{"id":116549,"date":"2017-03-29T18:36:05","date_gmt":"2017-03-29T20:36:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116549"},"modified":"2017-03-29T18:36:05","modified_gmt":"2017-03-29T20:36:05","slug":"historia-sem-data","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/historia-sem-data","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria Sem Data"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>ADVERT\u00caNCIA DA 1\u00aa EDI\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>De todos os contos que aqui se acham h\u00e1 dois que efetivamente n\u00e3o levam data expressa; os outros a t\u00eam, de maneira que este t\u00edtulo Hist\u00f3rias sem data parecer\u00e1 a alguns inintelig\u00edvel, ou vago. Supondo, por\u00e9m, que o meu fim \u00e9 definir estas p\u00e1ginas como tratando, em subst\u00e2ncia, de coisas que n\u00e3o s\u00e3o especialmente do dia, ou de um certo dia, penso que o t\u00edtulo est\u00e1 explicado. E \u00e9 o pior que lhe pode acontecer, pois o melhor dos t\u00edtulos \u00e9 ainda aquele que n\u00e3o precisa de explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>M. de A.<\/p>\n<p>IGREJA DO DIABO<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>De uma id\u00e9ia mir\u00edfica<\/p>\n<p>Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a id\u00e9ia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem cont\u00ednuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde s\u00e9culos, sem organiza\u00e7\u00e3o, sem regras, sem c\u00e2nones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obs\u00e9quios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que n\u00e3o teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religi\u00f5es, e destru\u00ed-las de uma vez.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, brevi\u00e1rio contra brevi\u00e1rio. Terei a minha missa, com vinho e p\u00e3o \u00e0 farta, as minhas pr\u00e9dicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesi\u00e1stico. O meu credo ser\u00e1 o n\u00facleo universal dos esp\u00edritos, a minha igreja uma tenda de Abra\u00e3o. E depois, enquanto as outras religi\u00f5es se combatem e se dividem, a minha igreja ser\u00e1 \u00fanica; n\u00e3o acharei diante de mim, nem Maom\u00e9, nem Lutero. H\u00e1 muitos modos de afirmar; h\u00e1 s\u00f3 um de negar tudo.<\/p>\n<p>Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabe\u00e7a e estendeu os bra\u00e7os, com um gesto magn\u00edfico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a id\u00e9ia, e desafi\u00e1-lo; levantou os olhos, acesos de \u00f3dio, \u00e1speros de vingan\u00e7a, e disse consigo: &#8211; Vamos, \u00e9 tempo. E r\u00e1pido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as prov\u00edncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Entre Deus e o Diabo<\/p>\n<p>Deus recolhia um anci\u00e3o, quando o Diabo chegou ao c\u00e9u. Os serafins que engrinaldavam o rec\u00e9m-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar \u00e0 entrada com os olhos no Senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Que me queres tu? perguntou este.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do s\u00e9culo e dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>&#8211; Explica-te.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, a explica\u00e7\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas c\u00edtaras e ala\u00fades o recebam com os mais divinos coros&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de do\u00e7ura.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, mas provavelmente \u00e9 dos \u00faltimos que vir\u00e3o ter convosco. N\u00e3o tarda muito que o c\u00e9u fique semelhante a uma casa vazia, por causa do pre\u00e7o, que \u00e9 alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganiza\u00e7\u00e3o, do meu reinado casual e advent\u00edcio. \u00c9 tempo de obter a vit\u00f3ria final e completa. E ent\u00e3o vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me n\u00e3o acuseis de dissimula\u00e7\u00e3o&#8230; Boa id\u00e9ia, n\u00e3o vos parece?<\/p>\n<p>&#8211; Vieste diz\u00ea-la, n\u00e3o legitim\u00e1-la, advertiu o Senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Tendes raz\u00e3o, acudiu o Diabo; mas o amor-pr\u00f3prio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade \u00e9 que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exig\u00eancia&#8230; Senhor, des\u00e7o \u00e0 terra; vou lan\u00e7ar a minha pedra fundamental.<\/p>\n<p>&#8211; Vai.<\/p>\n<p>&#8211; Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso; basta que me digas desde j\u00e1 por que motivo, cansado h\u00e1 tanto da tua desorganiza\u00e7\u00e3o, s\u00f3 agora pensaste em fundar uma igreja.<\/p>\n<p>O Diabo sorriu com certo ar de esc\u00e1rnio e triunfo. Tinha alguma id\u00e9ia cruel no esp\u00edrito, algum reparo picante no alforje de mem\u00f3ria, qualquer coisa que, nesse breve instante de eternidade, o fazia crer superior ao pr\u00f3prio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 agora conclu\u00ed uma observa\u00e7\u00e3o, come\u00e7ada desde alguns s\u00e9culos, e \u00e9 que as virtudes, filhas do c\u00e9u, s\u00e3o em grande n\u00famero compar\u00e1veis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algod\u00e3o. Ora, eu proponho-me a pux\u00e1-las por essa franja, e traz\u00ea-las todas para minha igreja; atr\u00e1s delas vir\u00e3o as de seda pura&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Velho ret\u00f3rico! murmurou o Senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos p\u00e9s, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo p\u00f3, os len\u00e7os cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devo\u00e7\u00e3o entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, &#8211; a indiferen\u00e7a, ao menos, &#8211; com que esse cavalheiro p\u00f5e em letras p\u00fablicas os benef\u00edcios que liberalmente espalha, &#8211; ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas mat\u00e9rias necess\u00e1rias \u00e0 vida&#8230; Mas n\u00e3o quero parecer que me detenho em coisas mi\u00fadas; n\u00e3o falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas prociss\u00f5es, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda&#8230; Vou a neg\u00f3cios mais altos&#8230;<\/p>\n<p>Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de s\u00faplica. Deus interrompeu o Diabo.<\/p>\n<p>&#8211; Tu \u00e9s vulgar, que \u00e9 o pior que pode acontecer a um esp\u00edrito da tua esp\u00e9cie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas est\u00e1 dito e redito pelos moralistas do mundo. \u00c9 assunto gasto; e se n\u00e3o tens for\u00e7a, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor \u00e9 que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legi\u00f5es mostram no rosto os sinais vivos do t\u00e9dio que lhes d\u00e1s. Esse mesmo anci\u00e3o parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vos disse que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufr\u00e1gio, ia salvar-se numa t\u00e1bua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam j\u00e1 com a morte; deu-lhes a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o e mergulhou na eternidade. Nenhum p\u00fablico: a \u00e1gua e o c\u00e9u por cima. Onde achas a\u00ed a franja de algod\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, eu sou, como sabeis, o esp\u00edrito que nega.<\/p>\n<p>&#8211; Negas esta morte?<\/p>\n<p>&#8211; Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, \u00e9 realmente aborrec\u00ea-los&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ret\u00f3rico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens&#8230; Mas, vai! vai!<\/p>\n<p>Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe sil\u00eancio; os serafins, a um sinal divino, encheram o c\u00e9u com as harmonias de seus c\u00e2nticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>A boa nova aos homens<\/p>\n<p>Uma vez na terra, o Diabo n\u00e3o perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como h\u00e1bito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordin\u00e1ria, com uma voz que reboava nas entranhas do s\u00e9culo. Ele prometia aos seus disc\u00edpulos e fi\u00e9is as del\u00edcias da terra, todas as gl\u00f3rias, os deleites mais \u00edntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a no\u00e7\u00e3o que os homens tinham dele e desmentir as hist\u00f3rias que a seu respeito contavam as velhas beatas.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sou o Diabo, repetia ele; n\u00e3o o Diabo das noites sulf\u00fareas, dos contos son\u00edferos, terror das crian\u00e7as, mas o Diabo verdadeiro e \u00fanico, o pr\u00f3prio g\u00eanio da natureza, a que se deu aquele nome para arred\u00e1-lo do cora\u00e7\u00e3o dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos l\u00e1: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um trof\u00e9u e um l\u00e1baro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo&#8230;<\/p>\n<p>Era assim que falava, a princ\u00edpio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multid\u00f5es ao p\u00e9 de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um esp\u00edrito de nega\u00e7\u00e3o. Isso quanto \u00e0 subst\u00e2ncia, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras c\u00ednica e deslavada.<\/p>\n<p>Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substitu\u00eddas por outras, que eram as naturais e leg\u00edtimas. A soberba, a lux\u00faria, a pregui\u00e7a foram reabilitadas, e assim tamb\u00e9m a avareza, que declarou n\u00e3o ser mais do que a m\u00e3e da economia, com a diferen\u00e7a que a m\u00e3e era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na exist\u00eancia de Homero; sem o furor de Aquiles, n\u00e3o haveria a Il\u00edada: &#8220;Musa, canta a c\u00f3lera de Aquiles, filho de Peleu&#8230;&#8221; O mesmo disse da gula, que produziu as melhores p\u00e1ginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude t\u00e3o superior, que ningu\u00e9m se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas raz\u00f5es de ordem liter\u00e1ria ou hist\u00f3rica, para s\u00f3 mostrar o valor intr\u00ednseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande c\u00f3pia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, express\u00e3o metaf\u00f3rica, pela vinha do Diabo, locu\u00e7\u00e3o direta e verdadeira, pois n\u00e3o faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto \u00e0 inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao pr\u00f3prio talento.<\/p>\n<p>As turbas corriam atr\u00e1s dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloq\u00fc\u00eancia, toda a nova ordem de coisas, trocando a no\u00e7\u00e3o delas, fazendo amar as perversas e detestar as s\u00e3s.<\/p>\n<p>Nada mais curioso, por exemplo, do que a defini\u00e7\u00e3o que ele dava da fraude. Chamava-lhe o bra\u00e7o esquerdo do homem; o bra\u00e7o direito era a for\u00e7a; e conclu\u00eda: Muitos homens s\u00e3o canhotos, eis tudo. Ora, ele n\u00e3o exigia que todos fossem canhotos; n\u00e3o era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que n\u00e3o fossem nada. A demonstra\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casu\u00edsta do tempo chegou a confessar que era um monumento de l\u00f3gica. A venalidade, disse o Diabo, era o exerc\u00edcio de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chap\u00e9u, coisas que s\u00e3o tuas por uma raz\u00e3o jur\u00eddica e legal, mas que, em todo caso, est\u00e3o fora de ti, como \u00e9 que n\u00e3o podes vender a tua opini\u00e3o, o teu voto, a tua palavra, a tua f\u00e9, coisas que s\u00e3o mais do que tuas, porque s\u00e3o a tua pr\u00f3pria consci\u00eancia, isto \u00e9, tu mesmo? Neg\u00e1-lo \u00e9 cair no absurdo e no contradit\u00f3rio. Pois n\u00e3o h\u00e1 mulheres que vendem os cabelos? n\u00e3o pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem an\u00eamico? e o sangue e os cabelos, partes f\u00edsicas, ter\u00e3o um privil\u00e9gio que se nega ao car\u00e1ter, \u00e0 por\u00e7\u00e3o moral do homem? Demonstrado assim o princ\u00edpio, o Diabo n\u00e3o se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuni\u00e1ria; depois, mostrou ainda que, \u00e0 vista do preconceito social, conviria dissimular o exerc\u00edcio de um direito t\u00e3o leg\u00edtimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto \u00e9, merecer duplicadamente.<\/p>\n<p>E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Est\u00e1 claro que combateu o perd\u00e3o das inj\u00farias e outras m\u00e1ximas de brandura e cordialidade. N\u00e3o proibiu formalmente a cal\u00fania gratuita, mas induziu a exerc\u00ea-la mediante retribui\u00e7\u00e3o, ou pecuni\u00e1ria, ou de outra esp\u00e9cie; nos casos, por\u00e9m, em que ela fosse uma expans\u00e3o imperiosa da for\u00e7a imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum sal\u00e1rio, pois equivalia a fazer pagar a transpira\u00e7\u00e3o. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos poss\u00edveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o do interesse. Mas essa mesma exce\u00e7\u00e3o foi logo eliminada, pela considera\u00e7\u00e3o de que o interesse, convertendo o respeito em simples adula\u00e7\u00e3o, era este o sentimento aplicado e n\u00e3o aquele.<\/p>\n<p>Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do pr\u00f3ximo era um obst\u00e1culo grave \u00e0 nova institui\u00e7\u00e3o. Ele mostrou que essa regra era uma simples inven\u00e7\u00e3o de parasitas e negociantes insolv\u00e1veis; n\u00e3o se devia dar ao pr\u00f3ximo sen\u00e3o indiferen\u00e7a; em alguns casos, \u00f3dio ou desprezo. Chegou mesmo \u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o de que a no\u00e7\u00e3o de pr\u00f3ximo era errada, e citava esta frase de um padre de N\u00e1poles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: &#8220;Leve a breca o pr\u00f3ximo! N\u00e3o h\u00e1 pr\u00f3ximo!&#8221; A \u00fanica hip\u00f3tese em que ele permitia amar ao pr\u00f3ximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa esp\u00e9cie de amor tinha a particularidade de n\u00e3o ser outra coisa mais do que o amor do indiv\u00edduo a si mesmo. E como alguns disc\u00edpulos achassem que uma tal explica\u00e7\u00e3o, por metaf\u00edsica, escapava \u00e0 compreens\u00e3o das turbas, o Diabo recorreu a um ap\u00f3logo: &#8211; Cem pessoas tomam a\u00e7\u00f5es de um banco, para as opera\u00e7\u00f5es comuns; mas cada acionista n\u00e3o cuida realmente sen\u00e3o nos seus dividendos: \u00e9 o que acontece aos ad\u00falteros. Este ap\u00f3logo foi inclu\u00eddo no livro da sabedoria.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Franjas e franjas<\/p>\n<p>A previs\u00e3o do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algod\u00e3o, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa \u00e0s urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atr\u00e1s foram chegando as outras, e o tempo aben\u00e7oou a institui\u00e7\u00e3o. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; n\u00e3o havia uma regi\u00e3o do globo que n\u00e3o a conhecesse, uma l\u00edngua que n\u00e3o a traduzisse, uma ra\u00e7a que n\u00e3o a amasse. O Diabo al\u00e7ou brados de triunfo.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fi\u00e9is, \u00e0s escondidas, praticavam as antigas virtudes. N\u00e3o as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, \u00e0s ocultas. Certos glut\u00f5es recolhiam-se a comer frugalmente tr\u00eas ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito cat\u00f3lico; muitos avaros davam esmolas, \u00e0 noite, ou nas ruas mal povoadas; v\u00e1rios dilapidadores do er\u00e1rio restitu\u00edam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam emba\u00e7ando os outros.<\/p>\n<p>A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram at\u00e9 incompreens\u00edveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma gera\u00e7\u00e3o inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das v\u00edtimas. No Cairo achou um perfeito ladr\u00e3o de camelos, que tapava a cara para ir \u00e0s mesquitas. O Diabo deu com ele \u00e0 entrada de uma, lan\u00e7ou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, \u00e0 vista do Diabo e foi d\u00e1-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Al\u00e1. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordin\u00e1rias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores ap\u00f3stolos era um calabr\u00eas, var\u00e3o de cinq\u00fcenta anos, insigne falsificador de documentos, que possu\u00eda uma bela casa na campanha romana, telas, est\u00e1tuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para n\u00e3o confessar que estava s\u00e3o. Pois esse homem, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o furtava ao jogo, como ainda dava gratifica\u00e7\u00f5es aos criados. Tendo angariado a amizade de um c\u00f4nego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solit\u00e1ria; e, conquanto n\u00e3o lhe desvendasse nenhuma das suas a\u00e7\u00f5es secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal p\u00f4de crer tamanha aleivosia. Mas n\u00e3o havia que duvidar; o caso era verdadeiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deteve um instante. O pasmo n\u00e3o lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espet\u00e1culo presente alguma coisa an\u00e1loga ao passado. Voou de novo ao c\u00e9u, tr\u00eamulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de t\u00e3o singular fen\u00f4meno. Deus ouviu-o com infinita complac\u00eancia; n\u00e3o o interrompeu, n\u00e3o o repreendeu, n\u00e3o triunfou, sequer, daquela agonia sat\u00e2nica. P\u00f4s os olhos nele, e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algod\u00e3o t\u00eam agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algod\u00e3o. Que queres tu? \u00c9 a eterna contradi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<h2>O LAPSO<\/h2>\n<p>E vieram todos os oficiais&#8230; e o resto do povo, desde o pequeno at\u00e9 ao grande.<br \/>\nE disseram ao profeta Jeremias: Seja aceita a nossa s\u00faplica na tua presen\u00e7a.<br \/>\nJeremias, XLII, 1, 2.<\/p>\n<p>N\u00e3o me perguntem pela fam\u00edlia do Dr. Jeremias Halma, nem o que \u00e9 que ele veio fazer ao Rio de Janeiro, naquele ano de 1768, governando o conde de Azambuja, que a princ\u00edpio se disse o mandara buscar; esta vers\u00e3o durou pouco. Veio, ficou e morreu com o s\u00e9culo. Posso afirmar que era m\u00e9dico e holand\u00eas. Viajara muito, sabia toda a qu\u00edmica do tempo, e mais alguma; falava correntemente cinco ou seis l\u00ednguas vivas e duas mortas. Era t\u00e3o universal e inventivo, que dotou a poesia malaia com um novo metro, e engendrou uma teoria da forma\u00e7\u00e3o dos diamantes. N\u00e3o conto os melhoramentos terap\u00eauticos e outras muitas coisas, que o recomendam \u00e0 nossa admira\u00e7\u00e3o. Tudo isso, sem ser casmurro, nem orgulhoso. Ao contr\u00e1rio, a vida e a pessoa dele eram como a casa que um patr\u00edcio lhe arranjou na rua do Piolho, casa singel\u00edssima, onde ele morreu pelo natal de 1799. Sim, o Dr. Jeremias era simples, lhano, modesto, t\u00e3o modesto que&#8230; Mas isto seria transtornar a ordem de um conto. Vamos ao princ\u00edpio.<\/p>\n<p>No fim da rua do Ouvidor, que ainda n\u00e3o era a via dolorosa dos maridos pobres, perto da antiga rua dos Latoeiros, morava por esse tempo um tal Tom\u00e9 Gon\u00e7alves, homem abastado, e, segundo algumas indu\u00e7\u00f5es, vereador da c\u00e2mara. Vereador ou n\u00e3o, este Tom\u00e9 Gon\u00e7alves n\u00e3o tinha s\u00f3 dinheiro, tinha tamb\u00e9m d\u00edvidas, n\u00e3o poucas, nem todas recentes. O descuido podia explicar os seus atrasos, a velhacaria tamb\u00e9m; mas quem opinasse por uma ou outra dessas interpreta\u00e7\u00f5es, mostraria que n\u00e3o sabe ler uma narra\u00e7\u00e3o grave. Realmente, n\u00e3o valia a pena dar-se ningu\u00e9m \u00e0 tarefa de escrever algumas laudas de papel para dizer que houve, nos fins do s\u00e9culo passado, um homem que, por velhacaria ou desleixo, deixava de pagar aos credores. A tradi\u00e7\u00e3o afirma que este nosso concidad\u00e3o era exato em todas as coisas, pontual nas obriga\u00e7\u00f5es mais vulgares, severo e at\u00e9 meticuloso. A verdade \u00e9 que as ordens terceiras e irmandades que tinham a fortuna de o possuir (era irm\u00e3o-remido de muitas, desde o tempo em que usava pagar), n\u00e3o lhe regateavam provas de afei\u00e7\u00e3o e apre\u00e7o; e, se \u00e9 certo que foi vereador, como tudo faz crer, pode-se jurar que o foi a contento da cidade.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o&#8230;? L\u00e1 vou; nem \u00e9 outra a mat\u00e9ria do escrito, sen\u00e3o esse curioso fen\u00f4meno, cuja causa, se a conhecemos, foi porque a descobriu o Dr. Jeremias. Em uma tarde de prociss\u00e3o, Tom\u00e9 Gon\u00e7alves, trajando com o h\u00e1bito de uma ordem terceira, ia segurando uma das varas do p\u00e1lio, e caminhando com a placidez de um homem que n\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m. Nas janelas e ruas estavam muitos dos seus credores; dois, entretanto, na esquina do beco das Cancelas (a prociss\u00e3o descia a rua do Hosp\u00edcio), depois de ajoelhados, rezados, persignados e levantados, perguntaram um ao outro, se n\u00e3o era tempo de recorrer \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 que me pode acontecer? dizia um deles. Se brigar comigo, melhor; n\u00e3o me levar\u00e1 mais nada de gra\u00e7a. N\u00e3o brigando, n\u00e3o lhe posso negar o que me pedir, e na esperan\u00e7a de receber os atrasados, vou fiando&#8230; N\u00e3o, senhor; n\u00e3o pode continuar assim.<\/p>\n<p>&#8211; Pela minha parte, acudiu o outro, se ainda n\u00e3o fiz nada, \u00e9 por causa da minha dona, que \u00e9 medrosa, e entende que n\u00e3o devo brigar com pessoa t\u00e3o importante&#8230; Mas eu como ou bebo da import\u00e2ncia dos outros? E as minhas cabeleiras?<\/p>\n<p>Este era um cabeleireiro da rua da Vala, defronte da S\u00e9, que vendera ao Tom\u00e9 Gon\u00e7alves dez cabeleiras, em cinco anos, sem lhe haver nunca um real. O outro era alfaiate, e ainda maior credor que o primeiro. A prociss\u00e3o passara inteiramente; eles ficaram na esquina, ajustando o plano de mandar os meirinhos ao Tom\u00e9 Gon\u00e7alves. O cabeleireiro advertiu que outros muitos credores s\u00f3 esperavam um sinal para cair em cima do devedor remisso; e o alfaiate lembrou a conveni\u00eancia de meter na conjura\u00e7\u00e3o o Mata sapateiro, que vivia desesperado. S\u00f3 a ele devia o Tom\u00e9 Gon\u00e7alves mais de oitenta mil-r\u00e9is. Nisso estavam, quando por tr\u00e1s deles ouviram uma voz, com sotaque estrangeiro, perguntando por que motivo conspiravam contra um homem doente. Voltaram-se, e, dando com o Dr. Jeremias, desbarretaram-se os dois credores, tomados de profunda venera\u00e7\u00e3o; em seguida disseram que tanto n\u00e3o era doente o devedor, que l\u00e1 ia andando na prociss\u00e3o, muito teso, pegando uma das varas do p\u00e1lio.<\/p>\n<p>&#8211; Que tem isso? interrompeu o m\u00e9dico; ningu\u00e9m lhes diz que est\u00e1 doente dos bra\u00e7os, nem das pernas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Do cora\u00e7\u00e3o? do est\u00f4mago?<\/p>\n<p>&#8211; Nem cora\u00e7\u00e3o, nem est\u00f4mago, respondeu o Dr. Jeremias. E continuou, com muita do\u00e7ura, que se tratava de neg\u00f3cios altamente especulativos, que n\u00e3o podia dizer ali, na rua, nem sabia mesmo se eles chegariam a entend\u00ea-lo. Se eu tiver de pentear uma cabeleira ou talhar um cal\u00e7\u00e3o, &#8211; acrescentou para os n\u00e3o afligir, &#8211; \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o alcance as regras dos seus of\u00edcios t\u00e3o \u00fateis, t\u00e3o necess\u00e1rios ao Estado&#8230; Eh! eh! eh!<\/p>\n<p>Rindo assim, amigavelmente, cortejou-os e foi andando. Os dois credores ficaram embasbacados. O cabeleireiro foi o primeiro que falou, dizendo que a not\u00edcia do Dr. Jeremias n\u00e3o era tal que os devesse afrouxar no prop\u00f3sito de cobrar as d\u00edvidas. Se at\u00e9 os mortos pagam, ou algu\u00e9m por eles, reflexionou o cabeleireiro, n\u00e3o \u00e9 muito exigir aos doentes igual obriga\u00e7\u00e3o. O alfaiate, invejoso da pilh\u00e9ria, f\u00ea-la sua cosendo-lhe este babado: &#8211; Pague e cure-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi dessa opini\u00e3o o Mata sapateiro, que entendeu haver alguma raz\u00e3o secreta nas palavras do Dr. Jeremias, e prop\u00f4s que primeiro se examinasse bem o que era, e depois se resolvesse o mais id\u00f4neo. Convidaram ent\u00e3o outros credores a um concili\u00e1bulo, no domingo pr\u00f3ximo, em casa de uma D. Aninha, para as bandas do Rocio, a pretexto de um batizado. A precau\u00e7\u00e3o era discreta, para n\u00e3o fazer supor ao intendente da pol\u00edcia que se tratava de alguma tenebrosa maquina\u00e7\u00e3o contra o Estado. Mal anoiteceu, come\u00e7aram a entrar os credores, embu\u00e7ados em capotes, e, como ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica s\u00f3 veio a principiar com o vice-reinado do conde de Resende, levava cada qual uma lanterna na m\u00e3o, ao uso do tempo, dando assim ao concili\u00e1bulo um rasgo pinturesco e teatral. Eram trinta e tantos, perto de quarenta &#8211; e n\u00e3o eram todos.<\/p>\n<p>A teoria de Ch. Lamb acerca da divis\u00e3o do g\u00eanero humano em duas grandes ra\u00e7as, \u00e9 posterior ao concili\u00e1bulo do Rocio; mas nenhum outro exemplo a demostraria melhor. Com efeito, o ar abatido ou aflito daqueles homens, o desespero de alguns, a preocupa\u00e7\u00e3o de todos, estavam de antem\u00e3o provando que a teoria do fino ensa\u00edsta \u00e9 verdadeira, e que das duas grandes ra\u00e7as humanas, &#8211; a dos homens que emprestam, e a dos que pedem emprestado, &#8211; a primeira contrasta pela tristeza do gesto com as maneiras rasgadas e francas da segunda, the open, trusting, generous manners of the other. Assim que, naquela mesma hora, o Tom\u00e9 Gon\u00e7alves, tendo voltado da prociss\u00e3o, regalava alguns amigos com os vinhos e galinhas que comprara fiado; ao passo que os credores estudavam \u00e0s escondidas, com um ar desenganado e amarelo, algum meio de reaver o dinheiro perdido.<\/p>\n<p>Longo foi o debate; nenhuma opini\u00e3o chegava a concertar os esp\u00edritos. Uns inclinavam-se \u00e0 demanda, outros \u00e0 espera, n\u00e3o poucos aceitavam o alvitre de consultar o Dr. Jeremias. Cinco ou seis partid\u00e1rios deste parecer n\u00e3o o defendiam sen\u00e3o com a inten\u00e7\u00e3o secreta e disfar\u00e7ada de n\u00e3o fazer coisa nenhuma; eram os servos do medo e da esperan\u00e7a. O cabeleireiro opunha-se-lhe, e perguntava que mol\u00e9stia haveria que impedisse um homem de pagar o que deve. Mas o Mata sapateiro: &#8211; &#8220;Sr. compadre, n\u00f3s n\u00e3o entendemos desses neg\u00f3cios; lembre-se que o doutor \u00e9 estrangeiro, e que nas terras estrangeiras sabem coisas que nunca lembraram ao diabo. Em todo caso, s\u00f3 perdemos algum tempo e nada mais.&#8221; Venceu este parecer; deputaram o sapateiro, o alfaiate e o cabeleireiro para entenderem-se com o Dr. Jeremias, em nome de todos, e o concili\u00e1bulo dissolveu-se na patuscada. Terps\u00edcore bracejou e perneou diante deles as suas gra\u00e7as jocundas, e tanto bastou para que alguns esquecessem a \u00falcera secreta que os ro\u00eda. Eheu! fugaces&#8230; Nem mesmo a dor \u00e9 constante.<\/p>\n<p>No dia seguinte o Dr. Jeremias recebeu os tr\u00eas credores, entre sete e oito horas da manh\u00e3. &#8220;Entrem, entrem&#8230;&#8221; E com o seu largo car\u00e3o holand\u00eas, e o riso derramado pela boca fora, como um vinho generoso de pipa que se rompeu, o grande m\u00e9dico veio em pessoa abrir-lhes a porta. Estudava nesse momento uma cobra, morta de v\u00e9spera, no morro de Santo Ant\u00f4nio; mas a humanidade, costumava ele dizer, \u00e9 anterior \u00e0 ci\u00eancia. Convidou os tr\u00eas a sentarem-se nas tr\u00eas \u00fanicas cadeiras devolutas; a quarta era a dele; as outras, umas cinco ou seis, estavam atulhadas de objetos de toda a casta.<\/p>\n<p>Foi o Mata sapateiro quem exp\u00f4s a quest\u00e3o; era dos tr\u00eas o que reunia maior c\u00f3pia de talentos diplom\u00e1ticos. Come\u00e7ou dizendo que o engenho do &#8220;Sr. doutor&#8221; ia salvar da mis\u00e9ria uma por\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias, e n\u00e3o seria a primeira nem a \u00faltima grande obra de um m\u00e9dico que, n\u00e3o desfazendo nos da terra, era o mais s\u00e1bio de quantos c\u00e1 havia desde o governo de Gomes Freire. Os credores de Tom\u00e9 Gon\u00e7alves n\u00e3o tinham outra esperan\u00e7a. Sabendo que o &#8220;Sr. doutor&#8221; atribu\u00eda os atrasos daquele cidad\u00e3o a uma doen\u00e7a, tinham assentado que primeiro se tentasse a cura, antes de qualquer recurso \u00e0 justi\u00e7a. A justi\u00e7a ficaria para o caso de desespero. Era isto o que vinham dizer-lhe, em nome de dezenas de credores; desejavam saber se era verdade que, al\u00e9m de outros achaques humanos, havia o de n\u00e3o pagar as d\u00edvidas, se era mal incur\u00e1vel, e, n\u00e3o o sendo, se as l\u00e1grimas de tantas fam\u00edlias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 uma doen\u00e7a especial, interrompeu o Dr. Jeremias, visivelmente comovido, um lapso da mem\u00f3ria; o Tom\u00e9 Gon\u00e7alves perdeu inteiramente a no\u00e7\u00e3o de pagar. N\u00e3o \u00e9 por descuido, nem de prop\u00f3sito que ele deixa de saldar as contas; \u00e9 porque esta id\u00e9ia de pagar, de entregar o pre\u00e7o de uma coisa, varreu-se lhe da cabe\u00e7a. Conheci isto h\u00e1 dois meses, estando em casa dele, quando ali foi o prior do Carmo, dizendo que ia &#8220;pagar-lhe a fineza de uma visita&#8221;. Tom\u00e9 Gon\u00e7alves, apenas o prior se despediu, perguntou-me o que era pagar; acrescentou que, alguns dias antes, um botic\u00e1rio lhe dissera a mesma palavra, sem nenhum outro esclarecimento, parecendo-lhe at\u00e9 que j\u00e1 a ouvira a outras pessoas; por ouvi-la da boca do prior, supunha ser latim. Compreendi tudo; tinha estudado a mol\u00e9stia em v\u00e1rias partes do mundo, e compreendi que ele estava atacado do lapso. Foi por isso que disse outro dia a estes dois senhores que n\u00e3o demandassem um homem doente.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ent\u00e3o, aventurou o Mata, p\u00e1lido, o nosso dinheiro est\u00e1 completamente perdido&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A mol\u00e9stia n\u00e3o \u00e9 incur\u00e1vel, disse o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9; conhe\u00e7o e possuo a droga curativa, e j\u00e1 a empreguei em dois grandes casos: &#8211; um barbeiro, que perdera a no\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, e, \u00e0 noite estendia a m\u00e3o para arrancar as estrelas do c\u00e9u, e uma senhora da Catalunha, que perdera a no\u00e7\u00e3o do marido. O barbeiro arriscou muitas vezes a vida, querendo sair pelas janelas mais altas das casas, como se estivesse ao r\u00e9s do ch\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Santo Deus! exclamaram os tr\u00eas credores.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que lhes digo, continuou placidamente o m\u00e9dico. Quanto \u00e0 dama catal\u00e3, a princ\u00edpio confundia o marido com um licenciado Matias, alto e fino, quando o marido era grosso e baixo; depois com um capit\u00e3o, D. Herm\u00f3genes, e, no tempo em que comecei a trat\u00e1-la, com um cl\u00e9rigo. Em tr\u00eas meses ficou boa. Chamava-se D. Agostinha.<\/p>\n<p>Realmente, era uma droga miraculosa. Os tr\u00eas credores estavam radiantes de esperan\u00e7a; tudo fazia crer que o Tom\u00e9 Gon\u00e7alves padecia do lapso, e, uma vez que a droga existia, e o m\u00e9dico a tinha em casa&#8230; Ah! mas aqui pegou o carro. O Dr. Jeremias n\u00e3o era familiar da casa do enfermo, embora entretivesse rela\u00e7\u00f5es com ele; n\u00e3o podia ir oferecer-lhe os seus pr\u00e9stimos. Tom\u00e9 Gon\u00e7alves n\u00e3o tinha parentes que tomassem a responsabilidade de convidar o m\u00e9dico, nem os credores podiam tom\u00e1-la a si. Mudos, perplexos, consultaram-se com os olhos. Os do alfaiate, como os do cabeleireiro, exprimiram este alvitre desesperado: cotizarem-se os credores, e, mediante uma quantia grossa e apetitosa, convidarem o Dr. Jeremias \u00e0 cura; talvez o interesse&#8230; Mas o ilustre Mata viu o perigo de um tal prop\u00f3sito, porque o doente podia n\u00e3o ficar bom, e a perda seria dobrada. Grande era a ang\u00fastia; tudo parecia perdido. O m\u00e9dico rolava entre os dedos a boceta de rap\u00e9, esperando que eles se fossem embora, n\u00e3o impaciente, mas risonho. Foi ent\u00e3o que o Mata, como um capit\u00e3o dos grandes dias, viu o ponto fraco do inimigo; advertiu que as suas primeiras palavras tinham comovido o m\u00e9dico, e tornou \u00e0s l\u00e1grimas das fam\u00edlias, aos filhos sem p\u00e3o, porque eles n\u00e3o eram sen\u00e3o uns tristes oficiais de of\u00edcio ou mercadores de pouca fazenda, ao passo que o Tom\u00e9 Gon\u00e7alves era rico. Sapatos, cal\u00e7\u00f5es, capotes, xaropes, cabeleiras, tudo o que lhes custava dinheiro, tempo e sa\u00fade&#8230; Sa\u00fade, sim, senhor; os calos de suas m\u00e3os mostravam bem que o oficio era duro; e o alfaiate, seu amigo, que ali estava presente, e que entisicava, \u00e0s noites, \u00e0 luz de uma candeia, z\u00e1s-que-dar\u00e1s, puxando a agulha&#8230;<\/p>\n<p>Magn\u00e2nimo Jeremias! N\u00e3o o deixou acabar; tinha os olhos \u00famidos de l\u00e1grimas. O acanho de suas maneiras era compensado pelas expans\u00f5es de um cora\u00e7\u00e3o pio e humano. Pois, sim; ia tentar o curativo, ia p\u00f4r a ci\u00eancia ao servi\u00e7o de uma causa justa. Demais, a vantagem era tamb\u00e9m e principalmente do pr\u00f3prio Tom\u00e9 Gon\u00e7alves, cuja fama andava abocanhada, por um motivo em que ele tinha tanta culpa como o doido que pratica uma iniq\u00fcidade. Naturalmente, a alegria dos deputados traduziu-se em rapap\u00e9s infindos e grandes louvores aos insignes merecimentos do m\u00e9dico. Este cortou-lhes modestamente o discurso, convidando-os a almo\u00e7ar, obs\u00e9quio que eles n\u00e3o aceitaram, mas agradeceram com palavras cordial\u00edssimas. E, na rua, quando ele j\u00e1 os n\u00e3o podia ouvir, n\u00e3o se fartavam de elogiar-lhe a ci\u00eancia, a bondade, a generosidade, a delicadeza, os modos t\u00e3o simples! t\u00e3o naturais!<\/p>\n<p>Desde esse dia come\u00e7ou Tom\u00e9 Gon\u00e7alves a notar a assiduidade do m\u00e9dico, e, n\u00e3o desejando outra coisa, porque lhe queria muito, fez tudo o que lhe lembrou por at\u00e1-lo de vez aos seus penates. O lapso do infeliz era completo; tanto a id\u00e9ia de pagar, como as id\u00e9ias correlatas de credor, d\u00edvida, saldo, e outras tinham-se-lhe apagado da mem\u00f3ria, constituindo-lhe assim um largo furo no esp\u00edrito. Temo que se me argua de compara\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias, mas o abismo de Pascal \u00e9 o que mais prontamente vem ao bico da pena. Tom\u00e9 Gon\u00e7alves tinha o abismo de Pascal, n\u00e3o ao lado, mas dentro de si mesmo, e t\u00e3o profundo que cabiam nele mais de sessenta credores que se debatiam l\u00e1 em baixo com o ranger de dentes da Escritura. Urgia extrair todos esses infelizes e entulhar o buraco.<\/p>\n<p>Jeremias fez crer ao doente que andava abatido, e, para retemper\u00e1-lo, come\u00e7ou a aplicar-lhe a droga. N\u00e3o bastava a droga; era mister um tratamento subsidi\u00e1rio, porque a cura operava-se de dois modos: &#8211; o modo geral e abstrato, restaura\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia de pagar, com todas as no\u00e7\u00f5es correlatas &#8211; era a parte confiada \u00e0 droga; e o modo particular e concreto, insinua\u00e7\u00e3o ou designa\u00e7\u00e3o de uma certa d\u00edvida e de um certo credor &#8211; era a parte do m\u00e9dico. Suponhamos que o credor escolhido era o sapateiro. O m\u00e9dico levava o doente \u00e0s lojas de sapatos, para assistir \u00e0 compra e venda da mercadoria, e ver uma e muitas vezes a a\u00e7\u00e3o de pagar; falava de fabrica\u00e7\u00e3o e venda dos sapatos no resto do mundo, cotejava os pre\u00e7os do cal\u00e7ado naquele ano de 1768 com o que tinha trinta ou quarenta anos antes; fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes \u00e0 casa de Tom\u00e9 Gon\u00e7alves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem outros estratagemas. Assim com o alfaiate, o cabeleireiro, o segeiro, o botic\u00e1rio, um a um, levando mais tempo os primeiros, pela raz\u00e3o natural de estar a doen\u00e7a mais arraigada, e lucrando os \u00faltimos com o trabalho anterior, donde lhes vinha a compensa\u00e7\u00e3o da demora.<\/p>\n<p>Tudo foi pago. N\u00e3o se descreve a alegria dos credores, n\u00e3o se transcrevem as b\u00ean\u00e7\u00e3os com que eles encheram o nome do Dr. Jeremias. Sim, senhor, \u00e9 um grande homem, bradavam em toda a parte. Parece coisa de feiti\u00e7aria, aventuravam as mulheres. Quanto ao Tom\u00e9 Gon\u00e7alves, pasmado de tantas d\u00edvidas velhas, n\u00e3o se fartava de elogiar a longanimidade dos credores, censurando-os ao mesmo tempo pela acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Agora, dizia-lhes, n\u00e3o quero contas de mais de oito dias.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s \u00e9 que lhe marcaremos o tempo, respondiam generosamente os credores.<\/p>\n<p>Restava, entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o pr\u00f3prio Dr. Jeremias, pelos honor\u00e1rios naquele servi\u00e7o relevante. Mas, ai dele! a mod\u00e9stia atou-lhe a l\u00edngua. T\u00e3o expansivo era de cora\u00e7\u00e3o, como acanhado de maneiras; e planeou tr\u00eas, cinco investidas, sem chegar a executar nada. E ali\u00e1s era f\u00e1cil: bastava insinuar-lhe a d\u00edvida pelo m\u00e9todo usado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dos outros; mas seria bonito? perguntava a si mesmo; seria decente? etc., etc. E esperava, ia esperando. Para n\u00e3o parecer que se lhe metia \u00e0 cara, entrou a rarear as visitas; mas o Tom\u00e9 Gon\u00e7alves ia ao casebre da rua do Piolho, e trazia-o a jantar, a cear, a falar de coisas estrangeiras, em que era muito curioso. Nada de pagar. Jeremias chegou a imaginar que os credores&#8230; Mas os credores, ainda quando pudesse passar-lhes pela cabe\u00e7a a id\u00e9ia de lembrar a d\u00edvida, n\u00e3o chegariam a faz\u00ea-lo, porque a supunham paga antes de todas. Era o que diziam uns aos outros, entre muitas f\u00f3rmulas da sabedoria popular: &#8211; Mateus, primeiro os teus &#8211; A boa justi\u00e7a come\u00e7a por casa &#8211; Quem \u00e9 tolo pede a Deus que o mate, etc. Tudo falso; a verdade \u00e9 que o Tom\u00e9 Gon\u00e7alves, no dia em que falecera, tinha um s\u00f3 credor no mundo: &#8211; o Dr. Jeremias.<\/p>\n<p>Este, nos fins do s\u00e9culo, chegara \u00e0 canoniza\u00e7\u00e3o. &#8211; &#8220;Adeus, grande homem!&#8221; dizia-lhe o Mata, ex-sapateiro, em 1798, de dentro da sege, que o levava \u00e0 missa dos carmelitas. E o outro, curvo de velhice, melancolicamente, olhando para os bicos dos p\u00e9s: &#8211; Grande homem, mas pobre diabo.<\/p>\n<h2>\u00daLTIMO CAP\u00cdTULO<\/h2>\n<p>H\u00e1 entre os suicidas um excelente costume, que \u00e9 n\u00e3o deixar a vida sem dizer o motivo e as circunst\u00e2ncias que os armam contra ela. Os que se v\u00e3o calados, raramente \u00e9 por orgulho; na maior parte dos casos ou n\u00e3o t\u00eam tempo, ou n\u00e3o sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, \u00e9 um ato de cortesia, n\u00e3o sendo este mundo um baile, de onde um homem possa esgueirar-se antes do cotilh\u00e3o; em segundo lugar, a imprensa recolhe e divulga os bilhetes p\u00f3stumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, \u00e0s vezes uma semana mais.<\/p>\n<p>Pois apesar da excel\u00eancia do costume, era meu prop\u00f3sito sair calado. A raz\u00e3o \u00e9 que, tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer palavra \u00faltima pudesse levar-me alguma complica\u00e7\u00e3o \u00e0 eternidade. Mas um incidente de h\u00e1 pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, n\u00e3o s\u00f3 um escrito, mas dois. O primeiro \u00e9 o meu testamento, que acabo de compor e fechar, e est\u00e1 aqui em cima da mesa, ao p\u00e9 da pistola carregada. O segundo \u00e9 este resumo de autobiografia. E note-se que n\u00e3o dou o segundo escrito sen\u00e3o porque \u00e9 preciso esclarecer o primeiro, que pareceria absurdo ou inintelig\u00edvel, sem algum coment\u00e1rio. Disponho ali que, vendidos os meus poucos livros, roupa de uso e um casebre que possuo em Catumbi, alugado a um carpinteiro, seja o produto empregado em sapatos e botas novas, que se distribuir\u00e3o por um modo indicado, e confesso que extraordin\u00e1rio. N\u00e3o explicada a raz\u00e3o de um tal legado, arrisco a validade do testamento. Ora, a raz\u00e3o do legado brotou do incidente de h\u00e1 pouco, e o incidente liga-se \u00e0 minha vida inteira.<\/p>\n<p>Chamo-me Matias Deodato de Castro e Melo, filho do sargento-mor Salvador Deodato de Castro e Melo e de D. Maria da Soledade Pereira, ambos falecidos. Sou natural de Corumb\u00e1, Mato Grosso; nasci em 3 de mar\u00e7o de 1820; tenho, portanto, cinq\u00fcenta e um anos, hoje, 3 de mar\u00e7o de 1871.<\/p>\n<p>Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os homens. H\u00e1 uma locu\u00e7\u00e3o proverbial, que eu literalmente realizei. Era em Corumb\u00e1; tinha sete para oito anos, embalava-me na rede, \u00e0 hora da sesta, em um quartinho de telha v\u00e3; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou por impulso demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma das paredes, e deu comigo no ch\u00e3o. Ca\u00ed de costas; mas, assim mesmo de costas, quebrei o nariz, porque um peda\u00e7o de telha, mal seguro, que s\u00f3 esperava ocasi\u00e3o de vir abaixo, aproveitou a como\u00e7\u00e3o e caiu tamb\u00e9m. O ferimento n\u00e3o foi grave nem longo; tanto que meu pai ca\u00e7oou muito comigo. O c\u00f4nego Brito, de tarde, ao ir tomar guaran\u00e1 conosco, soube do epis\u00f3dio e citou o rif\u00e3o, dizendo que era eu o primeiro que cumpria exatamente este absurdo de cair de costas e quebrar o nariz. Nem um nem outro imaginava que o caso era um simples in\u00edcio de coisas futuras.<\/p>\n<p>N\u00e3o me demoro em outros reveses da inf\u00e2ncia e da juventude. Quero morrer ao meio-dia, e passa de onze horas. Al\u00e9m disso, mandei fora o rapaz que me serve, e ele pode vir mais cedo, e interromper-me a execu\u00e7\u00e3o do projeto mortal. Tivesse eu tempo, e contaria pelo mi\u00fado alguns epis\u00f3dios doloridos, entre eles, o de umas cacetadas que apanhei por engano. Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e naturalmente rival derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as pancadas quando souberam da aleivosia do outro; mas aplaudiram secretamente a ilus\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o falo de alguns achaques que padeci. Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido pobre toda a vida, morreu pobr\u00edssimo, e minha m\u00e3e n\u00e3o lhe sobreviveu dois meses. O c\u00f4nego Brito, que acabava de sair eleito deputado, prop\u00f4s ent\u00e3o trazer-me ao Rio de Janeiro, e veio comigo, com a id\u00e9ia de fazer-me padre; mas cinco dias depois de chegar morreu. V\u00e3o vendo a a\u00e7\u00e3o constante do caiporismo.<\/p>\n<p>Fiquei s\u00f3, sem amigos, nem recursos, com dezesseis anos de idade. Um c\u00f4nego da Capela Imperial lembrou-se de fazer-me entrar ali de sacrist\u00e3o; mas, posto que tivesse ajudado muita missa em Mato Grosso, e possu\u00edsse algumas letras latinas, n\u00e3o fui admitido, por falta de vaga. Outras pessoas induziram-me ent\u00e3o a estudar direito, e confesso que aceitei com resolu\u00e7\u00e3o. Tive at\u00e9 alguns aux\u00edlios, a princ\u00edpio; faltando-me eles depois, lutei por mim mesmo; enfim alcancei a carta de bacharel. N\u00e3o me digam que isto foi uma exce\u00e7\u00e3o na minha vida caipora, porque o diploma acad\u00eamico levou-me justamente a coisas mui graves; mas, como o destino tinha de flagelar-me, qualquer que fosse a minha profiss\u00e3o, n\u00e3o atribuo nenhum influxo especial ao grau jur\u00eddico. Obtive-o com muito prazer, isso \u00e9 verdade; a idade mo\u00e7a, e uma certa supersti\u00e7\u00e3o de melhora, faziam-me do pergaminho uma chave de diamante que iria abrir todas as portas da fortuna.<\/p>\n<p>E, para principiar, a carta de bacharel n\u00e3o me encheu sozinha as algibeiras. N\u00e3o, senhor; tinha ao lado dela umas outras, dez ou quinze, fruto de um namoro travado no Rio de Janeiro, pela semana santa de 1842, com uma vi\u00fava mais velha do que eu sete ou oito anos, mas ardente, l\u00e9pida e abastada. Morava com um irm\u00e3o cego, na rua do Conde; n\u00e3o posso dar outras indica\u00e7\u00f5es. Nenhum dos meus amigos ignorava este namoro; dois deles at\u00e9 liam as cartas, que eu lhes mostrava, com o pretexto de admirar o estilo elegante da vi\u00fava, mas realmente para que vissem as finas coisas que ela me dizia. Na opini\u00e3o de todos, o nosso casamento era certo, mais que certo; a vi\u00fava n\u00e3o esperava sen\u00e3o que eu conclu\u00edsse os estudos. Um desses amigos, quando eu voltei graduado, deu-me os parab\u00e9ns, acentuando a sua convic\u00e7\u00e3o com esta frase definitiva:<\/p>\n<p>&#8211; O teu casamento \u00e9 um dogma.<\/p>\n<p>E, rindo, perguntou-me se por conta do dogma, poderia arranjar-lhe cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is; era para uma urgente precis\u00e3o. N\u00e3o tinha comigo os cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is; mas o dogma repercutia ainda t\u00e3o docemente no meu cora\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o descansei em todo esse dia, at\u00e9 arranjar-lhos; fui lev\u00e1-los eu mesmo, entusiasmado; ele recebeu-os cheio de gratid\u00e3o. Seis meses depois foi ele quem casou com a vi\u00fava.<\/p>\n<p>N\u00e3o digo tudo o que ent\u00e3o padeci; digo s\u00f3 que o meu primeiro impulso foi dar um tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a faz\u00ea-lo; cheguei a v\u00ea-los, moribundos, arquejantes, pedirem-me perd\u00e3o. Vingan\u00e7a hipot\u00e9tica; na realidade, n\u00e3o fiz nada. Eles casaram-se, e foram ver do alto da Tijuca a ascens\u00e3o da lua de mel. Eu fiquei relendo as cartas da vi\u00fava. &#8220;Deus, que me ouve (dizia uma delas), sabe que o meu amor \u00e9 eterno, e que eu sou tua, eternamente tua&#8230;&#8221; E, no meu atordoamento, blasfemava comigo: &#8211; Deus \u00e9 um grande invejoso; n\u00e3o quer outra eternidade ao p\u00e9 dele, e por isso desmentiu a vi\u00fava; &#8211; nem outro dogma al\u00e9m do cat\u00f3lico, e por isso desmentiu o meu amigo. Era assim que eu explicava a perda da namorada e dos cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>Deixei a capital, e fui advogar na ro\u00e7a, mas por pouco tempo. O caiporismo foi comigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei, apeou-se ele tamb\u00e9m. Vi-lhe o dedo em tudo, nas demandas que n\u00e3o vinham, nas que vinham e valiam pouco ou nada, e nas que, valendo alguma coisa, eram invariavelmente perdidas. Al\u00e9m de que os constituintes vencedores s\u00e3o em geral mais gratos que os outros, a sucess\u00e3o de derrotas foi arredando de mim os demandistas. No fim de algum tempo, ano e meio, voltei \u00e0 Corte, e estabeleci-me com um antigo companheiro de ano: o Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>Este Gon\u00e7alves era o esp\u00edrito menos jur\u00eddico, menos apto para entestar com as quest\u00f5es de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a vida mental a uma casa elegante; o Gon\u00e7alves n\u00e3o aturava dez minutos a conversa do sal\u00e3o, esgueirava-se, descia \u00e0 copa e ia palestrar com os criados. Mas compensava essa qualidade inferior com certa lucidez, com a presteza de compreens\u00e3o nos assuntos menos \u00e1rduos ou menos complexos, com a facilidade de expor, e, o que n\u00e3o era pouco para um pobre diabo batido da fortuna, com uma alegria quase sem intermit\u00eancias. Nos primeiros tempos, como as demandas n\u00e3o vinham, mat\u00e1vamos as horas com excelente palestra, animada e viva, em que a melhor parte era dele, ou fal\u00e1ssemos de pol\u00edtica, ou de mulheres, assunto que lhe era muito particular.<\/p>\n<p>Mas as demandas vieram vindo; entre elas uma quest\u00e3o de hipoteca. Tratava-se da casa de um empregado da alf\u00e2ndega, Tem\u00edstocles de S\u00e1 Botelho, que n\u00e3o tinha outros bens, e queria salvar a propriedade. Tomei conta do neg\u00f3cio. O Tem\u00edstocles ficou encantado comigo: e, duas semanas depois, como eu lhe dissesse que n\u00e3o era casado, declarou-me rindo que n\u00e3o queria nada com solteir\u00f5es. Disse-me outras coisas e convidou-me a jantar no domingo pr\u00f3ximo. Fui; namorei-me da filha dele, D. Rufina, mo\u00e7a de dezenove anos, bem bonita, embora um pouco acanhada e meio morta. Talvez seja a educa\u00e7\u00e3o, pensei eu. Casamo-nos poucos meses depois. N\u00e3o convidei o caiporismo, \u00e9 claro; mas na igreja, entre as barbas rapadas e as su\u00ed\u00e7as lustrosas, pareceu-me ver o car\u00e3o sard\u00f4nico e o olhar obl\u00edquo do meu cruel advers\u00e1rio. Foi por isso que, no ato mesmo de proferir a f\u00f3rmula sagrada e definitiva do casamento, estremeci, hesitei, e, enfim, balbuciei a medo o que o padre me ditava&#8230;<\/p>\n<p>Estava casado. Rufina n\u00e3o dispunha, \u00e9 verdade, de certas qualidades brilhantes e elegantes; n\u00e3o seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de sal\u00e3o. Tinha, por\u00e9m, as qualidades caseiras, e eu n\u00e3o queria outras. A vida obscura bastava-me; e contanto que ela ma enchesse, tudo iria bem. Mas esse era justamente o agro da empresa. Rufina (permitam-me esta figura\u00e7\u00e3o crom\u00e1tica) n\u00e3o tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de Cle\u00f3patra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas cinzenta e apagada como a multid\u00e3o dos seres humanos. Era boa por apatia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem elei\u00e7\u00e3o. Um anjo a levaria ao c\u00e9u, um diabo ao inferno, sem esfor\u00e7o em ambos os casos, e sem que, no primeiro lhe coubesse a ela nenhuma gl\u00f3ria, nem o menor desdouro no segundo. Era a passividade do son\u00e2mbulo. N\u00e3o tinha vaidades. O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ela, n\u00e3o; aceitou-me como aceitaria um sacrist\u00e3o, um magistrado, um general, um empregado p\u00fablico, um alferes, e n\u00e3o por impaci\u00eancia de casar, mas por obedi\u00eancia \u00e0 fam\u00edlia, e, at\u00e9 certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-se maridos; ela queria usar tamb\u00e9m o seu. Nada mais antip\u00e1tico \u00e0 minha pr\u00f3pria natureza; mas estava casado.<\/p>\n<p>Felizmente &#8211; ah! um felizmente neste \u00faltimo cap\u00edtulo de um caipora, \u00e9, na verdade, uma anomalia; mas v\u00e3o lendo, e ver\u00e3o que o adv\u00e9rbio pertence ao estilo, n\u00e3o \u00e0 vida; \u00e9 um modo de transi\u00e7\u00e3o e nada mais. O que vou dizer n\u00e3o altera o que est\u00e1 dito. Vou dizer que as qualidades dom\u00e9sticas de Rufina davam-lhe muito m\u00e9rito. Era modesta; n\u00e3o amava bailes, nem passeios, nem janelas. Vivia consigo. N\u00e3o mourejava em casa, nem era preciso; para dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chap\u00e9us, tudo vinha &#8220;das francesas&#8221;, como ent\u00e3o se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervalo das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o esp\u00edrito, matando o tempo, uma hidra de cem cabe\u00e7as, que n\u00e3o morria nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte, estava no papel das r\u00e3s que queriam um rei; a diferen\u00e7a \u00e9 que, mandando-me J\u00fapiter um cepo, n\u00e3o lhe pedi outro, porque viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse comigo. Nem conto estas coisas, sen\u00e3o para mostrar a l\u00f3gica e a const\u00e2ncia do meu destino.<\/p>\n<p>Outro felizmente; e este n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma transi\u00e7\u00e3o de frase. No fim de ano e meio, abotoou no horizonte uma esperan\u00e7a, e, a calcular pela como\u00e7\u00e3o que me deu a not\u00edcia, uma esperan\u00e7a suprema e \u00fanica. Era o desejado que chegava. Que desejado? um filho. A minha vida mudou logo. Tudo me sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento r\u00e9gio; comprei-lhe um rico ber\u00e7o, que me custou bastante; era de \u00e9bano e marfim, obra acabada; depois, pouco a pouco, fui comprando o enxoval; mandei-lhe coser as mais finas cambraias, as mais quentes flanelas, uma linda touca de renda, comprei-lhe um carrinho, e esperei, esperei, pronto a bailar diante dele, como Davi diante da arca&#8230; Ai, caipora! a arca entrou vazia em Jerusal\u00e9m; o pequeno nasceu morto.<\/p>\n<p>Quem me consolou no malogro foi o Gon\u00e7alves, que devia ser padrinho do pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem paci\u00eancia, disse-me; serei padrinho do que vier. E confortava-me, falava-me de outras coisas, com ternura de amigo. O tempo fez o resto. O pr\u00f3prio Gon\u00e7alves advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de ser caipora, como eu dizia que era, melhor foi que nascesse morto.<\/p>\n<p>&#8211; E pensas que n\u00e3o? redarg\u00fci.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves sorriu; ele n\u00e3o acreditava no meu caiporismo. Verdade \u00e9 que n\u00e3o tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre. Afinal, come\u00e7ara a converter-se \u00e0 advocacia, j\u00e1 arrazoava autos, j\u00e1 minutava peti\u00e7\u00f5es, j\u00e1 ia \u00e0s audi\u00eancias, tudo porque era preciso viver, dizia ele. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita gra\u00e7a, ria longamente dos ditos dele, e das anedotas, que \u00e0s vezes eram picantes demais. Eu, a princ\u00edpio, repreendia-o em particular, mas acostumei-me a elas. E depois, quem \u00e9 que n\u00e3o perdoa as facilidades de um amigo, e de um amigo jovial? Devo dizer que ele mesmo se foi refreando, e dali a algum tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Est\u00e1s namorado, disse-lhe um dia; e ele, empalidecendo, respondeu que sim, e acrescentou sorrindo, embora frouxamente, que era indispens\u00e1vel casar tamb\u00e9m. Eu, \u00e0 mesa, falei do assunto.<\/p>\n<p>&#8211; Rufina, voc\u00ea sabe que o Gon\u00e7alves vai casar?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 ca\u00e7oada dele, interrompeu vivamente o Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>Dei ao diabo a minha indiscri\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o falei mais nisso; nem ele. Cinco meses depois&#8230; A transi\u00e7\u00e3o \u00e9 r\u00e1pida; mas n\u00e3o h\u00e1 meio de a fazer longa. Cinco meses depois, adoeceu Rufina, gravemente, e n\u00e3o resistiu oito dias; morreu de uma febre perniciosa.<\/p>\n<p>Coisa singular: &#8211; em vida, a nossa diverg\u00eancia moral trazia a frouxid\u00e3o dos v\u00ednculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do costume. A morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina apareceu-me como a esposa que desce do L\u00edbano, e a diverg\u00eancia foi substitu\u00edda pela total fus\u00e3o dos seres. Peguei da imagem, que enchia a minha alma, e enchi com ela a vida, onde outrora ocupara t\u00e3o pouco espa\u00e7o e por t\u00e3o pouco tempo. Era um desafio \u00e0 m\u00e1 estrela; era levantar o edif\u00edcio da fortuna em pura rocha indestrut\u00edvel. Compreendam-me bem; tudo o que at\u00e9 ent\u00e3o dependia do mundo exterior, era naturalmente prec\u00e1rio: as telhas ca\u00edam com o abalo das redes, as sobrepelizes recusavam-se aos sacrist\u00e3es, os juramentos das vi\u00favas fugiam com os dogmas dos amigos, as demandas vinham tr\u00f4pegas ou iam-se de mergulho; enfim, as crian\u00e7as nasciam mortas. Mas a imagem de uma defunta era imortal. Com ela podia desafiar o olhar obl\u00edquo do mau destino. A felicidade estava nas minhas m\u00e3os, presa, vibrando no ar as grandes asas de condor, ao passo que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na dire\u00e7\u00e3o da noite e do sil\u00eancio&#8230;<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, convalescendo de uma febre, deu-me na cabe\u00e7a inventariar uns objetos da finada e comecei por uma caixinha, que n\u00e3o fora aberta, desde que ela morreu, cinco meses antes. Achei uma multid\u00e3o de coisas min\u00fasculas, agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma ora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Cipriano, um rol de roupa, outras quinquilharias, e um ma\u00e7o de cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas: eram do Gon\u00e7alves&#8230; Meio-dia! Urge acabar; o moleque pode vir, e adeus. Ningu\u00e9m imagina como o tempo corre nas circunst\u00e2ncias em que estou; os minutos voam como se fossem imp\u00e9rios, e, o que \u00e9 importante nesta ocasi\u00e3o, as folhas de papel v\u00e3o com eles.<\/p>\n<p>N\u00e3o conto os bilhetes brancos, os neg\u00f3cios abortados, as rela\u00e7\u00f5es interrompidas; menos ainda outros acintes \u00ednfimos da fortuna. Cansado e aborrecido, entendi que n\u00e3o podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui al\u00e9m: acreditei que ela n\u00e3o existia na terra, e preparei-me desde ontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um charuto, e debrucei-me \u00e0 janela. No fim de dez minutos, vi passar um homem bem trajado, fitando a mi\u00fado os p\u00e9s. Conhecia-o de vista; era uma v\u00edtima de grandes reveses, mas ia risonho, e contemplava os p\u00e9s, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Ele levantava os olhos para as janelas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de atra\u00e7\u00e3o, interior e superior \u00e0 vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a express\u00e3o da bem-aventuran\u00e7a. Evidentemente era feliz; e, talvez, n\u00e3o tivesse almo\u00e7ado; talvez mesmo n\u00e3o levasse um vint\u00e9m no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.<\/p>\n<p>A felicidade ser\u00e1 um par de botas? Esse homem, t\u00e3o esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o deste s\u00e9culo, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da gera\u00e7\u00e3o que come\u00e7a, nem as tristezas da que termina, mis\u00e9ria ou guerra de classes; crises da arte e da pol\u00edtica, nada vale, para ele, um par de botas. Ele fita-as, ele respira-as, ele reluz com elas, ele calca com elas o ch\u00e3o de um globo que lhe pertence. Da\u00ed o orgulho das atitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar de tranq\u00fcilidade ol\u00edmpica&#8230; Sim, a felicidade \u00e9 um par de botas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 outra a explica\u00e7\u00e3o do meu testamento. Os superficiais dir\u00e3o que estou doido, que o del\u00edrio do suicida define a cl\u00e1usula do testador; mas eu falo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a obje\u00e7\u00e3o de que era melhor gastar comigo as botas, que lego aos outros; n\u00e3o, porque seria \u00fanico. Distribuindo-as, fa\u00e7o um certo n\u00famero de venturosos. Eia, caiporas! que a minha \u00faltima vontade seja cumprida. Boa noite, e cal\u00e7ai-vos!<\/p>\n<h2>CANTIGA DE ESPONSAIS<\/h2>\n<p>Imagine a leitora que est\u00e1 em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio p\u00fablico e toda a arte musical. Sabem o que \u00e9 uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos. N\u00e3o lhe chamo a aten\u00e7\u00e3o para os padres e os sacrist\u00e3es, nem para o serm\u00e3o, nem para os olhos das mo\u00e7as cariocas, que j\u00e1 eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os cal\u00e7\u00f5es, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. N\u00e3o falo sequer da orquestra, que \u00e9 excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabe\u00e7a branca, a cabe\u00e7a desse velho que rege a orquestra, com alma e devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chama-se Rom\u00e3o Pires; ter\u00e1 sessenta anos, n\u00e3o menos, nasceu no Valongo, ou por esses lados. \u00c9 bom m\u00fasico e bom homem; todos os m\u00fasicos gostam dele. Mestre Rom\u00e3o \u00e9 o nome familiar; e dizer familiar e p\u00fablico era a mesma coisa em tal mat\u00e9ria e naquele tempo. &#8220;Quem rege a missa \u00e9 mestre Rom\u00e3o&#8221; &#8211; equivalia a esta outra forma de an\u00fancio, anos depois: &#8220;Entra em cena o ator Jo\u00e3o Caetano&#8221;; &#8211; ou ent\u00e3o: &#8220;O ator Martinho cantar\u00e1 uma de suas melhores \u00e1rias.&#8221; Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre Rom\u00e3o rege a festa! Quem n\u00e3o conhecia mestre Rom\u00e3o, com o seu ar circunspecto, olhos no ch\u00e3o, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desaparecia \u00e0 frente da orquestra; ent\u00e3o a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar acendia-se, o riso iluminava-se: era outro. N\u00e3o que a missa fosse dele; esta, por exemplo, que ele rege agora no Carmo \u00e9 de Jos\u00e9 Maur\u00edcio; mas ele rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.<\/p>\n<p>Acabou a festa; \u00e9 como se acabasse um clar\u00e3o intenso, e deixasse o rosto apenas alumiado da luz ordin\u00e1ria. Ei-lo que desce do coro, apoiado na bengala; vai \u00e0 sacristia beijar a m\u00e3o aos padres e aceita um lugar \u00e0 mesa do jantar. Tudo isso indiferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a rua da M\u00e3e dos Homens, onde reside, com um preto velho, pai Jos\u00e9, que \u00e9 a sua verdadeira m\u00e3e, e que neste momento conversa com uma vizinha.<\/p>\n<p>&#8211; Mestre Rom\u00e3o l\u00e1 vem, pai Jos\u00e9, disse a vizinha.<\/p>\n<p>&#8211; Eh! eh! adeus, sinh\u00e1, at\u00e9 logo.<\/p>\n<p>Pai Jos\u00e9 deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que da\u00ed a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa n\u00e3o era rica naturalmente; nem alegre. N\u00e3o tinha o menor vest\u00edgio de mulher, velha ou mo\u00e7a, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jocundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Rom\u00e3o tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao p\u00e9, alguns pap\u00e9is de m\u00fasica; nenhuma dele&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis ADVERT\u00caNCIA DA 1\u00aa EDI\u00c7\u00c3O De todos os contos que aqui se acham h\u00e1 dois que efetivamente n\u00e3o levam data expressa; os outros a t\u00eam, de maneira que este t\u00edtulo Hist\u00f3rias sem data parecer\u00e1 a alguns inintelig\u00edvel, ou vago. 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