{"id":116736,"date":"2017-03-30T19:07:05","date_gmt":"2017-03-30T21:07:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116736"},"modified":"2017-03-30T19:07:05","modified_gmt":"2017-03-30T21:07:05","slug":"o-anjo-das-donzelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-anjo-das-donzelas","title":{"rendered":"O Anjo das Donzelas"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1864<\/b><\/p>\n<p>Cuidado, caro leitor, vamos entrar na alcova de uma donzela.<\/p>\n<p>A esta not\u00edcia o leitor estremece e hesita. \u00c9 naturalmente um homem de bons costumes, acata as fam\u00edlias e preza as leis do decoro p\u00fablico e privado. \u00c9 tamb\u00e9m prov\u00e1vel que j\u00e1 tenha deparado com alguns escritos, destes que levam aos pap\u00e9is p\u00fablicos certas teorias e tend\u00eancias que melhor fora nunca tivessem sa\u00eddo da cabe\u00e7a de quem as concebeu e proclamou. Hesita e interroga a consci\u00eancia se deve ou n\u00e3o continuar a ler as minhas p\u00e1ginas, e talvez resolva n\u00e3o prosseguir. Volta a folha e passa a coisa melhor.<\/p>\n<p>Descanse, leitor, n\u00e3o ver\u00e1 neste epis\u00f3dio fant\u00e1stico nada do que se n\u00e3o pode ver \u00e0 luz p\u00fablica. Eu tamb\u00e9m acato a fam\u00edlia e respeito o decoro. Sou incapaz de cometer uma a\u00e7\u00e3o m\u00e1, que tanto importa delinear uma cena ou aplicar uma teoria contra a qual proteste a moralidade.<\/p>\n<p>Tranq\u00fcilize-se, d\u00ea-me o seu bra\u00e7o, e atravessemos, p\u00e9 ante p\u00e9, a soleira da alcova da donzela Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>H\u00e1 certos nomes que s\u00f3 assentam em certas criaturas, e que quando ouvimos pronunci\u00e1-los como pertencentes a pessoas que n\u00e3o conhecemos, logo atribu\u00edmos a estas os dons f\u00edsicos e morais que julgamos insepar\u00e1veis daqueles. Este \u00e9 um desses nomes. Veja o leitor se a mo\u00e7a que ali se acha no leito, com o corpo meio inclinado, um bra\u00e7o nu escapando-se do alvo len\u00e7ol e tendo na extremidade uma m\u00e3o fina e comprida, os cabelos negros, esparsos, fazendo contraste com a brancura da fronha, os olhos meio cerrados lendo as \u00faltimas p\u00e1ginas de um livro, veja se aquela criatura pode ter outro nome, e se aquele nome pode estar em outra criatura.<\/p>\n<p>L\u00ea, como disse, um livro, um romance, e apesar da hora adiantada, onze e meia, ela parece estar disposta a n\u00e3o dormir sem saber quem casou e quem morreu.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 do leito, sobre a palhinha que forra o soalho, estende-se um pequeno tapete, cuja estampa representa duas rolas, de asas abertas, afagando-se com os biquinhos. Sobre esse tapete est\u00e3o duas chinelinhas, de forma turca, forradas de seda cor-de-rosa, que o leitor jurar\u00e1 serem de um despojo de Cendrilon. S\u00e3o as chinelas de Cec\u00edlia. Avalia-se j\u00e1 que o p\u00e9 de Cec\u00edlia deve ser um p\u00e9 fant\u00e1stico, impercept\u00edvel, imposs\u00edvel; e examinando bem pode-se at\u00e9 descobrir, entre duas pontas do len\u00e7ol mal estendido, a ponta de um p\u00e9 capaz de entusiasmar o meu amigo Ernesto C&#8230;, o maior admirador dos p\u00e9s pequenos, depois de mim&#8230; e do leitor.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia l\u00ea um romance. \u00c9 o cent\u00e9simo que l\u00ea depois que saiu do col\u00e9gio, e n\u00e3o saiu h\u00e1 muito tempo. Tem quinze anos. Quinze anos! \u00e9 a idade das primeiras palpita\u00e7\u00f5es, a idade dos sonhos, a idade das ilus\u00f5es amorosas, a idade de Julieta; \u00e9 a flor, \u00e9 a vida, e a esperan\u00e7a, o c\u00e9u azul, o campo verde, o lago tranq\u00fcilo, a aurora que rompe, a calhandra que canta, Romeu que desce a escada de seda, o \u00faltimo beijo que as brisas da manh\u00e3 ouvem e levam, como um eco, ao c\u00e9u.<\/p>\n<p>Que l\u00ea ela? Daqui depende o presente e o futuro. Pode ser uma p\u00e1gina da li\u00e7\u00e3o, pode ser uma gota de veneno. Quem sabe? N\u00e3o h\u00e1 ali \u00e0 porta um \u00edndex onde se indiquem os livros defesos e os l\u00edcitos. Tudo entra, bom ou mau, edificante ou corruptor, Paulo e Virg\u00ednia ou Fanny. Que l\u00ea ela neste momento? N\u00e3o sei. Todavia deve ser interessante o enredo, vivas as paix\u00f5es, porque a fisionomia traduz de minuto a minuto as impress\u00f5es aflitivas ou alegres que a leitura lhe vai produzindo.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia corre as p\u00e1ginas com verdadeira \u00e2nsia, os olhos voam de uma ponta da linha \u00e0 outra; n\u00e3o l\u00ea; devora; faltam s\u00f3 duas folhas, falta uma, falta uma lauda, faltam dez linhas, cinco, uma&#8230; acabou.<\/p>\n<p>Chegando ao fim do livro, fechou-o e p\u00f4-lo em cima da pequena mesa que esta ao p\u00e9 da cama. Depois, mudando de posi\u00e7\u00e3o, fitou os olhos no teto e refletiu.<\/p>\n<p>Passou em revista na mem\u00f3ria todos os sucessos contidos no livro, reproduziu epis\u00f3dio por epis\u00f3dio, cena por cena, lance por lance. Deu forma, vida, alma, aos her\u00f3is do romance, viveu com eles, conversou com eles, sentiu com eles. E enquanto ela pensava assim, o g\u00eanio que nos fecha as p\u00e1lpebras \u00e0 noite hesitou, \u00e0 porta do quarto, se devia entrar ou esperar.<\/p>\n<p>Mas, entre as muitas reflex\u00f5es que fazia, entre os muitos sentimentos que a dominavam, alguns havia que n\u00e3o eram de agora, que j\u00e1 eram velhos h\u00f3spedes no esp\u00edrito e no cora\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Assim que, quando a mo\u00e7a acabou de reproduzir e saciar os olhos da alma na a\u00e7\u00e3o e nos epis\u00f3dios que acabara de ler, voltou-lhe o esp\u00edrito naturalmente para as id\u00e9ias antigas e o cora\u00e7\u00e3o palpitou sob a a\u00e7\u00e3o dos antigos sentimentos.<\/p>\n<p>Que sentimentos, que id\u00e9ias seriam essas? Eis a singularidade do caso. De h\u00e1 muito tempo que as trag\u00e9dias do amor a que Cec\u00edlia assistia nos livros causavam-lhe uma angustiosa impress\u00e3o. Cec\u00edlia s\u00f3 conhecia o amor pelos livros. Nunca amara. Do col\u00e9gio sa\u00edra para casa e de casa n\u00e3o sa\u00edra para mais parte alguma. O pressentimento natural e as cores sedutoras com que via pintado o amor nos livros, diziam-lhe que devia ser uma coisa divina, mas ao mesmo tempo diziam-lhe tamb\u00e9m os livros que dos mais auspiciosos amores pode-se chegar aos mais lament\u00e1veis desastres. N\u00e3o sei que terror se apoderou da mo\u00e7a; apoderou-se dela um terror invenc\u00edvel. O amor, que para as outras mulheres apresenta-se com aspecto risonho e sedutor, afigurou-se a Cec\u00edlia que era um perigo e uma condena\u00e7\u00e3o. A cada novela que lia mais lhe cresciam os sustos, e a pobre menina chegou a determinar em seu esp\u00edrito que nunca exporia o cora\u00e7\u00e3o a tais cat\u00e1strofes.<\/p>\n<p>Provinha este sentimento de duas coisas: do esp\u00edrito supersticioso de Cec\u00edlia, e da natureza das novelas que lhe davam para ler. Se nessas obras ela visse, ao lado das m\u00e1s conseq\u00fc\u00eancias a que os excessos podem levar, a imagem pura e suave da felicidade que o amor d\u00e1, n\u00e3o se teria de certo apreendido daquele modo. Mas n\u00e3o foi assim. Cec\u00edlia aprendeu nesses livros que o amor era uma paix\u00e3o invenc\u00edvel e funesta; que n\u00e3o havia para ela nem a for\u00e7a de vontade nem a perseveran\u00e7a do dever. Esta id\u00e9ia calou no esp\u00edrito da mo\u00e7a e gerou um sentimento de apreens\u00e3o e de terror contra o qual ela n\u00e3o podia nada, antes se tornara mais impotente \u00e0 medida que lia uma nova obra da mesma natureza.<\/p>\n<p>Este estrago moral completava-se com a leitura da \u00faltima novela. Quando Cec\u00edlia levantou os olhos para o teto tinha o cora\u00e7\u00e3o cheio de medo e os olhos traduziam o sentimento do cora\u00e7\u00e3o. O que sobretudo a atemorizava mais era a incerteza que ela tinha de poder escapar \u00e0 a\u00e7\u00e3o de uma simpatia funesta. Muitas das p\u00e1ginas que lera diziam que o destino intervinha nos movimentos do cora\u00e7\u00e3o humano, e sem poder discernir o que teria de real ou de po\u00e9tico este ju\u00edzo, a pobre mocinha tomou ao p\u00e9 da letra o que lera e confirmou-se nos receios que nutria de muito tempo.<\/p>\n<p>Tal era a situa\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito e do cora\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia quando o rel\u00f3gio de uma igreja que ficava a dois passos da casa bateu meia-noite. O som l\u00fagubre do sino, o sil\u00eancio da noite, a solid\u00e3o em que estava, deram uma cor mais sombria \u00e0s suas apreens\u00f5es.<\/p>\n<p>Procurou dormir para fugir \u00e0s id\u00e9ias sombrias que se lhe atropelavam no esp\u00edrito e dar descanso ao peso e ao ardor que sentia no c\u00e9rebro; mas n\u00e3o p\u00f4de; caiu em uma dessas ins\u00f4nias que fazem padecer mais em uma noite do que a febre de um dia inteiro.<\/p>\n<p>De repente sentiu que se abria a porta. Olhou e viu entrar uma figura desconhecida, fant\u00e1stica. Era mulher? era homem? n\u00e3o se distinguia. Tinha esse aspecto masculino e feminino a um tempo com que os pintores reproduzem as fei\u00e7\u00f5es dos serafins. Vestia t\u00fanica de tecido alvo, coroava a fronte com rosas brancas e despedia dos olhos uma irradia\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica e imposs\u00edvel de descrever. Andava sem que a esteira do ch\u00e3o rangesse sob os passos. Cec\u00edlia fitou os olhos na vis\u00e3o e n\u00e3o p\u00f4de mais desvi\u00e1-los. A vis\u00e3o chegou-se ao leito da donzela.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9s tu? perguntou Cec\u00edlia sorrindo, com a alma tranq\u00fcila e os olhos vivos e alegres diante da figura desconhecida.<\/p>\n<p>\u2014 Sou o anjo das donzelas, respondeu a vis\u00e3o com uma voz que nem era voz nem m\u00fasica, mas um som que se aproximava de ambas as coisas, articulando palavras como se executasse uma sinfonia do outro mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Que me queres?<\/p>\n<p>\u2014 Venho em teu aux\u00edlio.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>O anjo p\u00f4s as m\u00e3os no peito de Cec\u00edlia e respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Para salvar-te.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Sou o anjo das donzelas, continuou a vis\u00e3o, isto \u00e9, o anjo que protege as mulheres que atravessam a vida sem amar, sem depor no altar dos amores uma s\u00f3 gota do \u00f3leo celeste com que se venera o Deus menino.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade. Queres que eu te proteja? Que te imprima na fronte o sinal fat\u00eddico ante o qual recuar\u00e3o todas as tentativas, curvar-se-\u00e3o todos os respeitos?<\/p>\n<p>\u2014 Quero.<\/p>\n<p>\u2014 Queres que com um bafejo meu te fique eternamente gravado o emblema da eterna virgindade?<\/p>\n<p>\u2014 Quero.<\/p>\n<p>\u2014 Queres que eu te garanta em vida as palmas verdes e vi\u00e7osas que cabem \u00e0s que podem atravessar o lodo da vida sem salpicar o vestido branco de pureza que receberam do ber\u00e7o?<\/p>\n<p>\u2014 Quero. \u2014<\/p>\n<p>Prometes que nunca, nunca, nunca te arrepender\u00e1s deste pacto, e que, quaisquer que sejam as conting\u00eancias da vida, aben\u00e7oar\u00e1s a tua solid\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Quero.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem! Est\u00e1s livre, donzela, est\u00e1s inteiramente livre das paix\u00f5es. Podes entrar agora, como Daniel, entre os le\u00f5es ferozes; nada te far\u00e1 mal. V\u00ea bem; \u00e9 a felicidade, \u00e9 o descanso. Gozar\u00e1s ainda na mais remota velhice de uma isen\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 a tua paz na terra e a tua paz no c\u00e9u!<\/p>\n<p>E dizendo isto a fant\u00e1stica criatura desfolhou algumas rosas sobre o seio de Cec\u00edlia. Depois tirou do dedo um anel e introduziu no dedo da mo\u00e7a, que n\u00e3o opunha a nenhum destes atos, nem resist\u00eancia nem admira\u00e7\u00e3o, antes sorria com um sorriso de angelical suavidade como se naquele momento entrevisse as gl\u00f3rias perenes que o anjo lhe prometia.<\/p>\n<p>\u2014 Este anel, disse o anjo, \u00e9 o anel de nossa alian\u00e7a; doravante \u00e9s minha esposa ante a eternidade. Deste amor n\u00e3o te resultar\u00e3o nem tormentos nem cat\u00e1strofes. Conserva este anel a despeito de tudo. No dia em que o perderes, est\u00e1s perdida.<\/p>\n<p>E dizendo estas palavras a vis\u00e3o desapareceu.<\/p>\n<p>A alcova ficou cheia de uma luz m\u00e1gica e de um perfume que parecia mesmo h\u00e1lito de anjos.<\/p>\n<p>No dia seguinte Cec\u00edlia acordou com o anel no dedo e a consci\u00eancia do que se passara na v\u00e9spera. Nesse dia levantou-se da cama mais alegre que nunca. Tinha o cora\u00e7\u00e3o leve e o esp\u00edrito desassombrado. Tocara enfim o alvo que procurara: a indiferen\u00e7a para os amores, a certeza de n\u00e3o estar exposta \u00e0s cat\u00e1strofes do cora\u00e7\u00e3o&#8230; Esta mudan\u00e7a tornou-se cada dia mais pronunciada, e de modo tal que as amigas n\u00e3o deixaram de reparar.<\/p>\n<p>\u2014 Que tens tu? dizia uma. \u00c9s outra inteiramente. Aqui anda namoro!<\/p>\n<p>\u2014 Qual namoro!<\/p>\n<p>\u2014 Ora, de certo! acrescentava outra.<\/p>\n<p>\u2014 Namoro? perguntava Cec\u00edlia. Isso \u00e9 bom para as&#8230; infelizes. N\u00e3o para mim. N\u00e3o amo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Amas!<\/p>\n<p>\u2014 Nem amarei.<\/p>\n<p>\u2014 Vaidosa!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Feliz \u00e9 que deves dizer. N\u00e3o amo, \u00e9 verdade. Mas que felicidade n\u00e3o me resulta disto?&#8230; Posso afrontar tudo; estou armada de broquel e cota de armas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>E as amigas desataram a rir, apontando para Cec\u00edlia e jurando que ela se havia de arrepender de dizer palavras tais.<\/p>\n<p>Mas passavam os dias e nada fazia notar que Cec\u00edlia tivesse pago o pecado que cometera na opini\u00e3o das amigas. Cada dia trazia um pretendente novo. O pretendente fazia corte, gastava tudo quanto sabia para cativar a menina, mas afinal desistia da empresa com a convic\u00e7\u00e3o de que nada podia fazer.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o se lhe conhece preferido? perguntavam uns aos outros.<\/p>\n<p>\u2014 Nenhum.<\/p>\n<p>\u2014 Que milagre \u00e9 este?<\/p>\n<p>\u2014 Qual milagre! N\u00e3o lhe chegou a vez&#8230; Ainda n\u00e3o enflorou aquele cora\u00e7\u00e3o. Quando chegar a \u00e9poca da floresc\u00eancia h\u00e1 de fazer o que as mais fazem, e escolher entre tantos pretendentes um marido.<\/p>\n<p>E com isto se consolavam os taboqueados.<\/p>\n<p>O que \u00e9 certo \u00e9 que corriam os dias, os meses, os anos, sem que nada mudasse a situa\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia. Era a mesma mulher fria e indiferente. Quando completou vinte anos tinha adquirido fama; era corrente em todas as fam\u00edlias, em todos os sal\u00f5es, que Cec\u00edlia nascera sem cora\u00e7\u00e3o, e a favor desta fama faziam-se apostas, levantavam-se coragens; a mo\u00e7a tornou-se a Cartago das salas. Os romanos de bigode retorcido e cabelo frisado juravam sucessivamente vencer a indiferen\u00e7a p\u00fanica. Trabalho v\u00e3o! Do agasalho cordial ao amor ningu\u00e9m chegava nunca, nem por suspeita. Cec\u00edlia era t\u00e3o indiferente que nem dava lugar \u00e0 ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre os pretendentes um apareceu que come\u00e7ou por cativar os pais de Cec\u00edlia. Era um doutor formado em matem\u00e1ticas, met\u00f3dico como um comp\u00eandio, positivo como um axioma, frio como um c\u00e1lculo. Os pais viram logo no novo pretendente o modelo, o padr\u00e3o, a f\u00eanix dos maridos. E come\u00e7aram por fazer em presen\u00e7a da filha os elogios do rapaz. Cec\u00edlia acompanhou-os nesses elogios, e deu alguma esperan\u00e7a aos pais. O pr\u00f3prio pretendente soube do conceito em que o tinha a mo\u00e7a e criou esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>E, conforme a educa\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, tratou de regularizar a corte que fazia a Cec\u00edlia, como se se tratasse de descobrir uma verdade matem\u00e1tica. Mas, se a express\u00e3o dos outros pretendentes n\u00e3o impressionou a mo\u00e7a, muito menos a impressionava a frieza met\u00f3dica daquele. Dentro de pouco tempo a mo\u00e7a negou-lhe at\u00e9 aquilo que concedia aos outros: a benevol\u00eancia e a cordialidade.<\/p>\n<p>O pretendente desistiu da causa e voltou aos c\u00e1lculos e aos livros.<\/p>\n<p>Como este, todos os outros pretendentes iam passando, como soldados em revista, sem que o cora\u00e7\u00e3o inflex\u00edvel da mo\u00e7a pendesse para nenhum deles.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando todos viram que os esfor\u00e7os eram baldados, come\u00e7ou-se a suspeitar que o cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a estivesse empenhado a um primo que exatamente na noite da vis\u00e3o de Cec\u00edlia embarcara para seguir at\u00e9 Santos e da\u00ed tomar caminho para a prov\u00edncia de Goi\u00e1s. Esta suspeita desvaneceu-se com os anos; nem o primo voltou, nem a mo\u00e7a mostrou-se sentida com a aus\u00eancia dele. Esta conjectura com que os pretendentes queriam salvar a honra pr\u00f3pria perdeu o valor, e os iludidos tiveram de contentar-se com este dilema: ou n\u00e3o tinham sabido lutar, ou a mo\u00e7a era uma natureza de gelo.<\/p>\n<p>Todos aceitaram a segunda hip\u00f3tese.<\/p>\n<p>Mas que se passava nessa natureza de gelo? Cec\u00edlia via a felicidade das amigas, era confidente de todas, aconselhava-as ao sentido de uma prudente reserva, mas nem procurava nem aceitava os ci\u00fames que lhe andavam \u00e0 m\u00e3o. Todavia mais de uma vez, \u00e0 noite, no fundo da alcova, a mo\u00e7a sentia-se s\u00f3. O cora\u00e7\u00e3o solit\u00e1rio parece que se n\u00e3o acostumara de todo ao isolamento a que o votara a dona.<\/p>\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o, para fugir \u00e0s pinturas indiscretas de um sentimento a que a mo\u00e7a fugia, corria \u00e0s soltas no campo das cria\u00e7\u00f5es fant\u00e1sticas e desenhava com vivas cores essa felicidade que a vis\u00e3o lhe prometera. Cec\u00edlia comparava o que perdera e o que ia ganhar, e dava a palma do gozo futuro em compensa\u00e7\u00e3o do presente. Mas nesses rasgos de imagina\u00e7\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o palpitava-lhe com for\u00e7a, e mais de uma vez a mo\u00e7a dava acordo de si procurando com uma das m\u00e3os arrancar o anel da alian\u00e7a com a vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesses momentos recuava, entrava em si e chamava no interior a vis\u00e3o daquela noite dos quinze anos. Mas o desejo era baldado; a vis\u00e3o n\u00e3o aparecia, e Cec\u00edlia ia procurar no leito solit\u00e1rio a calma que n\u00e3o podia encontrar nas vig\u00edlias laboriosas.<\/p>\n<p>Muitas vezes a aurora veio encontr\u00e1-la \u00e0 janela, enlevada nas suas imagina\u00e7\u00f5es, sentindo um vago desejo de conversar com a natureza, embriagar-se no sil\u00eancio da noite.<\/p>\n<p>Em alguns passeios que fez aos sub\u00farbios da cidade deixava-se impressionar por tudo o que a vista lhe oferecia de novo, \u00e1gua ou montanha, areia ou erva\u00e7al, parecendo que a vista se lhe comprazia nisso e esquecendo-se muitas vezes de si e dos outros.<\/p>\n<p>Ela sentia um v\u00e1cuo moral, uma solid\u00e3o interior, e procurava na atividade e na variedade da natureza alguns elementos de vida para si. Mas a que atribu\u00eda ela essa \u00e2nsia de viver, esse desejo de ir buscar fora aquilo que lhe faltava? Ao princ\u00edpio n\u00e3o reparou no que fazia; fazia involuntariamente, sem determina\u00e7\u00e3o nem conhecimento da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, como se prolongasse a situa\u00e7\u00e3o, ela foi pouco a pouco descobrindo o estado do cora\u00e7\u00e3o e do esp\u00edrito. Tremeu ao princ\u00edpio, mas em breve se tranq\u00fcilizou; a id\u00e9ia da alian\u00e7a com a vis\u00e3o pesava-lhe no esp\u00edrito, e as promessas feitas por ela de uma bem-aventuran\u00e7a sem igual desenhavam na fantasia de Cec\u00edlia um quadro vivo e espl\u00eandido. Isto consolava a mo\u00e7a, e, sempre escrava dos juramentos, ela fazia honra sua em ficar pura do cora\u00e7\u00e3o para subir \u00e0 morada das donzelas libertadas do amor.<\/p>\n<p>Demais, ainda que o quisesse, parecia-lhe imposs\u00edvel sacudir a cadeia a que involuntariamente se prendera.<\/p>\n<p>E os anos corriam.<\/p>\n<p>Aos vinte e cinco inspirou uma paix\u00e3o violenta a um jovem poeta. Foi uma dessas paix\u00f5es como s\u00f3 os poetas sabem sentir. Este do meu conto dep\u00f4s aos p\u00e9s da bela insens\u00edvel a vida, o futuro, a vontade. Regou com l\u00e1grimas os p\u00e9s de Cec\u00edlia e pediu-lhe como uma esmola uma centelha que fosse do amor que parecia ter recebido do c\u00e9u. Tudo foi in\u00fatil, tudo foi v\u00e3o. Cec\u00edlia nada lhe deu, nem amor nem benevol\u00eancia. Amor n\u00e3o tinha; benevol\u00eancia podia ter, mas o poeta perdera o direito a ela desde que declarou a extens\u00e3o do seu sacrif\u00edcio. Isto deu a Cec\u00edlia a consci\u00eancia da sua superioridade, e com essa consci\u00eancia certa dose de vaidade que lhe vendava os olhos e o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se lhe aparecera o anjo para tirar-lhe do cora\u00e7\u00e3o o germe do amor, n\u00e3o lhe apareceu nenhum que lhe tirasse o pouco de vaidade.<\/p>\n<p>O poeta deixou Cec\u00edlia e foi para casa. Da\u00ed seguiu para uma praia, subiu a uma pequena emin\u00eancia e atirou-se ao mar. Dai a tr\u00eas dias encontrou-se-lhe o cad\u00e1ver, e os jornais deram do fato uma not\u00edcia lacrimosa. Entretanto encontrou-se entre os pap\u00e9is do poeta a seguinte carta:<\/p>\n<p>*** A Cec\u00edlia D&#8230;<\/p>\n<p>Morro por ti. \u00c9 ainda uma felicidade que eu procuro em falta da outra que eu procurei, implorei e n\u00e3o alcancei.<\/p>\n<p>N\u00e3o me quiseste amar; n\u00e3o sei se o teu cora\u00e7\u00e3o estaria cativo, mas dizem que n\u00e3o. Dizem que \u00e9s insens\u00edvel e indiferente.<\/p>\n<p>N\u00e3o quis cr\u00ea-lo e fui por mim pr\u00f3prio averigu\u00e1-lo. Coitado de mim! o que vi bastou para dar-me a certeza de que n\u00e3o estava reservado para mim semelhante fortuna.<\/p>\n<p>N\u00e3o te pergunto que curiosidade te levou a voltares a cabe\u00e7a e transformares-te, como a mulher de Lot, em est\u00e1tua insens\u00edvel e fria. Se alguma coisa h\u00e1 nisto que eu n\u00e3o compreendo, n\u00e3o quero sab\u00ea-lo agora que deixo o fardo da vida, e vou, por caminho escuro, procurar o termo feliz da minha viagem.<\/p>\n<p>Deus te aben\u00e7oe e te fa\u00e7a feliz. N\u00e3o te desejo mal. Se te fujo e se fugi ao mundo \u00e9 por fraqueza, n\u00e3o \u00e9 por \u00f3dio; ver-te, sem ser amado, \u00e9 morrer todos os dias. Morro uma s\u00f3 vez e rapidamente.<\/p>\n<p>Adeus&#8230;<\/p>\n<p>Esta carta causou a Cec\u00edlia muita impress\u00e3o. Chorou at\u00e9. Mas era piedade e n\u00e3o amor. A maior consola\u00e7\u00e3o que ela mesma deu a si foi o pacto secreto e misterioso. \u00c9 culpa minha? perguntava ela. E respondendo negativamente a si mesma achava nisso a legitimidade da sua indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Todavia, esta ocorr\u00eancia trouxe-lhe ao esp\u00edrito uma reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>O anjo prometera-lhe, em troca da isen\u00e7\u00e3o para o amor, uma tranq\u00fcilidade durante a vida que s\u00f3 poderia ser excedida pela paz eterna da bem-aventuran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ora, que encontrava ela? O v\u00e1cuo moral, as impress\u00f5es desagrad\u00e1veis, uma sombra de remorso, eis os lucros que tivera.<\/p>\n<p>Os que foram fracos como o poeta recorreram aos meios extremos ou deixaram-se dominar pela dor. Os menos fracos ou menos sinceros no amor alimentaram contra Cec\u00edlia um despeito que deu em resultado levantar-se uma opini\u00e3o ofensiva \u00e0 mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Mais de um procurava na sombra o motivo da indiferen\u00e7a de Cec\u00edlia. Era a segunda vez que se atiravam a essas investiga\u00e7\u00f5es. Mas o resultado delas era sempre nulo, visto que a realidade era que Cec\u00edlia n\u00e3o amava ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>E os anos corriam&#8230;<\/p>\n<p>Cec\u00edlia chegou aos trinta e tr\u00eas anos. J\u00e1 n\u00e3o era a idade de Julieta, mas era uma idade ainda po\u00e9tica; po\u00e9tica neste sentido \u2014 que a mulher, em chegando a ela, tendo j\u00e1 perdido as ilus\u00f5es dos primeiros tempos, adquire outras mais s\u00f3lidas, fundadas na observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para a mulher dessa idade o amor j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma aspira\u00e7\u00e3o do desconhecido, uma tend\u00eancia mal exprimida; \u00e9 uma paix\u00e3o vigorosa, um sentimento mais eloq\u00fcente; ela j\u00e1 n\u00e3o procura a esmo um cora\u00e7\u00e3o que responda ao seu; escolhe entre os que encontra um que possa compreend\u00ea-la, capaz de amar como ela, pr\u00f3prio para fazer essa doce viagem \u00e0s regi\u00f5es divinas do amor verdadeiro, exclusivo, sincero, absoluto.<\/p>\n<p>Nessa idade era ainda bela. E pretendida. Mas a beleza continuou a ser um tesouro que a indiferen\u00e7a avarenta guardava para os vermes da terra.<\/p>\n<p>Um dia, longe dos primeiros, muito longe, a primeira ruga desenhou-se no rosto de Cec\u00edlia e alvejou um primeiro cabelo. Mais tarde, segunda ruga, segundo cabelo, e outras e outros, at\u00e9 que a velhice de Cec\u00edlia declarou-se completa.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 velhice e velhice. H\u00e1 velhice feia e velhice bonita. Cec\u00edlia era da segunda esp\u00e9cie, porque atrav\u00e9s dos sinais evidentes que o tempo deixara nela, sentia-se que fora uma criatura formosa, e, embora de outra natureza, Cec\u00edlia inspirava ainda a ternura, o entusiasmo, o respeito.<\/p>\n<p>Os fios de prata que lhe serviam de cabelos emolduravam-lhe o rosto rugado, mas ainda suave. A m\u00e3o, que t\u00e3o linda era outrora, n\u00e3o tinha a magreza repugnante, mas era ainda bela e digna de uma princesa&#8230; velha.<\/p>\n<p>Mas o cora\u00e7\u00e3o? Esse atravessara do mesmo modo os tempos e os sucessos sem nada deixar de si. A isen\u00e7\u00e3o foi sempre completa. Lutava embora contra n\u00e3o sei que repugn\u00e2ncia do v\u00e1cuo, n\u00e3o sei que horror da solid\u00e3o, mas nessa luta a vontade ou a fatalidade vencia sempre, triunfava de tudo, e Cec\u00edlia p\u00f4de chegar \u00e0 adiantada idade em que a achamos sem nada perder.<\/p>\n<p>O anel, o fat\u00eddico anel, foi o talism\u00e3 que nunca a abandonou. A favor desse talism\u00e3, que era a assinatura do contrato celebrado com o anjo das donzelas, ela p\u00f4de ver de perto o sol sem se queimar.<\/p>\n<p>Tinham-lhe morrido os pais. Cec\u00edlia vivia em casa de uma irm\u00e3 vi\u00fava. Vivia dos bens que recebera em heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Que fazia agora? Os pretendentes desertaram, os outros envelheceram tamb\u00e9m, mas iam ainda por l\u00e1 alguns deles. N\u00e3o para req\u00fcest\u00e1-la de certo, mas para passar as horas ou em conversa grave e pausada sobre coisas s\u00e9rias, ou \u00e0 mesa de algum jogo inocente e pr\u00f3prio de velhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o poucas vezes era assunto de conversa\u00e7\u00e3o geral a habilidade com que Cec\u00edlia conseguira atravessar os anos da primeira e da segunda mocidade sem empenhar o cora\u00e7\u00e3o em nenhum la\u00e7o de amor. Cec\u00edlia respondia a todos que tivera um segredo poderoso do qual n\u00e3o podia fazer comunica\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n<p>E nestas ocasi\u00f5es olhava amorosamente para o anel que trazia no dedo ornado de uma bela e grande esmeralda.<\/p>\n<p>Mas ningu\u00e9m reparava nisto.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia gastava horas e horas da noite em evocar a vis\u00e3o dos quinze anos. Quisera achar conforto e confirma\u00e7\u00e3o \u00e0s suas cren\u00e7as, quisera ver e ouvir ainda a figura m\u00e1gica e a voz celeste do anjo das donzelas.<\/p>\n<p>Parecia-lhe, sobretudo, que o longo sacr\u00edficio que consumara merecia, antes da realiza\u00e7\u00e3o, uma repeti\u00e7\u00e3o das promessas anteriores.<\/p>\n<p>Entre os que freq\u00fcentavam a casa de Cec\u00edlia alguns velhos havia dos que, na mocidade, tinham feito roda a Cec\u00edlia e tomado mais ou menos seriamente as express\u00f5es de cordialidade da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim que, agora que se encontravam nas \u00faltimas esta\u00e7\u00f5es da vida, mais de uma vez a conversa tinha por objeto a isen\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia e as infelicidades dos adoradores.<\/p>\n<p>Cada um referia os seus epis\u00f3dios mais curiosos, as dores que sentira, as decep\u00e7\u00f5es que sofrera, as esperan\u00e7as que Cec\u00edlia esfolhara com impassibilidade cruel.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia ria ouvindo essas confiss\u00f5es, e acompanhava os seus adoradores de outrora no terreno das fac\u00e9cias que as revela\u00e7\u00f5es mais ou menos inspiravam.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! dizia um, eu \u00e9 que sofri como poucos.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? perguntava Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Conte l\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, lembra-se daquela partida em casa do Avelar?<\/p>\n<p>\u2014 Foi h\u00e1 tanto tempo!<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu me lembro perfeitamente.<\/p>\n<p>\u2014 Que houve?<\/p>\n<p>\u2014 Houve isto.<\/p>\n<p>Todos se prepararam para ouvir a narra\u00e7\u00e3o prometida.<\/p>\n<p>\u2014 Houve isto, continuou o ex-adorador. Est\u00e1vamos no baile. Eu, nesse tempo, era um verdadeiro pintalegrete. Envergava a melhor casaca, esticava a melhor cal\u00e7a, derramava os melhores cheiros. Mais de uma dama suspirava em segredo por mim, e \u00e0s vezes nem mesmo em segredo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade. Mas qual \u00e9 a lei geral da humanidade? \u00c9 n\u00e3o aceitar aquilo que se lhe d\u00e1, para ir buscar aquilo que n\u00e3o poder\u00e1 obter. Foi o que fiz.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1864 Cuidado, caro leitor, vamos entrar na alcova de uma donzela. 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