{"id":116745,"date":"2017-03-30T19:30:23","date_gmt":"2017-03-30T21:30:23","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116745"},"modified":"2017-03-30T19:30:23","modified_gmt":"2017-03-30T21:30:23","slug":"o-carro-n-o-13","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-carro-n-o-13","title":{"rendered":"O Carro N.\u00ba 13"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1868<\/b><\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>A fazenda da Soledade est\u00e1 situada no centro de um rico munic\u00edpio fluminense, e pertencia h\u00e1 dez anos ao comendador Faria, que a deixou em heran\u00e7a ao \u00fanico filho que teve do primeiro matrim\u00f4nio, e que se chama o dr. Amaro de Faria. O comendador morreu em 185&#8230;, e poucos meses depois morreu a vi\u00fava, madrasta de Amaro. N\u00e3o havendo filhos nem colaterais, veio o dr. Amaro a ficar senhor e possuidor da fazenda da Soledade, com trezentos escravos, moendas de cana, grandes planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9, e vast\u00edssimas florestas de magn\u00edficas madeiras. Conta redonda, possu\u00eda o dr. Amaro de Faria uns dois mil contos e vinte oito anos de idade. Tinha uma chave de ouro para abrir todas as portas.<\/p>\n<p>Era formado em direito pela Faculdade de S. Paulo, e os cinco anos que ali passou foram os \u00fanicos em que esteve ausente da casa paterna. N\u00e3o conhecia a corte, onde apenas estivera algumas vezes de passagem. Apenas recebeu a carta de bacharel retirou-se para a fazenda, e j\u00e1 ali se achava havia cinco anos quando lhe faleceu o pai.<\/p>\n<p>Todos supuseram, apenas morreu o comendador, que o dr. Amaro continuasse a ser exclusivamente fazendeiro sem importar-se com mais coisa alguma do resto do mundo. Efetivamente eram essas as inten\u00e7\u00f5es do mo\u00e7o; o diploma de bacharel servia-lhe apenas para mostrar em qualquer tempo, se necess\u00e1rio fosse, um t\u00edtulo cient\u00edfico; mas ele n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o alguma de usar dele. O presidente da prov\u00edncia, andando um dia em viagem, hospedou-se na fazenda da Soledade, e depois de uma hora de conversa ofereceu ao dr. Amaro um cargo qualquer; mas o jovem fazendeiro recusou, dando em resposta que desejava simplesmente cultivar o caf\u00e9 e a cana sem importar-se com o resto da rep\u00fablica. O presidente dificilmente conciliou o sono, pensando em tamanha abnega\u00e7\u00e3o e indiferen\u00e7a da parte do rapaz. Uma das convic\u00e7\u00f5es do presidente era que n\u00e3o havia Cincinatos.<\/p>\n<p>Estavam as coisas neste p\u00e9, quando apareceu na fazenda da Soledade um antigo colega de Amaro, formado ao mesmo tempo que ele e possuidor de alguma fortuna.<\/p>\n<p>Amaro recebeu alegremente o companheiro, que se chamava Lu\u00eds Marcondes, e vinha da corte expressamente para visit\u00e1-lo. A recep\u00e7\u00e3o foi como costuma ser no nosso hospitaleiro interior. Tomada a primeira x\u00edcara de caf\u00e9, Marcondes disparou contra o colega esta carga de palavras:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, que \u00e9 isto? Est\u00e1s metido em corpo e alma no caf\u00e9 e no a\u00e7\u00facar? Disseram-me isto apenas cheguei \u00e0 corte, porque, n\u00e3o sei se sabes, vim h\u00e1 poucos meses de Paris.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, meu Amaro, estive em Paris, e hoje compreendo que a maior desgra\u00e7a deste mundo \u00e9 n\u00e3o ter estado naquela grande cidade. N\u00e3o imaginas, meu rico, que viver \u00e9 aquele! Ali n\u00e3o falta nada; \u00e9 pedir por boca. Corridas, bailes, teatros, caf\u00e9s, parties de plaisir, \u00e9 uma coisa ideal, \u00e9 um sonho, \u00e9 o chic&#8230; \u00c9 verdade que os cobres n\u00e3o se conservam muito tempo na algibeira. Ainda bem o correspondente n\u00e3o acaba de entregar os mil francos, j\u00e1 eles correm pela porta fora; mas vive-se. Mas, como ia dizendo, quando cheguei \u00e0 corte, a primeira not\u00edcia que me deram foi que tu estavas fazendeiro. Custou-me a acreditar. Tanto teimaram, que eu quis vir examinar a coisa com os meus pr\u00f3prios olhos. Parece que \u00e9 exato.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, respondeu Amaro. Bem sabes que eu estou acostumado a isto; aqui fui educado, e, apesar de ter estado algum tempo fora, creio que em nenhuma parte estarei t\u00e3o bem como aqui.<\/p>\n<p>\u2014 O h\u00e1bito \u00e9 uma segunda natureza, disse sentenciosamente Marcondes.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, retorquiu Amaro. Dou-me bem, e n\u00e3o acho que a vida seja m\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Que a vida seja m\u00e1? Em primeiro lugar, n\u00e3o est\u00e1 provado que isto seja vida; \u00e9 vegeta\u00e7\u00e3o. Comparo-te a um p\u00e9 de caf\u00e9; nasceste, cresceste, vives, d\u00e1s fruto, e morrer\u00e1s na perfeita ignor\u00e2ncia das coisas da vida&#8230; Para um rapaz da tua idade, que \u00e9 inteligente, e possui dois mil contos, semelhante viver equivale a um suic\u00eddio. A sociedade exige&#8230;<\/p>\n<p>A conversa foi interrompida pelo jantar, que livrou ao fazendeiro e ao leitor de um discurso de Marcondes. Na academia o jovem bacharel era conhecido pela alcunha de perorador, gra\u00e7as \u00e0 mania que ele tinha de discursar a prop\u00f3sito de tudo. Amaro ainda se lembrava da arenga que Marcondes pregou a um bilheteiro de teatro por uma quest\u00e3o de pre\u00e7o de bilhete.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>A ma\u00e7ada estava apenas adiada.<\/p>\n<p>Durante o jantar a conversa versou sobre as recorda\u00e7\u00f5es dos tempos acad\u00eamicos, e as novidades mais frescas da corte. No fim do jantar Marcondes consentiu em ir ver os engenhos e algumas obras da fazenda, em companhia de Amaro e do professor p\u00fablico da localidade, que, estando em f\u00e9rias de Natal, fora passar alguns dias com o jovem fazendeiro. O professor tinha a mania de citar os usos agr\u00edcolas dos antigos a prop\u00f3sito de cada melhoramento moderno, o que provocava um discurso de Marcondes e um bocejo de Amaro.<\/p>\n<p>Chegou a noite, e o professor foi deitar-se, menos por ter sono que por fugir \u00e0s perora\u00e7\u00f5es de Marcondes. Este e Amaro ficaram s\u00f3s na sala de jantar, para onde vieram caf\u00e9 e charutos, e entraram ambos a conversar de novo sobre os tempos da academia. Cada um deles deu not\u00edcia dos companheiros de ano, os quais andavam todos dispersados, uns ju\u00edzes municipais, outros presidentes de prov\u00edncia, outros deputados, outros advogados, muitos in\u00fateis, entre os quais o jovem Marcondes, que dizia ser o homem mais feliz da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>\u2014 E a receita \u00e9 simples, dizia ele a Amaro; deixa a fazenda, faze uma viagem, e ver\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso deixar a fazenda.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? N\u00e3o \u00e9s bastante rico?<\/p>\n<p>\u2014 Sou; mas, enfim, a minha felicidade \u00e9 esta. Demais, eu aprendi com meu pai a n\u00e3o deixar a realidade pelo inc\u00f3gnito; o que eu n\u00e3o conhe\u00e7o pode ser muito bom; mas se o que eu tenho \u00e9 igualmente bom, nada de arrisc\u00e1-lo para investigar o desconhecido.<\/p>\n<p>\u2014 Bela teoria! exclamou Marcondes pondo no pires a x\u00edcara de caf\u00e9 que ia levando \u00e0 boca; desse modo, se o mundo pensasse sempre assim, ainda hoje vest\u00edamos as peles dos primeiros homens. Colombo n\u00e3o teria descoberto a Am\u00e9rica; o capit\u00e3o Cook&#8230;<\/p>\n<p>Amaro interrompeu esta amea\u00e7a de discurso, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o quero descobrir nada, nem imponho os meus sentimentos como opini\u00e3o. Estou bem; por que motivo irei eu agora ver se encontro melhor felicidade, arriscando-me a n\u00e3o encontr\u00e1-la?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s um carran\u00e7a! N\u00e3o falemos nisto.<\/p>\n<p>Cessou, com efeito, a discuss\u00e3o. Entretanto Marcondes, ou de prop\u00f3sito, ou por vaidade \u2014 talvez ambos os motivos \u2014, entrou a contar a Amaro as suas intermin\u00e1veis aventuras no pa\u00eds e no estrangeiro. A narrativa ele era uma mistura de hist\u00f3ria e de f\u00e1bula, de verdade e de inven\u00e7\u00e3o, que entreteve largamente o esp\u00edrito de Amaro at\u00e9 alta noite.<\/p>\n<p>Marcondes conservou-se na fazenda da Soledade cerca de oito dias, e jamais cessou de conversar acerca do contraste que oferecia aquilo que ele chamava vida com o que lhe parecia simples e absurda vegeta\u00e7\u00e3o. O caso \u00e9 que no fim de oito dias tinha conseguido que Amaro fosse viajar \u00e0 Europa com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Quero obsequiar-te, dizia Amaro a Marcondes.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1s de agradecer-me, respondia este.<\/p>\n<p>Marcondes foi para a corte, esperou pelo jovem fazendeiro, que da\u00ed a um m\u00eas a\u00ed se achou, tendo entregue a fazenda a um velho amigo de seu pai. No primeiro paquete embarcaram os dois colegas da academia, caminho de Bord\u00e9us.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Importa-nos pouco, e mesmo nada, o saber da vida que passaram os dois viajantes na Europa. Amaro, que tinha tend\u00eancias sedent\u00e1rias, apenas chegou a Paris a\u00ed ficou, e como Marcondes n\u00e3o desejava passar al\u00e9m, n\u00e3o o importunou por mais.<\/p>\n<p>Uma capital como aquela tem sempre que ver e admirar: Amaro ocupou-se com o estudo da sociedade em que vivia, dos monumentos, dos melhoramentos, dos costumes, das artes, de tudo. Marcondes, que tinha outras tend\u00eancias, tratou de levar o amigo para o centro dos que ele chamava prazeres celestes. Amaro n\u00e3o resistiu, e foi; mas tudo cansa, e o fazendeiro n\u00e3o encontrou em nada daquilo a felicidade que o amigo lhe anunciara. No fim de um ano, Amaro determinou voltar para a Am\u00e9rica, com grande desgosto de Marcondes, que em v\u00e3o procurou ret\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Voltou Amaro aborrecido com ter gasto um ano sem vantagem alguma, a n\u00e3o ser o ter visto e admirado uma grande capital. Mas a felicidade que ele devia ter? Essa nem por sombra.<\/p>\n<p>\u2014 Fiz mal, dizia ele consigo, em ter cedido aos conselhos. Vim em busca do desconhecido. \u00c9 uma li\u00e7\u00e3o que me h\u00e1 de aproveitar.<\/p>\n<p>Embarcou, e chegou ao Rio de Janeiro, com grande alegria no cora\u00e7\u00e3o. O seu desejo era seguir logo para a fazenda da Soledade. Mas lembrou-se de que existiam na corte algumas fam\u00edlias da amizade da sua, a quem cumpria ir falar antes de partir para o interior.<\/p>\n<p>\u2014 Quinze dias \u00e9 bastante, pensou ele.<\/p>\n<p>Meteu-se num hotel, e logo no dia seguinte come\u00e7ou a romaria das visitas.<\/p>\n<p>Uma das fam\u00edlias a quem Amaro visitou era a de um fazendeiro de Minas, que em virtude de v\u00e1rios processos que teve por motivo de rela\u00e7\u00f5es comerciais viu reduzidos os seus bens, e mudara-se para a corte, onde vivia com a fortuna que lhe restava. Chamava-se Carvalho.<\/p>\n<p>A\u00ed achou Amaro, como fazendo parte da fam\u00edlia, uma mo\u00e7a de vinte e cinco anos, de nome Antonina. Era vi\u00fava. Estava em casa de Carvalho, porque este fora \u00edntimo amigo do pai dela, e como este j\u00e1 n\u00e3o existisse, e ela n\u00e3o quisesse viver s\u00f3, depois de vi\u00fava, Carvalho recebeu-a em casa, onde era tratada como filha mais velha. Antonina tinha alguma coisa de seu. Era prendada, espirituosa, elegante. Carvalho admirava sobretudo a sua penetra\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito, e n\u00e3o cessava de elogiar-lhe essa qualidade, que para ele era suprema.<\/p>\n<p>Amaro Faria foi l\u00e1 duas vezes em tr\u00eas dias, como simples visita; mas no quarto dia sentiu j\u00e1 em si uma necessidade de l\u00e1 voltar. Se tivesse partido para a fazenda era poss\u00edvel que n\u00e3o lhe lembrasse mais nada; mas a terceira visita produziu outra, e outras, at\u00e9 que no fim de quinze dias, em vez de partir para a ro\u00e7a, Amaro dispunha-se a residir largo tempo na corte.<\/p>\n<p>Estava namorado.<\/p>\n<p>Antonina merecia ser amada por um rapaz como Faria. Sem ser deslumbrantemente formosa, tinha umas fei\u00e7\u00f5es regulares, uns olhos ardentes, e era muito simp\u00e1tica. Gozava de geral considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O rapaz era correspondido? Era. A jovem correspondeu logo ao afeto do fazendeiro, com certo ardor que ali\u00e1s o mancebo partilhava.<\/p>\n<p>Quando Carvalho desconfiou do namoro, disse a Amaro Faria:<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei que voc\u00ea tem namoro c\u00e1 em casa.<\/p>\n<p>\u2014 Eu?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, voc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim, \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 nada de mau nisto. Eu apenas quero dizer-lhe que tenho olho vivo, e nada me escapa. A rapariga merece.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Se merece! Quer saber de uma coisa? Eu j\u00e1 aben\u00e7\u00f4o aquele maldito Marcondes que me arrancou l\u00e1 da fazenda, pois que eu venho achar aqui a minha felicidade.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o \u00e9 decidido?<\/p>\n<p>\u2014 Se \u00e9! Pensando bem, eu n\u00e3o posso deixar de casar-me. Quero ter uma vida calma, \u00e9 o meu natural. Achando uma mulher que n\u00e3o exija modas nem bailes estou contente. Creio que esta \u00e9 assim. Al\u00e9m disso \u00e9 bonita&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E mais que tudo discreta, acrescentou Carvalho.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o caso.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! Posso avis\u00e1-la de que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Toque-lhe nisso&#8230;<\/p>\n<p>Carvalho trocou estas palavras com Amaro na tarde em que este l\u00e1 jantou. Na mesma noite, quando Amaro se despediu, disse-lhe Carvalho em particular:<\/p>\n<p>\u2014 Toquei-lhe naquilo: a disposi\u00e7\u00e3o \u00e9 excelente!<\/p>\n<p>Amaro foi para casa disposto a fazer no dia seguinte a sua proposta de casamento a Antonina.<\/p>\n<p>E, com efeito, no dia seguinte apareceu Amaro em casa de Carvalho, como costumava, e a\u00ed, em conversa com a vi\u00fava, perguntou-lhe francamente se queria casar com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Ama-me ent\u00e3o? Perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Deve t\u00ea-lo percebido, porque eu tamb\u00e9m percebi que sou amado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, disse ela com a voz um pouco tr\u00eamula.<\/p>\n<p>\u2014 Aceita-me por marido?<\/p>\n<p>\u2014 Aceito, disse ela. Mas repita que me ama.<\/p>\n<p>\u2014 Cem vezes, mil vezes, se quer. Amo-a muito.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o ser\u00e1 um fogo passageiro?<\/p>\n<p>\u2014 Se eu empenho a minha vida inteira!<\/p>\n<p>\u2014 Todos a empenham; mas depois&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Come\u00e7a ent\u00e3o por uma d\u00favida?<\/p>\n<p>\u2014 Um receio natural, um receio de quem ama&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me conhece ainda; mas ver\u00e1 que eu digo a verdade. \u00c9 minha, sim?<\/p>\n<p>\u2014 Perante Deus e os homens, respondeu Antonina.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Estando as coisas assim tratadas, n\u00e3o havendo obst\u00e1culo algum, fixou-se o casamento para dali a dois meses.<\/p>\n<p>Amaro j\u00e1 aben\u00e7oava o haver sa\u00eddo da fazenda, e nesse sentido escreveu uma carta a Marcondes agradecendo-lhe a tenta\u00e7\u00e3o que exercera nele.<\/p>\n<p>A carta terminava assim:<\/p>\n<p>Mefist\u00f3feles do bem, eu te agrade\u00e7o as tuas inspira\u00e7\u00f5es. Na Soledade havia tudo, menos a mulher que agora encontrei.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, n\u00e3o aparecia a menor sombra no c\u00e9u da vida do nosso her\u00f3i. Parecia imposs\u00edvel que alguma coisa viesse turv\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Pois veio.<\/p>\n<p>Uma tarde, entrando Amaro Faria para jantar achou uma carta com o selo do correio.<\/p>\n<p>Abriu-a e leu-a.<\/p>\n<p>A carta dizia isto:<\/p>\n<p>Uma pessoa que o viu h\u00e1 dias no Teatro L\u00edrico, num camarote da segunda ordem, \u00e9 quem escreve esta carta.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem atribua o amor a simpatias el\u00e9tricas; n\u00e3o tenho nada com essas investiga\u00e7\u00f5es; mas o que me acontece faz crer que os que adotam aquela teoria tenham raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que o via e logo, sem saber como, nem por que raz\u00e3o, senti-me dominada pelo seu olhar.<\/p>\n<p>Passei uma noite horr\u00edvel.<\/p>\n<p>O senhor estava ao p\u00e9 de duas senhoras, e conversava ternamente com uma delas. \u00c9 sua noiva? \u00e9 sua mulher? N\u00e3o sei; mas seja o que for, bastou-me v\u00ea-lo assim, para odiar o objeto das suas aten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Talvez que haja loucura neste passo que dou; \u00e9 poss\u00edvel, porque eu perdi a raz\u00e3o. Amo-o doidamente, e bem quisera poder dizer-lhe em face. \u00c9 o que nunca farei. Os meus deveres obrigam-me a esta reserva; estou condenada a am\u00e1-lo sem confessar que o amo.<\/p>\n<p>Basta, por\u00e9m, que o senhor saiba que h\u00e1 uma mulher, entre todas as desta capital, que apenas o v\u00ea estremece de j\u00fabilo e de desespero, de amor e de \u00f3dio, por n\u00e3o poder ser sua, unicamente sua.<\/p>\n<p>Amaro Faria leu e releu esta carta. N\u00e3o conhecia a letra, nem podia imaginar quem fosse a autora. Soube apenas o que lhe dizia a carta; nada mais.<\/p>\n<p>Passado por\u00e9m esse primeiro movimento de curiosidade, o fazendeiro da Soledade guardou a carta, e foi passar a noite em casa de Carvalho, onde Antonina o recebeu com a ternura do costume.<\/p>\n<p>Amaro quis referir a aventura da carta; mas receando que um fato t\u00e3o inocente pudesse causar infundados ci\u00fames \u00e0 futura esposa, n\u00e3o disse palavra a esse respeito.<\/p>\n<p>Da\u00ed a dois dias nova carta o esperava.<\/p>\n<p>Desta vez Amaro abriu a carta apressadamente, por ter visto que a letra era a mesma.<\/p>\n<p>O romance come\u00e7ava a interess\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Dizia a carta:<\/p>\n<p>Foi in\u00fatil o meu protesto. Quis deixar de escrever-lhe mais; apesar de tudo, sinto que n\u00e3o posso deixar de faz\u00ea-lo. \u00c9 uma necessidade fatal&#8230;<\/p>\n<p>Ah! os homens ignoram quanto esfor\u00e7o \u00e9 preciso a uma mulher para conter-se nos limites do dever.<\/p>\n<p>Hesitei muito em escrever-lhe a primeira carta, e esta mesmo n\u00e3o sei se lha remeterei; mas o amor triunfou e triunfar\u00e1 sempre, porque eu j\u00e1 n\u00e3o vivo sen\u00e3o pela sua lembran\u00e7a! De noite e de dia, a todas as horas, em todas as circunst\u00e2ncias, a sua pessoa est\u00e1 sempre presente ao meu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Sei o seu nome, sei a sua posi\u00e7\u00e3o. Sei mais que \u00e9 um homem de bem. O senhor \u00e9 que n\u00e3o sabe quem eu sou, e pensar\u00e1 ao ler estas cartas, que eu ando em busca de um romance que me rejuvenes\u00e7a o cora\u00e7\u00e3o e as fei\u00e7\u00f5es. N\u00e3o; sou mo\u00e7a, e posso afirmar que sou bela. N\u00e3o \u00e9 porque mo digam; poder\u00e3o querer lisonjear-me; mas o que n\u00e3o \u00e9 lisonja \u00e9 o murm\u00fario de admira\u00e7\u00e3o que eu ou\u00e7o apenas entro numa sala ou passo em alguma rua.<\/p>\n<p>Desculpe se lhe falo de mim com esta linguagem.<\/p>\n<p>O que importa saber \u00e9 que eu o amo perdidamente, e que a ningu\u00e9m mais perten\u00e7o, nem pertencerei.<\/p>\n<p>Uma carta sua, uma linha, uma lembran\u00e7a, para que eu tenha uma rel\u00edquia e um talism\u00e3.<\/p>\n<p>Se quiser fazer esta gra\u00e7a em favor de uma mulher desgra\u00e7ada, escreva a P. L., e mande p\u00f4r no correio, que eu l\u00e1 mandarei buscar.<\/p>\n<p>Adeus! adeus!<\/p>\n<p>Amaro Faria n\u00e3o estava acostumado a romances destes, nem eles s\u00e3o comuns na vida.<\/p>\n<p>A primeira carta produzira-lhe uma certa curiosidade, que ali\u00e1s passou; mas a segunda j\u00e1 lhe produzira mais; sentia-se atra\u00eddo para o misterioso e o desconhecido, isso a que ele fugira sempre, contentando-se com a realidade pr\u00e1tica das coisas.<\/p>\n<p>\u2014 Devo escrever-lhe? perguntava ele consigo. \u00c9 positivo que esta mulher ama-me; n\u00e3o se escrevem cartas assim. \u00c9 bonita, porque o confessa sem medo de prov\u00e1-lo algum dia. Mas devo escrever-lhe?<\/p>\n<p>Nisto batem palmas.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Era Lu\u00eds Marcondes que chegava da Europa.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto? j\u00e1 de volta? perguntou-lhe Amaro.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade; para variar. Eu \u00e9 que me admiro de achar-te na corte, quando j\u00e1 te fazia na fazenda.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o fui \u00e0 Soledade depois que voltei; e vais espantar-te da raz\u00e3o; vou casar-me.<\/p>\n<p>\u2014 Casar-te!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Com a m\u00e3o esquerda, morganaticamente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, publicamente, e com a m\u00e3o direita.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 assombroso.<\/p>\n<p>\u2014 Dizes isso porque n\u00e3o conheces a minha noiva; \u00e9 um anjo.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o dou-te os meus parab\u00e9ns.<\/p>\n<p>\u2014 Hei de apresentar-te hoje. E para festejar a tua chegada jantas comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u00c0 mesa do jantar, Amaro contou a Marcondes a hist\u00f3ria das cartas; e leu-lhes ambas.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! disse Marcondes. Que lhe respondeste?<\/p>\n<p>\u2014 Nada.<\/p>\n<p>\u2014 Nada! \u00c9s um grosseir\u00e3o e um tolo. Pois uma mulher escreve-te, mostra-se apaixonada por ti, e tu nada lhe respondes? N\u00e3o far\u00e1 isso o Marcondes. Desculpa se te falo em verso&#8230; O velho Hor\u00e1cio&#8230;<\/p>\n<p>Estava iminente um discurso. Faria, para atalh\u00e1-lo, apresentou-lhe a lista, e Marcondes passou rapidamente do velho Hor\u00e1cio a um assado com batatas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, continuou o amigo de Amaro, n\u00e3o me dir\u00e1s por que motivo lhe n\u00e3o respondeste?<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei l\u00e1. Primeiramente porque n\u00e3o estou acostumado a esta esp\u00e9cie de romances vivos, come\u00e7ando por cartas an\u00f4nimas, e depois porque vou casar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A isso respondo eu que uma vez \u00e9 a primeira, e que o ires casar n\u00e3o impede nada. Indo daqui para Botafogo, n\u00e3o h\u00e1 motivo nenhum que me impe\u00e7a de entrar no Passeio P\u00fablico ou na Biblioteca Nacional&#8230; Queres tu ceder-me o romance?<\/p>\n<p>\u2014 Isso nunca: seria uma deslealdade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o responde.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que lhe hei de dizer?<\/p>\n<p>\u2014 Dize-lhe que a amas.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 imposs\u00edvel; ela n\u00e3o pode acreditar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pateta! disse Marcondes pondo vinho nos c\u00e1lices. Dize-lhe que a simples leitura das cartas te puseram a cabe\u00e7a a arder, e que j\u00e1 sentes que h\u00e1s de vir a am\u00e1-la, se j\u00e1 n\u00e3o a amas&#8230; e neste sentido escreve-lhe tr\u00eas ou quatro laudas.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o achas que eu devo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida alguma.<\/p>\n<p>\u2014 Para falar a verdade eu tenho certa curiosidade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois avante.<\/p>\n<p>Amaro escreveu nessa mesma tarde uma carta concebida nestes termos, que Marcondes aprovou integralmente:<\/p>\n<p>Senhora. \u2014 Quem quer que seja, \u00e9 uma alma grande e um cora\u00e7\u00e3o de fogo. S\u00f3 um grande amor pode aconselhar um passo destes t\u00e3o arriscado.<\/p>\n<p>Li e reli as suas duas cartas; e hoje, quer que lhe diga? penso nelas exclusivamente; fazem-me o efeito de um sonho. Eu pergunto a mim mesmo se \u00e9 poss\u00edvel que eu inspirasse tal amor, e agrade\u00e7o aos deuses o ter-me demorado aqui na corte, pois que tive ocasi\u00e3o de ser feliz.<\/p>\n<p>Na minha solid\u00e3o as suas cartas s\u00e3o um \u00edris de esperan\u00e7a e de felicidade.<\/p>\n<p>Mas eu seria mais completamente feliz se pudesse conhec\u00ea-la; se me fosse dado v\u00ea-la de perto, adorar sob a forma humana este mito que a minha imagina\u00e7\u00e3o est\u00e1 criando.<\/p>\n<p>Ousarei esper\u00e1-lo?<\/p>\n<p>\u00c9 j\u00e1 grande atrevimento conceber semelhante id\u00e9ia; mas espero que me perdoar\u00e1, porque o amor perdoa tudo.<\/p>\n<p>Em qualquer caso, fique certa de que eu sinto-me com for\u00e7as para corresponder ao seu amor, e ador\u00e1-la como merece.<\/p>\n<p>Uma palavra sua, e ver-me-\u00e1 correr por entre os mais insuper\u00e1veis obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>A carta foi para o correio com as indica\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias; e Amaro, que ainda hesitou no momento de mand\u00e1-la, dirigiu-se \u00e0 noite para casa da noiva em companhia de Lu\u00eds Marcondes.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Antonina recebeu o noivo com a mesma alegria do costume. Marcondes agradou a todas as pessoas da casa pelo g\u00eanio galhofeiro que tinha, e apesar da tend\u00eancia para os discursos intermin\u00e1veis.<\/p>\n<p>Quando, pelas onze horas e meia da noite, sa\u00edram de casa de Carvalho, Marcondes apressou-se a dizer ao amigo:<\/p>\n<p>\u2014 A tua noiva \u00e9 linda.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o achas?<\/p>\n<p>\u2014 Decerto. E parece que te quer muito&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 por isso que eu lamento ter escrito aquela carta, disse Amaro suspirando.<\/p>\n<p>\u2014 Olha que parvo! exclamou Marcondes. Por que motivo h\u00e1 de Deus dar nozes a quem n\u00e3o tem dentes?<\/p>\n<p>\u2014 Acreditas que ela responda?<\/p>\n<p>\u2014 Se responde! Eu estou traquejado nisto, meu rico!<\/p>\n<p>\u2014 Que responder\u00e1 ela?<\/p>\n<p>\u2014 Mil coisas bonitas.<\/p>\n<p>\u2014 Afinal em que dar\u00e1 tudo isto? perguntou Amaro. Eu creio que ela gosta de mim&#8230; N\u00e3o te parece?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 te disse que sim!<\/p>\n<p>\u2014 Estou ansioso por ver a resposta.<\/p>\n<p>\u2014 E eu tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Marcondes dizia consigo mesmo:<\/p>\n<p>\u2014 Era bem bom que eu tomasse para mim este romance, porque o palerma estraga tudo.<\/p>\n<p>Amaro percebeu que o amigo hesitava em dizer-lhe alguma coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Em que pensas? perguntou-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Penso que tu \u00e9s um palerma; e sou capaz de continuar o teu romance por minha conta.<\/p>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o! j\u00e1 agora deixa-me acabar. Vamos ver que resposta vem.<\/p>\n<p>\u2014 Quero que me ajudes, sim?<\/p>\n<p>\u2014 Pronto, com a condi\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1s de ser tolo.<\/p>\n<p>Separaram-se.<\/p>\n<p>Amaro foi para casa, e tarde conciliou o sono. A hist\u00f3ria das cartas enchia-lhe o esp\u00edrito; imaginava a mulher misteriosa, constru\u00eda dentro de si uma figura ideal; dava-lhe cabelos de ouro&#8230;<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima carta da misteriosa mulher era um hino de amor e de alegria; ela agradecia ao seu amado aquelas linhas; prometia que s\u00f3 deixaria a carta quando morresse.<\/p>\n<p>Havia por\u00e9m dois per\u00edodos que aguaram o prazer de Amaro Faria. Um dizia assim:<\/p>\n<p>H\u00e1 dias vi-o passar na rua do Ouvidor com uma fam\u00edlia. Disseram-me que o senhor vai casar com uma das mo\u00e7as. Sofri horrivelmente; vai casar, quer dizer que a ama&#8230; e esta certeza mata-me!<\/p>\n<p>O outro per\u00edodo pode resumir-se a estes termos:<\/p>\n<p>Quanto ao pedido que me faz de querer ver-me, respondo-lhe que n\u00e3o h\u00e1 de ver-me nunca; nunca, ouviu? Basta que saiba que eu o amo, muito mais do que h\u00e1 de am\u00e1-lo a vi\u00fava Antonina. Perca a esperan\u00e7a de ver-me.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s vendo, disse Amaro Faria a Marcondes mostrando-lhe a carta, est\u00e1 tudo perdido.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! pateta! disse-lhe Marcondes. Tu n\u00e3o v\u00eas que esta mulher n\u00e3o diz o que sente? Pois acreditas que isto seja a express\u00e3o exata do pensamento dela? Acho a situa\u00e7\u00e3o excelente para responderes; trata bem o per\u00edodo do teu casamento, e insiste de novo no desejo de contempl\u00e1-la.<\/p>\n<p>Amaro Faria aceitou facilmente este conselho; o seu esp\u00edrito o predispunha para aceit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>No dia seguinte uma nova ep\u00edstola do fazendeiro da Soledade foi para a caixa do correio.<\/p>\n<p>Os pontos capitais da carta foram tratados por m\u00e3o de mestre. O instinto de Amaro supria-lhe a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 noiva, dizia ele que era exato que ia casar-se, e que naturalmente a mo\u00e7a com quem o viu a sua inc\u00f3gnita amadora era Antonina; entretanto, se era certo que o casamento fazia-se por inclina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era de estranhar que um novo amor viesse substituir aquele; e a pr\u00f3pria demora do enlace era uma prova de que o destino lhe preparava uma felicidade maior no amor da autora das cartas.<\/p>\n<p>Por fim, Amaro pedia instantemente para v\u00ea-la, ainda que fosse um minuto, porque, dizia ele, queria guardar as fei\u00e7\u00f5es que devia adorar eternamente.<\/p>\n<p>A inc\u00f3gnita respondeu, e a carta dela era um composto de expans\u00f5es e retic\u00eancias, protestos e negativas.<\/p>\n<p>Marcondes animava o abatido e recruta Amaro Faria, que em mais duas cartas resumiu a maior for\u00e7a de eloq\u00fc\u00eancia de que podia dispor.<\/p>\n<p>A \u00faltima produziu o desejado efeito. A misteriosa correspondente terminava a sua resposta com estas textuais palavras:<\/p>\n<p>Consinto em que me veja, mas apenas um minuto. Irei com a minha criada, antes amiga que criada, em um carro, no dia 15, esper\u00e1-lo na praia do Flamengo, \u00e0s sete horas da manh\u00e3. Para que se n\u00e3o engane, o carro tem o n\u00famero 13; \u00e9 o de um cocheiro que j\u00e1 esteve ao meu servi\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Que te dizia eu? perguntou Marcondes ao amigo quando este lhe mostrou esta resposta. Se n\u00e3o estivesse eu aqui l\u00e1 se te ia por \u00e1gua abaixo este romance. Meu caro, dizem que a vida \u00e9 um caminho cheio de espinhos e flores; se \u00e9 assim, acho tolice que um homem n\u00e3o apanhe as flores que encontra.<\/p>\n<p>Desta vez Marcondes p\u00f4de fazer tranq\u00fcilamente o discurso; porque Amaro Faria, todo entregue \u00e0s emo\u00e7\u00f5es que a carta lhe produzia, n\u00e3o procurou atalh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Enfim, hoje s\u00e3o 13, disse Marcondes; 15 \u00e9 o dia marcado. Se for bonita como diz, v\u00ea se foges com ela; o paquete do Rio da Prata sai a 23, e a tua fazenda \u00e9 um quadril\u00e1tero.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea que letra fina! e que perfume!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem d\u00favida; \u00e9 uma mulher elegante. O que eu desejo \u00e9 saber o resultado; no dia 15 vou esperar em tua casa.<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>Rompeu finalmente o dia 15, ansiosamente esperado por Amaro Faria.<\/p>\n<p>O jovem fazendeiro perfumou-se e enfeitou-se o mais que p\u00f4de. Estava ador\u00e1vel. Depois de um \u00faltimo olhar lan\u00e7ado ao espelho, Amaro Faria saiu e entrou num t\u00edlburi.<\/p>\n<p>Tinha calculado o tempo de l\u00e1 chegar; mas, como todo o namorado, chegou um quarto de hora antes.<\/p>\n<p>Deixou o t\u00edlburi a certa dist\u00e2ncia, e entrou a passear ao longo da praia.<\/p>\n<p>De cada vez que assomava um carro ao longe, Amaro Faria sentia-se enfraquecer; mas o carro passava, e em vez do n\u00famero feliz trazia um 245 ou 523, que o deixava em profunda tristeza.<\/p>\n<p>Amaro consultava o rel\u00f3gio de minuto a minuto.<\/p>\n<p>Afinal assoma ao longe um carro que andava vagarosamente como devem andar os carros que entram em tais mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 este? disse Amaro consigo.<\/p>\n<p>O carro aproximava-se com lentid\u00e3o e vinha fechado, de maneira que ao passar junto de Amaro, este n\u00e3o p\u00f4de ver quem ia dentro.<\/p>\n<p>Mas apenas passou, Amaro leu o n\u00famero 13.<\/p>\n<p>As letras pareceram-lhe de fogo.<\/p>\n<p>Foi imediatamente atr\u00e1s; o carro parou dali a vinte passos. Amaro aproximou-se e bateu na portinhola.<\/p>\n<p>A portinhola abriu-se.<\/p>\n<p>Havia dentro duas mulheres, ambas tinham um v\u00e9u na cabe\u00e7a, de maneira que Amaro n\u00e3o podia distinguir as suas fei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Sou eu! disse ele timidamente. Prometeu-me que eu a veria&#8230;<\/p>\n<p>E dizendo isto dirigia-se alternadamente para uma e outra, pois n\u00e3o sabia qual delas era a misteriosa correspondente.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea-la somente, e irei com a sua imagem no meu cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Uma das mulheres descobriu o rosto.<\/p>\n<p>\u2014 Veja! disse ela.<\/p>\n<p>Amaro recuou um passo.<\/p>\n<p>Era Antonina.<\/p>\n<p>A vi\u00fava continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Aqui est\u00e3o as suas cartas; lucrei muito. Como depois de casada n\u00e3o ser\u00e1 tempo de arrepender-se, foi bom que o conhecesse agora mesmo. Adeus.<\/p>\n<p>Fechou a portinhola, e o carro partiu.<\/p>\n<p>Amaro ficou alguns minutos no mesmo lugar, olhando sem ver, e com \u00edmpetos de correr atr\u00e1s do carro; mas era imposs\u00edvel apanh\u00e1-lo o mais ligeiro t\u00edlburi, porque o carro, levado a galope, ia longe.<\/p>\n<p>Amaro chamou de novo o seu t\u00edlburi e voltou para a cidade.<\/p>\n<p>Apenas chegou \u00e0 casa, saiu-lhe ao encontro o jovem Marcondes, com um sorriso nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, \u00e9 bonita?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o diabo! deixa-me!<\/p>\n<p>Instado por Marcondes, o fazendeiro da Soledade contou tudo ao amigo, que o consolou como p\u00f4de, mas saiu de l\u00e1 rindo \u00e0s gargalhadas.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>Amaro voltou para a fazenda.<\/p>\n<p>Quando entrava pelo port\u00e3o da Soledade foi dizendo consigo estas filos\u00f3ficas palavras:<\/p>\n<p>\u2014 Volto ao meu caf\u00e9; sempre que fui em busca do desconhecido dei-me mal; agora tranco as portas e viverei no meio das minhas planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1868 I A fazenda da Soledade est\u00e1 situada no centro de um rico munic\u00edpio fluminense, e pertencia h\u00e1 dez anos ao comendador Faria, que a deixou em heran\u00e7a ao \u00fanico filho que teve do primeiro matrim\u00f4nio, e que se chama o dr. 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