{"id":116743,"date":"2017-03-30T19:28:13","date_gmt":"2017-03-30T21:28:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116743"},"modified":"2017-03-30T19:28:13","modified_gmt":"2017-03-30T21:28:13","slug":"o-capitao-mendonca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca","title":{"rendered":"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1870<\/b><\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Estando um pouco arrufado com a dama dos meus pensamentos, achei-me eu uma noite sem destino nem vontade de preencher o tempo alegremente, como conv\u00e9m em tais situa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o queria ir para casa porque seria entrar em luta com a solid\u00e3o e a reflex\u00e3o, duas senhoras que se encarregam de p\u00f4r termo a todos os arrufos amorosos.<\/p>\n<p>Havia espet\u00e1culo no Teatro de S. Pedro. N\u00e3o quis saber que pe\u00e7a se representava; entrei, comprei uma cadeira e fui tomar conta dela, justamente quando se levantava o pano para come\u00e7ar o primeiro ato. O ato prometia; come\u00e7ava por um homic\u00eddio e acabava por um juramento. Havia uma menina, que n\u00e3o conhecia pai nem m\u00e3e, e era arrebatada por um embu\u00e7ado que eu suspeitei ser a m\u00e3e ou o pai da menina. Falava-se vagamente de um marqu\u00eas inc\u00f3gnito, e aparecia a orelha de um segundo e pr\u00f3ximo assassinato na pessoa de uma condessa velha. O ato acabou com muitas palmas.<\/p>\n<p>Apenas caiu o pano houve a balb\u00fardia do costume; os espectadores marcavam as cadeiras e sa\u00edam para tomar ar. Eu, que felizmente estava em lugar onde n\u00e3o podia ser incomodado, estendi as pernas e entrei a olhar para o pano da boca, no qual, sem esfor\u00e7o da minha parte, apareceu a minha arrufada senhora com os punhos fechados e amea\u00e7ando-me com olhos furiosos.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe parece a pe\u00e7a, sr. Amaral?<\/p>\n<p>Voltei-me para o lado de onde ouvira proferir o meu nome. Estava \u00e0 minha esquerda um sujeito, j\u00e1 velho, vestido com uma sobrecasaca militar, e sorrindo amavelmente para mim.<\/p>\n<p>\u2014 Admira-se de lhe saber o nome? perguntou o sujeito.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito, respondi eu; n\u00e3o me lembro de o ter visto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A mim nunca me viu; cheguei ontem do Rio Grande do Sul. Tamb\u00e9m eu nunca o tinha visto, e no entanto conheci-o logo.<\/p>\n<p>\u2014 Adivinho, respondi; dizem-me que me pare\u00e7o muito com meu pai. Conheceu-o, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Pudera! fomos companheiros d\u2019armas de meu pai, faziam com que a companhia dele fosse naquele momento mais aceit\u00e1vel que a de outro qualquer.<\/p>\n<p>Al\u00e9m destas raz\u00f5es todas, a vida que eu levava era t\u00e3o mon\u00f3tona que a divers\u00e3o do capit\u00e3o Mendon\u00e7a devia encher uma boa p\u00e1gina com mat\u00e9ria nova. Digo a divers\u00e3o do capit\u00e3o Mendon\u00e7a, porque o meu companheiro tinha n\u00e3o sei que no gesto e nos olhos que me parecia exc\u00eantrico e original. Encontrar um original ao meio de tantas c\u00f3pias de que anda farta a vida humana, n\u00e3o \u00e9 uma fortuna?<\/p>\n<p>Acompanhei, portanto, o meu capit\u00e3o, que continuou a falar durante o caminho todo, arrancando-me apenas de longe em longe um monoss\u00edlabo.<\/p>\n<p>No fim de algum tempo paramos defronte de uma casa velha e escura.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos entrar, disse Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Que rua \u00e9 esta? perguntei eu.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o sabe? Oh! como anda com a cabe\u00e7a a juros! Esta \u00e9 a Rua da Guarda Velha.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>O velho bateu tr\u00eas pancadas; da\u00ed a alguns segundos rangia a porta nos gonzos e n\u00f3s entr\u00e1vamos num corredor escuro e \u00famido.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o trouxeste luz? perguntou Mendon\u00e7a a algu\u00e9m que eu n\u00e3o via.<\/p>\n<p>\u2014 Vim com pressa.<\/p>\n<p>\u2014 Bem; fecha a porta. D\u00ea c\u00e1 a m\u00e3o, sr. Amaral; esta entrada \u00e9 um pouco esquisita, mas l\u00e1 em cima estaremos melhor.<\/p>\n<p>Dei-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 tr\u00eamula, observou o capit\u00e3o Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu tremia, com efeito; pela primeira vez surgiu-me no esp\u00edrito a suspeita de que o pretendido amigo de meu pai n\u00e3o fosse mais que um ladr\u00e3o, e aquilo uma ratoeira armada aos n\u00e9scios.<\/p>\n<p>Mas era tarde para retroceder; qualquer demonstra\u00e7\u00e3o de medo seria pior. Por isso, respondi alegremente:<\/p>\n<p>\u2014 Se lhe parecer que n\u00e3o h\u00e1 de tremer quem entre por um corredor como este, o qual, haja de perdoar, parece o corredor do inferno.<\/p>\n<p>\u2014 Quase acertou, disse o capit\u00e3o, guiando-me pela escada acima.<\/p>\n<p>\u2014 Quase?<\/p>\n<p>\u2014 Sim; n\u00e3o \u00e9 o inferno, mas \u00e9 o purgat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Estremeci ao ouvir estas \u00faltimas palavras; todo o meu sangue precipitou-se para o cora\u00e7\u00e3o, que come\u00e7ou a bater apressado. A singularidade da figura do capit\u00e3o, a singularidade da casa, tudo se acumulava para encher-me de terror. Felizmente chegamos acima e entramos para uma sala iluminada a g\u00e1s, e mobiliada como todas as casas deste mundo.<\/p>\n<p>Para gracejar e conservar toda a independ\u00eancia do meu esp\u00edrito, disse sorrindo:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 feito, o purgat\u00f3rio tem boa cara; em vez de caldeiras tem sof\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Meu rico senhor, respondeu o capit\u00e3o, olhando fixamente para mim, coisa que pela primeira vez acontecia, porque o seu olhar era sempre vesgo; meu rico senhor, se pensa que desse modo arranca o meu segredo est\u00e1 muito enganado. Convidei-o para cear; contente-se com isto.<\/p>\n<p>N\u00e3o respondi; as palavras do capit\u00e3o desvaneceram as minhas suspeitas acerca da inten\u00e7\u00e3o com que ele ali me trouxera, mas criaram outras impress\u00f5es; suspeitei que o capit\u00e3o estivesse doido; e o menor incidente confirmava-me a suspeita.<\/p>\n<p>\u2014 Moleque! disse o capit\u00e3o; e, quando o moleque apareceu, continuou: prepara a ceia; tira vinho da caixa n\u00ba 25; vai; quero tudo pronto em um quarto de hora.<\/p>\n<p>O moleque foi executar as ordens de Mendon\u00e7a. Este, voltando-se para mim, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Sente-se e leia alguns destes livros. Vou mudar de roupa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o volta ao teatro? perguntei eu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Poucos minutos depois caminh\u00e1vamos para a sala de jantar, que ficava nos fundos da casa. A ceia era farta e apetitosa; no centro campeava um soberbo assado frio; pastelinhos, doces, velhas botelhas de vinho, completavam a ceia do capit\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um banquete, disse eu.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! \u00e9 uma ceia ordin\u00e1ria&#8230; n\u00e3o vale nada.<\/p>\n<p>Havia tr\u00eas cadeiras.<\/p>\n<p>\u2014 Sente-se aqui, disse-me ele indicando a do meio, e sentando-se ele pr\u00f3prio na que ficava \u00e0 minha esquerda. Compreendi que havia mais um conviva, mas n\u00e3o perguntei. Tamb\u00e9m n\u00e3o era preciso; da\u00ed a poucos segundos sa\u00eda de uma porta em frente uma mo\u00e7a alta e p\u00e1lida, que me cumprimentou e se dirigiu para a cadeira que ficava \u00e0 minha direita.<\/p>\n<p>Levantei-me, e fui apresentado pelo capit\u00e3o \u00e0 menina, que era filha dele, e acudia ao nome de Augusta.<\/p>\n<p>Confesso que a presen\u00e7a da mo\u00e7a me tranq\u00fcilizou um pouco. N\u00e3o s\u00f3 deixara de estar a s\u00f3s com um homem t\u00e3o singular como o capit\u00e3o Mendon\u00e7a, mas tamb\u00e9m a presen\u00e7a da mo\u00e7a naquela casa indicava que o capit\u00e3o, se era doido como eu suspeitava, era ao menos um doido manso.<\/p>\n<p>Tratei de ser am\u00e1vel com a minha vizinha, enquanto o capit\u00e3o trinchava o peixe com uma habilidade e destreza que bem indicavam a sua profici\u00eancia nos misteres da boca.<\/p>\n<p>\u2014 Devemos ser amigos, disse eu a Augusta, pois que nossos pais o foram tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Augusta levantou para mim dois bel\u00edssimos olhos verdes. Depois sorriu e abaixou a cabe\u00e7a com ar de casquilhice ou de mod\u00e9stia, porque ambas as coisas podiam ser. Contemplei-a nessa posi\u00e7\u00e3o; era uma formosa cabe\u00e7a, perfeitamente modelada, um perfil correto, uma pele fina, c\u00edlios longos, e cabelos cor de ouro, \u00e1urea coma, como os poetas dizem do sol.<\/p>\n<p>Durante esse tempo Mendon\u00e7a tinha conclu\u00eddo a tarefa; e come\u00e7ava a servir-nos. Augusta brincava com a faca, talvez para mostrar-me a finura da m\u00e3o e o torneado do bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s muda, Augusta? perguntou o capit\u00e3o servindo-a de peixe.<\/p>\n<p>\u2014 Qual, papai! estou triste.<\/p>\n<p>\u2014 Triste? Ent\u00e3o que tens?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; estou triste sem causa.<\/p>\n<p>Tristeza sem causa traduz-se muitas vezes por aborrecimento. Eu traduzi assim o dito da mo\u00e7a, e senti-me ferido no meu amor-pr\u00f3prio, ali\u00e1s sem raz\u00e3o fundada. Para alegrar a mo\u00e7a tratei de alegrar a situa\u00e7\u00e3o. Esqueci o estado do esp\u00edrito do pai, que me parecia profundamente abalado, e entrei a conversar como se estivesse entre amigos velhos.<\/p>\n<p>Augusta pareceu gostar da conversa; o capit\u00e3o tamb\u00e9m entrou a rir como um homem de ju\u00edzo; eu estava num dos meus melhores dias; acudiam-me os ditos engenhosos e as observa\u00e7\u00f5es de algum chiste. Filho do s\u00e9culo, sacrifiquei ao trocadilho, com tal felicidade que inspirei o desejo de ser imitado pela mo\u00e7a e pelo pai.<\/p>\n<p>Quando a ceia acabou reinava entre n\u00f3s a maior intimidade.<\/p>\n<p>\u2014 Quer voltar ao teatro? perguntou-me o capit\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! respondi.<\/p>\n<p>\u2014 Quer dizer que prefere a nossa companhia, ou antes&#8230; a companhia de Augusta.<\/p>\n<p>Esta franqueza do velho pareceu-me um pouco indiscreta. Estou certo de que fiquei rubro. N\u00e3o aconteceu o mesmo a Augusta, que sorriu dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Se assim \u00e9, n\u00e3o lhe devo nada, porque eu tamb\u00e9m prefiro agora a sua companhia ao melhor espet\u00e1culo deste mundo.<\/p>\n<p>A franqueza de Augusta admirou-me ainda mais que a de Mendon\u00e7a. Mas n\u00e3o era f\u00e1cil mergulhar-me em reflex\u00f5es profundas quando os belos olhos verdes da mo\u00e7a estavam pregados nos meus, parecendo dizer-me:<\/p>\n<p>\u2014 Seja am\u00e1vel como at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos para a outra sala, disse o capit\u00e3o levantando-se.<\/p>\n<p>Fizemos o mesmo. Dei o bra\u00e7o a Augusta, enquanto o capit\u00e3o nos guiava para outra sala, que n\u00e3o era a de visitas. Sentamo-nos, menos o velho, que foi acender um cigarro numa das velas do candelabro, enquanto eu lan\u00e7ava um olhar r\u00e1pido pela sala, que me pareceu de todo ponto estranha. A mob\u00edlia era antiga, n\u00e3o s\u00f3 no molde, sen\u00e3o tamb\u00e9m na idade. No centro havia uma mesa redonda, grande, coberta com um tapete verde. Numa das paredes havia pendurados alguns animais empalhados. Na parede fronteira a essa havia apenas uma coruja, tamb\u00e9m empalhada, e com olhos de vidro verde, que, apesar de fixos, pareciam acompanhar todos os movimentos que a gente fazia.<\/p>\n<p>Aqui voltaram os meus sustos. Olhei, entretanto, para Augusta, e esta olhou para mim. Aquela mo\u00e7a era o \u00fanico la\u00e7o que havia entre mim e o mundo, porque tudo naquela casa me parecia realmente fant\u00e1stico; e eu j\u00e1 n\u00e3o duvidava do car\u00e1ter purgatorial que me fora indicado pelo capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Estivemos silenciosos alguns minutos; o capit\u00e3o fumava o cigarro passeando com as m\u00e3os atr\u00e1s das costas, posi\u00e7\u00e3o que pode indicar a medita\u00e7\u00e3o de um fil\u00f3sofo ou a taciturnidade de um n\u00e9scio.<\/p>\n<p>De repente parou defronte de n\u00f3s, sorriu, e perguntou-me:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acha formosa esta pequena?<\/p>\n<p>\u2014 Formos\u00edssima, respondi.<\/p>\n<p>\u2014 Que lindos olhos, n\u00e3o s\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Lind\u00edssimos, com efeito, e raros.<\/p>\n<p>\u2014 Faz-me honra esta produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Respondi com um sorriso aprovador. Quanto a Augusta, limitou-se a dizer com ador\u00e1vel simplicidade:<\/p>\n<p>\u2014 Papai \u00e9 mais vaidoso do que eu; gosta de ouvir dizer que sou bonita. Quem n\u00e3o sabe disso?<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de notar, disse-me o capit\u00e3o sentando-se, que esta pequena \u00e9 franca de mais para o seu sexo e idade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe acho defeito&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nada de evasivas; a verdade \u00e9 essa. Augusta n\u00e3o se parece com as outras mo\u00e7as que pensam muito bem de si, mas sorriem quando lhes fazem algum cumprimento, e franzem o sobrolho quando n\u00e3o lhos fazem.<\/p>\n<p>\u2014 Direi que \u00e9 uma ador\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o, respondi eu sorrindo para a mo\u00e7a, que me agradeceu sorrindo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9, disse o pai; mas exce\u00e7\u00e3o completa.<\/p>\n<p>\u2014 Uma educa\u00e7\u00e3o racional, continuei eu, pode muito bem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o s\u00f3 a educa\u00e7\u00e3o, tornou Mendon\u00e7a, mas at\u00e9 a origem. A origem \u00e9 tudo, ou quase tudo.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendi o que queria dizer o homem. Augusta parece que entendeu, porque entrou a olhar para o teto sorrindo maliciosamente. Olhei para o capit\u00e3o; o capit\u00e3o olhava para a coruja.<\/p>\n<p>Reanimou-se a conversa por espa\u00e7o de alguns minutos, ao cabo dos quais o capit\u00e3o, que parecia ter uma id\u00e9ia fixa, perguntou-me:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o acha esses olhos bonitos?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 lho disse; s\u00e3o t\u00e3o formosos quanto raros.<\/p>\n<p>\u2014 Quer que lhos d\u00ea? perguntou o velho.<\/p>\n<p>Inclinei-me dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Seria muito feliz em possuir t\u00e3o raras prendas; mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nada de cerim\u00f4nias; se quer, dou-lhos; sen\u00e3o, limito-me a mostrar-lhos.<\/p>\n<p>Dizendo isto, levantou-se o capit\u00e3o e aproximou-se de Augusta, que inclinou a cabe\u00e7a sobre as m\u00e3os dele. O velho fez um pequeno movimento, a mo\u00e7a ergueu a cabe\u00e7a, o velho apresentou-me nas m\u00e3os os dois belos olhos da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Olhei para Augusta. Era horr\u00edvel. Tinha no lugar dos olhos dois grandes buracos como uma caveira. Desisto de descrever o que senti; n\u00e3o pude dar um grito; fiquei gelado. A cabe\u00e7a da mo\u00e7a era o que mais hediondo pode criar imagina\u00e7\u00e3o humana; imaginem uma caveira viva, falando, sorrindo, fitando em mim os dois buracos vazios, onde pouco antes nadavam os mais belos olhos do mundo. Os buracos pareciam ver-me; a mo\u00e7a contemplava o meu espanto com um sorriso ang\u00e9lico.<\/p>\n<p>\u2014 Veja-os de perto, dizia o velho diante de mim; palpe-os; diga-me se j\u00e1 viu obra t\u00e3o perfeita.<\/p>\n<p>Que faria eu sen\u00e3o obedecer-lhe? Olhei para os olhos que o velho tinha na m\u00e3o. Aqui foi pior; os dois olhos estavam fitos em mim, pareciam compreender-me tanto quanto os buracos vazios do rosto da mo\u00e7a; separados do rosto, n\u00e3o os abandonara a vida; a retina tinha a mesma luz e os mesmos reflexos. Daquele modo as duas m\u00e3os do velho olhavam para mim como se foram um rosto.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei que tempo se passou; o capit\u00e3o tornou a aproximar-se de Augusta; esta abaixou a cabe\u00e7a, e o velho introduziu os olhos no seu lugar.<\/p>\n<p>Era horr\u00edvel tudo aquilo.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 p\u00e1lido! disse Augusta, obrigando-me a olhar para ela, j\u00e1 restitu\u00edda ao estado anterior.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 natural&#8230; balbuciei eu; vejo coisas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Incr\u00edveis? perguntou o capit\u00e3o esfregando as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Efetivamente, incr\u00edveis, respondi; n\u00e3o pensava&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9 nada! exclamou o capit\u00e3o; e eu folgo muito que ache incr\u00edveis essas coisas poucas que viu, porque \u00e9 sinal de que eu vou fazer pasmar o mundo.<\/p>\n<p>Tirei o len\u00e7o para limpar o suor que me ca\u00eda em bagas. Durante esse tempo Augusta levantou-se e saiu da sala.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea a gra\u00e7a com que ela anda? perguntou o capit\u00e3o. Aquilo tudo \u00e9 obra minha&#8230; \u00e9 obra do meu gabinete.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade; \u00e9 por ora a minha obra-prima; e creio que n\u00e3o h\u00e1 que dizer-lhe; pelo menos o senhor parece estar encantado&#8230;<\/p>\n<p>Curvei a cabe\u00e7a em sinal de assentimento. Que faria eu, pobre mortal sem for\u00e7a, contra um homem e uma rapariga que me pareciam dispor de for\u00e7as desconhecidas aos homens?<\/p>\n<p>Todo o meu empenho era sair daquela casa; mas por maneira que os n\u00e3o molestasse. Desejava que as horas tivessem asas; mas \u00e9 nas crises terr\u00edveis que elas correm fatalmente lentas. Dei ao diabo os meus arrufos, que foram a causa do encontro com semelhante sujeito.<\/p>\n<p>Parece que o capit\u00e3o adivinhara aquelas minhas reflex\u00f5es, porque continuou, depois de algum sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 Deve estar encantado, ainda que um tanto assustado e arrependido da sua condescend\u00eancia. Mas isso \u00e9 puerilidade; nada perdeu em vir aqui, antes ganhou; fica sabendo coisas que s\u00f3 mais tarde saber\u00e1 o mundo. N\u00e3o lhe parece melhor?<\/p>\n<p>\u2014 Parece, respondi sem saber o que dizia.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Augusta \u00e9 a minha obra-prima. \u00c9 um produto qu\u00edmico; gastei tr\u00eas anos para dar ao mundo aquele milagre; mas a perseveran\u00e7a vence tudo, e eu sou dotado de um car\u00e1ter tenaz. Os primeiros ensaios foram maus; tr\u00eas vezes saiu a pequena dos meus alambiques, sempre imperfeita. A quarta foi esfor\u00e7o de ci\u00eancia. Quando aquela perfei\u00e7\u00e3o apareceu ca\u00ed-lhe aos p\u00e9s. O criador admirava a criatura!<\/p>\n<p>Parece que eu tinha pintado o pasmo nos olhos, porque o velho disse:<\/p>\n<p>\u2014 Vejo que se espanta de tudo isto, e acho natural. Que poderia o senhor saber de semelhante coisa?<\/p>\n<p>Levantou-se, deu alguns passos, e sentou-se outra vez. Nesse momento entrou o moleque trazendo caf\u00e9.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a do moleque fez-me criar alma nova; imaginei que fosse ali dentro a \u00fanica criatura verdadeiramente humana com quem me pudesse entender. Entrei a fazer-lhe sinais, mas n\u00e3o consegui ser entendido. O moleque saiu, e fiquei a s\u00f3s com o meu interlocutor.<\/p>\n<p>\u2014 Beba o seu caf\u00e9, meu amigo, disse-me ele, vendo que eu hesitava, n\u00e3o por medo, mas porque realmente n\u00e3o tinha vontade de tomar coisa nenhuma.<\/p>\n<p>Obedeci como pude.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Augusta tornou \u00e0 sala.<\/p>\n<p>O velho voltou-se para contempl\u00e1-la; nenhum pai olhou ainda para sua filha com mais amor do que aquele. Via-se bem que o amor era real\u00e7ado pelo orgulho; havia no olhar do capit\u00e3o uma certa altivez que em geral n\u00e3o acompanha a ternura paterna.<\/p>\n<p>N\u00e3o era um pai, era um autor.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 mo\u00e7a, parecia tamb\u00e9m orgulhosa de si. Sentia bem quanto o pai a admirava. Conhecia que todo o orgulho do velho estava nela, e por compensa\u00e7\u00e3o todo o orgulho dela estava no autor dos seus dias. Se a Odiss\u00e9ia tivesse a mesma forma, teria o mesmo sentir, quando Homero a contemplasse.<\/p>\n<p>Coisa singular! Impressionava-me aquela mulher, apesar da sua origem misteriosa e diab\u00f3lica; eu sentia ao p\u00e9 dela uma sensa\u00e7\u00e3o nova, que n\u00e3o sei se era amor, se admira\u00e7\u00e3o, se fatal simpatia.<\/p>\n<p>Quando fitava os olhos dela dificilmente podia afastar os meus, e contudo j\u00e1 tinha visto os seus lind\u00edssimos olhos nas m\u00e3os do pai, j\u00e1 tinha contemplado com terror os buracos vazios como os olhos da morte.<\/p>\n<p>Ainda que lentamente, adiantava-se a noite; ia amortecendo o ru\u00eddo de fora; entr\u00e1vamos no sil\u00eancio absoluto que t\u00e3o tristemente quadrava com a sala em que me eu achava e os interlocutores com quem me entretinha.<\/p>\n<p>Era natural retirar-me; levantei-me e pedi licen\u00e7a ao capit\u00e3o para sair.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda \u00e9 cedo, respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu voltarei amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Voltar\u00e1 amanh\u00e3 e quando quiser; mas por hoje \u00e9 cedo. Nem sempre se encontra um homem como eu; um irm\u00e3o de Deus, um deus na terra, porque eu tamb\u00e9m posso criar como ele; e at\u00e9 melhor, porque eu fiz Augusta e ele nem sempre faz criaturas como esta. Os hotentotes, por exemplo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, disse eu, tenho pessoas que me esperam&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 poss\u00edvel, disse o capit\u00e3o sorrindo, mas por agora n\u00e3o h\u00e1 de ir&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o? interrompeu Augusta. Acho que pode ir, com a condi\u00e7\u00e3o de que volta amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Voltarei.<\/p>\n<p>\u2014 Jura-me?<\/p>\n<p>\u2014 Juro.<\/p>\n<p>Augusta estendeu-me a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 dito! disse ela; mas se faltar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Morre, acrescentou o pai.<\/p>\n<p>Senti um calafrio ao ouvir a \u00faltima palavra de Mendon\u00e7a. Entretanto, sa\u00ed, despedindo-me o mais alegre e cordialmente que pude.<\/p>\n<p>\u2014 Venha \u00e0 noite, disse o capit\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 amanh\u00e3, respondi.<\/p>\n<p>Quando cheguei \u00e0 rua respirei. Estava livre. Acabara-se-me aquela tortura que nunca havia imaginado. Apressei o passo e entrei em casa, meia hora depois.<\/p>\n<p>Foi-me imposs\u00edvel conciliar o sono. A cada instante via o meu capit\u00e3o com os olhos de Augusta nas m\u00e3os, e a imagem da mo\u00e7a flutuava entre o nevoeiro da minha imagina\u00e7\u00e3o como uma criatura de Ossian.<\/p>\n<p>Quem era aquele homem e aquela menina? A menina era realmente um produto qu\u00edmico do velho? Ambos mo haviam afirmado, e at\u00e9 certo ponto tive a prova disso. Podia sup\u00f4-los doidos, mas o epis\u00f3dio dos olhos desvanecia essa id\u00e9ia. Estaria eu ainda no mundo dos vivos, ou come\u00e7ara j\u00e1 a entrar na regi\u00e3o dos sonhos e do desconhecido?<\/p>\n<p>S\u00f3 a fortaleza do meu esp\u00edrito resistiu a tamanhas provas; outro, que fosse mais fraco, teria enlouquecido. E seria melhor. O que tornava a minha situa\u00e7\u00e3o mais dolorosa e imposs\u00edvel de suportar era justamente a perfeita solidez da minha raz\u00e3o. Do conflito da minha raz\u00e3o com os meus sentidos resultava a tortura em que me eu achava; os meus olhos viam, a minha raz\u00e3o negava. Como conciliar aquela evid\u00eancia com aquela incredulidade?<\/p>\n<p>N\u00e3o dormi. No dia seguinte saudei o sol como um amigo ansiosamente esperado. Vi que estava no meu quarto; o criado trouxe-me o almo\u00e7o, que era todo composto de coisas deste mundo; cheguei \u00e0 janela e dei com os olhos no edif\u00edcio da c\u00e2mara dos deputados; n\u00e3o tinha que ver mais; eu estava ainda na terra, e na terra estava ainda aquele maldito capit\u00e3o e mais a filha.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o refleti.<\/p>\n<p>Quem sabe se eu n\u00e3o podia conciliar tudo? Lembrei-me de todas as pretens\u00f5es da qu\u00edmica e da alquimia. Ocorreu-me um conto fant\u00e1stico de Hoffmann em que um alquimista pretende ter alcan\u00e7ado o segredo de produzir criaturas humanas. A cria\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica de ontem n\u00e3o podia ser a realidade de hoje? E se o capit\u00e3o tinha raz\u00e3o n\u00e3o era para mim grande gl\u00f3ria denunci\u00e1-lo ao mundo?<\/p>\n<p>H\u00e1 em todos os homens alguma coisa da mosca do carro\u00e7\u00e3o; confesso que, prevendo o triunfo do capit\u00e3o, lembrei-me logo de ir agarrado \u00e0s abas da sua imortalidade. Era dif\u00edcil crer na obra do homem; mas quem acreditou em Galileu? quantos n\u00e3o deixaram de crer em Colombo? A incredulidade de hoje \u00e9 a sagra\u00e7\u00e3o de amanh\u00e3. A verdade desconhecida n\u00e3o deixa de ser verdade. \u00c9 verdade por si mesma, n\u00e3o o \u00e9 pelo consenso p\u00fablico. Ocorreu-me a imagem dessas estrelas que os astr\u00f4nomos descobrem agora sem que elas tenham deixado de existir muitos s\u00e9culos antes.<\/p>\n<p>Raz\u00f5es de coronel ou raz\u00f5es de cabo de esquadra, o certo \u00e9 que eu as dei a mim pr\u00f3prio e foi em virtude delas, n\u00e3o menos que pela fascina\u00e7\u00e3o do olhar da mo\u00e7a, que eu l\u00e1 me apresentei em casa do capit\u00e3o \u00e0 rua da Guarda Velha apenas anoiteceu.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o estava \u00e0 minha espera.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sa\u00ed de prop\u00f3sito, disse-me ele; contava que viesse, e queria dar-lhe o espet\u00e1culo de uma composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica. Trabalhei o dia todo para preparar os ingredientes.<\/p>\n<p>Augusta recebeu-me com uma gra\u00e7a verdadeiramente ador\u00e1vel. Beijei-lhe a m\u00e3o como se fazia antigamente \u00e0s senhoras, costume que se trocou pelo aperto de m\u00e3o, ali\u00e1s digno de um s\u00e9culo grave.<\/p>\n<p>\u2014 Tive saudades suas, disse-me ela.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>\u2014 Aposto que as n\u00e3o teve de mim?<\/p>\n<p>\u2014 Tive.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acredito.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Porque eu n\u00e3o sou filha bastarda. Todas as outras mulheres s\u00e3o filhas bastardas, eu s\u00f3 posso gabar-me de ser filha leg\u00edtima, porque sou filha da ci\u00eancia e da vontade do homem.<\/p>\n<p>N\u00e3o me admirava menos a linguagem que a beleza de Augusta. Evidentemente era o pai quem lhe incutia semelhantes id\u00e9ias. A teoria que ela acabava de expor era t\u00e3o fant\u00e1stica como o seu nascimento. O certo \u00e9 que a atmosfera daquela casa j\u00e1 me punha no mesmo estado que os dois habitantes dela. Foi assim que alguns segundos depois repliquei:<\/p>\n<p>\u2014 Conquanto eu admire a ci\u00eancia do capit\u00e3o, lembro-lhe que ainda assim ele n\u00e3o fez mais do que aplicar elementos da natureza \u00e0 composi\u00e7\u00e3o de um ente que at\u00e9 agora parecia exclu\u00eddo da a\u00e7\u00e3o dos reagentes qu\u00edmicos e dos instrumentos de laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o at\u00e9 certo ponto, disse o capit\u00e3o; mas acaso sou eu menos admir\u00e1vel?<\/p>\n<p>\u2014 Pelo contr\u00e1rio; e nenhum mortal at\u00e9 hoje pode gabar-se de ter ombreado com o senhor.<\/p>\n<p>Augusta sorriu agradecendo-me. Notei mentalmente o sorriso, e parece que a id\u00e9ia transluziu no meu rosto, porque o capit\u00e3o, sorrindo tamb\u00e9m, disse:<\/p>\n<p>\u2014 A obra saiu perfeita, como v\u00ea, depois de muitos ensaios. O pen\u00faltimo ensaio era completo, mas faltava uma coisa \u00e0 obra; e eu queria que ela sa\u00edsse t\u00e3o completa como a que o outro fez.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe faltava ent\u00e3o? perguntei eu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o v\u00ea, continuou o capit\u00e3o, como Augusta sorri de contente quando lhe fazem alguma alus\u00e3o \u00e0 beleza?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, a pen\u00faltima Augusta que me saiu do laborat\u00f3rio n\u00e3o tinha isso; esquecera-me incutir-lhe a vaidade. A obra podia ficar assim, e estou que seria, aos olhos de muitos, mais perfeita do que esta. Mas eu n\u00e3o penso assim; o que eu queria era fazer uma obra igual \u00e0 do outro. Por isso, reduzi outra vez tudo ao estado primitivo, e tratei de introduzir na massa geral uma dose maior de merc\u00fario.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que o meu rosto me tra\u00edsse naquele momento; mas o meu esp\u00edrito fez uma careta. Estava disposto a crer na origem qu\u00edmica de Augusta, mas hesitava ouvindo os pormenores da composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o continuou, olhando ora para mim, ora para a filha, que parecia extasiada ouvindo a narra\u00e7\u00e3o do pai:<\/p>\n<p>\u2014 Sabe que a qu\u00edmica foi chamada pelos antigos, entre outros nomes, ci\u00eancia de Hermes. Acho in\u00fatil lembrar-lhe que Hermes \u00e9 o nome grego de Merc\u00fario, e merc\u00fario \u00e9 o nome de um corpo qu\u00edmico. Para introduzir na composi\u00e7\u00e3o de uma criatura humana a consci\u00eancia, deita-se no alambique uma on\u00e7a de merc\u00fario. Para fazer a vaidade dobra-se a dose do merc\u00fario, porque a vaidade, segundo a minha opini\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mais que a irradia\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia; \u00e0 contra\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia chamo eu mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-lhe ent\u00e3o, disse eu, que homem vaidoso \u00e9 aquele que recebeu uma grande dose de merc\u00fario no seu organismo?<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida nenhuma. Nem pode ser outra coisa; o homem \u00e9 um composto de mol\u00e9culas e corpos qu\u00edmicos; quem os souber reunir tem alcan\u00e7ado tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo?<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o; tudo, n\u00e3o; porque o grande segredo consiste em uma descoberta que eu fiz e constitui por assim dizer o princ\u00edpio da vida. Isso \u00e9 que h\u00e1 de morrer comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o o declara antes para adiantamento da humanidade?<\/p>\n<p>O capit\u00e3o levantou os ombros desdenhosamente; foi a \u00fanica resposta que obtive.<\/p>\n<p>Augusta tinha-se levantado e foi ao piano tocar alguma coisa que me pareceu ser uma sonata alem\u00e3. Eu pedi licen\u00e7a ao capit\u00e3o para fumar um charuto, enquanto o moleque veio receber ordens relativas ao ch\u00e1.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Acabado o ch\u00e1, disse-me o capit\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Doutor, preparei hoje uma experi\u00eancia em honra sua. Sabe que o diamante n\u00e3o \u00e9 mais que o carv\u00e3o de pedra cristalizado. H\u00e1 tempos tentou um s\u00e1bio qu\u00edmico reduzir o carv\u00e3o de pedra a diamante, e li num artigo de revista que conseguiria apenas compor um p\u00f3 de diamante, e nada mais. Eu alcancei o resto; vou mostrar-lhe um peda\u00e7o de carv\u00e3o de pedra e transform\u00e1-lo em diamante.<\/p>\n<p>Augusta bateu palmas de contente. Admirado dessa alegria s\u00fabita, perguntei-lhe sorrindo a causa.<\/p>\n<p>\u2014 Gosto muito de ver uma opera\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, respondeu ela.<\/p>\n<p>\u2014 Deve ser interessante, disse eu.<\/p>\n<p>\u2014 E \u00e9. N\u00e3o sei at\u00e9 se papai era capaz de me fazer uma coisa.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Eu lhe direi depois.<\/p>\n<p>Dai a cinco minutos est\u00e1vamos todos no laborat\u00f3rio do capit\u00e3o Mendon\u00e7a, que era uma sala pequena e escura, cheia dos instrumentos competentes. Sentamo-nos, Augusta e eu, enquanto o pai preparava a transforma\u00e7\u00e3o anunciada.<\/p>\n<p>Confesso que, apesar da minha curiosidade de homem de ci\u00eancia, dividia a minha aten\u00e7\u00e3o entre a qu\u00edmica do pai e as gra\u00e7as da filha. Augusta tinha efetivamente um aspecto fant\u00e1stico; quando entrou no laborat\u00f3rio respirou largamente e com prazer, como quando se respira o ar embalsamado dos campos. Via-se que era o seu ar natal. Travei-lhe da m\u00e3o, e ela com esse estouvamento pr\u00f3prio da castidade ignorante, puxou a minha m\u00e3o para si, fechou-a entre as suas, e p\u00f4-las no rega\u00e7o. Nesse momento passou o capit\u00e3o ao p\u00e9 de n\u00f3s; viu-nos e sorriu \u00e0 socapa.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea, disse-me ela inclinando-se ao meu ouvido, meu pai aprova.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse eu, meio alegre, meio espantado de ver aquela franqueza da parte de uma menina.<\/p>\n<p>No entanto, o capit\u00e3o trabalhava ativamente na transforma\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o de pedra em diamante. Para n\u00e3o ofender a vaidade do inventor fazia-lhe eu de quando em quando alguma observa\u00e7\u00e3o, a que ele respondia sempre. A minha aten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, estava toda voltada para Augusta. N\u00e3o era poss\u00edvel ocult\u00e1-lo; eu j\u00e1 a amava; e por c\u00famulo de ventura era amado tamb\u00e9m. O casamento seria o desenlace natural daquela simpatia. Mas deveria eu casar-me, sem deixar de ser bom crist\u00e3o? Esta id\u00e9ia transtornou um pouco o meu esp\u00edrito. Escr\u00fapulos de consci\u00eancia!<\/p>\n<p>A mo\u00e7a era um produto qu\u00edmico; seu \u00fanico batismo foi um banho de s\u00falfur. A ci\u00eancia daquele homem explicava tudo; mas a minha consci\u00eancia recuava. E por qu\u00ea? Augusta era t\u00e3o bela como as outras mulheres \u2014 talvez mais bela \u2014, pela mesma raz\u00e3o que a folha da \u00e1rvore pintada \u00e9 mais bela que a folha natural. Era um produto de arte; o saber do autor despojou o tipo humano de suas incorre\u00e7\u00f5es para criar um tipo ideal, um exemplar \u00fanico. Ar triste! era justamente essa idealidade que nos separaria aos olhos do mundo!<\/p>\n<p>N\u00e3o sei dizer que tempo gastou o capit\u00e3o na transforma\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o; eu deixava correr o tempo olhando para a mo\u00e7a e contemplando os seus belos olhos em que havia todas as gra\u00e7as e vertigens do mar.<\/p>\n<p>De repente o cheiro acre do laborat\u00f3rio come\u00e7ou a aumentar de intensidade; eu que n\u00e3o estava acostumado senti-me um pouco incomodado, mas Augusta pediu-me que ficasse ao p\u00e9 dela, sem o que teria sa\u00eddo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tarda! n\u00e3o tarda! exclamou o capit\u00e3o com entusiasmo.<\/p>\n<p>A exclama\u00e7\u00e3o era um convite que nos fazia; eu deixei-me estar ao p\u00e9 da filha. Seguiu-se um sil\u00eancio prolongado. Fui interrompido no meu \u00eaxtase pelo capit\u00e3o, que dizia:<\/p>\n<p>\u2014 Pronto! aqui est\u00e1!<\/p>\n<p>E efetivamente trouxe um diamante na palma da m\u00e3o, perfeit\u00edssimo e da melhor \u00e1gua. O volume era metade do carv\u00e3o que servira de base \u00e0 opera\u00e7\u00e3o qu\u00edmica. Eu, \u00e0 vista da cria\u00e7\u00e3o de Augusta, j\u00e1 me n\u00e3o admirava de nada. Aplaudi o capit\u00e3o; quanto \u00e0 filha, saltou-lhe ao pesco\u00e7o e deu-lhe dois apertad\u00edssimos abra\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 vejo, meu caro sr. capit\u00e3o, que deste modo deve ficar rico. Pode transformar em diamante todo o carv\u00e3o que lhe parecer.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea? perguntou-me ele. Aos olhos de um naturalista o diamante e o carv\u00e3o de pedra valem a mesma coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas aos olhos do mundo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Aos olhos do mundo o diamante \u00e9 a riqueza, bem sei; mas \u00e9 a riqueza relativa. Suponha, meu rico sr. Amaral, que as minas de carv\u00e3o do mundo inteiro, por meio de um alambique monstro, se transformam em diamante. De um dia para outro o mundo ca\u00eda na mis\u00e9ria. O carv\u00e3o \u00e9 a riqueza; o diamante \u00e9 o sup\u00e9rfluo.<\/p>\n<p>\u2014 Concordo.<\/p>\n<p>\u2014 Fa\u00e7o isto para mostrar que posso e sei; mas n\u00e3o o direi a ningu\u00e9m. \u00c9 segredo que fica comigo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o trabalha ent\u00e3o por amor \u00e0 ci\u00eancia?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; tenho algum amor \u00e0 ci\u00eancia, mas \u00e9 um amor plat\u00f4nico. Trabalho para mostrar que sei e posso criar. Quanto aos outros homens, importa-me pouco que saibam ou n\u00e3o. Chamar-me-\u00e3o ego\u00edsta; eu digo que sou fil\u00f3sofo. Quer este diamante como prova da minha estima e amostra do meu saber?<\/p>\n<p>\u2014 Aceito, respondi.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui o tem; mas lembre-se sempre que esta pedra rutilante, t\u00e3o procurada no mundo, e de tanto valor, capaz de lan\u00e7ar a guerra entre os homens, esta pedra n\u00e3o \u00e9 mais que um peda\u00e7o de carv\u00e3o.<\/p>\n<p>Guardei o brilhante, que era lind\u00edssimo, e acompanhei o capit\u00e3o e a filha que sa\u00edam do laborat\u00f3rio. O que naquele momento me impressionava mais que tudo era a mo\u00e7a. Eu n\u00e3o trocaria por ela todos os diamantes c\u00e9lebres do mundo. Cada hora que passava ao p\u00e9 dela aumentava a minha fascina\u00e7\u00e3o. Sentia invadir-me o del\u00edrio do amor; mais um dia e eu estaria unido \u00e0quela mulher irresistivelmente; separar-nos seria a morte para mim.<\/p>\n<p>Quando chegamos \u00e0 sala, o capit\u00e3o Mendon\u00e7a perguntou \u00e0 filha, batendo uma pancada na testa:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade! N\u00e3o me disseste que tinhas de pedir-me uma coisa?<\/p>\n<p>\u2014 Sim; mas agora \u00e9 tarde; amanh\u00e3. O doutor aparece, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>\u2014 Afinal, disse Mendon\u00e7a, o doutor h\u00e1 de acostumar-se aos meus trabalhos&#8230; e acreditar\u00e1 ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 creio. N\u00e3o posso negar a evid\u00eancia; quem tem raz\u00e3o \u00e9 o senhor; o resto do mundo n\u00e3o sabe nada.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a ouvia-me radiante de orgulho; o seu olhar, mais vago que nunca, parecia refletir a vertigem do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o, disse ele, depois de alguns minutos; eu estou muito acima dos outros homens. A minha obra-prima&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 esta, disse eu apontando para Augusta.<\/p>\n<p>\u2014 Por ora, respondeu o capit\u00e3o; mas eu medito coisas mais pasmosas; por exemplo, creio que descobri o meio de criar g\u00eanios.<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>\u2014 Pego num homem de talento, not\u00e1vel ou med\u00edocre, ou at\u00e9 num homem nulo, e fa\u00e7o dele um g\u00eanio.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 f\u00e1cil&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 F\u00e1cil, n\u00e3o; \u00e9 apenas poss\u00edvel. Aprendi isto&#8230; Aprendi? n\u00e3o, descobri isto, guiado por uma palavra que encontrei num livro \u00e1rabe do s\u00e9culo d\u00e9cimo-sexto. Quer v\u00ea-lo?<\/p>\n<p>N\u00e3o tive tempo de responder; o capit\u00e3o saiu e voltou da\u00ed a alguns segundos com um livro in-f\u00f3lio na m\u00e3o, grosseiramente impresso em caracteres \u00e1rabes feitos com tinta vermelha. Explicou-me a sua id\u00e9ia, mas por alto; eu n\u00e3o lhe prestei grande aten\u00e7\u00e3o; os meus olhos estavam embebidos nos de Augusta.<\/p>\n<p>Quando sai era meia-noite. Augusta com voz suplicante e terna disse-me:<\/p>\n<p>\u2014 Vem amanh\u00e3?<\/p>\n<p>\u2014 Venho!<\/p>\n<p>O velho estava de costas; eu levei a m\u00e3o dela aos meus l\u00e1bios e imprimi-lhe um longo e apaixonado beijo.<\/p>\n<p>Depois sa\u00ed correndo: tinha medo dela e de mim.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>No dia seguinte recebi um bilhete do capit\u00e3o Mendon\u00e7a, logo de manh\u00e3.<\/p>\n<p>Grande not\u00edcia! Trata-se da nossa felicidade, da sua, da minha e da de Augusta. Venha \u00e0 noite sem falta.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltei.<\/p>\n<p>Fui recebido por Augusta, que me apertou as m\u00e3os com fogo. Est\u00e1vamos s\u00f3s; ousei dar-lhe um beijo na face. Ela corou muito, mas retribuiu-me imediatamente o beijo.<\/p>\n<p>\u2014 Recebi hoje um bilhete misterioso de seu pai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei, disse a mo\u00e7a; trata-se com efeito da nossa felicidade.<\/p>\n<p>Passava-se isto no patamar da escada.<\/p>\n<p>\u2014 Entre! entre! gritou o velho capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Entramos.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o estava na sala fumando um cigarro e passeando com as m\u00e3os nas costas, como na primeira noite em que o vira. Abra\u00e7ou-me, e mandou que me sentasse.<\/p>\n<p>\u2014 Meu caro doutor, disse-me ele depois que nos sentamos ambos, ficando Augusta de p\u00e9 encostada \u00e0 cadeira do pai; meu caro doutor, raras vezes a fortuna cai a ponto de fazer a completa felicidade de tr\u00eas pessoas. A felicidade \u00e9 a mais rara coisa deste mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Mais rara que as p\u00e9rolas, disse eu sentenciosamente.<\/p>\n<p>\u2014 Muito mais, e de maior valia. Dizem que C\u00e9sar comprou por seis milh\u00f5es de sest\u00e9rcios uma p\u00e9rola, para presentear Sev\u00edlia. Quanto n\u00e3o daria ele por essa outra p\u00e9rola, que recebeu de gra\u00e7a, e que lhe deu o poder do mundo?<\/p>\n<p>\u2014 Qual?<\/p>\n<p>\u2014 O g\u00eanio. A felicidade \u00e9 o g\u00eanio.<\/p>\n<p>Fiquei um pouco aborrecido com a conversa do capit\u00e3o. Eu cuidava que a felicidade de que se tratava para mim e Augusta era o nosso casamento. Quando o homem me falou no g\u00eanio, olhei para a mo\u00e7a com olhos t\u00e3o aflitos, que ela veio em meu auxilio dizendo ao pai:<\/p>\n<p>\u2014 Mas, papai, comece pelo principio.<\/p>\n<p>\u2014 Tens raz\u00e3o; desculpa se o s\u00e1bio faz esquecer o pai. Trata-se, meu caro amigo \u2014 dou-lhe este nome \u2014, trata-se de um casamento.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Minha filha confessou-me hoje de manh\u00e3 que o ama loucamente e \u00e9 igualmente amada. Daqui ao casamento \u00e9 um passo.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o; amo loucamente sua filha, e estou pronto a casar-me com ela, se o capit\u00e3o consente.<\/p>\n<p>\u2014 Consinto, aplaudo e agrade\u00e7o.<\/p>\n<p>Preciso acaso dizer que a resposta do capit\u00e3o, ainda que prevista, encheu de felicidade o meu cora\u00e7\u00e3o ambicioso? Levantei-me e apertei alegremente a m\u00e3o do capit\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Compreendo! compreendo! disse o velho; j\u00e1 passaram por mim essas coisas. O amor \u00e9 quase tudo na vida; a vida tem duas grandes faces: o amor e a ci\u00eancia. Quem n\u00e3o compreender isto n\u00e3o \u00e9 digno de ser homem. O poder e a gl\u00f3ria n\u00e3o impedem que a caveira de Alexandre seja igual \u00e0 caveira de um tru\u00e3o. As grandezas da terra n\u00e3o valem uma flor nascida \u00e0 beira dos rios. O amor \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o, a ci\u00eancia a cabe\u00e7a; o poder \u00e9 simplesmente a espada&#8230;<\/p>\n<p>Interrompi esta enfadonha prele\u00e7\u00e3o acerca das grandezas humanas dizendo a Augusta que desejava fazer a sua felicidade e ajudar com ela a tornar tranq\u00fcila e alegre a velhice do pai.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 por isso n\u00e3o se incomode, meu genro. Eu hei de ser feliz, quer queiram quer n\u00e3o. Um homem de minha t\u00eampera nunca \u00e9 infeliz. Tenho a felicidade nas m\u00e3os, n\u00e3o a fa\u00e7o depender de v\u00e3os preconceitos sociais.<\/p>\n<p>Poucas palavras mais trocamos neste assunto, at\u00e9 que Augusta tomou a palavra dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Mas, papai, ainda lhe n\u00e3o falou das nossas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te impacientes, pequena; a noite \u00e9 grande.<\/p>\n<p>\u2014 De que se trata? perguntei eu.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Trata-se de uma condi\u00e7\u00e3o lembrada por minha filha; e que o doutor naturalmente aceita.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Minha filha, continuou o capit\u00e3o, deseja uma alian\u00e7a digna de si e de mim.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe parece que eu possa?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 excelente para o caso, mas falta-lhe uma pequena coisa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Riqueza?<\/p>\n<p>\u2014 Ora, riqueza! isso tenho eu de sobra&#8230; se quiser. O que lhe falta, meu rico, \u00e9 justamente o que me sobra.<\/p>\n<p>Fiz um gesto de compreender o que ele dizia, mas simplesmente por formalidade, porque eu n\u00e3o compreendia nada.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o tirou-me do embara\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Falta-lhe g\u00eanio, disse.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Minha filha pensa muito bem que a descendente de um g\u00eanio, s\u00f3 de outro g\u00eanio pode ser esposa. N\u00e3o hei de entregar a minha obra \u00e0s m\u00e3os grosseiras de um hotentote; e posto que, na planta geral dos outros homens, o senhor seja efetivamente um homem de talento \u2014 aos meus olhos n\u00e3o passa de um animal muito mesquinho \u2014, pela mesma raz\u00e3o de que quatro candelabros alumiam uma sala e n\u00e3o poderiam alumiar a ab\u00f3bada celeste.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Se lhe n\u00e3o agrada a figura, dou-lhe outra mais vulgar: a mais bela estrela do c\u00e9u nada vale desde que aparece o sol. O senhor ser\u00e1 uma bonita estrela, mas eu sou o sol, e diante de mim vale tanto uma estrela como um f\u00f3sforo, como um vaga-lume.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o dizia isto com um ar diab\u00f3lico, e o olhar mais vago que nunca. Receei que realmente o meu capit\u00e3o, apesar de s\u00e1bio, tivesse um acesso de loucura. Como sair-lhe das garras? e teria eu \u00e2nimo de faz\u00ea-lo diante de Augusta, a quem me prendia uma simpatia fatal?<\/p>\n<p>Interveio a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Bem sabemos de tudo isto, disse ela ao pai; mas n\u00e3o se trata de dizer que ele nada vale; trata-se de dizer que h\u00e1 de valer muito&#8230; tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim? perguntei.<\/p>\n<p>\u2014 Introduzindo-lhe o g\u00eanio.<\/p>\n<p>Apesar da conversa que a este respeito tivemos na noite anterior, n\u00e3o compreendi logo a explica\u00e7\u00e3o de Mendon\u00e7a; mas ele teve a caridade de me expor claramente a sua id\u00e9ia.<\/p>\n<p>\u2014 Depois de profundas e pacientes investiga\u00e7\u00f5es, cheguei a descobrir que o talento \u00e9 uma pequena quantidade de \u00e9ter encerrado numa cavidade do c\u00e9rebro; o g\u00eanio \u00e9 o mesmo \u00e9ter em por\u00e7\u00e3o centuplicada. Para dar g\u00eanio a um homem de talento basta inserir na referida cavidade do c\u00e9rebro mais noventa e nove quantidades de \u00e9ter puro. \u00c9 justamente a opera\u00e7\u00e3o que vamos fazer.<\/p>\n<p>Deixo a imagina\u00e7\u00e3o do leitor calcular a soma de espanto que me causou este feroz projeto do meu futuro sogro; espanto que redobrou quando Augusta disse:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma verdadeira felicidade que papai houvesse feito esta descoberta. Faremos hoje mesmo a opera\u00e7\u00e3o, sim?<\/p>\n<p>Seriam dois loucos? ou andaria eu num mundo de fantasmas? Olhei para ambos; ambos estavam risonhos e tranq\u00fcilos como se houvessem dito a coisa mais natural deste mundo.<\/p>\n<p>Tranq\u00fcilizou-se-me o \u00e2nimo a pouco e pouco; refleti que era um homem robusto, e que n\u00e3o seria um velho e uma mo\u00e7a d\u00e9bil que me haviam de for\u00e7ar a uma opera\u00e7\u00e3o que eu considerava um simples e puro assassinato.<\/p>\n<p>\u2014 A opera\u00e7\u00e3o ser\u00e1 hoje, disse Augusta depois de alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje, n\u00e3o, respondi; mas amanh\u00e3 a esta hora com toda a certeza.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o hoje? perguntou a filha do capit\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho muito que fazer.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o sorriu com ar de quem n\u00e3o engolia a p\u00edlula.<\/p>\n<p>\u2014 Meu genro, eu sou velho e conhe\u00e7o todos os recursos da mentira. O adiamento que nos pede \u00e9 uma evasiva grosseira. Pois n\u00e3o \u00e9 muito melhor ser hoje um grande luzeiro da humanidade, um \u00eamulo de Deus, do que ficar at\u00e9 amanh\u00e3 simples homem como os outros?<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida; mas amanh\u00e3 teremos mais tempo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu apenas lhe pe\u00e7o meia hora.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, ser\u00e1 hoje; mas eu desejo simplesmente dispor agora de uns tr\u00eas quartos de hora, findos os quais volto e fico \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O velho Mendon\u00e7a fingiu aceitar a proposta.<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim; mas para ver que eu n\u00e3o me descuidei do senhor, ande c\u00e1 ao laborat\u00f3rio ver a soma de \u00e9ter que pretendo introduzir-lhe no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Fomos ao laborat\u00f3rio; Augusta ia pelo meu bra\u00e7o; o capit\u00e3o caminhava adiante com uma lanterna na m\u00e3o. O laborat\u00f3rio estava iluminado com tr\u00eas velas em forma de tri\u00e2ngulo. Noutra ocasi\u00e3o perguntaria eu a raz\u00e3o daquela disposi\u00e7\u00e3o especial das velas; mas naquele momento todo o meu desejo era estar longe de semelhante casa.<\/p>\n<p>E contudo uma for\u00e7a me prendia, e dificilmente poderia eu arrancar-me dali; era Augusta. Aquela mo\u00e7a exercia sobre mim uma press\u00e3o a um tempo doce e dolorosa; sentia-me escravo dela, a minha vida como que se fundia na sua; era uma fascina\u00e7\u00e3o vertiginosa.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o sacou de um caix\u00e3o de madeira preta um frasco contendo \u00e9ter. Disse-me ele que havia no frasco, porque eu n\u00e3o vi coisa nenhuma, e fazendo esta observa\u00e7\u00e3o, respondeu-me ele:<\/p>\n<p>\u2014 Pois precisa ver o g\u00eanio? Afirmo-lhe que h\u00e1 aqui dentro noventa e nove doses de \u00e9ter, as quais, juntas \u00e0 \u00fanica dose que a natureza lhe deu, formar\u00e3o cem doses perfeitas.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a pegou no frasco e o examinou contra a luz. Pela minha parte, limitei-me a convencer o homem por meio da minha simplicidade.<\/p>\n<p>\u2014 Afirma-me, disse-lhe eu, que \u00e9 g\u00eanio de primeira ordem?<\/p>\n<p>\u2014 Afirmo-lho. Mas por que se h\u00e1 de fiar em palavras? O senhor vai saber o que \u00e9.<\/p>\n<p>Dizendo isto puxou-me pelo bra\u00e7o com tamanha for\u00e7a que eu vacilei. Compreendi que era chegada a crise fatal. Procurei desvencilhar-me do velho, mas senti cair-me na cabe\u00e7a tr\u00eas ou quatro gotas de um l\u00edquido gelado; perdi as for\u00e7as, fraquearam-me as pernas; cai no ch\u00e3o sem movimento.<\/p>\n<p>Aqui n\u00e3o poderei descrever cabalmente a minha tortura; eu via e ouvia tudo sem poder articular uma palavra nem fazer um gesto.<\/p>\n<p>\u2014 Queria lutar comigo, magan\u00e3o? dizia o qu\u00edmico; lutar com aquele que te vai fazer feliz! Era ingratid\u00e3o antecipada; amanh\u00e3 tu me h\u00e1s de abra\u00e7ar content\u00edssimo.<\/p>\n<p>Voltei os olhos para Augusta; a filha do capit\u00e3o preparava um longo estilete, enquanto o velho tratava de introduzir sutilmente no frasco um fin\u00edssimo tubo de borracha destinado a transportar o \u00e9ter do frasco para o interior do meu c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei que tempo durou a prepara\u00e7\u00e3o do meu supl\u00edcio; sei que ambos se aproximaram de mim; o capit\u00e3o trazia o estilete e a filha o frasco.<\/p>\n<p>\u2014 Augusta, disse o pai, toma cuidado n\u00e3o se derrame \u00e9ter nenhum; olha, traz aquela luz; bem; senta-te a\u00ed no banquinho. Eu vou furar-lhe a cabe\u00e7a. Apenas sacar o estilete, introduze-lhe o tubo e abre a pequena mola. Bastam dois minutos; aqui tens o rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>Ouvi aquilo tudo banhado em suores frios. De repente os olhos foram-se-me enterrando; as fei\u00e7\u00f5es do capit\u00e3o assumiram propor\u00e7\u00f5es descomunais e fant\u00e1sticas; uma luz verde e amarela enchia todo o quarto; pouco a pouco os objetos iam perdendo as formas, e tudo em volta de mim ficou mergulhado numa penumbra crepuscular.<\/p>\n<p>Senti uma dor agud\u00edssima no alto do cr\u00e2nio; corpo estranho penetrou at\u00e9 o interior do c\u00e9rebro. N\u00e3o sei de mais nada. Creio que desmaiei.<\/p>\n<p>Quando dei acordo de mim o laborat\u00f3rio estava deserto; pai e filha tinham desaparecido. Pareceu-me ver em frente de mim uma cortina. Uma voz forte e \u00e1spera soou aos meus ouvidos:<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1! acorde!<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Acorde! quem tem sono dorme em casa, n\u00e3o vem ao teatro.<\/p>\n<p>Abri de todo os olhos; vi em frente de mim um sujeito desconhecido; eu achava-me sentado numa cadeira no teatro de S. Pedro.<\/p>\n<p>\u2014 Ande, disse o sujeito, quero fechar as portas.<\/p>\n<p>\u2014 Pois o espet\u00e1culo acabou?<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 dez minutos.<\/p>\n<p>\u2014 E eu dormi esse tempo todo?<\/p>\n<p>\u2014 Como uma pedra.<\/p>\n<p>\u2014 Que vergonha!<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, n\u00e3o fez grande figura; todos que estavam perto riam de o ver dormir enquanto se representava. Parece que o sono foi agitado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, um pesadelo&#8230; Queira perdoar; vou-me embora.<\/p>\n<p>E sa\u00ed protestando n\u00e3o recorrer, em casos de arrufo, aos dramas ultra-rom\u00e2nticos: s\u00e3o pesados demais.<\/p>\n<p>Quando ia p\u00f4r o p\u00e9 na rua, chamou-me o porteiro, e entregou-me um bilhete do capit\u00e3o Mendon\u00e7a. Dizia assim:<\/p>\n<p>Meu caro doutor. \u2014 Entrei h\u00e1 pouco e vi-o dormir com t\u00e3o boa vontade que achei mais prudente ir-me embora pedindo-lhe que me visite quando quiser, no que me dar\u00e1 muita honra.<\/p>\n<p>10 horas da noite.<\/p>\n<p>Apesar de saber que o Mendon\u00e7a da realidade n\u00e3o era o do sonho, desisti de o ir visitar. Berrem os praguentos, embora \u2014 tu \u00e9s a rainha do mundo, \u00f3 supersti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1870 I Estando um pouco arrufado com a dama dos meus pensamentos, achei-me eu uma noite sem destino nem vontade de preencher o tempo alegremente, como conv\u00e9m em tais situa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o queria ir para casa porque seria entrar em luta com a solid\u00e3o e a reflex\u00e3o, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-116743","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a , Machado de Assis O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a , Machado de Assis O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-03-30T21:28:13+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"39 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-capitao-mendonca#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-capitao-mendonca\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a\",\"datePublished\":\"2017-03-30T21:28:13+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-capitao-mendonca\"},\"wordCount\":7890,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-capitao-mendonca#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-capitao-mendonca\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-capitao-mendonca\",\"name\":\"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a , Machado de Assis O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-03-30T21:28:13+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-capitao-mendonca#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-capitao-mendonca\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-capitao-mendonca#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a , Machado de Assis O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a","description":"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a , Machado de Assis O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a","og_description":"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-03-30T21:28:13+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"39 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a","datePublished":"2017-03-30T21:28:13+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca"},"wordCount":7890,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca","name":"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a , Machado de Assis O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-03-30T21:28:13+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-capitao-mendonca#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"O Capit\u00e3o Mendon\u00e7a"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116743","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=116743"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116743\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=116743"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=116743"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=116743"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}