{"id":116547,"date":"2017-03-29T18:33:55","date_gmt":"2017-03-29T20:33:55","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116547"},"modified":"2017-03-29T18:33:55","modified_gmt":"2017-03-29T20:33:55","slug":"historia-de-uma-lagrima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/historia-de-uma-lagrima","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria de uma L\u00e1grima"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1867<\/p>\n<p>Que \u00e9 uma l\u00e1grima? A ci\u00eancia dar-nos-\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o positiva; a poesia dir\u00e1 que \u00e9 o soro da alma, a linguagem do cora\u00e7\u00e3o. Bem pouco avulta essa leve gota de humor que os olhos vertem por alguma causa f\u00edsica ou moral. \u00c9 nada e \u00e9 tudo; para os \u00e2nimos pr\u00e1ticos \u00e9 um sinal de fraqueza; para os cora\u00e7\u00f5es sens\u00edveis \u00e9 um objeto de respeito, uma causa de simpatia.<\/p>\n<p>Alexandre Dumas comparou eloq\u00fcentemente o dil\u00favio a uma l\u00e1grima do Senhor, l\u00e1grima de dor, se a dor pode ser divina, que a impiedade arrancou dos olhos do autor das coisas.<\/p>\n<p>Mas a l\u00e1grima cuja hist\u00f3ria empreendo nestas curtas e singelas p\u00e1ginas n\u00e3o foi tamanha como essa que produziu o grande cataclisma. Foi uma simples gota, derramada por olhos humanos, em hora de afli\u00e7\u00e3o e desespero. Quem tiver chorado achar-lhe-\u00e1 algum interesse.<\/p>\n<p>Conheci um homem de trinta anos que era o homem mais singular do mundo, come\u00e7ando por parecer sexagen\u00e1rio. Era alto, e daquela severa beleza que consiste em mostrar nos tra\u00e7os do rosto os sulcos de um grande e nobre sofrimento. Os cabelos eram todos brancos, ca\u00eddos para tr\u00e1s sem afeta\u00e7\u00e3o nem cuidado. Tinha os olhos fundos. Era p\u00e1lido, magro, curvado. Vivia s\u00f3, numa casa escondida l\u00e1 para as bandas de Catumbi, lugar que ele pr\u00f3prio escolhera para n\u00e3o dar muito trabalho aos amigos que quisessem lev\u00e1-lo ao cemit\u00e9rio. Poucas vezes sa\u00eda; lia algumas vezes; meditava quase sempre.<\/p>\n<p>Os seus passeios ordin\u00e1rios, quando lhe acontecia passear, eram ao cemit\u00e9rio, onde se demorava habitualmente duas horas. Quando voltava e lhe perguntavam de onde vinha, respondia que fora ver casa para mudar-se.<\/p>\n<p>Alguns vizinhos supunham-no doido; outros contentavam-se em cham\u00e1-lo exc\u00eantrico. Um peralvilho que morava alguns passos adiante concebeu a id\u00e9ia de ir denunci\u00e1-lo \u00e0 policia, ato que n\u00e3o realizou por lhe terem ido \u00e0 m\u00e3o algumas pessoas. Os meninos vadios do lugar puseram-lhe uma alcunha, e de tal sorte o perseguiam \u00e0s vezes que o pobre homem resolveu sair o menos que pudesse.<\/p>\n<p>Chamava-se Daniel, e, aludindo ao profeta das escrituras, costumava dizer que estava no lago dos le\u00f5es, e que s\u00f3 por interven\u00e7\u00e3o divina \u00e9 que o n\u00e3o devoravam. Os le\u00f5es eram os outros homens.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei por que, desde que o vi simpatizei com ele. Tinha eu ido passar uma tarde em casa de uma fam\u00edlia de Catumbi, onde me falaram das singularidades do velho. Tive curiosidade de conhec\u00ea-lo. Efetivamente passou ele pela rua, e todos correram \u00e0 janela como se se tratasse de um urso. Percebi desde logo que aquele homem era uma ru\u00edna moral, a tradi\u00e7\u00e3o de um grande padecimento, sustentada por urna exist\u00eancia prec\u00e1ria. Resolvi tratar com ele, e comuniquei a minha inten\u00e7\u00e3o \u00e0s senhoras que me rodeavam. Foi um motivo de chacota geral. Mas eu fiz parar o riso nos l\u00e1bios das mulheres dizendo estas simples palavras:<\/p>\n<p>\u2014 E se aquele homem padece por uma mulher?<\/p>\n<p>As mulheres calaram-se; os homens olharam uns para os outros. Dali a oito dias fui bater \u00e0 porta de Daniel. Apareceu-me um preto velho que me perguntou o que queria. Apenas lhe disse que desejava falar ao dono da casa, respondeu-me que ele sa\u00edra a passeio. Como eu sabia que o passeio era ao cemit\u00e9rio, dirigi-me para l\u00e1.<\/p>\n<p>Apenas entrei numa das ruas da cidade dos mortos, avistei Daniel ao longe, sentado numa pedra, ao p\u00e9 de uma sepultura, com a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os. Aquele aspecto fez-me parar. Era positivo que todas as excentricidades de Daniel estavam presas a uma hist\u00f3ria, que devia ser a hist\u00f3ria daquele t\u00famulo. Encaminhei-me para o lugar onde o velho estava, parando a alguns passos, e conservando-me ao p\u00e9 de uma campa, a fim de que lhe parecesse que um motivo, que n\u00e3o o da curiosidade, levava-me at\u00e9 ali.<\/p>\n<p>De quando em quando levantava eu a cabe\u00e7a para ver o velho, e achava-o sempre na mesma posi\u00e7\u00e3o. Esperei uma hora que ele se levantasse, at\u00e9 que, perdendo essa esperan\u00e7a, tratei de retirar-me, quando vi ao longe, encaminhando-se para aquele lado, um cortejo f\u00fanebre. Era mais um habitante que vinha tomar posse da sua casa na vasta necr\u00f3pole. O ru\u00eddo dos passos dos \u00faltimos amigos e conhecidos do novo locat\u00e1rio despertaram o velho, que se levantou rapidamente, lan\u00e7ou um olhar para a sepultura, e encaminhou-se para o lado do port\u00e3o. Quis ver se a campa ao p\u00e9 da qual o velho estava assentado tinha algum nome, mas ao mesmo tempo temi perder o velho, que andava rapidamente. Contudo apressei o passo, e pude ler rapidamente na campa estas simples palavras:<\/p>\n<p>Aqui jaz uma m\u00e1rtir<\/p>\n<p>Depois, dobrando de velocidade, pude alcan\u00e7ar o velho no momento em que ele estava j\u00e1 a poucas bra\u00e7as do port\u00e3o. Ia falar-lhe, mas hesitei. Que lhe diria eu? Como explicar a minha curiosidade? Entretanto o velho andava, e eu atr\u00e1s dele, at\u00e9 que nos achamos ambos \u00e0 porta da casa.<\/p>\n<p>\u2014 Queria alguma coisa?<\/p>\n<p>\u2014 Um pouco d\u2019\u00e1gua para este senhor. Queira sentar-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia que havia de dizer depois de ter pedido a \u00e1gua. O velho, apenas me viu sentado, tomou uma cadeira e sentou-se ao p\u00e9 da janela. Os \u00faltimos raios do sol poente batiam-lhe na fronte encanecida e sulcada pelo sofrimento. Era vener\u00e1vel aquela figura t\u00e3o humilde e t\u00e3o resignada.<\/p>\n<p>Veio a \u00e1gua, bebi e dirigi-me ao dono da casa.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, disse-lhe. Sou P&#8230; e moro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 in\u00fatil dizer-me a casa, interrompeu Daniel; o meu reino j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 deste mundo. Entretanto agrade\u00e7o-lhe&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que n\u00e3o \u00e9 deste mundo?<\/p>\n<p>O velho franziu a testa e respondeu-me secamente:<\/p>\n<p>\u2014 Porque n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel tirar-lhe mais uma palavra.<\/p>\n<p>Sa\u00ed, mas levando a resolu\u00e7\u00e3o de voltar outra vez at\u00e9 travar rela\u00e7\u00f5es com o velho.<\/p>\n<p>Com efeito, cinco dias depois fui a Catumbi, e bati \u00e0 porta de Daniel. Achei o velho com um livro na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Perguntou-me o que queria, e como eu lhe dissesse que era a pessoa que cinco dias antes estivera ali, respondeu-me que se lembrava e mandou-me sentar.<\/p>\n<p>\u2014 Quer \u00e1gua outra vez? disse ele sorrindo tristemente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o quero. H\u00e1 de ter compreendido que eu n\u00e3o queria somente um copo d\u2019\u00e1gua me pedir, mas n\u00e3o passe dos copos d\u2019alma e parecia-me que era aquele olhar uma demonstra\u00e7\u00e3o de sincero afeto.<\/p>\n<p>Unir os meus dias aos dela, foi o meu primeiro e maior sonho. Mas como? Pedi-la ao pai era o meio mais natural, mas repugnava-me, pois que, al\u00e9m de ser eu um simples empregado recebido em casa por prova de confian\u00e7a, receava que se atribu\u00edsse ao meu ato inten\u00e7\u00f5es menos puras e confess\u00e1veis.<\/p>\n<p>Aqui entrava eu na luta suprema do cora\u00e7\u00e3o e da consci\u00eancia, do dever e do amor. Entendia que era decoro reduzir-me, mas esse sil\u00eancio era para mim o mais atroz de todos os supl\u00edcios.<\/p>\n<p>Os dias corriam assim, e eu, se n\u00e3o podia ainda aspirar \u00e0 gl\u00f3ria de possuir Elisa, gozava ao menos da felicidade de v\u00ea-la e viver nos olhos dela.<\/p>\n<p>Durou este estado sete meses. Disposto a sofrer em sil\u00eancio, resolvi por outro lado trabalhar muito, de modo a constituir um direito \u00e0 m\u00e3o da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Notava eu, por\u00e9m, que Valadares, at\u00e9 ent\u00e3o meu amigo confessado, redobrava de afeto e de aten\u00e7\u00f5es por mim. Nos meus sonhos de felicidade conjecturei que o negociante, tendo percebido a minha paix\u00e3o, aprovava-a do fundo d\u2019alma, e talvez mesmo por inspira\u00e7\u00e3o da filha.<\/p>\n<p>Um dia, era em outubro de 185&#8230; , estando no escrit\u00f3rio a trabalhar recebi recado de Valadares para que fosse l\u00e1 \u00e0 casa \u00e0 noitinha.<\/p>\n<p>Fui.<\/p>\n<p>Valadares estava no gabinete e mandou-me entrar.<\/p>\n<p>\u2014 Deram-lhe o recado a tempo?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor, respondi eu.<\/p>\n<p>\u2014 Bem. Sente-se.<\/p>\n<p>Puxei uma cadeira. Valadares limpou os \u00f3culos, e depois de algum sil\u00eancio perguntou-me:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o desconfia do motivo por que mandei cham\u00e1-lo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 natural. Os velhos s\u00e3o mais perspicazes que os mo\u00e7os. O motivo \u00e9 perguntar-lhe se n\u00e3o pensa em casar-se?<\/p>\n<p>Olhei para ele com um movimento de alegria; mas ao mesmo tempo cheio daquele medo que acompanha o cora\u00e7\u00e3o quando est\u00e1 prestes a colher uma grande felicidade.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei&#8230; respondi.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabe? Responde como se fora uma mo\u00e7a. \u00c9 verdade que a minha pergunta foi talvez mal cabida. Responda-me, ent\u00e3o: N\u00e3o ama?<\/p>\n<p>Depois de algum tempo respondi:<\/p>\n<p>\u2014 Sim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ama minha filha?<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o, mas \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o de qu\u00ea? S\u00e3o mo\u00e7os, podem amar-se; \u00e9 amado?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! mas eu creio que \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Ela disse-lho?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, mas desconfio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Se fosse verdade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ser. Pois se a ama e se quer despos\u00e1-la, nada de temores pueris, nem receios infundados. Eu n\u00e3o sou nenhum drag\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas como poderei aspirar a tanta felicidade?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 boa! aspirando. Vou consultar Elisa.<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 para a sala.<\/p>\n<p>Sa\u00ed entre a alegria e o receio. Se ela n\u00e3o me amasse? Se aquilo tudo fosse ilus\u00e3o minha e do pai? Ao mesmo tempo pensava eu que era imposs\u00edvel que ambos nos engan\u00e1ssemos, e embalado por t\u00e3o lisonjeiras esperan\u00e7as aguardei a resposta definitiva da minha ventura.<\/p>\n<p>Da\u00ed a um quarto de hora entrava Valadares na sala com um sorriso animador nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Fui direito a ele.<\/p>\n<p>\u2014 Minha filha \u00e9 sua.<\/p>\n<p>Elisa entrou na sala logo atr\u00e1s do pai.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! que felicidade! disse eu encaminhando-me para ela.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a abaixou os olhos. Estendi-lhe a m\u00e3o, sobre a qual p\u00f4s ela a sua.<\/p>\n<p>Era noite. Tamanha felicidade abafava-me: eu precisava de ar; e al\u00e9m disso tinha vontade de ver se, saindo daquela casa, desfazia-se o que me parecia sonho, ou se realmente era uma realidade bem-aventurada.<\/p>\n<p>Preparou-se o casamento, que devia efetuar-se dentro de um m\u00eas. Valadares disse-me que eu entraria como s\u00f3cio na casa, sendo esse o come\u00e7o da fortuna que meu pai exigia que eu pr\u00f3prio alcan\u00e7asse.<\/p>\n<p>Elisa recebeu contente aquela proposta? amava-me realmente? Eu acreditei que sim. Mas a verdade \u00e9 que a mo\u00e7a n\u00e3o diminuiu para mim o tratamento afetuoso que at\u00e9 ent\u00e3o me dava; como n\u00e3o era alegre, ningu\u00e9m reparava em que nada se lhe alterasse pela proximidade da uni\u00e3o.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a que eu notei ent\u00e3o na casa foi que Lu\u00eds, o poeta que l\u00e1 ia, de alegre que era tornara-se triste e distra\u00eddo. A mudan\u00e7a foi a ponto que eu compreendi que ele nutria por Elisa algum sentimento de amor. Provavelmente preparava-se para ser seu marido. Quis a sorte que as circunst\u00e2ncias transtornassem esses planos. A culpa n\u00e3o era minha, pensava eu; \u00e9 natural am\u00e1-la, basta conhec\u00ea-la.<\/p>\n<p>Efetuou-se o casamento em novembro. Foi para mim um dia de felicidade extrema, com uma \u00fanica sombra, \u00e9 que Elisa pareceu triste logo desde manh\u00e3, e indagando eu a causa disse que se achava um pouco doente.<\/p>\n<p>\u2014 Adiamos o casamento&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, h\u00e1 de ser j\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Mas se est\u00e1 enferma?<\/p>\n<p>\u2014 Uma dor de cabe\u00e7a; nada \u00e9.<\/p>\n<p>A cerim\u00f4nia foi celebrada debaixo desta impress\u00e3o.<\/p>\n<p>Assistiram a ela todos os amigos da casa, menos o poeta, que dois dias antes partira para o interior da prov\u00edncia, onde ia, disse ele, ver um parente.<\/p>\n<p>Quando eu me vi casado, senti tamanha satisfa\u00e7\u00e3o que tive medo de mim. Agradeci mentalmente a meu pai o haver-me mandado para o Rio, onde aquela ventura me esperava.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe direi como correram os primeiros dias do meu casamento; foi o que costuma a ser, uma lua-de-mel. Elisa nada mudou do que era; \u00e0 sua \u00edndole atribu\u00ed eu a circunst\u00e2ncia especial de que, ao passo que eu me sentia ardoroso e cheio daquela gl\u00f3ria de possu\u00ed-la, ela mostrava-se afetuosa, mas reservada, obediente e passiva.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 natural nela; foi assim educada, pensava eu.<\/p>\n<p>E n\u00e3o havia cuidado nem aten\u00e7\u00e3o de que eu n\u00e3o a rodeasse para que ela fosse feliz. A mo\u00e7a agradecia-me com um sorriso. Para mim aquele sorriso era uma luz do c\u00e9u.<\/p>\n<p>No fim de algum tempo, apareceu outra vez na corte o poeta, que vinha, dizia, de fechar os olhos ao parente, e trazia luto fechado. Ficava-lhe bem o luto, e n\u00e3o somente o luto das roupas, mas o do semblante que estava fechado e triste como uma campa que esconde um morto.<\/p>\n<p>O poeta foi \u00e0 nossa casa; mas Elisa n\u00e3o lhe falou, por estar incomodada, segundo mandou dizer. O mo\u00e7o voltou l\u00e1 mais duas vezes sem que pudesse ver minha mulher. N\u00e3o voltou l\u00e1 mais.<\/p>\n<p>Pouco depois soube que partira para os Estados Unidos. Ia buscar, disse ele ao major que freq\u00fcentava a casa de Valadares, um grande centro populoso que lhe servisse de grande deserto para o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desconfiei, como era f\u00e1cil, que o amor de Lu\u00eds n\u00e3o se extinguira, e que, preferindo o suic\u00eddio moral \u00e0 desonra, buscava assim o esquecimento num ex\u00edlio volunt\u00e1rio.<\/p>\n<p>Passaram-se tr\u00eas anos quase, e por esse tempo adoeceu Elisa. Foi ao principio mol\u00e9stia de pouca monta, mas agravou-se com os tempos, e um dia chegou em que o m\u00e9dico me disse que a infeliz estava t\u00edsica.<\/p>\n<p>Podes acaso calcular a minha dor?<\/p>\n<p>\u2014 Salve-a, doutor, exclamei eu.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, hei de salv\u00e1-la.<\/p>\n<p>Com efeito, o m\u00e9dico envidou todos os esfor\u00e7os; ocultou a mol\u00e9stia \u00e0 enferma, por prud\u00eancia; mas Elisa tinha a convic\u00e7\u00e3o da gravidade do mal. Emagrecia e empalidecia a olhos vistos.<\/p>\n<p>Abandonei os interesses da casa a meu sogro, que, por sua parte, entregou-a aos cuidados do guarda-livros, e ambos nos ocupamos exclusivamente em cuidar da pobre enferma.<\/p>\n<p>Mas o mal era fatal. A ci\u00eancia nem o amor nada podiam contra ele. Elisa definhava; n\u00e3o longe estava a morte. Ao menos salv\u00e1vamos a consci\u00eancia de ter feito tudo.<\/p>\n<p>Eu poucas vezes sa\u00eda, e isso mesmo pouco tempo me demorava fora de casa. Numa dessas vezes, em que eu voltava, n\u00e3o achei Elisa na sala de visitas. A infeliz j\u00e1 poucas vezes se levantava; cuidei que estivesse de cama. Fui para l\u00e1; n\u00e3o estava. Disseram-me que tinha entrado no seu gabinete de trabalho.<\/p>\n<p>Dirigi-me para l\u00e1 p\u00e9 ante p\u00e9.<\/p>\n<p>Elisa estava de costas, sentada numa poltrona com um papel na m\u00e3o; aproximei-me devagarinho, queria causar-lhe uma agrad\u00e1vel surpresa dando-lhe um beijo.<\/p>\n<p>Mas, no momento em que eu aproximava-me dela, vi que o papel que ela lia continha uns versos, e parava para os ler, quando vi cair sobre o papel uma l\u00e1grima.<\/p>\n<p>Que era aquilo? De um lance compreendi tudo; n\u00e3o pude reter um pequeno grito, que ela ouviu e que a assustou.<\/p>\n<p>Vendo-me p\u00e1lido e de p\u00e9 diante dela, a mo\u00e7a levantou-se a custo e curvando a cabe\u00e7a murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o!<\/p>\n<p>Queria ajoelhar, impedi-a.<\/p>\n<p>Elisa n\u00e3o se perturbou; tinha no olhar a serenidade da inoc\u00eancia; mas o fogo que lhe ardia nas pupilas era j\u00e1 o fogo da morte. O susto que eu lhe causara apressou a cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Elisa caiu-me nos bra\u00e7os; removi-a para a cama. \u00c0 noite tinha dado a alma a Deus.<\/p>\n<p>Compreendes o que sofri naquela funesta noite? Duas vezes fui fatal \u00e0quela pobre alma: na vida e na morte. Os versos que ela lia eram de Lu\u00eds, que ela amava, e com quem n\u00e3o p\u00f4de casar porque adivinhara que o meu casamento era do gosto do pai. Fui a fatalidade da sua vida. E n\u00e3o menos fatal fui na morte, pois que a apressei quando talvez pudesse viver alguns dias, talvez pouco para ela, muito para o meu amor.<\/p>\n<p>A dor de perd\u00ea-la foi dominada pelo remorso de hav\u00ea-la sacrificado. Era eu causa involunt\u00e1ria daquele sacrif\u00edcio t\u00e3o sereno e t\u00e3o mudo, sem uma exprobra\u00e7\u00e3o, nem uma queixa.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos esteve ela ao p\u00e9 de mim, sem articular uma queixa, pronta a executar todos os meus desejos, desempenhando aquele papel de m\u00e1rtir que o destino lhe dera.<\/p>\n<p>Compreendes que aquela sepultura que ali est\u00e1 perto de mim \u00e9 a dela. \u00c9 ali que eu vou pedir-lhe sempre com as minhas ora\u00e7\u00f5es e as minhas l\u00e1grimas um perd\u00e3o de que preciso.<\/p>\n<p>E toda esta l\u00fagubre hist\u00f3ria \u00e9 a hist\u00f3ria desta l\u00e1grima.<\/p>\n<p>Isolei-me, procurei na solid\u00e3o um descanso; tomam-me uns por doido; outros chamam-me exc\u00eantrico. Eu sou apenas uma v\u00edtima depois de ter sido um algoz, inconsciente \u00e9 verdade, mas algoz cruel daquela alma que podia ser feliz na terra, e n\u00e3o o foi.<\/p>\n<p>Um dia em que ali estava no cemit\u00e9rio vi aparecer um homem vestido de preto, encaminhando-se para a mesma sepultura. Era Lu\u00eds. Viu-me chorar, compreendeu que eu amava aquela que havia morrido por ele. Diante daquela sepultura a nossa rivalidade fez uma paz solene; trocamos um aperto de m\u00e3o, depois do que sa\u00edmos cada um por seu lado para nunca mais nos encontrarmos.<\/p>\n<p>Lu\u00eds matou-se. N\u00e3o podendo achar o deserto na vida, foi busc\u00e1-lo na morte. Est\u00e1 ao p\u00e9 dela no c\u00e9u; \u00e9 por isso que eu n\u00e3o vou perturbar lhes a felicidade.<\/p>\n<p>Dizendo isto o velho curvou a cabe\u00e7a e meditou.<\/p>\n<p>Eu sa\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Ainda hoje uma ou duas vezes por semana quem for ao cemit\u00e9rio de Catumbi encontrar\u00e1 Daniel rezando ao p\u00e9 de uma sepultura, cujas letras o tempo apagou, mas que o velho conhece porque ali reside a sua alma.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1867 Que \u00e9 uma l\u00e1grima? A ci\u00eancia dar-nos-\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o positiva; a poesia dir\u00e1 que \u00e9 o soro da alma, a linguagem do cora\u00e7\u00e3o. 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