{"id":116557,"date":"2017-03-29T19:04:50","date_gmt":"2017-03-29T21:04:50","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116557"},"modified":"2017-03-29T19:04:50","modified_gmt":"2017-03-29T21:04:50","slug":"joao-fernandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/joao-fernandes","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Fernandes"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>H\u00e1 muitos anos. O sino de S. Francisco de Paula bateu duas horas. Desde pouco mais de meia noite deixou este rapaz, Jo\u00e3o Fernandes, o botequim da Rua do Hosp\u00edcio, onde lhe deram ch\u00e1 com torradas, e um charuto por cinco tost\u00f5es. Jo\u00e3o Fernandes desceu pela rua do Ouvidor, na esquina da dos Ourives viu uma patrulha. Na da Quitanda deu com dois caixeiros que conversavam antes de ir cada um para o seu armaz\u00e9m. N\u00e3o os conhecia, mas presumiu que fossem tais, e acertou; eram ambos mo\u00e7os, quase imberbes. Falavam de amores.<\/p>\n<p>\u2014 A Rosinha n\u00e3o tem raz\u00e3o, dizia um; eu conhe\u00e7o muito bem o Miranda&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s enganado; o Miranda \u00e9 uma besta.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Fernandes foi at\u00e9 \u00e0 rua Primeiro de Mar\u00e7o; desandou, os dois caixeiros despediam-se; um seguiu para a rua de S. Bento, outro para a de S. Jos\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e3o dormir! suspirou ele.<\/p>\n<p>Iam rareando os encontros. A patrulha caminhava at\u00e9 o largo de S. Francisco de Paula. No largo passaram dois vultos, ao longe. Tr\u00eas t\u00edlburis, parados junto \u00e0 Escola Polit\u00e9cnica, aguardavam fregueses. Jo\u00e3o Fernandes, que vinha poupando o charuto, n\u00e3o p\u00f4de mais; n\u00e3o tendo f\u00f3sforos, endireitou para um dos t\u00edlburis.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, patr\u00e3o, disse o cocheiro; para onde \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 servi\u00e7o, n\u00e3o; voc\u00ea tem f\u00f3sforos?<\/p>\n<p>O cocheiro esfriou e respondeu calado, metendo a m\u00e3o no bolso para tinir a caixa de f\u00f3sforos; mas t\u00e3o vagarosamente o fez que Jo\u00e3o Fernandes a tempo se lembrou de lhe cercear o favor, bastava permitir que acendesse o charuto na lanterna. Assim fez, e despediu-se agradecendo. Um f\u00f3sforo sempre vale alguma coisa, disse ele sentenciosamente. O cocheiro resmungou um dito feio, tomou a embrulhar-se em si mesmo, e estirou-se na almofada. Era uma fria noite de junho. Tinha chovido de dia, mas agora n\u00e3o havia a menor nuvem no c\u00e9u. Todas as estrelas rutilavam. Ventava um pouco \u2014 frio, mas brando.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o haja inverno para namorados, \u00e9 natural; mas ainda assim era preciso que Jo\u00e3o Fernandes fosse namorado, e n\u00e3o o era. N\u00e3o s\u00e3o amores que o levam rua abaixo, rua acima, a ouvir o sino de S. Francisco de Paula, a encontrar patrulhas, a acender o charuto na lanterna dos carros. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poesia. Na cabe\u00e7a deste pobre diabo de vinte e seis anos n\u00e3o arde imagina\u00e7\u00e3o alguma, que forceje por falar e verso ou prosa. Filosofia, menos. Certo, a roupa que o veste \u00e9 descuidada, como os cabelos e a barba; mas n\u00e3o \u00e9 por filosofia que os traz assim. Conv\u00e9m firmar bem um ponto; a nota de cinco tost\u00f5es que ele deu pelo ch\u00e1 e pelo charuto foi a \u00faltima que trazia. N\u00e3o possu\u00eda agora nada mais, salvo uns dois vint\u00e9ns, perdidos no bolso do colete. Vede a triste carteira velha que ele tirou agora, \u00e0 luz do lampi\u00e3o, para ver se acha algum papel, naturalmente, ou outra coisa; est\u00e1 cheia de nada. Um l\u00e1pis sem ponta, uma carta, um an\u00fancio do Jornal do Commercio, em que se diz precisar algu\u00e9m de um homem para cobran\u00e7a. O an\u00fancio era da v\u00e9spera. Quando Jo\u00e3o Fernandes foi ter com o anunciante (era mais de meio-dia) achou o lugar ocupado.<\/p>\n<p>Sim, n\u00e3o tem emprego. Para entender o resto, n\u00e3o vades crer que perdeu a chave da casa. N\u00e3o a perdeu, n\u00e3o a possui. A chave est\u00e1 com o propriet\u00e1rio do c\u00f4modo que ele ocupou durante alguns meses, n\u00e3o tendo pago mais de dois, pelo que foi obrigado a despej\u00e1-lo antes de ontem. A noite passada achou meio de dormir em casa de um conhecido, a pretexto de ser tarde e estar com sono. Qualquer coisa servia, disse ele, uma esteira, uma rede, um canto, sem len\u00e7ol, mas teve boa: cama e almo\u00e7o. Esta noite n\u00e3o achou nada. A boa fada das camas fortuitas e dos amigos encontradi\u00e7os andaria tresnoitada e dormia tamb\u00e9m. Quando lhe acontecia alguma destas (n\u00e3o era a primeira), Jo\u00e3o Fernandes s\u00f3 tinha dois ou tr\u00eas mil-r\u00e9is, ia a alguma hospedaria e alugava um quarto pela noite; desta vez havia de contentar-se com a rua. N\u00e3o era a primeira noite que passava ao relento; trazia o corpo e a alma curtidos de vig\u00edlias for\u00e7adas. As estrelas, ainda mais lindas que indiferentes, j\u00e1 o conheciam de longa data. A cidade estava deserta; o sil\u00eancio agravava a solid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00eas horas! murmurou Jo\u00e3o Fernandes no Rossio, voltando dos lados da rua de Inv\u00e1lidos. Agora amanhece tarde como o diabo.<\/p>\n<p>Abotoou o palet\u00f3, e toca a imaginar. Era preciso empregar-se, e bem, para se n\u00e3o expor a n\u00e3o ter onde encostar a cabe\u00e7a. Em que lugar dormiria no dia seguinte? Teve id\u00e9ias petroleiras. Do petr\u00f3leo ao inc\u00eandio \u00e9 um passo. Oh! se houvesse um inc\u00eandio naquele momento! Ele correria ao lugar, e a gente, o alvoro\u00e7o, a pol\u00edcia e os bombeiros, todo o espet\u00e1culo faria correr o tempo depressa. Sim, podia muito bem arder uma casa velha, sem morrer ningu\u00e9m, poucos trastes, e no seguro. N\u00e3o era s\u00f3 distra\u00e7\u00e3o, era tamb\u00e9m repouso. Haveria um pretexto para sentar-se em alguma soleira de porta. Agora, se o fizesse, as patrulhas poderiam desconfiar, ou recolh\u00ea-lo como vagabundo. A raz\u00e3o que o levava a andar sempre, sempre, era fazer crer, se algu\u00e9m o visse, que ia para casa. \u00c0s vezes, n\u00e3o podia continuar, e parava a uma esquina, a uma parede; ouvindo passos, patrulha ou n\u00e3o, recome\u00e7ava a marcha. Passou um carro por ele, aberto, dois rapazes e duas mulheres dentro, cantando uma reminisc\u00eancia de Offenbach. Jo\u00e3o Fernandes suspirou; uns tinham carro, outros nem cama&#8230; A sociedade \u00e9 madrasta, rugiu ele.<\/p>\n<p>A vista dos teatros azedou-lhe mais o esp\u00edrito. Passara por eles, horas antes, vira-os cheios e iluminados, gente que se divertia, mulheres no sagu\u00e3o, sedas, flores, luvas, homens com rel\u00f3gio no colete e charuto na boca. E toda essa gente dormia agora, sonhando com a pe\u00e7a ou com os seus amores. Jo\u00e3o Fernandes pensou em fazer-se ator; n\u00e3o teria talento, nem era preciso muito para dizer o que estivesse no papel. Uma vez que o papel fosse bom, engra\u00e7ado, ele faria rir. Ningu\u00e9m faz rir com pap\u00e9is tristes. A vida de artista era independente; bastava agradar ao p\u00fablico. E recordava as pe\u00e7as vistas, os atores conhecidos, as grandes barrigadas de riso que tivera. Tamb\u00e9m podia escrever uma com\u00e9dia. Chegou a imaginar um enredo, sem advertir que eram reminisc\u00eancias de v\u00e1rias outras composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os varredores das ruas come\u00e7aram a dificultar o tr\u00e2nsito com a poeira. Jo\u00e3o Fernandes entrou a desvairar ainda mais os passos. Foi assim que chegou \u00e0 praia da Gl\u00f3ria, onde gastou alguns minutos vendo e ouvindo o mar que batia na praia com for\u00e7a. Tomou abaixo; ouviu o ganir de um c\u00e3o, ao longe. Na rua alguns dormiam, outros fugiam, outros latiam, quando ele passava. Invejou os c\u00e3es que dormiam; foi ao ponto de invejar os burros dos t\u00edlburis parados, que provavelmente dormiam tamb\u00e9m. No centro da cidade a solid\u00e3o era ainda a mesma. Um ou outro vulto come\u00e7ava a aparecer, mas raro. Os ratos ainda atropelavam o noct\u00e2mbulo, correndo de um lado para outro da rua, dando id\u00e9ia de uma vasta popula\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea de roedores, que substitu\u00edam os homens para n\u00e3o parar o trabalho universal. Jo\u00e3o Fernandes perguntava a si mesmo por que n\u00e3o imitaria os ratos; tinha febre, era um princ\u00edpio de del\u00edrio.<\/p>\n<p>\u2014 Uma, duas, tr\u00eas, quatro, contou ele, parado no largo da Carioca. Eram as badaladas do sino de S. Francisco. Pareceu-lhe ter contado mal; pelo tempo deviam ser cinco horas. Mas era assim mesmo, disse afinal; as horas noturnas e solit\u00e1rias s\u00e3o muito mais compridas que as outras. Um charuto, naquela ocasi\u00e3o, seria um grande benef\u00edcio; um simples cigarro podia enganar a boca, os dois vint\u00e9ns restantes bastavam-lhe para comprar um ordin\u00e1rio; mas onde?<\/p>\n<p>A noite foi inclinando o ros\u00e1rio das horas para a manh\u00e3, sua companheira. Jo\u00e3o Fernandes ouviu-as de um rel\u00f3gio, quando passava pela rua dos Ourives; eram cinco; depois outro rel\u00f3gio deu as mesmas cinco; adiante, outro; mais longe, outro. \u2014 Uma, duas, tr\u00eas, quatro, cinco, dizia ainda outro rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Fernandes correu ao botequim onde tomara ch\u00e1. Alcan\u00e7ou um caf\u00e9 e a promessa de um almo\u00e7o, que pagaria \u00e0 tarde ou no dia seguinte. Conseguiu um cigarro. O entregador do Jornal do Commercio trouxe a folha; ele foi o primeiro a abri-la e l\u00ea-la. Chegavam empregados dos arsenais, viajantes da estrada de ferro, simples vizinhos que acordavam cedo, e porventura algum vadio sem casa. O rumor trazia a Jo\u00e3o Fernandes a sensa\u00e7\u00e3o da vida; gentes, falas, carro\u00e7as, a\u00ed recome\u00e7ava a cidade e a faina. O dia vinha andando, r\u00e1pido, cada vez mais r\u00e1pido, at\u00e9 que tudo ficou claro; o botequim apagou o g\u00e1s. Jo\u00e3o Fernandes acabou de ler o Jornal \u00e0 luz do dia. Espregui\u00e7ou-se, sacudiu a morrinha, despediu-se:<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 logo!<\/p>\n<p>Enfiou pela rua abaixo, com os olhos no futuro cor de rosa: a certeza do almo\u00e7o. N\u00e3o se lembrara de procurar algum an\u00fancio no Jornal; viu, por\u00e9m, a not\u00edcia de que o minist\u00e9rio ia ser interpelado nesse dia. Uma interpela\u00e7\u00e3o ao minist\u00e9rio! Almo\u00e7aria \u00e0s dez horas; \u00e0s onze estaria na galeria da c\u00e2mara. A\u00ed tinha com que suprir o jantar.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis H\u00e1 muitos anos. O sino de S. Francisco de Paula bateu duas horas. Desde pouco mais de meia noite deixou este rapaz, Jo\u00e3o Fernandes, o botequim da Rua do Hosp\u00edcio, onde lhe deram ch\u00e1 com torradas, e um charuto por cinco tost\u00f5es. 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