{"id":116732,"date":"2017-03-30T18:58:28","date_gmt":"2017-03-30T20:58:28","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116732"},"modified":"2017-03-30T18:58:28","modified_gmt":"2017-03-30T20:58:28","slug":"nao-e-mel-para-a-boca-do-asno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/nao-e-mel-para-a-boca-do-asno","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 Mel para a Boca do Asno"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1868<\/b><\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Era um dia de prociss\u00e3o de Corpus Christi, que a igreja do Sacramento preparara com certo luxo.<\/p>\n<p>A Rua do Sacramento, a do Hosp\u00edcio, o Largo do Rocio estavam mais ou menos cheios de povo que aguardava o pr\u00e9stito religioso.<\/p>\n<p>Na janela de uma casa do Rocio, atulhada de gente como todas as janelas daquela rua, havia tr\u00eas mo\u00e7as, duas das quais pareciam irm\u00e3s, n\u00e3o s\u00f3 pela semelhan\u00e7a das fei\u00e7\u00f5es, mas ainda pela identidade dos vestidos.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 que uma era morena, e possu\u00eda bel\u00edssimos cabelos negros, ao passo que a outra tinha a tez clara e os cabelos castanhos.<\/p>\n<p>Essa era a diferen\u00e7a que se podia enxergar c\u00e1 debaixo, porque se as examin\u00e1ssemos de perto ver\u00edamos no rosto de cada uma delas os tra\u00e7os distintivos que separavam aquelas duas almas.<\/p>\n<p>Para sabermos os seus nomes n\u00e3o \u00e9 preciso subir \u00e0 casa; basta aproximarmo-nos de dois rapazes que da esquina da Rua do Conde olham para a casa, que ficava do lado da Rua do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00eas? diz um deles ao outro levantando um pouco a bengala na dire\u00e7\u00e3o da casa.<\/p>\n<p>\u2014 Vejo; s\u00e3o as Azevedos. Quem \u00e9 a outra?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma prima delas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 feia.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 uma cabe\u00e7a de vento. Queres ir l\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; vou passear.<\/p>\n<p>\u2014 Passear, Meneses! N\u00e3o sou t\u00e3o tolo que o acredite.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Porque eu sei onde vais.<\/p>\n<p>Meneses sorriu, e olhou para o interlocutor perguntando:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma novidade que eu tinha vontade de saber.<\/p>\n<p>\u2014 Vais para casa da tua V\u00eanus.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o conhe\u00e7o!<\/p>\n<p>\u2014 Nem eu; mas \u00e9 natural&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u00e9 natural! Adeus, Marques.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus, Meneses.<\/p>\n<p>E os dois rapazes separaram-se; Marques dirigiu-se para a casa onde estavam as tr\u00eas mo\u00e7as, e Meneses seguiu caminho pelo lado da Petal\u00f3gica.<\/p>\n<p>Se Marques olhasse para tr\u00e1s, veria que Meneses, apenas chegou \u00e0 esquina da Rua dos Ciganos, parou de novo e lan\u00e7ou um \u00faltimo olhar para a janela em quest\u00e3o; no fim de alguns segundos seguiu viagem.<\/p>\n<p>Marques subiu pela escada acima. As raparigas, que o tinham visto entrar, foram receb\u00ea-lo alegremente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o era o dr. Meneses quem estava com o senhor? perguntou uma das Azevedos.<\/p>\n<p>\u2014 Era, respondeu Marques; convidei-o a subir mas ele n\u00e3o quis&#8230; Talvez fizesse mal, continuou Marques, a casa n\u00e3o \u00e9 minha, n\u00e3o acha, D. Margarida?<\/p>\n<p>D. Margarida era uma senhora que estava assentada na sala; era a dona da casa, tia das Azevedos, e m\u00e3e da terceira mo\u00e7a que, com estas, estava \u00e0 janela.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, ande l\u00e1, disse D. Margarida, fa\u00e7a agora cerim\u00f4nias comigo. Bem sabe que esta casa \u00e9 sua e dos seus amigos. A prociss\u00e3o j\u00e1 saiu?<\/p>\n<p>\u2014 Para lhe falar a verdade, n\u00e3o sei; eu venho do lado do Campo.<\/p>\n<p>\u2014 Passou l\u00e1 por casa? perguntou uma das Azevedos, a morena.<\/p>\n<p>\u2014 Passei, D. Luizinha; estava fechada.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 natural; papai anda passeando e n\u00f3s estamos aqui.<\/p>\n<p>Marques sentou-se; Luizinha foi para o piano, com a prima, e come\u00e7ou a tocar n\u00e3o sei que varia\u00e7\u00f5es sobre motivos da Marta.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 irm\u00e3 de Luizinha, essa foi encostar-se \u00e0 janela, em posi\u00e7\u00e3o tal que os seus dois belos olhos castanhos observavam quanto se passava na sala; o corpo estava meio voltado para a rua, mas a cabe\u00e7a estava voltada para dentro.<\/p>\n<p>Quando digo que ela observava quanto se passava na sala, uso de uma express\u00e3o mal cabida, porque os olhos da mo\u00e7a fitavam-se nos de Marques que achava meio de atender a D. Margarida e \u00e0s olhadelas da jovem Hort\u00eansia.<\/p>\n<p>Era nem mais nem menos um namoro.<\/p>\n<p>Hort\u00eansia merecia bem que um rapaz se apaixonasse por ela. N\u00e3o era alta, mas era esbelta, e sobretudo vestia com eleg\u00e2ncia suprema. Tinha duas coisas admir\u00e1veis: os olhos que eram rasgados e profundos, e as m\u00e3os que pareciam ter sido cortadas a alguma obra-prima da estatu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Comparando com ela, e atendendo-se apenas ao exterior, Marques era uma bela escolha para o cora\u00e7\u00e3o de Hort\u00eansia. Era bonito, mas a sua beleza n\u00e3o era nem efeminada, nem m\u00e1scula; apenas um meio-termo; tinha coisas de uma e coisas de outra: uma fronte de deus Marte e um olhar de Ganimedes.<\/p>\n<p>Era um amor j\u00e1 esbo\u00e7ado que havia entre aquelas duas criaturas. Marques, se compreendesse Hort\u00eansia como aquele olhar estava pedindo, seria um homem feliz. Compreendia?<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Imaginamos que a leitora j\u00e1 est\u00e1 curiosa por saber o que queriam dizer os repetidos olhares de Meneses atravessando a pra\u00e7a da Constitui\u00e7\u00e3o, olhares que n\u00e3o est\u00e3o de acordo com a recusa de n\u00e3o ir ver as mo\u00e7as.<\/p>\n<p>Para satisfazer a curiosidade da leitora, convidamo-la a entrar conosco em casa de Pascoal Azevedo, pai de Lu\u00edsa e Hort\u00eansia, dois dias depois da cena que narramos no cap\u00edtulo anterior.<\/p>\n<p>Pascoal Azevedo era chefe de se\u00e7\u00e3o em uma secretaria de Estado, e com esse ordenado e mais os juros de algumas ap\u00f3lices sustentava a fam\u00edlia, que se compunha de uma irm\u00e3 velha e das duas filhas.<\/p>\n<p>Era um homem folgaz\u00e3o, amigo da conviv\u00eancia, mas modesto no trato e na linguagem. N\u00e3o dava banquetes nem bailes; mas gostava que a sala e a sua mesa, despretensiosas ambas, estivessem sempre tomadas de alguns amigos.<\/p>\n<p>Entre as pessoas que l\u00e1 iam notavam-se Meneses e Marques.<\/p>\n<p>Marques, logo no fim de dois meses, conseguiu fazer-se objeto de um amor grande e sincero. Hort\u00eansia queria doidamente ao rapaz. Pede a fidelidade hist\u00f3rica que se mencione uma circunst\u00e2ncia, e vem a ser que Marques j\u00e1 era amado antes que amasse.<\/p>\n<p>Uma noite reparou ele que era objeto da prefer\u00eancia de Hort\u00eansia, e desta circunst\u00e2ncia, que lhe lisonjeou o amor-pr\u00f3prio, come\u00e7ou-lhe o amor.<\/p>\n<p>Marques era, ent\u00e3o, e continuou a ser, amigo de Meneses, com quem n\u00e3o tinha segredos, um pouco por confian\u00e7a, um pouco por estouvamento.<\/p>\n<p>Uma noite, pois, ao sa\u00edrem de casa de Azevedo, Marques disparou estas palavras \u00e0 cara de Meneses:<\/p>\n<p>\u2014 Sabes de uma coisa?<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Estou apaixonado pela Hort\u00eansia.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 E ela?<\/p>\n<p>\u2014 Igualmente; morre por mim. Sabes que eu conhe\u00e7o as mulheres, e n\u00e3o me engano. Que dizes?<\/p>\n<p>\u2014 Que hei de dizer? Digo que fazes bem.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho at\u00e9 id\u00e9ias s\u00e9rias; quero casar-me.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o! Eu sou homem de resolu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas; nada de esfriar. Somente, n\u00e3o quero dar um passo destes sem que um amigo, como tu, o aprove.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! eu, disse Meneses.<\/p>\n<p>\u2014 Aprovas, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 De certo.<\/p>\n<p>Nisto ficou a conversa entre os dois amigos.<\/p>\n<p>Marques foi para casa na firme inten\u00e7\u00e3o de envergar a casaca no outro dia, e ir pedir a mo\u00e7a em casamento.<\/p>\n<p>Mas como no intervalo meteu-se o sono, Marques acordou com a id\u00e9ia de adiar o pedido at\u00e9 alguns dias depois.<\/p>\n<p>\u2014 Por que motivo precipitarei um ato destes? Reflitamos.<\/p>\n<p>E entre esse dia e o dia em que o vimos entrar na casa do Rocio, havia o espa\u00e7o de um m\u00eas.<\/p>\n<p>Dois dias depois, amiga leitora, encontramos os dois amigos em casa de Azevedo.<\/p>\n<p>Meneses \u00e9 de um natural taciturno. Enquanto todos conversam animadamente, ele apenas solta de quando em quando um monoss\u00edlabo, ou responde com um sorriso a qualquer dito chistoso. A prima das Azevedos chamava-o tolo; Luizinha apenas lhe supunha desmedido orgulho; Hort\u00eansia, mais inteligente que as duas e menos estouvada, dizia que ele era um esp\u00edrito severo.<\/p>\n<p>Esquecia-nos dizer que Meneses tivera algum tempo o sestro de escrever versos para os jornais, o que lhe arredou a estima de alguns homens s\u00e9rios.<\/p>\n<p>Na noite em quest\u00e3o, acontecia uma vez achar-se Meneses com Hort\u00eansia \u00e0 janela, enquanto Marques conversava, com o velho Azevedo, sobre n\u00e3o sei que assunto do dia.<\/p>\n<p>Meneses j\u00e1 estava \u00e0 janela, com as costas para a rua, quando Hort\u00eansia chegou-se a ele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem medo do sereno? disse-lhe ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho, disse Meneses.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe; sempre o conheci taciturno; mas agora reparo que \u00e9 mais do que costumava a ser. Algum motivo h\u00e1. H\u00e1 quem suponha que a mana Luizinha&#8230;<\/p>\n<p>Este simples gracejo de Hort\u00eansia, feito sem a menor inten\u00e7\u00e3o oculta, fez com que Meneses franzisse levemente as sobrancelhas. Houve entre os dois um momento de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1? perguntou Hort\u00eansia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9, respondeu Meneses. Mas quem \u00e9 que sup\u00f5e isso?<\/p>\n<p>\u2014 Quem? Imagine que sou eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que sup\u00f4s?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por nada&#8230; supus. Bem sabe que entre mo\u00e7as, quando um rapaz est\u00e1 calado e triste, \u00e9 que est\u00e1 apaixonado.<\/p>\n<p>\u2014 Sou exce\u00e7\u00e3o da regra, e n\u00e3o sou eu s\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Porque eu conhe\u00e7o outros que est\u00e3o apaixonados e andam alegres.<\/p>\n<p>Desta vez foi Hort\u00eansia quem franziu as sobrancelhas.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que para isto de amores, D. Hort\u00eansia, continuou Meneses, n\u00e3o h\u00e1 regra estabelecida. Depende dos temperamentos, do grau de paix\u00e3o, e mais que tudo da aceita\u00e7\u00e3o ou da recusa de um amor.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, confessa qu\u00ea?&#8230; disse Hort\u00eansia vivamente.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o confesso nada, respondeu Meneses.<\/p>\n<p>Serviu-se neste momento o ch\u00e1.<\/p>\n<p>Quando Hort\u00eansia, saindo da janela, atravessava a sala olhou maquinalmente para um espelho que ficava em frente a Meneses, e viu o longo, o profundo, o doloroso olhar que este prendera nela, vendo-a afastar-se.<\/p>\n<p>Insensivelmente olhou para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Meneses mal teve tempo de voltar para o lado da rua.<\/p>\n<p>Mas a verdade estava descoberta.<\/p>\n<p>Hort\u00eansia tinha convic\u00e7\u00e3o de duas coisas:<\/p>\n<p>Primeiramente, que Meneses amava.<\/p>\n<p>Depois, que o objeto do amor do rapaz era ela.<\/p>\n<p>Hort\u00eansia tinha um cora\u00e7\u00e3o excelente. Apenas conheceu que era amada por Meneses, arrependeu-se das palavras que dissera, aparentemente palavras de remoque.<\/p>\n<p>Quis reparar o mal redobrando de aten\u00e7\u00f5es com o mo\u00e7o; mas de que valiam elas, quando Meneses surpreendia de quando em quando os belos olhos de Hort\u00eansia pousarem um amoroso olhar em Marques, que andava e falava radiante e ruidoso, como um homem que n\u00e3o tem uma s\u00f3 coisa que exprobrar \u00e0 fortuna?<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Uma noite Marques anunciou em casa de Azevedo que Meneses estava doente, e por isso n\u00e3o ia l\u00e1.<\/p>\n<p>O velho Azevedo e Hort\u00eansia sentiram a doen\u00e7a do mo\u00e7o. Luizinha recebeu a not\u00edcia com indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Indagaram da doen\u00e7a; mas o pr\u00f3prio Marques n\u00e3o sabia o que era.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a era uma febre que cedeu no fim de quinze dias \u00e0 a\u00e7\u00e3o da medicina. No fim de vinte dias Meneses apresentou-se em casa de Azevedo, ainda p\u00e1lido e magro.<\/p>\n<p>Hort\u00eansia doeu-se de o ver assim. Compreendeu que aquele amor n\u00e3o correspondido entrava por muito na doen\u00e7a de Meneses. Sem que lhe coubesse culpa por isso, Hort\u00eansia teve remorsos de lho ter inspirado.<\/p>\n<p>Era o mesmo que se a flor tivesse culpa do perfume que exala, ou a estrela do fulgor que despede de si.<\/p>\n<p>Nessa mesma noite Marques disse a Hort\u00eansia que ia pedi-la em casamento no dia seguinte.<\/p>\n<p>\u2014 Autoriza-me? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Com uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Qual?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que o far\u00e1 secretamente, e que nada divulgar\u00e1 at\u00e9 o dia do casamento, que deve ser daqui a alguns meses.<\/p>\n<p>\u2014 Por que esta condi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 me nega o direito de fazer uma condi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Marques calou-se, sem compreender.<\/p>\n<p>Era f\u00e1cil, entretanto, entrar no pensamento \u00edntimo de Hort\u00eansia.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a n\u00e3o queria com a publicidade imediata do casamento amargurar fatalmente a exist\u00eancia de Meneses.<\/p>\n<p>Contava ela que, pouco depois do pedido e do ajuste, alcan\u00e7aria licen\u00e7a do pai para ir passar fora dois ou tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 quanto basta, pensava ela, para que o outro me esque\u00e7a e n\u00e3o sofra.<\/p>\n<p>Esta delicadeza de sentimento, que revelava em Hort\u00eansia uma rara eleva\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito e uma alma perfeita, se Marques pudesse compreend\u00ea-la e adivinh\u00e1-la, talvez condenasse a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Entretanto, Hort\u00eansia obrava de boa-f\u00e9. Queria ser feliz, mas teria remorsos se, para s\u00ea-lo, houvesse de fazer padecer algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Marques, conforme a promessa, foi no dia seguinte \u00e0 casa de Azevedo, e na forma tradicional pediu a m\u00e3o de Hort\u00eansia.<\/p>\n<p>O pai da mo\u00e7a n\u00e3o tinha obje\u00e7\u00e3o alguma; e apenas, pro forma, imp\u00f4s a condi\u00e7\u00e3o da aquiesc\u00eancia da filha, que n\u00e3o tardou em d\u00e1-la.<\/p>\n<p>Resolveu-se que o casamento seria dali a seis meses; e logo da\u00ed a dois dias Hort\u00eansia pediu ao pai para ir visitar o tio, que residia em Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Azevedo consentiu.<\/p>\n<p>Marques, apenas recebeu a resposta afirmativa de Azevedo em rela\u00e7\u00e3o ao casamento, repetiu a declara\u00e7\u00e3o de que at\u00e9 o dia aprazado o casamento seria um inviol\u00e1vel segredo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, pensou ele consigo, para Meneses eu n\u00e3o tenho segredos, e este devo dizer-lho, sob pena de mostrar-me mau amigo.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o estava ansioso por comunicar a algu\u00e9m a sua felicidade. Foi dali para a casa em que Meneses advogava.<\/p>\n<p>\u2014 Grande not\u00edcia, disse ele ao entrar.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Vou casar-me.<\/p>\n<p>\u2014 Com a Hort\u00eansia?<\/p>\n<p>\u2014 Com a Hort\u00eansia.<\/p>\n<p>Meneses empalideceu, e sentiu que o cora\u00e7\u00e3o batia-lhe com for\u00e7a. Ele esperava por aquilo mesmo; mas ouvir a declara\u00e7\u00e3o do fato, naturalmente pr\u00f3ximo; adquirir a certeza de que a amada de seu cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 era de outro, n\u00e3o s\u00f3 pelo amor, como pelos la\u00e7os de uma pr\u00f3xima e assentada alian\u00e7a, era uma tortura a que ele n\u00e3o podia fugir nem dissimular.<\/p>\n<p>A sua como\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o vis\u00edvel, que Marques perguntou-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Que tens?<\/p>\n<p>\u2014 Nada; restos daquela mol\u00e9stia. Ando muito doente. N\u00e3o \u00e9 nada. Ent\u00e3o, vais casar-te? Dou-te os meus parab\u00e9ns.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, meu amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Quando \u00e9 o casamento?<\/p>\n<p>\u2014 Daqui a seis meses.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e3o tarde!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 vontade dela. Seja como for, \u00e9 coisa assentada. Ora, n\u00e3o sei que sinto com isto; \u00e9 uma impress\u00e3o nova. Custa-me a crer que eu v\u00e1 casar deveras&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei l\u00e1! Tamb\u00e9m, se n\u00e3o fosse ela, n\u00e3o casava. \u00c9 bonita a minha noiva, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9.<\/p>\n<p>\u2014 E ama-me!&#8230; Queres ver a \u00faltima carta dela?<\/p>\n<p>Meneses dispensava bem a leitura da carta; mas como?<\/p>\n<p>Marques tirou a carta do bolso e come\u00e7ou a l\u00ea-la; Meneses fazia esfor\u00e7os para n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o ao que ouvia.<\/p>\n<p>Mas era debalde.<\/p>\n<p>Ouvia tudo; e cada uma daquelas palavras, cada um daqueles protestos era uma punhalada que o pobre mo\u00e7o recebia no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando Marques saiu, Meneses retirou-se para casa, aturdido como se o houvessem deitado ao fundo de um grande abismo, ou como se acabasse de ouvir a sua senten\u00e7a de morte.<\/p>\n<p>Amava perdidamente a uma mulher que o n\u00e3o amava, que amava a outro e que ia casar. O fato \u00e9 comum; os que o tiverem conhecido por experi\u00eancia pr\u00f3pria avaliar\u00e3o a dor do pobre mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Da\u00ed a dias efetuou-se a viagem de Hort\u00eansia, que foi com a irm\u00e3 e a tia para Valen\u00e7a. Marques n\u00e3o dissimulou a contrariedade que sentia com semelhante viagem, cuja raz\u00e3o n\u00e3o compreendia. Mas Hort\u00eansia facilmente o convenceu de que era necess\u00e1ria aquela viagem, e despediu-se dele com l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>A leitora deste romance j\u00e1 ter\u00e1 reparado que Hort\u00eansia exercia sobre Marques uma influ\u00eancia que tinha causa na superioridade do seu esp\u00edrito. Amava-o, como devem amar as rainhas, dominando.<\/p>\n<p>Marques sentiu muito a partida de Hort\u00eansia, e o disse a Meneses.<\/p>\n<p>O noivo amava a noiva; mas cumpre dizer que a intensidade do seu afeto n\u00e3o era a mesma que a noiva sentia por ele.<\/p>\n<p>Marques gostava de Hort\u00eansia: \u00e9 a verdadeira express\u00e3o.<\/p>\n<p>Casava-se porque gostava dela, e porque era uma mulher formosa, req\u00fcestada por muitos, elegante, e finalmente porque a id\u00e9ia do casamento fazia-lhe o efeito de um mist\u00e9rio novo para ele, que j\u00e1 andava ao corrente de todos os mist\u00e9rios mais ou menos novos.<\/p>\n<p>Agora por que brinco do destino uma mulher superior apaixonou-se por um rapaz t\u00e3o fr\u00edvolo?<\/p>\n<p>A pergunta \u00e9 ing\u00eanua e ociosa.<\/p>\n<p>Nada mais comum do que estas alian\u00e7as entre dois cora\u00e7\u00f5es ant\u00edpodas; nada mais raro do que uma uni\u00e3o perfeitamente acertada.<\/p>\n<p>Separando-se de Marques, a filha de Azevedo n\u00e3o se esquecia dele um s\u00f3 instante. Apenas chegou a Valen\u00e7a, escreveu-lhe uma carta, repassada de saudades, cheia de protestos.<\/p>\n<p>Marques respondeu com outra ep\u00edstola igualmente ardente, e cheia de protestos an\u00e1logos.<\/p>\n<p>Ambos almejavam pelo dia feliz do casamento.<\/p>\n<p>Ficou entendido que a correspond\u00eancia seria regular e freq\u00fcente.<\/p>\n<p>O noivo de Hort\u00eansia n\u00e3o deixava de comunicar ao amigo todas as cartas da noiva, e bem assim as respostas que lhe mandava, e que eram sujeitas \u00e0 corre\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Meneses.<\/p>\n<p>O pobre advogado estava em uma posi\u00e7\u00e3o dolorosa; mas n\u00e3o podia escapar-lhe sem abrir o seu cora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Era o que ele n\u00e3o queria; tinha a altivez do infort\u00fanio.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Um dia Meneses levantou-se da cama com a resolu\u00e7\u00e3o firme de esquecer Hort\u00eansia.<\/p>\n<p>\u2014 Por que motivo, dizia ele consigo, hei de alimentar um amor at\u00e9 aqui imposs\u00edvel, agora criminoso? N\u00e3o tarda muito que os veja casados, e tudo estar\u00e1 acabado para mim. Preciso viver; tenho necessidade do futuro. H\u00e1 um grande meio; \u00e9 o trabalho e o estudo.<\/p>\n<p>Desse dia em diante Meneses redobrou de esfor\u00e7os; dividiu-se entre o trabalho e o estudo; lia at\u00e9 alta noite, e procurava formar-se completamente na dif\u00edcil ci\u00eancia que abra\u00e7ara.<\/p>\n<p>Procurava conscienciosamente esquecer a noiva do amigo.<\/p>\n<p>Uma noite encontrou Marques no teatro, porque devemos dizer que a fim de n\u00e3o ser confidente dos amores felizes de Hort\u00eansia e Marques, o jovem advogado evitava o mais que podia achar-se com ele.<\/p>\n<p>Marques, apenas o viu, deu-lhe a not\u00edcia de que Hort\u00eansia lhe mandara lembran\u00e7as na \u00faltima carta.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma carta de queixas, meu caro Meneses; tenho pena de a ter deixado em casa. Como eu me demorei em mandar-lhe a \u00faltima carta minha, Hort\u00eansia diz-me que eu a esque\u00e7o. V\u00ea l\u00e1! Mas eu j\u00e1 mandei dizer-lhe que n\u00e3o; que a amo como sempre. Coisas de namorados que n\u00e3o te interessam a ti. Que tens feito?<\/p>\n<p>\u2014 Trabalho agora muito, disse Meneses.<\/p>\n<p>\u2014 Metido nos autos! que ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; gosto daquilo.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! gostas&#8230; h\u00e1 quem goste do amarelo.<\/p>\n<p>\u2014 Os autos s\u00e3o ma\u00e7antes, mas a ci\u00eancia \u00e9 bela.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um aforismo que eu dispenso. Melhor processo \u00e9 aquilo.<\/p>\n<p>E Marques apontou para um camarote de segunda ordem.<\/p>\n<p>Meneses olhou e viu uma mulher vestida de preto, sozinha, olhando para o lado em que os dois rapazes se achavam.<\/p>\n<p>\u2014 Que achas? disse Marques.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bonita. Quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma mulher&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Respeito o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me interrompas: \u00e9 uma mulher ador\u00e1vel e incompar\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Se Hort\u00eansia te ouvisse, disse Meneses sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! ela \u00e9 mulher \u00e0 parte, \u00e9 a minha esposa&#8230; est\u00e1 fora de quest\u00e3o. Demais, isto s\u00e3o pecadilhos de pequena monta. Hort\u00eansia h\u00e1 de acostumar-se a eles.<\/p>\n<p>Meneses n\u00e3o respondeu; mas disse consigo: Pobre Hort\u00eansia!<\/p>\n<p>Marques prop\u00f4s a Meneses apresent\u00e1-lo \u00e0 dama em quest\u00e3o. Meneses recusou.<\/p>\n<p>Acabado o espet\u00e1culo sa\u00edram os dois. \u00c0 porta, Meneses despediu-se de Marques, mas este, depois de indagar por que lado ia ele, disse que o acompanhava. Adiante, num lugar pouco freq\u00fcentado, estava um carro parado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o meu carro; vou deixar-te em casa, disse Marques.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu ainda vou tomar ch\u00e1 a\u00ed em qualquer hotel.<\/p>\n<p>\u2014 Toma ch\u00e1 comigo.<\/p>\n<p>E arrastou Meneses para o carro.<\/p>\n<p>No fundo do carro estava a mulher do teatro.<\/p>\n<p>Meneses j\u00e1 n\u00e3o podia recusar e entrou.<\/p>\n<p>O carro seguiu para a casa da mulher, que Marques disse chamar-se Sofia.<\/p>\n<p>Duas horas depois, Meneses seguia para casa, a p\u00e9, e meditando profundamente no futuro que ia ter a noiva de Marques.<\/p>\n<p>Este n\u00e3o ocultara a Sofia o projeto do casamento, porque a rapariga, estando \u00e0 mesa do ch\u00e1, disse a Meneses:<\/p>\n<p>\u2014 Que me diz, doutor, ao casamento deste senhorzinho?<\/p>\n<p>\u2014 Digo que \u00e9 um belo casamento.<\/p>\n<p>\u2014 Que tolice! casar-se nesta idade!<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois desta cena estava Meneses no escrit\u00f3rio, quando entrou o velho Azevedo com as fei\u00e7\u00f5es um pouco alteradas.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem? disse-lhe o advogado.<\/p>\n<p>\u2014 Onde est\u00e1 o Marques?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o vejo h\u00e1 oito dias.<\/p>\n<p>\u2014 Nem o ver\u00e1 mais, disse Azevedo fulo de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Veja isto.<\/p>\n<p>E mostrou-lhe o Jornal do Commercio desse dia, onde vinha, entre os passageiros para o Rio da Prata, o nome do noivo de Hort\u00eansia.<\/p>\n<p>\u2014 Partiu para o Rio da Prata&#8230; N\u00e3o leu isto?<\/p>\n<p>\u2014 Leio agora, porque n\u00e3o tenho tempo de ler tudo. Que iria l\u00e1 fazer?<\/p>\n<p>\u2014 Foi acompanhar esta passageira.<\/p>\n<p>E Azevedo apontou para o nome de Sofia.<\/p>\n<p>\u2014 Seria isso? balbuciou Meneses, procurando desculpar o amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Foi. Eu sabia h\u00e1 dias que havia alguma coisa; recebi duas cartas an\u00f4nimas que me diziam estar o meu futuro genro de amores com aquela mulher. Entristeceu-me o fato. A coisa era t\u00e3o verdadeira que ele escasseou as suas visitas \u00e0 minha casa, e a pobre Hort\u00eansia, em duas cartas que me escreveu ultimamente, dizia ter pressentimento de que n\u00e3o seria feliz. Coitadinha! se ela soubesse! h\u00e1 de sab\u00ea-lo; \u00e9 imposs\u00edvel que n\u00e3o saiba! e ela ama-o.<\/p>\n<p>O advogado procurou acalmar o pai de Hort\u00eansia, censurou o procedimento de Marques, e incumbiu-se de escrever-lhe para ver se o trazia de novo ao caminho do dever.<\/p>\n<p>Mas Azevedo recusou; disse-lhe que era j\u00e1 imposs\u00edvel; e que, se nas v\u00e9speras do enlace Marques procedia assim, o que n\u00e3o faria quando fosse casado?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 melhor que Hort\u00eansia sofra de uma vez do que a vida inteira, disse ele.<\/p>\n<p>Azevedo, nesse mesmo dia, escreveu \u00e0 filha que viesse para a corte.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi dif\u00edcil convencer a Hort\u00eansia. Ela pr\u00f3pria, assustada com o escassear da correspond\u00eancia de Marques, estava decidida a isso.<\/p>\n<p>Da\u00ed a cinco dias estavam todas em casa.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Azevedo procurou contar a Hort\u00eansia o ato do noivo, de modo que a impress\u00e3o n\u00e3o fosse grande.<\/p>\n<p>Mas a precau\u00e7\u00e3o era in\u00fatil.<\/p>\n<p>Quando uma criatura ama, como Hort\u00eansia amava, todos os meios de poupar-lhe as como\u00e7\u00f5es s\u00e3o nulos.<\/p>\n<p>O golpe foi profundo.<\/p>\n<p>Azevedo ficou desesperado; se encontrasse Marques nessa ocasi\u00e3o, matava-o.<\/p>\n<p>Aquela fam\u00edlia, que at\u00e9 ent\u00e3o era feliz, e que estava \u00e0s portas de uma grande felicidade, viu-se repentinamente atirada em profunda agonia, gra\u00e7as ao estouvamento de um homem.<\/p>\n<p>Meneses n\u00e3o foi \u00e0 casa de Azevedo apenas chegou Hort\u00eansia, por dois motivos: o primeiro era deixar a infeliz mo\u00e7a chorar em liberdade a ingratid\u00e3o do noivo; depois, era n\u00e3o reavivar a chama do seu pr\u00f3prio amor com o espet\u00e1culo daquela dor que exprimia para ele o mais eloq\u00fcente dos desenganos. Ver a mulher amada chorar por outro n\u00e3o \u00e9 a maior dor deste mundo?<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>Quinze dias depois da volta de Hort\u00eansia, o jovem advogado encontrou Azevedo, e perguntou-lhe not\u00edcias da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Todos est\u00e3o bons. Hort\u00eansia, compreende, est\u00e1 triste, com a not\u00edcia daquele fato. Pobre menina! mas h\u00e1 de consolar-se. Apare\u00e7a, doutor. Est\u00e1 mal conosco?<\/p>\n<p>\u2014 Mal por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o nos abandone; apare\u00e7a. Vai l\u00e1 hoje?<\/p>\n<p>\u2014 Talvez.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1; l\u00e1 o esperamos.<\/p>\n<p>Meneses n\u00e3o queria ir; mas a retirada absoluta era imposs\u00edvel. Mais tarde ou mais cedo era obrigado \u00e0quela visita; foi.<\/p>\n<p>Hort\u00eansia estava divinamente p\u00e1lida.<\/p>\n<p>Meneses, contemplando aquela figura de mart\u00edrio, sentiu que mais do que nunca a amava. Aquela dor causava-lhe ci\u00fames. Do\u00eda-lhe que aqueles olhos vertessem l\u00e1grimas por outro, e por outro que as n\u00e3o merecia.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 ali, pensava ele consigo, h\u00e1 ali um grande cora\u00e7\u00e3o, que torna um homem feliz s\u00f3 em palpitar por ele.<\/p>\n<p>Meneses retirou-se \u00e0s onze horas da noite para casa. Sentia que o mesmo fogo de outrora ainda lhe ardia dentro do peito. Estava um pouco coberto, mas n\u00e3o extinto; a presen\u00e7a da mo\u00e7a reavivou a chama.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que posso esperar? dizia Meneses entrando em casa. Ela sofre, \u00e9 que o ama; aqueles amores n\u00e3o se esquecem facilmente. Sejamos fortes.<\/p>\n<p>O protesto era sincero; mas a execu\u00e7\u00e3o era dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Meneses continuou a freq\u00fcentar a casa de Azevedo.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, Hort\u00eansia adquiria as antigas cores, e posto que n\u00e3o tivesse a mesma alegria de outro tempo, o olhar apresentava uma serenidade de bom agouro.<\/p>\n<p>O pai tornava-se contente de ver aquela transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, Meneses escrevera a Marques uma carta de exprobra\u00e7\u00e3o; dizia-lhe que o seu procedimento n\u00e3o era somente cruel, mas at\u00e9 feio, e procurava cham\u00e1-lo \u00e0 corte.<\/p>\n<p>A resposta de Marques foi a seguinte:<\/p>\n<p>Meu Meneses,<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sou her\u00f3i de romance, nem tenho vontade disso.<\/p>\n<p>Sou um homem de resolu\u00e7\u00f5es s\u00fabitas.<\/p>\n<p>Cuidei que n\u00e3o amava a ningu\u00e9m mais sen\u00e3o a essa bela Hort\u00eansia; mas enganei-me; encontrei Sofia, a quem me entreguei em corpo e alma.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o quer dizer que eu n\u00e3o abandone Sofia; estou mesmo a ver que me prendo nos la\u00e7os de alguma destas argentinas, que s\u00e3o as andaluzas da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Variar \u00e9 viver. S\u00e3o dois verbos que come\u00e7am por v: profunda li\u00e7\u00e3o que nos d\u00e1 a natureza e a gram\u00e1tica.<\/p>\n<p>Penso, logo existo, dizia creio que o Descartes.<\/p>\n<p>E vario, logo existo, digo eu.<\/p>\n<p>N\u00e3o te importes, portanto, comigo.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que Sofia j\u00e1 me tem comido umas boas centenas de pesos. Que est\u00f4mago, meu caro!<\/p>\n<p>At\u00e9 um dia.<\/p>\n<p>Esta carta era eloq\u00fcente.<\/p>\n<p>Meneses n\u00e3o respondeu; guardou-a simplesmente, e lastimou que a pobre mo\u00e7a tivesse posto em t\u00e3o indignas m\u00e3os o seu cora\u00e7\u00e3o de vinte anos.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil dizer que Meneses fizera em Hort\u00eansia, depois da volta desta \u00e0 casa, a mesma impress\u00e3o que antes.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a compreendeu que era amada por ele, em sil\u00eancio, respeitosa, resignada, desesperan\u00e7adamente&#8230;<\/p>\n<p>Compreendeu mais.<\/p>\n<p>Meneses ia poucas vezes \u00e0 casa de Azevedo; n\u00e3o era como antes, que l\u00e1 ia todas as noites.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a compreendeu a delicadeza de Meneses; viu que era amada, mas que, diante da sua dor, o rapaz procurava esconder o mais que pudesse a sua pessoa.<\/p>\n<p>Hort\u00eansia, que era capaz de delicadeza igual, apreciou aquela no seu justo valor.<\/p>\n<p>Que havia de mais natural que uma aproxima\u00e7\u00e3o de duas almas t\u00e3o nobres, t\u00e3o capazes de sacrif\u00edcios, t\u00e3o feitas para se compreenderem?<\/p>\n<p>Uma noite Hort\u00eansia disse a Meneses que as suas visitas eram raras, que ele n\u00e3o ia l\u00e1 como antes, o que entristecia a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Meneses desculpou-se; disse que os seus trabalhos eram muitos.<\/p>\n<p>Mas as visitas tornaram-se menos raras.<\/p>\n<p>O advogado chegou a conceber a esperan\u00e7a de que ainda podia ser feliz, e procurou abra\u00e7ar o fantasma da sua imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Contudo, pensou ele, \u00e9 cedo demais para que ela o esque\u00e7a.<\/p>\n<p>T\u00ea-lo-\u00e1 esquecido?<\/p>\n<p>Nem de prop\u00f3sito sucedeu que nessa mesma noite em que Meneses fazia esta reflex\u00e3o, uma das pessoas que freq\u00fcentavam a casa de Azevedo soltou imprudentemente o nome de Marques.<\/p>\n<p>Hort\u00eansia empalideceu; Meneses olhou para ela; viu-lhe os olhos \u00famidos.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda o ama, disse ele.<\/p>\n<p>Nessa noite Meneses n\u00e3o dormiu. Vira desfeita, num instante, a esperan\u00e7a que chegara a manter no seu esp\u00edrito. Era in\u00fatil a luta.<\/p>\n<p>N\u00e3o escapou \u00e0 mo\u00e7a a impress\u00e3o que causara em Meneses a sua tristeza ao ouvir falar em Marques; e vendo que ele outra vez rareava as suas visitas, compreendeu que o mo\u00e7o estava disposto a sacrificar-se.<\/p>\n<p>O que ela j\u00e1 sentia por ele era estima e simpatia; nada disso, nem isso tudo forma o amor. Mas Hort\u00eansia tinha um cora\u00e7\u00e3o delicado e uma intelig\u00eancia esclarecida; compreendia Meneses; podia vir a am\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Com efeito, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que os dias se passavam, sentia ela que um novo sentimento a impelia para Meneses. Os olhos come\u00e7aram a falar, as aus\u00eancias j\u00e1 lhe eram dolorosas; estava no caminho do amor.<\/p>\n<p>Uma noite achavam-se os dois na sala, um pouco isolados dos mais, e com os olhos fixos um no outro, esqueciam-se de si.<\/p>\n<p>Caiu o len\u00e7o da mo\u00e7a; ela ia apanh\u00e1-lo, Meneses apressou-se tamb\u00e9m; os dedos de ambos encontraram-se, e como se fossem duas pilhas el\u00e9tricas, aquele contacto f\u00ea-los estremecer.<\/p>\n<p>N\u00e3o disseram nada; mas tinham-se entendido.<\/p>\n<p>Na seguinte noite Meneses declarou a Hort\u00eansia que a amava, e perguntou-lhe se queria ser sua mulher.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a respondeu afirmativamente.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 muito tempo, disse ele, que eu a trago no meu cora\u00e7\u00e3o; tenho-a amado em sil\u00eancio, como entendo que se devem adorar as santas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sei, murmurou ela.<\/p>\n<p>E acrescentou:<\/p>\n<p>\u2014 O que eu lhe pe\u00e7o \u00e9 que me fa\u00e7a feliz.<\/p>\n<p>\u2014 Juro-lhe!<\/p>\n<p>No dia seguinte Meneses pediu a m\u00e3o de Hort\u00eansia, e um m\u00eas depois eram casados, indo gozar a lua-de-mel em Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>Dois meses depois do casamento desembarcava do Rio da Prata o jovem Marques, sem a Sofia, que l\u00e1 ficara depenando os outros Marques de l\u00e1.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>O velho Azevedo agradeceu ao c\u00e9u o ter achado um genro como ele sonhara, um genro que fosse homem de bem, inteligente, esclarecido e amado por Hort\u00eansia.<\/p>\n<p>\u2014 Agora, dizia ele no dia do casamento, s\u00f3 me resta concluir o meu tempo de servi\u00e7o p\u00fablico, pedir a minha aposentadoria, e ir passar com voc\u00eas o resto da minha vida. Digo que s\u00f3 espero isto, porque Luizinha \u00e9 natural que se case breve.<\/p>\n<p>Marques, apenas chegou \u00e0 corte, lembrou-se de ir \u00e0 casa de Azevedo; n\u00e3o o fez por achar-se fatigado.<\/p>\n<p>Tendo rematado o romance da mulher que o levou ao Rio da Prata, o jovem fluminense, em cujo esp\u00edrito sucediam-se os projetos com espantosa facilidade, lembrou-se de que deixara em meio um casamento, e voltou-se logo para essas primeiras id\u00e9ias.<\/p>\n<p>Entretanto, como a antiga casa de Meneses era no centro da cidade, e ficava-lhe, portanto, mais perto, Marques resolveu ir l\u00e1.<\/p>\n<p>Encontrou um moleque que lhe respondeu simplesmente:<\/p>\n<p>\u2014 Nhonh\u00f4 est\u00e1 em Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>\u2014 Fazendo o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, n\u00e3o senhor.<\/p>\n<p>Eram quatro horas da tarde. Marques foi jantar projetando ir \u00e0 noite \u00e0 casa de Azevedo.<\/p>\n<p>No hotel encontrou um amigo que, depois de abra\u00e7\u00e1-lo, despejou um alforje de not\u00edcias.<\/p>\n<p>Entre elas veio a do casamento de Meneses.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! casou-se o Meneses? disse Marques espantado. Com quem?<\/p>\n<p>\u2014 Com uma filha do Azevedo.<\/p>\n<p>\u2014 A Lu\u00edsa?<\/p>\n<p>\u2014 A Hort\u00eansia.<\/p>\n<p>\u2014 A Hort\u00eansia!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade; h\u00e1 dois meses. Est\u00e3o em Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>Marques enfiou.<\/p>\n<p>Realmente ele n\u00e3o amava a filha de Azevedo; e o direito que poderia ter \u00e0 m\u00e3o dela, tinha-o destru\u00eddo com a viagem misteriosa ao Rio da Prata e a carta que dirigira a Meneses; tudo isto era assim; por\u00e9m Marques era essencialmente vaidoso, e aquele casamento feito em sua aus\u00eancia, quando ele pensava vir achar Hort\u00eansia lavada em l\u00e1grimas e semi-vi\u00fava, feriu-lhe profundamente o amor-pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Por felicidade do est\u00f4mago dele s\u00f3 a vaidade estava ofendida, de modo que a natureza animal readquiriu logo a sua supremacia \u00e0 vista de uma sopa de ervilhas e de uma maionese de peixe, fabricadas por m\u00e3o de mestre.<\/p>\n<p>Marques comeu como um homem que vem de bordo, onde n\u00e3o enjoou, e depois de comer tratou de ir fazer algumas visitas mais \u00edntimas.<\/p>\n<p>Deveria, por\u00e9m, ir \u00e0 casa de Azevedo? Como deveria falar ali? Que teria havido em sua aus\u00eancia?<\/p>\n<p>Estas e outras perguntas surgiam do esp\u00edrito de Marques, que n\u00e3o sabia como decidir-se. Entretanto o mo\u00e7o refletiu que n\u00e3o lhe convinha mostrar-se sabedor de nada, a fim de adquirir o direito de censura, e que em todo caso era conveniente ir \u00e0 casa de Azevedo.<\/p>\n<p>Chamou um t\u00edlburi e foi.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed a resposta que teve foi:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor n\u00e3o recebe ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Marques voltou sem saber at\u00e9 que ponto aquela resposta era ou deixava de ser um insulto para ele.<\/p>\n<p>\u2014 Em todo caso, pensou, o melhor \u00e9 n\u00e3o voltar l\u00e1; al\u00e9m de que eu venho de fora, tenho o direito \u00e0 visita.<\/p>\n<p>Mas os dias passaram-se sem que lhe aparecesse ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Marques magoava-se com isso; mas o que sobretudo lhe do\u00eda mais era ver que a mulher se lhe escapara das m\u00e3os, e tanto mais se enraivecia quanto que a coisa era toda por culpa dele.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que papel faz Meneses em tudo isto? dizia ele consigo. Sabendo do meu projetado casamento foi trai\u00e7\u00e3o aceit\u00e1-la por esposa.<\/p>\n<p>De pergunta em pergunta, de considera\u00e7\u00e3o em considera\u00e7\u00e3o, Marques chegou a conceber um plano de vingan\u00e7a contra Meneses, e com satisfa\u00e7\u00e3o igual \u00e0 de um general que tem meditado um ataque en\u00e9rgico e seguro, o jovem dandy esperou tranq\u00fcilamente a volta do casal Meneses.<\/p>\n<p>X<\/p>\n<p>O casal voltou com efeito da\u00ed a alguns dias.<\/p>\n<p>Hort\u00eansia vinha bela como nunca; tinha na fronte o esplendor da esposa; a esposa tinha completado a donzela.<\/p>\n<p>Meneses era um homem feliz. Amava e era amado. Estava no come\u00e7o da vida, e ia fundar uma fam\u00edlia. Sentia-se cheio de for\u00e7a e disposto a ser completamente feliz.<\/p>\n<p>Poucos dias depois de chegarem \u00e0 corte, Marques apareceu repentinamente no escrit\u00f3rio de Meneses.<\/p>\n<p>O primeiro encontro compreende-se que devia ser um tanto estranho. Meneses, que estava na plena consci\u00eancia dos seus atos, recebeu Marques com um sorriso. Este procurou afetar uma alegria desmedida.<\/p>\n<p>\u2014 Cheguei, meu caro Meneses, h\u00e1 quinze dias; e tive \u00edmpetos de ir a Petr\u00f3polis; mas n\u00e3o pude. \u00c9 in\u00fatil dizer que ia a Petr\u00f3polis para dar-te os meus sinceros parab\u00e9ns.<\/p>\n<p>\u2014 Senta-te, disse Meneses.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s casado, disse Marques sentando-se, e casado com a minha noiva. Se eu fosse outro zangar-me-ia; mas, gra\u00e7as a Deus, tenho algum ju\u00edzo. Acho que fizeste muito bem.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que sim, respondeu Meneses.<\/p>\n<p>\u2014 Bem pesadas as coisas eu n\u00e3o amava a minha noiva como convinha que ela fosse amada. N\u00e3o poderia faz\u00ea-la feliz, nem o seria eu pr\u00f3prio. Contigo \u00e9 outra coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o recebes assim alegremente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o! N\u00e3o h\u00e1 entre n\u00f3s uma rivalidade; nenhuma compet\u00eancia nos separou. Foi apenas um epis\u00f3dio na minha vida que eu estimo ver que tivesse este desenlace. Em suma, tu vales mais do que eu; \u00e9s mais digno dela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Fizeste boa viagem? atalhou Meneses.<\/p>\n<p>\u2014 Magn\u00edfica.<\/p>\n<p>E Marques entrou na exposi\u00e7\u00e3o minuciosa da viagem, at\u00e9 que um aben\u00e7oado procurador de causas veio interromp\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Meneses apertou a m\u00e3o do amigo, oferecendo-lhe a casa.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 irei, l\u00e1 irei, mas pe\u00e7o que conven\u00e7as a tua mulher de que n\u00e3o me h\u00e1 de receber acanhadamente. O que passou, passou: eu \u00e9 que n\u00e3o valho nada.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus!<\/p>\n<p>\u2014 Adeus!<\/p>\n<p>XI<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou muito que Marques fosse \u00e0 casa de Meneses, onde Hort\u00eansia lhe preparara uma recep\u00e7\u00e3o fria.<\/p>\n<p>Contudo uma coisa era planear, outra era executar.<\/p>\n<p>Depois de ter amado t\u00e3o ardentemente o rapaz, a mo\u00e7a n\u00e3o podia deixar de sentir um primeiro abalo.<\/p>\n<p>Sentiu, mas dominou-se.<\/p>\n<p>Pela sua parte, o preterido mo\u00e7o, que realmente nada sentia, p\u00f4de representar tranq\u00fcilamente o seu papel.<\/p>\n<p>O que ele queria (por que n\u00e3o diz\u00ea-lo?) era reconquistar no cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a o terreno perdido.<\/p>\n<p>Mas como?<\/p>\n<p>Apenas chegado de fora do pa\u00eds, vendo a sua noiva casada com outro, Marques n\u00e3o recebe impress\u00e3o alguma, e longe de fugir \u00e0quela mulher que lhe lembrava uma felicidade perdida, entra friamente por aquela casa que n\u00e3o \u00e9 dele, e fala tranq\u00fcilamente \u00e0 noiva que j\u00e1 lhe n\u00e3o pertence.<\/p>\n<p>Tais eram as reflex\u00f5es de Hort\u00eansia.<\/p>\n<p>Entretanto, Marques persistia no seu plano, e empregava na execu\u00e7\u00e3o dele uma habilidade que ningu\u00e9m lhe supunha.<\/p>\n<p>Um dia em que se achou s\u00f3 com Hort\u00eansia, ou antes em que l\u00e1 foi \u00e0 casa dela na certeza que Meneses estava fora, Marques dirigiu a conversa para os tempos dos antigos amores.<\/p>\n<p>Hort\u00eansia n\u00e3o o acompanhou nesse terreno; mas ele insistiu, e como ela lhe declarasse que tudo aquilo estava morto, Marques prorrompeu nestas palavras:<\/p>\n<p>\u2014 Morto! para a senhora, \u00e9 poss\u00edvel; mas n\u00e3o para mim; para mim que nunca a esqueci, e se por uma fatalidade, que eu ainda hoje n\u00e3o posso revelar, fui obrigado a partir para fora, nem por isso a esqueci. Cuidei que houvesse feito o mesmo, e desembarquei com a doce esperan\u00e7a de ser seu esposo. Por que motivo n\u00e3o esperou por mim?<\/p>\n<p>Hort\u00eansia n\u00e3o respondeu; n\u00e3o fez o menor gesto, n\u00e3o disse uma palavra.<\/p>\n<p>Levantou-se da\u00ed a alguns segundos, e encaminhou-se altivamente para a porta do interior.<\/p>\n<p>Marques ficou na sala at\u00e9 que apareceu um moleque dizendo-lhe que tinha ordem de faz\u00ea-lo retirar.<\/p>\n<p>A humilha\u00e7\u00e3o era grande. Nunca houve mais triste Sadowa nas guerras de el-rei Cupido.<\/p>\n<p>\u2014 Fui um asno! disse Marques no outro dia quando a cena lhe voltou \u00e0 lembran\u00e7a, eu devia esperar dois anos.<\/p>\n<p>Quanto a Hort\u00eansia, logo depois da sa\u00edda de Marques, entrou no quarto e verteu duas l\u00e1grimas, duas apenas, as \u00faltimas que lhe restavam para chorar aquele amor t\u00e3o grande e t\u00e3o mal posto.<\/p>\n<p>As primeiras l\u00e1grimas foram-lhe arrancadas pela dor; estas duas exprimiam a vergonha.<\/p>\n<p>Hort\u00eansia j\u00e1 se envergonhava de ter amado aquele homem.<\/p>\n<p>De todas as derrotas do amor, esta \u00e9 decerto a pior. O \u00f3dio \u00e9 cruel, mas a vergonha \u00e9 aviltante.<\/p>\n<p>Quando Meneses voltou para casa achou Hort\u00eansia alegre e ansiosa por v\u00ea-lo; sem nada contar-lhe, Hort\u00eansia disse-lhe que tinha necessidade de apert\u00e1-lo ao seio, e que mais uma vez agradecia a Deus a circunst\u00e2ncia que os levou ao casamento.<\/p>\n<p>Estas palavras, e a aus\u00eancia de Marques durante oito dias, fez compreender ao feliz marido que alguma coisa houvera.<\/p>\n<p>Mas nada perguntou.<\/p>\n<p>Naquele casal aliava-se tudo o que \u00e9 nobre: o amor e a confian\u00e7a. \u00c9 este o segredo dos casamentos felizes.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1868 I Era um dia de prociss\u00e3o de Corpus Christi, que a igreja do Sacramento preparara com certo luxo. 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