{"id":116728,"date":"2017-03-30T18:41:41","date_gmt":"2017-03-30T20:41:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116728"},"modified":"2017-03-30T18:41:41","modified_gmt":"2017-03-30T20:41:41","slug":"miloca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca","title":{"rendered":"Miloca"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO<\/b><\/p>\n<p>D. Pulqu\u00e9ria da Assun\u00e7\u00e3o era uma senhora de seus sessenta anos, arguta, devota, gorda, paciente, cr\u00f4nica viva, catecismo ambulante. Era vi\u00fava de um capit\u00e3o de cavalaria que morrera em Monte Caseros deixando-lhe uma escassa pens\u00e3o e a boa vontade de um irm\u00e3o mais mo\u00e7o que possu\u00eda alguma cousa. Rodrigo era o nome desse \u00fanico parente a quem o Capit\u00e3o L\u00facio confiara D. Pulqu\u00e9ria na ocasi\u00e3o de partir para o Rio da Prata. Era bom homem, generoso e franco; D. Pulqu\u00e9ria n\u00e3o sentiu muito por esse lado a morte do marido.<\/p>\n<p>Infelizmente, o cunhado n\u00e3o era t\u00e3o remediado como parecia \u00e0 vi\u00fava, e al\u00e9m disso n\u00e3o tinha meios nem tino para fazer crescer os poucos cabedais que ajuntara durante longos anos no neg\u00f3cio de armarinho. O estabelecimento de Rodrigo, excelente e afreguesado em outros tempos, n\u00e3o podia competir com os muitos estabelecimentos modernos que outros comerciantes abriram no mesmo bairro. Rodrigo vendia de vez em quando algum rap\u00e9, len\u00e7os de chita, agulhas e linhas, e outras cousas assim; sem poder oferecer ao fregu\u00eas outros g\u00eaneros que aquele ramo de neg\u00f3cio havia adotado. Quem l\u00e1 ia procurar um corte de vestido, uma camisa feita, uma bolsa, um sabonete, uns brincos de vidrilho, tinha o desgosto de voltar com as m\u00e3os vazias. Rodrigo estava atr\u00e1s do seu tempo; a roda come\u00e7ou a desandar-lhe.<br \/>\nAl\u00e9m deste inconveniente, Rodrigo era generoso e franco, como disse acima, de maneira que, se por um lado n\u00e3o lhe crescia a bolsa, por outro ele pr\u00f3prio a desfalcava.<\/p>\n<p>D. Pulqu\u00e9ria resolveu ir viver com o cunhado e foi uma felicidade para este, que tinha uma filha e precisava de lhe dar uma m\u00e3e. Ningu\u00e9m melhor para esse papel do que a vi\u00fava do capit\u00e3o, que, al\u00e9m de parenta da menina, era um s\u00edmbolo de ordem e austeridade.<\/p>\n<p>Miloca tinha dezessete anos. At\u00e9 os quinze ningu\u00e9m diria que viria a ser bela; mas, dessa idade em diante enfeitou muito, como dizia D. Pulqu\u00e9ria. Era a mais formosa cara do bairro e a mais elegante figura da Cidade Nova. N\u00e3o tinha por\u00e9m a viveza das mo\u00e7as da sua idade; era s\u00e9ria e impertigada demais. Quando sa\u00eda olhava para diante de si sem volver a cabe\u00e7a para<br \/>\nnenhum lado nem se preocupar com os olhares de admira\u00e7\u00e3o que os rapazes lhe deitavam. Parecia ignorar ou desdenhar a admira\u00e7\u00e3o dos outros.<\/p>\n<p>Esta circunst\u00e2ncia, n\u00e3o menos que a beleza, tinha dado \u00e0 filha de Rodrigo uma celebridade real. Os rapazes chamavam-lhe Princesa; as mo\u00e7as puseram-lhe a alcunha de Pesco\u00e7o de pau. A inveja das outras explorou o mais que p\u00f4de o orgulho de Miloca; mas se ela desdenhava a admira\u00e7\u00e3o, parecia tamb\u00e9m desdenhar a inveja.<\/p>\n<p>D. Pulqu\u00e9ria reconhecia na sobrinha essa altivez singular e procurava persuadi-la de que a mod\u00e9stia \u00e9 a primeira virtude de uma mo\u00e7a; perdoava-lhe por\u00e9m o defeito, por ver que em tudo mais a sobrinha era um modelo.<\/p>\n<p>Havia j\u00e1 cinco anos que a vi\u00fava do capit\u00e3o L\u00facio morava com a fam\u00edlia do cunhado, quando este foi procurado por um rapaz desconhecido que lhe pediu meia hora de conversa particular.<\/p>\n<p>\u2014 Chamo-me Adolfo P***, disse o mo\u00e7o quando se achou a s\u00f3s com Rodrigo, e sou empregado no Tesouro. Pode informar-se do meu comportamento. Quanto ao meu car\u00e1ter, espero que com o tempo conhecer\u00e1. Pretendo&#8230;<\/p>\n<p>Aqui estacou o rapaz. Rodrigo, que era homem sagaz, percebeu qual era a pretens\u00e3o de Adolfo. N\u00e3o o auxiliou entretanto; preferiu saborear-lhe a perplexidade.<\/p>\n<p>\u2014 Pretendo, repetiu Adolfo ao cabo de alguns segundos de sil\u00eancio, pretendo&#8230; ouso pedir-lhe a m\u00e3o de sua filha.<\/p>\n<p>Rodrigo ficou alguns instantes calado. Adolfo continuou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Repito; pode informar-se a meu respeito&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como pai, reconhe\u00e7o que me cumpre velar pelo futuro de minha filha, disse Rodrigo, mas a primeira condi\u00e7\u00e3o de um casamento \u00e9 a afei\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. Tem autoriza\u00e7\u00e3o dela para&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014 Nunca nos falamos, disse Adolfo.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o&#8230; escrevem-se? perguntou Rodrigo.<\/p>\n<p>\u2014 Nem isso. Duvido at\u00e9 que ela me conhe\u00e7a.<\/p>\n<p>Rodrigo deu um salto na cadeira.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o, disse ele, que vem o senhor fazer \u00e0 minha casa?<\/p>\n<p>\u2014 Eu lhe digo, respondeu o pretendente. Amo sua filha apaixonadamente, e n\u00e3o h\u00e1 dia em que n\u00e3o procure v\u00ea-la; infelizmente, ela parece ignorar que eu existo no mundo. At\u00e9 hoje, nem por distra\u00e7\u00e3o, receb um olhar dela. Longe de me desagradar esta indiferen\u00e7a, dou-me por feliz em achar tamanha discri\u00e7\u00e3o numa idade em que geralmente as mo\u00e7as gostam<br \/>\nde ser admiradas e requestadas. Sei que n\u00e3o sou amado, mas n\u00e3o acho imposs\u00edvel vir a s\u00ea-lo. Seria por\u00e9m imposs\u00edvel se continuasse a situa\u00e7\u00e3o em que ambos nos achamos. Como saberia ela que eu a adoro, se nem suspeita que eu existo? Depois de refletir muito neste assunto, tive a id\u00e9ia de vir pedir-lhe a m\u00e3o de sua filha, e no caso de que o senhor n\u00e3o me achasse indigno dela, pediria para ser apresentado \u00e0 sua fam\u00edlia, caso este em que eu poderia saber se realmente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Paremos aqui, interrompeu Rodrigo. O senhor pede-me uma cousa singular; pelo menos n\u00e3o conhe\u00e7o semelhantes usos. Estimaria muito que o senhor fosse feliz, mas n\u00e3o me presto a isso&#8230; por semelhante modo.<\/p>\n<p>Adolfo insistiu no pedido; mas o pai de Miloca cortou a conversa levantando-se e estendendo a m\u00e3o ao pretendente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe quero mal, disse ele; fa\u00e7a-se amado e volte. Nada mais lhe concedo.<\/p>\n<p>Adolfo saiu de cabe\u00e7a baixa.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia procurou Rodrigo sondar o esp\u00edrito da filha, a fim de saber se ela, ao contr\u00e1rio do que parecia a Adolfo, tinha dado f\u00e9 do rapaz. Pareceu-lhe que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Tanto pior para ele&#8221;, disse Rodrigo consigo. No domingo seguinte estava ele \u00e0 janela com a cunhada, quando viu passar Adolfo, que lhe tirou o chap\u00e9u.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 aquele mo\u00e7o? perguntou D. Pulqu\u00e9ria.<\/p>\n<p>Um leve sorriso foi a resposta de Rodrigo \u2014 quanto bastou para agu\u00e7ar a curiosidade de D. Pulqu\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea ri-se, disse ela. Que mist\u00e9rio \u00e9 esse?<\/p>\n<p>\u2014 Mist\u00e9rio nenhum, disse Rodrigo.<\/p>\n<p>Insistiu a velha; e o cunhado n\u00e3o hesitou em lhe contar a conversa e o pedido do rapaz, acrescentando que, na sua opini\u00e3o, Adolfo era um palerma.<\/p>\n<p>\u2014 E por qu\u00ea? disse D. Pulqu\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u2014 Porque a um rapaz como ele n\u00e3o faltam meios de se fazer conhecido da dama de seus pensamentos. Eu vendo muito papel bordado e muita tinta azul, e onde a palavra n\u00e3o chega, chega uma carta.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faltava mais nada! exclamou D. Pulqu\u00e9ria. Mandar cartas \u00e0 rapariga e transtornar-lhe a cabe\u00e7a&#8230; Seu irm\u00e3o nunca se atreveu a tanto comigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Meu irm\u00e3o era um maricas em tempo de paz, observou Rodrigo sorvendo uma pitada.<\/p>\n<p>D. Pulqu\u00e9ria protestou energicamente contra a opini\u00e3o do cunhado, e este foi obrigado a confessar que o irm\u00e3o era pelo menos um homem prudente. Passada essa quest\u00e3o incidente, voltou D. Pulqu\u00e9ria ao assunto principal e condenou a resposta que Rodrigo dera a Adolfo, dizendo que era talvez um excelente marido para Miloca.<\/p>\n<p>\u2014 Miloca, acrescentou a velha, \u00e9 uma rapariga muito metida consigo. Pode ser que n\u00e3o ache casamento t\u00e3o cedo, e n\u00f3s n\u00e3o havemos de viver sempre. Quer voc\u00ea que ela a\u00ed fique sem prote\u00e7\u00e3o no mundo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, decerto, retorquiu Rodrigo, mas que devia eu fazer?<\/p>\n<p>\u2014 O que devia fazer era informar-se do rapaz, e se lhe parecesse digno dela, apresent\u00e1-lo c\u00e1. Eu aqui estou para velar por ela.<\/p>\n<p>D. Pulqu\u00e9ria desenvolveu este tema com a autoridade de uma senhora convencida. Rodrigo n\u00e3o deixou de lhe achar alguma raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, disse ele, eu indagarei do procedimento do rapaz, e se vir que merece, c\u00e1 o trago&#8230; Mas isso \u00e9 imposs\u00edvel, agora reparo; n\u00e3o acho bonito, nem decente que eu v\u00e1 agora busc\u00e1-lo; parecer\u00e1 que lhe meto a rapariga \u00e0 cara.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o, concordou a cunhada. E a culpa da dificuldade \u00e9 toda sua. Em suma, \u00e9 bom indagar; depois veremos o que se h\u00e1 de fazer.<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es foram excelentes. Adolfo gozava de excelente reputa\u00e7\u00e3o; era econ\u00f4mico, morigerado, laborioso, a p\u00e9rola da reparti\u00e7\u00e3o, o beijinho dos superiores. Nem com uma lanterna se encontraria marido daquela qualidade, t\u00e3o \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Bem me dizia o cora\u00e7\u00e3o, ponderou D. Pulqu\u00e9ria, que este rapaz era c\u00e1 enviado pela Provid\u00eancia Divina. E voc\u00ea estragou tudo. Mas Deus \u00e9 grande; esperemos que ele nos favore\u00e7a.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO II<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o confiava debalde na Provid\u00eancia Divina a sr\u00aa D. Pulqu\u00e9ria da Assun\u00e7\u00e3o. Cinco dias n\u00e3o eram passados quando um acontecimento desastroso veio atar as rela\u00e7\u00f5es entre Adolfo e a fam\u00edlia de Miloca.<\/p>\n<p>Rodrigo era um dos mais extremos partid\u00e1rios da escola rom\u00e2ntico-estragada. Ia ver algum drama de senso comum s\u00f3 por comprazer \u00e0 fam\u00edlia. Mas sempre que podia assistir a um daqueles matadouros liter\u00e1rios t\u00e3o em moda h\u00e1 vinte anos \u2014 e ainda hoje \u2014 vingava-se da condescend\u00eancia a que o obrigava \u00e0s vezes o amor dos seus. Estava ent\u00e3o fazendo bulha um drama em seis ou oito quadros e outras tantas mortes, obra que o p\u00fablico aplaudia com del\u00edrio. Rodrigo tinha ido ver o drama, e viera para casa entusiasmad\u00edssimo, a tal ponto que D. Pulqu\u00e9ria tamb\u00e9m se entusiasmou e ficou assentado que iriam no dia seguinte ao teatro.<\/p>\n<p>Miloca tentou impedir a resolu\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o teve for\u00e7a para o conseguir. De tarde caiu sobre a cidade uma daquelas trovoadas de que o nosso clima vai perdendo a tradi\u00e7\u00e3o, e Rodrigo, que em tempo seco preferia andar de carro, com mais raz\u00e3o desta vez mandou vir um e l\u00e1 foi a fam\u00edlia ver a pe\u00e7a da moda.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos interessa saber que impress\u00f5es trouxeram de l\u00e1 as duas senhoras; ambas come\u00e7aram a dormir apenas entraram no carro, e se em Miloca era talvez aborrecimento, em D. Pulqu\u00e9ria era evidentemente cansa\u00e7o. A boa velha j\u00e1 n\u00e3o era para dramas t\u00e3o compridos nem paix\u00f5es t\u00e3o fortes. Encostou a cabe\u00e7a e come\u00e7ou a ressonar.<\/p>\n<p>Rodrigo ficou reduzido a um completo mon\u00f3logo. Elogiava ele o drama, soltava exclama\u00e7\u00f5es, interrogava inutilmente as senhoras, e parecia engolfado na id\u00e9ia de tudo que vira quando sentiu que o carro descambava docemente para o lado esquerdo. O cocheiro passara a casa e dera uma volta com o fim de chegar mais \u00e0 porta; nessa ocasi\u00e3o as rodas da frente ficaram debaixo e isto produziu a queda suave do ve\u00edculo.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas passageiros deram um grito, que foi o prel\u00fadio de muitos outros gritos, principalmente de D. Pulqu\u00e9ria que misturava trapalhadamente preces e pragas. Felizmente havia na vizinhan\u00e7a um baile, e os cocheiros de outros carros acudiram depressa para impedir que os burros disparassem. Esta provid\u00eancia era de todo ponto in\u00fatil porque os burros, em cujo \u00e2nimo parece que tamb\u00e9m influ\u00edra o drama, aproveitaram a queda para dormir completamente.<\/p>\n<p>O cocheiro saltou no ch\u00e3o e tratou de salvar os n\u00e1ufragos; mas j\u00e1 encontrou junto da portinhola que ficara voltada para cima um rapaz desconhecido, que parecia ter a mesma id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Dizer-lhes que esse rapaz era Adolfo seria supor que os leitores nunca leram romances. Adolfo n\u00e3o passara por acaso; estava ali havia muito aguardando a volta de Miloca para ter a satisfa\u00e7\u00e3o de a ver de longe. Quis a fortuna dele que houvesse desastre do carro. Levado por um duplo sentimento de humanidade e de ego\u00edsmo, o bom rapaz atirou-se ao ve\u00edculo e come\u00e7ou a pescar as v\u00edtimas.<\/p>\n<p>A primeira pessoa que saiu foi D. Pulqu\u00e9ria, que apenas se achou s\u00e3 e salva, deu gra\u00e7as a Nossa Senhora e descomp\u00f4s em termos brandos o cocheiro. Enquanto ela falava, estendia Adolfo a m\u00e3o para dentro do carro, para tirar Miloca. A mo\u00e7a estendeu-lhe a m\u00e3o, e o rapaz estremeceu. Da\u00ed a dois minutos sa\u00eda ela do carro, e Adolfo tirava a terceira v\u00edtima, que gemia<br \/>\ncom a dor de uma ferida no nariz. Miloca apenas teve uma contus\u00e3o no rosto. D. Pulqu\u00e9ria parece que por ser gorda ofereceu mais resist\u00eancia ao choque.<\/p>\n<p>Rodrigo estancava o sangue com o len\u00e7o; Miloca entrara no corredor da casa, o cocheiro tratava de levantar o carro ajudado por alguns colegas, quando D. Pulqu\u00e9ria, que j\u00e1 durante alguns minutos tinha os olhos pregados em Adolfo, exclamou:<\/p>\n<p>\u2014 Foi o senhor quem nos salvou! \u00d3 mano Rodrigo, aqui est\u00e1 a pessoa que nos salvou&#8230; Olhe!<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o me salvou o nariz! objetou Rodrigo com mau humor. Pois qu\u00ea! \u00e9 o senhor! continuou ele aproximando-se do rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, respondeu modestamente Adolfo.<\/p>\n<p>Rodrigo estendeu-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! fico-lhe muito obrigado!<\/p>\n<p>\u2014 Devemos-lhe a vida, observou Dona Pulqu\u00e9ria, e creio que lhe seremos eternamente gratos. Quer descansar?<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, minha senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ao menos prometa que h\u00e1 de vir \u00e0 nossa casa, disse D. Pulqu\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u2014 Se me permitem essa honra&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o permitimos, exigimos, disse Rodrigo.<\/p>\n<p>\u2014 O meu servi\u00e7o n\u00e3o vale nada, respondeu Adolfo; fiz o que faria outra qualquer pessoa. Todavia, se me permite, virei saber da sa\u00fade do senhor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Da sa\u00fade do meu nariz, emendou galhofeiramente Rodrigo; venha que nos dar\u00e1 grande prazer. Deixe-me apresent\u00e1-lo a minha filha&#8230;<\/p>\n<p>Era tarde. Miloca, menos grata que os dois velhos, ou mais necessitada de descanso que eles, tinha subido havia j\u00e1 cinco minutos.<\/p>\n<p>Adolfo despediu-se de Rodrigo e de D. Pulqu\u00e9ria e foi esperar na esquina a passagem do carro. Chamou o cocheiro e deu-lhe uma nota de cinco mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui est\u00e1 o que voc\u00ea perdeu quando o carro tombou.<\/p>\n<p>\u2014 Eu? perguntou o cocheiro que sabia n\u00e3o ter um vint\u00e9m na algibeira.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, disse Adolfo.<\/p>\n<p>E sem mais explica\u00e7\u00f5es foi andando.<\/p>\n<p>O cocheiro era sagaz como bom cocheiro que era. Sorriu e guardou o dinheiro no bolso.<\/p>\n<p>Adolfo n\u00e3o era t\u00e3o pouco fino que fosse logo apresentar-se em casa de Rodrigo. Esperou quarenta e oito horas antes que desse sinal de si. E n\u00e3o foi \u00e0 casa da fam\u00edlia, mas \u00e0 loja de Rodrigo, que j\u00e1 l\u00e1 estava com um pequeno emplastro no nariz. Rodrigo agradeceu outra vez o servi\u00e7o que lhe prestara assim como \u00e0 sua fam\u00edlia na noite do desastre e procurou estabelecer desde logo uma salutar familiaridade.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabe, lhe disse ele quando o rapaz se dispunha a sair, n\u00e3o sabe como minha cunhada ficou morrendo pelo senhor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Parece ser uma excelente senhora, disse Adolfo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma p\u00e9rola, respondeu Rodrigo. E se quer que lhe fale franco, eu estou sendo infiel \u00e0 promessa que lhe fiz.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n<p>\u2014 Prometi a minha cunhada que o levaria l\u00e1 em casa apenas o encontrasse, e separo-me do senhor sem desempenhar a minha palavra.<\/p>\n<p>Adolfo curvou levemente a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Muito agrade\u00e7o essa prova de bondade, disse ele, e sinto realmente n\u00e3o poder corresponder ao desejo de sua cunhada. Estou pronto por\u00e9m a l\u00e1 ir apresentar-lhe os meus respeitos no dia e hora que me designar.<\/p>\n<p>\u2014 Quer que lhe diga uma cousa? disse alegremente o comerciante. Eu n\u00e3o sou homem de etiqueta; sou c\u00e1 do povo. Simpatizo com o senhor, e sei a simpatia que minha cunhada lhe tem. Fa\u00e7a uma cousa: venha jantar conosco domingo.<\/p>\n<p>Adolfo n\u00e3o p\u00f4de conter a sua alegria. Evidentemente n\u00e3o contava com tamanha mar\u00e9 de felicidade. Agradeceu e aceitou o convite de Rodrigo e saiu.<\/p>\n<p>No domingo seguinte, apresentou-se Adolfo em casa do comerciante. Ia de ponto em branco, sem que esta express\u00e3o se deva entender no sentido da alta eleg\u00e2ncia fluminense. Adolfo era pobre e vestia com apuro relativamente \u00e0 sua classe. Estava longe por\u00e9m do rigor e da opul\u00eancia aristocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>D. Pulqu\u00e9ria recebeu o pretendente com aquelas car\u00edcias que as velhas de bom cora\u00e7\u00e3o costumam ter. Rodrigo desfez-se em sol\u00edcitos cumprimentos. S\u00f3 Miloca parecia indiferente. Estendeu-lhe a ponta dos dedos, e nem olhou para ele enquanto o m\u00edsero namorado murmurou algumas palavras relativas ao desastre. O intr\u00f3ito foi mau. D. Pulqu\u00e9ria percebeu isso, e tratou de animar o rapaz, falando-lhe com animada familiaridade.<\/p>\n<p>Nunca a filha de Rodrigo parecera t\u00e3o formosa aos olhos de Adolfo. A mesma severidade lhe dava um ar distinto e real\u00e7ava a incompar\u00e1vel beleza das suas fei\u00e7\u00f5es. Mortificava-o, \u00e9 verdade, a indiferen\u00e7a; mas podia ele esperar mais alguma cousa logo da primeira vez?<\/p>\n<p>Miloca tocou piano a convite do pai. Era excelente pianista, e entusiasmou deveras o pretendente, que n\u00e3o p\u00f4de disfar\u00e7ar a sua impress\u00e3o e murmurou um respeitoso cumprimento. Mas a mo\u00e7a limitou-se a um gesto de cabe\u00e7a, acompanhado de um olhar que parecia dizer: &#8220;O senhor entende disto?&#8221;.<\/p>\n<p>Durante o jantar, a velha e o cunhado fizeram galhardamente as honras da casa. Adolfo ia perdendo a pouco e pouco as maneiras cerimoniosas, conquanto a atitude de Miloca lhe acanhasse o esp\u00edrito. Era inteligente, polido e galhofeiro; a boa vontade dos olhos e as qualidades reais dele venceram em pouco tempo grande caminho. No fim do jantar era um conhecido velho.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho uma id\u00e9ia, disse Rodrigo quando chegaram \u00e0 sala. Vamos dar um passeio?<\/p>\n<p>A id\u00e9ia foi aceita por todos, exceto por Miloca que declarou estar incomodada, pelo que a id\u00e9ia ficou sem execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Adolfo saiu de l\u00e1 mal impressionado; e teria desistido da empresa, se o amor n\u00e3o fosse engenhoso em derrubar maginariamente todas as dificuldades deste mundo. Continuou a freq\u00fcentar a casa de Rodrigo, onde era recebido com verdadeira satisfa\u00e7\u00e3o, menos por Miloca que parecia cada vez mais indiferente ao namorado.<\/p>\n<p>Vendo que a situa\u00e7\u00e3o do rapaz n\u00e3o melhorava, e parecendo-lhe que a sobrinha n\u00e3o acharia melhor marido do que ele, interveio D. Pulqu\u00e9ria, n\u00e3o por meio da autoridade, mas com as armas d\u00f3ceis da persuas\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Acho singular, Miloca, a maneira por que tratas o sr. Adolfo.<\/p>\n<p>\u2014 De que maneira o trato? perguntou a mo\u00e7a mordendo os bei\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Secamente. E n\u00e3o compreendo isto porque ele \u00e9 um excelente mo\u00e7o, muito bem-educado, e al\u00e9m disso j\u00e1 nos prestou um servi\u00e7o em ocasi\u00e3o s\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo isso \u00e9 verdade, respondeu Miloca, mas eu n\u00e3o sei como quer que o trate. Meu modo \u00e9 esse. N\u00e3o posso afetar o que n\u00e3o sinto; e a sinceridade creio que \u00e9 uma virtude.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 tamb\u00e9m a virtude do sr. Adolfo, observou D. Pulqu\u00e9ria sem parecer abalada com a sequid\u00e3o da sobrinha; devias ter reparado que \u00e9 um mo\u00e7o muito sincero, e eu&#8230;<\/p>\n<p>Aqui parou D. Pulqu\u00e9ria por um artif\u00edcio que lhe pareceu excelente: esperou que a curiosidade de Miloca lhe pedisse o resto. Mas a sobrinha parecia completamente ausente dali, e n\u00e3o deu mostras de querer saber o resto do per\u00edodo.<\/p>\n<p>D. Pulqu\u00e9ria fez um gesto de despeito, e n\u00e3o disse palavra, enquanto Miloca folheava os jornais em todos os sentidos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acho casa, disse ela depois de algum tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Casa? perguntou D. Pulqu\u00e9ria admirada.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, minha tia, disse Miloca sorrindo, eu pedi a papai para que nos mud\u00e1ssemos daqui. Acho isto muito feio: n\u00e3o faria mal que mor\u00e1ssemos em algum bairro mais bonito. Papai disse que sim, e eu ando a ler os an\u00fancios&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ainda agora sei disso, disse D. Pulqu\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u2014 Casas aparecem muitas, continuou a mo\u00e7a, mas as ruas n\u00e3o prestam. Se fosse no Catete&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s douda? perguntou D. Pulqu\u00e9ria; l\u00e1 as casas s\u00e3o mais caras do que aqui, e al\u00e9m disso transtornaria o neg\u00f3cio de teu pai. Admira como ele consente em semelhante cousa!<\/p>\n<p>Miloca pareceu n\u00e3o atender \u00e0s obje\u00e7\u00f5es da tia. Esta, que era sagaz, e vivia com a sobrinha havia muito tempo, atinava com a raz\u00e3o do recente capricho. Levantou-se e p\u00f4s a m\u00e3o na cabe\u00e7a da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Miloca, por que h\u00e1s de ser assim?<\/p>\n<p>\u2014 Assim como?<\/p>\n<p>\u2014 Por que h\u00e1s de olhar tanto para cima?<\/p>\n<p>\u2014 Se titia est\u00e1 de p\u00e9, respondeu maliciosamente a mo\u00e7a, eu hei de por for\u00e7a olhar para cima.<\/p>\n<p>D. Pulqu\u00e9ria achou gra\u00e7a \u00e0 resposta evasiva que a sobrinha lhe deu e n\u00e3o p\u00f4de reter um sorriso.<\/p>\n<p>\u2014 Tonta! lhe disse a boa velha.<\/p>\n<p>E acrescentou:<\/p>\n<p>\u2014 Tenho pensado muito em ti.<\/p>\n<p>\u2014 Em mim? perguntou ingenuamente Miloca.<\/p>\n<p>\u2014 Sim; nunca pensaste no casamento?<\/p>\n<p>\u2014 Nunca.<\/p>\n<p>\u2014 E se aparecesse um noivo digno de ti?<\/p>\n<p>\u2014 Digno de mim? Conforme; se eu o amasse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O amor vem com o tempo. H\u00e1 bem perto de n\u00f3s algu\u00e9m que te ama, um mo\u00e7o digno de toda a estima, laborioso, grave, um marido como n\u00e3o h\u00e1 muitos.<\/p>\n<p>Miloca desatou a rir.<\/p>\n<p>\u2014 E titia viu isso primeiro que eu? perguntou ela. Quem \u00e9 esse achado?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o adivinhas?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso adivinhar.<\/p>\n<p>\u2014 O Adolfo, declarou D. Pulqu\u00e9ria depois de um minuto de hesita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Miloca franziu o sobrolho; depois deu uma nova risada.<\/p>\n<p>\u2014 De que te ris?<\/p>\n<p>\u2014 Acho engra\u00e7ado. Com que ent\u00e3o o sr. Adolfo dignou-se olhar para mim? N\u00e3o tinha percebido; n\u00e3o podia esperar tamanha felicidade. Infelizmente, n\u00e3o o amo&#8230; e por mais digno que seja o noivo, se eu o n\u00e3o amar vale para mim o mesmo que um vendedor de f\u00f3sforos.<\/p>\n<p>\u2014 Miloca, disse a velha contendo a indigna\u00e7\u00e3o que lhe causavam estas palavras da sobrinha, o que acaba de dizer n\u00e3o \u00e9 bonito, e eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o, titia, interrompeu Miloca, n\u00e3o se d\u00ea por ofendida; respondia gracejando a uma not\u00edcia que tamb\u00e9m me pareceu gracejo. A verdade \u00e9 que eu n\u00e3o desejo casar-me. Quando vier a minha hora, saberei tratar seriamente o noivo que o c\u00e9u me destinar. Creio por\u00e9m que n\u00e3o h\u00e1 de ser o sr. Adolfo, um p\u00e9-rapado&#8230;<\/p>\n<p>Aqui a boa velha cravou um olhar de indigna\u00e7\u00e3o na sobrinha, e saiu. Miloca levantou os ombros e foi tocar umas varia\u00e7\u00f5es de Thalberg.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO III<\/b><\/p>\n<p>A causa de Adolfo estava condenada, e parece que ele ajudava o seu triste destino. J\u00e1 vemos que Miloca aborrecia nele a sua n\u00e3o brilhante condi\u00e7\u00e3o social, que era ali\u00e1s um ponto de contacto entre ambos, cousa que a mo\u00e7a n\u00e3o podia compreender. Adolfo, entretanto, al\u00e9m desse pecado original, tinha a mania singular de fazer discursos humanit\u00e1rios, e mais do que discursos, a\u00e7\u00f5es; perdeu-se de todo.<\/p>\n<p>Miloca n\u00e3o era cruel; pelo contr\u00e1rio, tinha sentimentos caridosos; mas, como ela mesma disse um dia ao pai, nunca se deve dar esmola sem luvas de pelica, porque o contacto da mis\u00e9ria n\u00e3o aumenta a grandeza da a\u00e7\u00e3o. Um dia, em frente da casa, caiu uma preta velha ao ch\u00e3o, abalroada por um t\u00edlburi; Adolfo, que ia a entrar, correu \u00e0 infeliz, levantou-a nos bra\u00e7os e levou-a \u00e0 botica da esquina, onde a deixou curada. Agradeceu ao c\u00e9u o ter-lhe proporcionado o ensejo de uma bela a\u00e7\u00e3o diante de Miloca que estava \u00e0 janela com a fam\u00edlia, e subiu alegremente as escadas. D. Pulqu\u00e9ria abra\u00e7ou o her\u00f3i; Miloca mal lhe estendeu a ponta dos dedos.<\/p>\n<p>Rodrigo e D. Pulqu\u00e9ria conheciam o car\u00e1ter da mo\u00e7a e procuravam modific\u00e1-lo por todas as maneiras, lembrando-lhe que o nascimento dela n\u00e3o era t\u00e3o brilhante que pudesse ostentar tamanho orgulho. A tentativa era sempre in\u00fatil. Duas causas havia para que ela n\u00e3o mudasse de sentimentos: a primeira era proveniente da natureza; a segunda da educa\u00e7\u00e3o. Rodrigo estremecia a filha, e buscou dar-lhe uma educa\u00e7\u00e3o esmerada. F\u00ea-la entrar como pensionista em um col\u00e9gio, onde Miloca ficou em contacto com as filhas das mais elevadas senhoras da capital. Afei\u00e7oou-se a muitas delas, cujas fam\u00edlias visitou desde a inf\u00e2ncia. O pai tinha orgulho em ver que a filha era assim t\u00e3o festejada nos primeiros sal\u00f5es, onde ali\u00e1s ele nunca passou de<br \/>\num intruso. Miloca bebeu assim um ar que n\u00e3o era precisamente o do armarinho da Cidade Nova.<\/p>\n<p>Que vinha pois fazer o m\u00edsero Adolfo nesta galera? N\u00e3o era assim o marido que a mo\u00e7a sonhava; a imagina\u00e7\u00e3o da orgulhosa dama aspirava a maiores alturas. Podia n\u00e3o exigir tudo quanto quisera ter, um pr\u00edncipe ou um duque se os houvesse c\u00e1 dispon\u00edveis; mas entre um pr\u00edncipe e Adolfo a dist\u00e2ncia era enorme. Donde2 resultava que a mo\u00e7a n\u00e3o se limitava a um<br \/>\nsimples desd\u00e9m; tinha \u00f3dio ao rapaz porque a seus olhos era grande afronta, n\u00e3o j\u00e1 nutrir esperan\u00e7as, mas simplesmente am\u00e1-la.<\/p>\n<p>Para completar esta not\u00edcia do car\u00e1ter de Miloca, \u00e9 mister dizer que ela sabia do amor de Adolfo muito antes que o pai e a tia tivessem conhecimento dele. Adolfo estava persuadido que a filha de Rodrigo nunca tinha reparado nele. Iludia-se. Miloca possu\u00eda essa qualidade excepcional de ver sem olhar. Percebeu que o rapaz gostava dela, quando o via na igreja ou<br \/>\nem alguma partida em casa de amizade no mesmo bairro. Perceber isto foi conden\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Ignorando todas estas cousas, Adolfo atribu\u00eda \u00e0 sua m\u00e1 ventura o n\u00e3o ter ganho a menor polegada de terreno. N\u00e3o ousava comunicar as suas impress\u00f5es ao comerciante nem \u00e0 cunhada, posto descobrisse que ambos eram favor\u00e1veis ao seu amor. Meditou longamente no caso, e resolveu dar um golpe decisivo.<\/p>\n<p>Um ex-comerciante abastado da vizinhan\u00e7a casou uma filha, e convidou a fam\u00edlia de Rodrigo para as bodas. Adolfo tamb\u00e9m recebeu convite e n\u00e3o deixou de comparecer, disposto a espreitar ali uma ocasi\u00e3o de falar a Miloca, o que n\u00e3o lhe fora poss\u00edvel nunca em casa dela. Para os amantes multid\u00e3o quer dizer solid\u00e3o. N\u00e3o acontece o mesmo com os pretendentes.<br \/>\nMas Adolfo tinha um plano feito; alcan\u00e7aria dan\u00e7ar com ela, e nessa ocasi\u00e3o soltaria a palavra decisiva. A fim de obter uma concess\u00e3o que julgava dif\u00edcil na noite do baile, pediu-lhe uma quadrilha, na v\u00e9spera, em casa dela, em presen\u00e7a da tia e do pai. A mo\u00e7a concedeu-lha sem hesita\u00e7\u00e3o, e se o rapaz pudesse penetrar no esp\u00edrito dela, n\u00e3o teria aplaudido, como fez, a sua<br \/>\nresolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Miloca estava deslumbrante na sala do baile, e ofuscou completamente a noiva, objeto da festa. Se Adolfo estivesse nas boas gra\u00e7as dela, teria sentido leg\u00edtimo orgulho ao ver a admira\u00e7\u00e3o que ela despertava em torno de si. Mas para um namorado repelido n\u00e3o h\u00e1 pior situa\u00e7\u00e3o do que ver desejado um bem que lhe n\u00e3o pertence. A noite foi pois um supl\u00edcio para o rapaz.<\/p>\n<p>Afinal chegou a quadrilha concedida. Adolfo atravessou a sala tr\u00eamulo de como\u00e7\u00e3o e palpitante de incerteza, e estendeu a m\u00e3o Miloca. A mo\u00e7a levantou-se com a gra\u00e7a do costume e acompanhou o par. Durante as primeiras figuras, Adolfo n\u00e3o ousou dizer palavra sobre cousa nenhuma. Ao ver por\u00e9m que o tempo corria, e era necess\u00e1rio uma decis\u00e3o, dirigiu-lhe<br \/>\nalgumas palavras banais como s\u00e3o as primeiras palavras de um homem pouco afeito a tais empresas.<\/p>\n<p>Pela primeira vez Miloca encarou o namorado, e, longe do que se poderia supor, n\u00e3o havia em seu gesto a menor sombra de aborrecimento; pelo contr\u00e1rio, parecia animar o novel cavalheiro a mais positivo ataque.<\/p>\n<p>Animado com esse intr\u00f3ito, Adolfo foi direto ao cora\u00e7\u00e3o do assunto.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez, D. Em\u00edlia, disse ele, talvez tenha notado que eu&#8230; E parou.<\/p>\n<p>\u2014 Que o senhor&#8230; o qu\u00ea? perguntou a mo\u00e7a que parecia saborear a perplexidade do rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Que eu sinto&#8230;<\/p>\n<p>Nova interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era chegada a Chaine des dames. Miloca deixou o rapaz meditar nas dificuldades da sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Sou um asno, dizia Adolfo consigo. Pois que raz\u00e3o me arriscarei a deixar para depois uma explica\u00e7\u00e3o que vai em t\u00e3o bom caminho? Ela parece disposta&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>No primeiro intervalo reatou a conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Dir-lhe-ei tudo de uma vez&#8230; Amo-a. Miloca fingiu-se admirada.<\/p>\n<p>\u2014 A mim? perguntou ela ingenuamente.<\/p>\n<p>\u2014 Sim&#8230; atrevi-me a&#8230; Perdoa-me?<\/p>\n<p>\u2014 Com uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Qual?<\/p>\n<p>\u2014 Ou antes, com duas condi\u00e7\u00f5es. A primeira \u00e9 que se h\u00e1 de esquecer de mim; a segunda \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 de voltar l\u00e1 \u00e0 casa.<br \/>\nAdolfo olhou espantado para a mo\u00e7a e durante alguns segundos n\u00e3o achou resposta que lhe dar. Preparou-se para tudo, mas aquilo ia al\u00e9m dos seus c\u00e1lculos. A \u00fanica cousa que lhe p\u00f4de dizer foi esta pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 Fala s\u00e9rio?<\/p>\n<p>Miloca fez um gesto de c\u00f3lera, que reprimiu logo; depois sorriu e murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Que se atreva a amar-me, \u00e9 muito, mas injuriar-me, \u00e9 demais!<\/p>\n<p>\u2014 Inj\u00faria pede inj\u00faria, retorquiu Adolfo.<\/p>\n<p>Miloca desta vez n\u00e3o olhou para ele. Voltou-se para o cavalheiro que ficava pr\u00f3ximo e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Quer conduzir-me ao meu lugar?<\/p>\n<p>Deu-lhe o bra\u00e7o e atravessou a sala, no meio do pasmo geral. Adolfo humilhado, vendo-se alvo de todas as vistas, procurou esquivar-se. D. Pulqu\u00e9ria n\u00e3o viu o que se passou; estava conversando com a dona da casa em uma saleta cont\u00edgua; Rodrigo jogava nos fundos da casa.<\/p>\n<p>Aquele misterioso lance teatral foi o assunto das palestras durante o resto da noite. Imposs\u00edvel foi por\u00e9m saber a causa dele. O dono da casa, sabedor do acontecimento, pediu desculpa dele \u00e0 filha de Rodrigo, pois julgava ter parte indireta nele pelo fato de haver convidado Adolfo. Miloca agradeceu a aten\u00e7\u00e3o, mas nada revelou do que se passara.<\/p>\n<p>Nem o pai nem a tia souberam de nada; no dia seguinte por\u00e9m recebeu Rodrigo uma longa carta de Adolfo relatando o sucesso da v\u00e9spera e pedindo desculpa ao velho de ter dado causa a um esc\u00e2ndalo. Nada ocultou do que se passara, mas absteve-se de moralizar a atitude da mo\u00e7a. Rodrigo conhecia o defeito da filha e n\u00e3o lhe foi dif\u00edcil perceber que a causa primordial do acontecimento fora ela. Todavia n\u00e3o lhe disse nada. D. Pulqu\u00e9ria por\u00e9m foi menos discreta na primeira ocasi\u00e3o que se lhe ofereceu, disse amargas verdades \u00e0 sobrinha, que lhas ouviu sem replicar.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO IV<\/b><\/p>\n<p>Felizes aqueles cujos dias correm com a insipidez de uma cr\u00f4nica vulgar. Geralmente os dramas da vida humana s\u00e3o mais toler\u00e1veis no papel que na realidade.<\/p>\n<p>Poucos meses depois da cena que deixamos relatada, a fam\u00edlia de Miloca sofreu um grave rev\u00e9s pecuni\u00e1rio; Rodrigo perdeu o pouco que tinha, e n\u00e3o tardou que a este acontecimento sucedesse outro n\u00e3o menos sens\u00edvel: a morte de D. Pulqu\u00e9ria. Reduzido \u00e0 extrema pobreza e achacado de mol\u00e9stias, Rodrigo viveu ainda alguns meses atribulado e aborrecido da vida.<\/p>\n<p>Miloca mostrou nesses dias amargos uma grande for\u00e7a de \u00e2nimo, maior do que se podia esperar daquele esp\u00edrito quim\u00e9rico. Bem sabia ela que o seu futuro era negro e nenhuma esperan\u00e7a poderia vir anim\u00e1-lo. Todavia, parecia completamente alheia a essa ordem de considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Rodrigo faleceu repentinamente uma noite em que parecia come\u00e7ar a recobrar a sa\u00fade. Era o \u00faltimo golpe que vinha ferir a mo\u00e7a, e esse n\u00e3o o suportou ela com a mesma coragem at\u00e9 ali manifestada. Uma fam\u00edlia da vizinhan\u00e7a ofereceu-lhe asilo logo na noite do dia em que se enterrou o pai. Miloca aceitou o favor, disposta a dispens\u00e1-lo por qualquer maneira razo\u00e1vel e leg\u00edtima.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha muito que escolher. S\u00f3 uma carreira lhe estava aberta: a do professorado. A mo\u00e7a resolveu-se a ir ensinar em algum col\u00e9gio. Custava-lhe isto ao orgulho, e era com certeza a morte de suas esperan\u00e7as aristocr\u00e1ticas. Mas segundo ela disse a si mesma, era isso menos humilhante do que comer as sopas alheias. Verdade \u00e9 que as sopas eram servidas em pratos modestos&#8230;<\/p>\n<p>Nesse projeto estava \u2014 apesar de combatido pela fam\u00edlia que t\u00e3o afetuosamente lhe abrira as portas \u2014 quando apareceu em cena um anjo enviado do c\u00e9u. Era uma de suas companheiras de col\u00e9gio, casada de fresco, que vinha pedir-lhe o obs\u00e9quio de ir morar com ela. Miloca recusou o pedido com alguma resolu\u00e7\u00e3o; mas a amiga vinha disposta a esgotar todos os argumentos poss\u00edveis at\u00e9 vencer as repugn\u00e2ncias de Miloca. N\u00e3o lhe foi dif\u00edcil; a altiva \u00f3rf\u00e3 cedeu e aceitou.<\/p>\n<p>Leopoldina era o nome da amiga que lhe aparecera como um deus ex machina, acompanhada pelo marido, jovem deputado do Norte, governista inabal\u00e1vel e aspirante a ministro. Quem conversava com ele durante meia hora, nutria logo algumas d\u00favidas sobre se os neg\u00f3cios do Estado ganhariam muito em que ele os dirigisse. D\u00favida realmente fr\u00edvola, que ainda n\u00e3o<br \/>\nfechou a ningu\u00e9m as avenidas do poder.<\/p>\n<p>Leopoldina era o contraste de Miloca; tanto uma tinha de altiva, imperiosa e seca, quanto a outra de d\u00f3cil, singela e extremamente af\u00e1vel. E n\u00e3o era esta a \u00fanica diferen\u00e7a. Miloca era sem d\u00favida uma mo\u00e7a distinta; mas era mister estar s\u00f3. A sua distin\u00e7\u00e3o precisava n\u00e3o ser comparada com outra. Nesse terreno tamb\u00e9m Leopoldina lhe levava muita vantagem. Tinha<br \/>\numa distin\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3pria, mais natural, mais inconsciente. Onde por\u00e9m Miloca lhe levava a melhor era nos dotes f\u00edsicos, o que n\u00e3o quer dizer que Leopoldina n\u00e3o fosse bela.<\/p>\n<p>Para ser exato devo dizer que a filha de Rodrigo n\u00e3o aceitou alegremente, nos primeiros dias, a hospitalidade de Leopoldina. Orgulhosa como era, do\u00eda-lhe a posi\u00e7\u00e3o dependente em que se achava. Mas isso durou pouco, gra\u00e7as \u00e0 extrema habilidade da amiga, que empregou todos os esfor\u00e7os para disfar\u00e7ar a aspereza das circunst\u00e2ncias, colocando-a na posi\u00e7\u00e3o de pessoa de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Alcan\u00e7ara Miloca os seus desejos. Vivia numa sociedade bem diferente daquela em que vivera a fam\u00edlia. J\u00e1 n\u00e3o via todas as tardes o modesto botic\u00e1rio da esquina ir jogar o gam\u00e3o com o pai; n\u00e3o suportava as hist\u00f3rias devotas de D. Pulqu\u00e9ria; n\u00e3o via \u00e0 mesa uma velha doceira amiga de sua casa; nem parava \u00e0 porta do armarinho quando voltava da missa nos domingos. Era muito outra sociedade, era a \u00fanica que ela ambicionava e compreendia.Aceitaram todos a posi\u00e7\u00e3o em que Leopoldina tinha a amiga; muitas das mo\u00e7as que l\u00e1 iam foram suas companheiras de col\u00e9gio; tudo lhe correu f\u00e1cil, tudo se lhe tornou brilhante.<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 cousa, por\u00e9m, vinha de quando em quando escurecer o esp\u00edrito de Miloca. Ficaria ela sempre naquela posi\u00e7\u00e3o, que apesar de excelente e brilhante tinha a desvantagem de ser equ\u00edvoca? Esta pergunta, cumpre diz\u00ea-lo, n\u00e3o lhe surgia no esp\u00edrito por si mesma, mas como prel\u00fadio de outra id\u00e9ia, capital para ela. Por outras palavras, o que a agitava principalmente era o problema do casamento. Casar-se, mas casar-se bem, eis o fim e a preocupa\u00e7\u00e3o de Miloca. N\u00e3o faltava onde escolher. Iam \u00e0 casa de Leopoldina muitos rapazes bonitos, elegantes, distintos, e n\u00e3o poucos ricos. Talvez Miloca ainda n\u00e3o sentisse amor verdadeiro por nenhum deles; mas essa circunst\u00e2ncia era puramente secund\u00e1ria no sistema adotado por ela.<\/p>\n<p>Parece que Leopoldina tamb\u00e9m pensara nisso, porque mais de uma vez tocara nesse assunto com a liberdade que lhe dava a afei\u00e7\u00e3o. Miloca respondia evasivamente, mas n\u00e3o repelia de todo a id\u00e9ia de um cons\u00f3rcio feliz.<\/p>\n<p>\u2014 Por ora, acrescentava ela, ainda o meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o bateu; e o casamento sem amor \u00e9 uma cousa terr\u00edvel, penso eu; mas quando vier o amor, espero em Deus que serei feliz. S\u00ea-lo-ei?<\/p>\n<p>\u2014 S\u00ea-lo-\u00e1s, respondeu comovida a amiga hospitaleira. Nesse dia conta que eu te ajudarei.<\/p>\n<p>Um beijo terminava estas confid\u00eancias.<\/p>\n<p>Infelizmente para Miloca, estes desejos pareciam longe da realiza\u00e7\u00e3o. Dos rapazes casadeiros nenhum contestava a beleza da mo\u00e7a; mas corria entre eles uma teoria de que a mais bela mulher deste mundo precisa de n\u00e3o vir com as m\u00e3os abanando.<\/p>\n<p>Ao cabo de dois anos de in\u00fateis esperan\u00e7as, Miloca transigiu com a sua altivez, trocou o papel de pra\u00e7a que pede ass\u00e9dio pelo de ex\u00e9rcito sitiador.<\/p>\n<p>Um primo segundo de Leopoldina foi o seu primeiro objetivo. Era um jovem bacharel, formado poucos meses antes em S. Paulo, rapaz inteligente, alegre e franco. Os primeiros fogos das baterias de Miloca produziram efeito; sem ficar apaixonado de todo, come\u00e7ou a gostar da rapariga. Infelizmente para ela, coincidiu este ataque de frente com um ataque de flanco, e a pra\u00e7a foi tomada por uma rival mais feliz.<\/p>\n<p>N\u00e3o desanimou a mo\u00e7a. Dirigiu os seus tiros para outro ponto, desta vez n\u00e3o pegaram as bichas, o que obrigou a bela pretendente a lan\u00e7ar m\u00e3o de terceiro recurso. Com mais ou menos felicidade, andou Miloca nesta campanha durante um ano, sem alcan\u00e7ar o seu m\u00e1ximo desejo.<\/p>\n<p>A derrota n\u00e3o lhe quebrou o orgulho; antes lhe deu um toque de azedume e hipocondria, que a fez um tanto insuport\u00e1vel. Mais de uma vez pretendeu deixar a casa da amiga e ir professar em algum col\u00e9gio. Mas Leopoldina resistia sempre a esses projetos, j\u00e1 mais veementes que ao princ\u00edpio. O despeito parecia aconselhar \u00e0 bela \u00f3rf\u00e3 o completo esquecimento de seus<br \/>\nplanos matrimoniais. Compreendia agora que, talvez pela mesma raz\u00e3o com que ela recusara o amor de Adolfo, recusavam-lhe agora o amor dela. A puni\u00e7\u00e3o, dizia ela consigo, fora completa.<\/p>\n<p>A imagem de Adolfo surgiu ent\u00e3o em seu esp\u00edrito atribulado e abatido. N\u00e3o se arrependeu do que fizera; mas lamentou que Adolfo n\u00e3o estivesse em posi\u00e7\u00e3o cabal de lhe realizar os seus sonhos e ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Se assim fosse, pensava Miloca, eu seria hoje feliz, porque esse amava-me.&#8221;<\/p>\n<p>Tardias queixas eram aquelas. O tempo corria, e a mo\u00e7a com o seu orgulho se definhava na solid\u00e3o povoada da sociedade a que aspirava desde os tempos da sua mediania.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO V<\/b><\/p>\n<p>Uma noite, estando no teatro, viu em um camarote fronteiro duas mo\u00e7as e dois rapazes; um dos rapazes era Adolfo. Miloca estremeceu; involuntariamente, n\u00e3o de amor, n\u00e3o de saudade, mas de inveja. Seria uma daquelas mo\u00e7as esposa dele? Ambas eram distintas, elegantes; ambas formosas. Miloca perguntou a Leopoldina se conhecia os dois rapazes; o marido da amiga foi quem lhe respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 conhe\u00e7o um deles; o mais alto.<\/p>\n<p>O mais alto era Adolfo.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-me que tamb\u00e9m o conhe\u00e7o, disse Miloca, e foi por isso que lho perguntei. N\u00e3o \u00e9 um empregado do Tesouro?<\/p>\n<p>\u2014 Talvez fosse, respondeu o deputado; agora \u00e9 um am\u00e1vel vadio.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n<p>\u2014 Herdou do padrinho, explicou o deputado.<\/p>\n<p>Leopoldina que tinha assentado o bin\u00f3culo para ver as mo\u00e7as perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 casado com alguma daquelas mo\u00e7as?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; \u00e9 amigo da fam\u00edlia, respondeu o deputado; e parece que n\u00e3o est\u00e1 disposto a casar.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? aventurou Miloca.<\/p>\n<p>\u2014 Dizem que teve um amor infeliz outrora.<\/p>\n<p>Miloca estremeceu de alegria, e p\u00f4s o bin\u00f3culo para o camarote de Adolfo. Este pareceu perceber que era objeto das indaga\u00e7\u00f5es e conversas das tr\u00eas personagens, e j\u00e1 havia conhecido a antiga amada; todavia, disfar\u00e7ou e conversou alegremente com as mo\u00e7as do seu camarote.<\/p>\n<p>Depois de algum sil\u00eancio, disse Miloca:<\/p>\n<p>\u2014 Parece que o senhor acredita em romances; pois h\u00e1 quem conserva assim um amor a ponto de n\u00e3o querer casar?<\/p>\n<p>E como se se arrependesse desta generalidade, emendou: \u2014 Nos homens \u00e9 dif\u00edcil encontrar tamanha const\u00e2ncia \u00e0s afei\u00e7\u00f5es passadas.<\/p>\n<p>\u2014 Nem eu lhe disse que ele conservava essa afei\u00e7\u00e3o, observou o deputado; esse amor infeliz do meu amigo Adolfo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 teu amigo? perguntou Leopoldina.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, respondeu o marido. E continuou: Esse amor infeliz do meu amigo Adolfo serviu para lhe dar uma triste filosofia a respeito de amores. Jurou n\u00e3o casar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E onde escreveu esse juramento?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acredita que ele o cumpra? perguntou sorrindo o marido de Leopoldina.<\/p>\n<p>\u2014 Francamente, n\u00e3o, respondeu Miloca.<\/p>\n<p>Dias depois levou o deputado \u00e0 casa o seu amigo Adolfo e o apresentou \u00e0s duas senhoras. Adolfo falou a Miloca como pessoa de seu conhecimento, mas nenhuma palavra ou gesto revelou aos donos da casa o sentimento que ele tivera outrora. A mesma Miloca compreendeu que tudo estava extinto no cora\u00e7\u00e3o do rapaz; mas n\u00e3o era f\u00e1cil reviver a chama apagada? Miloca contava consigo, e reuniu todas as suas for\u00e7as para uma luta suprema.<\/p>\n<p>Infelizmente era verdade o que dissera o marido de Leopoldina. Adolfo parecia ter mudado completamente. J\u00e1 n\u00e3o era o rapaz afetuoso, e t\u00edmido de outro tempo; mostrava-se agora gelado em cousas do cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 o passado estava extinto, como nem era poss\u00edvel criar-lhe nenhum presente. Miloca compreendeu isto no fim de alguns dias, e todavia n\u00e3o desanimou.<\/p>\n<p>Animou-a nesse prop\u00f3sito Leopoldina, que percebeu a tend\u00eancia da amiga para o rapaz sem todavia conhecer uma s\u00edlaba do passado que havia entre ambos. Miloca negou a princ\u00edpio, mas conveio-lhe dizer tudo, e mais do que isso, n\u00e3o p\u00f4de resistir, porque ela come\u00e7ava a amar deveras o rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o desanimes, lhe disse a amiga; estou que h\u00e1s de triunfar.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe? murmurou Miloca.<\/p>\n<p>Esta pergunta foi triste e desanimada. Era a primeira vez que ela amava, e isto lhe pareceu uma esp\u00e9cie de castigo que a Provid\u00eancia lhe infligia.<\/p>\n<p>\u2014 Se ele me n\u00e3o corresponder, pensava Miloca, sinto que serei a mais desgra\u00e7ada de todas as mulheres.<\/p>\n<p>Adolfo percebeu o que se passava no cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, mas pensou que era menos sincero o afeto que ela nutria. Quem lhe pintou claramente a situa\u00e7\u00e3o foi o marido de Leopoldina, a quem esta havia contado tudo, com a certeza talvez da indiscri\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p>Se Adolfo ainda a amasse, seriam ambos felic\u00edssimos; mas sem o amor dele que esperan\u00e7a teria a mo\u00e7a? Digamos a verdade toda; Adolfo era em toda a extens\u00e3o da palavra um rapaz c\u00ednico, mas cobria o cinismo com uma capa de seda, que o fazia apenas indiferente; de maneira que se algum raio de esperan\u00e7a podia entrar no \u00e2nimo de Miloca bem depressa se lhe devia<br \/>\nesvaecer.<\/p>\n<p>E quem arrancar\u00e1 a esperan\u00e7a de um cora\u00e7\u00e3o que ama? Miloca continuava a esperar, e de certo tempo em diante alguma cousa lhe fazia crer que a esperan\u00e7a n\u00e3o seria v\u00e3. Adolfo parecia come\u00e7ar a reparar nela, e a ter alguma simpatia. Estes sintomas foram crescendo a pouco e pouco, at\u00e9 que Miloca teve um dia certeza de que o dia da sua felicidade estava pr\u00f3ximo.<br \/>\nContara com a sua admir\u00e1vel beleza, com os vivos sinais do seu afeto, com algum germe do passado n\u00e3o de todo extinto no cora\u00e7\u00e3o de Adolfo. Um dia acordou confiada de que todas estas armas lhe haviam dado o triunfo.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou que come\u00e7asse o per\u00edodo epistolar. Seria cousa fastidiosa reproduzir aqui as cartas que os dois namorados trocaram durante um m\u00eas. Qualquer das minhas leitoras (sem ofensa de ningu\u00e9m) conhece mais ou menos o que se diz nesse g\u00eanero de literatura. Copiarei todavia dois trechos interessantes de ambos. Seja o primeiro de Adolfo:<\/p>\n<p>&#8230;Como poderia crer que eu houvesse esquecido o passado? Doloroso foi ele para mim, mas ainda mais que doloroso, delicioso; porque o meu amor me sustentava naquele tempo, e eu era feliz, posto n\u00e3o fosse amado. A ningu\u00e9m mais amei sen\u00e3o a ti; mas confesso que at\u00e9 h\u00e1 pouco, o mesmo amor que te votei outrora j\u00e1 havia desaparecido. Tiveste o cond\u00e3o de reavivar uma chama j\u00e1 apagada. Fizeste um milagre, que eu tinha por imposs\u00edvel. E confesso hoje, confesso sem hesita\u00e7\u00e3o, que tu vieste acordar um cora\u00e7\u00e3o morto, e morto por ti mesma. Bem hajas tu! teu, serei teu at\u00e9 \u00e0 morte!&#8230;<\/p>\n<p>A estas calorosas express\u00f5es, respondia Miloca com igual ardor. De uma de suas cartas, a quinta ou sexta, copio estas palavras:<\/p>\n<p>&#8230;Obrigada, meu Adolfo! tu \u00e9s generoso, tu soubeste perdoar, porque soubeste amar outra vez aquela a quem devias ter \u00f3dio. Bem cruel fui eu em n\u00e3o conhecer a grandeza de tua alma! Hoje que te compreendo, choro l\u00e1grimas de sangue, mas ao<br \/>\nmesmo tempo agrade\u00e7o ao c\u00e9u o ter-me dado a maior ventura desta vida, que \u00e9 lograr a ventura que uma vez se repeliu&#8230; Se tu soubesses como eu te amo, escrava, pobre, mendiga, castigada por ti e desprezada por ti, amo-te, amar-te-ei sempre! etc., etc.<\/p>\n<p>Numa situa\u00e7\u00e3o como esta, o desenlace parecia claro; nada obstava que se casassem dali a um m\u00eas. Miloca era maior e n\u00e3o tinha nenhum parente. Adolfo era livre. Tal era a solu\u00e7\u00e3o prevista por Leopoldina e seu marido; tal era a de Miloca.<\/p>\n<p>Mas quem sabe o que nos guarda o futuro? E a que desvairamentos n\u00e3o arrasta o amor quando os cora\u00e7\u00f5es s\u00e3o fracos? Um dia de manh\u00e3 Leopoldina achou-se s\u00f3; Miloca tinha desaparecido. Como, e por qu\u00ea, e de que modo? Ningu\u00e9m o soube. Com quem desaparecera, soube-se logo que fora Adolfo, que n\u00e3o voltou \u00e0 casa do deputado.<\/p>\n<p>Deixando-se arrastar pelo rapaz a quem amava, Miloca apenas consultou o seu cora\u00e7\u00e3o; quanto a Adolfo, nenhuma id\u00e9ia de vingan\u00e7a o dominara; cedeu a sugest\u00f5es de libertinagem.<\/p>\n<p>Durante cerca de um ano, ningu\u00e9m soube dos dois fugitivos. A princ\u00edpio soube-se que estavam na Tijuca; depois desapareceram dali sem que Leopoldina alcan\u00e7asse a not\u00edcia deles.<\/p>\n<p>Um ano depois do acontecimento narrado acima, reapareceu na corte o fugitivo Adolfo. Correu logo que vinha acompanhado da interessante Miloca. Casados? N\u00e3o; e esse passo dado no caminho do erro foi funesto \u00e0 ambiciosa mo\u00e7a. Que outra cousa podia ser? O mal engendra o mal.<\/p>\n<p>Adolfo parecia estar aborrecido da aventura; e todavia Miloca ainda o amava como no princ\u00edpio. Iludiu-se a respeito dele, nesses \u00faltimos tempos, mas afinal compreendeu que entre a atual situa\u00e7\u00e3o e o fervor dos primeiros dias havia um abismo. Ambos arrastaram a cadeia durante um ano mais, at\u00e9 que Adolfo embarcou para Europa sem dar not\u00edcia de si \u00e0 infeliz mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Miloca desapareceu tempos depois. Uns dizem que se fora \u00e0 cata de novas aventuras; outros que se matara. E havia raz\u00e3o para ambas estas vers\u00f5es. Se morreu a terra lhe seja leve!<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.cce.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAP\u00cdTULO PRIMEIRO D. Pulqu\u00e9ria da Assun\u00e7\u00e3o era uma senhora de seus sessenta anos, arguta, devota, gorda, paciente, cr\u00f4nica viva, catecismo ambulante. Era vi\u00fava de um capit\u00e3o de cavalaria que morrera em Monte Caseros deixando-lhe uma escassa pens\u00e3o e a boa vontade de um irm\u00e3o mais mo\u00e7o que possu\u00eda alguma cousa. Rodrigo era [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-116728","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Miloca , Machado de Assis Miloca<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Miloca, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Miloca\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Miloca , Machado de Assis Miloca\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Miloca, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Miloca\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-03-30T20:41:41+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"40 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/miloca#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/miloca\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Miloca\",\"datePublished\":\"2017-03-30T20:41:41+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/miloca\"},\"wordCount\":7983,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/miloca#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/miloca\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/miloca\",\"name\":\"Miloca , Machado de Assis Miloca\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-03-30T20:41:41+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"Miloca, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Miloca\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/miloca#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/miloca\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/miloca#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Miloca\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Miloca , Machado de Assis Miloca","description":"Miloca, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Miloca","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Miloca , Machado de Assis Miloca","og_description":"Miloca, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Miloca","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-03-30T20:41:41+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"40 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"Miloca","datePublished":"2017-03-30T20:41:41+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca"},"wordCount":7983,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca","name":"Miloca , Machado de Assis Miloca","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-03-30T20:41:41+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"Miloca, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Miloca","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miloca#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Miloca"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116728","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=116728"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116728\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=116728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=116728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=116728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}