &aacute;rvore que sobrenadava&#8230; Ca&iacute;ste<br \/>\n    fora da embarca&ccedil;&atilde;o&#8230; Era imposs&iacute;vel lutar com as ondas&#8230;<br \/>\n    &iacute;eis morrer&#8230; o m&iacute;sero lan&ccedil;ou-se ao rio!&#8230; agarrou-vos&#8230;<br \/>\n    conseguiu repor-vos sobre a embarca&ccedil;&atilde;o&#8230; salvou-vos!&#8230; Mas<br \/>\n    as &aacute;guas revoltas o envolveram&#8230; eu vi uma m&atilde;o agitar-se por<br \/>\n    instantes fora d&#8217;&aacute;gua&#8230; era o adeus supremo do infeliz!&#8230; Ele sumiu-se&#8230;<\/p>\n<p>Ot&aacute;vio enxugou com as costas da m&atilde;o uma l&aacute;grima que<br \/>\n    lhe pendia dos c&iacute;lios.<\/p>\n<p>&#8212; Exatamente, meu filho. Pois esse homem dedicado consagrava-me verdadeiro<br \/>\n    afeto, e, seis dias antes do fatal desastre que findou a sua exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    ele, adivinhando talvez que tinha de morrer em breve, quis dar-me uma lembran&ccedil;a<br \/>\n    da sua amizade.<\/p>\n<p>&quot;Sr. Henrique, me disse ele, pe&ccedil;o-lhe que aceite este objeto,<br \/>\n    a que eu dou um apre&ccedil;o imenso, e por isso v&ocirc;-lo ofere&ccedil;o&quot;&#8230;<\/p>\n<p>Henrique Dugarbon meteu dois dedos em um bolso, tirou uma m&atilde;ozinha<br \/>\n    de coral inteiramente igual &agrave; que lhe entregara Ot&aacute;vio e, apresentando-a<br \/>\n    ao menino, disse:<\/p>\n<p>&#8212; Aqui est&aacute; o que ele me deu&#8230; O bom homem amava este objeto<br \/>\n    porque lhe recordava uma filha que tinha em S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    com sua mulher. Essa menina chamava-se Rosalina e a inicial do seu nome estava<br \/>\n    riscada sobre o fragmento de coral querido do seu pai, que lhe dera um brinco<br \/>\n    semelhante, tendo tamb&eacute;m riscado a inicial do nome dele.<\/p>\n<p>Estas cousas me foram referidas pelo meu pobre amigo ao fazer-me entrega<br \/>\n    desta m&atilde;ozinha de coral. Agora, v&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p>Ele chamava-se Ant&ocirc;nio&#8230; eis aqui a letra A riscada no objeto que<br \/>\n    te deram. A sua filhinha chamava-se Rosalina&#8230; R &eacute; a letra que tem<br \/>\n    a lembran&ccedil;a que me deu o dedicado Ant&ocirc;nio&#8230; Rosalina &eacute;<br \/>\n    tamb&eacute;m o nome da crian&ccedil;a que vimos em casa do subdelegado!<\/p>\n<p>&#8212; Sim, meu pai! Ela disse-me que se chamava Rosalina!<\/p>\n<p>&#8212; Ot&aacute;vio, aquela crian&ccedil;a &eacute; tua irm&atilde;!&#8230;<br \/>\n    Eu sou seu pai ante a minha consci&ecirc;ncia! O pobre Ant&ocirc;nio, sacrificando-se<br \/>\n    por mim, confiou-ma sem o declarar. Eu devo ser agora seu pai.<\/p>\n<p>Quando acabou de falar, Henrique Dugarbon, bastante comovido, pareceu refletir<br \/>\n    por um momento e, voltando-se para o amigo, que de parte assistira, sem entender,<br \/>\n    o di&aacute;logo dos dons estrangeiros, travado em franc&ecirc;s, pediu-lhe<br \/>\n    em portugu&ecirc;s, que desse informa&ccedil;&otilde;es acerca da m&atilde;e<br \/>\n    da protegida do subdelegado.<\/p>\n<p>Soube que, havia bastante tempo, uma esp&eacute;cie de mendiga exalara o<br \/>\n    derradeiro suspiro nos bra&ccedil;os da mis&eacute;ria, deixando ao desamparo<br \/>\n    uma filhinha, que Eust&aacute;quio de&#8230; acolhera. Contou ent&atilde;o ao<br \/>\n    seu informante a hist&oacute;ria do fim tr&aacute;gico que levara o pai da<br \/>\n    orf&atilde;zinha.<\/p>\n<p>&#8212; Se n&atilde;o fosse o Sr. Eust&aacute;quio, observou Ot&aacute;vio,<br \/>\n    a pobre menina estaria t&atilde;o abandonada, coitadinha!&#8230;<\/p>\n<p>Esta observa&ccedil;&atilde;o de Ot&aacute;vio atraiu o pensamento do viajante<br \/>\n    franc&ecirc;s para as condi&ccedil;&otilde;es em que se achava Rosalina. Henrique<br \/>\n    estava pronto para consagrar &agrave;quela crian&ccedil;a uma dedica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    toda paternal&#8230; Rosalina encontrara generosos protetores, mas . . quem sabe<br \/>\n    se n&atilde;o careceria ela alguma vez de prote&ccedil;&atilde;o mais forte?&#8230;<br \/>\n    Os benfeitores da menina tinham um inimigo talvez terr&iacute;vel&#8230; Cumpria<br \/>\n    pois que ele, Henrique Dugarbon por amor de Rosalina se armasse para defend&ecirc;-los.<br \/>\n    Ocorreu-lhe a id&eacute;ia de suspender por algum tempo as suas excurs&otilde;es<br \/>\n    e entregar-se a essa defesa; a vida sedent&aacute;ria, por&eacute;m, n&atilde;o<br \/>\n    convinha &agrave; sua natureza. Depois de haver obtido do amigo em cuja casa<br \/>\n    ia deixar o seu filho Ot&aacute;vio a promessa de que empregaria todos os<br \/>\n    meios ao seu alcance para afastar os perigos que amea&ccedil;assem a fam&iacute;lia<br \/>\n    do subdelegado Eust&aacute;quio. ele terminou as suas despedidas e. reunindo-se<br \/>\n    aos seus quatro camaradas, partiu para o norte.<\/p>\n<p>No momento em que Henrique Dugarbon estreitava consigo a Ot&aacute;vio. o<br \/>\n    menino. elevando-se &agrave; altura de um homem, proferiu no &iacute;ntimo<br \/>\n    d&#8217;alma um juramento solene.<\/p>\n<p>Quem tivesse o dom de ouvir os pensamentos, teria percebido o seguinte:<\/p>\n<p>&quot;Juro-vos, meu Deus, pelo vosso nome e pela alma do desditoso sertanejo<br \/>\n    que morreu por meu pai, que a seguran&ccedil;a de Rosalina ser&aacute; garantida!&quot;<\/p>\n<p>Tais foram os fatos referidos por Ot&aacute;vio na revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que fez ao padre Jorge. Tais foram os fatos cuja narra&ccedil;&atilde;o o<br \/>\n    padre repetiu a Eust&aacute;quio, Branca e Rosalina.<\/p>\n<p>As impress&otilde;es que cada frase do sacerdote causara nos seus ouvintes<br \/>\n    n&atilde;o se descreve. A princ&iacute;pio uma curiosidade indom&aacute;vel,<br \/>\n    em seguida uma como&ccedil;&atilde;o que se traduzia por torrentes de l&aacute;grimas.<br \/>\n    Quando ouviu falar de seu pai afogado no rio Amazonas, Rosalina lan&ccedil;ou-se<br \/>\n    ao colo de Branca, solu&ccedil;ando de modo a cortar o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Por v&aacute;rias vezes o padre Jorge, compungido diante da dor da menina,<br \/>\n    teve desejos de interromper a sua narrativa ela. por&eacute;m. rogava-lhe<br \/>\n    que prosseguisse. porque queria saber a quem devia a salva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua exist&ecirc;ncia. que duas vezes perigara, e quem velava pela tranq&uuml;ilidade<br \/>\n    dos seus benfeitores. Ele continuava. Quando declarou que juramento Ot&aacute;vio<br \/>\n    fizera. um grito es capou-se dos l&aacute;bios de Eust&aacute;quio&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Oh! crian&ccedil;a de hero&iacute;smo!<\/p>\n<p>Branca e Rosalina puderam apenas exclamar.. Oh!<\/p>\n<p>Mas esta exclamativa foi uni verdadeiro hino de admira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    entoado em honra de Ot&aacute;vio. Doces l&aacute;grimas de gratid&atilde;o.<br \/>\n    desprendendo-se das p&aacute;lpebras de Rosalina. Vieram minorar-lhe a m&aacute;goa<br \/>\n    causada pela hist&oacute;ria l&uacute;gubre da morte do seu pai&#8230;<\/p>\n<p>Uma bonan&ccedil;a relativa ganhou o &acirc;nimo encapelado dos ouvintes<br \/>\n    do padre Jorge, que, depois de longa pausa, pode terminar:<\/p>\n<p>&#8212; Quando o jovem Ot&aacute;vio repetiu-me o seu juramento, quando contou-me,<br \/>\n    em seguida, que o amigo do seu pai esquecera a promessa feita e que ele sozinho<br \/>\n    ficara a bra&ccedil;os com o cumprimento do que havia jurado, miss&atilde;o<br \/>\n    que, como me dissera no princ&iacute;pio, ele j&aacute; desempenhara em parte,<br \/>\n    confesso-vos que senti por ele alguma cousa que se assemelhava ao respeito.<br \/>\n    N&atilde;o tive &acirc;nimo de dar-lhe um s&oacute; conselho. Com os olhos<br \/>\n    na Provid&ecirc;ncia, conservei-me calado, apertando-o apenas em meus bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>&quot;Ot&aacute;vio tamb&eacute;m se calara. Julgava ter dito tudo, e dissera-o<br \/>\n    com efeito. A explica&ccedil;&atilde;o de tudo quanto havia de obscuro e misterioso<br \/>\n    para mim e tamb&eacute;m para ti, Eust&aacute;quio, se podia facilmente depreender<br \/>\n    daquilo que ele tinha dito.<\/p>\n<p>&quot;Desprendendo-se dos meus bra&ccedil;os, Ot&aacute;vio fitou-me com<br \/>\n    um sorriso que lhe dava uma fisionomia tit&acirc;nica.<\/p>\n<p>&quot;- Adivinhou j&aacute; o que eu fazia ontem de noite fora da casa? perguntou-me<br \/>\n    ele. . . Est&aacute; ent&atilde;o satisfeito?<\/p>\n<p>&quot;- Inteiramente, respondi-lhe.<\/p>\n<p>&quot;O menino retirou-se e foi prosseguir na admir&aacute;vel miss&atilde;o<br \/>\n    que encetara, havia t&atilde;o longo tempo, salvando nesse mesmo dia a tua<br \/>\n    Rosalina e avisando-te depois do ataque que os teus inimigos tencionam dar<br \/>\n    hoje a esta casa.<\/p>\n<p>&quot;Assim, pois, &eacute; o valente Ot&aacute;vio Dugarbon o defensor que<br \/>\n    tantos servi&ccedil;os te h&aacute; prestado, gra&ccedil;as &agrave;s suas<br \/>\n    excurs&otilde;es, em uma das quais eu o surpreendi, na noite de 13, que permitem-lhe<br \/>\n    conhecer os planos tenebrosos dos teus perseguidores.<\/p>\n<p>&quot;Uma cousa talvez te pare&ccedil;a ainda inexplic&aacute;vel: o inc&oacute;gnito<br \/>\n    de que o bravo Ot&aacute;vio se queria cercar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; De modo nenhum, padre Jorge. Eu bem compreendo o procedimento do<br \/>\n    incompar&aacute;vel menino. Ele receava que, em aten&ccedil;&atilde;o &agrave;<br \/>\n    sua pouca idade, tiv&eacute;sseis vontade de dissuadi-lo das suas resolu&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Por isso, apenas comunicou-vos o seu segredo depois de obter a promessa de<br \/>\n    que v&oacute;s n&atilde;o opor&iacute;eis ao cumprimento do seu juramento.<br \/>\n    N&atilde;o acreditou que me hav&iacute;eis de dar a conhecer esse segredo<br \/>\n    e n&atilde;o vos imp&ocirc;s a condi&ccedil;&atilde;o de fazer o contr&aacute;rio,<br \/>\n    mas v&oacute;s, dando-mo a conhecer, alcan&ccedil;astes de mim um compromisso<br \/>\n    que me imobiliza tanto quanto te imobilizou a palavra que deste ao menino.<br \/>\n    Nada mais do que v&oacute;s eu posso fazer relativamente ao meu defensor.<\/p>\n<p>&#8212; Nem devemos fazer cousa alguma, Eust&aacute;quio. A miss&atilde;o<br \/>\n    daquele rapazinho n&atilde;o vulgar me parece providencial. Deixemo-lo obrar<br \/>\n    livremente.<\/p>\n<p>Alguns minutos depois que o padre Jorge calou-se, Eust&aacute;quio perguntou<br \/>\n    a Branca e &agrave; sua pequena protegida se desejavam ir para S. Jo&atilde;o<br \/>\n    do Pr&iacute;ncipe, a fim de que n&atilde;o presenciassem o combate com os<br \/>\n    malfeitores, o qual n&atilde;o havia tardar. Ambas responderam-lhe simultaneamente<br \/>\n    que n&atilde;o, porquanto, al&eacute;m de n&atilde;o nutrirem desejo de se<br \/>\n    apartar dele, n&atilde;o viam perigo algum em permanecer em um lugar t&atilde;o<br \/>\n    bem defendido.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio concordou com elas. O padre Jorge foi da mesma opini&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Deus n&atilde;o permitir&aacute;, disse este, que a boa causa sela<br \/>\n    vencida.<\/p>\n<h4><a name=\"14\">Cap&iacute;tulo XIV: A trag&eacute;dia<\/a><\/h4>\n<p>Uma dessas tardes enfadonhas de c&eacute;u cor de chumbo invadia a passos<br \/>\n    lentos a natureza. As &uacute;ltimas horas do dia pouco destoavam das primeiras.<br \/>\n    Aos golpes do vento que soprara pela manh&atilde; sucedera uma aragem &uacute;mida,<br \/>\n    que punha em agita&ccedil;&atilde;o os ram&uacute;sculos tenros da crista<br \/>\n    das &aacute;rvores, e o sil&ecirc;ncio no mato se tornara quase absoluto.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio e todos os que se achavam com ele sentiam o mal estar que<br \/>\n    lhes comunicava o tempo. Pelas janelas da casa abertas para o ocidente, podiam<br \/>\n    ver o sol, que baixava gradualmente para o horizonte, rodeado de nuvens, como<br \/>\n    gigantesca medalha de ouro envolta em flocos de algod&atilde;o amarelado;<br \/>\n    mas as reflex&otilde;es de cada um n&atilde;o nos deixavam atentar para esse<br \/>\n    espet&aacute;culo.<\/p>\n<p>Depois das &uacute;ltimas palavras do padre Jorge ningu&eacute;m mais falara.<br \/>\n    Ningu&eacute;m se lembrava de que eram horas de jantar. Todos esperavam pelo<br \/>\n    ataque dos bandidos. Branca com algum medo, Rosalina com impaci&ecirc;ncia,<br \/>\n    porque queria ver logo seca a fonte das inquieta&ccedil;&otilde;es dos seus<br \/>\n    benfeitores. Eust&aacute;quio e o seu amigo, confiados nos defensores da casa,<br \/>\n    s&oacute; contavam com a sua vit&oacute;ria e o exterm&iacute;nio dos malfeitores.<br \/>\n    Apesar disso, vagos receios vinham turvar-lhes a tranq&uuml;ilidade.<\/p>\n<p>Assim estavam quando da orla da mata virgem partiu um assovio estridente.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio e o padre Jorge se olharam. Ambos tinham empalidecido. Quase<br \/>\n    tiveram medo.<\/p>\n<p>Branca e a sua amiguinha os fitavam, esperando que eles exprimissem um ju&iacute;zo<br \/>\n    acerca do silvo.<\/p>\n<p>&#8212; Um sinal! balbuciou o padre Jorge.<\/p>\n<p>Ao pronunciar a &uacute;ltima s&iacute;laba de &quot;sinal&quot;, um outro<br \/>\n    assobio confundiu-se com a sua voz. A este silvo seguiu-se uma vozeria estrondosa.<br \/>\n    A algazarra era nos fundos da casa. Eust&aacute;quio tomou uma pistola e,<br \/>\n    passando pelo corredor central, chegou &agrave; cozinha. Nesse momento fortes<br \/>\n    pancadas fizeram tremer uma porta da cozinha que dava para o roseiral e que<br \/>\n    estava fechada, enquanto v&aacute;rios tiros estalavam da parte de fora.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio ouviu tamb&eacute;m o ru&iacute;do de estilha&ccedil;os<br \/>\n    de vidro que ca&iacute;ram no ch&atilde;o da sala, donde acabava de sair.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! atacado por dous lados exclamou ele, engatilhando a pistola que<br \/>\n    empunhara.<\/p>\n<p>A cousa vai mais r&aacute;pida do que eu esperava, disse o padre Jorge, apresentando-se<br \/>\n    na cozinha.<\/p>\n<p>&#8212; Vai! vai! repetiu Eust&aacute;quio em tom gutural. E depois, olhando<br \/>\n    espantado para o amigo, gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Estais ferido!<\/p>\n<p>Pelo rosto do padre descia um fio vermelho.<\/p>\n<p>&#8212; Isto n&atilde;o &eacute; nada!&#8230; Um fragmento de vidro tocou-me<br \/>\n    a testa.<\/p>\n<p>&#8212; Que vidro, padre Jorge?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Uma das vidra&ccedil;as da sala foi despeda&ccedil;ada por algumas<br \/>\n    balas. Vem ver!<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio lan&ccedil;ou um olhar &agrave; porta da cozinha e, vendo-a<br \/>\n    solidamente trancada, voltou com o amigo para a sala principal.<\/p>\n<p>Branca, tendo ouvido chorar o seu filhinho, que os tiros tinham acordado,<br \/>\n    recolhera-se &agrave; alcova juntamente com Rosalina e fora acalentar a crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>No roseiral repetiam-se detona&ccedil;&otilde;es e gritos.<\/p>\n<p>Uma luta terr&iacute;vel parecia ter lugar a&iacute;. Como dissera o padre<br \/>\n    Jorge, uma das vidra&ccedil;as da sala fora quebrada por alguns proj&eacute;teis<br \/>\n    perdidos. Os dous amigos precipitaram-se para ela, que estava menos longe<br \/>\n    deles, e, sem receio de se cortarem, enfiaram a cabe&ccedil;a pelos caixilhos,<br \/>\n    que sustentavam ainda agudas pontas de vidro.<\/p>\n<p>A vista do roseiral era de aterrar. Uma fuma&ccedil;a escura se enovelava<br \/>\n    pelas roseiras, espalhando forte cheiro de p&oacute;lvora. No ch&atilde;o<br \/>\n    estavam estendidos tr&ecirc;s mortos. Dois paraenses e Ruperto haviam j&aacute;<br \/>\n    sucumbido. Um dos indiv&iacute;duos ultimamente engajados jazia ferido junto<br \/>\n    de uma estaca. Dos outros defensores de Eust&aacute;quio um, paraense, desaparecera<br \/>\n    e os restantes combatiam.<\/p>\n<p>Eust&aacute;quio e o padre Jorge, petrificados de espanto, viram sem compreender<br \/>\n    o verdadeiro* dos paraenses cercado por tr&ecirc;s homens, de catadura inflamada<br \/>\n    pela raiva brandindo fouces e punhais sobre ele, e nesses tr&ecirc;s homens<br \/>\n    reconheceram os novos engajados!<\/p>\n<p>O paraense defendia-se valentemente a coronhadas, e os seus advers&aacute;rios<br \/>\n    recuavam para longe, a cada volta que ele descrevia com a sua espingarda segura<br \/>\n    pelo cano.<\/p>\n<p>Uma palavra repetia ele com indigna&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Traidores! Traidores!<\/p>\n<p>&#8212; Padre Jorge, badrou Eust&aacute;quio, que tivera de s&uacute;bito<br \/>\n    um pensamento, eles n&atilde;o s&atilde;o traidores!&#8230; Ainda h&aacute; pouco<br \/>\n    ouvimos um sinal&#8230; Era para eles, que, apenas o ouviram, romperam a luta.<br \/>\n    N&atilde;o s&atilde;o traidores! Fazem parte da quadrilha que me persegue!<br \/>\n    Conseguiram introduzir-se em minha casa e est&atilde;o desempenhando um papel<br \/>\n    de que foram encarregados!<\/p>\n<p>&#8212; Sim, meu amigo, sim! E sou eu quem tem a culpa desta desgra&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    Perdoa-me! Um excesso de prud&ecirc;ncia me fez imprudente&#8230; Fui muito precipitado<br \/>\n    aconselhando-te engajamento de indiv&iacute;duos que eu n&atilde;o conhecia&#8230;<br \/>\n    mas fui levado por um grande receio de que n&atilde;o fosse suficiente o pessoal<br \/>\n    que tinhas para tua defesa. Demais, as apar&ecirc;ncias dos malvados me iludiram!<\/p>\n<p>&#8212; Oh! v&atilde;o matar o paraense! exclamou Eust&aacute;quio, que,<br \/>\n    sem dar aten&ccedil;&atilde;o ao padre Jorge, acompanhava os r&aacute;pidos<br \/>\n    momentos do combate do roseiral.<\/p>\n<p>O intr&eacute;pido caboclo, que a princ&iacute;pio resistira com vantagem,<br \/>\n    come&ccedil;ava a fraquear.<\/p>\n<p>O marido de Branca levantou a pistola que tinha na m&atilde;o e, atrav&eacute;s<br \/>\n    dos caixilhos, desfechou um tiro&#8230; Uma bala foi tocar o peito de um bandido,<br \/>\n    cuja m&atilde;o chegara a garganta do paraense. O miser&aacute;vel sentiu<br \/>\n    afrouxarem-se-lhe os m&uacute;sculos. Ajoelhou-se e caiu de frente sobre o<br \/>\n    ferido que estava por terra.<\/p>\n<p>Na mesma ocasi&atilde;o uma pancada formid&aacute;vel descarregada pelo caboclo<br \/>\n    esmagou o cr&acirc;nio de outro inimigo, cujo companheiro restante fugiu para<br \/>\n    o lado dos fundos da habita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Senhor do campo, o paraense arrancou tranq&uuml;ilamente um peda&ccedil;o<br \/>\n    da camisa, rasgada na luta, e com ele limpou o sangue de alguns ferimentos<br \/>\n    leves que recebera.<\/p>\n<p>Em seguida aproximou-se da janela ocupada por Eust&aacute;quio e o seu amigo<br \/>\n    e pediu-lhes &aacute;gua:<\/p>\n<p>&#8212; Entre para beber, disse-lhe Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>&#8212; E traga aquele desgra&ccedil;ado, acrescentou o sacerdote, indicando<br \/>\n    o malfeitor ferido, que gemia esfor&ccedil;ando-se por livrar-se do cad&aacute;ver<br \/>\n    que ca&iacute;ra sobre ele.<\/p>\n<p>Um minuto depois, era o ferido deitado a um canto da sala principal da habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelo paraense, que fechou a porta que dava para fora, e, havendo saciado a<br \/>\n    sede causada pelo combate terr&iacute;vel em que ele tomara parte, contou<br \/>\n    a Eust&aacute;quio o que se tinha passado.<\/p>\n<p>Estavam os paraenses e Ruperto assustados por causa dos estranhos assobios<br \/>\n    no momento em que viram se transformar a fisionomia dos novos engajados, que<br \/>\n    eles reputavam seus verdadeiros companheiros. Antes que pudessem servir-se<br \/>\n    das suas armas, foram atacados violentamente. Um dos paraenses caiu logo morto<br \/>\n    pelas m&atilde;os dos engajados convertidos em inimigos. Ruperto e os outros<br \/>\n    paraenses, mais ou menos feridos, foram for&ccedil;ados a recuar do lado dos<br \/>\n    fundos da habita&ccedil;&atilde;o, onde principiara a luta, at&eacute; o lado<br \/>\n    do Iapur&aacute;. A retirada, por&eacute;m, n&atilde;o foi apressada. Tiveram<br \/>\n    tempo os que a efetuavam de ver um indiv&iacute;duo de cor branca e cinco<br \/>\n    negros transporem as pali&ccedil;adas e, chegando &agrave; porta da cozinha,<br \/>\n    arremessarem-se a ela manejando fouces. Na frente da casa findou-se o combate,<br \/>\n    depois de sucessivamente rolarem por terra dous paraenses, Ruperto e dous<br \/>\n    inimigos, mortos, e outro destes feridos, e quando o &uacute;ltimo dos malfeitores<br \/>\n    fugiu, entregando com o campo a vit&oacute;ria ao &uacute;ltimo dos verdadeiros<br \/>\n    defensores de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>O padre Jorge chegara-se para o ferido. Abrindo-lhe o peito da camisa, descobriu<br \/>\n    um golpe profundo que lhe dera a faca do paraense. O desgra&ccedil;ado malfeitor<br \/>\n    estava perdido. Acreditando que o ferido desejava beber &aacute;gua, o padre<br \/>\n    Jorge, levantando-lhe com uma das m&atilde;os a cabe&ccedil;a, com a outra<br \/>\n    aproximou-lhe um copo da boca. O bandido moveu convulsamente as p&aacute;lpebras<br \/>\n    e lan&ccedil;ou ao sacerdote um olhar de rancor.<\/p>\n<p>&#8212; Beba! insistiu o padre Jorge. O miser&aacute;vel fechou ent&atilde;o<br \/>\n    os olhos e voltou bruscamente a cara. Quis vomitar alguma blasf&ecirc;mia&#8230;<br \/>\n    S&oacute; p&ocirc;de expelir uma onda de sangue e soltar um grunhido cavernoso,<br \/>\n    o seu &uacute;ltimo suspiro.<\/p>\n<p>O padre Jorge dep&ocirc;s entristecido a cabe&ccedil;a do morto no soalho<br \/>\n    e dirigiu-se para Eust&aacute;quio, que, sem ver o que se passava na sala,<br \/>\n    estava abra&ccedil;ando comovido seu dedicado defensor. O marido de Branca,<br \/>\n    ao aproximar-se o padre Jorge, separou-se do paraense e prestou ouvidos a<br \/>\n    umas marteladas aterradoras que retumbavam pela casa. A porta da cozinha era<br \/>\n    atacada ainda pelos golpes de fouces dos malfeitores, que chegavam para terminar<br \/>\n    a obra come&ccedil;ada pelos seus companheiros.<\/p>\n<p>&#8212; Meus amigos, disse a meia voz Eust&aacute;quio, dirigindo-se ao padre<br \/>\n    Jorge e ao paraense, a nossa situa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o dissimulemos,<br \/>\n    &eacute; quase desesperada. Se algum socorro n&atilde;o nos chegar de S. Jo&atilde;o<br \/>\n    do Pr&iacute;ncipe antes do arrombamento da porta da cozinha, s&oacute; nos<br \/>\n    restar&aacute; correr para o roseiral, atacar os sete bandidos que querem<br \/>\n    invadir-me a casa e morrer em suas m&atilde;os, deixando Branca, Rosalina<br \/>\n    e o meu filhinho entregues a Deus.<\/p>\n<p>O marido de Branca parou como que fatigado pelo esfor&ccedil;o que fizera<br \/>\n    para pronunciar aquelas palavras.<\/p>\n<p>Depois prosseguiu, maquinalmente, deixando ver a preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu esp&iacute;rito:<\/p>\n<p>&#8212; Esse socorro n&atilde;o vir&aacute; sem que se o v&aacute; buscar&#8230;<br \/>\n    Eu vou ao povoado. Em breve estarei de volta, trazendo-vos&#8230; a salva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O padre Jorge e o paraense quiseram dizer alguma cousa.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; nada a observar, meus amigos, ponderou Eust&aacute;quio,<br \/>\n    em tom firme. &Eacute; talvez perigoso algu&eacute;m se aventurar l&aacute;<br \/>\n    fora, mas eu espero que serei feliz&#8230; Al&eacute;m do que, quando se trata<br \/>\n    de salvar a muitos, um pelo menos tem o dever de se arriscar&#8230; Eu parto&#8230;<br \/>\n    At&eacute; j&aacute;!<\/p>\n<p>E, antes que os seus amigos tivessem tido a id&eacute;ia de o deter, Eust&aacute;quio<br \/>\n    encaminhou-se para a porta que dava para o roseiral. Quando suas m&atilde;os<br \/>\n    tocavam a chave da porta, ele ouviu uma voz murmurar-lhe ao ouvido, com a<br \/>\n    suavidade de um &oacute;sculo:<\/p>\n<p>&#8212; Adeus!<\/p>\n<p>Voltou-se&#8230; Ah! Branca jazia ensang&uuml;entada aos seus p&eacute;s!<\/p>\n<p>Uma detona&ccedil;&atilde;o forte ressoara.<\/p>\n<p>Enquanto o pobre marido se deixava cair sobre o corpo inanimado da mulher,<br \/>\n    o padre Jorge e o paraense, meio aturdidos pelo inesperado lance, olhavam<br \/>\n    com terror por uma janela para o roseiral. L&aacute; fora, empoleirado sobre<br \/>\n    a cerca, avistava-se um negro. Um bacamarte fumegava-lhe nas m&atilde;os.<br \/>\n    O perverso ria-se do efeito do seu tiro.<\/p>\n<p>Branca vira, da alcova, este miser&aacute;vel apontar uma arma para dentro<br \/>\n    da casa. Sa&iacute;ra ligeira do aposento e, verificando que Eust&aacute;quio<br \/>\n    era o alvo do bandido, possu&iacute;da de um hero&iacute;smo de que ningu&eacute;m<br \/>\n    a julgaria capaz, correra a defender com o seu o corpo do esposo. No momento<br \/>\n    em que este ouvia o seu doloroso adeus, a carga inteira do bacamarte lhe crivava<br \/>\n    as costas.<\/p>\n<p>Passada a primeira impress&atilde;o daquele desgra&ccedil;ado incidente,<br \/>\n    o padre Jorge e o paraense lembraram-se de fechar, por precau&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    todas as janelas que se achavam abertas, deixando o interior da casa em uma<br \/>\n    meia escurid&atilde;o, que o crep&uacute;sculo vinha aumentar. O infatig&aacute;vel<br \/>\n    engajado de Eust&aacute;quio arrastou um leito para a sala e nele deitou com<br \/>\n    todo o cuidado a infeliz Branca, que continuava desfalecida.<\/p>\n<p>In&uacute;til &eacute; dizer que Eust&aacute;quio esquecera a sua situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    quase desesperada, o meio de salva&ccedil;&atilde;o que ele resolvera tentar,<br \/>\n    tudo, s&oacute; para entregar-se a sua dor. Quem o visse prostrado, com uma<br \/>\n    das m&atilde;os de Branca colada aos l&aacute;bios, as fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    alteradas pelo desespero, os olhos fechados, mas enxutos ainda, n&atilde;o<br \/>\n    reconheceria nele o en&eacute;rgico homem que fora o subdelegado de S. Jo&atilde;o<br \/>\n    do Pr&iacute;ncipe. Aos p&eacute;s do leito solu&ccedil;ava Rosalina, orando<br \/>\n    de joelhos. Entretanto o padre Jorge examinara as feridas de Branca e as refrescava<br \/>\n    com &aacute;gua fria trazida pelo paraense, que nessa ocasi&atilde;o carregava<br \/>\n    algumas armas, olhando, ora tristemente para a jovem ferida, ora com ferocidade<br \/>\n    para o lado da cozinha, cuja porta via fender-se sob os golpes dos bandidos.<\/p>\n<p>Branca deu um gemido quase impercept&iacute;vel e abriu os olhos.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! gritou Eust&aacute;quio, levantando-se de um pulo e segurando<br \/>\n    o bra&ccedil;o do padre Jorge. Est&aacute; viva! N&atilde;o morreu n&atilde;o!<br \/>\n    Deus n&atilde;o quis mat&aacute;-la. Ah! se ela morresse eu seria um r&eacute;probo.<br \/>\n    Ela morreria por minha causa!&#8230; Padre Jorge, ela coitada queria fugir e eu&#8230;<br \/>\n    miser&aacute;vel!&#8230; me opus! Me opus!&#8230; ali est&aacute; a minha obra!&#8230;<\/p>\n<p>O pobre homem apontou para a esposa. Depois, inclinando-se para ela exclamou:<\/p>\n<p>&#8212; Mas tu n&atilde;o morrer&aacute;s, n&atilde;o, Branca! Deus n&atilde;o<br \/>\n    ser&aacute; t&atilde;o cruel para mim!&#8230;<\/p>\n<p>E dos seus olhos irromperam as l&aacute;grimas, que at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    se tinham recusado a conceder-lhe al&iacute;vio ao sofrimento.<\/p>\n<p>Branca encarava-o com do&ccedil;ura, ao passo que trocava com Rosalina infinitos<br \/>\n    beijos. A menina j&aacute; a considerava salva.<\/p>\n<p>O padre Jorge, que conhecia o estado da ferida e se lembrava dos malfeitores,<br \/>\n    n&atilde;o teve for&ccedil;as para fingir que estava tamb&eacute;m satisfeito.<br \/>\n    Afastou-se do leito de Branca e o paraense pode perceber que ele se arredara<br \/>\n    para chorar.<\/p>\n<p>Com os olhos cheios de l&aacute;grimas, que lhe foi imposs&iacute;vel conter,<br \/>\n    o sacerdote entrou na alcova da sala e deu uma volta pelo aposento. De passagem<br \/>\n    viu no seu ber&ccedil;o o filho de Eust&aacute;quio, dormindo tranq&uuml;ilamente.<br \/>\n    As pancadas incessantes com que os bandidos abalavam a porta da cozinha n&atilde;o<br \/>\n    perturbavam o sono do inocente.<\/p>\n<p>&#8212; Pobre anjinho! disse consigo mesmo.<\/p>\n<p>Antes de deixar a alcova, deparou com uma cruz. Apoiou os cotovelos sobre<br \/>\n    o m&oacute;vel em que ela se achava e estas palavras rebentaram-lhe do peito:<\/p>\n<p>&#8212; Por que n&atilde;o os salvais, meu Deus?!<\/p>\n<p>E depois:<\/p>\n<p>&#8212; Ot&aacute;vio, ent&atilde;o desapareceste?!<\/p>\n<p>Ao aproximar-se de novo da mulher de Eust&aacute;quio, o padre Jorge teve<br \/>\n    uma vis&atilde;o desagrad&aacute;vel.<\/p>\n<p>Apenas as frestas das janelas davam a fraca claridade que havia no interior<br \/>\n    da casa. Uma destas frestas projetava no soalho uma zona branca de luz, que<br \/>\n    ia bater no semblante l&iacute;vido do cad&aacute;ver do bandido que o paraense<br \/>\n    trouxera do roseiral. Aquele rosto, com a boca arrega&ccedil;ada pela &uacute;ltima<br \/>\n    contra&ccedil;&atilde;o da morte, parecia sorrir de esc&aacute;rnio ante as<br \/>\n    cenas que se passavam na sala!<\/p>\n<p>Desviou os olhos daquilo e, vendo Branca mover apressadamente as p&aacute;lpebras,<br \/>\n    o padre pensou que ela queria dizer alguma cousa e abaixou-se para ouvi-la.<\/p>\n<p>&#8212; Meu padre, disse ela, eu vou morrer&#8230; quero me confessar.<\/p>\n<p>Por mais baixa que fosse a voz de Branca ao dizer essas palavras n&atilde;o<br \/>\n    deixou de ser percebida por Eust&aacute;quio, nem pela sua protegida.<\/p>\n<p>A declara&ccedil;&atilde;o de Branca fez voltar-lhes o desespero do &acirc;nimo.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o chorem, pediu-lhes a moribunda, eu vou para Deus&#8230;<\/p>\n<p>O padre foi &agrave; alcova buscar a cruz que l&aacute; vira. Quando ia voltar<br \/>\n    ouviu um estrondo assustador. A porta da cozinha desabara afinal. Os bandidos<br \/>\n    tinham aberto passagem. Os seus passos ressoaram no corredor central da casa.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! est&aacute; tudo acabado, disse com tristeza o padre.<\/p>\n<p>E, empunhando a cruz, precipitou-se na sala.<\/p>\n<p>O paraense, com admir&aacute;vel presteza e grande risco, fechara a porta<br \/>\n    que havia na entrada do corredor, e, afrontando as balas dos malfeitores,<br \/>\n    levantara novo obst&aacute;culo diante deles.<\/p>\n<p>Este obst&aacute;culo, por&eacute;m, era insignificante. Em poucos momentos<br \/>\n    devia chegar o desenlace do drama.<\/p>\n<p>Enquanto isto tinha lugar, junto do leito de Branca era doloroso o que se<br \/>\n    via.<\/p>\n<p>A infeliz mo&ccedil;a agonizava. Debru&ccedil;ados sobre ela, como se pretendessem<br \/>\n    abrig&aacute;-la dos golpes do anjo da morte, Eust&aacute;quio e Rosalina<br \/>\n    pediam a Branca que n&atilde;o morresse&#8230; Mas n&atilde;o era poss&iacute;vel.<br \/>\n    A moribunda, por um esfor&ccedil;o supremo, ergueu os bra&ccedil;os, querendo<br \/>\n    enla&ccedil;ar os que regavam de l&aacute;grimas ardentes as suas faces resfriadas&#8230;<br \/>\n    os bra&ccedil;os ca&iacute;ram-lhe como se de um s&oacute; golpe houvessem<br \/>\n    sido decepados&#8230;<\/p>\n<p>Exalou um gemido prolongado, e, de envolta com o seu estertor extremo, balbuciou:<\/p>\n<p>&#8212; Meu filho!<\/p>\n<p>Nesse momento chegou o padre Jorge. Era j&aacute; tarde. Eust&aacute;quio<br \/>\n    e Rosalina apenas abra&ccedil;avam ent&atilde;o um corpo que o frio da morte<br \/>\n    conquistava com rapidez.<\/p>\n<p>O barulho da queda da porta arrombada pelos malfeitores acordara o filho<br \/>\n    de Eust&aacute;quio. Os vagidos da crian&ccedil;a respondiam ao apelo derradeiro<br \/>\n    da sua m&atilde;e.<\/p>\n<p>&#8212; E ele n&atilde;o recebeu o batismo! disse o padre Jorge lembrando-se<br \/>\n    de que o filhinho de Branca n&atilde;o fora ainda batizado.<\/p>\n<p>Antes de correr &agrave; alcova para administrar ao menino o necess&aacute;rio<br \/>\n    sacramento, o sacerdote conheceu que se rachavam as t&aacute;buas da porta<br \/>\n    que o paraense opusera aos bandidos&#8230; Atrav&eacute;s de fendas, avistou o<br \/>\n    clar&atilde;o de alguma vela que os malfeitores haviam achado e acendido.<br \/>\n    A porta ia desprender-se das dobradi&ccedil;as!<\/p>\n<p>&#8212; Meu amigo, disse ent&atilde;o a Eust&aacute;quio, encomenda a Deus<br \/>\n    a tua alma e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah! ah! ah! ah!<\/p>\n<p>Uma gargalhada horripilante de louco, que Jo&atilde;o Caetano n&atilde;o<br \/>\n    poderia repetir no palco, retroou na sala.<\/p>\n<p>Atrav&eacute;s da escurid&atilde;o que a&iacute; havia, o padre Jorge tentou<br \/>\n    distinguir quem a soltara. Acreditou que j&aacute; estavam na sala os bandidos.<br \/>\n    N&atilde;o era isto.<\/p>\n<p>&#8212; Meu padre, continuava uma voz em que o padre Jorge reconheceu com<br \/>\n    indiz&iacute;vel dor a do seu amigo, tu queres&#8230; que eu encomende?&#8230; E a<br \/>\n    tua?&#8230; A Deus? Ah! Ah! Ah! A Deus?&#8230; A minha&#8230; j&aacute; est&aacute; encomendada!&#8230;<br \/>\n    E Branca?!&#8230;<\/p>\n<p>O acento selvagem destes voc&aacute;bulos desconexos fez o sacerdote tremer.<\/p>\n<p>&#8212; Meu Deus! Ser&aacute; castigo? exclamou ele, persignando-se com terror&#8230;<\/p>\n<p>A porta do corredor desprendeu-se. O fim chegava.<\/p>\n<p>A claridade de uma vela alumiou a sala. A essa luz, o padre Jorge conseguiu<br \/>\n    ver o seu malfadado amigo encolhido perto do sof&aacute;, como um animal espavorido;<br \/>\n    Rosalina desmaiada no ch&atilde;o; o paraense no meio de um bando de homens,<br \/>\n    combatendo como um le&atilde;o furioso, e ainda a cara do cad&aacute;ver,<br \/>\n    contemplando tudo com o esc&aacute;rnio que a morte estampara nela.<\/p>\n<p>Imediatamente por&eacute;m apagou-se a luz, e o padre p&ocirc;de somente<br \/>\n    perceber depois que a sala era o teatro de um combate horrendo, de uma luta<br \/>\n    cega. Quis, rompendo as trevas, chegar ao ber&ccedil;o do menino, cujo choro<br \/>\n    o rumor da luta abafara, mas n&atilde;o tinha avan&ccedil;ado tr&ecirc;s passos,<br \/>\n    quando uma bala desviada do meio dos combatentes o fulminou&#8230;<\/p>\n<p>Alguns minutos mais tarde, apenas dons homens andavam pela sala.<\/p>\n<p>A vela que puderam reacender deixava ver que eram um negro e um dos bandidos<br \/>\n    espanh&oacute;is. O negro era o miser&aacute;vel Jos&eacute;, que o leitor<br \/>\n    conhece, e o outro era o chefe da quadrilha dos inimigos de Eust&aacute;quio.<br \/>\n    Estes dous velhacos se tinham refugiado na cozinha durante o combate e apareciam<br \/>\n    depois de tudo acabado. Ao redor deles estavam estendidos numerosos cad&aacute;veres<br \/>\n    e Rosalina ainda desmaiada.<\/p>\n<p>Entre os cad&aacute;veres via-se o do m&iacute;sero inocente, filho de Branca,<br \/>\n    o de Eust&aacute;quio, que fora barbaramente morto sem tentar defender-se<br \/>\n    e o do paraense que ca&iacute;ra dilacerado por muitos golpes; mas depois<br \/>\n    de haver tirado a vida a cinco malvados.<\/p>\n<p>Quando Rosalina voltou a si, achou-se ao ombro de um indiv&iacute;duo, que<br \/>\n    a carregava brutalmente para as florestas. Fez um esfor&ccedil;o en&eacute;rgico<br \/>\n    para escapar das m&atilde;os que a prendiam. Foi debalde. Olhou em torno de<br \/>\n    si, procurando com os olhos o anjo de salva&ccedil;&atilde;o que tantas vezes<br \/>\n    a socorrera.<\/p>\n<p>Avistou ent&atilde;o a alguma dist&acirc;ncia um outro indiv&iacute;duo que<br \/>\n    a noute n&atilde;o deixava claramente perceber e diante dele uma sombra, que<br \/>\n    corria a agredi-lo.<\/p>\n<p>Adivinhou logo quem era a sombra.<\/p>\n<p>Quis gritar. A m&atilde;o grosseira do seu carregador tapou-lhe a boca e<br \/>\n    ela sentiu que ele deitava a correr para a mata. Fez uma contors&atilde;o<br \/>\n    desesperada, mas, exausta, deixou pender depois a cabe&ccedil;a para as costas<br \/>\n    do infame que a arrebatava&#8230;<\/p>\n<p>A sombra que Rosalina avistara era Ot&aacute;vio Dugarbon; por&eacute;m o<br \/>\n    bravo menino n&atilde;o chegava a tempo&#8230;<\/p>\n<p>Passara grande parte do dia escondido nas ribas do Iapur&aacute;, a pouca<br \/>\n    dist&acirc;ncia da habita&ccedil;&atilde;o de Eust&aacute;quio.<\/p>\n<p>A demora dos malfeitores f&ecirc;-lo crer que eles n&atilde;o apareceriam<br \/>\n    naquele dia. Deixando o seu posto, ele seguiu para S. Jo&atilde;o do Pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    onde demorou-se at&eacute; cair a noute.<\/p>\n<p>Voltou ent&atilde;o para o lugar que ocupara de dia, indo pelo rio, embarcado<br \/>\n    em uma pequena canoa, para n&atilde;o ser apercebido.<\/p>\n<p>Estava a meio caminho, quando alguns tiros long&iacute;nquos chegaram-lhe<br \/>\n    aos ouvidos. Sem demora encostou &agrave; margem a sua embarca&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    saltou em terra e, tirando da cintura uma faca, &uacute;nica arma que nessa<br \/>\n    ocasi&atilde;o levava, lan&ccedil;ou-se de carreira para a habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Eust&aacute;quio. Quando l&aacute; chegou, apenas viu dous indiv&iacute;duos,<br \/>\n    que, sem pressa, sa&iacute;am de dentro do cercado daquela habita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O fardo era Rosalina, desmaiada. Um outro homem corria na frente.<\/p>\n<p>O bandido ouviu os passos&#8230; olhou para tr&aacute;s, e, com pavor, viu aquela<br \/>\n    sombrinha que o ia acometer. Como os gladiadores da antiga Roma, saltou para<br \/>\n    o lado, fez fincar-p&eacute; e ergueu acima da cabe&ccedil;a um punhal, que<br \/>\n    tirara do seio, para baix&aacute;-lo sobre o seu agressor.<\/p>\n<p>Ot&aacute;vio, com felina agilidade, furta-se ao golpe da arma, que desce<br \/>\n    rasgando somente o ar Agacha-se. Ergue-se, cosendo-se ao corpo do malfeitor<br \/>\n    e, sem que este o espere, mergulha-lhe no peito toda a l&acirc;mina da sua<br \/>\n    faca.<\/p>\n<p>O bandido n&atilde;o deu um s&oacute; gemido. . . Caiu sobre a menina, que<br \/>\n    foi atirada ao ch&atilde;o pelo peso do corpo do seu advers&aacute;rio.<\/p>\n<p>De s&uacute;bito, Ot&aacute;vio sentiu nas costas uma dor aguda e soltou<br \/>\n    um grito involunt&aacute;rio. Antes de cair, o malfeitor apunhalara-o pelas<br \/>\n    costas. O menino levou a m&atilde;o &agrave; ferida e arrancou a arma, que<br \/>\n    os dedos de um morto j&aacute; n&atilde;o seguravam.<\/p>\n<p>Em seguida, horrorizado pela id&eacute;ia de ter sobre si um cad&aacute;ver,<br \/>\n    moveu-se bruscamente e fez rolar para um lado o peso que o oprimia.<\/p>\n<p>Nesse momento, um brado pungente veio perturbar o sil&ecirc;ncio da noite.<br \/>\n    Uma voz de crian&ccedil;a gritou ao longe:<\/p>\n<p>&#8212; Ot&aacute;vio! Ot&aacute;vio!<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; ela! &Eacute; ela! exclamou o menino em franc&ecirc;s.<\/p>\n<p>O chefe da quadrilha fugia pelo mato com Rosalina &aacute;s costas. Ot&aacute;vio<br \/>\n    quis levantar-se para socorrer a quem o chamava. O infeliz n&atilde;o teve<br \/>\n    for&ccedil;as. Erguendo-se, por um instante, caiu prostrado.<\/p>\n<p>&#8212; Meu Deus!&#8230; disse, apenas, e rompeu em solu&ccedil;os.<\/p>\n<p>&#8212; Ot&aacute;vio! Ot&aacute;vio! repetiu mais longe a voz de crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Ai! gemeu com desespero o menino.<\/p>\n<p>Por um esfor&ccedil;o inaudito, p&ocirc;s-se de p&eacute;, mas n&atilde;o<br \/>\n    conseguiu dar um passo sequer&#8230; Caiu de novo&#8230; Ficou sem movimento no ch&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Balbuciou:<\/p>\n<p>&#8212; Meu pai, est&aacute; satisfeito?<\/p>\n<p>E morreu&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ot&aacute;vio! Ot&aacute;vio!<\/p>\n<p>Estes gritos lancinantes partiram ainda uma vez do &acirc;mago das trevas,<br \/>\n    mas j&aacute; fracos&#8230; impercept&iacute;veis quase.<\/p>\n<p>Depois, mais nada&#8230; a noute a ciciar um c&acirc;ntico sobre a hecatombe.<\/p>\n<p>Alta noute, no mesmo teatro das cenas de sangue que acabamos de narrar, passou-se<br \/>\n    uma cousa indescrit&iacute;vel.<\/p>\n<p>Um homem apareceu correndo do meio da escurid&atilde;o dos bosques. Trazia<br \/>\n    nos bra&ccedil;os uma carga, que n&atilde;o parecia pesar-lhe.<\/p>\n<p>Inesperadamente ele parou.<\/p>\n<p>Trope&ccedil;ara em um objeto.<\/p>\n<p>&#8212; Mais outro?! murmurou ele, em franc&ecirc;s.<\/p>\n<p>E abaixou-se para ver em que esbarrara.<\/p>\n<p>Nessa ocasi&atilde;o o minguante da lua, levantando-se, mostrou-se no c&eacute;u<br \/>\n    e difundiu alguma luz pelo campo.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, como se essa luz viesse queim&aacute;-lo, o desconhecido deixou<br \/>\n    partir dos seus l&aacute;bios um som apenas compar&aacute;vel ao uivo derradeiro<br \/>\n    do c&atilde;o a morrer.<\/p>\n<p>&#8212; Morto! disse depois.<\/p>\n<p>O objeto em que trope&ccedil;ara era o cad&aacute;ver de Ot&aacute;vio.<\/p>\n<p>Dep&ocirc;s ent&atilde;o o seu fardo em terra e ajoelhou-se ao lado do menino<br \/>\n    morto.<\/p>\n<p>Aquele fardo era o corpo de Rosalina. O desconhecido o encontrara na floresta,<br \/>\n    despido e sacrilegamente maltratado, e o trouxera envolto no seu capote.<\/p>\n<p>Com dous estertores pronunciou dous nomes e chorando debru&ccedil;ou-se para<br \/>\n    os cad&aacute;veres.<\/p>\n<p>&#8212; Meus pobres filhos! exclamou ele.<\/p>\n<p>Em tom de desespero acrescentou: &#8211; Meu Deus! Meu Deus! Ambos assassinados!<\/p>\n<p>E, abatido pela dor, estirou-se ao lado dos dous cad&aacute;veres.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Raul Pomp&eacute;ia Cap&iacute;tulo I: Uma habita&ccedil;&atilde;o Algumas l&eacute;guas ao sul do Monte Purac&ecirc;, emanam do solo as &aacute;guas 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