{"id":116563,"date":"2017-03-29T19:11:43","date_gmt":"2017-03-29T21:11:43","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116563"},"modified":"2017-03-29T19:11:43","modified_gmt":"2017-03-29T21:11:43","slug":"longe-dos-olhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/longe-dos-olhos","title":{"rendered":"Longe dos Olhos"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1876<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Na verdade, era pena que uma mo\u00e7a t\u00e3o prendada de qualidades morais e f\u00edsicas, como a filha do desembargador, nenhum sentimento inspirasse ao bacharel Aguiar. Mas n\u00e3o a lastime a leitora, porque o bacharel Aguiar nada dizia ao cora\u00e7\u00e3o de Serafina, apesar dos seus talentos, da rara eleg\u00e2ncia das suas maneiras, de todos quantos dotes costumam adornar um her\u00f3i de romance.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 romance isto, sen\u00e3o hist\u00f3ria ver\u00eddica e real, pelo que, vai esta narrativa com as ex\u00edguas propor\u00e7\u00f5es de uma not\u00edcia, sem enfeites de estilo nem recheio de reflex\u00f5es. O caso conto como o caso foi.<\/p>\n<p>Sabido que os dois se n\u00e3o amavam nem pendiam para l\u00e1, conv\u00e9m saber mais que o gosto, o plano e n\u00e3o sei se tamb\u00e9m o interesse dos pais \u00e9 que eles se amassem e casassem. Os pais punham uma coisa, e Deus dispunha outra. O comendador Aguiar, pai do bacharel, insistia ainda mais no casamento, pelo desejo que tinha de o meter na pol\u00edtica, o que lhe parecia f\u00e1cil desde que o filho se tornasse genro do desembargador, membro ativ\u00edssimo de um dos partidos e por agora deputado \u00e0 Assembl\u00e9ia Geral.<\/p>\n<p>O desembargador pela sua parte achava que lhe n\u00e3o fazia mal nenhum a filha participar da pingue heran\u00e7a que devia receber o filho do comendador, por morte deste.<\/p>\n<p>Pena era que os dois jovens, esperan\u00e7as de seus pais, derrubassem todos estes planos olhando um para o outro com a m\u00e1xima indiferen\u00e7a. As fam\u00edlias visitavam-se freq\u00fcentemente, as reuni\u00f5es e as festas sucediam-se, mas nem Aguiar nem Serafina pareciam dar um passo para o outro. T\u00e3o grave caso exigia pronto rem\u00e9dio, e foi o comendador quem tomou a resolu\u00e7\u00e3o de lho dar sondando o esp\u00edrito do bacharel.<\/p>\n<p>\u2014 Jo\u00e3o, disse o velho pai certa noite de domingo, depois do ch\u00e1, achando-se com o filho a s\u00f3s no gabinete: Acaso nunca pensaste em ser homem pol\u00edtico?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! nunca! respondeu o bacharel espantado com a pergunta. Por que raz\u00e3o pensaria eu na pol\u00edtica?<\/p>\n<p>\u2014 Pela mesma raz\u00e3o porque outros pensam&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o tenho voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 A voca\u00e7\u00e3o faz-se.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o sorriu.<\/p>\n<p>O pai continuou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te fa\u00e7o esta pergunta \u00e0 toa. J\u00e1 houve quem me perguntasse a mesma coisa a teu respeito, eu n\u00e3o tive que responder porque a falar verdade as raz\u00f5es que me davam eram de peso.<\/p>\n<p>\u2014 Quais eram?<\/p>\n<p>\u2014 Diziam-me que tu andavas em col\u00f3quios e confer\u00eancias com o desembargador.<\/p>\n<p>\u2014 Eu? Mas naturalmente converso com ele; \u00e9 pessoa da nossa amizade.<\/p>\n<p>\u2014 Foi o que eu disse. A pessoa pareceu convencer-se da raz\u00e3o que eu lhe dava, e ent\u00e3o imaginou outra coisa&#8230;<\/p>\n<p>O bacharel arregalou os olhos \u00e0 espera de ouvir outra coisa, enquanto o comendador acendia um charuto.<\/p>\n<p>\u2014 Imaginou ent\u00e3o, continuou o comendador puxando uma fuma\u00e7a, que tu andavas&#8230; quero dizer&#8230; que pretendias&#8230; em suma, um namoro!<\/p>\n<p>\u2014 Um namoro!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Com o desembargador?<\/p>\n<p>\u2014 Velhaco! com a filha.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar deu uma gargalhada. O pai pareceu rir tamb\u00e9m, mas reparando bem n\u00e3o era um riso, era uma careta.<\/p>\n<p>Depois de um sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o vejo que houvesse alguma coisa de admirar, disse o comendador; tem-se visto namorar muito rapaz e muita mo\u00e7a. Tu est\u00e1s na idade do casamento, ela tamb\u00e9m; nossas fam\u00edlias visitam-se com freq\u00fc\u00eancia; voc\u00eas falam-se com intimidade. Que admira que um estranho supusesse alguma coisa?<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o; mas n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Pois tanto melhor&#8230; ou tanto pior.<\/p>\n<p>\u2014 Pior?<\/p>\n<p>\u2014 Magan\u00e3o! disse o velho pai afetando um ar galhofeiro, parece-te que a mo\u00e7a \u00e9 algum peixe podre? Pela minha parte, entre as mo\u00e7as com que temos rela\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia, nenhuma acho que se lhe compare.<\/p>\n<p>\u2014 Oh!<\/p>\n<p>\u2014 Oh! qu\u00ea!<\/p>\n<p>\u2014 Protesto.<\/p>\n<p>\u2014 Protestas? Achas ent\u00e3o que ela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Acho que \u00e9 muito formosa e prendada, mas n\u00e3o acho que seja a mais formosa e prendada de todas as que conhecemos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mostra-me alguma&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, h\u00e1 tantas!<\/p>\n<p>\u2014 Mostra-me uma.<\/p>\n<p>\u2014 A Cec\u00edlia por exemplo, a Cec\u00edlia Rodrigues, para o meu gosto \u00e9 muito mais bonita que a filha do desembargador.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digas isso; uma lambisg\u00f3ia!<\/p>\n<p>\u2014 Meu pai! disse Jo\u00e3o Aguiar com um tom de ressentimento que fez pasmar o comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? perguntou este.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar n\u00e3o respondeu. O comendador arrugou a testa e interrogou o rosto mudo do filho. N\u00e3o leu, mas adivinhou alguma coisa desastrosa; \u2014 desastrosa, entenda-se, para os seus c\u00e1lculos c\u00f4njugo-pol\u00edticos ou pol\u00edtico-conjugais, como melhor nome haja.<\/p>\n<p>\u2014 Dar-se-\u00e1 caso que&#8230; come\u00e7ou a dizer o comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Que eu a namore? interrompeu galhofeiramente o filho.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o era isso o que te ia perguntar, acudiu o comendador (que ali\u00e1s n\u00e3o ia perguntar outra coisa), mas visto que tocaste nesse ponto, n\u00e3o era mau que me dissesses&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A verdade?<\/p>\n<p>\u2014 A singela verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Gosto dela, ela gosta de mim, e aproveito esta ocasi\u00e3o meu pai, para&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Para nada, Jo\u00e3o!<\/p>\n<p>O bacharel fez um gesto de espanto.<\/p>\n<p>\u2014 Casar, n\u00e3o \u00e9? perguntou o comendador. Mas tu n\u00e3o v\u00eas a impossibilidade de semelhante coisa? Imposs\u00edvel, n\u00e3o digo que seja; tudo pode acontecer neste mundo, se a natureza o pede. Mas a sociedade tem suas leis que n\u00e3o devemos violar, e segundo elas esse casamento \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>\u2014 Tu levas-lhe em dote os meus bens, a tua carta de bacharel e um princ\u00edpio de carreira. Que te traz ela? Nem sequer essa beleza que s\u00f3 tu lhe v\u00eas. Demais, e isto \u00e9 o importante, n\u00e3o se dizem boas coisas daquela fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Cal\u00fanias!<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser, mas cal\u00fanias que correm e se acreditam; e visto que tu n\u00e3o podes fazer na v\u00e9spera do casamento um manifesto aos povos desmentindo o que se diz e provando que nada \u00e9 verdade, segue-se que as cal\u00fanias triunfar\u00e3o.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que o bacharel conversava com o pai a respeito daquele grave ponto do seu cora\u00e7\u00e3o. Aturdido com as obje\u00e7\u00f5es dele, n\u00e3o achou logo que responder e todo se limitou a interromp\u00ea-lo com um ou outro monoss\u00edlabo. O comendador continuou no mesmo tom e concluiu dizendo que esperava dele n\u00e3o lhe desse um grave desgosto no fim da vida.<\/p>\n<p>\u2014 Por que te n\u00e3o levou a fantasia \u00e0 filha do desembargador ou outra nas mesmas condi\u00e7\u00f5es? A Cec\u00edlia, n\u00e3o, nunca ser\u00e1 minha nora. Pode casar contigo, \u00e9 verdade, mas ent\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1s meu filho.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar n\u00e3o achou que responder ao pai. Ainda que achasse, n\u00e3o o poderia fazer porque quando deu acordo de si ele estava longe.<\/p>\n<p>O bacharel foi para o seu quarto.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Entrando no quarto, Jo\u00e3o Aguiar fez alguns gestos de enfado e zanga e de si para si prometeu que, embora n\u00e3o agradasse ao pai, havia de casar com a formosa Cec\u00edlia, cujo amor era para ele j\u00e1 uma necessidade da vida&#8230; O pobre rapaz t\u00e3o depressa fez este protesto como entrou a ficar frio com a id\u00e9ia de uma luta, que se lhe afigurava odiosa para ele e para o pai, em todo o caso triste para ambos. As palavras deste relativamente \u00e0 fam\u00edlia da namorada fizeram-lhe grave impress\u00e3o no esp\u00edrito; mas ele concluiu, que ainda sendo verdadeira a murmura\u00e7\u00e3o, nada tinha com isso a formosa Cec\u00edlia, cujas qualidades morais estavam acima de todo o elogio.<\/p>\n<p>A noite correu assim nestas e noutras reflex\u00f5es at\u00e9 que o bacharel dormiu e na manh\u00e3 seguinte alguma coisa se lhe havia dissipado das apreens\u00f5es da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo se pode vencer, disse ele; o que \u00e9 preciso \u00e9 ser constante.<\/p>\n<p>O comendador, por\u00e9m, tinha dado o passo mais dif\u00edcil que era falar no assunto ao filho; vencido o natural acanhamento que resultava da situa\u00e7\u00e3o de ambos, aquele assunto tornou-se assunto obrigado de quase todos os dias. As visitas \u00e0 casa do desembargador amiudaram-se; amiudaram-se igualmente as deste \u00e0 casa do comendador. Os dois jovens foram assim metidos \u00e0 casa um do outro; mas se Jo\u00e3o Aguiar parecia frio, Serafina parecia g\u00e9lida. Os dois estimavam-se antes, e ainda se estimavam ent\u00e3o; entretanto, a nova situa\u00e7\u00e3o que lhes haviam criado, estabelecera entre ambos uma certa repulsa que a polidez mal disfar\u00e7ava.<\/p>\n<p>Porquanto, leitora amiga, o desembargador fizera \u00e0 filha um discurso igual ao do comendador. As qualidades do bacharel foram postas em relevo com suma habilidade; as raz\u00f5es financeiras do casamento, melhor direi as vantagens dele foram levemente indicadas de maneira a desenhar aos olhos da mo\u00e7a um brilhante futuro de p\u00e9rolas e carruagens.<\/p>\n<p>Infelizmente (tudo se conspirava contra os dois pais), infelizmente havia no cora\u00e7\u00e3o de Serafina um obst\u00e1culo semelhante ao que Jo\u00e3o Aguiar tinha no seu, Serafina amava a outro. N\u00e3o se atreveu a diz\u00ea-lo ao pai, mas foi diz\u00ea-lo a sua m\u00e3e, que n\u00e3o aprovou nem desaprovou a escolha visto que a senhora pensava pela boca do marido, a quem foi transmitida a revela\u00e7\u00e3o da filha.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 uma loucura, exclamou o desembargador; esse rapaz (o escolhido) \u00e9 bom cora\u00e7\u00e3o, tem carreira, mas a carreira est\u00e1 no princ\u00edpio, e demais&#8230; creio que \u00e9 um pouco leviano.<\/p>\n<p>Serafina soube deste ju\u00edzo do pai e chorou muito; mas nem o pai soube das l\u00e1grimas nem que soubesse mudaria de inten\u00e7\u00e3o. Um homem grave, quando resolve uma coisa, n\u00e3o deve expor-se ao rid\u00edculo, resolvendo outra unicamente levado de algumas l\u00e1grimas de mulher. Demais, a tenacidade \u00e9 prova de car\u00e1ter; o desembargador era e queria ser homem austero. Conclus\u00e3o; a mo\u00e7a chorou \u00e0 toa, e s\u00f3 violando as leis da obedi\u00eancia, poderia realizar os desejos do seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que fez ent\u00e3o ela? Recorreu ao tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Quando meu pai vir que eu sou constante, pensou Serafina, h\u00e1 de consentir no que pede o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E dizendo isto, entrou a lembrar-se das amigas a quem acontecera o mesmo e que \u00e0 for\u00e7a de paci\u00eancia e tenacidade domaram os pais. O exemplo alentou-a; sua resolu\u00e7\u00e3o era definitiva.<\/p>\n<p>Outra esperan\u00e7a tinha a filha do desembargador; era que o filho do comendador se casasse, o que n\u00e3o era imposs\u00edvel nem improv\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nesse caso, cumpria-lhe ser com Jo\u00e3o Aguiar extremamente reservada a fim de que ele n\u00e3o viesse a conceber esperan\u00e7as a seu respeito, o que tornaria muito prec\u00e1ria a situa\u00e7\u00e3o e daria triunfo ao pai. Ignorava a boa mo\u00e7a que Jo\u00e3o Aguiar fazia a mesma reflex\u00e3o, e pelo mesmo motivo se mostrava frio com ela.<\/p>\n<p>Um dia, andando as duas fam\u00edlias na ch\u00e1cara da casa do comendador, em Andara\u00ed, aconteceu encontrarem-se os dois numa alameda, quando justamente n\u00e3o passava ningu\u00e9m. Ambos mostraram-se incomodados com aquele encontro e de boa vontade teriam recuado; mas n\u00e3o era natural nem bonito.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar resolveu cumpriment\u00e1-la apenas e ir adiante, como quem levava o pensamento preocupado. Parece que isto foi fingido demais, porque no melhor do papel, Jo\u00e3o Aguiar trope\u00e7a num peda\u00e7o de cana que se achava no ch\u00e3o e cai.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a deu dois passos para ele, que apressadamente se levantou:<\/p>\n<p>\u2014 Machucou-se? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, D. Serafina, n\u00e3o me machuquei, disse ele, limpando com o len\u00e7o os joelhos e as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Papai est\u00e1 cansado de ralhar com o feitor; mas \u00e9 o mesmo que nada.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar apanhou o peda\u00e7o de cana e atirou-o para uma moita de bambus. Durante esse tempo vinha-se aproximando um mo\u00e7o, visita da casa, e Serafina pareceu um tanto confusa com a presen\u00e7a dele, n\u00e3o porque ele viesse mas por ach\u00e1-la a conversar com o bacharel. A leitora, que \u00e9 perspicaz, adivinhou j\u00e1 que \u00e9 o namorado de Serafina; e Jo\u00e3o Aguiar, que n\u00e3o \u00e9 menos perspicaz que a leitora, percebeu a coisa do mesmo modo.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda bem, disse ele consigo.<\/p>\n<p>E cumprimentando a mo\u00e7a e o rapaz ia seguindo pela alameda fora quando Serafina amavelmente o chamou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o nos acompanha? disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 Com muito gosto, balbuciou o bacharel.<\/p>\n<p>Serafina fez um sinal ao namorado para que ele se tranq\u00fcilizasse, e os tr\u00eas seguiram a conversar de coisas que n\u00e3o interessam \u00e0 nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o; h\u00e1 uma que interessa e n\u00e3o posso omitir.<\/p>\n<p>Tavares, o namorado da filha do desembargador, n\u00e3o compreendeu que ela, chamando o filho do comendador a seguir caminho com eles, tinha por fim evitar que o pai ou a m\u00e3e a encontrasse s\u00f3 com o namorado, o que agravaria singularmente a situa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 namorados a quem \u00e9 preciso dizer tudo; Tavares era um deles. Inteligente e atilado em todas as outras coisas, era neste particular uma verdadeira toupeira.<\/p>\n<p>Por esse motivo, apenas ouviu o convite da mo\u00e7a, a cara, que j\u00e1 anunciava mau tempo, passou a anunciar temporal desfeito, o que tamb\u00e9m n\u00e3o escapou ao bacharel.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe que o Dr. Aguiar levou agora uma queda? disse Serafina olhando para Tavares.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o desastrosa, disse o bacharel, isto \u00e9, n\u00e3o me fez mal nenhum; mas&#8230; rid\u00edcula.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! protestou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Uma queda \u00e9 sempre rid\u00edcula, tornou Jo\u00e3o Aguiar em tom axiom\u00e1tico; e podem j\u00e1 imaginar o que seria do meu futuro, se eu fosse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea? perguntou Serafina.<\/p>\n<p>\u2014 Seu namorado.<\/p>\n<p>\u2014 Que id\u00e9ia! exclamou Serafina.<\/p>\n<p>\u2014 Que d\u00favida pode haver nisso? perguntou Tavares com um sorriso ir\u00f4nico.<\/p>\n<p>Serafina estremeceu e baixou os olhos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar respondeu rindo:<\/p>\n<p>\u2014 A coisa era poss\u00edvel, mas deplor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Serafina lan\u00e7ou um olhar de repreens\u00e3o ao seu namorado e voltou-se rindo para o bacharel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o diz isso por desd\u00e9m, acho eu?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! por quem \u00e9! Digo isto porque&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed vem Cec\u00edlia! exclamou a irm\u00e3 mais mo\u00e7a de Serafina, aparecendo no fim da alameda.<\/p>\n<p>Serafina que estava a olhar para o filho do comendador viu-o estremecer e sorriu-se. O bacharel olhou para o lado de onde logo apareceu a dama dos seus pensamentos. A filha do desembargador inclinou-se para o ouvido de Tavares e murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Ele diz isto&#8230; por causa daquilo.<\/p>\n<p>Aquilo era a Cec\u00edlia que chegava, n\u00e3o t\u00e3o formosa quanto queria Jo\u00e3o Aguiar, nem t\u00e3o pouco como parecia ao comendador.<\/p>\n<p>Aquele encontro casual na alameda, aquela queda, aquela vinda de Tavares e de Cec\u00edlia t\u00e3o a prop\u00f3sito, tudo melhorou a situa\u00e7\u00e3o e desafogou a alma dos dois jovens destinados por seus pais a um casamento que lhes parecia odioso.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>De inimigos que deviam ser os dois condenados ao casamento passaram a ser naturalmente aliados. Esta alian\u00e7a veio devagar, porque, apesar de tudo, ainda se passaram algumas semanas sem que nenhum deles comunicasse ao outro a situa\u00e7\u00e3o em que se achava.<\/p>\n<p>O bacharel foi o primeiro que falou, e n\u00e3o ficou pouco pasmado ao saber que o desembargador nutria a respeito da filha igual plano ao de seu pai. Haveria acordo dos dois pais? foi a primeira pergunta que ambos fizeram consigo mesmo; mas houvesse ou n\u00e3o, o perigo para eles n\u00e3o diminu\u00eda nem aumentava.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! sem d\u00favida, dizia Jo\u00e3o Aguiar, sem d\u00favida que eu seria muito feliz se os desejos de nossos pais correspondessem aos de nossos cora\u00e7\u00f5es; mas h\u00e1 um abismo entre n\u00f3s e a uni\u00e3o seria&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Uma desgra\u00e7a, conclu\u00eda afoitamente a mo\u00e7a. Pela minha parte, confio no tempo; confio sobretudo em mim; ningu\u00e9m leva uma mo\u00e7a \u00e0 for\u00e7a para a igreja e quando tal coisa se fizesse ningu\u00e9m lhe podia arrancar dos l\u00e1bios uma palavra por outra.<\/p>\n<p>\u2014 Todavia, nada impede que \u00e0 liga de nossos pais, disse Jo\u00e3o Aguiar, opus\u00e9ssemos n\u00f3s uma liga&#8230; n\u00f3s quatro.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea? disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A verdadeira liga \u00e9 a vontade. Sente-se com for\u00e7a de ceder? Ent\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o ama&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! amo como se pode amar!<\/p>\n<p>\u2014 Ah!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A senhora \u00e9 bela; mas Cec\u00edlia tamb\u00e9m o \u00e9, e o que eu vejo nela n\u00e3o \u00e9 a beleza, quero dizer as gra\u00e7as f\u00edsicas, \u00e9 a alma incompar\u00e1vel que Deus lhe deu!<\/p>\n<p>\u2014 Amam-se h\u00e1 muito?<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 sete meses.<\/p>\n<p>\u2014 Admira que ela nunca me dissesse nada.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez receio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 De qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 De revelar o segredo do seu cora\u00e7\u00e3o&#8230; Bem sei que n\u00e3o h\u00e1 crime nisto, todavia pode ser que por um sentimento de discri\u00e7\u00e3o exagerada.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o, disse Serafina depois de alguns instantes; tamb\u00e9m eu nada lhe disse a meu respeito. Demais, entre n\u00f3s n\u00e3o h\u00e1 grande intimidade.<\/p>\n<p>\u2014 Mas deve haver, h\u00e1 de haver, disse o filho do comendador. V\u00ea-se que nasceram para ser amigas; ambas t\u00e3o igualmente boas e belas. Cec\u00edlia \u00e9 um anjo&#8230; Se soubesse o que me disse quando eu lhe contei a proposta de meu pai!<\/p>\n<p>\u2014 Que disse?<\/p>\n<p>\u2014 Estendeu-me a m\u00e3o apenas; foi tudo quanto me disse; mas esse gesto era t\u00e3o eloq\u00fcente! Eu traduzi-o por uma express\u00e3o de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Foi mais feliz do que eu?<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o falemos nisto. O essencial \u00e9 que tanto eu como o senhor tenhamos feito uma boa escolha. O c\u00e9u h\u00e1 de proteger-nos; estou certa disso.<\/p>\n<p>A conversa continuou assim por este modo singelo e franco. Os dois pais, que ignoravam absolutamente o objeto da conversa deles, imaginavam que a natureza os ajudava no plano do casamento e, longe de impedir, lhes facilitavam as ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a este equ\u00edvoco, os dois podiam repetir essas doces pr\u00e1ticas em que cada um ouvia o seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o e falava do objeto escolhido por ele. N\u00e3o era um di\u00e1logo, eram dois mon\u00f3logos, algumas vezes interrompidos mas sempre longos e cheios de anima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o tempo vieram eles a fazer-se confidentes mais \u00edntimos; esperan\u00e7as, arrufos, ci\u00fames, todas as alternativas de um namoro, comunicados um ao outro; um ao outro se consolavam e se aconselhavam em casos em que eram necess\u00e1rios consola\u00e7\u00e3o e conselho.<\/p>\n<p>Um dia o comendador disse ao filho que era conhecido o namoro dele com a filha do desembargador, e que o casamento podia ser feito naquele ano.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar caiu das nuvens. Compreendeu, por\u00e9m, que a apar\u00eancia enganava ao pai, e o mesmo podia acontecer \u00e0s pessoas estranhas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas nada h\u00e1, meu pai.<\/p>\n<p>\u2014 Nada?<\/p>\n<p>\u2014 Juro-lhe que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Retira-te e lembra-te do que te disse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>O comendador havia j\u00e1 voltado as costas. Jo\u00e3o Aguiar ficou s\u00f3 a bra\u00e7os com a nova dificuldade. Para ele, a necessidade de uma confidente era j\u00e1 invenc\u00edvel. E onde acharia melhor que a filha do desembargador? Era id\u00eantica a situa\u00e7\u00e3o de ambos, iguais os interesses; al\u00e9m disso, havia em Serafina uma soma de sensibilidade, uma reflex\u00e3o, uma prud\u00eancia, uma confian\u00e7a, como ele n\u00e3o encontraria em nenhuma outra pessoa. Ainda quando a outra pessoa pudesse dizer-lhe as mesmas coisas que a filha do desembargador, n\u00e3o lhas diria com a mesma gra\u00e7a, e a mesma do\u00e7ura; um n\u00e3o sei o que o levava a lastimar n\u00e3o poder faz\u00ea-la feliz.<\/p>\n<p>\u2014 Meu pai, tem raz\u00e3o, dizia ele \u00e0s vezes consigo; se eu n\u00e3o amasse a outra, devia amar a esta, que \u00e9 certamente compar\u00e1vel a Cec\u00edlia. Mas \u00e9 imposs\u00edvel; meu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 preso a outros la\u00e7os&#8230;<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o, entretanto, complicava-se, toda a fam\u00edlia de Jo\u00e3o Aguiar dizia-lhe que a sua verdadeira e melhor noiva era a filha do desembargador. Para acabar com todas essas insinua\u00e7\u00f5es, e seguir os impulsos do seu cora\u00e7\u00e3o, teve o bacharel id\u00e9ia de raptar Cec\u00edlia, id\u00e9ia extravagante e s\u00f3 filha do desespero, visto que o pai e a m\u00e3e da namorada nenhum obst\u00e1culo punham ao casamento deles. Ele mesmo reconheceu que o recurso era um desprop\u00f3sito. Ainda assim disse-o a Serafina, que amigavelmente o repreendeu:<\/p>\n<p>\u2014 Que id\u00e9ia foi essa! exclamou a mo\u00e7a, al\u00e9m de desnecess\u00e1rio, n\u00e3o era&#8230; n\u00e3o era decorosa. Olhe, se fizesse isso nunca mais devia falar-me&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me perdoaria?<\/p>\n<p>\u2014 Nunca!<\/p>\n<p>\u2014 Entretanto, a minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9 dura e triste.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o \u00e9 menos a minha.<\/p>\n<p>\u2014 Ser amado, poder ser feliz tranq\u00fcilamente feliz para todos os dias da minha vida&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! isso!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o cr\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Quisera crer. Mas est\u00e1-me a parecer que a felicidade que sonhamos quase nunca sai \u00e0 medida dos nossos desejos, e que mais vale uma quimera que uma realidade.<\/p>\n<p>\u2014 Adivinho, disse Jo\u00e3o Aguiar.<\/p>\n<p>\u2014 Adivinha o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Algum arrufo.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o! nunca estivemos melhor; nunca andamos mais tranq\u00fcilos do que agora.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o permite que \u00e0s vezes a d\u00favida entre no cora\u00e7\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 ele do mesmo barro que os outros?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar refletiu alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez tenha raz\u00e3o, disse ele enfim, a realidade n\u00e3o ser\u00e1 sempre tal qual a sonhamos. Mas isto mesmo \u00e9 uma harmonia na vida, \u00e9 uma grande perfei\u00e7\u00e3o do homem. Se v\u00edssemos logo a realidade como ela h\u00e1 de ser quem daria um passo para ser feliz?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 verdade! exclamou a mo\u00e7a e deixou-se ficar pensativa enquanto o bacharel lhe contemplava a admir\u00e1vel cabe\u00e7a e a graciosa maneira com que ela trazia os cabelos penteados.<\/p>\n<p>A leitora h\u00e1 de desconfiar muita coisa \u00e0s teorias dos dois confidentes relativamente \u00e0 felicidade. Pela minha parte, posso afian\u00e7ar que Jo\u00e3o Aguiar n\u00e3o pensava uma s\u00f3 palavra que disse; n\u00e3o o pensava antes, quero eu dizer; ela por\u00e9m tinha o secreto poder de lhe influir as suas id\u00e9ias e sentimentos. N\u00e3o poucas vezes dizia ele que se ela fosse fada podia dispensar a vara de cond\u00e3o; bastava falar.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Um dia, Serafina recebeu uma carta de Tavares dizendo-lhe que n\u00e3o voltaria mais \u00e0 casa de seu pai, por este lhe haver mostrado m\u00e1 cara nas \u00faltimas vezes que ele l\u00e1 estivera.<\/p>\n<p>M\u00e1 cara \u00e9 exagera\u00e7\u00e3o de Tavares, cuja desconfian\u00e7a era extrema e \u00e0s vezes pueril; \u00e9 certo que o desembargador n\u00e3o gostava dele, depois que soube das inten\u00e7\u00f5es com que ali ia, e \u00e9 poss\u00edvel, \u00e9 at\u00e9 certo que o seu modo afetuoso para com ele sofreu alguma diminui\u00e7\u00e3o. A fantasia de Tavares \u00e9 que fez daquilo m\u00e1 cara.<\/p>\n<p>Eu aposto que o leitor, em caso igual, redobrava de aten\u00e7\u00f5es com o pai, a ver se lhe reconquistava as boas gra\u00e7as, e entretanto ia gozando a fortuna de ver e contemplar a dona dos seus pensamentos. Tavares n\u00e3o fez assim; tratou logo de romper as suas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Serafina sentiu sinceramente esta resolu\u00e7\u00e3o do namorado. Escreveu-lhe dizendo que refletisse bem e voltasse atr\u00e1s. Mas o namorado era homem teimoso; meteu os p\u00e9s \u00e0 parede, e n\u00e3o voltou.<\/p>\n<p>Jurar-lhe amor isso fez ele, e n\u00e3o deixava de lhe escrever todos os dias, cartas muito longas, muito repassadas de sentimento e de esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar soube do que se passara e procurou por sua vez dissuadi-lo da funesta resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo foi baldado.<\/p>\n<p>\u2014 A desconfian\u00e7a \u00e9 o \u00fanico defeito dele, dizia Serafina ao filho do comendador; mas \u00e9 grande.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um defeito bom e mau, observou Jo\u00e3o Aguiar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 sempre mau.<\/p>\n<p>\u2014 Mas como n\u00e3o h\u00e1 criatura perfeita, \u00e9 justo relevar-lhe esse \u00fanico defeito.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! de certo; contudo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Contudo?<\/p>\n<p>\u2014 Preferia que o defeito fosse outro.<\/p>\n<p>\u2014 Outro qual?<\/p>\n<p>\u2014 Outro qualquer. A desconfian\u00e7a \u00e9 uma triste companheira; arreda toda a felicidade.<\/p>\n<p>\u2014 Eu a esse respeito, n\u00e3o tenho motivo de queixa&#8230; Cec\u00edlia tem a virtude oposta num grau que me parece excessivo. H\u00e1 nela um qu\u00ea de simpl\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh!<\/p>\n<p>Aquele oh de Serafina foi como que um protesto e repreens\u00e3o, mas acompanhado de um sorriso, n\u00e3o digo aprovador, mas ben\u00e9volo. Defendia a mo\u00e7a ausente, mas talvez achasse que Jo\u00e3o Aguiar tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Dois dias depois adoeceu levemente o bacharel. A fam\u00edlia do desembargador foi visit\u00e1-lo. Serafina escrevia-lhe todos os dias. Cec\u00edlia, \u00e9 in\u00fatil diz\u00ea-lo, escrevia-lhe tamb\u00e9m. Mas havia uma diferen\u00e7a: Serafina escrevia melhor; havia mais sensibilidade na sua linguagem. Pelo menos, as cartas dela foram relidas mais vezes que as de Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Quando ele se levantou da cama, estava bom fisicamente, mas recebeu um golpe na alma. Cec\u00edlia ia para a ro\u00e7a durante dois meses; eram manias do pai.<\/p>\n<p>O comendador estimou este incidente, supondo que de uma vez para sempre o filho a esqueceria. O bacharel, entretanto, sentiu muito a separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A separa\u00e7\u00e3o efetuou-se dai a cinco dias. Cec\u00edlia e Jo\u00e3o Aguiar escreveram um ao outro grandes protestos de amor.<\/p>\n<p>\u2014 Dois meses! dizia o bacharel da \u00faltima vez que lhe falara. Dois meses \u00e9 a eternidade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas havendo const\u00e2ncia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! essa!<\/p>\n<p>\u2014 Essa havemos de t\u00ea-la ambos. N\u00e3o te esque\u00e7as de mim, sim?<\/p>\n<p>\u2014 Juro.<\/p>\n<p>\u2014 Falar\u00e1s de mim muitas vezes com Serafina?<\/p>\n<p>\u2014 Todos os dias.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia partiu.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 muito triste? disse a filha do desembargador logo que nessa mesma tarde falou ao bacharel.<\/p>\n<p>\u2014 Naturalmente.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o apenas dois meses.<\/p>\n<p>\u2014 F\u00e1ceis de suportar.<\/p>\n<p>\u2014 F\u00e1ceis?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, conversando com a senhora, que sabe tudo, e fala destas coisas de cora\u00e7\u00e3o como senhora de esp\u00edrito que \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Sou um eco das suas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Quem dera que assim fosse! Eu poderia ent\u00e3o ter vaidade de mim.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar disse estas palavras sem tirar os olhos da m\u00e3o de Serafina, que mui graciosamente brincava com os cabelos.<\/p>\n<p>A m\u00e3o de Serafina era realmente uma bela m\u00e3o; nunca, por\u00e9m, lhe pareceu mais bela do que naquele dia, nem ela a movera nunca com tamanha gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Nessa noite Jo\u00e3o Aguiar sonhou com a m\u00e3o da filha de desembargador. Que lhe havia de pintar a fantasia? Imaginou estar no alto das nuvens, a olhar pasmado o c\u00e9u azul, de onde viu repentinamente sair uma m\u00e3o alva e delicada, a m\u00e3o de Serafina, que se estendia para ele, que lhe acenava, que o chamava para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Riu-se Jo\u00e3o Aguiar deste singular sonho e foi cont\u00e1-lo no dia seguinte \u00e0 propriet\u00e1ria da m\u00e3o. Tamb\u00e9m ela riu do sonho; mas tanto ele como ela pareciam estar convencidos l\u00e1 no seu interior que a m\u00e3o era efetivamente ang\u00e9lica e era natural v\u00ea-la em sonhos.<\/p>\n<p>Quando ele se despediu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o v\u00e1 sonhar outra vez com ela, disse a mo\u00e7a estendendo a m\u00e3o ao bacharel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o desejo outra coisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o sonhou outra vez com a m\u00e3o, mas pensou muito nela e dormiu tarde. No dia seguinte para se castigar desta preocupa\u00e7\u00e3o, escreveu uma longa carta a Cec\u00edlia falando muito de seu amor e dos projetos de futuro.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia recebeu a carta cheia de contentamento, porque muito tempo havia j\u00e1 que ele n\u00e3o escrevia carta t\u00e3o longa. A resposta dela foi ainda mais comprida.<\/p>\n<p>Um per\u00edodo da carta conv\u00e9m ser transcrito aqui:<\/p>\n<p>Dizia assim:<\/p>\n<p>Se eu fosse ciumenta&#8230; se eu fosse desconfiada&#8230; havia de te dizer agora muito duras coisas. Mas n\u00e3o digo, descansa; amo-te e sei que me amas. Mas por que havia eu de dizer duras coisas? Porque nada menos de catorze vezes falas no nome de Serafina. Catorze vezes! Mas s\u00e3o catorze vezes em catorze p\u00e1ginas, que s\u00e3o todas minhas.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar n\u00e3o se lembrava de haver escrito tanta vez o nome da filha do desembargador; lembrava-se, por\u00e9m, de haver pensado muito nela enquanto escrevia a carta. Felizmente nada mau resultara, e o jovem namorado achou que ela tinha raz\u00e3o na queixa.<\/p>\n<p>Nem por isso deixou de mostrar o trecho acusador \u00e0 namorada do Tavares, que sorriu e agradeceu a confian\u00e7a. Mas foi um agradecimento com a voz tr\u00eamula e um sorriso de \u00edntima satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Parece que as catorze p\u00e1ginas deviam servir para longo tempo, porque a seguinte carta foi apenas de duas e meia.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a queixou-se, mas com brandura, e concluiu pedindo-lhe que fosse v\u00ea-la \u00e0 ro\u00e7a, ao menos por dois dias, visto que o pai resolvera l\u00e1 ficar mais quatro meses, al\u00e9m do prazo marcado para a volta.<\/p>\n<p>Era dif\u00edcil ao filho do comendador ir l\u00e1 ter sem oposi\u00e7\u00e3o do pai. Imaginou por\u00e9m um meio bom; inventou um cliente e um processo, ambos os quais o digno comendador engoliu, cheio de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar partiu para a ro\u00e7a.<\/p>\n<p>Ia por dois dias apenas; os dois dias correm nas del\u00edcias que o leitor pode imaginar, mas com uma sombra, uma coisa inexplic\u00e1vel. Jo\u00e3o Aguiar, ou porque aborrecesse a ro\u00e7a ou porque amasse demais a cidade, sentia-se um pouco tolhido ou n\u00e3o sei que seja. No fim de dois dias desejava ver-se outra vez no bul\u00edcio da corte. Felizmente, Cec\u00edlia procurava compensar-lhe os t\u00e9dios do lugar, mas parece que era excessiva nas mostras de amor que lhe dava, pois o digno bacharel dava sinais de impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Serafina tem mais comedimento, dizia ele.<\/p>\n<p>No quarto dia escreveu uma carta \u00e0 filha do desembargador, que lhe respondeu com outra, e se eu disser \u00e0 leitora que tanto um como outro beijaram as cartas recebidas, a leitora ver\u00e1 que a hist\u00f3ria se aproxima do fim e que a cat\u00e1strofe est\u00e1 pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Cat\u00e1strofe, na verdade, e terr\u00edvel foi a descoberta que tanto o bacharel como a filha do desembargador fizeram de que se amavam e j\u00e1 de longos dias. Foi principalmente a aus\u00eancia que lhes confirmou a descoberta. Os dois confidentes aceitaram esta novidade um pouco perplexos, mas muito contentes.<\/p>\n<p>A alegria era travada de remorso. Havia dois emba\u00e7ados, a quem eles fizeram grandes protestos e juramentos repetidos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Aguiar n\u00e3o resistiu ao novo impulso do cora\u00e7\u00e3o. A imagem da mo\u00e7a, sempre presente, fazia-lhe tudo cor-de-rosa.<\/p>\n<p>Serafina, por\u00e9m, resistiu; a dor que ia causar no \u00e2nimo de Tavares deu-lhe for\u00e7as para calar o seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia disto, come\u00e7ou a evitar toda a ocasi\u00e3o de encontro com o jovem bacharel. Isto e lan\u00e7ar lenha ao fogo era a mesma coisa. Jo\u00e3o Aguiar sentiu um obst\u00e1culo com que n\u00e3o contava, o amor cresceu-lhe e apoderou-se dele.<\/p>\n<p>N\u00e3o contava com o tempo e o cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia de Serafina durou o que duram as resist\u00eancias de quem ama. Serafina amava; no fim de quinze dias abateu as armas. Tavares e Cec\u00edlia estavam vencidos.<\/p>\n<p>Eu desisto de dizer ao leitor o abalo produzido naquelas duas almas pela ingratid\u00e3o e perf\u00eddia dos dois felizes namorados. Tavares enfureceu-se e Cec\u00edlia definhou longo tempo; afinal Cec\u00edlia casou e Tavares est\u00e1 diretor de companhia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 dor eterna.<\/p>\n<p>\u2014 Bem dizia eu! exclamou o comendador quando o filho lhe impetrou licen\u00e7a para ir pedir a m\u00e3o de Serafina. Bem dizia eu que voc\u00eas deviam casar! Custou muito!<\/p>\n<p>\u2014 Alguma coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas agora?<\/p>\n<p>\u2014 Definitivo.<\/p>\n<p>Casaram-se h\u00e1 alguns anos aqueles dois confidentes. Recusaram fazer \u00e0 for\u00e7a aquilo que o cora\u00e7\u00e3o lhes indicou depois.<\/p>\n<p>H\u00e1 de ser duradouro o casamento.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1876 I Na verdade, era pena que uma mo\u00e7a t\u00e3o prendada de qualidades morais e f\u00edsicas, como a filha do desembargador, nenhum sentimento inspirasse ao bacharel Aguiar. 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