{"id":116730,"date":"2017-03-30T18:52:54","date_gmt":"2017-03-30T20:52:54","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116730"},"modified":"2017-03-30T18:52:54","modified_gmt":"2017-03-30T20:52:54","slug":"muitos-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/muitos-anos-depois","title":{"rendered":"Muitos Anos Depois"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1874<\/b><\/p>\n<p><b>I<\/b><\/p>\n<p>Tinha vinte e sete anos o padre Fl\u00e1vio, quando come\u00e7ou a carreira de pregador para a qual se sentia arrastado por uma voca\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel. Teve a felicidade de ver come\u00e7ada a sua reputa\u00e7\u00e3o desde as primeiras pr\u00e9dicas, que eram ouvidas com entusiasmo por homens e mulheres. Alguns inimigos que a fortuna lhe dera por confirma\u00e7\u00e3o do seu m\u00e9rito, diziam que a eloq\u00fc\u00eancia do padre era insossa e fria. \u00c9 pena dizer que esses advers\u00e1rios do padre vinham da sacristia, e n\u00e3o da rua.<\/p>\n<p>Bem pode ser que entre os admiradores do padre Fl\u00e1vio alguns fossem mais entusiastas das suas gra\u00e7as que dos seus talentos \u2014 para ser justo, gostavam de ouvir a palavra divina proferida por uma graciosa boca. Efetivamente o padre Fl\u00e1vio era uma soberba figura; a sua cabe\u00e7a tinha uma forma escultural. Se a imagem n\u00e3o ofende os ouvidos cat\u00f3licos, direi que parecia Apolo convertido ao Evangelho. Tinha magn\u00edficos cabelos pretos, olhos da mesma cor, nariz reto, l\u00e1bios finos, a testa lisa e polida. O olhar ainda que sereno, tinha uma express\u00e3o de severidade, mas sem afeta\u00e7\u00e3o. Aliavam-se naquele rosto a gra\u00e7a profana e a austeridade religiosa, como duas coisas irm\u00e3s, dignas igualmente da contempla\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p>O que o padre Fl\u00e1vio era no aspecto, era-o tamb\u00e9m no car\u00e1ter. Pode-se dizer que era crist\u00e3o e pag\u00e3o ao mesmo tempo. A sua biblioteca constava de tr\u00eas grandes estantes. Numa estavam os livros religiosos, os tratados de teologia, as obras de moral crist\u00e3, os anais da Igreja, os escritos dos Jer\u00f4nimos, dos Bossuets e dos Ap\u00f3stolos. A outra continha os produtos do pensamento pag\u00e3o, os poetas e os fil\u00f3sofos das eras mitol\u00f3gicas, as obras de Plat\u00e3o, de Homero, de Ep\u00edteto e Virg\u00edlio. Na terceira estante estavam as obras profanas que n\u00e3o se ligavam essencialmente \u00e0quelas duas classes, e com que ele se deleitava nas horas vagas que lhe deixavam as outras duas. Na classifica\u00e7\u00e3o dos seus livros, o padre Fl\u00e1vio viu-se algumas vezes perplexo; mas resolvera a dificuldade de um modo engenhoso. O poeta Ch\u00e9nier, em vez de ocupar a terceira estante, foi colocado na classe do paganismo, entre Homero e T\u00edbulo. Quanto ao Tel\u00eamaco de F\u00e9nelon, resolveu o padre deix\u00e1-lo sobre a mesa de trabalho; era um arcebispo cat\u00f3lico que falava do filho de Ulisses; exprimia de algum modo a fei\u00e7\u00e3o intelectual do padre Fl\u00e1vio<\/p>\n<p>Seria puerilidade supor que o padre Fl\u00e1vio, consorciando assim os escritos de duas inspira\u00e7\u00f5es opostas, fizesse dos dois cultos um s\u00f3, e abra\u00e7asse do mesmo modo os deuses do templo antigo e as imagens da Igreja crist\u00e3. A religi\u00e3o cat\u00f3lica era a da sua f\u00e9, ardente, profunda, inabal\u00e1vel; o paganismo representava a sua religi\u00e3o liter\u00e1ria. Se encontrava no discurso da montanha consola\u00e7\u00f5es para a consci\u00eancia, tinha nas p\u00e1ginas de Homero deliciosos prazeres ao seu esp\u00edrito. N\u00e3o confundia as odes de Anacreonte com o C\u00e2ntico dos c\u00e2nticos, mas sabia ler cada livro, a seu tempo, e tinha para si (coisa que mesma lhe perdoara o padre Vilela) que entre as duas obras havia alguns pontos de contacto.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>O padre Vilela que entrou por incidente no per\u00edodo acima, tinha uma grande parte na vida do padre Fl\u00e1vio. Se este abra\u00e7ara a vida religiosa foi por conselho e dire\u00e7\u00e3o do padre Vilela, e em boa hora o fez porque, dos seus contempor\u00e2neos, nenhum honrou melhor o h\u00e1bito sagrado.<\/p>\n<p>Educado pelo padre Vilela, Fl\u00e1vio achou-se aos dezoito anos com todos os conhecimentos que podiam prepar\u00e1-lo para as fun\u00e7\u00f5es religiosas. Contudo estava resolvido a seguir outra carreira, e tinha j\u00e1 em vista o curso jur\u00eddico. O padre Vilela esperava que o mo\u00e7o escolhesse livremente a profiss\u00e3o, n\u00e3o querendo comprar mediante uma condescend\u00eancia de rapaz o futuro arrependimento. Uma circunst\u00e2ncia que interessa \u00e0 hist\u00f3ria fez com que Fl\u00e1vio abra\u00e7asse a profiss\u00e3o sacerdotal a que j\u00e1 o dispunham, n\u00e3o somente a instru\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, mas tamb\u00e9m a severidade dos costumes.<\/p>\n<p>Quando num dia de manh\u00e3, \u00e0 mesa do almo\u00e7o, Fl\u00e1vio declarou ao padre que queria servir \u00e0 Igreja, este que era sincero servidor dela, sentiu imenso j\u00fabilo e abra\u00e7ou o mo\u00e7o com efus\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o podia pedir, disse Vilela, melhor profiss\u00e3o para o meu filho.<\/p>\n<p>O nome de filho era o que lhe dava o padre e com raz\u00e3o lhe dava, porque se Fl\u00e1vio n\u00e3o lhe devia o ser, devia-lhe a cria\u00e7\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vilela fora muitos anos antes vig\u00e1rio em uma cidade de Minas Gerais; e a\u00ed conhecera um lindo menino que uma pobre mulher educava como podia.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 seu filho? perguntou-lhe o padre.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, reverend\u00edssimo, n\u00e3o \u00e9 meu filho.<\/p>\n<p>\u2014 Nem afilhado?<\/p>\n<p>\u2014 Nem afilhado.<\/p>\n<p>\u2014 Nem parente?<\/p>\n<p>\u2014 Nem parente.<\/p>\n<p>O padre n\u00e3o perguntou mais nada, suspeitando que a mulher ocultava coisa que n\u00e3o podia dizer. Ou fosse por essa circunst\u00e2ncia, ou porque o menino lhe inspirava simpatia, o fato \u00e9 que o padre n\u00e3o perdeu de vista aquela pobre fam\u00edlia composta de duas pessoas. Naturalmente caridoso, n\u00e3o poucas vezes o padre ajudava a mulher nas necessidades de sua vida. A maledic\u00eancia n\u00e3o deixou de abocanhar a reputa\u00e7\u00e3o do padre com respeito \u00e0 prote\u00e7\u00e3o que dava \u00e0 mulher. Mas ele tinha uma filosofia singular: olhava por cima do ombro os caprichos da opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Como o menino j\u00e1 tivesse oito anos, e n\u00e3o soubesse ler, quis o padre Vilela come\u00e7ar a educa\u00e7\u00e3o dele e a mulher agradecida aceitou os obs\u00e9quios do padre.<\/p>\n<p>A primeira coisa que o mestre admirou no disc\u00edpulo foi a docilidade com que ele ouvia as li\u00e7\u00f5es e afinco e zelo com que as estudava. \u00c9 natural da crian\u00e7a preferir os brincos aos labores do estudo. O menino Fl\u00e1vio fazia do aprender uma regra e do brincar uma exce\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, primeiro decorava as li\u00e7\u00f5es que o mestre lhe dava, e s\u00f3 depois de as ter sabidas \u00e9 que se ia divertir com os outros rapazes seus companheiros.<\/p>\n<p>Com este merecimento, tinha o menino outro ainda maior, era o de uma intelig\u00eancia clara, e imediata compreens\u00e3o, de maneira que ia entrando nos estudos com pasmosa rapidez e inteira satisfa\u00e7\u00e3o do mestre.<\/p>\n<p>Um dia, adoeceu a mulher, e foi caso de verdadeira afli\u00e7\u00e3o para as duas criaturas a quem ela mais estimava, o padre e o pequeno. Agravou-se a mol\u00e9stia a ponto de ser necess\u00e1rio aplicarem-se os sacramentos. Fl\u00e1vio, j\u00e1 ent\u00e3o de doze anos, chorava que fazia d\u00f3. A mulher expirou beijando o menino:<\/p>\n<p>\u2014 Adeus, Fl\u00e1vio, disse ela, n\u00e3o te esque\u00e7as de mim.<\/p>\n<p>\u2014 Minha m\u00e3e! exclamou o pequeno abra\u00e7ando a mulher.<\/p>\n<p>Mas ela j\u00e1 o n\u00e3o podia ouvir.<\/p>\n<p>Vilela p\u00f4s-lhe a m\u00e3o sobre o cora\u00e7\u00e3o, e voltando-se para Fl\u00e1vio disse:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 com Deus.<\/p>\n<p>N\u00e3o tendo ningu\u00e9m mais neste mundo, o menino ficara \u00e0 merc\u00ea do acaso, se n\u00e3o fosse Vilela que imediatamente o levou consigo. Como j\u00e1 havia intimidade entre os dois, n\u00e3o foi dif\u00edcil ao pequeno a mudan\u00e7a; contudo nunca se lhe varria da mem\u00f3ria a id\u00e9ia da mulher que ele, n\u00e3o s\u00f3 chamava m\u00e3e, como at\u00e9 a tinha por isso, visto que n\u00e3o conhecera outra.<\/p>\n<p>A mulher, na v\u00e9spera de morrer, mandou pedir ao padre lhe viesse falar. Quando ele chegou, mandou sair o pequeno e disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Vou morrer, e n\u00e3o sei o que h\u00e1 de ser de Fl\u00e1vio. N\u00e3o ouso pedir-lhe, reverend\u00edssimo, que o tome para si; mas quisera que fizesse alguma coisa por ele, que o recomende a algum col\u00e9gio da caridade.<\/p>\n<p>\u2014 Descanse, respondeu Vilela; eu me incumbo do rapaz.<\/p>\n<p>A mulher olhou agradecida para ele.<\/p>\n<p>Depois fazendo um esfor\u00e7o tirou debaixo do travesseiro uma carta lacrada e entregou-a ao padre.<\/p>\n<p>\u2014 Esta carta, disse ela, foi-me entregue com este menino; \u00e9 escrita por sua m\u00e3e; tive ordem de lhe entregar quando ele completasse vinte e cinco anos. N\u00e3o quis Deus que eu tivesse o gosto de cumprir a recomenda\u00e7\u00e3o. Quer V. Revm\u00aa. incumbir-se dela?<\/p>\n<p>O padre pegou na carta, leu o sobrescrito que dizia assim: A meu filho.<\/p>\n<p>Prometeu entregar a carta no prazo indicado.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio n\u00e3o desmentiu as esperan\u00e7as do padre. Os seus progressos eram espantosos. Teologia, hist\u00f3ria, filosofia, l\u00ednguas, literatura, tudo isso estudou o rapaz com pasmosa atividade e zelo. N\u00e3o tardou que excedesse ao mestre, porquanto este era apenas uma intelig\u00eancia med\u00edocre e Fl\u00e1vio possu\u00eda um talento superior.<\/p>\n<p>Como boa alma que era, o velho mestre tinha orgulho na superioridade do disc\u00edpulo. Conhecia perfeitamente que, de certo tempo em diante, os pap\u00e9is estavam trocados: era ele quem teria de aprender com o outro. Mas a pr\u00f3pria inferioridade fazia a sua gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2014 Os olhos que descobrem um brilhante, dizia o padre consigo, n\u00e3o fulgem mais que ele, mas alegram-se com t\u00ea-lo achado e dado ao mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o vem ao caso referir os sucessos que deslocaram o padre da sua freguesia em Minas para a corte. Veio o padre residir aqui quando Fl\u00e1vio contava j\u00e1 dezessete anos. Tinha alguma coisa de seu e podia viver independente, em companhia de seu filho espiritual, \u00fanica fam\u00edlia sua, mas quanto bastava aos afetos do seu cora\u00e7\u00e3o e aos h\u00e1bitos intelectuais.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio j\u00e1 n\u00e3o era ent\u00e3o o pobre menino de Minas. Era um elegante rapaz, belo de fei\u00e7\u00f5es, delicado e severo de maneiras. A educa\u00e7\u00e3o que tivera em companhia do padre dera-lhe uma gravidade que real\u00e7ava a pureza de suas fei\u00e7\u00f5es e a gra\u00e7a do seu gesto. Mas por cima de tudo isso havia um v\u00e9u de melancolia que tinha duas causas: o pr\u00f3prio car\u00e1ter dele, e a lembran\u00e7a incessante da mulher que o criara.<\/p>\n<p>Vivendo em casa do padre, com a subsist\u00eancia que permitiam as posses deste, instru\u00eddo, admirado, cheio de esperan\u00e7as e de futuro, Fl\u00e1vio recordava sempre a vida de pobreza que tivera em Minas, os sacrif\u00edcios que a boa mulher fizera por ele, as l\u00e1grimas que algumas vezes derramaram juntos quando chegava a faltar-lhes o p\u00e3o. N\u00e3o esquecera nunca o amor que aquela mulher lhe consagrara at\u00e9 a morte, e o zelo extremo com que o tratara. Em v\u00e3o procurara na mem\u00f3ria alguma palavra mais r\u00edspida da parte de sua m\u00e3e: s\u00f3 conservava a lembran\u00e7a de afagos e amores.<\/p>\n<p>Apontando aqui estas duas causas permanentes da sua melancolia, n\u00e3o quero exagerar o car\u00e1ter do rapaz. Pelo contr\u00e1rio, Fl\u00e1vio era um conversador ameno e variado. Sorria freq\u00fcentemente, com ingenuidade, com satisfa\u00e7\u00e3o. Gostava da discuss\u00e3o; a sua palavra era quase sempre animada; tinha entusiasmo na conversa\u00e7\u00e3o. Havia nele uma feliz combina\u00e7\u00e3o de dois sentimentos, por modo que nem a melancolia o tornava enfadonho, nem a alegria insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Profundamente observador, o disc\u00edpulo do padre Vilela aprendeu cedo a ler estes livros que se chamam cora\u00e7\u00f5es antes de os estimar e aplaudir. A sagacidade natural n\u00e3o estava ainda apurada pela experi\u00eancia e pelo tempo. Aos dezoito anos julga-se mais pelo cora\u00e7\u00e3o que pela reflex\u00e3o. Nessa idade acontece sempre pintarmos um car\u00e1ter com as cores dos nossos pr\u00f3prios afetos. Fl\u00e1vio n\u00e3o podia escapar absolutamente a esta lei comum, que uns dizem ser m\u00e1 e outros querem que seja excelente. Mas o mo\u00e7o ia-se pouco a pouco acostumando ao trato dos homens; a vida retirada que vivera desenvolveu-lhe o gosto da solid\u00e3o. Quando come\u00e7ou a travar rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o contava uma s\u00f3 que lhe fosse imposta por nenhuma intimidade passada.<\/p>\n<p>O padre Vilela, que tinha por si a experi\u00eancia da vida, gostava de ver no rapaz esse car\u00e1ter temperado de entusiasmo e reserva, de confian\u00e7a e receio. Parecia ao padre, em cujo esp\u00edrito j\u00e1 rolava a id\u00e9ia de ver o disc\u00edpulo servo da Igreja, que o resultado daquilo seria distanciar-se o rapaz do s\u00e9culo e aproximar-se do sacerd\u00f3cio.<\/p>\n<p>Mas o padre Vilela n\u00e3o contava com esta crise necess\u00e1ria da juventude chamada amor, que o rapaz n\u00e3o conhecia tamb\u00e9m a n\u00e3o ser pelos livros do seu gabinete. Quem sabe? Talvez esses livros lhe fizessem mal. Acostumado a ver o amor, com a lente da fantasia, deleitando-se com as sensa\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas, com as cria\u00e7\u00f5es ideais, com a vida da imagina\u00e7\u00e3o, Fl\u00e1vio n\u00e3o tinha a menor id\u00e9ia da coisa pr\u00e1tica tanto se absorvia na contempla\u00e7\u00e3o da coisa ideal.<\/p>\n<p>Semelhante ao homem que s\u00f3 houvesse vivido no meio de figuras esculpidas em m\u00e1rmore, e que supusesse nos homens o original completo das c\u00f3pias art\u00edsticas, Fl\u00e1vio povoava a sua imagina\u00e7\u00e3o de Of\u00e9lias e Mar\u00edlias, ansiava por encontr\u00e1-las, amava-as antecipadamente, em solit\u00e1rias chamas. Como era natural, o mo\u00e7o exigia mais do que poderia dar a natureza humana.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que se produziu a circunst\u00e2ncia que lhe abriu mais depressa as portas da Igreja.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso dizer de que natureza foi a circunst\u00e2ncia; os leitores j\u00e1 o ter\u00e3o adivinhado.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio fazia poucas visitas e n\u00e3o conhecia gente. Ia de quando em quando a duas ou tr\u00eas casas de fam\u00edlia onde o padre o apresentara e a\u00ed passava algumas horas que no dizer das pessoas da casa eram minutos. A hip\u00e9rbole era sincera; Fl\u00e1vio possu\u00eda o dom de conversar bem, sem demasia nem parcim\u00f4nia, equilibrando-se entre o que era f\u00fatil e o que era pesado.<\/p>\n<p>Uma das casas a que ia era a de uma D. Margarida, vi\u00fava de um advogado que enriquecera no foro e deixara \u00e0 fam\u00edlia boa e larga riqueza. A vi\u00fava tinha duas filhas, uma de dezoito anos, e outra de doze. A de doze era uma crian\u00e7a querendo ser mo\u00e7a, um lindo pref\u00e1cio de mulher. Qual seria o livro? Fl\u00e1vio n\u00e3o fez nem respondeu a esta pergunta.<\/p>\n<p>A que desde logo lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a mais velha, criatura que lhe aparecia com todos os encantos imaginados por ele. Chamava-se Laura; estava no pleno desenvolvimento da mocidade. Era diabolicamente bela; o termo ser\u00e1 impr\u00f3prio, mas exprime perfeitamente a verdade. Era alta, bem formada, mais imponente que delicada, mais soberana que graciosa. Adivinhava-se-lhe um car\u00e1ter imperioso; era dessas mulheres que, emendando a natureza, que as n\u00e3o fez nascer no trono, fazem-se rainhas por si mesmas. Outras possuem a for\u00e7a da fraqueza; Laura n\u00e3o. Seus l\u00e1bios n\u00e3o eram feitos para a s\u00faplica, nem seus olhos para a meiguice. Lhe fosse preciso adquirir uma coroa \u2014 quem sabe? \u2014, Laura seria lady Macbeth.<\/p>\n<p>Semelhante car\u00e1ter sem a beleza, seria quase inofensivo. Laura era formosa, e sabia que o era. Sua beleza era dessas que arrastam logo a primeira vista. Possu\u00eda os mais belos olhos do mundo, grandes e negros, olhos que despendiam luz e nadavam em fogo. Os cabelos, igualmente negros e abundantes, trazia-os penteados com arte especial, por modo que lhe dessem \u00e0 cabe\u00e7a uma esp\u00e9cie de diadema. Coroavam assim uma testa branca, larga, inteligente. A boca, se o desd\u00e9m n\u00e3o existisse, inventava-o certamente. Toda a figura tinha uma express\u00e3o de desdenhosa gravidade.<\/p>\n<p>Lembrara-se Fl\u00e1vio de ficar namorado daquela Sem\u00edramis burguesa. Como o seu cora\u00e7\u00e3o era ainda virgem, caiu logo do primeiro golpe, e n\u00e3o tardou que a serenidade da sua vida se transformasse em tempestade desfeita. Tempestade \u00e9 o verdadeiro nome, porque \u00e0 medida que os dias iam passando, o amor crescia, e crescia o receio de se ver repelido ou talvez menoscabado.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio n\u00e3o tinha \u00e2nimo de se declarar \u00e0 mo\u00e7a, e esta parecia estar longe de lhe adivinhar os sentimentos. N\u00e3o estava longe; adivinhara-o logo. Mas o mais que o seu orgulho concedeu ao m\u00edsero amador foi perdoar-lhe a paix\u00e3o. No rosto nunca se lhe traiu o que sentia. Quando Fl\u00e1vio olhava para ela, embebido e esquecido do resto do universo, Laura sabia t\u00e3o bem disfar\u00e7ar que nunca tra\u00eda a sua sagacidade.<\/p>\n<p>Vilela reparou na tristeza do rapaz; mas como ele n\u00e3o lhe dizia nada, teve a prud\u00eancia de lhe n\u00e3o perguntar por isso. Imaginou que seriam amores; e como desejava v\u00ea-lo no sacerd\u00f3cio, a descoberta n\u00e3o deixou de o aborrecer.<\/p>\n<p>Havia por\u00e9m uma coisa pior do que n\u00e3o ser sacerdote, era ser infeliz, ou ter empregado mal o fogo do seu cora\u00e7\u00e3o. Vilela pensou nisto e mais aborrecido ainda ficou. Fl\u00e1vio andava cada vez mais melanc\u00f3lico e at\u00e9 lhe pareceu que emagrecia, donde o bom padre concluiu logicamente que devia ser paix\u00e3o incur\u00e1vel, atentas as rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas em que est\u00e3o a magreza e o amor, na teoria rom\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Vendo aquilo, e prevendo que o resultado podia ser funesto ao seu amigo, Vilela estabeleceu de si para si um prazo de quinze dias, findo os quais, se Fl\u00e1vio n\u00e3o lhe fizesse confiss\u00e3o volunt\u00e1ria do que sentia, ele lha arrancaria \u00e0 for\u00e7a.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Da\u00ed a oito dias teve ele a ventura inef\u00e1vel de ouvir da pr\u00f3pria boca de Fl\u00e1vio que queria seguir a carreira sacerdotal. O rapaz dizia aquilo com tristeza, mas resoluto. Vilela recebeu a not\u00edcia como eu tive j\u00e1 ocasi\u00e3o e dizer aos leitores, e tudo se preparou para que o ne\u00f3fito fizesse as primeiras provas.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio resolvera adotar a vida eclesi\u00e1stica depois que da pr\u00f3pria Laura teve o desengano. Repare a leitora que eu n\u00e3o digo ouviu, mas teve. Fl\u00e1vio n\u00e3o ouviu nada. Laura n\u00e3o lhe falou quando ele timidamente confessou que a adorava. Seria uma concess\u00e3o. Laura n\u00e3o fazia concess\u00f5es. Olhou para ele, ergueu a ponta do l\u00e1bio e come\u00e7ou a contar as varetas do leque. Fl\u00e1vio insistiu; ela retirou-se com um ar t\u00e3o frio e desdenhoso, mas sem um gesto, sem nada mais que indicasse a menor impress\u00e3o, ainda que fora de ofensa. Era mais que despedi-lo, era esmag\u00e1-lo. Fl\u00e1vio curvou a cabe\u00e7a e saiu.<\/p>\n<p>Agora saltemos a p\u00e9s juntos alguns pares de anos e vamos encontrar o padre Fl\u00e1vio no princ\u00edpio da sua carreira, tendo justamente pregado o seu primeiro serm\u00e3o. Vilela n\u00e3o cabia em si de contente; os cumprimentos que Fl\u00e1vio recebia era como se ele os recebesse; revia-se na sua obra; aplaudia-se no talento do rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Minha opini\u00e3o, reverendo \u2014 dizia-lhe ele um dia ao almo\u00e7o \u2014, \u00e9 que ir\u00e1s longe&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0 China? perguntou sorrindo o outro.<\/p>\n<p>\u2014 Longe \u00e9 para cima; replicou Vilela; quero dizer que h\u00e1s de subir, e que ainda terei o gosto de te ver bispo. N\u00e3o tens ambi\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>\u2014 Uma.<\/p>\n<p>\u2014 Qual?<\/p>\n<p>\u2014 A de viver sossegado.<\/p>\n<p>Esta disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o agradava muito ao reverendo padre Vilela, que, sendo pessoalmente despido de ambi\u00e7\u00f5es, desejava para o seu filho espiritual um elevado lugar na hierarquia da Igreja. N\u00e3o quis por\u00e9m combater o desprendimento do rapaz e limitou-se a dizer que n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m mais apto para ocupar uma sede episcopal.<\/p>\n<p>No meio dos seus enc\u00f4mios foi interrompido por uma visita; era um rapaz quase da mesma idade do padre Fl\u00e1vio e seu antigo companheiro de estudos. Atualmente tinha um emprego p\u00fablico, era alferes porta-bandeira de um batalh\u00e3o da Guarda Nacional. A estas duas qualidades juntava a de ser filho de um negociante de grosso trato, o sr. Jo\u00e3o Ayres de Lima, de cujos sentimentos pol\u00edticos dissentia radicalmente, visto que estivera no ano anterior com os revolucion\u00e1rios de 7 de abril, enquanto que o pai era muito inclinado aos restauradores.<\/p>\n<p>Henrique Ayres n\u00e3o fizera grande figura nos estudos; n\u00e3o fez sequer figura med\u00edocre. Era doutor apenas, mas bom cora\u00e7\u00e3o e rapaz de bons costumes. O pai quisera cas\u00e1-lo com a filha de um negociante seu amigo; mas Henrique tendo dado imprudentemente o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 filha de um escriv\u00e3o de agravos, op\u00f4s-se com todas as for\u00e7as ao casamento. O pai, que era bom homem, n\u00e3o quis obrigar o cora\u00e7\u00e3o do rapaz, e desistiu da empresa. Aconteceu ent\u00e3o que a filha do negociante casou com outro e a filha do escriv\u00e3o come\u00e7ou a dar corda a um segundo pretendente com quem veio a casar pouco tempo depois.<\/p>\n<p>Estas particularidades s\u00e3o necess\u00e1rias para explicar o grau de intimidade entre Henrique e Fl\u00e1vio. Foram eles naturalmente confidentes um do outro, e falaram (outrora) muito e muito dos seus amores e esperan\u00e7as com a circunst\u00e2ncia usual entre namorados que cada um deles era o ouvinte de si mesmo.<\/p>\n<p>Os amores foram-se; a intimidade ficou. Apesar dela, desde que Fl\u00e1vio tomara ordens, e j\u00e1 antes nunca mais Henrique lhe falara de Laura, conquanto suspeitasse que a lembran\u00e7a da mo\u00e7a n\u00e3o se lhe apagara no cora\u00e7\u00e3o. Adivinhara at\u00e9 que a repulsa da mo\u00e7a o atirara ao sacerd\u00f3cio.<\/p>\n<p>Henrique Ayres foi recebido como um \u00edntimo da casa. O padre Vilela gostava dele, principalmente porque era amigo de Fl\u00e1vio. Al\u00e9m disso, Henrique Ayres era um rapaz alegre, e o padre Vilela gostava de rir.<\/p>\n<p>Desta vez, entretanto, n\u00e3o vinha alegre o alferes. Trazia os olhos desvairados e a cara sombria. Era um rapaz bonito, elegantemente vestido \u00e0 maneira do tempo. Contava um ano menos que o padre Fl\u00e1vio. Tinha o corpo muito direito, em parte porque a natureza o fizera assim, em parte porque andava, ainda \u00e0 paisana, como se levasse a bandeira na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Vilela e Fl\u00e1vio perceberam logo que o rec\u00e9m-chegado tinha alguma coisa que o preocupava; nenhum deles, entretanto, o interrogou. Trocaram-se algumas palavras friamente, at\u00e9 que Vilela, percebendo que Henrique Ayres desejaria conversar com o amigo, deixou a mesa e saiu.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Henrique, apenas ficou s\u00f3 com Fl\u00e1vio, atirou-se-lhe aos bra\u00e7os e pediu que o salvasse.<\/p>\n<p>\u2014 Salvar-te! exclamou Fl\u00e1vio. De qu\u00ea?<\/p>\n<p>Henrique sentou-se outra vez sem responder e p\u00f4s a cabe\u00e7a nas m\u00e3os. O padre insistiu com ele para que dissesse o que havia, fosse o que fosse.<\/p>\n<p>\u2014 Cometeste algum&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Crime? sim, cometi um crime, respondeu Henrique; mas, descansa, n\u00e3o foi nenhum roubo nem morte; foi um crime que felizmente se pode reparar..<\/p>\n<p>\u2014 Que foi ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Foi&#8230;<\/p>\n<p>Henrique hesitou. Fl\u00e1vio instou para que confessasse tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu gostava muito de uma mo\u00e7a e ela de mim, disse enfim o alferes; meu pai que sabia do namoro, creio que o n\u00e3o desaprovava. O pai dela, entretanto, opunha-se ao nosso casamento&#8230; Noutro tempo tu j\u00e1 saberias destas coisas; mas agora, n\u00e3o me atrevi nunca a falar-te nisso.<\/p>\n<p>\u2014 Continua.<\/p>\n<p>\u2014 O pai opunha-se; e apesar da posi\u00e7\u00e3o que meu pai ocupa, dizia \u00e0 boca cheia que nunca me admitiria em sua casa. Efetivamente nunca l\u00e1 entrei; fal\u00e1vamos poucas vezes, mas escrev\u00edamos a mi\u00fado. As coisas iriam assim at\u00e9 que o \u00e2nimo do pai se voltasse a nosso favor. Uma circunst\u00e2ncia, por\u00e9m, ocorreu e foi o que me precipitou a um ato de loucura. O pai queria cas\u00e1-la com um deputado que chegou h\u00e1 pouco do Norte. Amea\u00e7ados disso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ela fugiu contigo, concluiu Fl\u00e1vio.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, disse Henrique sem ousar encarar o amigo.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio esteve algum tempo calado. Quando abriu a boca foi para censurar o ato de Henrique, lembrando-lhe o desgosto que iria causar a seus pais, n\u00e3o menos que \u00e0 fam\u00edlia da mo\u00e7a. Henrique ouviu silenciosamente as censuras do padre. Afirmou-lhe que estava disposto a tudo, mas que o seu maior desejo era evitar o esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio pediu todas as informa\u00e7\u00f5es precisas e disp\u00f4s-se a reparar o mal pelo melhor modo que pudesse. Soube que o pai da mo\u00e7a em um juiz da casa da suplica\u00e7\u00e3o. Saiu logo a dar os passos necess\u00e1rios. O intendente da pol\u00edcia tinha j\u00e1 as informa\u00e7\u00f5es do caso e corriam agentes seus em todas as dire\u00e7\u00f5es. Fl\u00e1vio obteve o aux\u00edlio do padre Vilela, e tudo andou t\u00e3o a tempo e com t\u00e3o boa fei\u00e7\u00e3o, que antes das ave-marias as maiores dificuldades ficaram aplanadas. Foi o padre Fl\u00e1vio quem teve o gosto de casar os dois jovens p\u00e1ssaros, depois do que dormiu em plena paz com a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Nunca o padre Fl\u00e1vio tivera ocasi\u00e3o de freq\u00fcentar a casa do sr. Jo\u00e3o Ayres de Lima, ou simplesmente do sr. Jo\u00e3o Lima, que era o nome corrente. Andara entretanto em todo aquele neg\u00f3cio com tanto zelo e amor, mostrara tamanha gravidade e circunspe\u00e7\u00e3o, que o sr. Jo\u00e3o Lima ficou morrendo por ele. Se perdoou ao filho foi unicamente por causa do padre.<\/p>\n<p>\u2014 Henrique \u00e9 um maroto, disse Jo\u00e3o Lima, que devia assentar pra\u00e7a, ou ir ali viver alguns meses no Aljube. Mas n\u00e3o podia escolher melhor advogado, e \u00e9 por isso que eu lhe perdoei a tratantice.<\/p>\n<p>\u2014 Verduras da mocidade, obtemperou o padre Fl\u00e1vio.<\/p>\n<p>\u2014 Verduras, n\u00e3o, reverendo; loucuras \u00e9 o verdadeiro nome. Se o pai da rapariga n\u00e3o queria dar-lhe, a dignidade, n\u00e3o menos que a moralidade, o obrigava a um procedimento diverso do que teve. Enfim, Deus lhe d\u00ea ju\u00edzo!<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de dar, h\u00e1 de dar&#8230;<\/p>\n<p>Conversavam assim os dois no dia seguinte ao do casamento de Henrique e Lu\u00edsa, que era o nome da pequena. A cena passava-se na sala de visitas da casa de Jo\u00e3o Lima \u00e0 Rua do Valongo, defronte de uma janela aberta, ambos sentados em cadeiras de bra\u00e7os de jacarand\u00e1, tendo de permeio uma mesa pequena com duas x\u00edcaras de caf\u00e9 em cima.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Lima era um homem sem cerim\u00f4nias e muito f\u00e1cil de criar amizade a algu\u00e9m. Fl\u00e1vio pela sua parte era extremamente simp\u00e1tico. A amizade criou ra\u00edzes dentro em pouco tempo.<\/p>\n<p>Vilela e Fl\u00e1vio freq\u00fcentavam a casa de Jo\u00e3o Lima, com quem moravam o filho e a nora na mais doce intimidade.<\/p>\n<p>Doce intimidade \u00e9 uma maneira de falar.<\/p>\n<p>A intimidade durou apenas alguns meses e n\u00e3o foi de toda a fam\u00edlia. Uma pessoa havia em quem o casamento de Henrique produziu desagrad\u00e1vel impress\u00e3o; foi a m\u00e3e dele.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>Dona Mariana Lima era uma senhora agrad\u00e1vel na conversa, mas \u00fanica e simplesmente na conversa. O cora\u00e7\u00e3o era esquisito; \u00e9 o menos que se pode dizer. O esp\u00edrito era caprichoso, voluntarioso e ambicioso. Ambicionava um casamento mais elevado para o filho. Os amores de Henrique e o seu imediato casamento foram um desastre para os planos de futuro.<\/p>\n<p>Quer isto dizer que D. Mariana desde o primeiro dia come\u00e7ou a odiar a nora. Escondeu-o o mais que p\u00f4de, e s\u00f3 p\u00f4de esconder durante os primeiros meses. Afinal o \u00f3dio fez explos\u00e3o. Foi imposs\u00edvel no fim de certo tempo viverem juntas. Henrique foi morar em casa sua.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastava \u00e0 senhora D. Mariana odiar a nora e aborrecer o filho.<\/p>\n<p>Era-lhe preciso mais.<\/p>\n<p>Soube e viu a parte que teve o padre Fl\u00e1vio no casamento do filho, e n\u00e3o s\u00f3 o padre Fl\u00e1vio como de algum modo o padre Vilela.<\/p>\n<p>Naturalmente criou-lhes \u00f3dio.<\/p>\n<p>N\u00e3o o manifestou entretanto logo. Ela era profundamente dissimulada; tratou de disfar\u00e7ar o mais que p\u00f4de. Seu fim era expeli-los de casa.<\/p>\n<p>Eu disse que D. Mariana era agrad\u00e1vel na conversa. Era-o tamb\u00e9m na fisionomia. Ningu\u00e9m diria que aquele rosto am\u00e1vel escondia um cora\u00e7\u00e3o de ferro. Via-se que tinha sido formosa; ela mesma falava da sua beleza passada com um resto de orgulho. A primeira vez que o padre Fl\u00e1vio a ouviu falar assim, teve m\u00e1 impress\u00e3o. Notou-lhe D. Mariana e n\u00e3o se conteve que lhe n\u00e3o dissesse:<\/p>\n<p>\u2014 Reprova-me?<\/p>\n<p>O padre Fl\u00e1vio conciliou seu amor \u00e0 verdade com a considera\u00e7\u00e3o que devia \u00e0 esposa do amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Minha senhora, murmurou ele, eu n\u00e3o tenho direito para tanto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tanto vale dizer que me reprova.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio calou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Cuido, entretanto, continuou a esposa de Jo\u00e3o Lima, que n\u00e3o me gabo de nenhum crime; ter sido bonita n\u00e3o \u00e9 coisa que ofenda a Deus.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9, disse gravemente o padre Fl\u00e1vio; mas a austeridade crist\u00e3 pede que n\u00e3o fa\u00e7amos caso nem tenhamos orgulho das nossas gra\u00e7as f\u00edsicas. As pr\u00f3prias virtudes n\u00e3o nos devem ensoberbecer&#8230;<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio estacou. Reparou que estava presente Jo\u00e3o Lima e n\u00e3o quis continuar a conversa por extremo desagmd\u00e3vel. Mas o marido de D. Mariana nadava em contentamento. Interveio na conversa.<\/p>\n<p>\u2014 Continue, padre, disse ele; isso n\u00e3o ofende e \u00e9 justo. A minha santa Eva gosta de recordar o tempo da sua beleza; j\u00e1 lhe tenho dito que \u00e9 melhor deixar o louvor aos outros; e ainda assim fechar os ouvidos.<\/p>\n<p>D. Mariana n\u00e3o quis ouvir o resto; retirou-se da sala.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Lima deitou a rir.<\/p>\n<p>\u2014 Assim, padre! nunca as m\u00e3os lhe doam.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio estava profundamente incomodado com o que se passara. N\u00e3o queria de nenhum modo contribuir para um desaguisado de fam\u00edlia. Demais, j\u00e1 percebera que a m\u00e3e de Henrique n\u00e3o gostava dele, mas n\u00e3o podia atinar com a causa. Fosse qual fosse, julgou prudente afastar-se da casa, e assim o disse ao padre Vilela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o creio que tenhas raz\u00e3o, disse este.<\/p>\n<p>\u2014 E eu creio que tenho, retorquiu o padre Fl\u00e1vio; em todo caso nada perdemos em afastarmo-nos por algum tempo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o me parece razo\u00e1vel, disse Vilela; que culpa tem Jo\u00e3o Lima nisto? Como explicar a nossa aus\u00eancia?<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Demos tempo ao tempo, e se as coisas continuarem do mesmo modo.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio aceitou o alvitre do seu velho amigo.<\/p>\n<p>Costumavam eles passar quase todas as tardes em casa de Jo\u00e3o Lima, onde tomavam caf\u00e9 e onde conversavam das coisas p\u00fablicas ou praticavam de assuntos pessoais. \u00c0s vezes dava-lhe Jo\u00e3o Lima para ouvir filosofia, e nessas ocasi\u00f5es era o padre Fl\u00e1vio quem falava exclusivamente.<\/p>\n<p>D. Mariana, desde a conversa que acima deixo referida, mostrara-se cada vez mais fria com os dois padres. Sobretudo com Fl\u00e1vio, as suas demonstra\u00e7\u00f5es eram mais positivas e solenes.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Lima n\u00e3o reparava em nada. Era um bom homem que n\u00e3o podia supor houvesse algu\u00e9m a quem desagradassem os seus dois amigos.<\/p>\n<p>Um dia por\u00e9m, ao sa\u00edrem de l\u00e1, disse Fl\u00e1vio a Vilela:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe parece que o Jo\u00e3o Lima est\u00e1 um pouco mudado hoje?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que sim.<\/p>\n<p>Vilela abanou a cabe\u00e7a, e disse rindo:<\/p>\n<p>\u2014 Andas vision\u00e1rio, Fl\u00e1vio!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou vision\u00e1rio; percebo as coisas.<\/p>\n<p>\u2014 As coisas que ningu\u00e9m percebe.<\/p>\n<p>\u2014 Ver\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Quando?<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Pois verei!<\/p>\n<p>No dia seguinte houve um inconveniente que os impediu de ir \u00e0 casa de Jo\u00e3o Lima. Foram em outro dia.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Lima mostrou-se efetivamente frio com o padre Fl\u00e1vio; com o padre Vilela n\u00e3o alterou o seu modo. Vilela notou a diferen\u00e7a e deu raz\u00e3o ao amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Na verdade, disse ele ao sa\u00edrem os dois do Valongo, onde morava Jo\u00e3o Lima, pareceu-me que o homem hoje n\u00e3o te tratou como de costume.<\/p>\n<p>\u2014 Do mesmo modo que anteontem.<\/p>\n<p>\u2014 Que haver\u00e1?<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio calou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Dize, insistiu Vilela.<\/p>\n<p>\u2014 Que nos importa isso? disse o padre Fl\u00e1vio depois de alguns instantes de sil\u00eancio. Gostou de mim algum tempo; hoje n\u00e3o gosta; n\u00e3o o censuro por isso, nem me queixo. \u00c9 conveniente que nos acostumemos \u00e0s varia\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito e do cora\u00e7\u00e3o. Pela minha parte n\u00e3o mudei a seu respeito; mas&#8230;<\/p>\n<p>Calou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Mas? perguntou Vilela.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o devo voltar l\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida. Acha bonito que freq\u00fcente uma casa onde n\u00e3o sou bem aceito? Seria afrontar o dono da casa.<\/p>\n<p>\u2014 Bem; n\u00e3o iremos mais l\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o iremos?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, n\u00e3o iremos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que raz\u00e3o h\u00e1 de Vossa Reverend\u00edssima&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Porque sim, disse resolutamente o padre Vilela. Onde tu n\u00e3o fores recebido com prazer, eu n\u00e3o posso decentemente meter os p\u00e9s.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio agradeceu mais esta prova de afei\u00e7\u00e3o que lhe dava o seu velho amigo; e procurou demov\u00ea-lo do prop\u00f3sito em que se achava; mas foi em v\u00e3o; Vilela persistia na resolu\u00e7\u00e3o anunciada.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, disse Fl\u00e1vio, irei l\u00e1 como dantes.<\/p>\n<p>\u2014 Mas essa agora&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero priv\u00e1-los da sua pessoa, padre-mestre.<\/p>\n<p>Vilela procurou convencer ao amigo de que n\u00e3o devia ir se tinha escr\u00fapulo nisso. Fl\u00e1vio resistiu a todas as raz\u00f5es. O velho padre co\u00e7ou a cabe\u00e7a e depois de meditar algum tempo, disse.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, eu irei s\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o melhor acordo.<\/p>\n<p>Vilela mentia; sua resolu\u00e7\u00e3o era n\u00e3o ir mais l\u00e1, desde que o amigo n\u00e3o ia; mas ocultava esse plano, pois que era imposs\u00edvel faz\u00ea-lo aceitar por ele.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>Decorreram tr\u00eas meses depois do que acabo de narrar. Nem Vilela nem Fl\u00e1vio voltaram \u00e0 casa de Jo\u00e3o Lima; este foi uma vez \u00e0 casa dos dois padres com a inten\u00e7\u00e3o de perguntar a Vilela porque raz\u00e3o deixara de o visitar. Achou-o s\u00f3 em casa; disse-lhe o motivo da sua visita. Vilela desculpou-se com o amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Fl\u00e1vio anda melanc\u00f3lico, disse; e eu que sou t\u00e3o amigo dele, n\u00e3o o quero deixar s\u00f3.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Lima franziu o sobrolho.<\/p>\n<p>\u2014 Anda melanc\u00f3lico? perguntou ele no fim de algum tempo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, continuou Vilela. N\u00e3o sei que tem; pode ser mol\u00e9stia; em todo o caso n\u00e3o o quero deixar s\u00f3.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Lima n\u00e3o insistiu e retirou-se.<\/p>\n<p>Vilela ficou pensativo. Que quereria dizer o ar com que o negociante lhe falara a respeito da melancolia do amigo? Interrogou as suas reminisc\u00eancias; conjecturou \u00e0 larga; nada concluiu nem encontrou.<\/p>\n<p>\u2014 Tolices! disse ele.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia por\u00e9m n\u00e3o lhe saiu mais do esp\u00edrito. Tratava-se do homem a quem mais amava; era raz\u00e3o para que o preocupasse. Dias e dias gastou em espreitar o misterioso motivo; mas nada alcan\u00e7ou. Zangado consigo mesmo, e preferindo a tudo a franqueza, Vilela resolveu ir diretamente a Jo\u00e3o Lima.<\/p>\n<p>Era de manh\u00e3. Fl\u00e1vio estava a estudar no seu gabinete, quando Vilela lhe disse que ia sair.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-me s\u00f3 com a minha carta?<\/p>\n<p>\u2014 Que carta?<\/p>\n<p>\u2014 A que me deu, a misteriosa carta de minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Vais abri-la?<\/p>\n<p>\u2014 Hoje mesmo.<\/p>\n<p>Vilela saiu.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 casa de Jo\u00e3o Lima ia este sair.<\/p>\n<p>\u2014 Preciso falar-lhe, disse-lhe o padre. Vai sair?<\/p>\n<p>\u2014 Vou.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto melhor.<\/p>\n<p>\u2014 Que ar s\u00e9rio \u00e9 este? perguntou Lima rindo.<\/p>\n<p>\u2014 O neg\u00f3cio \u00e9 s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Sa\u00edram.<\/p>\n<p>Sabe o meu amigo que eu n\u00e3o tenho sossegado desde que desconfiei de uma coisa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 De uma coisa!<\/p>\n<p>\u2014 Sim, desde que desconfiei que o meu amigo tem alguma coisa contra o meu Fl\u00e1vio.<\/p>\n<p>\u2014 Eu?<\/p>\n<p>\u2014 O senhor.<\/p>\n<p>Vilela olhou fixamente para Jo\u00e3o Lima; este baixou os olhos. Foram andando assim silenciosamente durante algum tempo. Era evidente que Jo\u00e3o Lima queria ocultar alguma coisa ao padre-mestre. O padre \u00e9 que n\u00e3o estava disposto a que se lhe escondesse a verdade. Ao fim de um quarto de hora Vilela rompeu o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos l\u00e1, disse ele; diga-me tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo o qu\u00ea?<\/p>\n<p>Vilela fez um gesto de impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Para que procura negar que h\u00e1 alguma coisa entre o senhor e o Fl\u00e1vio. \u00c9 isso que eu desejo saber. Sou amigo dele e seu pai espiritual; se ele errou desejo castig\u00e1-lo; se o erro \u00e9 seu, pe\u00e7o licen\u00e7a ao senhor para castig\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Falemos de outra coisa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; falemos disto.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, disse Jo\u00e3o Lima com resolu\u00e7\u00e3o; dir-lhe-ei tudo, com uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Qual?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que h\u00e1 de ocultar tudo a ele.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea, se merecer corrigi-lo?<\/p>\n<p>\u2014 Porque \u00e9 necess\u00e1rio. N\u00e3o desejo que transpire nada desta conversa; \u00e9 t\u00e3o vergonhoso isto!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vergonhoso!<\/p>\n<p>\u2014 Desgra\u00e7adamente, \u00e9 vergonhos\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 imposs\u00edvel! exclamou Vilela n\u00e3o sem alguma indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ver\u00e1.<\/p>\n<p>Seguiu-se um novo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Eu era amigo de Fl\u00e1vio e admirador das suas virtudes como dos seus talentos. Era capaz de jurar que nunca um pensamento infame lhe entraria no esp\u00edrito&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o? perguntou Vilela tr\u00eamulo.<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o, repetiu Jo\u00e3o Lima com placidez; esse pensamento infame entrou-lhe no esp\u00edrito. Infame seria em qualquer outro; mas em quem traz vestes sacerdotais&#8230; N\u00e3o respeitar nem o seu car\u00e1ter, nem o estado alheio; cerrar os olhos aos la\u00e7os sagrados do matrim\u00f4nio&#8230;<\/p>\n<p>Vilela interrompeu a Jo\u00e3o Lima exclamando:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 doido!<\/p>\n<p>Mas Jo\u00e3o Lima n\u00e3o se molestou; referiu placidamente ao padre-mestre que o seu amigo ousara desrespeitar-lhe a esposa.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma cal\u00fania! exclamou Vilela.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o, disse Jo\u00e3o Lima, disse-me quem podia asseverar.<\/p>\n<p>Vilela n\u00e3o era naturalmente manso; conteve-se a custo ao ouvir estas palavras do amigo. N\u00e3o lhe foi dif\u00edcil perceber a origem da cal\u00fania: era a antipatia de D. Mariana. Admirou-se que descesse a tanto; no seu \u00edntimo resolveu dizer tudo ao jovem sacerdote. N\u00e3o deixou por\u00e9m de observar a Jo\u00e3o Lima:<\/p>\n<p>\u2014 Isso que me diz \u00e9 imposs\u00edvel; houve certamente equ\u00edvoco, ou&#8230; m\u00e1 vontade; acho que seria principalmente m\u00e1 vontade. N\u00e3o hesito em responder por ele.<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e1 vontade por qu\u00ea? perguntou Jo\u00e3o Lima.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; mas alguma havia em que eu j\u00e1 reparam ainda antes do que se deu ultimamente. Quer que seja inteiramente franco?<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7o-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, todos temos defeitos; sua senhora, entre boas qualidades que possui, tem alguns e graves. N\u00e3o se zangue se lhe falo assim; mas \u00e9 preciso dizer tudo quando se trata de defender como eu a inoc\u00eancia de um amigo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Lima n\u00e3o dizia palavra. Ia cabisbaixo ouvindo as palavras do padre Vilela. Ele sentia que o padre n\u00e3o estava longe da verdade; conhecia a mulher, sabia por onde pecava o seu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>\u2014 Eu creio, disse o padre Vilela, que o casamento de seu filho influiu na desafei\u00e7\u00e3o de sua esposa.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Talvez n\u00e3o fosse muito do agrado dela, e ao Fl\u00e1vio se deve o bom desfecho que teve aquele neg\u00f3cio. Que lhe parece?<\/p>\n<p>N\u00e3o respondeu o interlocutor. As palavras de Vilela trouxeram-lhe \u00e0 mem\u00f3ria algumas que ouvira \u00e0 mulher em desabono do padre Fl\u00e1vio. Era bom e fraco; arrependia-se facilmente. O tom decisivo com que falou Vilela profundamente o abalou. N\u00e3o tardou que ele mesmo dissesse:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o desconhe\u00e7o que \u00e9 poss\u00edvel um equ\u00edvoco; o esp\u00edrito suscet\u00edvel de Mariana podia errar, era mais natural que ela se esquecesse de que tem um resto das suas gra\u00e7as para s\u00f3 se lembrar de que \u00e9 uma matrona&#8230; Perd\u00e3o, falo-lhe como amigo; releve-me estas expans\u00f5es em tal assunto.<\/p>\n<p>Vilela dirigiu a Jo\u00e3o Lima no caminho em que entrava. No fim de uma hora estavam quase de acordo. Jo\u00e3o Lima encaminhou-se para casa acompanhado de Vilela; iam j\u00e1 ent\u00e3o calados e pensativos.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>Ao chegarem \u00e0 porta quis Vilela retirar-se. Souberam por\u00e9m que Fl\u00e1vio estava em cima. Os dois olharam um para o outro, Vilela at\u00f4nito, Jo\u00e3o Lima fulo de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Subiram.<\/p>\n<p>Na sala estavam D. Mariana e o padre Fl\u00e1vio; ambos de p\u00e9, em frente um do outro, Mariana com as m\u00e3os de Fl\u00e1vio entre as suas.<\/p>\n<p>Os dois estacaram \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Seguiu-se um longo e profundo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Meu filho! meu amigo! exclamou Vilela dando um passo para o grupo.<\/p>\n<p>D. Mariana tinha soltado as m\u00e3os do jovem sacerdote e deixara-se cair numa cadeira; Fl\u00e1vio tinha os olhos baixos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Lima adiantou-se calado. Parou em frente de Fl\u00e1vio e encarou-o friamente. O padre ergueu os olhos; havia neles uma grande dignidade.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, disse Lima.<\/p>\n<p>D. Mariana levantou-se da cadeira e atirou-se aos p\u00e9s do esposo.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o! exclamou ela.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Lima empurrou-a com um bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o; \u00e9 meu filho!<\/p>\n<p>Eu deixo ao leitor imaginar a impress\u00e3o deste lance de quinto ato de melodrama. Jo\u00e3o Lima esteve cerca de dez minutos sem poder articular palavra. Vilela olhava espantado para todos.<\/p>\n<p>Enfim rompeu a palavra o negociante. Era natural pedir uma explica\u00e7\u00e3o; pediu-a; foi-lhe dada. Jo\u00e3o Lima exprimiu toda a sua c\u00f3lera contra Mariana.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio lastimara do fundo d\u2019alma a fatalidade que o levou a produzir aquela situa\u00e7\u00f5a.No del\u00edrio de conhecer sua m\u00e3e, n\u00e3o se lembrara de mais nada; apenas leu a carta que lhe fora entregue pelo padre Vilela, correra \u00e0 casa de D. Mariana. Ali tudo se explicara; Fl\u00e1vio preparava-se para sair e n\u00e3o voltar ali mais se fosse preciso, e em todo caso n\u00e3o divulgar o segredo nem ao padre Vilela, quando este e Jo\u00e3o Lima os surpreenderam.<\/p>\n<p>Tudo estava perdido.<\/p>\n<p>D. Mariana recolheu-se ao Convento da Ajuda onde faleceu no tempo da guerra de Rosas. O padre Fl\u00e1vio obteve uma vigaria no interior de Minas, onde veio a falecer de tristeza e saudade. Vilela quis acompanh\u00e1-lo, mas o jovem amigo n\u00e3o o consentiu.<\/p>\n<p>\u2014 De tudo o que me poderias pedir, disse Vilela, \u00e9 isso o que mais me d\u00f3i.<\/p>\n<p>\u2014 Paci\u00eancia! respondeu Fl\u00e1vio; eu preciso da solid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00ea-la-\u00e1s?<\/p>\n<p>\u2014 Sim; preciso da solid\u00e3o para meditar nas conseq\u00fc\u00eancias que o erro de um pode trazer a muitas exist\u00eancias.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a moralidade desta triste hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1874 I Tinha vinte e sete anos o padre Fl\u00e1vio, quando come\u00e7ou a carreira de pregador para a qual se sentia arrastado por uma voca\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel. 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