{"id":116559,"date":"2017-03-29T19:06:21","date_gmt":"2017-03-29T21:06:21","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116559"},"modified":"2017-03-29T19:06:21","modified_gmt":"2017-03-29T21:06:21","slug":"jogo-do-bicho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/jogo-do-bicho","title":{"rendered":"Jogo do Bicho"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>[AB. 1904.]<\/b><\/p>\n<p>CAMILO \u2014 ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade \u2014 ocupava em um dos arsenais do Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-r\u00e9is por m\u00eas, sujeitos ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas f\u00e9rias, foi passar a noite de Natal com um amigo no sub\u00farbio do Rocha; l\u00e1 viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Tr\u00eas meses depois estavam casados.<\/p>\n<p>Nenhum tinha nada; ele, apenas o emprego, ela as m\u00e3os e as pernas para cuidar da casa toda, que era pequena, e ajudar a preta velha que a criou e a acompanhou sem ordenado. Foi esta preta que os fez casar mais depressa. N\u00e3o que lhes desse tal conselho; a rigor, parecia-lhe melhor que ela ficasse com a tia vi\u00fava, sem obriga\u00e7\u00f5es, nem filhos. Mas ningu\u00e9m lhe pediu opini\u00e3o. Como, por\u00e9m, dissesse um dia que, se sua filha de cria\u00e7\u00e3o casasse, iria servi-la de gra\u00e7a, esta frase foi contada a Camilo, e Camilo resolveu casar dous meses depois. Se pensasse um pouco, talvez n\u00e3o casasse logo; a preta era velha, eles eram mo\u00e7os, etc. A id\u00e9ia de que a preta os servia de gra\u00e7a, entrou por uma verba eterna no or\u00e7amento.<\/p>\n<p>Germana, a preta, cumpriu a palavra dada.<\/p>\n<p>\u2014 Um caco de gente sempre pode fazer uma panela de comida, disse ela.<\/p>\n<p>Um ano depois o casal tinha um filho, e a alegria que trouxe compensou os \u00f4nus que traria. Joaninha, a esposa, dispensou ama, tanto era o leite, e tamanha a robustez, sem contar a falta de dinheiro; tamb\u00e9m \u00e9 certo que nem pensaram nisto.<\/p>\n<p>Tudo eram alegrias para o jovem empregado, tudo esperan\u00e7as. Ia haver uma reforma no arsenal, e ele seria promovido. Enquanto n\u00e3o vinha a reforma, houve uma vaga por morte, e ele acompanhou o enterro do colega, quase a rir. Em casa n\u00e3o se conteve e riu. Exp\u00f4s \u00e0 mulher tudo o que se ia dar, os nomes dos promovidos, dous, um tal Botelho, protegido pelo general<br \/>\n*** e ele. A promo\u00e7\u00e3o veio e apanhou Botelho e outro. Camilo chorou desesperadamente, deu murros na cama, na mesa e em si.<\/p>\n<p>\u2014 Tem paci\u00eancia, dizia-lhe Joaninha.<\/p>\n<p>\u2014 Que paci\u00eancia? H\u00e1 cinco anos que marco passo&#8230; Interrompeu-se.<\/p>\n<p>Aquela palavra, da t\u00e9cnica militar, aplicada por um empregado do arsenal, foi como \u00e1gua na fervura; consolou-o. Camilo gostou de si mesmo. Chegou a repeti-la aos companheiros \u00edntimos. Da\u00ed a tempos, falando-se outra vez em reforma, Camilo foi ter com o ministro e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Veja V. Excia. que h\u00e1 mais de cinco anos vivo marcando passo.<\/p>\n<p>O grifo \u00e9 para exprimir a acentua\u00e7\u00e3o que ele deu ao final da frase. Pareceu-lhe que fazia boa impress\u00e3o ao ministro, conquanto todas as classes usassem da mesma figura, funcion\u00e1rios, comerciantes, magistrados, industriais, etc., etc.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve reforma; Camilo acomodou-se e foi vivendo. J\u00e1 ent\u00e3o tinha algumas d\u00edvidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, \u00e0s escondidas. Como eram mo\u00e7os e se amavam, o mau tempo trazia id\u00e9ia de um c\u00e9u perpetuamente azul.<\/p>\n<p>Apesar desta explica\u00e7\u00e3o, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordin\u00e1ria. Ides ver. Que a posteridade me ou\u00e7a. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. Jogar no bicho n\u00e3o \u00e9 um eufemismo como matar o bicho. O jogador escolhe um n\u00famero, que convencionalmente representa um bicho, e se tal n\u00famero acerta de ser o final da sorte grande, todos os que arriscaram nele os seus vint\u00e9ns ganham, e todos os que fiaram dos outros perdem. Come\u00e7ou a vint\u00e9ns e dizem que est\u00e1 em contos de r\u00e9is; mas, vamos ao nosso caso.<\/p>\n<p>Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tost\u00f5es, ganhou n\u00e3o sei quantas vezes mais. Achou nisto tal desprop\u00f3sito que n\u00e3o quis crer, mas afinal foi obrigado a crer, ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, tr\u00eas, quatro vezes, mas o animal, meio-homem, falhou \u00e0s esperan\u00e7as do primeiro dia. Camilo<br \/>\nrecorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o lucro inteiro tornou \u00e0 gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas n\u00e3o h\u00e1 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia l\u00e1 vem a m\u00e3o do arque\u00f3logo a pesquisar os ossos e as idades.<\/p>\n<p>Camilo tinha f\u00e9. A f\u00e9 abala as montanhas. Tentou o gato, depois o c\u00e3o, depois o avestruz; n\u00e3o havendo jogado neles, podia ser que&#8230; N\u00e3o p\u00f4de ser; a fortuna igualou os tr\u00eas animais em n\u00e3o lhes fazer dar nada. N\u00e3o queria ir pelos palpites dos jornais, como faziam alguns amigos. Camilo perguntava como \u00e9 que meia d\u00fazia de pessoas,escrevendo not\u00edcias, podiam adivinhar os<br \/>\nn\u00fameros da sorte grande. De uma feita, para provar o erro, concordou em aceitar um palpite, comprou no gato, e ganhou.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? perguntaram-lhe os amigos.<\/p>\n<p>\u2014 Nem sempre se h\u00e1 de perder, disse este.<\/p>\n<p>\u2014 Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a quest\u00e3o \u00e9 tenacidade, n\u00e3o afrouxar nunca.<\/p>\n<p>Apesar disso, Camilo deixou-se ir com os seus c\u00e1lculos. Quando muito, cedia a certas indica\u00e7\u00f5es que pareciam vir do c\u00e9u, como um dito de crian\u00e7a de rua: \u201cMam\u00e3e, por que \u00e9 que a senhora n\u00e3o joga hoje na cobra?\u201d Ia-se \u00e0 cobra e perdia; perdendo, explicava a si mesmo o fato com os melhores racioc\u00ednios deste mundo, e a raz\u00e3o fortalecia a f\u00e9.<\/p>\n<p>Em vez de reforma da reparti\u00e7\u00e3o veio um aumento de vencimentos, cerca de sessenta mil-r\u00e9is mensais. Camilo resolveu batizar o filho, e escolheu para padrinho nada menos que o pr\u00f3prio sujeito que lhe vendia os bichos, o banqueiro certo. N\u00e3o havia entre eles rela\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia; parece at\u00e9 que o homem era um solteir\u00e3o sem parentes. O convite era t\u00e3o inopinado, que<br \/>\nquase o fez rir, mas viu a sinceridade do mo\u00e7o, e achou t\u00e3o honrosa a escolha que aceitou com prazer.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 neg\u00f3cio de casaca?<\/p>\n<p>\u2014 Qual, casaca! Cousa modesta.<\/p>\n<p>\u2014 Nem carro?<\/p>\n<p>\u2014 Carro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Para que carro?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, basta ir a p\u00e9. A igreja \u00e9 perto, na outra rua.<\/p>\n<p>\u2014 Pois a p\u00e9.<\/p>\n<p>Qualquer pessoa atilada descobriu j\u00e1 que a id\u00e9ia de Camilo \u00e9 que o batizado fosse de carro. Tamb\u00e9m descobriu, \u00e0 vista da hesita\u00e7\u00e3o e do modo, que entrava naquela id\u00e9ia a de deixar que o carro fosse pago pelo padrinho; n\u00e3o pagando o padrinho, n\u00e3o pagaria ningu\u00e9m. Fez-se o batizado, o padrinho deixou uma lembran\u00e7a ao afilhado, e prometeu, rindo, que lhe daria um<br \/>\npr\u00eamio na \u00e1guia.<\/p>\n<p>Esta gra\u00e7ola explica a escolha do pai. Era desconfian\u00e7a dele que o bicheiro entrava na boa fortuna dos bichos, e quis ligar-se-lhe por um la\u00e7o espiritual. N\u00e3o jogou logo na \u00e1guia \u201cpara n\u00e3o espantar\u201d, disse consigo, mas n\u00e3o esqueceu a promessa, e um dia, com ar de riso, lembrou ao bicheiro:<\/p>\n<p>\u2014 Compadre, quando for a \u00e1guia, diga.<\/p>\n<p>\u2014 A \u00e1guia?<\/p>\n<p>Camilo recordou-lhe o dito; o bicheiro soltou uma gargalhada.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, compadre; eu n\u00e3o posso adivinhar. Aquilo foi pura brincadeira. Oxal\u00e1 que eu lhe pudesse dar um pr\u00eamio. A \u00e1guia d\u00e1; n\u00e3o \u00e9 comum, mas d\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Mas porque \u00e9 que eu ainda n\u00e3o acertei com ela?<\/p>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o sei; eu n\u00e3o posso dar conselhos, mas quero crer que voc\u00ea, compadre, n\u00e3o tem paci\u00eancia no mesmo bicho, n\u00e3o joga com certa const\u00e2ncia. Troca muito. \u00c9 por isso que poucas vezes tem acertado. Diga-me c\u00e1: quantas vezes tem acertado?<\/p>\n<p>\u2014 De cor, n\u00e3o posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.<\/p>\n<p>\u2014 Pois veja, e h\u00e1 de descobrir que todo o seu mal est\u00e1 em n\u00e3o teimar algum tempo no mesmo bicho. Olhe, um preto, que h\u00e1 tr\u00eas meses joga na borboleta ganhou hoje e levou uma bolada&#8230;<\/p>\n<p>Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas n\u00e3o as comparava para n\u00e3o conhecer a diferen\u00e7a. N\u00e3o queria saber do deficit. Posto que met\u00f3dico, tinha o instinto de fechar os olhos \u00e0 verdade, para n\u00e3o a ver e aborrecer. Entretanto, a sugest\u00e3o do compadre era aceit\u00e1vel; talvez a inquieta\u00e7\u00e3o, a impaci\u00eancia, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a<br \/>\ncausa de n\u00e3o tirar nunca nada.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. Germana adoecera e ela fazia o jantar, ao mesmo tempo que acabava o vestido de uma freguesa. Cosia para fora, a fim de ajudar as despesas da casa e comprar algum vestido para si. O marido n\u00e3o ocultou o desgosto da situa\u00e7\u00e3o. Correu a ver a preta; j\u00e1 a achou melhor da febre com o quinino que a mulher tinha em casa e lhe dera \u201cpor sua imagina\u00e7\u00e3o\u201d; e a preta acrescentou sorrindo:<\/p>\n<p>\u2014 Imagina\u00e7\u00e3o de nh\u00e3 Joaninha \u00e9 boa.<\/p>\n<p>Jantou triste, por ver a mulher t\u00e3o carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre tamb\u00e9m. Depois do caf\u00e9, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus c\u00e1lculos. Somou as vezes e os bichos, tantas na cobra, tantas no galo, tantas no c\u00e3o e no resto, uma fauna inteira, mas t\u00e3o sem persist\u00eancia, que era f\u00e1cil desacertar. N\u00e3o queria somar a despesa e a receita para n\u00e3o receber de cara um grande golpe, e fechou o caderno. Afinal n\u00e3o p\u00f4de, e somou lentamente, com cuidado para n\u00e3o errar; tinha gasto setecentos e sete mil-r\u00e9is, e tinha ganho oitenta e quatro mil-r\u00e9is, um deficit de seiscentos e vinte e tr\u00eas mil-r\u00e9is. Ficou assombrado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel!<\/p>\n<p>Contou outra vez, ainda mais lento, e chegou a uma diferen\u00e7a de cinco mil-r\u00e9is para menos. Teve esperan\u00e7as e novamente somou as quantias gastas, e achou o primitivo deficit de seiscentos e vinte e tr\u00eas mil-r\u00e9is. Trancou o caderno na gaveta; Joaninha, que o vira jantar alegre, estranhou a mudan\u00e7a e perguntou o que \u00e9 que tinha.<\/p>\n<p>\u2014 Nada.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem alguma cousa; foi alguma lembran\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi nada.<\/p>\n<p>Como a mulher teimasse em saber, engendrou uma mentira \u2014 uma turra com o chefe da se\u00e7\u00e3o \u2014 cousa de nada.<\/p>\n<p>\u2014 Mas voc\u00ea estava alegre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Prova de que n\u00e3o vale nada. Agora lembrou-me&#8230; e estava pensando no caso, mas n\u00e3o \u00e9 nada. Vamos \u00e0 bisca.<\/p>\n<p>A bisca era o espet\u00e1culo deles, a \u00d3pera, a Rua do Ouvidor, Petr\u00f3polis, Tijuca, tudo o que podia exprimir um recreio, um passeio, um repouso. A alegria da esposa voltou ao que era. Quanto ao marido, se n\u00e3o ficou t\u00e3o expansivo como de costume, achou algum prazer e muita esperan\u00e7a nos n\u00fameros das cartas. Jogou a bisca fazendo c\u00e1lculos, conforme a primeira carta que sa\u00edsse, depois a segunda, depois a terceira; esperou a \u00faltima; adotou outras combina\u00e7\u00f5es, a ver os bichos que correspondiam a elas, e viu muito deles, mas principalmente o macaco e a cobra; firmou-se nestes.<\/p>\n<p>\u2014 O meu plano est\u00e1 feito, saiu pensando no dia seguinte, vou at\u00e9 aos setecentos mil-r\u00e9is. Se n\u00e3o tirar quantia grossa que anime, n\u00e3o compro mais.<\/p>\n<p>Firmou-se na cobra, por causa da ast\u00facia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que aceitara o seu conselho, e come\u00e7ava a teimar na cobra.<\/p>\n<p>\u2014 A cobra \u00e9 boa, disse o compadre.<\/p>\n<p>Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao s\u00e9timo dia, lembrou-se de fixar mentalmente uma prefer\u00eancia, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel, perdeu tamb\u00e9m; veio \u00e0 surucucu, \u00e0 jib\u00f3ia, \u00e0 jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma trist\u00edssima fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem raz\u00e3o, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o determinou a isto foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu pol\u00edcia, o menino foi levado \u00e0 farm\u00e1cia, o cocheiro ao posto da guarda. Camilo s\u00f3 reparou bem no n\u00famero do carro, cuja termina\u00e7\u00e3o correspondia ao carneiro; adotou o carneiro. O carneiro n\u00e3o foi mais feliz que a cobra.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, Camilo apoderou-se daquele processo de adotar um bicho, e jogar nele at\u00e9 estaf\u00e1-lo: era ir pelos n\u00fameros advent\u00edcios. Por exemplo, entrava por uma rua com os olhos no ch\u00e3o, dava quarenta, sessenta, oitenta passos, erguia repentinamente os olhos e fitava a primeira casa \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda, tomava o n\u00famero e ia dali ao bicho correspondente. Tinha j\u00e1 gasto o processo de n\u00fameros escritos e postos dentro do chap\u00e9u, o de um bilhete do Tesouro \u2014 cousa rara \u2014 e cem outras formas, que se repetiam ou se completavam. Em todo caso, ia descambando na impaci\u00eancia e variava muito. Um dia resolveu fixar-se no le\u00e3o; o compadre, quando reconheceu que efetivamente n\u00e3o sa\u00eda do rei dos animais, deu gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, gra\u00e7as a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O le\u00e3o tem andado esquivo, \u00e9 prov\u00e1vel que derrube tudo, mais hoje, mais amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Esquivo? Mas ent\u00e3o n\u00e3o querer\u00e1 dizer&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014 Ao contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Dizer qu\u00ea? Ao contr\u00e1rio, qu\u00ea? Palavras escuras, mas para quem tem f\u00e9 e lida com n\u00fameros, nada mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-r\u00e9is; ou vencia ou morria.<\/p>\n<p>A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos os trabalhos, crescentes as d\u00edvidas e os empr\u00e9stimos, e at\u00e9 n\u00e3o raras as fomes. N\u00e3o lhe cabia culpa, mas tinha paci\u00eancia. Ele, em chegando aos setecentos mil-r\u00e9is, trancaria a porta. O le\u00e3o n\u00e3o queria dar. Camilo pensou em troc\u00e1-lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com<br \/>\nessa frouxid\u00e3o, que ele acabaria entre os bra\u00e7os da realeza. Faltava j\u00e1 pouco; enfim, pouqu\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje respiro, disse Camilo \u00e0 esposa. Aqui est\u00e1 a nota \u00faltima.<\/p>\n<p>Cerca das duas horas, estando \u00e0 mesa da reparti\u00e7\u00e3o, a copiar um grave documento, Camilo ia calculando os n\u00fameros e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no c\u00e9rebro. A troca era f\u00e1cil; os seus vinham mais vezes ao papel que os do documento original. E o pior \u00e9 que ele<br \/>\nn\u00e3o dava por isso, escrevia o le\u00e3o em vez de transcrever a soma exata das toneladas de p\u00f3lvora&#8230;<\/p>\n<p>De repente, entra na sala um cont\u00ednuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o le\u00e3o dera. Camilo deixou cair a pena, e a tinta inutilizou a c\u00f3pia quase acabada. Se a ocasi\u00e3o fosse outra, era caso de dar um murro no papel e quebrar a pena, mas a ocasi\u00e3o era esta, e o papel e a pena escaparam \u00e0s viol\u00eancias mais justas deste mundo; o le\u00e3o dera. Mas, como a d\u00favida n\u00e3o<br \/>\nmorre:<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 que disse que o le\u00e3o deu? perguntou Camilo baixinho.<\/p>\n<p>\u2014 O mo\u00e7o que me vendeu na cobra.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o foi a cobra que deu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor; ele \u00e9 que se enganou e veio trazer a not\u00edcia pensando que eu tinha comprado no le\u00e3o, mas foi na cobra.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 certo?<\/p>\n<p>\u2014 Cert\u00edssimo.<\/p>\n<p>Camilo quis deitar a correr, mas o papel borrado de tinta acenou-lhe que n\u00e3o. Foi ao chefe, contou-lhe o desastre e pediu para fazer a c\u00f3pia no dia seguinte; viria mais cedo, ou levaria o original para casa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que est\u00e1 dizendo? A c\u00f3pia h\u00e1 de ficar pronta hoje.<\/p>\n<p>\u2014 Mas s\u00e3o quase tr\u00eas horas.<\/p>\n<p>\u2014 Prorrogo o expediente.<\/p>\n<p>Camilo teve vontade de prorrogar o chefe at\u00e9 ao mar, se lhe era l\u00edcito dar tal uso ao verbo e ao regulamento. Voltou \u00e0 mesa, pegou de uma folha de papel e come\u00e7ou a escrever o requerimento de demiss\u00e3o. O le\u00e3o dera; podia mandar embora aquele inferno. Tudo isto em segundos r\u00e1pidos, apenas um minuto e meio. N\u00e3o tendo rem\u00e9dio, entrou a recopiar o documento, e antes das quatro horas estava acabado. A letra saiu tremida, desigual, raivosa, agora melanc\u00f3lica, pouco a pouco alegre, \u00e0 medida que o le\u00e3o dizia ao ouvido do amanuense, ado\u00e7ando a voz: Eu dei! eu dei!<\/p>\n<p>\u2014 Ora, chegue-se, d\u00ea c\u00e1 um abra\u00e7o, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte come\u00e7a a proteg\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto?<\/p>\n<p>\u2014 Cento e cinco mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-r\u00e9is, e s\u00f3 na rua advertiu que n\u00e3o agradecera ao compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-r\u00e9is! Tinha \u00e2nsia de levar \u00e0 mulher aquela not\u00edcia; mas, assim&#8230; s\u00f3&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, \u00e9 preciso festejar esse acontecimento. Um dia n\u00e3o s\u00e3o dias. Devo agradecer ao c\u00e9u a fortuna que me deu. Um pratinho melhor \u00e0 mesa&#8230;<\/p>\n<p>Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio ajud\u00e1-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as cousas. Come\u00e7ou por um pastel\u00e3o, \u201cum rico pastel\u00e3o, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o est\u00f4mago\u201d. A sobremesa foi \u201cum rico pudim\u201d, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: \u201cViva a esperan\u00e7a!\u201d. A alegria de Camilo foi tanta e t\u00e3o estrepitosa que o homem n\u00e3o teve rem\u00e9dio sen\u00e3o oferecer-lhe vinho tamb\u00e9m, uma ou duas garrafas. Duas.<\/p>\n<p>\u2014 Isto n\u00e3o vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. N\u00e3o \u00e9 longe?<\/p>\n<p>Camilo aceitou e pagou. Entendeu-se com o menino acerca da casa e do que faria. Que lhe n\u00e3o batesse \u00e0 porta; chegasse e esperasse por ele; podia ser que ainda n\u00e3o estivesse em casa; se estivesse, viria \u00e0 janela, de quando em quando. Pagou dezesseis mil-r\u00e9is e saiu.<\/p>\n<p>Estava t\u00e3o contente com o jantar que levava e o espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma j\u00f3ia. Esta id\u00e9ia s\u00f3 o assaltou no bonde, andando; desceu e voltou a p\u00e9, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra preciosa. Achou um broche nestas condi\u00e7\u00f5es, t\u00e3o modesto no pre\u00e7o, cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is \u2014 que ficou admirado;<br \/>\nmas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.<\/p>\n<p>Ao chegar, estava \u00e0 porta o menino, com cara de o haver j\u00e1 descomposto e mandado ao diabo. Tirou-lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor, o patr\u00e3o n\u00e3o quer.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o diga ao patr\u00e3o; pegue l\u00e1 dez tost\u00f5es; servem para comprar na cobra, compre na cobra.<\/p>\n<p>Isto de lhe indicar o bicho que n\u00e3o dera, em vez do le\u00e3o, que dera, n\u00e3o foi c\u00e1lculo nem perversidade; foi talvez confus\u00e3o. O menino recebeu os dez tost\u00f5es, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas m\u00e3os e trinta e oito mil-r\u00e9is na algibeira.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.cce.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis [AB. 1904.] CAMILO \u2014 ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade \u2014 ocupava em um dos arsenais do Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-r\u00e9is por m\u00eas, sujeitos ao desconto de taxa e montepio. 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