{"id":116738,"date":"2017-03-30T19:18:38","date_gmt":"2017-03-30T21:18:38","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116738"},"modified":"2017-03-30T19:18:38","modified_gmt":"2017-03-30T21:18:38","slug":"o-anjo-rafael","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-anjo-rafael","title":{"rendered":"O Anjo Rafael"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1869<\/b><\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Cansado da vida, descrente dos homens, desconfiado das mulheres e aborrecido dos credores, o dr. Antero da Silva determinou um dia despedir-se deste mundo.<\/p>\n<p>Era pena. O dr. Antero contava trinta anos, tinha sa\u00fade, e podia, se quisesse, fazer uma bonita carreira. Verdade \u00e9 que para isso fora necess\u00e1rio proceder a uma completa reforma dos seus costumes. Entendia, por\u00e9m, o nosso her\u00f3i que o defeito n\u00e3o estava em si, mas nos outros; cada pedido de um credor inspirava-lhe uma ap\u00f3strofe contra a sociedade; julgava conhecer os homens, por ter tratado at\u00e9 ent\u00e3o com alguns bonecos sem consci\u00eancia; pretendia conhecer as mulheres, quando apenas havia praticado com meia d\u00fazia de regateiras do amor.<\/p>\n<p>O caso \u00e9 que o nosso her\u00f3i determinou matar-se, e para isso foi \u00e0 casa da vi\u00fava Laport, comprou uma pistola e entrou em casa, que era \u00e0 rua da Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Davam ent\u00e3o quatro horas da tarde.<\/p>\n<p>O dr. Antero disse ao criado que pusesse o jantar na mesa.<\/p>\n<p>\u2014 A viagem \u00e9 longa, disse ele consigo, e eu n\u00e3o sei se h\u00e1 hot\u00e9is no caminho.<\/p>\n<p>Jantou com efeito, t\u00e3o tranq\u00fcilo como se tivesse de ir dormir a sesta e n\u00e3o o \u00faltimo sono. O pr\u00f3prio criado reparou que o amo estava nesse dia mais folgaz\u00e3o que nunca. Conversaram alegremente durante todo o jantar. No fim dele, quando o criado lhe trouxe o caf\u00e9, Antero proferiu paternalmente as seguintes palavras:<\/p>\n<p>\u2014 Pedro, tira de minha gaveta uns cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is que l\u00e1 est\u00e3o, s\u00e3o teus. Vai passar a noite fora e n\u00e3o voltes antes da madrugada.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, meu senhor, respondeu Pedro.<\/p>\n<p>\u2014 Vai.<\/p>\n<p>Pedro apressou-se a executar a ordem do amo.<\/p>\n<p>O dr. Antero foi para a sala, estendeu-se no div\u00e3, abriu um volume do Dicion\u00e1rio filos\u00f3fico e come\u00e7ou a ler.<\/p>\n<p>J\u00e1 ent\u00e3o declinava a tarde e aproximava-se a noite. A leitura do dr. Antero n\u00e3o podia ser longa. Efetivamente da\u00ed a algum tempo levantou-se o nosso her\u00f3i e fechou o livro.<\/p>\n<p>Uma fresca brisa penetrava na sala e anunciava uma agrad\u00e1vel noite. Corria ent\u00e3o o inverno, aquele benigno inverno que os fluminenses t\u00eam a ventura de conhecer e agradecer ao c\u00e9u.<\/p>\n<p>O dr. Antero acendeu uma vela e sentou-se \u00e0 mesa para escrever. N\u00e3o tinha parentes, nem amigos a quem deixar carta; entretanto, n\u00e3o queria sair deste mundo sem dizer a respeito dele a sua \u00faltima palavra. Travou da pena e escreveu as seguintes linhas:<\/p>\n<p>Quando um homem, perdido no mato, v\u00ea-se cercado de animais ferozes e trai\u00e7oeiros, procura fugir se pode. De ordin\u00e1rio a fuga \u00e9 imposs\u00edvel. Mas estes animais meus semelhantes t\u00e3o trai\u00e7oeiros e ferozes como os outros, tiveram a in\u00e9pcia de inventar uma arma, mediante a qual um transviado facilmente lhes escapa das unhas.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente o que vou fazer.<\/p>\n<p>Tenho ao p\u00e9 de mim uma pistola, p\u00f3lvora e bala; com estes tr\u00eas elementos reduzirei a minha vida ao nada. N\u00e3o levo nem deixo saudades. Morro por estar enjoado da vida e por ter certa curiosidade da morte.<\/p>\n<p>Provavelmente, quando a pol\u00edcia descobrir o meu cad\u00e1ver, os jornais escrever\u00e3o a not\u00edcia do acontecimento, e um ou outro far\u00e1 a esse respeito considera\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. Importam-me bem pouco as tais considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se me \u00e9 l\u00edcito ter uma \u00faltima vontade, quero que estas linhas sejam publicadas no Jornal do Commercio. Os rimadores de ocasi\u00e3o encontrar\u00e3o assunto para algumas estrofes.<\/p>\n<p>O dr. Antero releu o que tinha escrito, corrigiu em alguns lugares a pontua\u00e7\u00e3o, fechou o papel em forma de carta, e p\u00f4s-lhe este sobrescrito: Ao mundo.<\/p>\n<p>Depois carregou a arma; e, para rematar a vida com um tra\u00e7o de impiedade, a bucha que meteu no cano da pistola foi uma folha do Evangelho de S. Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Era noite fechada. O dr. Antero chegou-se \u00e0 janela, respirou um pouco, olhou para o c\u00e9u, e disse \u00e0s estrelas:<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 j\u00e1.<\/p>\n<p>E saindo da janela acrescentou mentalmente:<\/p>\n<p>\u2014 Pobres estrelas! Eu bem quisera l\u00e1 ir, mas com certeza h\u00e3o de impedir-me os vermes da terra. Estou aqui, e estou feito um punhado de p\u00f3. \u00c9 bem poss\u00edvel que no futuro s\u00e9culo sirva este meu inv\u00f3lucro para macadamizar a rua do Ouvidor. Antes isso; ao menos terei o prazer de ser pisado por alguns p\u00e9s bonitos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que fazia estas reflex\u00f5es, lan\u00e7ava m\u00e3o da pistola, e olhava para ela com certo orgulho.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui est\u00e1 a chave que me vai abrir a porta deste c\u00e1rcere, disse ele.<\/p>\n<p>Depois sentou-se numa cadeira de bra\u00e7os, p\u00f4s as pernas sobre a mesa, \u00e0 americana, firmou os cotovelos, e segurando a pistola com ambas as m\u00e3os, meteu o cano entre os dentes.<\/p>\n<p>J\u00e1 ia disparar o tiro, quando ouviu tr\u00eas pancadinhas \u00e0 porta. Involuntariamente levantou a cabe\u00e7a. Depois de um curto sil\u00eancio repetiram-se as pancadinhas. O rapaz n\u00e3o esperava ningu\u00e9m, e era-lhe indiferente falar a quem quer que fosse. Contudo, por maior que seja a tranq\u00fcilidade de um homem quando resolve abandonar a vida, \u00e9-lhe sempre agrad\u00e1vel achar um pretexto para prolong\u00e1-la um pouco mais.<\/p>\n<p>O dr. Antero p\u00f4s a pistola sobre a mesa e foi abrir a porta.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>A pessoa que batera \u00e0 porta era um homem grosseiramente vestido. Trazia uma carta na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Que me quer? perguntou-lhe o dr. Antero.<\/p>\n<p>\u2014 Trago esta carta, que lhe manda meu amo.<\/p>\n<p>O dr. Antero aproximou-se da luz para ler a carta.<\/p>\n<p>A carta dizia assim:<\/p>\n<p>Uma pessoa que deseja propor um neg\u00f3cio ao sr. dr. Antero da Silva pede-lhe que venha imediatamente \u00e0 sua casa. O portador desta o acompanhar\u00e1. Trata-se de uma fortuna.<\/p>\n<p>O rapaz leu e releu a carta, cuja letra n\u00e3o conhecia, e cujo laconismo trazia um ar de mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 teu amo? perguntou o dr. Antero ao criado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o sr. major Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Tom\u00e1s de qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei mais nada.<\/p>\n<p>O dr. Antero franziu a testa. Que mist\u00e9rio seria aquele? Uma carta sem assinatura, uma proposta lac\u00f4nica, um criado que n\u00e3o sabia o nome do patr\u00e3o, eis quanto bastou para despertar vivamente a curiosidade do dr. Antero. Apesar de n\u00e3o ter o esp\u00edrito propenso \u00e0s aventuras, esta o impressionara a tal ponto que esqueceu por um instante a l\u00fagubre viagem t\u00e3o friamente planeada.<\/p>\n<p>Olhou para o criado atentamente; as fei\u00e7\u00f5es eram comuns, o olhar pouco menos de est\u00fapido. Evidentemente n\u00e3o era um c\u00famplice, se \u00e9 que no fundo daquela aventura havia um crime.<\/p>\n<p>\u2014 Onde mora teu amo? perguntou o dr. Antero.<\/p>\n<p>\u2014 Na Tijuca, respondeu o criado.<\/p>\n<p>\u2014 Mora s\u00f3?<\/p>\n<p>\u2014 Com uma filha.<\/p>\n<p>\u2014 Menina ou mo\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2014 Mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Que qualidade de homem \u00e9 o major Tom\u00e1s?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe posso dizer, respondeu o criado, porque fui para l\u00e1 h\u00e1 oito dias apenas. Quando entrei, disse-me o patr\u00e3o: \u201c. At\u00e9 hoje tenho executado a ordem do patr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 mais criados em casa? perguntou o dr. Antero.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 uma criada, que serve \u00e0 filha do amo.<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m mais?<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m mais.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia do suic\u00eddio j\u00e1 estava longe do esp\u00edrito do dr. Antero. O que o prendia agora era o mist\u00e9rio daquela miss\u00e3o noturna e as singulares refer\u00eancias do portador da carta. Varreu-lhe do esp\u00edrito igualmente a suspeita de um crime. A sua vida tinha sido t\u00e3o indiferente ao resto dos homens, que n\u00e3o podia ter inspirado a ningu\u00e9m a id\u00e9ia de uma vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Contudo, hesitava ainda; mas relendo o misterioso bilhete, reparou nas \u00faltimas palavras: trata-se de uma fortuna; palavras que nas duas primeiras leituras apenas lhe causaram uma ligeira impress\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando um homem quer deixar a vida por um simples aborrecimento, a promessa de uma fortuna \u00e9 raz\u00e3o bastante para suspender o passo fatal. No caso do dr. Antero a promessa da fortuna era raz\u00e3o decisiva. Se averiguarmos bem a causa principal do t\u00e9dio que este mundo lhe inspirava, veremos que n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o a falta de cabedais. Desde que estes lhe batiam \u00e0 porta, o suic\u00eddio j\u00e1 n\u00e3o tinha raz\u00e3o de ser.<\/p>\n<p>O doutor disse ao criado que o esperasse, e tratou de vestir-se.<\/p>\n<p>\u2014 Em todo o caso, disse ele consigo, a todo tempo \u00e9 tempo; se n\u00e3o morrer hoje posso morrer amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Vestiu-se, e lembrando-se de que seria conveniente ir armado, meteu a pistola no bolso, e saiu acompanhado pelo criado.<\/p>\n<p>Quando os dois chegaram \u00e0 porta da rua, j\u00e1 os esperava um carro. O criado convidou o dr. Antero a entrar, e foi sentar na almofada com o cocheiro.<\/p>\n<p>Conquanto os cavalos fossem a trote largo, longa pareceu a viagem ao doutor, que, apesar das circunst\u00e2ncias singulares daquela aventura, tinha \u00e2nsia por ver-lhe o desfecho. Entretanto, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que o carro se ia afastando do centro populoso da cidade, o esp\u00edrito do nosso viajante tomava-se de certa apreens\u00e3o. Era ele mais estouvado que animoso; a sua tranq\u00fcilidade diante da morte n\u00e3o era resultado do valor de \u00e2nimo. No fundo do seu esp\u00edrito havia uma extrema dose de fraqueza. Podia disfar\u00e7\u00e1-la quando dominava os acontecimentos; mas agora que os acontecimentos dominavam a ele, facilmente desaparecia o simulacro de coragem.<\/p>\n<p>Enfim o carro chegou \u00e0 Tijuca, e, depois de andar um grande espa\u00e7o, parou diante de uma ch\u00e1cara completamente separada de todas as demais habita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O criado veio abrir a porta, e o doutor apeou-se. As pernas tremiam-lhe um pouco, e o cora\u00e7\u00e3o pulsava-lhe apressadamente. Estavam diante de um port\u00e3o fechado. A ch\u00e1cara era cercada por um muro um tanto baixo, por cima do qual o dr. Antero p\u00f4de ver a casa de habita\u00e7\u00e3o, colocada no fundo da ch\u00e1cara perto da encosta de uma colina.<\/p>\n<p>O carro deu volta e partiu, enquanto o criado abria o port\u00e3o com uma chave que trazia no bolso. Entraram os dois, e o criado fechando por dentro o port\u00e3o indicou o caminho ao dr. Antero.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero dar ao meu her\u00f3i propor\u00e7\u00f5es que ele n\u00e3o tem; confesso que naquele momento o dr. Antero da Silva estava bem arrependido de ter aberto a porta ao importuno portador da carta. Se pudesse fugir, fugia, ainda correndo o risco de passar por covarde aos olhos do criado. Mas era imposs\u00edvel. O doutor fez das tripas cora\u00e7\u00e3o, e caminhou na dire\u00e7\u00e3o da casa.<\/p>\n<p>A noite era clara, mas sem lua; soprava um vento que agitava brandamente as folhas das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>O doutor caminhava por uma alameda acompanhado pelo criado; rangia a areia debaixo de seus p\u00e9s. Apalpou o bolso para verificar se tinha a pistola consigo; em todo o caso era um recurso.<\/p>\n<p>Quando chegaram ao meio do caminho o doutor perguntou ao criado:<\/p>\n<p>\u2014 O carro n\u00e3o volta?<\/p>\n<p>\u2014 Suponho que sim; meu amo o informar\u00e1 melhor.<\/p>\n<p>O doutor teve uma id\u00e9ia s\u00fabita: empregar o tiro no criado, saltar o muro e voltar para casa. Chegou a engatilhar a arma, mas imediatamente refletiu que o ru\u00eddo despertaria a aten\u00e7\u00e3o, e a sua fuga tornava-se improv\u00e1vel.<\/p>\n<p>Resignou-se, pois, \u00e0 sorte, e caminhou para a casa misteriosa.<\/p>\n<p>Misteriosa \u00e9 o termo; todas as janelas estavam fechadas; n\u00e3o havia uma \u00fanica r\u00e9stia de luz; n\u00e3o se ouvia o menor rumor de fala.<\/p>\n<p>O criado tirou do bolso outra chave, e com ela abriu a porta da casa, que tornou a fechar apenas o doutor entrou. A\u00ed tirou o criado do bolso uma caixa de f\u00f3sforos, acendeu um, e com ele um rolo de cera que trazia consigo.<\/p>\n<p>O doutor viu ent\u00e3o que se achava em uma esp\u00e9cie de p\u00e1tio, tendo ao fundo uma escada comunicando para o sobrado. Perto da porta de entrada havia um cub\u00edculo tapado por um gradil de ferro, e que servia de casa a um enorme c\u00e3o. O c\u00e3o entrou a rosnar quando pressentiu gente; mas o criado f\u00ea-lo calar, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Sil\u00eancio, Dolabela!<\/p>\n<p>Subiram a escada at\u00e9 acima, e depois de atravessarem um extenso corredor, acharam-se diante de uma porta fechada. O criado tirou do bolso uma terceira chave, e depois de abrir a porta convidou o dr. Antero a entrar, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Queira o senhor esperar aqui, enquanto eu vou dar parte a meu amo da sua chegada. Entretanto, deixe-me acender-lhe uma vela.<\/p>\n<p>Efetivamente acendeu uma vela que se achava dentro de um casti\u00e7al de bronze em cima de uma pequena mesa redonda de mogno, e saiu.<\/p>\n<p>O dr. Antero achava-se num quarto; havia a um lado uma cama alta; a mob\u00edlia era de um gosto severo; o quarto tinha apenas uma janela, mas gradeada. Sobre a mesa havia alguns livros, pena, papel e tinta.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil imaginar a \u00e2nsia com que o doutor esperou a resposta do seu misterioso correspondente. O que ele queria era p\u00f4r termo \u00e0quela aventura que tinha ares de um conto de Hoffmann. A resposta n\u00e3o se demorou. O criado voltou dizendo que o major Tom\u00e1s n\u00e3o podia falar imediatamente ao doutor; oferecia-lhe quarto e cama, e adiava. a explica\u00e7\u00e3o para o dia seguinte.<\/p>\n<p>O doutor insistiu em falar-lhe naquela ocasi\u00e3o, pretextando ter importante motivo de voltar \u00e0 cidade; no caso de n\u00e3o poder o major falar-lhe, propunha ele voltar no dia seguinte. O criado ouviu-o com todo o respeito, mas declarou que n\u00e3o voltaria ao patr\u00e3o, cujas ordens eram imperiosas. O doutor ofereceu dinheiro ao criado; mas este recusou os presentes de Artaxerxes com um gesto t\u00e3o solene, que tapou a boca ao mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho ordem, disse finalmente o criado, de trazer-lhe uma ceia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho fome, respondeu o dr. Antero.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, boa noite.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus.<\/p>\n<p>O criado dirigiu-se para a porta, enquanto o doutor o seguia ansiosamente com os olhos. Iria ele fechar-lhe a porta por fora? Realizou-se a suspeita; o criado fechou a porta e levou a chave consigo.<\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil imaginar que narrar a noite aflitiva do dr. Antero. Os primeiros raios do sol, penetrando atrav\u00e9s das grades da janela, acharam-no vestido sobre a cama, onde s\u00f3 conseguira adormecer pelas quatro horas da madrugada.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Ora, o nosso her\u00f3i teve um sonho durante o curto espa\u00e7o de tempo que dormiu. Sonhou que tendo executado o seu plano de suic\u00eddio, fora levado para a cidade das dores eternas, onde Belzebu o destinava a ser perpetuamente queimado numa imensa fogueira. O infeliz fazia as suas obje\u00e7\u00f5es ao anjo do reino escuro; mas este, com uma \u00fanica resposta, reiterava a ordem dada. Quatro chanceleres infernais lan\u00e7aram m\u00e3o dele e o lan\u00e7aram ao fogo. O doutor deu um grito e acordou.<\/p>\n<p>Sa\u00eda de um sonho para entrar em outro.<\/p>\n<p>Levantou-se espantado; n\u00e3o conhecia o quarto em que se achava, nem a casa em que dormira. Mas pouco a pouco foi-lhe reproduzindo a mem\u00f3ria todos os incidentes da v\u00e9spera. O sonho tinha sido um mal imagin\u00e1rio; mas a realidade era um mal positivo. O rapaz teve \u00edmpetos de gritar; reconheceu, por\u00e9m, a inutilidade do recurso; preferiu esperar.<\/p>\n<p>N\u00e3o esperou muito; da\u00ed alguns minutos ouviu o ru\u00eddo da chave na fechadura.<\/p>\n<p>Entrou o criado.<\/p>\n<p>Trazia na m\u00e3o as folhas do dia.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 de p\u00e9!<\/p>\n<p>\u2014 Sim, respondeu o dr. Antero. Que horas s\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Oito horas. Aqui tem as folhas de hoje. Olhe, ali tem um lavat\u00f3rio<\/p>\n<p>O doutor n\u00e3o havia reparado ainda no lavat\u00f3rio; a preocupa\u00e7\u00e3o tinha-lhe feito esquecer a lavagem do rosto; tratou de remediar o esquecimento.<\/p>\n<p>Enquanto lavava o rosto, perguntou-lhe o criado:<\/p>\n<p>\u2014 A que horas almo\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2014 Almo\u00e7ar?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu vou ficar aqui?<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o ordens que tenho.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, enfim, estou ansioso por falar a esse major que n\u00e3o conhe\u00e7o, e que me tem preso sem que eu saiba por que motivo.<\/p>\n<p>\u2014 Preso! exclamou o criado. O senhor n\u00e3o est\u00e1 preso; meu amo quer falar-lhe, e por isso \u00e9 que eu o fui chamar; deu-lhe quarto, cama, d\u00e1-lhe um almo\u00e7o; creio que isto n\u00e3o \u00e9 t\u00ea-lo preso.<\/p>\n<p>O doutor tinha enxugado o rosto, e sentou-se numa poltrona.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que me quer teu amo? perguntou-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o sei, respondeu o criado. A que horas quer o almo\u00e7o?<\/p>\n<p>\u2014 A que for do teu gosto.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, respondeu o criado. Aqui tem as folhas.<\/p>\n<p>O criado fez um respeitoso cumprimento ao doutor e saiu fechando a porta.<\/p>\n<p>Cada minuto que passava era para o desgra\u00e7ado mo\u00e7o um s\u00e9culo de ang\u00fastia. O que mais o torturava eram precisamente aquelas aten\u00e7\u00f5es, aqueles obs\u00e9quios sem explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, sem presum\u00edvel desfecho. Que homem seria esse major, e que lhe queria ele? O doutor fez mil vezes esta pergunta a si mesmo sem achar resposta poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Do criado j\u00e1 sabia ele que nada poderia alcan\u00e7ar; al\u00e9m de novo na casa, parecia absolutamente est\u00fapido. Seria honesto?<\/p>\n<p>O dr. Antero fez esta \u00faltima reflex\u00e3o metendo a m\u00e3o no bolso e tirando a carteira. Restavam-lhe ainda uns cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 quanto basta, pensou ele, para conseguir deste pateta que me ponha fora daqui.<\/p>\n<p>O doutor esquecia que j\u00e1 na v\u00e9spera o criado recusara dinheiro em troca de um servi\u00e7o menos importante.<\/p>\n<p>\u00c0s nove horas o criado voltou trazendo numa bandeja um almo\u00e7o delicado e apetitoso. Apesar da gravidade da situa\u00e7\u00e3o, o nosso her\u00f3i atacou o almo\u00e7o com uma intrepidez de verdadeiro general de mesa. Dentro de vinte minutos s\u00f3 restavam nos pratos mortos e feridos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que comia ia ele interrogando o criado.<\/p>\n<p>\u2014 Dize-me c\u00e1; queres fazer-me um grande favor?<\/p>\n<p>\u2014 Qual?<\/p>\n<p>\u2014 Tenho aqui cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is \u00e0 tua disposi\u00e7\u00e3o, e amanh\u00e3 posso dar-te mais cinq\u00fcenta, ou cem, ou duzentos; em troca disto pe\u00e7o-te que arranjes meio de me p\u00f4r fora desta casa.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel, senhor, respondeu o criado sorrindo; eu s\u00f3 obede\u00e7o a meu amo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim; mas teu amo nunca vir\u00e1 a saber que eu te dei dinheiro; tu podes dizer-lhe que a minha fuga foi devida a um descuido, e deste modo ficamos ambos salvos.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sou honrado; n\u00e3o posso aceitar o seu dinheiro.<\/p>\n<p>O doutor ficou desanimado com a austeridade do f\u00e2mulo; bebeu o resto do borgonha que tinha no copo, e levantou-se fazendo um gesto de desespero.<\/p>\n<p>O criado n\u00e3o se impressionou; preparou o caf\u00e9 para o h\u00f3spede e foi oferecer-lhe. O doutor bebeu dois ou tr\u00eas goles e restituiu-lhe a x\u00edcara. O criado arrumou a lou\u00e7a na bandeja e saiu.<\/p>\n<p>No fim de meia hora voltou o criado dizendo que seu amo estava pronto para receber o dr. Antero.<\/p>\n<p>Conquanto o doutor desejasse sair da situa\u00e7\u00e3o em que se achava, e saber o fim para que o haviam mandado buscar, nem por isso o impressionou menos a id\u00e9ia de ir ver enfim o terr\u00edvel e desconhecido major.<\/p>\n<p>Lembrou-se que podia haver algum perigo, e instintivamente apalpou a algibeira; esquecia-se de que ao deitar-se tinha posto a pistola debaixo do travesseiro. Era imposs\u00edvel tir\u00e1-la \u00e0 vista do criado, resignou-se.<\/p>\n<p>O criado f\u00ea-lo sair primeiro, fechou a porta e seguiu adiante para guiar o m\u00edsero doutor. Atravessaram o corredor por onde haviam passado na v\u00e9spera; depois entraram em outro corredor que ia ter a uma pequena sala. A\u00ed disse o criado ao doutor que esperasse enquanto ia dar parte a seu amo, e penetrando numa sala que ficava \u00e0 esquerda, voltou pouco depois dizendo que o major esperava o dr. Antero.<\/p>\n<p>O doutor passou \u00e0 outra sala.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Estava ao fundo, sentado numa poltrona de couro, um velho alto e magro, envolvido num largo chambre amarelo.<\/p>\n<p>O doutor deu apenas alguns passos e parou; mas o velho, apontando-lhe para uma cadeira que lhe ficava defronte, convidou-o a sentar.<\/p>\n<p>O doutor obedeceu imediatamente.<\/p>\n<p>Houve um curto sil\u00eancio, durante o qual o dr. Antero p\u00f4de examinar a figura que tinha diante de si.<\/p>\n<p>Os cabelos do major Tom\u00e1s eram completamente brancos; a tez era p\u00e1lida e macilenta. Os olhos vivos, mas encovados; dissera-se a luz de uma vela prestes a extinguir-se, e soltando do fundo do casti\u00e7al os seus \u00faltimos lampejos.<\/p>\n<p>Os bei\u00e7os do velho eram finos e brancos; e o nariz, curvo como um bico de \u00e1guia, assentado sobre um par de bigodes da cor dos cabelos; os bigodes eram a base daquela enorme coluna.<\/p>\n<p>O aspecto do major poderia causar menos desagrad\u00e1vel impress\u00e3o, se n\u00e3o fossem as bastas e cerradas sobrancelhas, cujas pontas internas vinham ligar-se na parte superior do nariz; al\u00e9m disso o velho contra\u00eda constantemente a testa, o que lhe produzia uma enorme ruga que, vista de longe, dava ares de ser uma continua\u00e7\u00e3o do nariz.<\/p>\n<p>Independentemente das circunst\u00e2ncias especiais em que o doutor se achava, a figura do major inspirava um sentimento de medo. Podia ser uma excelente pessoa; mas o seu aspecto repugnava \u00e0 vista e ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O dr. Antero n\u00e3o ousava romper o sil\u00eancio; e limitava-se a contemplar o homem. Este olhava alternativamente para o doutor e para as unhas. As m\u00e3os do velho pareciam garras; o dr. Antero j\u00e1 as estava sentindo cravadas em si.<\/p>\n<p>\u2014 Estou falando ao dr. Antero da Silva? perguntou lentamente o major.<\/p>\n<p>\u2014 Um seu criado.<\/p>\n<p>\u2014 Criado de Deus, respondeu o major com um sorriso estranho.<\/p>\n<p>Depois continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Doutor em medicina, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Conheci muito seu pai; fomos companheiros no tempo da independ\u00eancia. Era ele mais velho do que eu dois anos. Pobre coronel! ainda hoje sinto a sua morte.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o respirou; a conversa levava um bom caminho; o major confessava-se amigo de seu pai, e lhe falava nele. Animou-se um pouco, e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m eu, sr. major.<\/p>\n<p>\u2014 Bom velho! continuou o major; sincero, alegre, valente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>O major levantou-se um pouco, apoiando as m\u00e3os nos bra\u00e7os da poltrona, e disse com voz surda:<\/p>\n<p>\u2014 E mais que tudo, era obediente \u00e0queles que t\u00eam uma origem no c\u00e9u!<\/p>\n<p>O doutor arregalou os olhos; n\u00e3o compreendera bem o sentido das \u00faltimas palavras do major. N\u00e3o podia supor que aludisse aos sentimentos religiosos de seu pai, que era tido no seu tempo como um profundo materialista.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o quis contrariar o velho, e procurou ao mesmo tempo obter uma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 exato, disse o rapaz; meu pai era profundamente religioso.<\/p>\n<p>\u2014 Religioso n\u00e3o basta, respondeu o major brincando com os cord\u00f5es do chambre; conhe\u00e7o muita gente religiosa que n\u00e3o respeita os enviados do c\u00e9u. Creio que o senhor foi educado com as mesmas id\u00e9ias de seu pai, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor, balbuciou o dr. Antero aturdido com as palavras enigm\u00e1ticas do major.<\/p>\n<p>Este, depois de esfregar as m\u00e3os e torcer o bigode repetidas vezes, perguntou ao seu interlocutor:<\/p>\n<p>\u2014 Diga-me, foi bem tratado em minha casa?<\/p>\n<p>\u2014 Magnificamente.<\/p>\n<p>\u2014 Pois aqui vai morar a seu gosto e o tempo que lhe parecer.<\/p>\n<p>\u2014 Teria muita honra nisso, respondeu o doutor, se pudesse dispor do meu tempo; h\u00e1 de consentir, pois, que eu recuse por enquanto o seu oferecimento. Apressei-me a vir ontem por causa do bilhete que me mandou. Que me quer V. Excia.?<\/p>\n<p>\u2014 Duas coisas: a sua companhia e o seu casamento; dou-lhe em troca uma fortuna.<\/p>\n<p>O doutor olhou espantado para o velho, e este, compreendendo o espanto do rapaz, disse-lhe sorrindo:<\/p>\n<p>\u2014 De que se admira?<\/p>\n<p>\u2014 Eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Do casamento, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, confesso que&#8230; N\u00e3o sei como mere\u00e7o essa honra de ser convidado para noivo mediante uma fortuna.<\/p>\n<p>\u2014 Compreendo o seu espanto; \u00e9 pr\u00f3prio de quem foi educado l\u00e1 fora; eu c\u00e1 procedo de modo contr\u00e1rio ao que se pratica nesse mundo. Mas, vamos: aceita?<\/p>\n<p>\u2014 Antes de tudo, sr. major, responda: por que se lembrou de mim?<\/p>\n<p>\u2014 Fui amigo de seu pai; quero prestar-lhe esta homenagem p\u00f3stuma, dando ao senhor em casamento a minha \u00fanica filha.<\/p>\n<p>\u2014 Trata-se ent\u00e3o de sua filha?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor; trata-se de Celestina.<\/p>\n<p>Os olhos do velho tornaram-se mais vivos que nunca ao pronunciar o nome da filha.<\/p>\n<p>O dr. Antero olhou algum tempo para o ch\u00e3o e respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Bem sabe que o amor \u00e9 que faz os casamentos felizes. Entregar uma mo\u00e7a a um rapaz a quem ela n\u00e3o ama \u00e9 dar-lhe um supl\u00edcio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Supl\u00edcio! Ora, a\u00ed vem o senhor com a linguagem l\u00e1 de fora. Minha filha ignora at\u00e9 o que seja amor; \u00e9 um anjo na ra\u00e7a e na candura.<\/p>\n<p>Dizendo estas \u00faltimas palavras o velho olhou para o teto e ficou assim durante algum tempo como se contemplasse alguma coisa invis\u00edvel aos olhos do rapaz. Depois, abaixando outra vez os olhos, continuou:<\/p>\n<p>\u2014 A sua obje\u00e7\u00e3o n\u00e3o vale nada.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho outra; \u00e9 justo que aqui dentro n\u00e3o exista a mesma ordem de id\u00e9ias que h\u00e1 l\u00e1 fora; mas \u00e9 natural que os que s\u00e3o l\u00e1 de fora n\u00e3o partilhem as mesmas id\u00e9ias c\u00e1 de dentro. Por outros termos, eu n\u00e3o desejaria casar com uma mo\u00e7a sem am\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Aceito a obje\u00e7\u00e3o; estou certo que apenas a vir ficar\u00e1 morrendo por ela.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 certo. Ora, pois, v\u00e1 para o seu quarto; \u00e0 hora do jantar mand\u00e1-lo-ei chamar; jantaremos os tr\u00eas.<\/p>\n<p>O velho levantou-se e foi a um canto da sala puxar pelo cord\u00e3o de uma campainha. O dr. Antero teve ocasi\u00e3o de ver ent\u00e3o a estatura do major, que era alta e at\u00e9 certo ponto majestosa.<\/p>\n<p>Acudiu o criado e o major deu-lhe ordem de conduzir o doutor para o quarto.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Quando o doutor se achou s\u00f3 no quarto entrou a meditar na situa\u00e7\u00e3o conforme se lhe desenhara ela depois da conversa com o major. O velho parecia-lhe singularmente extravagante, mas falava-lhe do pai, mostrava-se af\u00e1vel, e afinal de contas oferecia a filha e uma riqueza. O esp\u00edrito do mo\u00e7o estava mais um pouco tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que ele opusera obje\u00e7\u00f5es \u00e0 proposta do velho, e parecera agarrar-se a todas as dificuldades, por menores que fossem. Mas eu n\u00e3o posso ocultar que a resist\u00eancia do rapaz era talvez menos sincera do que ele pr\u00f3prio pensava. A perspectiva da riqueza disfar\u00e7ou por algum tempo a singularidade da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o agora era ver a mo\u00e7a; se fosse bonita; se tivesse uma fortuna, que mal havia em se casar ele com ela? O doutor aguardou a hora do jantar com uma impaci\u00eancia a que j\u00e1 n\u00e3o eram estranhos os c\u00e1lculos da ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O criado tinha-lhe posto \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o um guarda-roupa, e meia hora depois serviu-lhe um banho. Satisfeitas essas necessidades de asseio, o doutor deitou-se na cama e tirou \u00e0 vontade um dos livros que se achavam sobre a mesa. Era um romance de Walter Scott. O rapaz, educado com o estilo de telegrama dos livros de Ponson du Terrail, adormeceu logo \u00e0 segunda p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Quando acordou era tarde; recorreu ao rel\u00f3gio, e achou-o parado; esquecera-se de lhe dar corda.<\/p>\n<p>Receava que o criado o tivesse vindo chamar, e se retirasse por encontr\u00e1-lo a dormir. Era estrear mal a sua vida na casa de um homem que talvez fizesse dele aquilo de que j\u00e1 nem tinha esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Imagine-se, pois, a ansiedade com que ele esperou as horas.<\/p>\n<p>Valia-lhe, por\u00e9m, que, apesar dos receios, a sua imagina\u00e7\u00e3o trabalhava sempre; e era de ver o quadro que ela desenhava no futuro, os castelos que constru\u00eda no ar; credores pagos, casas magn\u00edficas, sal\u00f5es, bailes, carros, cavalos, viagens, mulheres enfim, porque nos sonhos do dr. Antero havia sempre uma ou duas mulheres.<\/p>\n<p>O criado veio enfim cham\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A sala do jantar era pequena, mas ornada com muito gosto e simplicidade.<\/p>\n<p>Quando o doutor entrou n\u00e3o havia ningu\u00e9m; mas pouco depois entrou o major, j\u00e1 vestido com uma sobrecasaca preta abotoada at\u00e9 o pesco\u00e7o e contrastando com a cor branca dos seus cabelos e bigodes e a tez p\u00e1lida do rosto.<\/p>\n<p>O major sentou-se \u00e0 cabeceira da mesa, e o doutor \u00e0 esquerda; a cadeira da direita estava reservada para a filha do major.<\/p>\n<p>Mas onde estava a mo\u00e7a? O doutor quis fazer a pergunta ao velho; mas reparou a tempo que a pergunta seria indiscreta.<\/p>\n<p>E sobre indiscreta, seria in\u00fatil, porque alguns minutos depois abriu-se uma porta que ficava fronteira ao lugar em que o doutor estava sentado, e apareceu uma criada anunciando a chegada de Celestina.<\/p>\n<p>O velho e o doutor levantaram-se.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a apareceu.<\/p>\n<p>Era uma figura delgada e franzina, nem alta nem baixa, mas extremamente airosa. N\u00e3o andou, deslisou da porta \u00e0 mesa; seus p\u00e9s deviam ser asas de pomba.<\/p>\n<p>O doutor ficou profundamente surpreendido com a apari\u00e7\u00e3o; at\u00e9 certo ponto contava com uma rapariga nem bonita nem feia, uma esp\u00e9cie de fardo que s\u00f3 podia ser carregado aos ombros de uma fortuna. Pelo contr\u00e1rio, tinha diante de si uma verdadeira beleza.<\/p>\n<p>Era, com efeito, um rosto ang\u00e9lico; transluzia-lhe no semblante a virgindade do cora\u00e7\u00e3o. Os olhos serenos e doces pareciam feitos para a contempla\u00e7\u00e3o; os cabelos louros e ca\u00eddos em cachos naturais assemelhavam-se a uma aur\u00e9ola. A tez era alva e fin\u00edssima; todas as fei\u00e7\u00f5es eram de uma harmonia e corre\u00e7\u00e3o admir\u00e1veis. Rafael podia copiar dali uma das suas virgens.<\/p>\n<p>Vestia de branco; uma fita azul, presa \u00e0 cintura, delineava-lhe o talhe elegante e gracioso.<\/p>\n<p>Celestina dirigiu-se ao pai e beijou-lhe a m\u00e3o: depois cumprimentou sorrindo ao dr. Antero, e sentou-se na cadeira que lhe estava destinada.<\/p>\n<p>O doutor n\u00e3o tirava os olhos dela. No esp\u00edrito superficial daquele homem entrava a descobrir-se uma profundidade.<\/p>\n<p>Pouco depois de sentar-se, a mo\u00e7a voltou-se para o pai e perguntou-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Este senhor \u00e9 o que vai ser meu marido?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, respondeu o maior.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bonito, disse ela sorrindo para o rapaz.<\/p>\n<p>Havia tanta candura e simplicidade na pergunta e na observa\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, que o doutor voltou instintivamente a cabe\u00e7a para o major, com \u00edmpetos de perguntar-lhe se devia acreditar nos seus ouvidos.<\/p>\n<p>O velho compreendeu o espanto do rapaz, e sorriu maliciosamente. O doutor olhou outra vez para Celestina, que o contemplava com uma admira\u00e7\u00e3o t\u00e3o natural e t\u00e3o sincera, que o rapaz chegou&#8230; a corar.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a jantar.<\/p>\n<p>A conversa come\u00e7ou tolhida e esquerda, por causa do doutor, que caminhava de espanto em espanto; mas dentro de pouco tornou-se expansiva e franca.<\/p>\n<p>Celestina era a mesma afabilidade do pai, real\u00e7ada pelas gra\u00e7as da juventude, e mais ainda por uma singeleza t\u00e3o agreste, t\u00e3o nova, que o doutor se julgava transportado a uma civiliza\u00e7\u00e3o desconhecida.<\/p>\n<p>Quando acabaram o jantar passaram \u00e0 sala da sesta. Chamava-se assim uma esp\u00e9cie de galeria de onde se descortinavam os arredores da casa. Celestina deu o bra\u00e7o ao doutor sem que este lhe oferecesse e seguiram os dois adiante do major, que ia resmungando uns salmos de Davi.<\/p>\n<p>Na sala da sesta sentaram-se os tr\u00eas; era a hora do crep\u00fasculo; as montanhas e o c\u00e9u come\u00e7avam a despir os v\u00e9us da tarde para vestir os da noite. A hora era prop\u00edcia aos enlevos; o dr. Antero, posto que educado em outra ordem de sensa\u00e7\u00f5es, sentia-se arrebatado nas asas da fantasia.<\/p>\n<p>A conversa versou sobre mil coisas de nada; a mo\u00e7a disse ao doutor que tinha dezessete anos, e perguntou a idade dele. Depois, contou por menor todos os h\u00e1bitos da sua vida, as suas prendas e seu gosto pelas flores, o seu amor \u00e0s estrelas, tudo isso com uma gra\u00e7a que tirava um pouco da juventude e um pouco da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Voltou-se ao assunto do casamento, e Celestina perguntou se o rapaz tinha d\u00favida em casar com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Nenhuma, disse ele; pelo contr\u00e1rio, tenho sumo prazer&#8230; \u00e9 uma felicidade para mim.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe disse eu? perguntou o pai de Celestina. Eu j\u00e1 sabia que bastava v\u00ea-la para fic\u00e1-la amando.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o posso contar que seja meu marido, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida, disse o doutor sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que \u00e9 marido? perguntou Celestina, depois de alguns instantes.<\/p>\n<p>A esta pergunta inesperada, o rapaz n\u00e3o p\u00f4de reprimir um movimento de surpresa. Olhou para o velho major; mas este, encostado na larga poltrona em que se achava sentado, come\u00e7ava a adormecer.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a repetia com os olhos a pergunta feita com os l\u00e1bios. O doutor envolveu-a com um olhar de amor, talvez o primeiro que teve em sua vida; depois pegou docemente na m\u00e3o de Celestina e levou-a aos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Celestina estremeceu toda e soltou um pequeno grito, que fez acordar sobressaltado o major.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? disse este.<\/p>\n<p>\u2014 Foi meu marido, respondeu a mo\u00e7a, que tocou com a boca dele na minha m\u00e3o.<\/p>\n<p>O major levantou-se, olhou severamente para o rapaz, e disse \u00e0 filha:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem, vai para o teu quarto.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a ficou um pouco surpreendida com a ordem do pai, mas obedeceu imediatamente, despedindo-se do rapaz com a mesma descuidosa simplicidade com que lhe falara pela primeira vez.<\/p>\n<p>Quando os dois ficaram s\u00f3s, o major pegou no bra\u00e7o do doutor, e disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Meu caro senhor, respeite as pessoas do c\u00e9u; quero um genro, n\u00e3o quero um tratante. Ora, cuidado!<\/p>\n<p>E saiu.<\/p>\n<p>O dr. Antero ficou at\u00f4nito com as palavras do major; era a terceira vez que lhe falava em pessoas ou enviados do c\u00e9u. Que queria dizer com aquilo?<\/p>\n<p>Pouco depois veio o criado com ordem de acompanh\u00e1-lo at\u00e9 o quarto; o doutor obedeceu sem fazer obje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>A noite foi m\u00e1 para o dr. Antero; acabara de assistir a cenas t\u00e3o estranhas, ouvira palavras t\u00e3o misteriosas, que o pobre mo\u00e7o perguntou a si mesmo se n\u00e3o era v\u00edtima de um sonho.<\/p>\n<p>Infelizmente n\u00e3o era.<\/p>\n<p>Aonde iria dar aquilo tudo? Qual o resultado da cena da tarde? O rapaz temia, mas j\u00e1 n\u00e3o ousava pensar na fuga; a id\u00e9ia da mo\u00e7a come\u00e7ava a ser um v\u00ednculo.<\/p>\n<p>Dormiu tarde e mal; foram-lhe agitados os sonhos.<\/p>\n<p>No dia seguinte levantou-se cedo, e recebeu do criado as folhas do dia. Enquanto n\u00e3o vinha a hora do almo\u00e7o, quis ler as not\u00edcias do mundo, do qual parecia estar separado por um abismo.<\/p>\n<p>Ora, eis aqui o que encontrou no Jornal do Commercio:<\/p>\n<p>Suic\u00eddio. \u2014 Anteontem, \u00e0 noite, o dr. Antero da Silva, depois de dizer ao seu criado que sa\u00edsse e s\u00f3 voltasse de madrugada, encerrou-se no quarto da casa que ocupava \u00e0 rua da Miseric\u00f3rdia, e escreveu a carta que os leitores encontrar\u00e3o adiante.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea dessa carta, o dr. Antero da Silva declarava a sua inten\u00e7\u00e3o de matar-se; mas a singularidade do caso \u00e9 que, voltando o criado para casa de madrugada, encontrou a carta, mas n\u00e3o encontrou o amo.<\/p>\n<p>O criado deu imediatamente parte \u00e0 pol\u00edcia, que empregou todas as dilig\u00eancias a ver se obtinha not\u00edcia do jovem doutor.<\/p>\n<p>Com efeito, depois de bem combinadas provid\u00eancias, encontrou-se na praia de Santa Luzia um cad\u00e1ver que se reconheceu ser o do infeliz mo\u00e7o. Parece que, apesar da declara\u00e7\u00e3o de que empregaria a pistola, o desgra\u00e7ado procurou outro meio menos violento de morte.<\/p>\n<p>Sup\u00f5e-se que uma paix\u00e3o amorosa o levou a cometer este ato; outros querem que fosse por fugir aos credores. A carta entretanto reza de outros motivos. Ei-la.<\/p>\n<p>Aqui seguia a carta que vimos no primeiro cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>A leitura da not\u00edcia produziu no dr. Antero uma impress\u00e3o singular; estaria ele morto deveras? Teria j\u00e1 sa\u00eddo do mundo da realidade para o mundo dos eternos sonhos? Era t\u00e3o extravagante tudo o que lhe acontecia desde a antev\u00e9spera, que o pobre rapaz sentiu por um instante vacilar-lhe a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas pouco a pouco voltou \u00e0 realidade das coisas; interrogou a si e a tudo o que o rodeava; releu atentamente a not\u00edcia; a identidade reconhecida pela pol\u00edcia, que ao princ\u00edpio o impressionara, f\u00ea-lo sorrir depois; e n\u00e3o menos o fez sorrir um dos motivos que se dava ao suic\u00eddio, o motivo da paix\u00e3o amorosa.<\/p>\n<p>Quando o criado voltou, pediu-lhe o doutor not\u00edcia circunstanciada do major e de sua filha. A mo\u00e7a estava boa; quanto ao major, disse o criado que lhe ouvira de noite alguns solu\u00e7os, e que de manh\u00e3 se levantara abatido.<\/p>\n<p>\u2014 Admira-me isto, acrescentou o criado, porque n\u00e3o sei que tivesse motivo para chorar, e al\u00e9m disso o amo \u00e9 um velho alegre.<\/p>\n<p>O doutor n\u00e3o respondeu; sem saber por que, atribu\u00eda-se a causa daqueles solu\u00e7os do velho; foi a ocasi\u00e3o do seu primeiro remorso.<\/p>\n<p>O criado disse-lhe que o almo\u00e7o o esperava; o doutor dirigiu-se para a sala de jantar onde achou o major realmente um pouco abatido. Foi direito a ele.<\/p>\n<p>O velho n\u00e3o se mostrou ressentido; falou-lhe com a mesma bondade da v\u00e9spera. Pouco depois chegou Celestina, bela, descuidosa, inocente como da primeira vez; beijou a testa do pai, apertou a m\u00e3o ao doutor e sentou-se no seu lugar. O almo\u00e7o correu sem incidente; a conversa nada teve de not\u00e1vel. O major prop\u00f4s que na tarde desse dia Celestina executasse ao piano alguma composi\u00e7\u00e3o bonita, para que o doutor pudesse apreciar os seus talentos.<\/p>\n<p>Entretanto a mo\u00e7a quis mostrar ao rapaz as suas flores, e o pai deu-lhe licen\u00e7a para isso; a um olhar do velho a criada de Celestina acompanhou os dois futuros noivos.<\/p>\n<p>As flores de Celestina estavam todas em meia d\u00fazia de vasos, postos sobre uma janela do seu gabinete de leitura e trabalho. Chamava ela aquilo o seu jardim. Bem pequeno era ele, e pouco tempo exigia para o exame; ainda assim, o doutor tratou de prolong\u00e1-lo o mais que p\u00f4de.<\/p>\n<p>\u2014 Que me diz a estas violetas? perguntou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o lind\u00edssimas! respondeu o doutor.<\/p>\n<p>Celestina arranjou as folhas com sua m\u00e3ozinha delicada; o doutor adiantou a sua m\u00e3o para tocar nas folhas tamb\u00e9m; os dedos de ambos se encontraram; a mo\u00e7a estremeceu, e baixou os olhos; um leve rubor coloriu-lhe as faces.<\/p>\n<p>O rapaz receou que daquele involunt\u00e1rio encontro pudesse nascer algum motivo de remorso para ele, e tratou de retirar-se. A mo\u00e7a despediu-se, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 logo, sim?<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 logo.<\/p>\n<p>O doutor saiu do gabinete de Celestina, e j\u00e1 entrava a pensar como daria com o caminho para o seu quarto, quando encontrou \u00e0 porta o criado, que se preparou para acompanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Tu pareces a minha sombra, disse-lhe o doutor sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Sou apenas um criado do senhor.<\/p>\n<p>Entrando no quarto ia o rapaz cheio de vivas impress\u00f5es; a pouco e pouco sentia-se transformado pela mo\u00e7a; at\u00e9 os receios se lhe dissipavam; parecia-lhe que ao p\u00e9 dela n\u00e3o devia recear coisa nenhuma.<\/p>\n<p>Os jornais estavam ainda em cima da mesa; perguntou ao criado se seu amo costumava a l\u00ea-los. O criado respondeu que n\u00e3o, que ningu\u00e9m os lia em casa, e tinham sido assinados s\u00f3 por causa dele.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 por minha causa?<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>O jantar e a m\u00fasica reuniram os tr\u00eas convivas durante perto de quatro horas. O doutor estava no s\u00e9timo c\u00e9u; j\u00e1 come\u00e7ava a enxergar a casa como sua; a vida que levava era para ele a melhor vida deste mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Um minuto mais tarde, pensava ele, e eu tinha perdido esta felicidade.<\/p>\n<p>Com efeito, pela primeira vez o rapaz amava seriamente; Celestina aparecera-lhe como a personifica\u00e7\u00e3o da ventura terrestre e das santas efus\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o. Contemplava-a com respeito e ternura. Podia viver ali eternamente.<\/p>\n<p>Entretanto a conversa sobre o casamento n\u00e3o se repetiu; o major esperava que o rapaz se declarasse, e o rapaz aguardava oportunidade para fazer a sua declara\u00e7\u00e3o ao major.<\/p>\n<p>Quanto a Celestina, apesar de seu ang\u00e9lico estouvamento, evitava falar do assunto. Seria recomenda\u00e7\u00e3o do pai? O doutor chegou a sup\u00f4-lo; mas a id\u00e9ia varreu-se-lhe do esp\u00edrito ante a considera\u00e7\u00e3o de que era tudo t\u00e3o franco naquela casa que uma recomenda\u00e7\u00e3o desta ordem s\u00f3 podia ter por causa um grande acontecimento. O \u00f3sculo na m\u00e3o da mo\u00e7a n\u00e3o lhe pareceu acontecimento de tanta magnitude.<\/p>\n<p>Cinco dias depois da sua estada ali, o major disse-lhe ao almo\u00e7o que desejava falar-lhe, e com efeito, apenas se acharam os dois a s\u00f3s, o major tomou a palavra, e expressou-se nestes termos:<\/p>\n<p>\u2014 Meu caro doutor, j\u00e1 deve ter percebido que eu n\u00e3o sou um homem vulgar; nem sou mesmo um homem. Gosto do senhor porque tem respeitado a minha origem celeste; se eu fugi ao mundo \u00e9 porque ningu\u00e9m me queria respeitar.<\/p>\n<p>Conquanto j\u00e1 tivesse ouvido do major algumas palavras d\u00fabias nesse sentido, o dr. Antero ficou assombrado com o pequeno discurso, e n\u00e3o achou resposta que lhe desse. Arregalou muito os olhos e abriu a boca; todo ele era um ponto de admira\u00e7\u00e3o e interroga\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sou, continuou o velho, eu sou o anjo Rafael, mandado pelo Senhor a este vale de l\u00e1grimas a ver se colho algumas boas almas para o c\u00e9u. N\u00e3o pude cumprir a minha miss\u00e3o, porque apenas disse quem era fui tido em conta de impostor. N\u00e3o quis afrontar a ira e o sarcasmo dos homens; retirei-me a esta morada, onde espero morrer.<\/p>\n<p>O major dizia tudo com uma convic\u00e7\u00e3o e serenidade que, dado o caso de falar a um homem menos mundano, v\u00ea-lo-ia logo ali a seus p\u00e9s. Mas o dr. Antero n\u00e3o viu na origem celeste do major mais do que uma monomania pac\u00edfica. Compreendeu que era in\u00fatil e perigoso contest\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Fez bem, disse o mo\u00e7o, fez bem em fugir ao mundo. Que h\u00e1 a\u00ed no mundo que valha um sacrif\u00edcio verdadeiramente grande? A humanidade j\u00e1 se n\u00e3o regenera; se Jesus aparecesse hoje \u00e9 duvidoso que lhe deixassem fazer o discurso da montanha; matavam-no logo no primeiro dia.<\/p>\n<p>Brilharam os olhos do major ouvindo as palavras do doutor; quando ele acabou, o velho saltou-lhe ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Disse p\u00e9rolas, exclamou o velho. Isso \u00e9 que \u00e9 ver as coisas. Bem vejo, sai a seu pai; jamais ouvi daquele amigo palavra que n\u00e3o fosse de venera\u00e7\u00e3o para mim. Tem o mesmo sangue nas veias.<\/p>\n<p>O dr. Antero correspondeu como p\u00f4de \u00e0 efus\u00e3o do anjo Rafael, por cujos olhos saiam chispas de fogo.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, pois, continuou o velho sentando-se outra vez, \u00e9 isso mesmo o que eu desejava encontrar; um rapaz de bom car\u00e1ter, que pudesse fazer de minha filha aquilo que ela merece, e n\u00e3o duvidasse da minha natureza nem da minha miss\u00e3o. Diga-me, gosta de minha filha?<\/p>\n<p>\u2014 Muito! respondeu o rapaz; \u00e9 um anjo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pudera! atalhou o major. Que queria ent\u00e3o que ela fosse? H\u00e1 de casar com ela, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>\u2014 Bom, disse o major olhando para o doutor com um olhar cheio de t\u00e3o paternal ternura, que o mo\u00e7o sentiu-se comovido.<\/p>\n<p>Nesse momento, a criada de Celestina atravessou a sala, e passando por tr\u00e1s da cadeira do major abanou a cabe\u00e7a com ar de compaix\u00e3o; o doutor apanhou o gesto que a criada fizera s\u00f3 para si.<\/p>\n<p>\u2014 O casamento h\u00e1 de ser breve, continuou o major quando os dois se acharam s\u00f3s, e, como lhe disse, dou-lhe uma riqueza. Quero que acredite; vou mostrar-lhe.<\/p>\n<p>O dr. Antero recusou ir ver a riqueza, mas pede a verdade que se diga que a recusa era simples formalidade. A atmosfera ang\u00e9lica da casa j\u00e1 o tinha melhorado em parte, mas havia nele ainda uma parte do homem, e do homem que passara metade da vida em dissipa\u00e7\u00f5es de esp\u00edrito e sentimento.<\/p>\n<p>Como o velho insistisse, o doutor declarou-se pronto a acompanh\u00e1-lo. Passaram dali a um gabinete onde o major tinha a biblioteca; o major fechou a porta com a chave; depois disse ao doutor que tocasse uma mola que desaparecia no lombo de um livro fingido, no meio de uma estante.<\/p>\n<p>O doutor obedeceu.<\/p>\n<p>Toda aquela fileira de livros era simulada; ao toque do dedo do doutor abriu-se uma portinha que dava para um v\u00e3o escuro onde se achavam cinco ou seis caixinhas de ferro.<\/p>\n<p>\u2014 Nessas caixas, disse o major, tenho eu cem contos de r\u00e9is: s\u00e3o seus.<\/p>\n<p>Os olhos do dr. Antero faiscaram; via diante de si uma fortuna, e s\u00f3 dependia dele possu\u00ed-la.<\/p>\n<p>O velho mandou que fechasse outra vez o esconderijo, processo que lhe ensinou tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Fique sabendo, acrescentou o major, que \u00e9 o primeiro a quem mostro isto. Mas \u00e9 natural; j\u00e1 o considero como filho.<\/p>\n<p>Com efeito, foram para a sala da sesta, aonde Celestina foi ter pouco depois; a vista da mo\u00e7a produziu no rapaz a boa impress\u00e3o de fazer-lhe esquecer as caixas de ferro e mais os cem contos.<\/p>\n<p>Ali mesmo se marcou o dia do casamento, que devia ser um m\u00eas depois.<\/p>\n<p>O doutor estava disposto a tudo de t\u00e3o boa vontade, que a reclus\u00e3o for\u00e7ada terminou logo; o major permitiu-lhe sair; mas o doutor declarou que n\u00e3o sairia dali sen\u00e3o depois de casado.<\/p>\n<p>\u2014 Depois ser\u00e1 mais dif\u00edcil, disse o velho major.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, n\u00e3o sairei.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o do rapaz era sair depois de casado, e para isso inventaria algum meio; por enquanto, n\u00e3o queria comprometer a sua felicidade.<\/p>\n<p>Celestina estava content\u00edssima com o casamento; era uma divers\u00e3o na monotonia de sua vida.<\/p>\n<p>Separaram-se depois do jantar, e j\u00e1 ent\u00e3o o doutor n\u00e3o encontrou o criado para o conduzir ao quarto; tinha a liberdade de ir aonde quisesse. O doutor foi direito ao quarto.<\/p>\n<p>A sua situa\u00e7\u00e3o tomava um novo aspecto; n\u00e3o se tratava de um crime nem de uma emboscada; tratava-se de um monoman\u00edaco. Ora, por felicidade do mo\u00e7o, esse monoman\u00edaco exigia dele exatamente aquilo que ele estava disposto a fazer; tudo bem considerado, entrava-lhe pela porta uma felicidade inesperada, que nem era l\u00edcito sonhar quando se est\u00e1 \u00e0 beira do t\u00famulo.<\/p>\n<p>No meio de belos sonhos o rapaz adormeceu.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>O dia seguinte era um domingo.<\/p>\n<p>O rapaz, depois de ler as not\u00edcias dos jornais e alguns artigos pol\u00edticos, passou aos folhetins. Ora, aconteceu que um deles tratava precisamente do suic\u00eddio do dr. Antero da Silva. A carta p\u00f3stuma servia de assunto para as considera\u00e7\u00f5es galhofeiras do folhetinista.<\/p>\n<p>Um dos per\u00edodos dizia assim:<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fosse o suic\u00eddio do homem, eu n\u00e3o tinha assunto ameno para tratar hoje. Felizmente lembrou-se de morrer a tempo, coisa que nem sempre acontece a um marido, nem a um ministro de Estado.<\/p>\n<p>Mas morrer era nada; morrer e deixar uma carta desfrut\u00e1vel como a que o p\u00fablico leu, isso \u00e9 que \u00e9 ter compaix\u00e3o de um escritor aux abois.<\/p>\n<p>Desculpe o leitor o termo franc\u00eas; vem do assunto; eu estou convencido que o dr. Antero (que pelo nome n\u00e3o perca) leu algum romance parisiense em que viu o original daquela carta.<\/p>\n<p>Salvo se nos quis provar que n\u00e3o era simplesmente um esp\u00edrito med\u00edocre, mas tamb\u00e9m um formid\u00e1vel tolo.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O doutor amarrotou o jornal quando acabou de ler o folhetim; mas depois sorriu filosoficamente; e acabou achando raz\u00e3o no autor do artigo.<\/p>\n<p>Com efeito, aquela carta, que ele escrevera com tanta alma, e que contava fizesse impress\u00e3o no p\u00fablico, parecia-lhe agora uma famosa tolice.<\/p>\n<p>Dera talvez uma das caixas de ferro do major para n\u00e3o t\u00ea-la escrito.<\/p>\n<p>Era tarde.<\/p>\n<p>Mas o desgosto do folhetim n\u00e3o foi o \u00fanico; adiante encontrou um convite para uma missa por sua alma. Quem convidava para a missa? os seus amigos? N\u00e3o; o criado Pedro, que, ainda comovido com a d\u00e1diva dos cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is, achou que cumpria um dever sufragando a alma do amo.<\/p>\n<p>\u2014 Bom Pedro! disse ele.<\/p>\n<p>E assim como tinha tido naquela casa o primeiro amor, e o primeiro remorso, teve ali a primeira l\u00e1grima, uma l\u00e1grima de gratid\u00e3o pelo fiel criado.<\/p>\n<p>Chamado para almo\u00e7ar, o doutor foi ter com o major e Celestina. J\u00e1 ent\u00e3o a chave do quarto ficava com ele mesmo.<\/p>\n<p>Sem saber por que, achou Celestina mais celeste que nunca, e tamb\u00e9m mais s\u00e9ria do que costumava. A seriedade quereria dizer que o rapaz j\u00e1 lhe n\u00e3o era indiferente? O dr. Antero pensou que sim, e eu, na qualidade de romancista, direi que pensava bem.<\/p>\n<p>Contudo a seriedade de Celestina n\u00e3o exclu\u00eda a sua afabilidade, nem ainda o seu estouvamento; era uma seriedade intermitente, uma esp\u00e9cie de enlevo e cisma, a primeira aurora do amor, que enrubesce a face e cerca a fronte de uma esp\u00e9cie de aur\u00e9ola.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 houvesse liberdade e confian\u00e7a, o doutor pediu a Celestina, no fim do almo\u00e7o, que fosse tocar um pouco. A mocinha tocava deliciosamente.<\/p>\n<p>Encostado ao piano, com os olhos postos na mo\u00e7a, e a alma embebida nas harmonias que os dedos dela desferiam do teclado, o dr. Antero esquecia-se do resto do mundo para viver s\u00f3 daquela criatura que dentro de pouco tempo ia ser sua mulher.<\/p>\n<p>Durante esse tempo o major passeava, com as m\u00e3os cruzadas sobre as costas, e gravemente pensativo.<\/p>\n<p>O ego\u00edsmo do amor \u00e9 implac\u00e1vel; diante da mulher que o seduzia e atra\u00eda, o mo\u00e7o nem tinha um olhar para aquele pobre velho demente que lhe dava mulher e fortuna.<\/p>\n<p>O velho de quando em quando parava e exclamava:<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! bravo! Assim tocar\u00e1s um dia nas harpas do c\u00e9u!<\/p>\n<p>\u2014 Gosta de me ouvir tocar? perguntou a mo\u00e7a ao doutor.<\/p>\n<p>\u2014 Valia a pena morrer ouvindo esta m\u00fasica.<\/p>\n<p>No fim de um quarto de hora, o major saiu, deixando os dois noivos na sala.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que ficavam a s\u00f3s.<\/p>\n<p>O rapaz n\u00e3o ousava reproduzir a cena da outra tarde; podia haver um novo grito da mo\u00e7a e tudo estava perdido para ele.<\/p>\n<p>Mas os seus olhos, esquecidamente embebidos nos da mo\u00e7a, falavam melhor que todos os \u00f3sculos deste mundo. Celestina olhava para ele com essa confian\u00e7a da inoc\u00eancia e do pudor, essa confian\u00e7a de quem n\u00e3o suspeita o mal e s\u00f3 conhece o bem.<\/p>\n<p>O doutor compreendeu que era amado; Celestina n\u00e3o compreendeu, sentiu que estava presa \u00e0quele homem por alguma coisa mais forte que a palavra do pai. A m\u00fasica cessara.<\/p>\n<p>O doutor sentou-se defronte da mo\u00e7a, e disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Casa-se comigo por vontade?<\/p>\n<p>\u2014 Eu? respondeu ela; certamente que sim; gosto do senhor; al\u00e9m disso, meu pai quer, e quando um anjo quer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o zombe assim, disse o doutor; n\u00e3o \u00e9 culpa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Zombar de qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 De seu pai.<\/p>\n<p>\u2014 Ora essa!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o conhe\u00e7o anjos desgra\u00e7ados, respondeu a mo\u00e7a com uma gra\u00e7a t\u00e3o infantil e um ar de tanta convic\u00e7\u00e3o que o doutor franziu a testa com um gesto de espanto.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Bem feliz que ele \u00e9; quem me dera ser anjo como ele! \u00e9 verdade que filha dele devo ser tamb\u00e9m&#8230; e, na verdade, sou tamb\u00e9m ang\u00e9lica&#8230;<\/p>\n<p>O doutor ficou p\u00e1lido, e levantou-se com tanta precipita\u00e7\u00e3o, que Celestina n\u00e3o p\u00f4de reprimir um gesto de susto.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! que tem?<\/p>\n<p>\u2014 Nada, disse o rapaz passando a m\u00e3o pela testa; foi uma vertigem.<\/p>\n<p>Nesse momento entrou o major. Antes que tivesse tempo de perguntar nada, a filha correu a ele e disse que o doutor se achava incomodado.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o declarou achar-se melhor; mas pai e filha foram de opini\u00e3o que devia ir descansar um pouco. O doutor obedeceu.<\/p>\n<p>Quando chegou ao quarto atirou-se \u00e0 cama e esteve alguns minutos sem movimento, mergulhado em reflex\u00f5es. As palavras incoerentes da mo\u00e7a diziam-lhe que n\u00e3o havia naquela casa s\u00f3 um doido; tanta gra\u00e7a e beleza nada valiam; a infeliz estava nas condi\u00e7\u00f5es do pai.<\/p>\n<p>\u2014 Coitada! tamb\u00e9m \u00e9 louca! Mas por que singular acordo de circunst\u00e2ncias ambos eles est\u00e3o de acordo nesta monomania celestial?<\/p>\n<p>O doutor fazia esta e mil outras perguntas a si mesmo, sem achar resposta plaus\u00edvel. O que havia de certo \u00e9 que o edif\u00edcio da sua ventura acabava de esboroar-se.<\/p>\n<p>S\u00f3 lhe restava um recurso; aproveitar a licen\u00e7a concedida pelo velho e sair daquela casa, que parecia encerrar uma hist\u00f3ria sombria.<\/p>\n<p>Com efeito, ao jantar o dr. Antero declarou ao major que tinha inten\u00e7\u00e3o de ir \u00e0 cidade ver uns pap\u00e9is, no dia seguinte de manh\u00e3; voltaria de tarde.<\/p>\n<p>No dia seguinte, logo depois do almo\u00e7o, preparou-se o rapaz para ir embora, n\u00e3o sem ter prometido a Celestina que voltaria o mais cedo que pudesse. A mo\u00e7a pedia-lhe com alma; ele hesitou por um momento; mas que fazer? era melhor fugir dali quanto antes.<\/p>\n<p>Estava j\u00e1 pronto, quando sentiu bater-lhe \u00e0 porta muito ao de leve; foi abrir; era a criada de Celestina.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>Esta criada, que se chamava Ant\u00f4nia, representava ter quarenta anos de idade. N\u00e3o era feia nem bonita; tinha umas fei\u00e7\u00f5es comuns e irregulares. Mas bastava olh\u00e1-la para ver nela o tipo da bondade e da dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia entrou precipitadamente, e ajoelhou-se aos p\u00e9s do doutor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o v\u00e1! sr. doutor! n\u00e3o v\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 Levante-se, Ant\u00f4nia, disse o rapaz.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia levantou-se e repetiu as mesmas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Que eu n\u00e3o v\u00e1? perguntou o doutor; mas por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Salve aquela menina!<\/p>\n<p>\u2014 Pois qu\u00ea! ela est\u00e1 em perigo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; mas \u00e9 preciso salv\u00e1-la. Pensa que eu n\u00e3o adivinhei o seu pensamento? O senhor quer ir-se embora de uma vez.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; prometo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quer, e eu lhe pe\u00e7o que n\u00e3o v\u00e1&#8230; pelo menos at\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o me explicar\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Agora, \u00e9 imposs\u00edvel; pode vir gente; mas esta noite; olhe, \u00e0 meia-noite, quando ela j\u00e1 estiver dormindo, eu virei aqui e lhe explicarei tudo. Mas promete que n\u00e3o vai?<\/p>\n<p>O rapaz respondeu maquinalmente.<\/p>\n<p>\u2014 Prometo.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia saiu precipitadamente.<\/p>\n<p>No meio daquela constante alternativa de boas e m\u00e1s impress\u00f5es, naquele desenrolar de emo\u00e7\u00f5es diversas, de mist\u00e9rios diferentes, era de admirar que o esp\u00edrito do rapaz n\u00e3o ficasse abalado, t\u00e3o abalado como o do major. Parece que chegou a recear de si.<\/p>\n<p>Logo depois que saiu Ant\u00f4nia, sentou-se o doutor, e entrou a conjecturar que perigo seria aquele de que era preciso salvar a pequena. Mas n\u00e3o atinando com ele, resolveu ir ter com ela ou com o major, e j\u00e1 se preparava para isso, quando o futuro sogro lhe entrou pelo quarto.<\/p>\n<p>Vinha alegre e l\u00e9pido.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, guarde-o Deus, disse ele ao entrar; \u00e9 a primeira vez que o visito no seu quarto.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, respondeu o doutor. Queira sentar-se.<\/p>\n<p>\u2014 Mas tamb\u00e9m o motivo que me traz aqui \u00e9 importante, disse o velho assentando-se.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Sabe quem morreu?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 O diabo.<\/p>\n<p>Dizendo isto deu uma gargalhada nervosa que fez estremecer o doutor; o velho continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor, morreu o diabo; o que \u00e9 grande fortuna para mim, porque me d\u00e1 a maior alegria da minha vida. Que lhe parece?<\/p>\n<p>\u2014 Parece-me que \u00e9 uma felicidade para n\u00f3s todos, disse o dr. Antero; mas como soube da not\u00edcia?<\/p>\n<p>\u2014 Soube por carta que recebi hoje do meu amigo Bernardo, tamb\u00e9m amigo de seu pai. N\u00e3o vejo o Bernardo h\u00e1 doze anos; chegou agora do Norte, e apressou-se a escrever-me para dar esta agrad\u00e1vel not\u00edcia.<\/p>\n<p>O velho levantou-se, passeou pelo quarto sorrindo, murmurando algumas palavras sozinho, e parando de quando em quando para contemplar o h\u00f3spede.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acha, disse ele numa das vezes que parou, n\u00e3o acha que esta not\u00edcia \u00e9 a melhor festa que posso ter por ocasi\u00e3o de casar minha filha?<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito, assim \u00e9, respondeu o rapaz levantando-se; mas, visto que o inimigo da luz morreu, n\u00e3o falemos mais nele.<\/p>\n<p>\u2014 Tem muita raz\u00e3o; n\u00e3o falemos mais nele.<\/p>\n<p>O doutor dirigiu a conversa para assuntos diversos; falou de campanhas, de literatura, de planta\u00e7\u00f5es, de tudo quanto afastasse o major dos assuntos ang\u00e9licos ou diab\u00f3licos.<\/p>\n<p>Finalmente saiu o major dizendo que esperava o coronel Bernardo, seu amigo, para jantar, e que teria sumo prazer em apresentar-lhe.<\/p>\n<p>Mas a hora do jantar chegou sem que chegasse o coronel, de maneira que o doutor ficou convencido de que o coronel, a carta e o diabo n\u00e3o passavam de cria\u00e7\u00f5es do major. Devia estar convencido desde princ\u00edpio; e se estivesse convencido estaria em erro, porque o coronel Bernardo apresentou-se em casa \u00e0s ave-marias.<\/p>\n<p>Era um homem cheio de corpo, robusto, vermelho, olhos vivos, falando apressadamente, um homem sem cuidados nem remorsos. Representava quarenta anos e tinha cinq\u00fcenta e dois; vestia uma sobrecasaca militar.<\/p>\n<p>O major abra\u00e7ou o coronel com uma satisfa\u00e7\u00e3o ruidosa, e apresentou-o ao dr. Antero como um dos seus melhores amigos. Apresentou o doutor ao coronel declarando ao mesmo tempo que ia ser seu genro; e finalmente mandou chamar a filha, que n\u00e3o tardou muito a chegar \u00e0 sala.<\/p>\n<p>Quando o coronel p\u00f4s os olhos em Celestina arrasaram-se-lhe os olhos de l\u00e1grimas; tinha-a visto pequena e achava-a mo\u00e7a feita, e mo\u00e7a bonita. Abra\u00e7ou-a paternalmente.<\/p>\n<p>Durou a conversa entre os quatro uma meia hora, tempo em que o coronel, com uma volubilidade que contrastava com a frase pausada do major, contou mil e uma circunst\u00e2ncias da sua vida de prov\u00edncia.<\/p>\n<p>No fim desse tempo, o coronel declarou que queria falar em particular ao major; o doutor retirou-se para o seu quarto, deixando Celestina, que poucos minutos depois retirou-se tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O coronel e o major fecharam-se na sala; ningu\u00e9m ouvia a conversa, mas o criado viu que s\u00f3 \u00e0 meia-noite saiu da sala o coronel, dirigindo-se para o quarto que lhe haviam preparado.<\/p>\n<p>Quanto ao doutor, apenas entrou no quarto viu sobre a mesa uma carta, com sobrescrito para ele. Abriu e leu o seguinte:<\/p>\n<p>Meu noivo, escrevo-lhe para dizer que n\u00e3o se esque\u00e7a de mim, que sonhe comigo, e que goste de mim como eu gosto do senhor. \u2014 Sua noiva, Celestina.<\/p>\n<p>Nada mais.<\/p>\n<p>Era uma cartinha de amores pouco parecida com as que se escrevem em casos tais, uma carta simples, ing\u00eanua, audaz, sincera.<\/p>\n<p>O rapaz releu-a, beijou-a e levou-a ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois preparou-se para receber a visita de Ant\u00f4nia, que, como os leitores se devem lembrar, estava marcada para a meia-noite.<\/p>\n<p>Para matar o tempo o rapaz abriu um dos livros que estavam sobre a mesa. Acertou de ser Paulo e Virg\u00ednia; o doutor nunca havia lido o celeste romance; o seu ideal e a sua educa\u00e7\u00e3o o afastavam daquela literatura. Mas agora tinha o esp\u00edrito preparado para apreciar p\u00e1ginas tais; sentou-se e leu rapidamente metade da obra.<\/p>\n<p>X<\/p>\n<p>A meia-noite ouviu bater \u00e0 porta; era Ant\u00f4nia.<\/p>\n<p>A boa mulher entrou com prepara\u00e7\u00e3o; receava que o menor ru\u00eddo a comprometesse. O rapaz fechou a porta, e fez com que Ant\u00f4nia se sentasse.<\/p>\n<p>\u2014 Agrade\u00e7o-lhe o ter ficado, disse ela sentando-se, e vou dizer-lhe que perigo amea\u00e7a a minha pobre Celestina.<\/p>\n<p>\u2014 Perigo de vida? perguntou o doutor.<\/p>\n<p>\u2014 Mais do que isso.<\/p>\n<p>\u2014 De honra?<\/p>\n<p>\u2014 Menos que isso.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O perigo da raz\u00e3o; eu receio que a pobre mo\u00e7a fique louca.<\/p>\n<p>\u2014 Receia? disse o doutor sorrindo tristemente; est\u00e1 certa de que ela j\u00e1 o n\u00e3o est\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Estou. Mas pode vir a ficar, t\u00e3o louca como o pai.<\/p>\n<p>\u2014 Esse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Esse est\u00e1 perdido.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe?<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Deve estar, porque h\u00e1 doze anos que perdeu a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe o motivo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Eu vim para esta casa h\u00e1 cinco anos; a menina tinha dez; era, como hoje, uma criaturinha viva, alegre e boa. Mas nunca tinha sa\u00eddo daqui; \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o tenha visto em sua vida mais de dez pessoas. Ignora tudo. O pai, que j\u00e1 ent\u00e3o estava convencido de que era o anjo Rafael, como ainda hoje diz, repetia-o \u00e0 filha constantemente, de maneira que ela acredita firmemente ser filha de um anjo. Tentei dissuadi-la disso; mas ela foi contar ao major, e este amea\u00e7ou-me de mandar-me embora se eu inculcasse m\u00e1s id\u00e9ias \u00e0 filha. Era m\u00e1 id\u00e9ia dizer \u00e0 menina que ele n\u00e3o era o que dizia e simplesmente um desgra\u00e7ado doido.<\/p>\n<p>\u2014 E a m\u00e3e dela?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o conheci; perguntei por ela a Celestina; e soube que ela tamb\u00e9m a n\u00e3o conhecera, pela raz\u00e3o de que n\u00e3o tivera m\u00e3e. Referiu-me ter sabido, por boca de seu pai, que ela viera ao mundo por obra e gra\u00e7a do c\u00e9u. Bem v\u00ea que a menina n\u00e3o est\u00e1 louca; mas aonde ir\u00e1 ter com estas id\u00e9ias?<\/p>\n<p>O doutor estava pensativo; compreendia agora as palavras incoerentes da mo\u00e7a ao piano. A narra\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nia era veross\u00edmil. Cumpria salvar a mo\u00e7a levando-a para fora dali. Para isso o casamento era o melhor meio.<\/p>\n<p>\u2014 Tens raz\u00e3o, boa Ant\u00f4nia, disse ele, salvaremos Celestina; descansa em mim.<\/p>\n<p>\u2014 Jura?<\/p>\n<p>\u2014 Juro.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia beijou a m\u00e3o ao rapaz, derramando algumas l\u00e1grimas de contentamento. \u00c9 que Celestina era para ela mais do que ama, era uma esp\u00e9cie de filha criada na solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Saiu a criada, e o doutor deitou-se, n\u00e3o s\u00f3 porque a hora era adiantada, como porque o seu esp\u00edrito pedia algum repouso ao cabo de tantas e novas emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No dia seguinte falou ao major na necessidade de abreviar o casamento, e por conseq\u00fc\u00eancia na de arranjar os pap\u00e9is.<\/p>\n<p>Concordou-se que o casamento seria na capela de casa, e o major concedeu licen\u00e7a para que um padre os casasse; isto pela considera\u00e7\u00e3o de que, se Celestina, como filha de um anjo, estava acima de um padre, n\u00e3o acontecia o mesmo com o doutor, que era simplesmente um homem.<\/p>\n<p>Quanto aos pap\u00e9is, levantou-se uma d\u00favida relativamente \u00e0 declara\u00e7\u00e3o do nome da m\u00e3e da mo\u00e7a. O major declarou peremptoriamente que Celestina n\u00e3o tinha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Mas o coronel, que estava presente, interveio no debate, dizendo ao major estas palavras, que o doutor n\u00e3o compreendeu, mas que lhe fizeram impress\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Tom\u00e1s! lembra-te de ontem \u00e0 noite.<\/p>\n<p>O major calou-se imediatamente. Quanto ao coronel, voltando-se para o dr. Antero disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Tudo se h\u00e1 de arranjar: descanse.<\/p>\n<p>A conversa ficou nisto.<\/p>\n<p>Mas houve quanto bastasse para que o doutor descobrisse nas m\u00e3os do coronel Bernardo o fio daquela meada. O rapaz n\u00e3o hesitou em aproveitar a primeira ocasi\u00e3o para entender-se com o coronel a fim de o informar acerca dos mil e um pontos obscuros daquele quadro que h\u00e1 dias tinha diante dos olhos.<\/p>\n<p>Celestina n\u00e3o assistira \u00e0 conversa; estava na outra sala tocando piano. O doutor l\u00e1 foi ter com ela, e achou-a triste. Perguntou-lhe por qu\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei! respondeu a mo\u00e7a; est\u00e1-me parecendo que o senhor n\u00e3o gosta de mim; e se me perguntar por que a gente gosta dos outros, n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o sorriu, pegou-lhe na m\u00e3o, apertou-a entre as suas, e levou-a aos l\u00e1bios. Desta vez, Celestina n\u00e3o gritou, nem resistiu; ficou a olhar embebida para ele, pendente dos seus olhos, pode-se dizer que pendente da sua alma.<\/p>\n<p>XI<\/p>\n<p>Na noite seguinte, o dr. Antero passeava no jardim, justamente por baixo da janela de Celestina. A mo\u00e7a n\u00e3o sabia que ele se achava ali, nem o rapaz quis por modo nenhum chamar a aten\u00e7\u00e3o dela. Contentava-se em olhar de longe, vendo de quando em quando desenhar-se na parede a sombra daquele delicado corpo.<\/p>\n<p>Havia lua e o c\u00e9u estava sereno. O doutor, que at\u00e9 ali n\u00e3o conhecia nem apreciava os mist\u00e9rios da noite, aprazia-se agora em conversar com o sil\u00eancio, a sombra e a solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando se achava mais embebido com os olhos na janela, sentiu que algu\u00e9m lhe batia no ombro.<\/p>\n<p>Estremeceu, e voltou-se rapidamente.<\/p>\n<p>Era o coronel.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, meu caro doutor, disse o coronel, faz um id\u00edlio antes do casamento?<\/p>\n<p>\u2014 Estou tomando fresco, respondeu o doutor; a noite est\u00e1 magn\u00edfica e l\u00e1 dentro est\u00e1 calor.<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9 verdade; eu tamb\u00e9m vim tomar fresco. Passeamos, se lhe n\u00e3o interrompo as reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo contr\u00e1rio, e eu at\u00e9 estimo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ter-me encontrado?<\/p>\n<p>\u2014 Justo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o melhor.<\/p>\n<p>O rumor das palavras trocadas pelos dois foi ouvido no quarto de Celestina. A mo\u00e7a chegou \u00e0 janela e procurou ver se descobria de quem eram as vozes.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 est\u00e1 ela, disse o coronel. Olhe!<\/p>\n<p>Os dois homens aproximaram-se, e o coronel disse para Celestina:<\/p>\n<p>\u2014 Somos n\u00f3s, Celestina; eu e o teu noivo.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! que andam fazendo?<\/p>\n<p>\u2014 Bem v\u00eas; tomando fresco.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me diz nada, doutor? perguntou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Contemplo-a.<\/p>\n<p>\u2014 Faz bem, respondeu ela; mas como o ar pode fazer-me mal, boa noite.<\/p>\n<p>\u2014 Boa noite!<\/p>\n<p>Celestina entrou, e pouco depois fechou-se a janela.<\/p>\n<p>Quanto aos dois homens, dirigiram-se para um banco de pau que ficava na outra extremidade do jardim.<\/p>\n<p>\u2014 Diz ent\u00e3o que estimava encontrar-me?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, coronel; pe\u00e7o-lhe uma informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 E eu vou dar-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe o que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Adivinho.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto melhor; evita-me um discurso.<\/p>\n<p>\u2014 Quer saber quem \u00e9 a m\u00e3e de Celestina?<\/p>\n<p>\u2014 Em primeiro lugar.<\/p>\n<p>\u2014 Pois que mais?<\/p>\n<p>\u2014 Quero saber depois qual a raz\u00e3o desta loucura do major.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabe nada?<\/p>\n<p>\u2014 Nada. Eu estou aqui em conseq\u00fc\u00eancia de uma aventura singular\u00edssima que lhe vou narrar.<\/p>\n<p>O doutor repetiu ao coronel a hist\u00f3ria da carta e do recado que o chamara ali, sem ocultar que o convite do major chegara justamente na ocasi\u00e3o em que ele se achava disposto a romper com a vida.<\/p>\n<p>O coronel ouviu atentamente a narra\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o; ouviu tamb\u00e9m a confiss\u00e3o de que a entrada naquela casa fizera do doutor um bom homem, quando n\u00e3o passava de um homem in\u00fatil e mau.<\/p>\n<p>\u2014 Confiss\u00e3o por confiss\u00e3o, disse o doutor; venha a sua.<\/p>\n<p>O coronel tomou a palavra.<\/p>\n<p>\u2014 Fui amigo de seu pai e do major; seu pai morreu h\u00e1 muito; ficamos eu e o major como dois sobreviventes dos tr\u00eas irm\u00e3os Hor\u00e1cios, nome que nos davam os homens do nosso tempo. O major era casado, eu solteiro. Um dia, por motivos que n\u00e3o v\u00eam ao caso, o major suspeitou que sua mulher lhe era infiel, e expulsou-a de casa. Eu tamb\u00e9m acreditei na infidelidade de Fernanda, e aprovei, em parte, o ato do major. Digo-lhe em parte, porque a pobre mulher no dia seguinte n\u00e3o tinha de comer; e foi de minha m\u00e3o que recebeu alguma coisa. Protestou ela por sua inoc\u00eancia com as l\u00e1grimas nos olhos; eu n\u00e3o acreditei nas l\u00e1grimas nem nos protestos. O major ficou louco, e veio para esta casa com a filha, e nunca mais saiu. Acontecimentos imprevistos me obrigaram a ir pouco depois para o Norte, onde estive at\u00e9 h\u00e1 pouco. E n\u00e3o teria voltado se&#8230;<\/p>\n<p>O coronel estacou.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? perguntou-lhe o doutor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o v\u00ea um vulto ali?<\/p>\n<p>\u2014 Aonde?<\/p>\n<p>\u2014 Ali.<\/p>\n<p>Com efeito encaminhava-se um vulto para os dois interlocutores; a alguns passos reconheceram ser o criado Jos\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Sr. Coronel, disse o criado, ando \u00e0 sua procura.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 O amo quer falar-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Bem; l\u00e1 vou.<\/p>\n<p>O criado retirou-se, e o coronel continuou:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o teria voltado se n\u00e3o adquirisse a certeza de que as suspeitas do major eram todas infundadas.<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>\u2014 Fui encontrar, depois de tantos anos, na prov\u00edncia em que me achava, a esposa do major servindo de criada em uma casa. Tinha tido uma vida exemplar; as informa\u00e7\u00f5es que obtive confirmavam as assevera\u00e7\u00f5es dela. As suspeitas fundavam-se numa carta achada em poder dela. Ora, essa carta comprometia uma mulher, mas n\u00e3o era Fernanda; era outra, cujo testemunho ouvi no ato de morrer. Compreendi que era talvez o meio de chamar o major \u00e0 raz\u00e3o vir contar-lhe isso tudo. Vim, com efeito, e expus-lhe o que sabia.<\/p>\n<p>\u2014 E ele?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acredita; e quando parece ir-se convencendo das minhas assevera\u00e7\u00f5es, volta-lhe a id\u00e9ia de que ele n\u00e3o \u00e9 casado, porque os anjos n\u00e3o casam; enfim, o mais que o senhor sabe.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o est\u00e1 perdido?<\/p>\n<p>\u2014 Creio que sim.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso cumpre salvar-lhe a filha.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Porque o major educou Celestina na mais absoluta reclus\u00e3o poss\u00edvel, e desde pequena incutiu-lhe a id\u00e9ia de que anda possu\u00eddo, de maneira que eu tenho medo de que a pobre mo\u00e7a sofra igualmente.<\/p>\n<p>\u2014 Descanse; o casamento ser\u00e1 feito quanto antes; e o senhor a levar\u00e1 daqui; em \u00faltimo caso, se n\u00e3o pudermos convenc\u00ea-lo, sair\u00e3o sem que ele o saiba.<\/p>\n<p>Levantaram-se os dois, e ao chegarem perto da casa, saiu-lhes ao encontro o criado, trazendo um novo recado do major.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-me que est\u00e1 doente, acrescentou o criado.<\/p>\n<p>\u2014 Doente?<\/p>\n<p>O coronel apressou-se a ir ter com o amigo, enquanto o doutor foi para o quarto esperar not\u00edcias dele.<\/p>\n<p>XII<\/p>\n<p>Quando o coronel entrou no quarto do major achou-o muito aflito. Passeava de um lado para outro, agitado, proferindo palavras incoerentes, com o olhar desvairado.<\/p>\n<p>\u2014 Que tens, Tom\u00e1s?<\/p>\n<p>\u2014 Ainda bem que vieste, disse o velho; sinto-me mal; veio aqui h\u00e1 pouco um anjo buscar-me; disse-me que eu estava fazendo falta no c\u00e9u. Creio que me vou embora desta vez.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-te disso, respondeu o coronel; foi ca\u00e7oada do anjo; descansa, tranq\u00fciliza-te.<\/p>\n<p>O coronel conseguiu fazer com que o major se deitasse. Apalpou-lhe o pulso, e sentiu-lhe febre. Entendeu que era conveniente mandar buscar um m\u00e9dico, e deu ordem ao criado nesse sentido.<\/p>\n<p>Acalmou-se a febre do major, que conseguiu dormir um pouco; o coronel mandou preparar uma cama no mesmo quarto, e depois de ir dar parte ao doutor do que acontecera, voltou para o quarto do major.<\/p>\n<p>No dia seguinte o doente levantou-se melhor; o m\u00e9dico, tendo chegado sobre a madrugada, n\u00e3o chegou a aplicar-lhe nenhum rem\u00e9dio, mas l\u00e1 ficou para o caso de ser preciso.<\/p>\n<p>Quanto a Celestina, nada soube do que havia acontecido; e acordou alegre e viva como nunca.<\/p>\n<p>Mas sobre a tarde voltou a febre ao major, e desta vez de um modo violento. Dentro de pouco tempo declarou-se a proximidade da morte.<\/p>\n<p>O coronel e o doutor tiveram cuidado de afastar Celestina, que n\u00e3o sabia o que era morrer, e podia sofrer com a vista do pai moribundo.<\/p>\n<p>O major, cercado pelos dois amigos, pedia-lhes com inst\u00e2ncia que lhe fossem buscar a filha; mas eles n\u00e3o consentiram nisso. Ent\u00e3o, o pobre velho instou com o doutor que n\u00e3o deixasse de casar com ela, e ao mesmo tempo repetiu a declara\u00e7\u00e3o de que lhe deixava uma fortuna. Enfim sucumbiu.<\/p>\n<p>Ficou assentado entre o coronel e o doutor que a morte do major seria participada \u00e0 filha depois de feito o enterro, e que este teria lugar com a maior discri\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Assim se fez.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia do major ao almo\u00e7o e ao jantar do dia seguinte foi explicada a Celestina como proveniente de uma confer\u00eancia em que ele estava com pessoas de sua amizade.<\/p>\n<p>De maneira que, ao passo que do outro lado da casa se achava o cad\u00e1ver do pai, a filha ria e conversava \u00e0 mesa como nos seus melhores dias.<\/p>\n<p>Mas feito o enterro era preciso diz\u00ea-lo \u00e0 filha.<\/p>\n<p>\u2014 Celestina, disse-lhe o coronel, tu vais casar brevemente com o dr. Antero.<\/p>\n<p>\u2014 Mas quando?<\/p>\n<p>\u2014 Daqui a dias.<\/p>\n<p>\u2014 Dizem-me isso h\u00e1 que tempo!<\/p>\n<p>\u2014 Pois agora \u00e9 de uma vez. Teu pai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que tem?<\/p>\n<p>\u2014 Teu pai n\u00e3o volta por enquanto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o volta? disse a mo\u00e7a. Pois onde foi ele?<\/p>\n<p>\u2014 Teu pai foi para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a ficou p\u00e1lida ouvindo a not\u00edcia; n\u00e3o lhe ligava nenhuma id\u00e9ia f\u00fanebre; mas o cora\u00e7\u00e3o adivinhava que por tr\u00e1s daquela not\u00edcia havia uma cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>O coronel procurou distra\u00ed-la.<\/p>\n<p>Mas a mo\u00e7a, vertendo duas l\u00e1grimas, duas s\u00f3, mas que valiam por cem, disse com profunda amargura:<\/p>\n<p>\u2014 Papai foi para o c\u00e9u e n\u00e3o se despediu de mim!<\/p>\n<p>Depois recolheu-se ao quarto at\u00e9 o dia seguinte.<\/p>\n<p>O coronel e o doutor passaram a noite juntos.<\/p>\n<p>Declarou o doutor que a fortuna do major estava por tr\u00e1s de uma estante, na biblioteca, e que ele sabia o meio de abri-la. Assentaram os dois no meio de apressar o casamento de Celestina sem preju\u00edzo dos atos da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Cumpria, por\u00e9m, antes de tudo, arrancar a mo\u00e7a daquela casa; o coronel indicou a casa de uma parenta sua, para onde a levariam no dia seguinte. Assentados estes pormenores, o coronel perguntou ao doutor:<\/p>\n<p>\u2014 Ora, diga-me; n\u00e3o cr\u00ea agora que haja uma provid\u00eancia?<\/p>\n<p>\u2014 Sempre acreditei.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o minta; se acreditasse n\u00e3o teria recorrido ao suic\u00eddio.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o, coronel; dir-lhe-ei at\u00e9: eu era um pouco de lodo, hoje sinto-me p\u00e9rola.<\/p>\n<p>\u2014 Compreendeu-me bem; eu n\u00e3o queria aludir \u00e0 fortuna que veio encontrar aqui, mas a essa reforma de si mesmo, a essa renova\u00e7\u00e3o moral, que obteve com este ar e na contempla\u00e7\u00e3o daquela formosa Celestina.<\/p>\n<p>\u2014 Diz bem, coronel. Quanto \u00e0 fortuna, estou pronto a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A qu\u00ea? a fortuna \u00e9 de Celestina; n\u00e3o deve desfazer-se dela.<\/p>\n<p>\u2014 Mas podem supor que o casamento&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deixe supor, meu amigo. Que lhe importa ao senhor que suponham? N\u00e3o tem a sua consci\u00eancia, que lhe n\u00e3o arg\u00fce coisa nenhuma?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade; mas a opini\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A opini\u00e3o, meu caro, n\u00e3o \u00e9 mais do que uma opini\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 a verdade. Acerta \u00e0s vezes; outras calunia, e quer a desgra\u00e7a que mais vezes calunie do que acerte.<\/p>\n<p>O coronel em mat\u00e9ria de opini\u00e3o p\u00fablica era um perfeito ateu; negava-lhe a autoridade e a supremacia. Umas das suas m\u00e1ximas era esta: \u201c.<\/p>\n<p>Foi dif\u00edcil ao doutor e ao coronel convencer a Celestina de que deveria sair daquela casa; mas enfim alcan\u00e7aram lev\u00e1-la para a cidade de noite. A parenta do coronel, prevenida a tempo, recebeu-a em casa.<\/p>\n<p>Arranjadas as coisas de justi\u00e7a, tratou-se de realizar o casamento.<\/p>\n<p>Antes por\u00e9m de chegar a esse ponto t\u00e3o almejado pelos dois noivos, foi preciso habituar Celestina \u00e0 vida nova que come\u00e7ava a viver e que ela n\u00e3o conhecia. Educada entre as paredes de uma casa isolada, longe de todo o rumor, e sob dire\u00e7\u00e3o de um homem enfermo da raz\u00e3o, Celestina entrou num mundo que jamais sonhara, nem dele tinha not\u00edcia.<\/p>\n<p>Tudo para ela era objeto de curiosidade e espanto. Cada dia trazia-lhe uma emo\u00e7\u00e3o nova.<\/p>\n<p>Admirava a todos que, apesar da singular educa\u00e7\u00e3o que tivera, soubesse tocar t\u00e3o bem; ela tivera com efeito um mestre chamado pelo major, que desejava, dizia ele, mostrar que um anjo, e principalmente o anjo Rafael, sabia fazer as coisas como os homens. Quanto \u00e0 leitura e escritura, foi ele mesmo quem lhe ensinou.<\/p>\n<p>XIII<\/p>\n<p>Logo depois que voltou \u00e0 cidade, o dr. Antero teve cuidado de escrever a seguinte carta aos seus amigos:<\/p>\n<p>O dr. Antero da Silva, recentemente suicidado, tem a honra de participar a V. que voltou do outro mundo, e se acha ao seu dispor no hotel de ***.<\/p>\n<p>Encheu-se-lhe a sala de gente que correra a v\u00ea-lo; alguns incr\u00e9dulos supuseram simples ca\u00e7oada de algum homem amigo de pregar pe\u00e7as aos outros. Foi um concerto de exclama\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o morreste!<\/p>\n<p>\u2014 Pois qu\u00ea! est\u00e1s vivo!<\/p>\n<p>\u2014 Mas que foi isto!<\/p>\n<p>\u2014 Aqui houve milagre!<\/p>\n<p>\u2014 Qual milagre, respondia o doutor; foi simplesmente um meio engenhoso de ver a impress\u00e3o que causaria a minha morte; j\u00e1 soube quanto quisera saber.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! disse um dos presentes, foi profunda; pergunta ao C\u00e9sar.<\/p>\n<p>\u2014 Quando soubemos do desastre, acudiu C\u00e9sar, n\u00e3o quisemos crer; corremos \u00e0 tua casa; era infelizmente verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Que marreco! exclamava um terceiro, fazer-nos chorar por ele, quando talvez se achasse perto de n\u00f3s&#8230; Nunca te hei de perdoar aquelas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, disse o doutor, a pol\u00edcia parece que chegou a reconhecer o meu cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>\u2014 Disse que sim, e eu acreditei.<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Nesse momento entrou na sala um novo personagem; era o criado Pedro.<\/p>\n<p>O doutor rompeu por entre os amigos e foi abra\u00e7ar o criado, que entrou a derramar l\u00e1grimas de contentamento.<\/p>\n<p>Aquela efus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a um criado, comparada \u00e0 frieza relativa com que o doutor os recebera, incomodou aos amigos que ali se achavam. Era eloq\u00fcente. Sa\u00edram os amigos pouco depois declarando que o contentamento de v\u00ea-lo lhes inspirava a id\u00e9ia de lhe dar um jantar. O doutor recusou o jantar.<\/p>\n<p>No dia seguinte, os jornais declararam que o dr. Antero da Silva, que se julgava morto, se achava vivo e aparecera; e logo nesse dia recebeu o doutor a visita dos credores, que, pela primeira vez, viam ressuscitar uma d\u00edvida j\u00e1 sepultada.<\/p>\n<p>Quanto ao folhetinista de um dos jornais que tratara da morte do doutor e da carta que ele deixara, encabe\u00e7ou o seu artigo do pr\u00f3ximo s\u00e1bado assim:<\/p>\n<p>Dizem que reapareceu o autor de uma carta com que me ocupei ultimamente. Ser\u00e1 verdade? Se voltou n\u00e3o \u00e9 autor da carta; se \u00e9 autor da carta n\u00e3o voltou.<\/p>\n<p>A isto respondeu o ressuscitado:<\/p>\n<p>Voltei do outro mundo, e apesar disso sou o autor da carta. Do mundo de que venho trago uma boa filosofia: ter em nenhuma conta a opini\u00e3o dos meus contempor\u00e2neos, e em menos ainda a dos meus amigos. Trouxe mais alguma coisa, mas isso importa pouco ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>XIV<\/p>\n<p>Efetuou-se o casamento tr\u00eas meses depois.<\/p>\n<p>Celestina estava outra; perdera aquele estouvamento ignorante que era o principal tra\u00e7o do seu car\u00e1ter, e com ele as id\u00e9ias extravagantes que o major lhe incutira.<\/p>\n<p>O coronel assistiu ao casamento.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois o coronel foi despedir-se dos noivos, voltava para o Norte.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus, meu amigo, disse-lhe o doutor; nunca esquecerei o que fez por mim.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o fiz nada; ajudei a boa sorte.<\/p>\n<p>Celestina despediu-se do coronel com l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>\u2014 Por que choras, Celestina? disse o velho, eu volto breve.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe por que ela chora? perguntou o doutor; eu j\u00e1 lhe disse que sua m\u00e3e estava no Norte; ela sente n\u00e3o poder v\u00ea-la.<\/p>\n<p>\u2014 Ve-la-\u00e1, porque eu vou busc\u00e1-la.<\/p>\n<p>Quando o coronel saiu, Celestina p\u00f4s os bra\u00e7os \u00e0 roda do pesco\u00e7o do marido, e disse com um sorriso entre l\u00e1grimas:<\/p>\n<p>\u2014 Ao p\u00e9 de ti e de minha m\u00e3e, que mais quero eu na terra?<\/p>\n<p>No ideal da felicidade da mo\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o entrava o coronel. \u00d3 amor! \u00f3 cora\u00e7\u00e3o! \u00f3 ego\u00edsmo humano!<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1869 I Cansado da vida, descrente dos homens, desconfiado das mulheres e aborrecido dos credores, o dr. Antero da Silva determinou um dia despedir-se deste mundo. Era pena. O dr. Antero contava trinta anos, tinha sa\u00fade, e podia, se quisesse, fazer uma bonita carreira. 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