{"id":116561,"date":"2017-03-29T19:08:13","date_gmt":"2017-03-29T21:08:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116561"},"modified":"2017-03-29T19:08:13","modified_gmt":"2017-03-29T21:08:13","slug":"letra-vencida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/letra-vencida","title":{"rendered":"Letra Vencida"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO &#8211; I<\/b><\/p>\n<p>EDUARDO B. embarca amanh\u00e3 para a Europa. Amanh\u00e3 quer dizer 24 de abril de 1861, pois estamos a 23, \u00e0 noite, uma triste noite para ele, e para Beatriz.<\/p>\n<p>\u2014 Beatriz! repetia ele, no jardim, ao p\u00e9 da janela de onde a mo\u00e7a se debru\u00e7ava estendendo-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>De cima \u2014 porque a janela ficava a cinco palmos da cabe\u00e7a de Eduardo \u2014, de cima respondia a mo\u00e7a com l\u00e1grimas, verdadeiras l\u00e1grimas de dor. Era a primeira grande dor moral que padecia, e, contando apenas dezoito anos, come\u00e7ava cedo. N\u00e3o falavam alto; poderiam chamar a aten\u00e7\u00e3o da gente da casa. Note-se que Eduardo despedira-se da fam\u00edlia de Beatriz naquela mesma noite, e que a m\u00e3e dela e o pai, ao v\u00ea-lo sair, estavam longe de pensar que entre onze horas e meia-noite voltaria o mo\u00e7o ao jardim para fazer uma despedida mais formal. Al\u00e9m disso, os dous c\u00e3es da casa impediriam a entrada de algum intruso. Se tal supuseram \u00e9 que n\u00e3o advertiram na tend\u00eancia corruptora do amor. O amor peitou o jardineiro, e os c\u00e3es foram recolhidos modestamente para n\u00e3o interromper o \u00faltimo di\u00e1logo de dous cora\u00e7\u00f5es aflitos.<\/p>\n<p>\u00daltimo? N\u00e3o \u00e9 \u00faltimo; n\u00e3o pode ser \u00faltimo. Eduardo vai completar os estudos, e tirar carta de doutor em Heidelberg; a fam\u00edlia vai com ele, disposta a ficar algum tempo, um ano, em Fran\u00e7a; ele voltar\u00e1 depois. Tem vinte e um anos, ela dezoito: podem esperar. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo di\u00e1logo. Basta ouvir os protestos que eles murmuram, baixinho, entre si e Deus, para crer que esses dous cora\u00e7\u00f5es podem ficar separados pelo mar, mas que o amor os uniu moralmente e eternamente. Eduardo jura que a levar\u00e1 consigo, que n\u00e3o pensar\u00e1 em outra cousa, que a amar\u00e1 sempre, sempre, sempre, de longe ou de perto, mais do que aos pr\u00f3prios pais.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus, Beatriz!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o v\u00e1 j\u00e1!<\/p>\n<p>Tinha batido uma hora em alguns rel\u00f3gios da vizinhan\u00e7a, e esse golpe seco, soturno, pingando de p\u00eandula em p\u00eandula, advertiu ao mo\u00e7o de que era tempo de sair; podiam ser descobertos. Mas ficou; ela pediu-lhe que n\u00e3o fosse logo, e ele deixou-se estar, cosido \u00e0 parede, com os p\u00e9s num canteiro de murta e os olhos no peitoril da janela. Foi ent\u00e3o que ela lhe desceu uma carta; era a resposta de outra, em que ele lhe dava certas indica\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 correspond\u00eancia secreta, que iam continuar atrav\u00e9s do oceano. Ele insistiu verbalmente em algumas das recomenda\u00e7\u00f5es; ela pediu certos esclarecimentos. O di\u00e1logo interrompia-se; os intervalos de sil\u00eancio eram suspirados e longos. Enfim bateram duas horas: era o rouxinol? Era a cotovia? Romeu preparou-se para ir embora; Julieta pediu alguns minutos.<\/p>\n<p>\u2014 Agora, adeus, Beatriz; \u00e9 preciso! murmurou ele dali a meia hora.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus! Jura que n\u00e3o se esquecer\u00e1 de mim?<\/p>\n<p>\u2014 Juro. E voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Juro tamb\u00e9m, por minha m\u00e3e, por Deus!<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, Beatriz! Aconte\u00e7a o que acontecer, n\u00e3o me casarei com outra; ou com voc\u00ea, ou com a morte. Voc\u00ea \u00e9 capaz de jurar a mesma cousa?<\/p>\n<p>\u2014 A mesma cousa; juro pela salva\u00e7\u00e3o de minh\u2019alma! Meu marido \u00e9 voc\u00ea; e Deus que me ouve h\u00e1 de ajudar-nos. Cr\u00ea em Deus, Eduardo; reza a Deus, pede a Deus por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Apertaram as m\u00e3os. Mas um aperto de m\u00e3o era bastante para selar t\u00e3o grave escritura? Eduardo teve a id\u00e9ia de trepar \u00e0 parede; mas faltava-lhe o ponto de apoio. Lembrou-se de um dos bancos do jardim, que tinha dous, do lado da frente; foi a ele, trouxe-o, encostou-o \u00e0 parede, e subiu; depois levantou as m\u00e3os ao peitoril; e suspendeu o corpo; Beatriz inclinou-se, e o eterno beijo de Verona conjugou os dous infelizes. Era o primeiro. Deram tr\u00eas horas; desta vez era a cotovia.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus!<\/p>\n<p>\u2014 Adeus!<\/p>\n<p>Eduardo saltou ao ch\u00e3o; pegou do banco, e foi rep\u00f4-lo no lugar pr\u00f3prio. Depois tornou \u00e0 janela, levantou a m\u00e3o, Beatriz desceu a sua, e um en\u00e9rgico e derradeiro aperto terminou essa despedida, que era tamb\u00e9m uma cat\u00e1strofe. Eduardo afastou-se da parede, caminhou para a portinha lateral do jardim, que estava apenas cerrada, e saiu. Na rua, a vinte ou trinta passos, ficara de vigia o obsequioso jardineiro, que unira ao favor a discri\u00e7\u00e3o, colocando-se a dist\u00e2ncia tal, que nenhuma palavra pudesse chegar-lhe aos ouvidos. Eduardo, embora j\u00e1 lhe houvesse pago a cumplicidade, quis deixar-lhe ainda uma lembran\u00e7a de \u00faltima hora, e meteu-lhe na m\u00e3o uma nota de cinco mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>No dia seguinte verificou-se o embarque. A fam\u00edlia de Eduardo compunha-se dos pais e uma irm\u00e3 de doze anos. O pai era comerciante e rico; ia passear alguns meses e fazer completar os estudos do filho em Heidelberg. Esta id\u00e9ia de Heidelberg parecer\u00e1 um pouco estranha nos projetos de um homem, como Jo\u00e3o B., pouco ou nada lido em cousas de geografia cient\u00edfica e universit\u00e1ria; mas sabendo-se que um sobrinho dele, em viagem na Europa, desde 1857, entusiasmado com a Alemanha, escrevera de Heidelberg algumas cartas exaltando o ensino daquela Universidade, ter-se-\u00e1 compreendido essa resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Eduardo, ou Heidelberg ou Hong-Kong, era a mesma cousa, uma vez que o arrancavam do \u00fanico ponto do globo em que ele podia aprender a primeira das ci\u00eancias, que era contemplar os olhos de Beatriz. Quando o paquete deu as primeiras rodadas na \u00e1gua e come\u00e7ou a mover-se para a barra, Eduardo n\u00e3o p\u00f4de reter as l\u00e1grimas, e foi escond\u00ea-las no camarote. Voltou logo acima, para ver ainda a cidade, perd\u00ea-la pouco a pouco, por uma ilus\u00e3o da dor, que se contentava de um retalho, tirado \u00e0 purpura da felicidade moribunda. E a cidade, se tivesse olhos para v\u00ea-lo, podia tamb\u00e9m despedir-se dele com pesar e orgulho, pois era um esbelto rapaz, inteligente e bom. Conv\u00e9m dizer que a tristeza de deixar o Rio de Janeiro tamb\u00e9m lhe do\u00eda no cora\u00e7\u00e3o. Era fluminense, n\u00e3o sa\u00edra nunca deste ninho paterno, e a saudade local vinha casar-se \u00e0 saudade pessoal. Em que propor\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sei. H\u00e1 a\u00ed uma an\u00e1lise dif\u00edcil, mormente agora, que n\u00e3o podemos mais distinguir a figura do rapaz. Ele est\u00e1 ainda na amurada; mas o paquete transp\u00f4s a barra, e vai perder-se no horizonte.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO II<\/b><\/p>\n<p>PARA QUE HEI de dizer que Beatriz deixou de dormir o resto da noite? Subentende-se que as \u00faltimas horas dessa triste noite de 23 de abril foram para ela de vig\u00edlia e desespero. Direi somente que tamb\u00e9m foram de devo\u00e7\u00e3o. Beatriz, logo que Eduardo transp\u00f4s a porta do jardim, atirou-se \u00e0 cama solu\u00e7ando e sufocando os solu\u00e7os, para n\u00e3o ser ouvida. Quando a dor amorteceu um pouco, levantou-se e foi ao orat\u00f3rio de suas rezas noturnas e matinais; ajoelhou-se e encomendou a Deus, n\u00e3o a felicidade, mas a consola\u00e7\u00e3o de ambos.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 viu-a t\u00e3o triste como a noite. O sol, na forma usual, mandou um dos seus raios mais jucundos e vivos ao rosto de Beatriz, que desta vez o recebeu sem ternura nem gratid\u00e3o. De costume, ela dava a esse raio amado todas as expans\u00f5es de uma alma nova. O sol, pasmado da indiferen\u00e7a, n\u00e3o interrompeu todavia o seu curso; tinha outras Beatrizes que saudar, umas risonhas, outras lacrimosas, outras ap\u00e1ticas, mas todas Beatrizes&#8230; E l\u00e1 se foi o D. Jo\u00e3o do azul, espalhando no ar um milh\u00e3o daquelas missivas radiosas.<\/p>\n<p>N\u00e3o menos pasmada ficou a m\u00e3e ao almo\u00e7o. Beatriz mal podia disfar\u00e7ar os olhos cansados de chorar; e sorria, \u00e9 verdade, mas um sorriso t\u00e3o for\u00e7ado, t\u00e3o de obs\u00e9quio e dissimula\u00e7\u00e3o, que realmente faria descobrir tudo, se desde alguns dias antes as maneiras de Beatriz n\u00e3o tivessem revelado tal ou qual altera\u00e7\u00e3o. A m\u00e3e supunha alguma mol\u00e9stia; agora, sobretudo, que os olhos da mo\u00e7a tinham um ar febril, pareceu-lhe que era caso de doen\u00e7a incubada.<\/p>\n<p>\u2014 Beatriz, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 boa, disse ela \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>\u2014 Sinto-me assim n\u00e3o sei como&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois tome s\u00f3 ch\u00e1. Vou mandar vir o doutor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 preciso; se continuar amanh\u00e3, sim.<\/p>\n<p>Beatriz tomou ch\u00e1, nada mais do que ch\u00e1. Como n\u00e3o tinha vontade de outra cousa, tudo se combinou assim, e a hip\u00f3tese da doen\u00e7a foi aparentemente confirmada. Ela aproveitou-a para meter-se no quarto o dia inteiro, falar pouco, n\u00e3o fazer toilette, etc. N\u00e3o chamaram o m\u00e9dico, mas ele veio por si mesmo, o Tempo, que com uma de suas velhas po\u00e7\u00f5es abrandou a vivacidade da dor, e tornou o organismo ao estado anterior, tendo de mais uma saudade profunda, e a imortal esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Realmente, s\u00f3 sendo imortal a esperan\u00e7a, pois tudo conspirava contra ela. Os pais de ambos os namorados tinham a seu respeito projetos diferentes. O de Eduardo meditava para este a filha de um fazendeiro, seu amigo, mo\u00e7a prendada, capaz de o fazer feliz, e digna de o ser tamb\u00e9m; e n\u00e3o meditava s\u00f3 consigo, porque o fazendeiro nutria iguais id\u00e9ias. Jo\u00e3o B. chegara mesmo a insinu\u00e1-lo ao filho, dizendo-lhe que na Europa iria v\u00ea-lo algu\u00e9m que provavelmente o ajudaria a concluir os estudos. Este foi, com efeito, o plano dos dous pais; seis meses depois, iria o fazendeiro com a fam\u00edlia \u00e0 Alemanha, onde casariam os filhos.<\/p>\n<p>Quanto ao pai de Beatriz, os seus projetos eram ainda mais definitivos, se \u00e9 poss\u00edvel. Tratava de aliar a filha a um jovem pol\u00edtico, mo\u00e7o de futuro, e t\u00e3o digno de ser marido de Beatriz, como a filha do fazendeiro era digna de ser mulher de Eduardo. Esse candidato, Amaral, freq\u00fcentava a casa, era aceito a todos, e tratado como pessoa de fam\u00edlia, e com um tal respeito e carinho, um desejo t\u00e3o intenso de o mesclar ao sangue da casa, que realmente faria rir ao rapaz, se ele pr\u00f3prio n\u00e3o estivesse namorado de Beatriz. Mas estava-o, e grandemente namorado; e tudo isso aumentava o perigo da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, a esperan\u00e7a subsistia no cora\u00e7\u00e3o de ambos. Nem a dist\u00e2ncia, nem os cuidados diversos, nem o tempo, nem os pais, nada diminu\u00eda o vi\u00e7o dessa flor misteriosa e constante. N\u00e3o disseram outra cousa as primeiras cartas, recebidas por um modo t\u00e3o engenhoso e t\u00e3o simples, que vale a pena cont\u00e1-lo aqui, para uso de outros desgra\u00e7ados. Eduardo mandava as cartas a um amigo; este passava-as a uma irm\u00e3, que as entregava a Beatriz, de quem era amiga e companheira de col\u00e9gio. Geralmente as companheiras de col\u00e9gio n\u00e3o se recusam a estes pequenos obs\u00e9quios, que podem ser rec\u00edprocos; em todo o caso \u2014 s\u00e3o humanos. As duas primeiras cartas, assim recebidas, foram a transcri\u00e7\u00e3o dos protestos feitos naquela noite de 23 de abril de 1861; transcri\u00e7\u00e3o feita com tinta, mas n\u00e3o menos valiosa e sincera do que se o fora com sangue. O mar, que deixou passar essas vozes concordes de duas almas violentamente separadas, continuou o perp\u00e9tuo movimento da sua instabilidade.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO III<\/b><\/p>\n<p>BEATRIZ voltou aos h\u00e1bitos anteriores, aos passeios, saraus e teatros do costume. A tristeza, de aguda que era e manifesta, tornou-se escondida e cr\u00f4nica. No rosto era a mesma Beatriz, e tanto bastava \u00e0 sociedade. Naturalmente n\u00e3o tinha a mesma paix\u00e3o da dan\u00e7a, nem a mesma vivacidade de maneiras; mas a idade explicava a atenua\u00e7\u00e3o. Os dezoito anos estavam feitos; a mulher completara-se.<\/p>\n<p>Quatro meses depois da partida de Eduardo, entendeu a fam\u00edlia da mo\u00e7a apressar o casamento desta; e eis aqui as circunst\u00e2ncias da resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Amaral cortejava a mo\u00e7a ostensivamente, dizia-lhe as finezas usuais, freq\u00fcentava a casa, ia onde ela fosse; punha o cora\u00e7\u00e3o em todas as a\u00e7\u00f5es e palavras. Beatriz entendia tudo e n\u00e3o respondia a nada. Usou duas pol\u00edticas diferentes. A primeira foi mostrar-se de uma tal ignor\u00e2ncia que o pretendente achasse mais razo\u00e1vel esquec\u00ea-la. Pouco durou esta; era improf\u00edcua, tratando-se de um homem verdadeiramente apaixonado. Amaral teimou; vendo-se desentendido, passou a linguagem mais direta e clara. Ent\u00e3o come\u00e7ou a segunda pol\u00edtica; Beatriz mostrou que entendia, mas deixou ver que nada era poss\u00edvel entre ambos. N\u00e3o importa; ele teimou ainda mais. Nem por isso venceu. Foi ent\u00e3o que o pai de Beatriz interveio.<\/p>\n<p>\u2014 Beatriz, disse-lhe o pai, tenho um marido para ti, e estou certo que vais aceit\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Papai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas ainda que, a princ\u00edpio recuses, n\u00e3o por ser indigno de n\u00f3s; n\u00e3o \u00e9 indigno, ao contr\u00e1rio; \u00e9 pessoa muito respeit\u00e1vel&#8230; Mas, como ia dizendo, ainda que a tua primeira palavra seja contra o noivo, previno-te que \u00e9 desejo meu e h\u00e1 de cumprir-se. Beatriz fez um movimento de cabe\u00e7a, r\u00e1pido, espantado. N\u00e3o estava acostumada \u00e0quele modo, n\u00e3o esperava a intima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Digo-te que \u00e9 um mo\u00e7o s\u00e9rio e digno, repetiu. Que respondes?<\/p>\n<p>\u2014 Nada. \u2014 Aceitas ent\u00e3o? \u2014 N\u00e3o, senhor. Desta vez foi o pai que teve um sobressalto; n\u00e3o por causa da recusa; ele esperava-a, e estava resolvido a venc\u00ea-la, segundo a avisou desde logo. Mas o que o espantou foi a prontid\u00e3o da resposta.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o? disse ele da\u00ed a um instante. \u2014 N\u00e3o, senhor. \u2014 Sabes o que est\u00e1s dizendo? \u2014 Sei, sim, senhor. \u2014 Veremos se n\u00e3o, bradou o pai levantando-se, e batendo com a cadeira no ch\u00e3o; veremos se n\u00e3o! Tem gra\u00e7a! N\u00e3o, a mim! Quem sou eu? N\u00e3o! E por que n\u00e3o? Naturalmente, anda a\u00ed algum petimetre sem presente nem futuro, algum bailarino, ou estafermo. Pois veremos&#8230; E ia de um lado para outro, metendo as m\u00e3os nas algibeiras da cal\u00e7a, tirando-as, passando-as pelos cabelos, abotoando e desabotoando o palet\u00f3, fora de si, irritado.<\/p>\n<p>Beatriz deixara-se estar sentada com os olhos no ch\u00e3o, tranq\u00fcila, resoluta. Em certo momento, como o pai lhe parecesse exasperado demais, levantou-se e foi a ele para aquiet\u00e1-lo um pouco; mas ele repeliu-a.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1-se embora, disse-lhe; v\u00e1 refletir no seu procedimento, e volte quando estiver disposta a pedir-me perd\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Isso j\u00e1; pe\u00e7o-lhe perd\u00e3o j\u00e1, papai&#8230; N\u00e3o quis ofend\u00ea-lo, nunca o ofendi&#8230; Perdoe-me; vamos, perdoe-me.<\/p>\n<p>\u2014 Mas recusas?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso aceitar.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Sei: o dr. Amaral.<\/p>\n<p>\u2014 Que tens contra ele?<\/p>\n<p>\u2014 Nada; \u00e9 um mo\u00e7o distinto.<\/p>\n<p>O pai passou a m\u00e3o pelas barbas.<\/p>\n<p>\u2014 Gostas de outro.<\/p>\n<p>Beatriz calou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Vejo que sim; est\u00e1 bem. Quem quer que seja, n\u00e3o ter\u00e1 nunca a minha aprova\u00e7\u00e3o. Ou o dr. Amaral, ou nenhum mais.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, nenhum mais, respondeu ela.<\/p>\n<p>\u2014 Veremos.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO IV<\/b><\/p>\n<p>N\u00c3O PERCAMOS tempo. Beatriz n\u00e3o casou com o noivo que lhe davam; n\u00e3o aceitou outro que apareceu no ano seguinte; mostrou uma tal firmeza e decis\u00e3o, que encheu o pai de assombro.<\/p>\n<p>Assim se passaram os dous primeiros anos. A fam\u00edlia de Eduardo voltou da Europa; este ficou, para tornar quando acabasse os estudos. \u201cSe me parecesse, ia j\u00e1 (dizia ele em uma carta \u00e0 mo\u00e7a), mas quero conceder isto, ao menos, a meu pai: concluir os estudos.\u201d<\/p>\n<p>Que ele estudava, \u00e9 certo, e n\u00e3o menos certo \u00e9 que estudava muito. Tinha vontade de saber, al\u00e9m do desejo de cumprir, naquela parte, as ordens do pai. A Europa oferecia-lhe tamb\u00e9m alguns recreios de diversa esp\u00e9cie. Ele ia nas f\u00e9rias \u00e0 Fran\u00e7a e \u00e0 It\u00e1lia, ver as belas-artes e os grandes monumentos. N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que, algumas vezes, inclu\u00edsse no cap\u00edtulo das artes e na classe dos monumentos algum namoro de ordem passageira; creio mesmo que \u00e9 neg\u00f3cio liquidado. Mas, em que \u00e9 que essas pequenas excurs\u00f5es em terra estranha lhe faziam perder o amor da p\u00e1tria, ou, menos figuradamente, em que \u00e9 que essas expans\u00f5es mi\u00fadas do sentimento diminu\u00edam o n\u00famero e a paix\u00e3o das cartas que mandava a Beatriz?<\/p>\n<p>Com efeito, as cartas eram as mesmas de ambos os lados, escritas com igual ardor \u00e0s das primeiras semanas, e nenhum outro m\u00e9todo. O m\u00e9todo era o de um di\u00e1rio. As cartas eram compostas dia por dia, como uma nota dos sentimentos e dos pensamentos de cada um deles, confiss\u00e3o de alma para alma. Parecer\u00e1 admir\u00e1vel que este uso fosse constante no espa\u00e7o de um, dous, tr\u00eas anos; que diremos cinco anos, sete anos! Sete, sim, senhora; sete, e mais. Mas fiquemos nos sete, que \u00e9 a data do rompimento entre as duas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa saber por que brigaram as duas fam\u00edlias. Brigaram; \u00e9 o essencial. Antes do rompimento desconfiaram os dous pais que os filhos tinham-se jurado alguma cousa antes da separa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o estavam longe de concordar em que se casassem. Os projetos de cada um deles tinham naufragado; eles estimavam-se; nada havia mais natural do que aliarem-se mais intimamente. Mas brigaram; veio n\u00e3o sei que incidente estranho, e a amizade converteu-se em \u00f3dio. Naturalmente um e outro pensaram logo na possibilidade do cons\u00f3rcio dos filhos, e trataram de afast\u00e1-los. O pai de Eduardo escreveu a este, j\u00e1 diplomado, dizendo que o esperasse na Europa; o de Beatriz inventou um pretendente, um rapaz desambicioso que jamais pensaria em pedi-la, mas que o fez, animado pelo pai.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, foi a resposta de Beatriz.<\/p>\n<p>O pai amea\u00e7ou-a; a m\u00e3e pediu-lhe por tudo o que havia de mais sagrado, que aceitasse o noivo; mostrou-lhe que eles estavam velhos, e que ela precisava ficar amparada. Foi tudo in\u00fatil. Nem esse pretendente nem outros que vieram, uns por m\u00e3o do pai, outros por m\u00e3o alheia. Beatriz n\u00e3o iludia ningu\u00e9m, ia dizendo a todos que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Um desses pretendentes chegou a crer-se vencedor. Tinha qualidades pessoais distintas, e ela n\u00e3o desgostava dele, tratava-o com muito carinho, e pode ser que sentisse algum princ\u00edpio de inclina\u00e7\u00e3o. Mas a imagem de Eduardo vencia tudo. As cartas dele eram o prolongamento de uma alma querida e amante; e aquele candidato, como os outros, teve de recuar vencido.<\/p>\n<p>\u2014 Beatriz, vou morrer dentro de poucos dias, disse-lhe um dia o pai; por que me n\u00e3o d\u00e1s o gosto de deixar-te casada?<\/p>\n<p>\u2014 Qual, morrer!<\/p>\n<p>E n\u00e3o respondia \u00e0 outra parte das palavras do pai. Eram j\u00e1 passados nove anos da separa\u00e7\u00e3o. Beatriz tinha ent\u00e3o vinte e sete. Via chegar os trinta com tranq\u00fcilidade e a pena na m\u00e3o. N\u00e3o seriam j\u00e1 di\u00e1rias as cartas, mas eram ainda e sempre pontuais; se algum paquete n\u00e3o as trazia ou levava, a culpa era do correio, n\u00e3o deles. Realmente, a const\u00e2ncia era digna de nota e admira\u00e7\u00e3o. O mar separava-os, e agora o \u00f3dio das fam\u00edlias; e al\u00e9m desse obst\u00e1culo, deviam contar com o tempo, que tudo afrouxa, e as tenta\u00e7\u00f5es que eram muitas de um e outro lado. Mas apesar de tudo, resistiam.<\/p>\n<p>O pai de Beatriz morreu dali a algumas semanas. Beatriz ficou com a m\u00e3e, senhora achacada de mol\u00e9stias, e cuja vida naturalmente n\u00e3o iria tamb\u00e9m muito longe. Esta considera\u00e7\u00e3o deu-lhe \u00e2nimo para tentar os \u00faltimos esfor\u00e7os, e ver se morria deixando a filha casada. Empregou os que p\u00f4de; mas o resultado n\u00e3o foi melhor.<\/p>\n<p>Eduardo na Europa sabia tudo. A fam\u00edlia dele trasladou-se para l\u00e1, definitivamente, para o fim de o reter, e tornar imposs\u00edvel o encontro dos dous. Mas, como as cartas continuavam, ele sabia tudo o que se passava no Brasil. Teve not\u00edcia da morte do pai de Beatriz, e dos esfor\u00e7os empregados por ele e depois pela mulher, vi\u00fava, para estabelecer a filha; e soube (pode imaginar-se com que satisfa\u00e7\u00e3o) da resist\u00eancia da mo\u00e7a. O juramento da noite de 23 de abril de 1861 estava de p\u00e9, cumprido, observado \u00e0 risca, como um preceito religioso, e, o que \u00e9 mais, sem que lhes custasse mais do que a pena da separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Europa, morreu a m\u00e3e de Eduardo; e o pai teve um instante id\u00e9ias de voltar ao Brasil; mas era odiento, e a id\u00e9ia de que o filho podia ent\u00e3o casar com Beatriz fixou-o em Paris.<\/p>\n<p>\u201cVerdade \u00e9 que ela n\u00e3o deve estar muito tenra&#8230;\u201d dizia ele consigo.<\/p>\n<p>Eram ent\u00e3o passados quinze anos. Passaram-se mais alguns meses, e a m\u00e3e de Beatriz morreu. Beatriz ficou s\u00f3, com trinta e quatro anos. Teve id\u00e9ia de ir para Europa, com alguma dama de companhia; mas Eduardo contava ent\u00e3o vir ao Rio de Janeiro arranjar alguns neg\u00f3cios do pai, que estava doente. Beatriz esperou; mas Eduardo n\u00e3o veio. Uma amiga dela, confidente dos amores, dizia-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, Beatriz, voc\u00ea tem uma paci\u00eancia!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me custa nada.<\/p>\n<p>\u2014 Mas esperar tanto tempo! Quinze anos!<\/p>\n<p>\u2014 Nada mais natural, respondia a mo\u00e7a; eu suponho que estamos casados, e que ele anda em viagem de neg\u00f3cios. \u00c9 a mesma cousa. Essa amiga estava casada; tinha j\u00e1 dous filhos. Outras amigas e companheiras de col\u00e9gio tinham casado tamb\u00e9m. Beatriz era a \u00fanica solteira, e solteira abastada e pretendida. Agora mesmo, n\u00e3o lhe faltavam candidatos; mas a fiel Beatriz conservava-se como dantes.<\/p>\n<p>Eduardo n\u00e3o veio ao Brasil, segundo contava, nem naquele nem no ano seguinte. As doen\u00e7as do pai agravaram-se, tornaram-se longas; e nisto correram mais dous anos. S\u00f3 ent\u00e3o o pai de Eduardo morreu, em Nice, no fim de 1878. O filho arranjou os primeiros neg\u00f3cios e embarcou para o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Enfim!<\/p>\n<p>Tinham passado dezoito anos. Posto que eles tivessem trocado os retratos, mais de uma vez durante esse lapso de tempo, acharam-se diferentes do que eram na noite da separa\u00e7\u00e3o. Tinham passado a idade dos primeiros ardores; o sentimento que os animava era brando, embora tenaz. Vencida a letra, era razo\u00e1vel pagar; era mesmo obrigat\u00f3rio. Trataram dos pap\u00e9is; e dentro de poucas semanas, nos fins de 1878, cumpriu-se o juramento de 1861. Casaram-se, e foram para Minas, de onde voltaram tr\u00eas meses depois.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o felizes? perguntei a um amigo \u00edntimo deles, em 1879.<\/p>\n<p>\u2014 Eu lhe digo, respondeu esse amigo observador. N\u00e3o s\u00e3o felizes nem infelizes; um e outro receberam do tempo a fisionomia definitiva, apuraram as suas qualidades boas e n\u00e3o boas, deram-se a outros interesses e h\u00e1bitos, colheram o fastio e a marca da experi\u00eancia, al\u00e9m da surdina que os anos trazem aos movimentos do cora\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o viram essa transforma\u00e7\u00e3o operar-se dia por dia. Despediram-se uma noite, em plena floresc\u00eancia da alma, para encontrarem-se carregados de fruto, tomados de ervas parasitas, e com certo ar fatigado. Junte a isto o despeito de n\u00e3o achar o sonho de outrora, e o de o n\u00e3o trazer consigo; pois cada um deles sente que n\u00e3o pode dar a esp\u00e9cie de c\u00f4njuge que ali\u00e1s deseja achar no outro; pense mais no arrependimento poss\u00edvel e secreto de n\u00e3o terem aceitado outras alian\u00e7as, em melhor quadra; e diga-me se podemos diz\u00ea-los totalmente felizes.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o infelizes?<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o. Vivem, respeitam-se; n\u00e3o s\u00e3o infelizes, nem podemos dizer que s\u00e3o felizes. Vivem, respeitam-se, v\u00e3o ao teatro&#8230;<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAP\u00cdTULO PRIMEIRO &#8211; I EDUARDO B. embarca amanh\u00e3 para a Europa. Amanh\u00e3 quer dizer 24 de abril de 1861, pois estamos a 23, \u00e0 noite, uma triste noite para ele, e para Beatriz. \u2014 Beatriz! repetia ele, no jardim, ao p\u00e9 da janela de onde a mo\u00e7a se debru\u00e7ava estendendo-lhe a m\u00e3o. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-116561","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Letra Vencida, Machado de Assis, Letra Vencida<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Letra Vencida, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema Letra Vencida\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Letra Vencida, Machado de Assis, Letra Vencida\" 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