{"id":116734,"date":"2017-03-30T19:05:09","date_gmt":"2017-03-30T21:05:09","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116734"},"modified":"2017-03-30T19:05:09","modified_gmt":"2017-03-30T21:05:09","slug":"nem-uma-nem-outra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/nem-uma-nem-outra","title":{"rendered":"Nem uma Nem Outra"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>I<\/p>\n<p>Uma tarde do m\u00eas de mar\u00e7o de 1860, entrava no Hotel Ravot um velho mineiro, que, nesse mesmo dia, chegara de Mar de Espanha. Trazia um camarada consigo e alojou-se num dos aposentos do hotel, tendo o cuidado de restaurar as for\u00e7as com um excelente jantar.<\/p>\n<p>O velho representava ter cinq\u00fcenta anos, e eu pe\u00e7o perd\u00e3o aos homens que t\u00eam essa idade sem todavia estarem velhos. O viajante de quem se trata, posto viesse de um clima conservador, estava todavia alquebrado. Via-se pela cara que n\u00e3o era homem inteligente, mas tinha nos tra\u00e7os severos do rosto os sinais positivos de uma grande vontade. Era alto, um pouco magro, tinha os cabelos todos brancos. No entanto, era alegre, e desde que chegou \u00e0 corte divertia-se muito com os espantos do criado que pela primeira vez sa\u00eda da sua prov\u00edncia para vir ao Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Quando acabaram de jantar, amo e criado entraram a conversar amigavelmente e com aquela boa franqueza mineira t\u00e3o apreciada pelos que conhecem a prov\u00edncia. Depois de rememorarem os incidentes da viagem, depois de comentarem o pouco que o criado conhecia do Rio de Janeiro, entraram ambos no principal assunto que trouxera o amo ao Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3, Jos\u00e9, disse o amo, precisamos ver se descobrimos meu sobrinho. N\u00e3o vou daqui sem lev\u00e1-lo comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, sr. capit\u00e3o, respondia o criado, eu acho bem dif\u00edcil encontrar seu sobrinho numa cidade tamanha. S\u00f3 se ficarmos aqui um ano inteiro.<\/p>\n<p>\u2014 Qual um ano! Basta anunciar no Jornal do Commercio, e se n\u00e3o for bastante vou \u00e0 pol\u00edcia, mas hei de ach\u00e1-lo. Tu lembras-te dele?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me lembro nada. Vi-o s\u00f3 uma vez e h\u00e1 tanto tempo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o o achas um bonito rapaz?<\/p>\n<p>\u2014 Naquele tempo era&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de estar melhor.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o sorriu depois de pronunciar estas palavras; mas o criado n\u00e3o lhe viu o sorriso, nem lho perceberia, que \u00e9 justamente o que acontece aos leitores.<\/p>\n<p>A conversa parou nisto.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a primeira coisa em que o capit\u00e3o Ferreira cuidou, logo depois do almo\u00e7o, foi em levar um an\u00fancio ao Jornal do Commercio, concebido nos seguintes termos:<\/p>\n<p>Deseja-se saber onde mora o senhor Vicente Ferreira para neg\u00f3cio do seu interesse.<\/p>\n<p>Apenas deixou o an\u00fancio, descansou o nosso capit\u00e3o e ficou a esperar uma resposta.<\/p>\n<p>Mas, contra a expectativa, n\u00e3o apareceu resposta nenhuma no dia seguinte, e o capit\u00e3o foi obrigado a repetir o an\u00fancio.<\/p>\n<p>A mesma coisa.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o fez repetir o an\u00fancio durante oito dias, sem adiantar um passo, mandou p\u00f4-lo em grandes tipos; mas continuava o mesmo sil\u00eancio. Convenceu-se por fim que o sobrinho n\u00e3o estava no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Fizemos a viagem inutilmente, disse o capit\u00e3o ao criado; voltemos para Mar de Espanha.<\/p>\n<p>O criado alegrou-se com a id\u00e9ia de voltar; mas o velho estava triste.<\/p>\n<p>Para distrair-se de sua tristeza, saiu o capit\u00e3o a dar um passeio depois do almo\u00e7o, e dirigiu-se para os lados do Passeio P\u00fablico.<\/p>\n<p>Justamente na Rua do Passeio pareceu ver entrar em uma casa um sujeito que de longe lhe pareceu o sobrinho.<\/p>\n<p>O velho apressou o passo e chegou \u00e0 porta do corredor por onde entrara o vulto, mas n\u00e3o achou ningu\u00e9m. Quem quer que era tinha j\u00e1 subido a escada.<\/p>\n<p>Que fazer?<\/p>\n<p>Lembrou-se de ficar na porta \u00e0 espera; mas podendo ser que se houvesse enganado, a espera seria, sobre fastidiosa, in\u00fatil. O capit\u00e3o lembrou-se de bater palmas.<\/p>\n<p>Com efeito, subiu o primeiro lan\u00e7o da escada e bateu palmas. Pouco depois veio abrir-lhe a cancela um mo\u00e7o representando ter vinte e cinco anos de idade, a quem o capit\u00e3o, apenas o viu, gritou com toda a for\u00e7a dos seus pulm\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Vicente!<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9?<\/p>\n<p>O capit\u00e3o subiu os degraus sem responder e chegou ao patamar gritando:<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o me conheces, sobrinho ingrato?<\/p>\n<p>Dizer isto e atirar-se-lhe aos bra\u00e7os foi a mesma coisa. O rapaz abra\u00e7ou ternamente o tio, n\u00e3o sem um pouco de acanhamento em que o capit\u00e3o n\u00e3o reparou.<\/p>\n<p>\u2014 Entre c\u00e1 para a sala, meu tio, disse Vicente.<\/p>\n<p>Entraram na sala, e se os olhos do tio fossem mais indiscretos teriam visto que, justamente no momento em que ele entrava na sala, saiu por um corredor interno um vestido de mulher.<\/p>\n<p>Mas o capit\u00e3o Ferreira ia t\u00e3o embebido no sobrinho e t\u00e3o contente por t\u00ea-lo finalmente encontrado, que n\u00e3o reparou em coisa alguma.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, gra\u00e7as a Deus que te encontro! disse ele sentando-se numa cadeira que lhe oferecia o rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Quando chegou?<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 dez dias. N\u00e3o sabendo onde moravas, anunciei no Jornal do Commercio todos os dias, e sempre em v\u00e3o. N\u00e3o leste o an\u00fancio?<\/p>\n<p>\u2014 Meu tio, eu n\u00e3o leio jornais.<\/p>\n<p>\u2014 Tu n\u00e3o l\u00eas jornais?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Homem, fazes bem; mas ao menos agora seria conveniente que houvesse lido; mas para isso era preciso que eu te avisasse, e eu n\u00e3o sabia da casa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 v\u00ea&#8230; disse Vicente sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois, senhor, acho-te bem disposto. Est\u00e1s muito melhor do que a \u00faltima vez que l\u00e1 foste \u00e0 fazenda; creio que h\u00e1 j\u00e1 cinco anos.<\/p>\n<p>\u2014 Pouco mais ou menos.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo por l\u00e1 ficou bom, mas com saudades de ti. Por que diabo n\u00e3o apareces?<\/p>\n<p>\u2014 Meu tio, ando t\u00e3o ocupado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, creio que est\u00e1s aprendendo a tocar piano, disse o capit\u00e3o olhando para o instrumento que via na sala.<\/p>\n<p>\u2014 Eu? disse o rapaz; n\u00e3o, n\u00e3o sou eu, \u00e9 um amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Que mora contigo?<\/p>\n<p>\u2014 Justo.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas moram bem; e estou capaz de vir para aqui uns dias antes de voltar para Minas.<\/p>\n<p>O rapaz empalideceu, e por muito pouca perspic\u00e1cia que tenha o leitor h\u00e1 de compreender que esta palidez est\u00e1 ligada \u00e0 fuga do vestido de que lhe falei acima.<\/p>\n<p>N\u00e3o respondeu coisa alguma \u00e0 proposta do tio, e este foi o primeiro a romper a dificuldade, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Mas para qu\u00ea? demoro-me t\u00e3o pouco tempo que n\u00e3o vale a pena; e al\u00e9m disso, pode o teu amigo n\u00e3o gostar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ele \u00e9 um pouco esquisito.<\/p>\n<p>\u2014 Ora a\u00ed est\u00e1! E eu sou muito esquisito, e portanto, n\u00e3o podemos fazer concilia\u00e7\u00e3o. O que eu quero, Vicente, \u00e9 falar-te sobre um important\u00edssimo neg\u00f3cio, \u00fanico que me traz ao Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Um neg\u00f3cio?<\/p>\n<p>\u2014 Sim; mas agora n\u00e3o temos tempo; adiemos para outra ocasi\u00e3o. Apareces no Ravot hoje?<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 irei.<\/p>\n<p>\u2014 Olha, vai jantar comigo, sim?<\/p>\n<p>\u2014 Vou, meu tio.<\/p>\n<p>\u2014 Anda da\u00ed.<\/p>\n<p>\u2014 Agora n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel; tenho de esperar o meu companheiro; mas pode ir que eu l\u00e1 estarei para jantar.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, bem, n\u00e3o me faltes.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o abra\u00e7ou outra vez o sobrinho e saiu radiante de alegria.<\/p>\n<p>Apenas o tio chegou \u00e0 porta da rua, Vicente, que tinha voltado e sala e estava \u00e0 janela, sentiu que lhe tocavam por tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Voltou-se.<\/p>\n<p>Uma mo\u00e7a \u2014 a do vestido \u2014 estava por tr\u00e1s dele, e lhe perguntava sorrindo:<\/p>\n<p>\u2014 De onde te veio este tio?<\/p>\n<p>\u2014 De Minas; n\u00e3o contava agora com ele, tenho de l\u00e1 ir jantar.<\/p>\n<p>\u2014 Ora&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Desculpa; \u00e9 um tio.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1, disse ela sorrindo, fa\u00e7o o sacrif\u00edcio ao tio. Mas, olha, v\u00ea se mo envias depressa para Minas.<\/p>\n<p>\u2014 Descansa; o mais depressa que me for poss\u00edvel.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Vicente foi exato na promessa.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o Ferreira que j\u00e1 estava impaciente, apesar de n\u00e3o ser tarde, andava da sala para a janela, olhando para todos os lados, a ver se descobria sinais do sobrinho. Ora, o sobrinho entrou justamente numa ocasi\u00e3o em que ele estava na sala; um criado do hotel levou-o ao aposento do capit\u00e3o, aonde Vicente entrou justamente na ocasi\u00e3o em que o capit\u00e3o ia para a janela, de maneira que foi uma grande surpresa para o tio ver o sobrinho repimpado numa cadeira quando menos o esperava.<\/p>\n<p>\u2014 Por onde diabo entraste tu?<\/p>\n<p>\u2014 Pela porta.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 singular; n\u00e3o te senti entrar. Ora, ainda bem que vieste; s\u00e3o horas de jantar, e \u00e9 bom que jantemos antes, a fim de termos tempo para conversarmos a respeito do neg\u00f3cio de que te falei.<\/p>\n<p>Vicente estava alegre e ruidoso como era do seu natural. A entrada inesperada do tio na casa da Rua do Passeio \u00e9 que o tinha tornado acanhado e hesitante; agora, por\u00e9m, que j\u00e1 n\u00e3o tinha motivos para hesita\u00e7\u00f5es nem acanhamento, deu o rapaz largas ao seu g\u00eanio folgaz\u00e3o.<\/p>\n<p>A surpresa foi agrad\u00e1vel para o capit\u00e3o Ferreira, que n\u00e3o tinha a insuport\u00e1vel mania de querer mo\u00e7os velhos, e aceitava o g\u00eanio de todas as idades e de todos os temperamentos.<\/p>\n<p>Acabando o jantar, o capit\u00e3o foi com o sobrinho para o seu aposento e a\u00ed come\u00e7ou a conversa importante que o trouxera \u00e0 corte.<\/p>\n<p>\u2014 Primeiramente, disse o velho, deixa-me puxar-te as orelhas pela tua prolongada aus\u00eancia l\u00e1 de casa, onde ias ao menos uma vez por ano. Que diabo andas fazendo aqui?<\/p>\n<p>\u2014 Meu tio, ando muito ocupado.<\/p>\n<p>\u2014 Graves neg\u00f3cios, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o graves, por\u00e9m, ma\u00e7antes.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? Imagino. Est\u00e1s empregado?<\/p>\n<p>\u2014 Numa casa comercial, onde ganho alguma coisa, e isso junto com o pouquinho que me ficou de minha m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eram uns vinte contos, n\u00e3o pode ser muito, talvez n\u00e3o seja nada.<\/p>\n<p>\u2014 Isso est\u00e1 intacto.<\/p>\n<p>\u2014 Confesso, disse o velho, que n\u00e3o te supunha t\u00e3o econ\u00f4mico. Mas por que raz\u00e3o n\u00e3o arranjaste uma licen\u00e7a para ires ver-me \u00e0 fazenda?<\/p>\n<p>\u2014 No com\u00e9rcio \u00e9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u2014 Pois mandava-se o emprego ao diabo; l\u00e1 em casa h\u00e1 um canto para um parente.<\/p>\n<p>Vicente n\u00e3o respondeu; o velho continuou:<\/p>\n<p>\u2014 E \u00e9 justamente para isto que eu vim falar-te.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse Vicente arregalando os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Aposto que recusas?<\/p>\n<p>\u2014 Recusar? Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s com pouca vontade, e eu no teu caso faria o mesmo; mas n\u00e3o se trata s\u00f3 de abandonar a corte para ires encafuar-te numa fazenda. Para um rapaz a mudan\u00e7a h\u00e1 de ser dif\u00edcil. A carne \u00e9 dura de roer, mas eu trago-te o molho.<\/p>\n<p>Dizendo isto, o capit\u00e3o fitava os olhos do rapaz cuidando ver neles uma curiosidade misturada de alegria. Viu a curiosidade, mas n\u00e3o viu a alegria. N\u00e3o se perturbou, e continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Teu pai, que era meu irm\u00e3o, incumbiu-me de velar por ti, e fazer-te feliz. At\u00e9 aqui tenho cumprido o que prometi, porque sendo mais feliz na corte, n\u00e3o te forcei a ir viver comigo na fazenda; e quando quiseste ter um emprego, esse que tens agora, h\u00e1s de lembrar-te que algu\u00e9m to ofereceu.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, foi por iniciativa minha.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! foi meu tio?<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o? disse o velho, batendo-lhe na perna a rir; cuidavas que eu ignorava o teu emprego? Se eu mesmo to dei; e mais, tenho indagado do teu comportamento na casa, e sei que \u00e9 exemplar. J\u00e1 por tr\u00eas vezes mandei dizer ao teu patr\u00e3o que te desse licen\u00e7a por algum tempo, e ele mesmo, segundo me consta, falou-te nisso, mas tu recusaste.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, meu tio, respondeu Vicente; e eu n\u00e3o sei como lhe agrade\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O haveres recusado visitar-me?<\/p>\n<p>\u2014 Confesso que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Compreendo o motivo; os rapazes da corte \u2014 as delicias de C\u00e1pua, como diz o vig\u00e1rio Tosta \u2014 eis a causa.<\/p>\n<p>Vicente ca\u00eda das nuvens com todas estas not\u00edcias que lhe dava o capit\u00e3o, ao passo que o capit\u00e3o ia desenrolando-se sem inten\u00e7\u00e3o de afrontar nem censurar o rapaz&#8230; O capit\u00e3o era um bom velho; compreendia a mocidade, e desculpava-lhe tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Ora bem, continuou ele, quem fez tanto por ti, entende que \u00e9 chegado o momento de fazer-te feliz de outra maneira.<\/p>\n<p>\u2014 Qual maneira? perguntou Vicente curioso e ao mesmo tempo assustado com o g\u00eanero de felicidade que lhe anunciava o tio.<\/p>\n<p>\u2014 De uma maneira t\u00e3o velha como Ad\u00e3o e Eva, o casamento. Vicente empalideceu; esperava tudo, menos o casamento. E que casamento seria? O velho n\u00e3o disse mais nada; Vicente gastou alguns minutos em formular uma resposta, que seria ao mesmo tempo une fin de non recevoir.<\/p>\n<p>\u2014 Que achas? respondeu finalmente o velho.<\/p>\n<p>\u2014 Acho, respondeu resolutamente o rapaz, que meu tio \u00e9 em extremo bondoso comigo em me propor o casamento para minha felicidade. Com efeito, parece que o casamento \u00e9 o remate natural da vida, e por isso aceito com bra\u00e7os abertos a sua id\u00e9ia.<\/p>\n<p>O velho sorria de contentamento, e ia j\u00e1 abra\u00e7\u00e1-lo quando o sobrinho acabou o discurso.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, acrescentou Vicente, a dificuldade est\u00e1 na esposa, e eu por enquanto n\u00e3o amo a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o amas a ningu\u00e9m? disse o velho deitando-se; mas ent\u00e3o cuidas que eu vinha \u00e0 corte s\u00f3 para te propor um casamento? Trago duas propostas \u2014 a do casamento e a da mulher. N\u00e3o amas a mulher? H\u00e1s de vir a am\u00e1-la, porque ela j\u00e1 te ama.<\/p>\n<p>Vicente estremeceu; a quest\u00e3o agora tornava-se mais complicada. Ao mesmo tempo a id\u00e9ia de ser amado sem que ele soubesse nem tivesse feito nenhum esfor\u00e7o, era uma coisa que lhe sorria \u00e0 vaidade. Entre estes dois sentimentos contr\u00e1rios, o rapaz achou-se embara\u00e7ado para dar uma resposta qualquer.<\/p>\n<p>\u2014 A mulher que te destino e que te ama, \u00e9 minha filha Delfina.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! a prima? Mas ela \u00e9 crian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Era h\u00e1 cinco anos; agora est\u00e1 com dezessete anos, e creio que a idade \u00e9 pr\u00f3pria para um cons\u00f3rcio. Aceitas, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Meu tio, respondeu Vicente, eu aceitaria com muito prazer a sua id\u00e9ia; mas, posto que eu reconhe\u00e7a toda a vantagem desta uni\u00e3o, contudo, n\u00e3o quero fazer uma mo\u00e7a infeliz, e \u00e9 o que pode acontecer se eu n\u00e3o amar minha mulher.<\/p>\n<p>\u2014 Dar-lhe-\u00e1s pancadas?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! perd\u00e3o! disse Vicente, n\u00e3o sem esconder um sentimento de indigna\u00e7\u00e3o que lhe provocara a pergunta do velho. Mas n\u00e3o amando a uma pessoa que me ama, \u00e9 faz\u00ea-la infeliz.<\/p>\n<p>\u2014 Hist\u00f3rias da vida! disse o velho levantando-se e passeando pela sala; isto de amor em casamento \u00e9 uma burla; basta que se estimem e se respeitem; \u00e9 o que eu exijo e nada mais. V\u00ea l\u00e1; em troca disso, dou-te a minha fortuna toda; bem sei que isto \u00e9 o menos para ti; mas ter mulher bonita (porque Delfina \u00e9 uma j\u00f3ia), meiga, d\u00f3cil, \u00e9 uma fortuna que s\u00f3 um pateta pode recusar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o digo que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um pateta, ou um estouvado, como tu; um estouvado, que abandonou a casa de com\u00e9rcio, em que se achava, por um capricho, uma simples desintelig\u00eancia com o dono da casa&#8230; Olhas espantado para mim? \u00c9 verdade, meu rico; soube de tudo isso: e \u00e9 essa a raz\u00e3o de n\u00e3o saberes tu quando aqui cheguei. Creio ao menos que estar\u00e1s empregado?<\/p>\n<p>\u2014 Estou, balbuciou o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o estava j\u00e1 zangado com as recusas do sobrinho, e n\u00e3o se p\u00f4de conter; disse-lhe o que sabia. Vicente, que o cuidava iludido acerca da sa\u00edda da casa em que estivera, recebeu a not\u00edcia como uma bala de 150.<\/p>\n<p>O velho continuou a passear silencioso. Vicente deixou-se estar assentado sem dizer palavra.<\/p>\n<p>No fim de alguns minutos, voltou o capit\u00e3o \u00e0 sua cadeira e acrescentou:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me sejas palerma; atende que eu venho fazer a tua felicidade. Tua prima suspira por ti. S\u00f3 o soube quando o filho do coronel Vieira foi l\u00e1 pedi-la em casamento. Disse-me ela ent\u00e3o que s\u00f3 se casaria contigo; e eu que a estreme\u00e7o, quero fazer-lhe a vontade. Vamos; n\u00e3o posso esperar; decide-te.<\/p>\n<p>\u2014 Meu tio, disse Vicente depois de alguns instantes, n\u00e3o posso dar-lhe uma resposta definitiva; mas afirmo que o que eu puder fazer estar\u00e1 feito.<\/p>\n<p>\u2014 Boa confian\u00e7a devo eu ter nas tuas palavras!<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Queres saber por qu\u00ea? \u00e9 porque eu suponho que andar\u00e1s por a\u00ed perdido, que sei eu? Como se perdem os rapazes de hoje.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! quanto a isso, juro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero juramentos, quero uma resposta.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o Ferreira era um homem de vontade; n\u00e3o admitia recusas, nem sabia propor coisas daquelas, quando lhe n\u00e3o assistia direito legal. Vicente at\u00e9 ent\u00e3o vivera independente do tio; era natural que nunca contasse com a fortuna dele. Querer impor-lhe o casamento por aquele modo, era arriscar a negocia\u00e7\u00e3o, afrontando o orgulho do mo\u00e7o. O velho n\u00e3o reparava nisso, ficou muito admirado quando o sobrinho respondeu secamente \u00e0s \u00faltimas palavras dele:<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, a minha resposta \u00e9 simples: n\u00e3o me caso.<\/p>\n<p>Seguiu-se a estas palavras um profundo sil\u00eancio; o velho ficou fulminado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te casas? perguntou ele no fim de longos minutos.<\/p>\n<p>O rapaz fez um sinal negativo.<\/p>\n<p>\u2014 Reparaste bem na resposta que me deste?<\/p>\n<p>\u2014 Reparei.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus.<\/p>\n<p>E dizendo isto, o velho levantou-se e dirigiu-se para o quarto sem lhe dirigir um olhar sequer.<\/p>\n<p>Vicente compreendeu que estava despedido e saiu.<\/p>\n<p>Quando chegou \u00e0 casa, achou a mo\u00e7a que j\u00e1 tivemos ocasi\u00e3o de ver no primeiro cap\u00edtulo, a qual o recebeu com um abra\u00e7o que era ao mesmo tempo um ponto de interroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Briguei com meu tio, disse o mo\u00e7o sentando-se.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Adivinha o que ele queria?<\/p>\n<p>\u2014 Mandar-te para fora daqui?<\/p>\n<p>\u2014 Casar-me com a filha dele e fazer-me seu herdeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Recusaste?<\/p>\n<p>\u2014 Recusei.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a ajoelhou-se diante de Vicente e beijou-lhe as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto, Clara?<\/p>\n<p>\u2014 Obrigada! murmurou ela.<\/p>\n<p>Vicente levantou-a e beijou-lhe por sua vez as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Tolinha! Pois h\u00e1 nisto motivo para me agradeceres? E chorando! Clara, deixa-te de l\u00e1grimas! Eu n\u00e3o gosto de ver uma mo\u00e7a chorona&#8230; Vamos! ri-te.<\/p>\n<p>Clara sentou-se calada; via-se-lhe a alegria no rosto, mas uma alegria misturada de tristeza.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe? disse ela no fim de algum tempo; quem sabe se fizeste bem recusando?<\/p>\n<p>\u2014 Essa agora!<\/p>\n<p>\u2014 Recusaste por minha causa, e eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 vejo que fiz mal em falar-te nisto. Ora, vamos&#8230; nada de tolices; anda passear.<\/p>\n<p>Vicente Ferreira, desde que lhe morrera a m\u00e3e, deixara o interior da prov\u00edncia de S. Paulo, aonde vivera, e estabeleceu-se na corte com o pouco que herdara; algum tempo empregou-se, e j\u00e1 sabemos que por influ\u00eancia do tio, que deveras o estimava. Era um rapaz um tanto orgulhoso, e imaginava que viver com o tio era mostrar-se adulador da fortuna dele, id\u00e9ia esta de que fugia sempre. Quando estava em S. Paulo visitara muitas vezes o tio; mas, depois que viera para a corte, nunca mais o fez. Al\u00e9m dos sentimentos que j\u00e1 apontamos acima, n\u00e3o queria deixar a casa ainda que com licen\u00e7a do patr\u00e3o, que ali\u00e1s era o primeiro a oferecer-lha; e finalmente a Clara da Rua do Passeio tinha grande parte na decis\u00e3o do rapaz.<\/p>\n<p>Por que essa influ\u00eancia e como come\u00e7ara ela?<\/p>\n<p>Apressemo-nos a tirar do esp\u00edrito do leitor uma id\u00e9ia que porventura j\u00e1 lhe tenha surgido, e vem a ser a de que a nossa Clara \u00e9 uma Margarida Gauthier lavando-se nas \u00e1guas do amor das culpas passadas.<\/p>\n<p>Clara tinha sido raptada de casa de seus pais por um amigo de Vicente, ou pelo menos o sujeito que andava com ele \u2014 e abandonada no fim de um m\u00eas pelo tratante, que embarcou para Buenos Aires.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a achou-se s\u00f3 um dia de manh\u00e3, sem arrimo nenhum, nem esperan\u00e7a dele. A primeira id\u00e9ia que teve foi matar-se; nessa resolu\u00e7\u00e3o entrou por muito o amor que ainda tinha pelo rapaz. Mas o medo, a educa\u00e7\u00e3o religiosa que lhe haviam dado depressa lhe arredaram do esp\u00edrito semelhante id\u00e9ia.<\/p>\n<p>No meio da sua afli\u00e7\u00e3o lembrou-se de Vicente, que l\u00e1 fora \u00e0 casa dela, uma vez, em companhia do fugitivo En\u00e9as. Mandou-o chamar e contou-lhe a sua situa\u00e7\u00e3o. Vicente ainda n\u00e3o sabia da fuga do amigo, e ficou admirado que ele houvesse cometido semelhante ato de covardia. Mas, sabendo que pelo lado da justi\u00e7a o raptor nada temia, admirou-se da fuga sem outro motivo aparente al\u00e9m da quest\u00e3o do rapto, motivo que n\u00e3o era motivo, porque um homem que furta uma mo\u00e7a tem sempre \u00e2nimo para conserv\u00e1-la durante algum tempo, at\u00e9 que possa a fuga completar a obra do rapto: a aud\u00e1cia coroada pela covardia.<\/p>\n<p>Ora, esse tempo nunca \u00e9 simplesmente um m\u00eas.<\/p>\n<p>Outra causa devia haver, e Vicente tratou de indagar nesse mesmo dia sem nada obter; no dia seguinte, por\u00e9m, a gazetilha do Jornal do Commercio tirou todas as d\u00favidas: noticiava a fuga do homem com alguns contos de r\u00e9is.<\/p>\n<p>Para acabar j\u00e1 com a hist\u00f3ria deste sujeito, acrescentarei que, depois de longos trabalhos do mesmo g\u00eanero, em Buenos Aires, fugiu ele para o Chile, onde consta que \u00e9 atualmente empregado em umas obras das estradas.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a contou a Vicente qual era a sua posi\u00e7\u00e3o, e pediu-lhe por esmola o seu aux\u00edlio.<\/p>\n<p>Vicente tinha bom cora\u00e7\u00e3o; achou que naquele estado n\u00e3o devia fazer \u00e0 mo\u00e7a um discurso in\u00fatil sobre o seu ato; cumpria-lhe socorr\u00ea-la. Tirou, portanto, um conto de r\u00e9is do pec\u00falio que tinha e deu a Clara os primeiros aux\u00edlios necess\u00e1rios; alugou-lhe casa e uma criada; preparou-lhe uma mob\u00edlia e despediu-se.<\/p>\n<p>Clara recebeu agradecida e envergonhada os aux\u00edlios de Vicente; mas ao mesmo tempo n\u00e3o via nos atos do rapaz mais do que um sentimento de interesse.<\/p>\n<p>No fim de quinze dias, Vicente foi \u00e0 casa de Clara e disse-lhe que, n\u00e3o podendo adiantar-lhe tudo quanto ela precisasse e n\u00e3o devendo ela ficar exposta aos perigos da sua situa\u00e7\u00e3o, era conveniente que procurasse trabalhar, e para isso escolhesse o que mais lhe conviesse.<\/p>\n<p>Clara achou justas as observa\u00e7\u00f5es de Vicente, e ficou assentado que a mo\u00e7a trabalharia de costureira em casa de alguma modista.<\/p>\n<p>Da\u00ed a dias estava a mo\u00e7a empregada.<\/p>\n<p>Entretanto, Vicente n\u00e3o voltou l\u00e1 mais; de quando em quando recebia um recado de Clara, mas era sempre em assunto que lhe dispensava uma visita pessoal.<\/p>\n<p>O procedimento do mo\u00e7o n\u00e3o deixou de influir na rapariga, que j\u00e1 se arrependia do seu primeiro ju\u00edzo.<\/p>\n<p>Um dia adoeceu Vicente, e Clara apenas o soube, obteve licen\u00e7a da modista e foi tratar do enfermo com a dedica\u00e7\u00e3o e zelo de uma irm\u00e3. A doen\u00e7a de Vicente durou dez ou doze dias; durante esse tempo n\u00e3o se desmentiu a solicitude da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, disse Vicente \u00e0 rapariga, quando se levantou da cama.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? Sou eu quem lhe deve.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 pagou de sobra.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! nunca! disse Clara. O senhor livrou-me a vida, \u00e9 verdade; mas n\u00e3o fez s\u00f3 isto, livrou-me de entrar numa carreira fatal&#8230; e mais&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E mais nada, disse Vicente.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a voltou o rosto e enxugou uma l\u00e1grima.<\/p>\n<p>\u2014 Por que chora? perguntou Vicente.<\/p>\n<p>Clara n\u00e3o respondeu, mas levantou os olhos para ele rasos d\u2019alma quando n\u00e3o vinha doutra parte.<\/p>\n<p>\u2014 Meu caro genro, disse o capit\u00e3o sentenciosamente, guardado est\u00e1 o bocado para quem o h\u00e1 de comer. Vim \u00e0 corte para que Delfina casasse com Vicente, e vou para a ro\u00e7a com o genro que n\u00e3o esperava nem conhecia. Digo isto porque eu volto para a ro\u00e7a e n\u00e3o posso separar-me de Delfina.<\/p>\n<p>\u2014 Acompanh\u00e1-lo-ei, respondeu Correia.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o achou conveniente participar a Vicente o casamento da filha, mas desde logo viu o que havia de delicado naquilo, n\u00e3o porque cuidasse ferir-lhe o cora\u00e7\u00e3o, j\u00e1 livre de uma moment\u00e2nea impress\u00e3o, mas porque sempre lhe seria ferir o amor-pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Havia tr\u00eas dias que Vicente n\u00e3o aparecia.<\/p>\n<p>\u2014 Ia escrever-te, disse o capit\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Dar-te uma not\u00edcia de que te vais admirar.<\/p>\n<p>\u2014 Qual?<\/p>\n<p>\u2014 Delfina casa-se.<\/p>\n<p>\u2014 A prima?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>Houve um pequeno sil\u00eancio; a not\u00edcia abalou o rapaz, que ainda gostava da mo\u00e7a, apesar dos ci\u00fames por Clara.<\/p>\n<p>O velho esperou alguma observa\u00e7\u00e3o por parte de Vicente, e vendo que ela n\u00e3o aparecia, continuou:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, casa-se daqui a dois meses.<\/p>\n<p>\u2014 Com quem? perguntou Vicente.<\/p>\n<p>\u2014 Com o Correia.<\/p>\n<p>Quando Vicente perguntou pelo noivo de Delfina, j\u00e1 o desconfiara, por se lembrar de que uma noite reparara em certos olhares trocados entre os dois.<\/p>\n<p>Mas a declara\u00e7\u00e3o do tio n\u00e3o deixou de o abalar profundamente; um pouco de amor e um pouco de despeito causaram essa impress\u00e3o.<\/p>\n<p>A conversa ficou neste ponto; Vicente saiu.<\/p>\n<p>Compreende-se a situa\u00e7\u00e3o do rapaz.<\/p>\n<p>Quando saiu da casa do tio, mil id\u00e9ias lhe tumultuavam na cabe\u00e7a. Queria ir brigar com o rival, reclamar de Delfina a promessa t\u00e1cita que lhe fizera, mil projetos, todos mais extravagantes uns que outros.<\/p>\n<p>Na posi\u00e7\u00e3o em que se achava, o sil\u00eancio era a melhor solu\u00e7\u00e3o. Tudo mais era rid\u00edculo.<\/p>\n<p>Mas o despeito \u00e9 um mau conselheiro.<\/p>\n<p>Agitado por esses sentimentos, entrou Vicente em casa, onde n\u00e3o encontrava ao menos o amor de Clara.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a com efeito estava cada vez mais fria e indiferente ao amor de Vicente. N\u00e3o se alegrava com as suas alegrias, nem se entristecia com as suas tristezas.<\/p>\n<p>Vicente passou uma noite de desespero.<\/p>\n<p>Preparava-se, entretanto, o casamento.<\/p>\n<p>Vicente achou que n\u00e3o devia voltar \u00e0 casa do tio, nem procurar o feliz rival. Mas oito dias depois de saber oficialmente do casamento de Delfina, recebeu ele de Correia a seguinte carta:<\/p>\n<p>Meu Vicente,<\/p>\n<p>Tenho hesitado em participar-te uma not\u00edcia de que ali\u00e1s j\u00e1 est\u00e1s inteirado; caso-me com tua prima. Eu nunca teria pensado em semelhante coisa, se n\u00e3o visse que tu, depois de um ligeiro namoro, ficaste indiferente ao destino da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que j\u00e1 te n\u00e3o importas com ela.<\/p>\n<p>O fato de n\u00e3o a amares abriu a porta ao meu cora\u00e7\u00e3o, que desde muito se sentia impressionado.<\/p>\n<p>Amamo-nos ambos, e o casamento ser\u00e1 daqui a cinq\u00fcenta dias.<\/p>\n<p>Espero que o aproves.<\/p>\n<p>J\u00e1 era teu amigo; agora fico sendo teu parente.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisava isto para apertar os la\u00e7os de amizade que nos unem. \u2014 Teu Correia.<\/p>\n<p>Vicente leu pasmado esta carta em que a aud\u00e1cia da hipocrisia n\u00e3o podia ir mais longe.<\/p>\n<p>N\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Deste modo, pensou Vicente, ele compreender\u00e1 que o desprezo e vir\u00e1 talvez pedir-me uma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nisto enganou-se o rapaz.<\/p>\n<p>Correia n\u00e3o pedira explica\u00e7\u00f5es, nem esperava resposta \u00e0 carta. A carta era mais um ato de insol\u00eancia que de hipocrisia. O rapaz queria machucar completamente o amigo.<\/p>\n<p>Vicente esperou debalde uma visita de Correia.<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a exasperou-o ainda mais.<\/p>\n<p>Acrescente-se a isto a situa\u00e7\u00e3o dele em rela\u00e7\u00e3o a Clara, que era cada vez pior. Dos arrufos tinham passado \u00e0s grandes rixas, e a \u00faltima fora revestida de graves circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Chegou finalmente o dia do casamento de Delfina.<\/p>\n<p>J\u00falia escolheu tamb\u00e9m esse dia para casar-se.<\/p>\n<p>Os dois casamentos se fizeram na mesma igreja.<\/p>\n<p>Estas circunst\u00e2ncias, al\u00e9m de outras, aproximaram Correia de Castrioto. Os dois noivos trataram juntos dos preparativos da festa dupla em que eles eram her\u00f3is.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera do casamento, Castrioto foi dormir em casa de Correia.<\/p>\n<p>\u2014 Conversemos das nossas noivas, disse Correia ao romancista.<\/p>\n<p>\u2014 Apoiado, respondeu este.<\/p>\n<p>Com efeito, l\u00e1 se apresentou \u00e0s dez horas, depois de sair da casa de Alvarenga, onde se despedira da namorada pela \u00faltima vez, para cumpriment\u00e1-la no dia seguinte como noiva.<\/p>\n<p>\u2014 Com que ent\u00e3o amanh\u00e3, disse Correia, estamos casados.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, respondeu Castrioto.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda me parece um sonho.<\/p>\n<p>\u2014 E a mim! Pois h\u00e1 seis meses que namoro esta mo\u00e7a sem esperan\u00e7a de conseguir nada. O senhor \u00e9 que andou depressa. T\u00e3o feliz n\u00e3o fui eu, apesar dos meus esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade; amamo-nos depressa; e muito. Quer que lhe diga? E um pouco esquisito isto de dormir solteiro e acordar noivo. Que lhe parece?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, respondeu Castrioto, em voz surda.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem, amigo? Parece que isso lhe traz id\u00e9ias sombrias&#8230; Vejo-o pensativo&#8230; Que tem?<\/p>\n<p>Depois de algum sil\u00eancio Castrioto respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Eu lhe digo. Minha noiva casa-se comigo mediante uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Uma condi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Dolorosa.<\/p>\n<p>\u2014 Meu Deus! que ser\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 A de n\u00e3o escrever mais romances.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! mas parece que a noiva vale a condi\u00e7\u00e3o, disse Correia sustando uma gargalhada.<\/p>\n<p>\u2014 Vale, respondeu Castrioto, e por isso aceitei-a.<\/p>\n<p>\u2014 E depois l\u00e1 para diante&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; aceitei a condi\u00e7\u00e3o, hei de cumpri-la. E \u00e9 por isso que eu, nesta hora solene em que me despe\u00e7o da vida de solteiro, quero ler-lhe o meu \u00faltimo romance.<\/p>\n<p>Dizendo isto, Castrioto tirou do bolso um formid\u00e1vel rolo de papel, cujo aspecto fez empalidecer o h\u00f3spede.<\/p>\n<p>Batiam onze horas.<\/p>\n<p>A leitura do rolo n\u00e3o levava menos de duas horas.<\/p>\n<p>Correia achou-se num destes momentos supremos em que toda a coragem \u00e9 necess\u00e1ria ao homem.<\/p>\n<p>Mas de que valia a maior coragem deste mundo contra um mau escritor que est\u00e1 disposto a ler uma obra?<\/p>\n<p>Castrioto desenrolou o romance, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 O t\u00edtulo deste \u00e9: Os perigos do amor ou a casa misteriosa.<\/p>\n<p>Correia n\u00e3o podia escapar ao perigo da leitura.<\/p>\n<p>Entretanto, para servi-lo, pediu licen\u00e7a a Castrioto para p\u00f4r-se \u00e0 fresca e deitar-se no sof\u00e1.<\/p>\n<p>Feito isto, deu sinal a Castrioto para come\u00e7ar.<\/p>\n<p>O romancista tossiu e entrou a ler o romance.<\/p>\n<p>Quando acabou o primeiro cap\u00edtulo, voltou-se para Correia e perguntou-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe parece este cap\u00edtulo?<\/p>\n<p>\u2014 Excelente, respondeu Correia.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou o segundo cap\u00edtulo com entusiasmo.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe parece este cap\u00edtulo?<\/p>\n<p>Nenhuma resposta.<\/p>\n<p>Castrioto aproximou-se do h\u00f3spede; dormia a sono solto.<\/p>\n<p>\u2014 Miser\u00e1vel! disse o romancista, indo deitar-se na cama de Correia.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>O dia seguinte era o grande dia.<\/p>\n<p>Para os noivos levantou-se o sol como nunca; para Vicente jamais a luz do sol lhe pareceu t\u00e3o ir\u00f4nica e zombeteira.<\/p>\n<p>A felicidade de Correia aumentava o despeito do rapaz e dava maiores propor\u00e7\u00f5es ao desd\u00e9m com que o rival o tratava.<\/p>\n<p>Por compensa\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s fraca em tais circunst\u00e2ncias \u2014 Clara mostrava-se nesse dia mais sol\u00edcita e am\u00e1vel que nunca. Acordou cantando e rindo. Com o humor da rapariga diminuiu um pouco o aborrecimento de Vicente.<\/p>\n<p>Vicente resolveu n\u00e3o sair nesse dia, e entregar-se todo \u00e0 companhia de Clara. Mas, de repente, pareceu-lhe que a alegria da mo\u00e7a era um insulto ao seu despeito, imaginou que ela zombara dele.<\/p>\n<p>Disse-lho.<\/p>\n<p>Clara ouviu a censura com altivez e sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Depois sorrindo desdenhosamente:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s um extravagante&#8230;<\/p>\n<p>Vicente arrependeu-se; quis pedir perd\u00e3o \u00e0 mo\u00e7a da suspeita, mas isso seria complicar o rid\u00edculo da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Preferiu calar-se.<\/p>\n<p>\u2014 Afinal de contas, disse ele, que me importa a mim o casamento? N\u00e3o casei porque n\u00e3o quis&#8230;<\/p>\n<p>E atirou-se a um livro para ler.<\/p>\n<p>N\u00e3o leu; folheou p\u00e1ginas conduzindo os olhos maquinalmente.<\/p>\n<p>Fechou o livro.<\/p>\n<p>Acendeu dois charutos e apagou-os logo.<\/p>\n<p>Pegou em outro livro e acendeu outro charuto, e repetiria a cena se n\u00e3o viesse o almo\u00e7o dar-lhe uma distra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao almo\u00e7o mostrou-se alegre.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes que estou com grande apetite? disse ele a Clara.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade!<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Feliz, continuou Vicente, porque depois de tantos trabalhos estou ao p\u00e9 de ti, e s\u00f3 a ti perten\u00e7o.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a sorriu.<\/p>\n<p>\u2014 Duvidas? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o duvido.<\/p>\n<p>Vicente continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Confesso-te que durante algum tempo estive quase obedecendo ao tio, tais eram as insist\u00eancias dele para que eu me casasse com a deslambida da prima. Felizmente ela namorou-se do outro; estou livre.<\/p>\n<p>\u2014 Olha que rompes o guardanapo&#8230;<\/p>\n<p>Vicente com efeito dera grande pux\u00e3o no guardanapo&#8230;<\/p>\n<p>A tranq\u00fcilidade de Clara contrastava com a agita\u00e7\u00e3o de Vicente, e era essa tranq\u00fcilidade um pouco c\u00f4mica, que o despeitava ainda mais.<\/p>\n<p>O dia passou-se do mesmo modo.<\/p>\n<p>Depois de jantar Vicente disp\u00f4s-se a dormir.<\/p>\n<p>\u2014 Dormir! exclamou Clara. H\u00e1 de fazer-te mal.<\/p>\n<p>\u2014 Qual!<\/p>\n<p>\u2014 Olha, vai dar um passeio; \u00e9 melhor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Queres ver-me pelas costas?<\/p>\n<p>\u2014 Se cuidas que \u00e9 isso, fica.<\/p>\n<p>\u2014 Estou brincando.<\/p>\n<p>Vicente estava morto por sair.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 rua fez mil projetos. O primeiro foi ir \u00e0 casa do tio; mas arrependeu-se logo, antevendo o rid\u00edculo da cena.<\/p>\n<p>Achou melhor ir a Botafogo.<\/p>\n<p>J\u00e1 ia entrar num t\u00edlburi, quando o projeto lhe pareceu insuficiente.<\/p>\n<p>\u2014 Nada; \u00e9 melhor ir \u00e0 igreja; assistirei ao casamento, e amea\u00e7arei o Correia; porque aquele patife h\u00e1 de pagar-me!<\/p>\n<p>Encaminhou-se para a freguesia de Santo Ant\u00f4nio, mas parou no caminho.<\/p>\n<p>\u2014 Que irei l\u00e1 fazer?<\/p>\n<p>Nestas alternativas escoou-se a hora.<\/p>\n<p>\u00c0 noite encaminhou-se para a Rua dos Inv\u00e1lidos, onde morava e logo de longe viu a casa iluminada.<\/p>\n<p>Vicente teve um movimento de furor; levantou o punho fechado e atirou \u00e0 rua o chap\u00e9u de um sujeito que passava.<\/p>\n<p>\u2014 Maluco!<\/p>\n<p>Vicente, que estava desesperado por descarregar em algu\u00e9m a raiva que tinha dentro de si, voltou-se para o sujeito e perguntou-lhe a quem dirigia aquele ep\u00edteto.<\/p>\n<p>\u2014 Ao senhor! respondeu o indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Vicente agarrou-lhe a gola da casaca, e j\u00e1 fervia o soco quando algumas pessoas intervieram e os separaram.<\/p>\n<p>Apaziguado o conflito e dadas as explica\u00e7\u00f5es, seguiu Vicente pela rua adiante e deu acordo de si em frente da casa de tio.<\/p>\n<p>A casa estava cheia.<\/p>\n<p>De longe viu sentados em um sof\u00e1 Correia e Delfina. A mo\u00e7a estava radiante de beleza.<\/p>\n<p>Vicente mordeu o l\u00e1bio at\u00e9 deitar sangue.<\/p>\n<p>Contemplou aquela cena durante alguns instantes e seguiu adiante absorto em suas medita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Justamente na ocasi\u00e3o em que principiou ele a andar, bateu-lhe em cheio a luz de um lampi\u00e3o, e Correia disse baixinho \u00e0 noiva:<\/p>\n<p>\u2014 O primo passou agora ali.<\/p>\n<p>\u2014 Deveras? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Veio ver-nos.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea um par feliz, disse a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Felic\u00edssimo! exclamou Correia.<\/p>\n<p>A festa do casamento foi espl\u00eandida; durou at\u00e9 alta noite.<\/p>\n<p>Vicente n\u00e3o quis saber mais nada; dirigiu-se para casa.<\/p>\n<p>Ia triste, abatido, envergonhado. O pior mal era n\u00e3o poder atirar a culpa para cima de ningu\u00e9m: o culpado era ele.<\/p>\n<p>Entrou em casa pelas dez horas da noite.<\/p>\n<p>Contra o costume, Clara n\u00e3o o esperava na sala, posto houvesse luz. Vicente vinha morto por cair-lhe aos p\u00e9s e dizer-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Sou teu eternamente, porque tu \u00e9s a \u00fanica mulher que me tiveste amor!<\/p>\n<p>N\u00e3o a encontrando na sala, foi \u00e0 alcova e n\u00e3o a viu. Chamou e ningu\u00e9m lhe apareceu.<\/p>\n<p>Andou a casa toda e n\u00e3o viu ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Voltou \u00e0 sala de visitas e achou um bilhete, assim concebido:<\/p>\n<p>Meu caro, n\u00e3o sirvo para irm\u00e3 de caridade de cora\u00e7\u00f5es aflitos. Viva!<\/p>\n<p>Deixo ao esp\u00edrito do leitor o cuidado de imaginar o furor de Vicente; de um s\u00f3 lance perdera tudo.<\/p>\n<p>Um ano depois as situa\u00e7\u00f5es dos personagens deste romance eram as seguintes:<\/p>\n<p>Correia, a mulher e o sogro estavam na fazenda; todos felizes. O capit\u00e3o por ver a filha casada; a filha por amar o marido; e Correia porque, tendo alcan\u00e7ado a desejada fortuna pagara-a com ser bom marido.<\/p>\n<p>J\u00falia e Castrioto tamb\u00e9m eram felizes; neste casal o marido era governado pela mulher que se tornara uma rainha em casa. O \u00fanico desafogo que o marido tinha era escrever furtivamente alguns romances e colaborar num jornalzinho liter\u00e1rio que se chamava: O Girassol.<\/p>\n<p>Quanto a Vicente, julgando a regra pelas exce\u00e7\u00f5es, e lan\u00e7ando \u00e0 conta de todos as culpas suas, n\u00e3o queria mais amigos nem amores. Escrevia numa casa comercial, e vivia como um anacoreta. Ultimamente consta que tenciona casar com uma velha&#8230; de duzentos contos.<\/p>\n<p>Um amigo, que o encontrou, interrogou-o a esse respeito.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, respondeu ele, creio que se efetua o casamento.<\/p>\n<p>\u2014 Mas uma velha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 melhor; \u00e9 a hip\u00f3tese de ser feliz, porque as velhas t\u00eam uma fidelidade incompar\u00e1vel e sem exemplo.<\/p>\n<p>\u2014 Qual?<\/p>\n<p>\u2014 A fidelidade da ru\u00edna.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis I Uma tarde do m\u00eas de mar\u00e7o de 1860, entrava no Hotel Ravot um velho mineiro, que, nesse mesmo dia, chegara de Mar de Espanha. Trazia um camarada consigo e alojou-se num dos aposentos do hotel, tendo o cuidado de restaurar as for\u00e7as com um excelente jantar. 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