{"id":116159,"date":"2017-03-28T18:33:18","date_gmt":"2017-03-28T20:33:18","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116159"},"modified":"2017-03-28T18:33:18","modified_gmt":"2017-03-28T20:33:18","slug":"francisca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/francisca","title":{"rendered":"Francisca"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1867<\/p>\n<p>O poeta Daniel amava em Francisca tudo: o cora\u00e7\u00e3o, a beleza, a mocidade, a inoc\u00eancia e at\u00e9 o nome. At\u00e9 o nome! De mim digo que acho raz\u00e3o em Daniel. N\u00e3o julguemos este nome de Francisca pelo uso e abuso que dele se faz; mas pela harmonia e do\u00e7ura daquelas tr\u00eas s\u00edlabas, t\u00e3o bem ligadas, t\u00e3o amorosamente doces.<\/p>\n<p>Daniel amava at\u00e9 o nome. Tinha nela o ideal da felicidade dom\u00e9stica que se preparava a conquistar mediante as f\u00f3rmulas sagradas do matrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>O amor nasceu naqueles dois cora\u00e7\u00f5es como a flor em planta que est\u00e1 de vez. Pareceu coisa escrita no livro dos destinos. Viram-se e amaram-se: o amor que os tomou foi um desses amores profundos e violentos a que nada resiste: um destes amores que fazem supor a exist\u00eancia de um sistema em que duas almas descem a este mundo, j\u00e1 predestinadas a viverem de si e entre si.<\/p>\n<p>Ora, Francisca, no tempo em que Daniel a viu pela primeira vez, era um tipo de beleza c\u00e2ndida e inocente de que a hist\u00f3ria e a literatura nos d\u00e3o o exemplo em Ruth, Virg\u00ednia e Of\u00e9lia; a pureza exterior denunciava a pureza interior; lia-se-lhe na alma atrav\u00e9s dos olhos l\u00edmpidos e sinceros; uma sensibilidade sem pieguices, uma mod\u00e9stia sem afeta\u00e7\u00e3o, tudo o que a natureza, que ainda se n\u00e3o perverteu, pode oferecer ao cora\u00e7\u00e3o e aos olhos de um poeta, tudo existia na amada do poeta Daniel.<\/p>\n<p>Se aquelas duas exist\u00eancias se unissem logo, se consolidassem desde o princ\u00edpio o sentimento que por tanto tempo os estremeceu, era certo que a mais perfeita uni\u00e3o moral os levaria at\u00e9 os mais longos anos, sem perturba\u00e7\u00e3o de natureza alguma.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi poss\u00edvel isto. As fortunas eram desiguais, mesmo muito desiguais, visto como se Francisca possu\u00eda um dote quase principesco, Daniel possu\u00eda apenas o cora\u00e7\u00e3o, o talento e a virtude, tr\u00eas unidades sem valor em mat\u00e9rias matrimoniais.<\/p>\n<p>O pai de Francisca op\u00f4s logo a obje\u00e7\u00e3o da fortuna ao amor da pobre menina, e esta comunicou as palavras do pai a Daniel. Foi uma noite de l\u00e1grimas. A id\u00e9ia de fugirem para um ermo em que pudessem viver livres das peias sociais veio-lhes ao esp\u00edrito, sem que nem um nem outro a comunicasse, tal era o fundo honesto dos seus cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Daniel entrou em casa com o cora\u00e7\u00e3o apertado e as l\u00e1grimas a saltarem dos olhos. Murchou-se logo a primeira ilus\u00e3o, a ilus\u00e3o de que todos os homens se guiam unicamente pelos princ\u00edpios dos sentimentos puros e das id\u00e9ias generosas. Era a primeira vez que ele se achava diante do homem pr\u00e1tico, do homem-coisa, do homem-dinheiro, do homem-humanidade. At\u00e9 ent\u00e3o vivera nas regi\u00f5es ideais das quimeras e dos sonhos. N\u00e3o cuidava que o mundo estivesse fora dali. Mas o pobre Daniel pagou caro esta primeira descoberta.<\/p>\n<p>Que fazer? Daniel, n\u00e3o esperando atra\u00ed-lo a si, julgou dever sacrificar-se ao mundo. Era preciso fazer fortuna; decidiu-se a procurar um meio de faz\u00ea-la. Para isso dirigiu-se ao pai de Francisca; disse-lhe que amava a mo\u00e7a; que desejava unir-se a ela; que n\u00e3o tinha fortuna; mas que jurava arranj\u00e1-la dentro de algum tempo. E exigiu a promessa formal do velho.<\/p>\n<p>O velho, que era homem pr\u00e1tico, n\u00e3o fez promessa alguma, e limitou-se a dizer que, se Francisca estivesse solteira quando ele aparecesse a pedi-la dava-lhe sem condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nisto separaram-se.<\/p>\n<p>Daniel partiu para Minas Gerais.<\/p>\n<p>Eu devia dizer desde o come\u00e7o que ambos moravam no Rio de Janeiro, onde nasceu e cresceu o amor de Daniel e Francisca.<\/p>\n<p>Daniel encontrou um parente afastado a quem contou as suas infelicidades e as suas resolu\u00e7\u00f5es. O parente prop\u00f4s-lhe irem ambos a Minas e prometeu-lhe adquirir uma fortuna regular dentro de pouco tempo, em vista das vantagens excepcionais e extraordin\u00e1rias que lhe oferecia.<\/p>\n<p>Daniel e o parente partiram; este para novas excurs\u00f5es, aquele para adquirir a \u00faltima qualidade que lhe faltava a fim de unir-se a Francisca.<\/p>\n<p>Daniel despediu-se de Francisca e da musa. Houve para ambas as entrevistas de despedida, a escada de seda, e a calhandra de Romeu. A ambas deu o mo\u00e7o l\u00e1grimas de verdadeira dor; mas era necess\u00e1rio, para depois goz\u00e1-las melhor, abandon\u00e1-las por algum tempo, como lastro inc\u00f4modo de viagem.<\/p>\n<p>Decorreram seis anos.<\/p>\n<p>No fim desse prazo Daniel, que ent\u00e3o contava vinte e cinco anos, voltava de Minas, senhor de uma fortuna regular e \u00e0 frente de um estabelecimento que lhe prometia muito mais.<\/p>\n<p>O parente tinha morrido e deixara-lhe todas as suas posses.<\/p>\n<p>Dois meses antes tinham cessado as demoradas e sempre interrompidas rela\u00e7\u00f5es que conservara com Francisca. Como estivesse afeito a esses sil\u00eancios longos n\u00e3o reparou em nada e preparou-se a causar a Francisca a mais deliciosa das surpresas.<\/p>\n<p>Se o tempo, se o g\u00eanero de vida, se as contrariedades tinham produzido em Daniel algum esquecimento pela poesia, nada alterou no que dizia respeito ao amor por Francisca. Era o mesmo amor, t\u00e3o vivo como nos primeiros tempos, agora mais ainda, com a id\u00e9ia de que se curvavam os desejos de ambos.<\/p>\n<p>Chegando ao Rio de Janeiro n\u00e3o quis ir logo \u00e0 casa de Francisca. Julgou que primeiro devia informar-se dela, da afei\u00e7\u00e3o que ela parecia ter por ele, enfim saber se era digna do amor que resistira ao tempo e \u00e0 dist\u00e2ncia e que fora o sacrif\u00edcio dos dons de Deus.<\/p>\n<p>Ora, ao entrar para o hotel em que pretendia ficar durante os primeiros dias, saiu-lhe ao encontro uma fisionomia conhecida.<\/p>\n<p>\u2014 C\u00e9sar! exclamou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Daniel! exclamou C\u00e9sar.<\/p>\n<p>E depois dos abra\u00e7os e das primeiras perguntas, C\u00e9sar convidou Daniel a tomar parte em um almo\u00e7o que alguns amigos lhe ofereciam, em a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pela nomea\u00e7\u00e3o de C\u00e9sar para um cargo administrativo.<\/p>\n<p>Daniel aceitou, foi apresentado, e a mais \u00edntima confabula\u00e7\u00e3o travou-se entre todos os convivas.<\/p>\n<p>Quando o almo\u00e7o se terminou e todos os convivas se separaram, Daniel e C\u00e9sar ficaram s\u00f3s e subiram ao aposento que Daniel tinha mandado preparar.<\/p>\n<p>C\u00e9sar foi quem falou em primeiro lugar.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, n\u00e3o me dir\u00e1s, agora que estamos a s\u00f3s, que motivo te levou da corte e onde estiveste durante estes seis anos?<\/p>\n<p>\u2014 Estive em Minas Gerais.<\/p>\n<p>\u2014 Fizeste fortuna, pelo que vejo?<\/p>\n<p>\u2014 Alguma.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que motivo?<\/p>\n<p>\u2014 O motivo foi um motivo de amor.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Amava uma rapariga com quem n\u00e3o consentiram que eu casasse sem possuir fortuna&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E tu?<\/p>\n<p>\u2014 Sacrifiquei a musa da poesia \u00e0 musa da ind\u00fastria. Fui desencavar a ap\u00f3lice mais valiosa do meu cora\u00e7\u00e3o, e aqui estou pronto para entrar no templo da felicidade.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 essa feliz criatura?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! isso depois&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tens receio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 do meu conhecimento?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, que eu saiba.<\/p>\n<p>\u2014 Deus te fa\u00e7a feliz, meu poeta.<\/p>\n<p>\u2014 Am\u00e9m. E tu?<\/p>\n<p>\u2014 Eu estou casado.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade; casado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s feliz?<\/p>\n<p>\u2014 Acredito.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o afirmas?<\/p>\n<p>\u2014 Acredito que sou; quem pode afirmar coisa alguma?<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o de C\u00e9sar fez cismar Daniel. Quem pode afirmar coisa alguma? repetia o ex-poeta mentalmente.<\/p>\n<p>\u2014 Moro na rua de&#8230; Vai l\u00e1 ter amanh\u00e3, sim?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; mas na primeira ocasi\u00e3o conta comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Estou quase sempre em casa. Toma.<\/p>\n<p>E tirando um bilhete de visita em que havia o nome, a rua e o n\u00famero da casa, entregou-o a Daniel.<\/p>\n<p>Feito o que, separaram-se.<\/p>\n<p>Daniel ficou s\u00f3. Tratou de saber de alguns amigos e conhecidos antigos not\u00edcias de Francisca, e foi procur\u00e1-los. Quis a fatalidade que os n\u00e3o encontrasse. Nisso gastou a noite e o dia seguinte. Enfim, resolveu-se a ir procurar Francisca e aparecer-lhe como a felicidade t\u00e3o longamente esperada e agora realizada e viva.<\/p>\n<p>Em caminho fez e desfez mil projetos acerca do modo por que havia de aparecer \u00e0 amada do seu cora\u00e7\u00e3o. Nessas reflex\u00f5es ia aborrecido, caminhando ao acaso, como movido por uma mola estranha.<\/p>\n<p>No meio de um desses planos levantou os olhos e viu debru\u00e7ada na grade de uma janela&#8230; quem? Francisca, a linda Francisca, por amor de quem fora tantas l\u00e9guas distante, comer o p\u00e3o suado do trabalho e da fadiga.<\/p>\n<p>Soltou um pequeno grito. A mo\u00e7a, que at\u00e9 ent\u00e3o fixava nele os olhos, como procurando reconhec\u00ea-lo, soltou outro grito e entrou.<\/p>\n<p>Daniel, comovido e \u00e9brio de felicidade, apressou o passo incerto e entrou no corredor da casa em que vira Francisca.<\/p>\n<p>A casa n\u00e3o era a mesma, e o criado que servia de porteiro n\u00e3o era o mesmo que outrora patrocinava o amor de ambos. Mas Daniel pouco reparou nisso; subiu as escadas e s\u00f3 parou no patamar.<\/p>\n<p>A\u00ed descansou. Estava ofegante e ansiado. N\u00e3o quis bater palmas; esperou que se lhe abrisse a porta. Da\u00ed a alguns minutos vieram abrir-lhe, e Daniel entrou na sala, onde n\u00e3o havia ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Sentou-se e esperou.<\/p>\n<p>Esperou um quarto de hora.<\/p>\n<p>Cada minuto deste quarto de hora parecia-lhe um s\u00e9culo, tanta era a sede de tornar a ver aquela que at\u00e9 ali tinha feito palpitar o seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No fim do quarto de hora sentiu rumor de passos no corredor. Sup\u00f4s que fosse o pai de Francisca e procurou acalmar-se de modo a dar confian\u00e7a ao velho pr\u00e1tico. Mas enganou-se; um rumor de sedas, mais distante, fez-lhe crer que era Francisca. Abriu-se a porta: era Francisca.<\/p>\n<p>Era Francisca?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m o dissera.<\/p>\n<p>Era a est\u00e1tua do sofrimento animada, via-se que uma dor latente mas devoradora consumia aquela exist\u00eancia malfadada. Um tra\u00e7o azul, mas levemente acinzado, circulava os belos olhos que, se ainda conservavam algum fogo, era o fogo de uma febre cont\u00ednua. Tinha emagrecido. Ainda assim era po\u00e9tica, de outra poesia, \u00e9 certo, que n\u00e3o a poesia virginal dos primeiros anos, po\u00e9tica daquela poesia que influi e domina os esp\u00edritos superiores.<\/p>\n<p>Daniel recuou um passo diante da mulher transformada que lhe aparecia. Depois, o movimento natural foi abrir-lhe os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Francisca hesitou; depois cedendo a uma for\u00e7a interior abra\u00e7ou Daniel. Breve amplexo a que a mo\u00e7a se esquivou com um esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Depois convidou Daniel a sentar-se. Indagou da sa\u00fade e do resultado dos seus trabalhos. Quando Daniel contou-lhe tudo o que sofrera para chegar a conseguir alguma coisa e colocar-se na situa\u00e7\u00e3o de aspirar-lhe \u00e0 m\u00e3o, Francisca levou o len\u00e7o aos olhos e enxugou duas l\u00e1grimas, duas apenas, mas ardentes como lavas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas enfim&#8230; disse Daniel.<\/p>\n<p>Francisca interrompeu-o:<\/p>\n<p>\u2014 Daniel, o nosso casamento \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>\u2014 Eu estou casada!<\/p>\n<p>\u2014 Casada!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade&#8230;<\/p>\n<p>Seguiram-se longos minutos de sil\u00eancio. Francisca tinha os olhos baixos; Daniel olhava fixamente para a mo\u00e7a a ver se tinha diante de si um monstro ou uma v\u00edtima.<\/p>\n<p>Depois, levantou-se e tomando o chap\u00e9u, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Adeus!<\/p>\n<p>A mo\u00e7a levantou os olhos para Daniel e disse-lhe timidamente:<\/p>\n<p>\u2014 Sem uma explica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Que explica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o me acuse! fui violentada. Meu pai desejou casar-me apenas apareceu um bom partido. Chorei, roguei, implorei. Tudo foi em v\u00e3o. Fez-me casar. Oh! se soubesse como tenho sofrido!<\/p>\n<p>Daniel olhou de novo para Francisca, perscrutando se era verdade o que ela dizia ou fingimento.<\/p>\n<p>Francisca era sincera.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Casei-me: meu marido era bom; mas eu n\u00e3o o amava; hoje mal o estimo; e ainda assim \u00e9 por mim. Vendo que eu n\u00e3o correspondia com um amor igual ao seu tornou-se frio e reservado. Mas nem isso reparo; procurei esquecer o amor imposs\u00edvel que eu trazia comigo e n\u00e3o pude. N\u00e3o me v\u00ea magra? Acredita que o esteja por efeito de arte?<\/p>\n<p>Daniel sentou-se de novo e tapou o rosto com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>O primeiro movimento da mo\u00e7a foi arrancar-lhe as m\u00e3os do rosto e anim\u00e1-lo com uma palavra de afei\u00e7\u00e3o. Mas a id\u00e9ia do dever apresentou-se-lhe ao esp\u00edrito; Francisca p\u00f4de conter-se. Era j\u00e1 muito o que dissera. A mo\u00e7a amara ardentemente Daniel; agora mesmo ela sentia que se lhe abriam no cora\u00e7\u00e3o, com o frescor primitivo, as flores c\u00e2ndidas do antigo amor. Mas Francisca podia sofrer no interior; n\u00e3o era escrava das paix\u00f5es ao ponto de esquecer as leis do dever. Ora, o dever fazia de Daniel naquele momento um homem estranho.<\/p>\n<p>Daniel levantou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus! murmurou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>E Daniel com passo lento e incerto dirigiu-se para a porta. Francisca acompanhava-o com um \u00faltimo olhar, comprimindo o cora\u00e7\u00e3o. Sentiu-se o rumor de passos de quem subia a escada.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 meu marido, disse Francisca levantando-se.<\/p>\n<p>\u2014 Direi que sou um amigo de seu pai que estava fora e que vim visit\u00e1-la.<\/p>\n<p>Abriu-se a porta e C\u00e9sar entrou.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! j\u00e1 c\u00e1 est\u00e1s! disse C\u00e9sar a Daniel.<\/p>\n<p>Daniel estava surpreso; come\u00e7ava a adquirir sangue frio para engendrar a resposta ao marido de Francisca, que supunha n\u00e3o conhecer, e em vez de um estranho, aparece-lhe o velho amigo em quem ele nunca pensara para marido de Francisca.<\/p>\n<p>C\u00e9sar continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom; n\u00e3o precisa ir j\u00e1 embora. Senta-te, descansa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tinha que fazer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-te disso.<\/p>\n<p>E tomando o chap\u00e9u a Daniel f\u00ea-lo sentar de novo.<\/p>\n<p>\u2014 Conhecias minha mulher?<\/p>\n<p>\u2014 Conhecia, disse Daniel depois de hesitar e consultando o olhar de Francisca.<\/p>\n<p>Esta acrescentou:<\/p>\n<p>\u2014 O sr. Daniel ia l\u00e1 em casa de meu pai,<\/p>\n<p>\u2014 Conhecias um anjo, disse C\u00e9sar.<\/p>\n<p>Daniel n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>Francisca sorria tristemente. \u2014<\/p>\n<p>Pois meu caro Daniel, acrescentou C\u00e9sar, \u00e9 aqui a nossa casa. Olha que eu falo assim com todo o cora\u00e7\u00e3o. Digo nossa porque espero que a antiga amizade subsistir\u00e1 como antes. Ah! sabes, meu amor, disse C\u00e9sar voltando-se para Francisca, sabes que Daniel foi a Minas buscar o meio de&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 segredo, interrompeu Daniel que receava as palavras de C\u00e9sar pelo que elas poderiam produzir em Francisca.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 segredo?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! ent\u00e3o&#8230; Mas, enfim, o que eu posso dizer \u00e9 que procedeste como um her\u00f3i. Ah! meu poeta, eu devia contar com isto; sempre tiveste queda para as id\u00e9ias generosas e os lances elevados. Deus te fa\u00e7a feliz!<\/p>\n<p>A conversa continuou assim: C\u00e9sar, na plena ignor\u00e2ncia das coisas, era familiar e folgaz\u00e3o; Daniel, apesar dos sentimentos contr\u00e1rios que lhe enchiam o cora\u00e7\u00e3o, procurava conversar com o marido de Francisca de modo a n\u00e3o inspirar-lhe suspeitas que pudessem amargar-lhe a paz dom\u00e9stica; a mo\u00e7a falava o menos que podia e mantinha-se no sil\u00eancio habitual.<\/p>\n<p>\u00c0 despedida de Daniel, que foi dali a uns vinte minutos, C\u00e9sar instou com ele para que voltasse amiudamente. Daniel n\u00e3o podia sen\u00e3o prometer: prometeu.<\/p>\n<p>E saiu.<\/p>\n<p>O caminho para o hotel em que morava foi para Daniel uma via dolorosa. J\u00e1 livre das conveni\u00eancias que o obrigavam a disfar\u00e7ar, podia agora dar largas ao pensamento e revolver na mem\u00f3ria o amor, as esperan\u00e7as, os trabalhos e o triste resultado de seus esfor\u00e7os malfadados.<\/p>\n<p>Caminhava sem saber como; ia ao sabor do acaso, inteiramente ermo no meio da multid\u00e3o; a outra de Xavier de Maistre era a \u00fanica parte de Daniel que vivia e funcionava; o resto seguia em passo autom\u00e1tico, distra\u00eddo e incerto.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo descrever a extens\u00e3o e o efeito das dores morais que dentro de pouco tempo acabrunharam Daniel. Concebe-se que a situa\u00e7\u00e3o do rapaz era angustiosa e aflitiva. Assim como era apto para as grandes paix\u00f5es era apto para as grandes dores; e \u00e0s que sofreu com os \u00faltimos desenganos n\u00e3o resistiu; adoeceu gravemente.<\/p>\n<p>Quinze dias esteve entre a vida e a morte, com desespero dos m\u00e9dicos, que aplicaram tudo o que a ci\u00eancia podia oferecer para salvar o enfermo. Desses quinze dias, dez foram de completo del\u00edrio.<\/p>\n<p>Entre os poucos amigos que ainda viera encontrar, e que o visitavam a mi\u00fado no leito da dor, C\u00e9sar era um dos mais ass\u00edduos e zelosos.<\/p>\n<p>Mais de uma noite C\u00e9sar deixou-se ficar velando junto ao leito do amigo; e quando voltava \u00e0 casa para descansar, e Francisca, com um interesse a que podia dar uma explica\u00e7\u00e3o veross\u00edmil, indagava do estado de Daniel, C\u00e9sar respondia em voz dolorida:<\/p>\n<p>\u2014 O rapaz est\u00e1 cada vez pior. Creio que se vai! &#8230;<\/p>\n<p>Francisca ouvia estas palavras, achava pretexto para retirar-se e ia derramar algumas l\u00e1grimas furtivas.<\/p>\n<p>Em uma das noites que C\u00e9sar escolheu para velar junto a Daniel, este, que dormia a espa\u00e7os, e que nas horas de vig\u00edlia falava sempre em del\u00edrio, pronunciou o nome de Francisca.<\/p>\n<p>C\u00e9sar estava na outra extremidade do quarto lendo para matar o tempo. Ouviu o nome de Francisca. Voltou-se para o leito. Daniel continuou a pronunciar o mesmo nome com voz lamentosa. Que tinha aquele nome? Mas o esp\u00edrito de C\u00e9sar uma vez despertado n\u00e3o se deteve. Lembrou-lhe a cena do encontro em casa com Daniel; o enleio de ambos em sua presen\u00e7a. Tudo isso inspirou-lhe uma suspeita. Largou o livro e aproximou-se da cama.<\/p>\n<p>Daniel continuava a falar, mas ent\u00e3o acrescentou algumas frases, alguns pormenores que deixaram no esp\u00edrito de C\u00e9sar, n\u00e3o d\u00favida, mas certeza de que algum la\u00e7o anterior prendia Francisca a Daniel.<\/p>\n<p>Esta noite foi a \u00faltima noite de del\u00edrio de Daniel.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, ainda o doente dormia, quando C\u00e9sar se retirou para casa.<\/p>\n<p>Francisca n\u00e3o dormira igualmente a noite inteira. Velara junto de um crucifixo a orar pela salva\u00e7\u00e3o de Daniel.<\/p>\n<p>C\u00e9sar entrou sombrio e angustiado. Francisca fez-lhe a pergunta do costume sobre o estado do rapaz; C\u00e9sar disse-lhe que estava melhor, mas com tal sequid\u00e3o que fez estremecer a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois do que recolheu-se ao quarto.<\/p>\n<p>Entretanto, Daniel restabeleceu-se completamente, e, depois da convalescen\u00e7a, a primeira visita que fez foi a C\u00e9sar, de cujos cuidados e priva\u00e7\u00f5es teve exata not\u00edcia.<\/p>\n<p>Do \u00faltimo dia do del\u00edrio at\u00e9 o dia em que saiu, C\u00e9sar apenas foi l\u00e1 duas vezes. Daniel dirigiu-lhe palavras de sincero reconhecimento.<\/p>\n<p>C\u00e9sar aceitou-as com sentimento de verdadeira amizade. Teriam as suas suspeitas desaparecido? N\u00e3o; aumentavam-se pelo contr\u00e1rio. Suspeitas dolorosas, visto como o estado de Francisca era cada vez mais pr\u00f3prio a fazer crer que, se amor houvera entre ela e Daniel, esse amor n\u00e3o havia desaparecido, antes existia na mesma propor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil de compreender uma situa\u00e7\u00e3o como esta; receber, em troca do seu amor de marido, uma afei\u00e7\u00e3o de esmola, possuir o vaso sem possuir o perfume, esta situa\u00e7\u00e3o, todos compreendem, era dolorosa para C\u00e9sar.<\/p>\n<p>C\u00e9sar via bem que o amor de Francisca e Daniel devia ter sido anterior ao casamento da primeira; mas esse amor unia Francisca e Daniel, a mulher e o amigo, duas partes de si, a quem ele voltava, na medida pr\u00f3pria, os afetos do seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>C\u00e9sar desejava que fosse outro o rival. Teria a satisfa\u00e7\u00e3o de ir direito a ele e exigir-lhe a posse inteira de um cora\u00e7\u00e3o que ambicionava e que por honra sua devia possuir todo. Mas Daniel, mas o amigo, mas o homem honrado, com que palavras, com que gestos, reclamaria o marido despojado a posse do cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a?<\/p>\n<p>E bastaria reclamar? Oprimir n\u00e3o seria atear? A dist\u00e2ncia mataria aquele amor que resistira \u00e0 dist\u00e2ncia? O tempo mataria aquele amor que resistira ao tempo? O esp\u00edrito de C\u00e9sar oscilava entre as duas correntes de id\u00e9ias e de sentimentos; queria e n\u00e3o podia, podia e n\u00e3o queria; a honra, o amor, a amizade, o orgulho, tudo lutava naquele cora\u00e7\u00e3o, sem que o infeliz esposo enxergasse ao longe um meio de tudo conciliar.<\/p>\n<p>Daniel n\u00e3o suspeitava o que ia no esp\u00edrito do amigo. Fora-lhe mesmo dif\u00edcil, \u00e0 vista da alegria que este manifestava mal se encontravam, alegria igual \u00e0 do passado e que mostrava a medida em que C\u00e9sar possu\u00eda a triste hipocrisia da dor e do infort\u00fanio.<\/p>\n<p>Daniel resolveu ir visitar C\u00e9sar em casa. Era talvez a \u00faltima ou pen\u00faltima visita. Desenganado da sorte n\u00e3o lhe restava mais do que ativar o esp\u00edrito a fim de esquecer o cora\u00e7\u00e3o. O meio era partir logo para Minas, onde a aplica\u00e7\u00e3o dos seus cuidados ao g\u00eanero de vida que abra\u00e7ara por seis anos podia produzir nele algum resultado ben\u00e9fico.<\/p>\n<p>Preparou-se e saiu em dire\u00e7\u00e3o da casa de C\u00e9sar. Daniel escolheu de prop\u00f3sito a hora em que era certo encontr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Quis o destino que exatamente a essa hora C\u00e9sar estivesse fora de casa.<\/p>\n<p>Quem lhe deu esta not\u00edcia foi Francisca, que, pela primeira vez depois da mol\u00e9stia, via Daniel.<\/p>\n<p>Francisca n\u00e3o p\u00f4de conter uma pequena exclama\u00e7\u00e3o vendo as fei\u00e7\u00f5es mudadas, a magreza e a palidez do mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Daniel, quando soube que C\u00e9sar estava fora, ficou inteiramente contrariado. N\u00e3o desejava encontrar-se a s\u00f3s com a mulher que fora causa involunt\u00e1ria dos seus males. Tinha medo do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, onde o culto do amor antigo era ainda um princ\u00edpio de vida e uma esperan\u00e7a de conforto.<\/p>\n<p>Francisca, que durante os longos dias da mol\u00e9stia de Daniel padecera de uma longa febre moral, n\u00e3o p\u00f4de dissimular a satisfa\u00e7\u00e3o que lhe causava a presen\u00e7a do convalescente.<\/p>\n<p>Todavia, por mais vivos que fossem os sentimentos que os ligavam, as duas criaturas davam o exemplo daquela verdade t\u00e3o ludibriada em certas p\u00e1ginas \u2014 de que as paix\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o onipotentes, mas que s\u00f3 tiram for\u00e7a das fraquezas do cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Ora, no cora\u00e7\u00e3o de ambos havia o sentimento do dever, e ambos coraram do enleio em que ficaram em face do outro.<\/p>\n<p>Ambos compreendiam que, por mais dolorosa que lhes parecesse a situa\u00e7\u00e3o em que os colocara o c\u00e1lculo e o erro, era-lhes dever de honra curvar a cabe\u00e7a e procurar na resigna\u00e7\u00e3o passiva a consola\u00e7\u00e3o da m\u00e1goa e do mart\u00edrio.<\/p>\n<p>E nem era s\u00f3 isto; para Francisca, ao menos. N\u00e3o devia s\u00f3 respeitar seu marido, devia am\u00e1-lo, am\u00e1-lo por eq\u00fcidade e por dever. Ao passo que lhe pagava o profundo afeto que ele lhe tinha, consagrava ao chefe da fam\u00edlia aquele respeitoso afeto a que ele tinha direito.<\/p>\n<p>Era isto o que ambos compreendiam, Daniel com mais convic\u00e7\u00e3o ainda, o que era natural sentimento em uma alma generosa como a sua. Isto \u00e9 que ele julgava dizer \u00e0 sua amada, antes de separar-se dela para sempre.<\/p>\n<p>Nesta situa\u00e7\u00e3o de \u00e2nimos encontraram-se os dois. Depois das primeiras interroga\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da ocasi\u00e3o e que ambos procuraram tornar o mais indiferentes que podiam, Daniel declarou a Francisca que voltava para Minas.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 preciso, acrescentou ele, somos estranhos um para o outro: n\u00e3o devo v\u00ea-la, n\u00e3o deve ver-me.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, murmurou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7o que se compenetre bem da posi\u00e7\u00e3o que assumiu perante a sociedade. \u00c9 esposa, amanh\u00e3 ser\u00e1 m\u00e3e de fam\u00edlia; nem uma nem outra tem que ver com as fantasias do tempo de donzela, por mais legitimas e poderosas que elas sejam. Ame seu marido&#8230;<\/p>\n<p>Francisca suspirou.<\/p>\n<p>\u2014 Ame-o, continuou Daniel; \u00e9 dever seu e h\u00e1 de vir a ser mais tarde um ato espont\u00e2neo. A dedica\u00e7\u00e3o, o amor, o respeito com que procura conquistar o cora\u00e7\u00e3o de sua esposa devem merecer-lhe da sua parte, n\u00e3o a indiferen\u00e7a, mas uma justa retribui\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bem sei, dizia Francisca. E cuida que n\u00e3o procuro faz\u00ea-lo? Ele \u00e9 t\u00e3o bom! procura tanto fazer-me feliz&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quanto a mim, disse Daniel, vou-me, adeus.<\/p>\n<p>E levantou-se.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1? perguntou Francisca.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a \u00faltima vez que nos falamos.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus!<\/p>\n<p>\u2014 Adeus!<\/p>\n<p>Este adeus foi dito com uma ternura criminosa, mas era o \u00faltimo, e aquelas duas criaturas, cujo cons\u00f3rcio moral estava roto, sentiam bem que se podiam elevar e consolar pelo respeito rec\u00edproco e pelo afeto ao esposo e ao amigo cuja honra cada qual tomava por preceito respeitar.<\/p>\n<p>O que \u00e9 certo \u00e9 que da\u00ed a dois dias Daniel partia para Minas para nunca mais voltar.<\/p>\n<p>C\u00e9sar foi acompanh\u00e1-lo at\u00e9 certa dist\u00e2ncia. O ato do amigo dissipara-lhe os \u00faltimos ressentimentos. Fosse o que fosse, Daniel era um homem que sabia cumprir o seu dever.<\/p>\n<p>Mas qual era a situa\u00e7\u00e3o do casal? C\u00e9sar pensou nisto e achou-se fraco para afrontar as dores e os dissabores que lhe traria esta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os primeiros dias passaram-se sem not\u00e1vel incidente. C\u00e9sar mais enleado, Francisca mais melanc\u00f3lica, viviam os dois em tal estranheza que faria desesperar finalmente a C\u00e9sar, se lhe n\u00e3o ocorresse uma id\u00e9ia.<\/p>\n<p>C\u00e9sar entendeu que a sua frieza calculada n\u00e3o seria um meio de concilia\u00e7\u00e3o. Um dia resolveu depor a m\u00e1scara e mostrar-se o que era, marido dedicado, amante extremoso, isto \u00e9, o que era no fundo, quando o cora\u00e7\u00e3o de Francisca, enganado por algumas ilus\u00f5es luminosas, cuidava ainda em p\u00f4r na volta do antigo amor uma esperan\u00e7a indiscreta e mal fundada.<\/p>\n<p>Francisca, ao principio, recebeu com a habitual indiferen\u00e7a as demonstra\u00e7\u00f5es de afeto de seu marido; mais tarde, ao passo que o desengano lhe cicatrizava a ferida do cora\u00e7\u00e3o, o sorriso aparecia-lhe nos l\u00e1bios, ainda como uma r\u00e9stia de sol em c\u00e9u de inverno, mas j\u00e1 n\u00fancio de melhores dias.<\/p>\n<p>C\u00e9sar n\u00e3o descansava; buscava no amor o segredo de todos quantos carinhos podia empregar sem quebra da dignidade conjugal. Fugiu a todas as distra\u00e7\u00f5es e consagrou-se inteiro ao servi\u00e7o da convers\u00e3o daquela alma. Ela era boa, terna, sincera, capaz de amar e de o fazer feliz. A nuvem negra que ensombrara o c\u00e9u conjugal desaparecera, mal restavam uns restos que o vento da prosperidade atiraria para longe&#8230; Tais, eram as reflex\u00f5es de C\u00e9sar, e ele conclu\u00eda que, em vez de amea\u00e7ar e pungir, o melhor era dissipar e persuadir.<\/p>\n<p>Dia a dia a lembran\u00e7a do amor de Daniel apagava-se no esp\u00edrito de Francisca. Com a paz interna renasciam as gra\u00e7as exteriores. Francisca tornava-se outra, e neste trabalho lento de transforma\u00e7\u00e3o, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a \u00faltima ilus\u00e3o indiscreta do amor antigo deixava o cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, entrava ali a primeira ilus\u00e3o santa e leg\u00edtima do amor conjugal.<\/p>\n<p>Um dia, sem se aperceberem, C\u00e9sar e Francisca amavam-se como dois namorados que amam pela primeira vez. C\u00e9sar tinha vencido. O nome de Daniel foi pronunciado entre ambos, sem saudades por Francisca, sem ressentimento por C\u00e9sar.<\/p>\n<p>Mas que vit\u00f3ria foi esta? Quantas vezes C\u00e9sar n\u00e3o se envergonhou do trabalho da convers\u00e3o a que se aplicava todo! Parecia-lhe que se aviltava, conquistando palmo a palmo um cora\u00e7\u00e3o que cuidara receber virgem das m\u00e3os do velho pai de Francisca, e entrando nossa luta em p\u00e9 de igualdade com o amor de um estranho.<\/p>\n<p>Desta situa\u00e7\u00e3o delicada acusava ele principalmente o pai de sua esposa, a quem n\u00e3o faltou meio de tornar duas pessoas felizes, sem tornar um terceiro desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que, quando C\u00e9sar viu-se amado por Francisca, a situa\u00e7\u00e3o pareceu-lhe outra e ele agradeceu inteiramente o erro que antes acusava. Ent\u00e3o possu\u00eda a ternura, o carinho, a dedica\u00e7\u00e3o, a afei\u00e7\u00e3o sincera e decidida da mo\u00e7a. A alma de Francisca, sequiosa de amor, encontrou por fim, no lar dom\u00e9stico, o que tantas l\u00e1grimas n\u00e3o tinham podido obter.<\/p>\n<p>Dizer que este casal viveu feliz durante o resto de sua vida, \u00e9 repetir um chav\u00e3o de todas as novelas, mas enfim, \u00e9 dizer a verdade.<\/p>\n<p>E eu acrescentarei uma prova, pela qual se ver\u00e1 tamb\u00e9m uma coisa dif\u00edcil de acreditar.<\/p>\n<p>Anos depois das ligeiras cenas que narrei, Daniel voltou ao Rio e encontrou-se de novo com C\u00e9sar e Francisca.<\/p>\n<p>Sinto n\u00e3o poder conservar ao jovem poeta o car\u00e1ter elevado e pol\u00edtico; mas n\u00e3o me posso furtar a dizer que Daniel sofrera a a\u00e7\u00e3o do tempo e do contacto dos homens. O tempo f\u00ea-lo sair daquela esfera ideal em que o colocara o g\u00eanio da mocidade e o amor de Francisca; o contacto dos homens completou a transforma\u00e7\u00e3o; Daniel, sob a influ\u00eancia de outros tempos, outras circunst\u00e2ncias, e outras rela\u00e7\u00f5es, mudou de fei\u00e7\u00e3o moral. Voltando ao lugar do id\u00edlio e da cat\u00e1strofe do seu cora\u00e7\u00e3o, trouxe dentro de si novos sentimentos. Certa vaidade, certa altivez davam-lhe outro ar, outras maneiras, outro modo de ver as coisas e tratar os homens.<\/p>\n<p>Bem sei que seria melhor para o leitor que aprecia as ilus\u00f5es do romance, fazer acabar o meu her\u00f3i no meio de uma tempestade, lan\u00e7ando ao mundo a \u00faltima impreca\u00e7\u00e3o e ao c\u00e9u o \u00faltimo suspiro do seu g\u00eanio.<\/p>\n<p>Isto seria mais bonito e seria menos verdadeiro.<\/p>\n<p>Mas o que se d\u00e1 com o nosso Daniel \u00e9 coisa inteiramente oposta, e eu prefiro contar a verdade a lisonjear o gosto po\u00e9tico dos leitores.<\/p>\n<p>No tempo em que Daniel voltou ao Rio, Francisca estava ent\u00e3o no esplendor da beleza: perdera o aspecto virginal dos primeiros tempos; era agora a mulher completa, sedutora, embriagadora.<\/p>\n<p>Daniel sentiu renascer-lhe o amor de outro tempo, ou antes sentiu nascer-lhe um novo amor, diverso do antigo, e n\u00e3o atendeu \u00e0s d\u00favidas que um dedo de raz\u00e3o lhe sugeria.<\/p>\n<p>A vaidade e os sentidos o perderam.<\/p>\n<p>De volta de um baile, em que Daniel estivera, disse Francisca a C\u00e9sar:<\/p>\n<p>\u2014 Sabes que tenho um namorado?<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Daniel.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 L\u00ea este bilhete.<\/p>\n<p>Francisca deu a C\u00e9sar um bilhete. C\u00e9sar leu-o para si. Daniel at\u00e9 perdera a qualidade de poeta; o estilo ressentia-se das transforma\u00e7\u00f5es morais.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 engra\u00e7ado, disse C\u00e9sar. Que dizes a isto?<\/p>\n<p>\u2014 Digo que \u00e9 um tolo.<\/p>\n<p>\u2014 Quem?<\/p>\n<p>\u2014 Ele. Olha, creio que o melhor destino que podemos dar a este bilhete \u00e9 reduzi-lo a p\u00f3. N\u00e3o est\u00e3o reduzidas a isto as minhas fantasias de donzela e os seus ressentimentos de marido?<\/p>\n<p>Francisca, dizendo estas palavras, tomou o bilhete da m\u00e3o de C\u00e9sar, e aproximou-o da vela.<\/p>\n<p>\u2014 Espera, disse C\u00e9sar segurando-lhe no bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9?<\/p>\n<p>O olhar de Francisca era t\u00e3o seguro, t\u00e3o sincero e tamb\u00e9m t\u00e3o cheio de exprobra\u00e7\u00e3o, que C\u00e9sar curvou a cabe\u00e7a, largou o bra\u00e7o, sorriu e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Queima.<\/p>\n<p>Francisca aproximou o bilhete da luz e s\u00f3 atirou-o ao ch\u00e3o quando a chama aproximava-se dos dedos.<\/p>\n<p>Depois dirigindo-se a C\u00e9sar, tomou-lhe as m\u00e3os e disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Acreditaste acaso que n\u00e3o seja imenso o meu desprezo por aquele homem? Amei-o em solteira; era um poeta; agora desprezo-o, \u00e9, um homem vulgar. Mas nem \u00e9 j\u00e1 a sua vulgaridade que me d\u00e1 esse desprezo: \u00e9 porque te amo. Era de amor que eu precisava, puro, sincero, dedicado, completo. Que outro melhor ideal?<\/p>\n<p>A resposta de C\u00e9sar foi um beijo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, \u00e0s dez horas da manh\u00e3, anunciou-se a chegada de Daniel.<\/p>\n<p>C\u00e9sar ia mand\u00e1-lo entrar; Francisca interrompeu seu marido e disse ao escravo que dissesse estar a casa vazia.<\/p>\n<p>\u2014 Que fazes? disse C\u00e9sar.<\/p>\n<p>Amo-te, respondeu Francisca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1867 O poeta Daniel amava em Francisca tudo: o cora\u00e7\u00e3o, a beleza, a mocidade, a inoc\u00eancia e at\u00e9 o nome. At\u00e9 o nome! De mim digo que acho raz\u00e3o em Daniel. N\u00e3o julguemos este nome de Francisca pelo uso e abuso que dele se faz; mas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-116159","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Francisca, Machado de Assis, Francisca<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Francisca, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Francisca\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" 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