{"id":116565,"date":"2017-03-29T19:13:18","date_gmt":"2017-03-29T21:13:18","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116565"},"modified":"2017-03-29T19:13:18","modified_gmt":"2017-03-29T21:13:18","slug":"marcha-funebre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/marcha-funebre","title":{"rendered":"Marcha F\u00fanebre"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>DEPUTADO Cordovil n\u00e3o podia pregar olho uma noite de agosto de 186&#8230; Vieracedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do Imperador, e durante o baile n\u00e3otivera o m\u00ednimo inc\u00f4modo moral nem f\u00edsico. Ao contr\u00e1rio, a noite foi excelente, t\u00e3oexcelente que um inimigo seu, que padecia do cora\u00e7\u00e3o, faleceu antes das dez horas, e anot\u00edcia chegou ao Cassino pouco depois das onze.Naturalmente concluis que ele ficou alegre com a morte do homem, esp\u00e9cie de vingan\u00e7aque os cora\u00e7\u00f5es adversos e fracos tomam em falta de outra. Digo-te que concluis mal;n\u00e3o foi alegria, foi desabafo. A morte vinha de meses, era daquelas que n\u00e3o acabammais, e moem, mordem, comem, trituram a pobre criatura humana. Cordovil sabia dospadecimentos do advers\u00e1rio. Alguns amigos, para o consolar de antigas inj\u00farias, iamcontar-lhe o que viam ou sabiam do enfermo, pregado a uma cadeira de bra\u00e7os, vivendoas noites horrivelmente, sem que as auroras lhe trouxessem esperan\u00e7as, nem as tardesdesenganos. Cordovil pagava-lhes com alguma palavra de compaix\u00e3o, que o alvissareiroadotava, e repetia, e era mais sincera naquele que neste. Enfim acabara de padecer; da\u00ed odesabafo.<\/p>\n<p>Este sentimento pegava com a piedade humana. Cordovil, salvo em pol\u00edtica, n\u00e3ogostava do mal alheio. Quando rezava, ao levantar da cama: &#8220;Padre Nosso, que est\u00e1s noc\u00e9u, santificado seja o teu nome, venha a n\u00f3s o teu reino, seja feita a tua vontade, assimna terra como no c\u00e9u, o p\u00e3o nosso de cada dia nos d\u00e1 hoje, perdoa as nossas d\u00edvidas,como n\u00f3s perdoamos aos nossos devedores&#8221;&#8230; n\u00e3o imitava um de seus amigos querezava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores, como dizia de l\u00edngua; essechegava a cobrar al\u00e9m do que eles lhe deviam, isto \u00e9, se ouvia maldizer de algu\u00e9m,decorava tudo e mais alguma cousa e ia repeti-lo a outra parte. No dia seguinte, por\u00e9m,a bela ora\u00e7\u00e3o de Jesus tornava a sair dos l\u00e1bios da v\u00e9spera com a mesma caridade deof\u00edcio.Cordovil n\u00e3o ia nas \u00e1guas desse amigo; perdoava deveras. Que entrasse no perd\u00e3o umtantinho de pregui\u00e7a, \u00e9 poss\u00edvel, sem ali\u00e1s ser evidente. Pregui\u00e7a amamenta muitavirtude. Sempre \u00e9 alguma cousa minguar for\u00e7a \u00e0 a\u00e7\u00e3o do mal. N\u00e3o esque\u00e7a que odeputado s\u00f3 gostava do mal alheio em pol\u00edtica, e o inimigo morto era inimigo pessoal.Quanto \u00e0 causa da inimizade, n\u00e3o a sei eu, e o nome do homem acabou com a vida.&#8211; Coitado! descansou, disse Cordovil.Conversaram da longa doen\u00e7a do finado . Tamb\u00e9m falaram das v\u00e1rias mortes destemundo, dizendo Cordovil que a todas preferia a de C\u00e9sar, n\u00e3o por motivo do ferro, maspor inesperada e r\u00e1pida.&#8211; Tu quoque? perguntou-lhe um colega rindo.Ao que ele, apanhando a alus\u00e3o, replicou:&#8211; Eu, se tivesse um filho, quisera morrer \u00e0s m\u00e3os dele. O parric\u00eddio, estando fora docomum, faria a trag\u00e9dia mais tr\u00e1gica.Tudo foi assim alegre. Cordovil saiu do baile com sono, e foi cochilando no carro,apesar do mal cal\u00e7ado das ruas. Perto de casa. sentiu parar o carro e ouviu rumor devozes. Era o caso de um defunto, que duas pra\u00e7as de pol\u00edcia estavam levantando do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Assassinado? perguntou ele ao lacaio, que descera da almofada para saber o que era.&#8211; N\u00e3o sei, n\u00e3o, senhor.&#8211; Pergunta o que \u00e9.&#8211; Este mo\u00e7o sabe como foi, disse o lacaio, indicando um desconhecido, que falava aoutros.O mo\u00e7o aproximou-se da portinhola, antes que o deputado recusasse ouvi-lo. Referiu-lhe ent\u00e3o em poucas palavras o acidente a que assistira.&#8211; V\u00ednhamos andando, ele adiante, eu atr\u00e1s. Parece que assobiava uma polca. Indo aatravessar a rua para o lado do Mangue, vi que estacou o passo, a modo que torceu ocorpo, n\u00e3o sei bem, e caiu sem sentidos. Um doutor, que chegou logo, descendo de umsobradinho, examinou o homem e disse que &#8220;morreu de repente&#8221;. Foi-se juntando gente,a patrulha levou muito tempo a chegar. Agora pegou dele. Quer ver o defunto?&#8211; N\u00e3o, obrigado. J\u00e1 se pode passar?&#8211; Pode.&#8211; Obrigado. Vamos, Domingos.Domingos trepou \u00e0 almofada, o cocheiro tocou os animais, e o carro seguiu at\u00e9 \u00e0 Rua deS. Crist\u00f3v\u00e3o, onde morava Cordovil.Antes de chegar \u00e0 casa , Cordovil foi pensando na morte do desconhecido. Em simesma, era boa; comparada \u00e0 do inimigo pessoal, excelente. Ia a assobiar, cuidandosabe Deus em que del\u00edcia passada ou em que esperan\u00e7a futura; revivia o que vivera, ouantevia o que podia viver, sen\u00e3o quando, a morte pegou da del\u00edcia ou da esperan\u00e7a, e l\u00e1<br \/>\nse foi o homem ao eterno repouso.<\/p>\n<p>Morreu sem dor, ou, se alguma teve, foi acasobrev\u00edssima, como um rel\u00e2mpago que deixa a escurid\u00e3o mais escura.Ent\u00e3o p\u00f4s o caso em si. Se lhe tem acontecido no Cassino a morte do Aterrado? N\u00e3oseria dan\u00e7ando; os seus quarenta anos n\u00e3o dan\u00e7avam. Podia at\u00e9 dizer que ele s\u00f3 dan\u00e7ouat\u00e9 aos vinte. N\u00e3o era dado a mo\u00e7as, tivera um afei\u00e7\u00e3o \u00fanica na vida, &#8212; aos vinte ecinco anos, casou e enviuvou ao cabo de cinco semanas para n\u00e3o casar mais. N\u00e3o \u00e9 quelhe faltassem noivas, &#8212; mormente depois de perder o av\u00f4, que lhe deixou duas fazendas.Vendeu-as ambas e passou a viver consigo, fez duas viagens \u00e0 Europa, continuou apol\u00edtica e a sociedade. Ultimamente parecia enojado de uma e de outra, mas n\u00e3o tendoem que matar o tempo, n\u00e3o abriu m\u00e3o delas. Chegou a ser ministro uma vez, creio queda Marinha, n\u00e3o passou de sete meses. Nem a pasta lhe deu gl\u00f3ria, nem a demiss\u00e3odesgosto. N\u00e3o era ambicioso, e mais puxava para a quieta\u00e7\u00e3o que para o movimento.Mas se lhe tivesse sucedido morrer de repente no Cassino, ante uma valsa ou quadrilha,entre duas portas? Podia ser muito bem. Cordovil comp\u00f4s de imagina\u00e7\u00e3o a cena, eleca\u00eddo de bru\u00e7os ou de costas, o prazer turbado, a dan\u00e7a interrompida&#8230; e dali podia serque n\u00e3o; um pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas, aorquestra continuando por instantes a oposi\u00e7\u00e3o do compasso e da confus\u00e3o. N\u00e3ofaltariam bra\u00e7os que o levassem para um gabinete, j\u00e1 morto, totalmente morto.&#8221;Tal qual a morte de C\u00e9sar&#8221;, ia dizendo consigo.E logo emendou:&#8221;N\u00e3o, melhor que ela; sem amea\u00e7a, nem armas, nem sangue, uma simples queda e ofim. N\u00e3o sentiria nada.&#8221;Cordovil deu consigo a rir ou a sorrir, alguma cousa que afastava o terror e deixava asensa\u00e7\u00e3o da liberdade. Em verdade, antes a morte assim que ap\u00f3s longos dias ou longosmeses e anos, como o advers\u00e1rio que perdera algumas horas antes. Nem era morrer; eraum gesto de chap\u00e9u, que se perdia no ar com a pr\u00f3pria m\u00e3o e a alma que lhe deramovimento. Um cochilo e o sono eterno. Achava-lhe um s\u00f3 defeito, &#8212; o aparato. Essamorte no meio de um baile defronte do Imperador, ao som de Strauss, contada, pintada, enfeitada nas folhas p\u00fablicas, essa morte pareceria de encomenda.<\/p>\n<p>Paci\u00eancia, uma vezque fosse repentina.Tamb\u00e9m pensou que podia ser na C\u00e2mara, no dia seguinte, ao come\u00e7ar o debate door\u00e7amento. Tinha a palavra; j\u00e1 andava cheio de algarismos e cita\u00e7\u00f5es. N\u00e3o quisimaginar o caso, n\u00e3o valia a pena; mas o caso teimou e apareceu de si mesmo. O sal\u00e3oda C\u00e2mara, em vez do do Cassino, sem damas ou com poucas, nas tribunas. Vastosil\u00eancio. Cordovil em p\u00e9 come\u00e7aria o discurso, depois de circular os olhos pela casa,fitar o ministro e fitar o presidente: &#8220;Releve-me a C\u00e2mara que lhe tome algum tempo,serei breve, buscarei ser justo&#8230;&#8221; Aqui uma nuvem lhe taparia os olhos, a l\u00edngua pararia,o cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, e ele cairia de golpe no ch\u00e3o. C\u00e2mara, galerias, tribunas ficariamassombradas. Muitos deputados correriam a ergu\u00ea-lo; um, que era m\u00e9dico, verificaria amorte; n\u00e3o diria que fora de repente, como o do sobradinho do Aterrado, mas por outroestilo mais t\u00e9cnico. Os trabalhos seriam suspensos, depois de algumas palavras dopresidente e escolha da comiss\u00e3o que acompanharia o finado ao cemit\u00e9rio &#8230;Cordovil quis rir da circunst\u00e2ncia de imaginar al\u00e9m da morte, o movimento e osaimento, as pr\u00f3prias not\u00edcias dos jornais, que ele leu de cor e depressa. Quis rir, maspreferia cochilar; os olhos \u00e9 que, estando j\u00e1 perto de casa e da cama, n\u00e3o quiseramdesperdi\u00e7ar o sono, e ficaram arregalados.Ent\u00e3o a morte, que ele imaginara pudesse ter sido no baile, antes de sair, ou no diaseguinte em plena sess\u00e3o da C\u00e2mara, apareceu ali mesmo no carro. Sup\u00f4s ele que, aoabrirem-lhe a portinhola, dessem com o seu cad\u00e1ver. Sairia assim de uma noite ruidosapara outra pac\u00edfica, sem conversas, nem dan\u00e7as, nem encontros, sem esp\u00e9cie alguma deluta ou resist\u00eancia. O estreme\u00e7\u00e3o que teve fez-lhe ver que n\u00e3o era verdade.Efetivamente, o carro entrou na ch\u00e1cara, estacou, e Domingos saltou da almofada paravir abrir-lhe a portinhola. Cordovil desceu com as pernas e a alma vivas, e entrou pelaporta lateral, onde o aguardava com um casti\u00e7al e vela acesa o escravo Florindo. Subiu aescada, e os p\u00e9s sentiam que os degraus eram deste mundo; se fossem do outro,desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no quarto, olhou para a cama; era a mesmados sonos quietos e demorados.&#8211; Veio algu\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, senhor, respondeu o escravo distra\u00eddo, mas corrigiu logo: Veio, sim, senhor;veio aquele doutor que almo\u00e7ou com meu senhor domingo passado.&#8211; Queria alguma cousa?&#8211; Disse que vinha dar a meu senhor uma boa not\u00edcia, e deixou este bilhete &#8212; que eubotei ao p\u00e9 da cama.O bilhete referia a morte do inimigo; era de um dos amigos que usavam contar-lhe amarcha da mol\u00e9stia. Quis ser o primeiro a anunciar o desenlace, um alegr\u00e3o, com umabra\u00e7o apertado. Enfim, morrera o patife. N\u00e3o disse a cousa assim por esses termosclaros, mas os que empregou vinham a dar neles, acrescendo que n\u00e3o atribuiu esse \u00fanicoobjeto \u00e0 visita. Vinha passar a noite; s\u00f3 ali soube que Cordovil fora ao Cassino. Ia a sair,quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo que lhe deixasse escrever duas linhas.Cordovil entendeu o significado, e ainda uma vez lhe doeu a agonia do outro. Fez umgesto de melancolia e exclamou a meia voz:&#8211; Coitado! Vivam as mortes s\u00fabitas!Florindo, se referisse o gesto e a frase ao doutor do bilhete, talvez o fizesse arrependerda canseira. Nem pensou nisso; ajudou o senhor a preparar-se para dormir, ouviu as\u00faltimas ordens e despediu-se. Cordovil deitou-se.&#8211; Ah! suspirou ele estirando o corpo cansado.Teve ent\u00e3o uma id\u00e9ia, a de amanhecer morto. Esta hip\u00f3tese, a melhor de todas, porque oapanharia meio morto, trouxe consigo mil fantasias que lhe arredaram o sono dos olhos.Em parte, era a repeti\u00e7\u00e3o das outras, a participa\u00e7\u00e3o \u00e0 C\u00e2mara, as palavras do presidente,comiss\u00e3o para o saimento, e o resto. Ouviu l\u00e1stimas de amigos e de f\u00e2mulos, viunot\u00edcias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a desconfiar que era j\u00e1 sonho.N\u00e3o era. Chamou-se ao quarto, \u00e0 cama, a si mesmo: estava acordado.<\/p>\n<p>A lamparina deu melhor corpo \u00e0 realidade. Cordovil espancou as id\u00e9ias f\u00fanebres eesperou que as alegres tomassem conta dele e dan\u00e7assem at\u00e9 cans\u00e1-lo. Tentou venceruma vis\u00e3o com outra. Fez at\u00e9 uma cousa engenhosa, convocou os cinco sentidos, porquea mem\u00f3ria de todos eles era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgoslongamente extintos. Gestos, cenas de sociedade e de fam\u00edlia, panoramas, repassoumuita cousa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto. Deixara de comer acepipesque outra vez lhe sabiam, como se estivesse agora a mastig\u00e1-los. Os ouvidos escutavampassos leves e pesados, cantos joviais e tristes, e palavra de todos os feitios. O tacto, oolfato, todos fizeram o seu of\u00edcio, durante um prazo que ele n\u00e3o calculou.Cuidou de dormir e cerrou bem os olhos. N\u00e3o p\u00f4de, nem do lado direito, nem doesquerdo, de costas nem de bru\u00e7os. Ergueu-se e foi ao rel\u00f3gio; eram tr\u00eas horas.Insensivelmente levou-o \u00e0 orelha a ver se estava parado; estava andando, dera-lhe corda.Sim, tinha tempo de dormir um bom sono; deitou-se, cobriu a cabe\u00e7a para n\u00e3o ver a luz.Ah! foi ent\u00e3o que o sono tentou entrar, calado e surdo, todo cautelas, como seria amorte, se quisesse lev\u00e1-lo de repente, para nunca mais. Cordovil cerrou os olhos comfor\u00e7a, e fez mal, porque a for\u00e7a acentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de osafrouxar, e fez bem. O sono, que ia a recuar, tornou atr\u00e1s, e veio estirar-se ao lado deles,passando-lhe aqueles bra\u00e7os leves e pesados, a um tempo, que tiram \u00e0 pessoa todomovimento. Cordovil os sentia, e com os seus quis concheg\u00e1-los ainda mais&#8230; Aimagem n\u00e3o \u00e9 boa, mas n\u00e3o tenho outra \u00e0 m\u00e3o nem tempo de ir busc\u00e1-la. Digo s\u00f3 oresultado do gesto, que foi arredar o sono de si, t\u00e3o aborrecido ficou este reformador decansados.&#8211; Que ter\u00e1 ele hoje contra mim? perguntaria o sono, se falasse.Tu sabes que ele \u00e9 mudo por ess\u00eancia. Quando parece que fala \u00e9 o sonho que abre aboca \u00e0 pessoa, ele n\u00e3o, ele \u00e9 a pedra, e ainda a pedra fala, se lhe batem, como est\u00e3ofazendo agora os calceteiros da minha rua. Cada pancada acorda na pedra um som, e aregularidade do gesto torna aquele som t\u00e3o pontual que parece a alma de um rel\u00f3gio.Vozes de conversa ou de preg\u00e3o, rodas de carro, passos de gente, uma janela batida pelovento, nada dessas cousas que ora ou\u00e7o, animava ent\u00e3o a rua e a noite de Cordovil.Tudo era prop\u00edcio ao sono.<\/p>\n<p>Cordovil ia finalmente dormir, quando a id\u00e9ia de amanhecer morto apareceu outra vez.O sono recuou e fugiu. Esta alternativa durou muito tempo. Sempre que o sono ia agrudar-lhe os olhos, a lembran\u00e7a da morte os abria, at\u00e9 que ele sacudiu o len\u00e7ol e saiuda cama. Abriu uma janela e encostou-se ao peitoril. O c\u00e9u queria clarear, alguns vultosiam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para o centro da cidade.Cordovil sentiu um arrepio; n\u00e3o sabendo se era frio ou medo, foi vestir um camis\u00e3o dechita, e voltou para a janela. Parece que era frio, porque n\u00e3o sentia mais nada.A gente continuava a passar, o c\u00e9u a clarear, um assobio da estrada de ferro deu sinal detrem que ia partir. Homens e cousas vinham do descanso, o c\u00e9u fazia economia deestrelas, apagando-as \u00e0 medida que o sol ia chegando para o seu of\u00edcio. Tudo dava id\u00e9iade vida. Naturalmente a id\u00e9ia da morte foi recuando e desapareceu de todo, enquanto onosso homem, que suspirou por ela no Cassino, que a desejou para o dia seguinte naC\u00e2mara dos Deputados, que a encarou no carro, voltou-lhe as costas quando a viu entrarcom o sono, seu irm\u00e3o mais velho, &#8212; ou mais mo\u00e7o n\u00e3o sei.Quando veio a falecer, muitos anos depois, pediu e teve a morte, n\u00e3o s\u00fabita, masvagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sai impuro de uma garrafa para entrarpurificado em outra; a borra iria; para o cemit\u00e9rio. Agora \u00e9 que lhe via a filosofia; emambas as garrafas era sempre o vinho que ia ficando, at\u00e9 passar inteiro e pingado para asegunda. Morte s\u00fabita n\u00e3o acabava de entender o que era.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis DEPUTADO Cordovil n\u00e3o podia pregar olho uma noite de agosto de 186&#8230; Vieracedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do Imperador, e durante o baile n\u00e3otivera o m\u00ednimo inc\u00f4modo moral nem f\u00edsico. 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