{"id":116163,"date":"2017-03-28T18:54:22","date_gmt":"2017-03-28T20:54:22","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116163"},"modified":"2017-03-28T18:54:22","modified_gmt":"2017-03-28T20:54:22","slug":"historia-de-uma-fita-azul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/historia-de-uma-fita-azul","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria De Uma Fita Azul"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>I<\/h2>\n<p>Marianinha achou um dia na cesta de costura um peda\u00e7o de fita azul. Era naturalmente resto de algum cinto ou coisa que o valha. Lembrou-se de bordar na fita dois nomes: Marianinha e Gustavo.<\/p>\n<p>Gustavo! (interrompe neste ponto o leitor) mas por que Gustavo e n\u00e3o Alfredo, Benedito ou simplesmente Dami\u00e3o?<\/p>\n<p>Por uma raz\u00e3o muito clara e singela, leitor ignaro; porque o namorado de Marianinha n\u00e3o se chamava Alfredo, nem Benedito, nem Dami\u00e3o, mas Gustavo; n\u00e3o Gustavo somente, mas Gustavo da Silveira, rapaz de vinte e sete anos, moreno, cabelo preto, olhos idem, bacharel, aspirante a juiz municipal, tendo sobre todas estas qualidades a de possuir umas oitenta ap\u00f3lices da d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Amavam-se estas duas criaturas, se assim se pode dizer de um capricho come\u00e7ado num baile e n\u00e3o sei se destinado a morrer numa corrida. A verdade \u00e9 que no curto espa\u00e7o de tr\u00eas meses haviam j\u00e1 trocado cinq\u00fcenta cartas, algumas compridas, todas cheias de protestos de amor at\u00e9 \u00e0 morte. Gustavo dizia-lhe mais de uma vez que ela era o anjo com que ele sonhara durante toda a vida, e ela retribu\u00eda-lhe esta fineza dizendo a mesma coisa, mas com estilo diferente, sendo o mais espantoso deste caso que nem ele nem ela haviam sonhado com nenhum anjo. Acrescentarei at\u00e9 que o jovem Gustavo havia j\u00e1 feito a mesma revela\u00e7\u00e3o a quatro namoradas, o que diminui a sinceridade da que fazia agora \u00e0 quinta. Exclu\u00eddas por\u00e9m estas e outras flores de ret\u00f3rica, a verdade \u00e9 que eles pareciam gostar um do outro, e se quiserem saber mais alguma coisa leiam a novela para diante.<\/p>\n<p>Lembrou-se a Marianinha de bordar o nome do namorado e o seu no peda\u00e7o de fita azul; bordou-os com linha de seda branca, e com tanta perfei\u00e7\u00e3o o fez, que teve vontade de ir mostrar o trabalho \u00e0 av\u00f3. A id\u00e9ia por\u00e9m de que a sr\u00aa D. Leonarda lhe passaria uma \u00e1spera repreens\u00e3o a demoveu do intento e a obra ficou in\u00e9dita at\u00e9 passar \u00e0s m\u00e3os do jovem Gustavo.<\/p>\n<p>N\u00e3o pense a leitora que a sr\u00aa D. Leonarda ignorasse absolutamente o namoro da neta. Oh! n\u00e3o! A sr\u00aa Leonarda, al\u00e9m de ser excelente doceira, tinha o olho mais perspicaz deste mundo. Percebeu o namoro e calou-se a ver (dizia ela) em que paravam as modas. J\u00e1 estava de longa data acostumada a estes romances da neta, e s\u00f3 lastimava n\u00e3o ver o cap\u00edtulo do fim.<\/p>\n<p>\u201cA culpa \u00e9 dela, pensava a sr\u00aa D. Leonarda. Quem h\u00e1 de querer casar com uma estouvada daquele g\u00eanero, que ainda bem n\u00e3o acabou um namoro, j\u00e1 come\u00e7a outro?\u201d<\/p>\n<p>Indiretamente fazia-lhe sentir esta censura toda \u00edntima, dizendo-lhe \u00e0s vezes:<\/p>\n<p>\u2014 O major Alvarenga (era o defunto esposo da sr\u00aa D. Leonarda) foi o primeiro e \u00faltimo namoro. Vi-o num dia de entrudo; casamo-nos logo depois da P\u00e1scoa. Hoje, as mo\u00e7as gostam de andar de namoro em namoro, sem acabar de escolher um. Por isso muitas ficam para tias.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 de notar que o bacharel Gustavo ca\u00edra-lhe em gra\u00e7a, e que de todos os namorados de Marianinha era este o que mais adequado lhe parecia. N\u00e3o aprovaria certamente a id\u00e9ia da fita bordada com os dois nomes, porque a sr\u00aa D. Leonarda tinha como teoria que uma mo\u00e7a apenas deve olhar para o namorado; escrever-lhe era j\u00e1 atrevimento, e (usemos os seus pr\u00f3prios termos) e profunda imoralidade. Mas desejava e muito que aquele casamento se fizesse, porque, mais que nenhum outro, o genro lhe parecia de fei\u00e7\u00e3o. Com um pouco mais de ardor da parte dos dois namorados, estou certo de que nem escreveria estas p\u00e1ginas; tinham casado, estavam com filhos, vivendo em paz. N\u00e3o precipitemos entretanto os acontecimentos, esperemos ao segundo cap\u00edtulo.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>Gustavo foi \u00e0 casa de D. Leonarda na quinta-feira seguinte, isto \u00e9, dois dias depois do dia em que Marianinha acabava de bordar os dois nomes na fita azul.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho uma coisa para lhe dar, disse a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! O que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Adivinhe.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso adivinhar.<\/p>\n<p>\u2014 Adivinhe.<\/p>\n<p>\u2014 Um par de bot\u00f5es?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Uma flor?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Uma charuteira?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso&#8230; Ora, espere&#8230; Ser\u00e1&#8230;. n\u00e3o&#8230; n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Um len\u00e7o de assoar.<\/p>\n<p>\u2014 Ora! respondeu Marianinha encolhendo os ombros. E tirou do bolso a fita azul com os dois nomes bordados.<\/p>\n<p>\u2014 Bonito! exclamou Gustavo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma lembran\u00e7a para se n\u00e3o esquecer de mim.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! querida! pois eu hei de nunca esquecer-me de voc\u00ea. N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea o anjo&#8230;<\/p>\n<p>Aqui entrava a q\u00fcinquag\u00e9sima edi\u00e7\u00e3o do sonho que ele n\u00e3o tivera nunca.<\/p>\n<p>Gustavo disfar\u00e7adamente beijou a fita azul e guardou-a no bolso, de maneira que o n\u00e3o visse a sr\u00aa D. Leonarda.<\/p>\n<p>Marianinha ficou muito contente com o bom agasalho que tivera a sua lembran\u00e7a n\u00e3o menos que com o elogio da obra, t\u00e3o certo \u00e9 que o amor n\u00e3o dispensa a vaidade, antes esta \u00e9 muita vez complemento daquele.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe darei eu para que se n\u00e3o esque\u00e7a de mim? disse Gustavo da\u00ed a pouco, em ocasi\u00e3o em que p\u00f4de murmurar-lhe estas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, disse a mo\u00e7a sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Ama-me ent\u00e3o como sempre? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Como sempre!<\/p>\n<p>Todo o resto do di\u00e1logo foi assim por este gosto, como naturalmente o leitor e a leitora compreendem, se \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o passaram pelo mesmo como eu sou capaz de jurar.<\/p>\n<p>Marianinha era muito graciosa, al\u00e9m de bonita. Os olhos eram pequenos e vivos; ela sabia-os mover com muita gentileza. N\u00e3o era mulher que do primeiro lance fizesse apaixonar um homem; mas com o tempo tinha o cond\u00e3o de insinuar-se-lhe no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi isto justamente o que aconteceu com o nosso jovem Gustavo, cujo namoro durava j\u00e1 mais tempo que os outros. Come\u00e7ara por brinquedo, e acabara s\u00e9rio. Gustavo foi-se a pouco e pouco sentindo preso nas m\u00e3os da mo\u00e7a, de maneira que o casamento, coisa em que n\u00e3o pensara nunca, entrou a surgir-lhe no esp\u00edrito como uma coisa muito desej\u00e1vel e indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Afinal, pensava ele, devo acabar casado, e mais vale que seja com uma boa menina como aquela \u00e9, alegre, afetuosa, educada&#8230; A educa\u00e7\u00e3o acab\u00e1-la-ei eu, e o terreno \u00e9 pr\u00f3prio para isso; farei dela uma verdadeira esposa.<\/p>\n<p>Com estas disposi\u00e7\u00f5es, deixou Gustavo as suas habituais distra\u00e7\u00f5es, teatros, passeios, ceatas e todo se entregou ao cultivo do amor. D. Leonarda viu que a assiduidade era maior e concluiu razoavelmente que desta vez iria o barco ao mar. Para animar a pequena falou-lhe na conveni\u00eancia de casar com pessoa que estimasse e n\u00e3o deixasse de dar duas ou tr\u00eas esperan\u00e7as ao pretendente.<\/p>\n<p>As coisas foram assim andando de modo que o bacharel assentou de ir pedir a mo\u00e7a \u00e0 av\u00f3 por ocasi\u00e3o dos anos dela (a av\u00f3), que era a 27 de outubro. Estavam ent\u00e3o no dia 10 do referido m\u00eas. Em novembro podiam estar unidos e felizes.<\/p>\n<p>Gustavo conversou com alguns amigos, e todos lhe aprovaram a resolu\u00e7\u00e3o, mormente os que freq\u00fcentavam a casa de D. Leonarda e n\u00e3o queriam ficar brigados com o futuro neto da vi\u00fava do major.<\/p>\n<p>Um desses freq\u00fcentadores, comensal antigo, de passagem lhe observou que a mo\u00e7a era um tanto caprichosa; mas n\u00e3o o fez com a id\u00e9ia de o afastar da pretens\u00e3o, o que era dif\u00edcil naquele caso, mas antes por lhe aplanar a dificuldade mostrando-lhe o caminho que devia seguir.<\/p>\n<p>\u2014 O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 excelente, acrescentou este informante; nisto sai \u00e0 av\u00f3 e \u00e0 m\u00e3e, que Deus tem.<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9 o essencial, disse Gustavo; caprichos s\u00e3o flores pr\u00f3prias da idade; o tempo as secar\u00e1 de todo. Gosto muito dela, e quaisquer que fossem os seus defeitos, casaria com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! sem d\u00favida! Pela minha parte desde j\u00e1 lhe afian\u00e7o que h\u00e3o de ser felizes.<\/p>\n<p>Tudo corria portanto comme sur des roulettes. O pedido estava prestes; prestes o casamento. Gustavo imaginou logo um plano de vida, mediante o qual ele seria no ano seguinte deputado, logo depois presidente de prov\u00edncia, e um dia alguma coisa mais. A imagina\u00e7\u00e3o pintava-lhe a gl\u00f3ria e o prazer que daria a sua mulher; imaginava um filhinho, uma casa cercada de laranjeiras, um para\u00edso&#8230;<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Ora, logo na noite do dia 10, estando a conversar com a namorada, esta lhe perguntou pela fita azul. Eram passados seis meses desde a noite em que ela lha dera. Gustavo empalideceu; e a raz\u00e3o era que, n\u00e3o estando naquele tempo apaixonado como agora, nunca mais pusera olhos em cima da fita. Murmurou como p\u00f4de alguma coisa, que ela n\u00e3o ouviu, nem se lhe deu de ouvir, por haver logo percebido a sua perturba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Naturalmente n\u00e3o sabe onde a p\u00f4s, disse ela com ar azedo.<\/p>\n<p>\u2014 Ora!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Talvez a lan\u00e7asse \u00e0 rua&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que id\u00e9ia!<\/p>\n<p>\u2014 Estou a ler isso no seu rosto.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel! A fita est\u00e1 l\u00e1 em casa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, veja se a traz amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3? balbuciou Gustavo.<\/p>\n<p>\u2014 Perdeu-a, j\u00e1 sei.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o; amanh\u00e3 trago-lhe a fita.<\/p>\n<p>\u2014 Jura?<\/p>\n<p>\u2014 Que criancice! Juro.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito de Gustavo achava-se nessa ocasi\u00e3o na situa\u00e7\u00e3o de um homem que se deitasse numa cama de espinhos. Virava-se, revirava-se, espinhava-se, e daria cem ou duzentos rnil-r\u00e9is para poder ter a fita ali mesmo no bolso. Queria ao menos ter certeza de que a acharia em casa. Mas n\u00e3o tinha; e o rosto da mo\u00e7a como que lhe anunciava a tempestade de arrufos que o esperaria no dia seguinte se n\u00e3o levasse a fita.<\/p>\n<p>Efetivamente Marianinha n\u00e3o se riu mais nessa noite. Gustavo saiu mais cedo que de costume e foi dali direito como uma flecha para casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho tintas na minha paleta para pintar a cena da investiga\u00e7\u00e3o da fita, que durou cerca de duas horas e dava para dois cap\u00edtulos ou tr\u00eas. Uma s\u00f3 gaveta n\u00e3o ficou em casa por examinar, uma s\u00f3 caixa de chap\u00e9u, um s\u00f3 escaninho de secret\u00e1ria. Veio tudo abaixo. A fita obstinava-se em n\u00e3o aparecer. Gustavo imaginou que ela estaria na saladeira; a saladeira estava vazia, e era o pior que lhe podia acontecer, porque o furioso mancebo atirou-a contra um portal e reduziu-a a cacos.<\/p>\n<p>Os dois criados andavam at\u00f4nitos; n\u00e3o compreendiam aquilo; muito menos compreendiam o motivo por que o amo os descompunha, quando eles n\u00e3o tinham not\u00edcia nenhuma da fita azul.<\/p>\n<p>Era j\u00e1 madrugada; a fita n\u00e3o dera sinal de si; toda a esperan\u00e7a se dissipara como fumo. Gustavo tomou a resolu\u00e7\u00e3o de se deitar, que os seus criados acharam excelente, mas que para ele foi perfeitamente in\u00fatil. Gustavo n\u00e3o pregou olho; levantou-se \u00e0s oito horas do dia 11 fatigado, aborrecido, receoso de um imenso desastre.<\/p>\n<p>Durante o dia fez algumas investiga\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 famosa fita; todas elas tiveram o resultado das da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>Numa das ocasi\u00f5es em que estava mais aflito, apareceu-lhe em casa um dos freq\u00fcentadores da casa de D. Leonarda, o mesmo com quem tivera o di\u00e1logo acima transcrito. Gustavo confiou-lhe tudo.<\/p>\n<p>O sr. Barbosa riu-se.<\/p>\n<p>Barbosa era o nome do freq\u00fcentador da casa de D. Leonarda.<\/p>\n<p>Riu-se e chamou-lhe crian\u00e7a; afirmou-lhe que Marianinha era caprichosa, mas que uma fita era uma coisa de pouco mais que nada.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe pode resultar daqui? disse o sr. Barbosa com um gesto grave. Zangar-se a mo\u00e7a durante algumas horas? Isso que vale se ela lhe h\u00e1 de dever a felicidade mais tarde? Meu amigo, eu n\u00e3o conhe\u00e7o a hist\u00f3ria de todos os casamentos que se t\u00eam feito debaixo do sol, mas creio poder afirmar que nenhuma noiva deixou de casar por causa de um peda\u00e7o de fita.<\/p>\n<p>Gustavo ficou mais consolado com estas e outras express\u00f5es do sr. Barbosa, que se despediu da\u00ed a pouco. O namorado, apenas chegou a noite, vestiu-se com o maior apuro, perfumou-se, acendeu um charuto, procurou sair de casa com o p\u00e9 direito, e enfiou para a casa da sr\u00aa D. Leonarda.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o batia-lhe mais fortemente quando subiu a escada. Vieram abrir-lhe a cancela; Gustavo entrou e achou na sala a av\u00f3 e a neta, a av\u00f3 risonha, a neta s\u00e9ria e grave.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que fazia em outras ocasi\u00f5es, Gustavo n\u00e3o buscou desta vez achar-se a s\u00f3s com a mo\u00e7a. Foi esta quem procurou essa ocasi\u00e3o, no que a av\u00f3 a ajudou mui simplesmente, indo ao interior da casa saber a causa de um rumor de pratos que ouvira.<\/p>\n<p>\u2014 A fita? disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 A fita&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perdeu-a?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se pode dizer que esteja perdida, balbuciou Gustavo; n\u00e3o a pude achar por mais que a procurasse; e a raz\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A raz\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 A raz\u00e3o \u00e9 que eu&#8230; sim&#8230; naturalmente est\u00e1 muito guardada&#8230; mas creio que&#8230;<\/p>\n<p>Marianinha levantou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Minha \u00faltima palavra \u00e9 esta&#8230; Quero a fita dentro de tr\u00eas dias; se n\u00e3o ma der, tudo est\u00e1 acabado; n\u00e3o serei sua!<\/p>\n<p>Gustavo estremeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Marianinha!<\/p>\n<p>A mo\u00e7a deu um passo para dentro.<\/p>\n<p>\u2014 Marianinha! repetiu o pobre namorado.<\/p>\n<p>\u2014 Nem mais uma palavra!<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A fita, dentro de tr\u00eas dias!<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>Imagina-se, n\u00e3o se descreve a situa\u00e7\u00e3o em que ficou a alma do pobre Gustavo, que deveras amava a mo\u00e7a e que por t\u00e3o pequena coisa via perdido o seu futuro. Saiu dali (desculpem a express\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 muito nobre), saiu dali vendendo azeite \u00e0s canadas.<\/p>\n<p>\u2014 Leve o diabo o dia em que vi aquela mulher! exclamava ele caminhando para casa.<\/p>\n<p>Mas logo:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! ela n\u00e3o tem culpa: o culpado \u00fanico sou eu! Quem me mandou ser t\u00e3o pouco zeloso de um mimo dado de t\u00e3o boa fei\u00e7\u00e3o? Verdade seja que eu ainda nesse tempo n\u00e3o tinha no cora\u00e7\u00e3o o que agora sinto&#8230;<\/p>\n<p>Aqui parava o mo\u00e7o para examinar o estado do seu cora\u00e7\u00e3o, que reconhecia ser grav\u00edssimo, a ponto de lhe parecer que, se n\u00e3o casasse com ela, impreterivelmente iria ter \u00e0 cova.<\/p>\n<p>H\u00e1 paix\u00f5es assim, como devem saber o leitor e a leitora, e se a dele n\u00e3o fosse assim, \u00e9 muito prov\u00e1vel que eu n\u00e3o tivesse de contar esta mui ver\u00eddica hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 casa procedeu Gustavo a uma nova investiga\u00e7\u00e3o, que deu o mesmo resultado negativo. Passou uma noite como se pode imaginar, e levantou-se de madrugada, aborrecido e furioso consigo mesmo.<\/p>\n<p>\u00c0s oito horas levou-lhe o criado o caf\u00e9 do costume, e na ocasi\u00e3o em que lhe acendia um f\u00f3sforo para o amo acender charuto, aventurou esta conjectura:<\/p>\n<p>\u2014 Meu amo chegaria a tirar a fita da algibeira do palet\u00f3?<\/p>\n<p>\u2014 Naturalmente tirei a fita, respondeu com rispidez o mo\u00e7o; n\u00e3o me lembra se tirei, mas \u00e9 prov\u00e1vel que sim.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Meu amo deu-me h\u00e1 pouco tempo um palet\u00f3, e pode ser que&#8230;<\/p>\n<p>Isto foi um raio de esperan\u00e7a no \u00e2nimo do pobre namorado. Deu um pulo da cadeira em que se achava, quase entornou a x\u00edcara no ch\u00e3o, e sem mais pre\u00e2mbulo perguntou ao criado:<\/p>\n<p>\u2014 Jo\u00e3o! tu vieste salvar-me!<\/p>\n<p>\u2014 Eu?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, tu. Onde est\u00e1 o palet\u00f3?<\/p>\n<p>\u2014 O palet\u00f3?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, o palet\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o cravou os olhos no ch\u00e3o e n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Dize! fala! exclamou Gustavo.<\/p>\n<p>\u2014 Meu amo h\u00e1 de desculpar-me&#8230; Aqui h\u00e1 tempos uns amigos convidaram-me para uma ceia. Eu nunca ceio porque me faz mal; mas essa noite tive vontade de cear. Havia uma galinha&#8230;<\/p>\n<p>Gustavo impaciente bateu com o p\u00e9 no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Acaba! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Havia uma galinha, mas n\u00e3o havia vinho. Era preciso vinho. Al\u00e9m do vinho, houve quem lembrasse um paio, comida indigesta, como meu amo sabe&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas o palet\u00f3?<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 vou. Faltava, portanto, algum dinheiro. Eu, esquecendo por um instante os benef\u00edcios que recebera de meu amo e sem reparar que uma lembran\u00e7a daquelas guarda-se para sempre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Acaba, dem\u00f4nio!<\/p>\n<p>\u2014 Vendi o palet\u00f3!<\/p>\n<p>Gustavo deixou-se cair na cadeira.<\/p>\n<p>\u2014 Valia a pena fazer-me perder tanto tempo, disse ele, para chegar a esta conclus\u00e3o! Estou quase certo de que a fita estava no bolso desse palet\u00f3!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, meu amo, aventurou Jo\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 a mesma coisa comprar outra fita?<\/p>\n<p>\u2014 Vai-te para o diabo!<\/p>\n<p>\u2014 Demais, nem tudo est\u00e1 perdido.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n<p>\u2014 Talvez o homem ainda n\u00e3o vendesse o palet\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Que homem?<\/p>\n<p>\u2014 O homem do Pobre Jaques.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser.<\/p>\n<p>Gustavo refletiu um instante.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos l\u00e1! disse ele.<\/p>\n<p>Gustavo vestiu-se no curto prazo de sete minutos; saiu acompanhado do criado e a trote largo caminharam para a Rua da Carioca.<\/p>\n<p>Entraram na casa do Pobre Jaques.<\/p>\n<p>Acharam um velho assentado numa cadeira examinando um par de cal\u00e7as que lhe levara o fregu\u00eas talvez para almo\u00e7ar nesse dia. O dono da casa oferecia-lhe pelo objeto cinco patacas; o dono do objeto instava por mil e oitocentos. Afinal cortaram a d\u00favida, diminuindo o fregu\u00eas um tost\u00e3o e subindo o dono da casa outro tost\u00e3o.<\/p>\n<p>Acabado o neg\u00f3cio, o velho atendeu aos dois visitantes, um dos quais, de impaciente andava de um lado para outro, a passear os olhos nas roupas com a esperan\u00e7a de encontrar o suspirado palet\u00f3.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o era conhecido do velho e tomou a palavra.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se lembra de um palet\u00f3 que eu lhe vendi h\u00e1 coisa de tr\u00eas semanas? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00eas semanas!<\/p>\n<p>\u2014 Sim, um palet\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Um palet\u00f3?<\/p>\n<p>Gustavo fez um gesto de impaci\u00eancia. O velho n\u00e3o reparou no gesto. P\u00f4s-se a afagar o queixo com a m\u00e3o esquerda e os olhos no ch\u00e3o a ver se lembrava do destino que tivera o palet\u00f3 introuvable.<\/p>\n<p>\u2014 Lembra-me de que lhe comprei um palet\u00f3, disse ele, e por sinal que tinha gola de veludo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isso! exclamou Gustavo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas creio que o vendi, concluiu o velho.<\/p>\n<p>\u2014 A quem? perguntou Gustavo desejoso e ansioso ao mesmo tempo de lhe ouvir a resposta.<\/p>\n<p>Antes por\u00e9m que a ouvisse, ocorreu-lhe que o velho podia desconfiar do interesse com que procurava saber de um palet\u00f3 velho, e julgou necess\u00e1rio explicar que n\u00e3o se tratava de nenhuma carteira, mas de uma lembran\u00e7a de namorada.<\/p>\n<p>\u2014 Seja l\u00e1 o que for, disse o velho sorrindo, eu nada tenho com isso&#8230; Agora me lembro a quem vendi o palet\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Foi ao Jo\u00e3o Gomes.<\/p>\n<p>\u2014 Que Jo\u00e3o Gomes? perguntou o criado.<\/p>\n<p>\u2014 O dono da casa de pasto que fica ali quase no fim da rua&#8230;<\/p>\n<p>O criado estendeu a m\u00e3o ao velho e murmurou algumas palavras de agradecimento; quando por\u00e9m voltou os olhos, n\u00e3o viu o amo, que apressadamente se dirigia na dire\u00e7\u00e3o indicada.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p>Jo\u00e3o Gomes animava os caixeiros e a casa regurgitava de gente que comia o seu modesto almo\u00e7o. O criado do bacharel conhecia o dono da casa de pasto. Foi direito a ele.<\/p>\n<p>\u2014 Sr. Jo\u00e3o Gomes&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e9! voc\u00ea por aqui!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade; venho tratar de um assunto importante.<\/p>\n<p>\u2014 Importante?<\/p>\n<p>\u2014 Muito importante.<\/p>\n<p>\u2014 Fale, respondeu Jo\u00e3o Gomes entre receoso e curioso.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo lan\u00e7ou um olhar desconfiado para Gustavo que se conservara de parte.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o comprou o senhor um palet\u00f3 em casa do Pobre Jaques?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor, respondeu muito depressa o interpelado.<\/p>\n<p>Era evidente que receava alguma complica\u00e7\u00e3o de pol\u00edcia. Gustavo compreendeu a situa\u00e7\u00e3o e interveio para sossegar o \u00e2nimo do homem.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se trata de nada que seja grave para o senhor, nem para ningu\u00e9m exceto para mim, disse Gustavo.<\/p>\n<p>E contou o mais sumariamente que p\u00f4de o caso da fita, o que tranq\u00fcilizou efetivamente o esp\u00edrito do comprador do palet\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Uma fita azul, diz V. S.? perguntou Jo\u00e3o Gomes.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, uma fita azul.<\/p>\n<p>\u2014 Achei-a na algibeira do palet\u00f3 e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Tinha dois nomes bordados, creio eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isso.<\/p>\n<p>\u2014 Obra muito fina!<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor, e ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? Ora, espere&#8230; Eu tive esta fita alguns dias comigo&#8230; at\u00e9 que um dia&#8230; de manh\u00e3&#8230; n\u00e3o, n\u00e3o era de manh\u00e3, era de tarde&#8230; mostrei-a a um fregu\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>Estacou o sr. Jo\u00e3o Gomes.<\/p>\n<p>\u2014 Que mais? perguntou o criado do bacharel.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que era o Alvarenga&#8230; Era, era o Alvarenga. Mostrei-lha, gostou muito&#8230; e pediu-ma.<\/p>\n<p>\u2014 E o senhor?<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o precisava daquilo e dei-lha.<\/p>\n<p>Gustavo teve vontade de engolir o dono da casa de pasto. Como por\u00e9m nada adiantasse com esse ato de selvageria preferiu fazer indaga\u00e7\u00f5es relativas ao Alvarenga, e soube que morava na Rua do Sacramento.<\/p>\n<p>\u2014 Ele guarda aquilo por curiosidade, observou Jo\u00e3o Gomes; se V. S. lhe contar o que h\u00e1, estou certo de que lhe entrega a fita.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>\u2014 Estou certo disso&#8230; At\u00e9 se quiser eu mesmo lhe falo; ele h\u00e1 de c\u00e1 vir almo\u00e7ar e talvez a coisa se arranje hoje mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto melhor! exclamou Gustavo. Pois, meu amigo, veja se me consegue isso, e far-me-\u00e1 um grande favor. O Jo\u00e3o aqui fica para me levar a resposta.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem d\u00favida.<\/p>\n<p>Gustavo foi dali almo\u00e7ar no Hotel dos Pr\u00edncipes, onde Jo\u00e3o devia ir ter a dar-lhe conta do que houvesse. O criado demorou-se muito menos por\u00e9m do que pareceu ao ansioso namorado. J\u00e1 lhe parecia que ele n\u00e3o viria mais, quando a figura de Jo\u00e3o assomou \u00e0 porta. Gustavo levantou-se \u00e0 pressa e saiu.<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 O homem apareceu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E a fita?<\/p>\n<p>\u2014 A fita estava com ele&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Achou-se?<\/p>\n<p>\u2014 Estava com ele, porque o Jo\u00e3o Gomes lha tinha dado, como meu amo sabe, mas parece que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Inferno! exclamou Gustavo lembrando-se de um melodrama em que ouvira exclama\u00e7\u00e3o an\u00e1loga.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1, continuou o criado como se estivesse saboreando estas \u00e2nsias do amo, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1, mas podemos dar com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>\u2014 O Alvarenga \u00e9 procurador, deu a fita \u00e0 filhinha do desembargador com quem trabalha. Ele mesmo incumbiu-se de arranjar tudo&#8230;<\/p>\n<p>Gustavo perdera de todo as esperan\u00e7as. A esquiva fita nunca mais lhe tornaria \u00e0s m\u00e3os, pensava ele, e com esta id\u00e9ia ficou acabrunhado.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o entretanto reanimou-se como p\u00f4de, afian\u00e7ando-lhe que achava no sr. Alvarenga muito boa vontade de o servir.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes o n\u00famero da casa dele?<\/p>\n<p>\u2014 Ele ficou de ir \u00e0 casa de meu amo.<\/p>\n<p>\u2014 Quando?<\/p>\n<p>\u2014 Hoje.<\/p>\n<p>\u2014 A que horas?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s ave-marias.<\/p>\n<p>Era um supl\u00edcio faz\u00ea-lo esperar tanto tempo, mas como n\u00e3o havia outro rem\u00e9dio, Gustavo curvou a cabe\u00e7a e foi para casa, disposto a n\u00e3o sair sem saber o que era feito da encantada fita.<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p>Cruel\u00edssimo foi aquele dia para o m\u00edsero namorado, que n\u00e3o podia ler, nem escrever, que s\u00f3 podia suspirar, amea\u00e7ar o c\u00e9u e a terra e que mais de uma vez ofereceu ao destino as suas ap\u00f3lices por um peda\u00e7o de fita.<\/p>\n<p>Dizer que jantou mal, \u00e9 noticiar ao leitor uma coisa que ele naturalmente adivinhou. A tarde foi terr\u00edvel de passar. A incerteza misturava-se \u00e0 \u00e2nsia; Gustavo ardia por ver o procurador, mas receava que nada trouxesse, e que a noite desse dia fosse muito pior que a antecedente. Pior seria decerto, porque o plano de Gustavo estava feito: atirava-se do segundo andar \u00e0 rua.<\/p>\n<p>A tarde caiu de todo, e o procurador, fiel \u00e0 sua palavra, bateu palmas na escada.<\/p>\n<p>Gustavo estremeceu.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o foi abrir a porta:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Entre, sr. Alvarenga, disse ele, entre para a sala; meu amo est\u00e1 \u00e0 sua espera.<\/p>\n<p>Alvarenga entrou.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o que h\u00e1? perguntou Gustavo depois de feitos os primeiros cumprimentos.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 alguma coisa, disse o procurador.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>E logo:<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de admirar-se talvez da insist\u00eancia com que procuro esta fita, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 natural, acudiu o procurador abrindo a caixa de rap\u00e9 e oferecendo uma pitada ao bacharel, que com um gesto recusou.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o parece-lhe que h\u00e1 alguma coisa? perguntou Gustavo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor, respondeu o procurador. Eu tinha dado aquela fita \u00e0 filha do desembargador, menina de dez anos. Quer que lhe conte a maneira por que isso aconteceu?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o precisa.<\/p>\n<p>\u2014 Sempre lhe direi que eu gosto muito dela, e ela de mim. Posso dizer que a vi nascer. A menina Cec\u00edlia \u00e9 um anjo. Imagine que tem os cabelos louros e est\u00e1 muito desenvolvida&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! fez Gustavo n\u00e3o sabendo o que havia de dizer.<\/p>\n<p>\u2014 No dia em que o Jo\u00e3o Gomes me deu a fita dizendo-me: \u201cTome l\u00e1 o senhor que tem em casa exposi\u00e7\u00e3o!\u201d Exposi\u00e7\u00e3o chama o Jo\u00e3o Gomes a uma cole\u00e7\u00e3o de objetos e trabalhos preciosos que tenho e vou aumentando&#8230; Nesse dia, antes de ir para casa, fui \u00e0 casa do desembargador&#8230;<\/p>\n<p>Neste ponto entrou na sala o criado Jo\u00e3o, que, por uma id\u00e9ia delicada, lembrou-se de trazer uma x\u00edcara de caf\u00e9 ao sr. Alvarenga.<\/p>\n<p>\u2014 Caf\u00e9? disse este. N\u00e3o recuso nunca. Est\u00e1 bom de a\u00e7\u00facar&#8230; Oh! e que excelente caf\u00e9! V. S. n\u00e3o sabe como eu gosto de caf\u00e9; bebo \u00e0s vezes seis, oito x\u00edcaras por dia. V. S. tamb\u00e9m gosta?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s vezes, respondeu Gustavo em voz alta.<\/p>\n<p>E consigo mesmo:<\/p>\n<p>\u201cVai-te com todos os diabos! Est\u00e1s apostado para fazer-me morrer de afli\u00e7\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>O sr. Alvarenga ia saboreando o caf\u00e9, como entendedor, e contando ao bacharel a maneira por que dera a fita \u00e0 filha do desembargador.<\/p>\n<p>\u2014 Ela estava a brincar comigo, enquanto eu tirava do bolso alguns pap\u00e9is para dar ao pai. Com os pap\u00e9is veio a fita. \u201cQue bonita fita!\u201d disse ela. E pegou na fita, e pediu-me que lha desse. Que faria V. S. no meu caso?<\/p>\n<p>\u2014 Dava.<\/p>\n<p>\u2014 Foi o que eu fiz. Se visse como ficou alegre!<\/p>\n<p>O sr. Alvarenga acabara de tomar o caf\u00e9, ao qual fez um novo elogio; e depois de sorver voluptuosamente uma pitada, continuou:<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 eu n\u00e3o me lembrava da fita quando hoje o sr. Jo\u00e3o Gomes me contou o caso. Era dif\u00edcil achar a fita, porque isto de crian\u00e7as V. S. sabe que s\u00e3o endiabradas, e ent\u00e3o aquela!<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 rasgada? perguntou Gustavo ansioso por v\u00ea-lo chegar ao fim.<\/p>\n<p>\u2014 Parece que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Quando l\u00e1 cheguei perguntei com muita inst\u00e2ncia pela fita \u00e0 senhora do desembargador.<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 A senhora do desembargador respondeu-me com muita polidez que n\u00e3o sabia da fita; imagine como fiquei. Chamou-se por\u00e9m a menina, e esta confessou que uma sua prima, mo\u00e7a de vinte anos, lhe tirara a fita da m\u00e3o, logo no dia em que eu lha dei. A menina chorara muito, mas a prima dera-lhe em troco uma boneca.<\/p>\n<p>Esta narra\u00e7\u00e3o foi ouvida por Gustavo com a ansiedade que o leitor naturalmente imagina; as \u00faltimas palavras, entretanto, foram um golpe mortal. Como haver agora essa fita? De que maneira e com que raz\u00f5es se iria procurar nas m\u00e3os da mo\u00e7a o objeto desejado?<\/p>\n<p>Gustavo comunicou estas impress\u00f5es ao sr. Alvarenga, que, depois de sorrir e tomar outra pitada, lhe respondeu que dera alguns passos a ver se a fita pudesse vir parar \u00e0s suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade; a senhora do desembargador ficou t\u00e3o penalizada com a ansiedade que eu mostrava, que me prometeu fazer alguma coisa. A sobrinha mora no Rio Comprido; a resposta s\u00f3 pode estar nas suas m\u00e3os depois de amanh\u00e3 porque eu amanh\u00e3 tenho muito que fazer.<\/p>\n<p>\u2014 Mas vir\u00e1 a fita? murmurou Gustavo com des\u00e2nimo.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser, respondeu o procurador; tenhamos esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Com que lhe hei de pagar tantos favores? disse o bacharel ao procurador que se levantara e pegara no chap\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sou procurador&#8230; d\u00ea-me alguma coisa em que eu possa prestar-lhe os meus servi\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! sim! a primeira que me vier agora \u00e9 sua! exclamou Gustavo para quem uma causa era ainda objeto puramente mitol\u00f3gico.<\/p>\n<p>O procurador saiu.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, at\u00e9 depois de amanh\u00e3? disse Jo\u00e3o que ouvira quase toda a conversa, colado no corredor,<\/p>\n<p>\u2014 Sim, at\u00e9 depois de amanh\u00e3.<\/p>\n<h2>VII<\/h2>\n<p>O dia em que o procurador devia voltar \u00e0 casa de Gustavo era o \u00faltimo do prazo marcado por Marianinha. Gustavo esperou por ele sem sair de casa; n\u00e3o queria aparecer sem estar desenganado ou feliz.<\/p>\n<p>O sr. Alvarenga n\u00e3o marcara hora. Gustavo acordou cedo, almo\u00e7ou, e esperou at\u00e9 o meio-dia sem que o procurador desse sinais de si. Era uma hora quando apareceu.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de desculpar-me, disse ele logo ao entrar; tive uma audi\u00eancia na segunda vara, e por isso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Nada.<\/p>\n<p>\u2014 Nada!<\/p>\n<p>\u2014 Ela tem a fita e declara que a n\u00e3o d\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 Oh! mas isso \u00e9 imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m eu disse isso, mas depois refleti que n\u00e3o h\u00e1 outro recurso sen\u00e3o contentarmo-nos com a resposta. Que poder\u00edamos n\u00f3s fazer?<\/p>\n<p>Gustavo deu alguns passos na sala, impaciente e abatido ao mesmo tempo. Tanto trabalho para t\u00e3o triste fim! Que importava que ele soubesse onde parava a fita, se n\u00e3o podia hav\u00ea-la \u00e0s m\u00e3os? O casamento estava perdido; o suic\u00eddio unicamente.<\/p>\n<p>Sim, o suic\u00eddio. Apenas o procurador Alvarenga saiu da casa de Gustavo, este sondou o seu cora\u00e7\u00e3o e mais uma vez se convenceu de que n\u00e3o podia resistir \u00e0 recusa de Marianinha; sen\u00e3o matar-se.<\/p>\n<p>\u201cCaso-me com a morte!\u201d rugiu ele surdamente.<\/p>\n<p>Outra reminisc\u00eancia de melodrama.<\/p>\n<p>Assim assentado o seu plano, saiu Gustavo de casa, logo depois de ave-marias e dirigiu-se para a casa de D. Leonarda. Entrou comovido; estremeceu quando deu com os olhos em Marianinha. A mo\u00e7a tinha o mesmo ar severo com que lhe falara a \u00faltima vez.<\/p>\n<p>\u2014 Por onde andou estes tr\u00eas dias? disse D. Leonarda.<\/p>\n<p>\u2014 Estive muito ocupado, respondeu secamente o mo\u00e7o, e por isso&#8230; As senhoras t\u00eam passado bem?<\/p>\n<p>\u2014 Assim, assim, disse D. Leonarda.<\/p>\n<p>Depois:<\/p>\n<p>\u201cEstes pequenos andam arrufados!\u201d pensou ela.<\/p>\n<p>E posto fosse sever\u00edssima em pontos de namoro, todavia compreendeu que para explicar e acabar arrufos a presen\u00e7a de uma av\u00f3 era de algum modo prejudicial. Pelo que, assentou retirar-se durante cinco minutos (de rel\u00f3gio na m\u00e3o), a pretexto de ir ver o len\u00e7o de tabaco.<\/p>\n<p>Apenas se acharam s\u00f3s os dois namorados, rompeu o seguinte di\u00e1logo a muito custo de ambos, porque nenhum deles queria come\u00e7ar primeiro. Foi Gustavo quem cedeu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe trago a fita.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse a mo\u00e7a com frieza.<\/p>\n<p>\u2014 Algu\u00e9m ma tirou, talvez, porque eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que faz a pol\u00edcia?<\/p>\n<p>\u2014 A pol\u00edcia!&#8230; Est\u00e1 zombando comigo, creio eu.<\/p>\n<p>\u2014 Apenas cr\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Marianinha, por quem \u00e9, perdoe-me se&#8230;<\/p>\n<p>Neste ponto teve Gustavo uma id\u00e9ia que lhe pareceu luminosa.<\/p>\n<p>\u2014 Falemos franco, disse ele; eu tenho a fita comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? deixe ver.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o est\u00e1 aqui; mas posso afirmar-lhe que a tenho. Imponho todavia uma condi\u00e7\u00e3o&#8230; Quero ter este prazer de impor uma condi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Impor?<\/p>\n<p>\u2014 Pedir. Mostrar-lhe-ei a fita depois que estivermos casados.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia, como a leitora v\u00ea, n\u00e3o era t\u00e3o luminosa como ele pensava; Marianinha deu uma risadinha e levantou-se.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acredita? disse Gustavo meio enfiado.<\/p>\n<p>\u2014 Acredito, disse ela; e tanto que aceito a condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Com a certeza de que n\u00e3o a h\u00e1 de cumprir.<\/p>\n<p>\u2014 Juro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o jure! A fita est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p>E Marianinha tirou da algibeira o peda\u00e7o de fita azul com os nomes de ambos bordados a seda, a mesma fita que ela lhe dera.<\/p>\n<p>Se o bacharel Gustavo tivesse visto as torres de S. Francisco de Paula subitamente transformadas em duas muletas, n\u00e3o se admiraria tanto como quando a mo\u00e7a lhe mostrou o peda\u00e7o de fita azul.<\/p>\n<p>S\u00f3 no fim de dois minutos p\u00f4de falar:<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230; esta fita?<\/p>\n<p>\u2014 Sil\u00eancio! disse Marianinha vendo entrar a av\u00f3.<\/p>\n<p>A leitora naturalmente acredita que a fita fora entregue a Marianinha pela sobrinha do desembargador, e acredita a verdade. Eram amigas; sabiam do namoro uma da outra; Marianinha tinha mostrado \u00e0 amiga a obra que fazia para dar ao namorado, de maneira que quando a fita azul caiu nas m\u00e3os da pequena suspeitou naturalmente que era a mesma, e obteve-a para mostr\u00e1-la \u00e0 neta de D. Leonarda.<\/p>\n<p>Gustavo n\u00e3o suspeitara nada disto; estava aturdido. Estava sobretudo envergonhado. Acabava ser apanhado em flagrante delito de peta e fora desmentido do mais formid\u00e1vel modo.<\/p>\n<p>Nestas alturas n\u00e3o h\u00e1 de demorar o desfecho. Apresso-me a dizer que Gustavo saiu dali abatido, mas que no dia seguinte recebeu uma carta de Marianinha, em que lhe dizia, entre outras coisas, esta: \u201cPerd\u00f4o-lhe tudo!\u201d<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia foi pedida a mo\u00e7a. Casaram-se pouco depois e vivem felizes, n\u00e3o direi onde, para que os n\u00e3o v\u00e3o perturbar na sua lua-de-mel que dura h\u00e1 largos meses.<\/p>\n<p>Desejo o mesmo \u00e0s leitoras<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis I Marianinha achou um dia na cesta de costura um peda\u00e7o de fita azul. Era naturalmente resto de algum cinto ou coisa que o valha. Lembrou-se de bordar na fita dois nomes: Marianinha e Gustavo. Gustavo! (interrompe neste ponto o leitor) mas por que Gustavo e n\u00e3o Alfredo, Benedito ou simplesmente Dami\u00e3o? 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