{"id":116157,"date":"2017-03-28T18:26:58","date_gmt":"2017-03-28T20:26:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116157"},"modified":"2017-03-28T18:26:58","modified_gmt":"2017-03-28T20:26:58","slug":"folha-rota","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/folha-rota","title":{"rendered":"Folha Rota"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Tinham dado ave-marias; a sr\u00aa D. Ana Cust\u00f3dia saiu para ir levar umas costuras \u00e0 loja que era na Rua do Hosp\u00edcio. Pegou das costuras, entrouxou-as, p\u00f4s um xale \u00e0s costas, um ros\u00e1rio ao pesco\u00e7o, deu cinco ou seis ordens \u00e0 sobrinha e caminhou para a porta.<\/p>\n<p>\u2014 Venha quem vier, n\u00e3o abras, disse ela com a m\u00e3o no ferrolho; j\u00e1 sabes o costume.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, titia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me demoro nada.<\/p>\n<p>\u2014 Venha cedo.<\/p>\n<p>\u2014 Venho, que a chuva pode cair. O c\u00e9u est\u00e1 preto.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! titia, se roncar trovoada!<\/p>\n<p>\u2014 Reza; mas eu volto j\u00e1.<\/p>\n<p>D. Ana persignou-se e saiu.<\/p>\n<p>A sobrinha fechou a r\u00f3tula, acendeu uma vela e foi sentar-se a uma mesa de costura.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa Marques tinha dezoito anos. N\u00e3o era um prod\u00edgio de beleza, mas n\u00e3o era feia; pelo contr\u00e1rio, as fei\u00e7\u00f5es eram regulares, as maneiras gentis. O olhar meigo e c\u00e2ndido. Mediana de estatura, delgada, naturalmente elegante, tinha propor\u00e7\u00f5es para vestir bem e primar pelos adornos. Infelizmente, n\u00e3o tinha adornos nem os vestidos eram bem cortados. Pobres, j\u00e1 se v\u00ea que deviam ser. Que outras cousas seriam os vestidos de uma filha de oper\u00e1rio, \u00f3rf\u00e3 de pai e m\u00e3e, condenada a coser para ajudar a sustentar a casa da tia! Era um vestido de chita grossa, cortado por ela mesma, sem arte nem inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Penteada com certo desleixo, parece que isso mesmo lhe dobrava a gra\u00e7a da fronte. Encostada \u00e0 mesa velha de trabalho, com a cabe\u00e7a inclinada sobre a costura, os dedos a correrem pela fazenda, com a agulha fina e \u00e1gil n\u00e3o excitava a admira\u00e7\u00e3o, mas despertava a simpatia.<\/p>\n<p>Logo depois de sentar-se, Lu\u00edsa ergueu-se duas vezes e foi at\u00e9 \u00e0 porta. De quando em quando levantava a cabe\u00e7a como a prestar ouvido. Continuava a coser. Se a tia chegasse ach\u00e1-la-ia a trabalhar com uma tranq\u00fcilidade verdadeiramente digna de imita\u00e7\u00e3o. E beij\u00e1-la-ia como costumava e lhe diria alguma cousa graciosa, que a menina ouviria com agradecimento.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa adorava a tia, que lhe servia de m\u00e3e e pai, que a educara desde os sete anos. Por outro lado, D. Ana Cust\u00f3dia tinha-lhe afeto verdadeiramente maternal; uma e outra n\u00e3o possu\u00edam outra fam\u00edlia. Havia certamente dous parentes mais, um correeiro, cunhado de D. Ana, e um filho deste. Mas n\u00e3o se freq\u00fcentavam; havia at\u00e9 motivos para isso.<\/p>\n<p>Vinte minutos depois de sair D. Ana, sentiu Lu\u00edsa um rumor na r\u00f3tula, como que um som leve de bengala que por ali ro\u00e7asse. Estremeceu, mas n\u00e3o se assustou. Levantou-se devagarinho, como se a tia pudesse ouvi-la e foi at\u00e9 \u00e0 r\u00f3tula.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9? disse em voz baixa.<\/p>\n<p>\u2014 Eu. Est\u00e1 c\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa abriu um poucachinho a janela, uma curta fresta. Estendeu a m\u00e3o por ela, e apertou-lha um rapaz que estava do lado de fora.<\/p>\n<p>O rapaz era alto, e se n\u00e3o fosse noite fechada podia ver-se que tinha uns bonitos olhos, sobretudo um porte airoso. Eram gra\u00e7as naturais; artificiais n\u00e3o possu\u00eda nenhuma; vestia modestamente, sem pretens\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Saiu h\u00e1 muito tempo? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 pouco.<\/p>\n<p>\u2014 Volta j\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Disse que sim. N\u00e3o podemos hoje falar muito tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Nem hoje, nem quase nunca.<\/p>\n<p>\u2014 Que quer voc\u00ea, Caetaninho? perguntou a mo\u00e7a tristemente. Eu n\u00e3o posso abusar; titia n\u00e3o gosta de me ver \u00e0 janela.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 tr\u00eas dias que te n\u00e3o vejo, Lu\u00edsa! suspirou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Eu, h\u00e1 um dia s\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Viste-me ontem?<\/p>\n<p>\u2014 Vi: quando voc\u00ea passou de tarde \u00e0s cinco horas.<\/p>\n<p>\u2014 Passei duas vezes; de tarde e de noite: sempre fechado.<\/p>\n<p>\u2014 Titia estava em casa.<\/p>\n<p>As duas m\u00e3os tornaram a encontrar-se e ficaram presas uma \u00e0 outra. Correram assim alguns minutos, tr\u00eas ou quatro.<\/p>\n<p>Caetaninho tornou a falar, a queixar-se, a gemer, a maldizer da sorte, enquanto Lu\u00edsa o consolava e confortava. Na opini\u00e3o do rapaz, n\u00e3o havia ningu\u00e9m mais infeliz do que ele.<\/p>\n<p>\u2014 Queres saber uma cousa? perguntou o namorado.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Penso que papai desconfia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Desconfia e n\u00e3o aprova.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa empalideceu.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! mas n\u00e3o faz mal! Eu s\u00f3 espero poder arranjar a minha vida; depois se queira ou n\u00e3o queira&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isso, n\u00e3o, se titio n\u00e3o aprova parece feio.<\/p>\n<p>\u2014 Desprezar-te?<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o me despreza, emendou Lu\u00edsa; mas desobedecer\u00e1 a seu pai.<\/p>\n<p>\u2014 Obedecer em tal caso, era feio da minha parte. N\u00e3o, n\u00e3o obedecerei nunca!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digas isso!<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-me arranjar a vida, ver\u00e1s: ver\u00e1s.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa estava silenciosa alguns minutos, mordendo a ponta do len\u00e7o que tinha ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que motivo \u00e9 que voc\u00ea pensa que ele desconfia?<\/p>\n<p>\u2014 Penso&#8230; suponho. Ontem soltou-me uma indireta, lan\u00e7ou-me um olhar de amea\u00e7a e fez um gesto&#8230; N\u00e3o tem d\u00favida, d\u00e1-lhe para n\u00e3o aprovar a escolha de meu cora\u00e7\u00e3o, como se eu precisasse consult\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fale assim, Caetaninho!<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o sei por que motivo ele n\u00e3o se d\u00e1 com titia! Se se dessem, tudo caminhava bem; mas \u00e9 a minha desgra\u00e7a, \u00e9 a minha desgra\u00e7a!<\/p>\n<p>Caetano, filho do correeiro, lastimou-se ainda durante uns dez minutos; e sendo j\u00e1 longo o tempo da conversa, Lu\u00edsa pediu-lhe e alcan\u00e7ou que ele se retirasse. N\u00e3o o fez o mo\u00e7o sem um novo aperto de m\u00e3o e um pedido que Lu\u00edsa recusou.<\/p>\n<p>O pedido era um&#8230; \u00f3sculo, digamos \u00f3sculo, que \u00e9 menos cru, ou mais po\u00e9tico. O rapaz pedia-o invariavelmente, e ela invariavelmente o negava.<\/p>\n<p>\u2014 Lu\u00edsa, disse ele, no fim da recusa, espero que muito breve estaremos casados.<\/p>\n<p>\u2014 Sim; mas n\u00e3o fa\u00e7a zangar seu pai.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o: farei tudo de harmonia com ele. Se recusar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7o a Nossa Senhora que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, diga voc\u00ea; se ele recusar, que devo eu fazer?<\/p>\n<p>\u2014 Esperar.<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim! Isso \u00e9 bom de dizer.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1; adeus; titia pode vir.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 breve, Lu\u00edsa!<\/p>\n<p>\u2014 Adeus!<\/p>\n<p>\u2014 Passarei amanh\u00e3; se voc\u00ea n\u00e3o puder estar \u00e0 janela, ao menos espie por dentro, sim?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>Novo aperto de m\u00e3o; dous suspiros; ele seguiu; ela fechou de todo o postigo.<\/p>\n<p>Fechado o postigo, Lu\u00edsa foi sentar-se outra vez \u00e0 mesa de costura. N\u00e3o ia alegre, como era de supor em uma mo\u00e7a que acabava de falar ao namorado; ia triste. Mergulhou toda no trabalho, ao que parece para esquecer alguma cousa ou aturdir o esp\u00edrito. Mas n\u00e3o durou muito o rem\u00e9dio. Da\u00ed a pouco tinha levantado a cabe\u00e7a e olhava fitamente o ar. Devaneava naturalmente; mas n\u00e3o eram devaneios azuis, sen\u00e3o negros, bem negros, mais negros que seus grandes olhos tristes.<\/p>\n<p>O que ela dizia consigo era que tinha duas afei\u00e7\u00f5es na vida, uma franca, a da tia, outra encoberta, a do primo; e n\u00e3o sabia se t\u00e3o cedo poderia mostr\u00e1-las juntas ao mundo. A not\u00edcia de que o tio desconfiasse alguma cousa e desaprovava talvez o amor de Caetano desconsolava-a e fazia-a tremer. Talvez fosse verdade; era poss\u00edvel que o correeiro destinasse o filho a outra. Em todo o caso as duas fam\u00edlias n\u00e3o se davam \u2014 n\u00e3o sabia Lu\u00edsa por que motivo \u2014, e este fato podia contribuir para tornar dif\u00edcil a realiza\u00e7\u00e3o de seu \u00fanico e modesto sonho. Essas id\u00e9ias, ora vagas, ora medonhas, mas sempre tingidas da cor da melancolia, abalavam seu esp\u00edrito durante alguns minutos.<\/p>\n<p>Depois veio a rea\u00e7\u00e3o; a mocidade readquiriu seus direitos; a esperan\u00e7a trouxe a sua cor viva aos sonhos de Lu\u00edsa. Ela olhou para o futuro e confiou nele. Que era um obst\u00e1culo moment\u00e2neo? Nada, se dous cora\u00e7\u00f5es se amam. E haveria esse obst\u00e1culo? Dado que houvesse, ele seria o ramo de oliveira. No dia em que o tio soubesse que o filho a amava deveras e era correspondido, n\u00e3o tinha mais do que aprovar. Talvez mesmo a fosse pedir \u00e0 tia D. Ana, que a estremecia, e receb\u00ea-lo-ia com l\u00e1grimas. O casamento seria o v\u00ednculo de todos os cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesses sonhos passaram ainda uns dez minutos. Lu\u00edsa reparou que a costura estava atrasada e voltou de novo a aten\u00e7\u00e3o para ela.<\/p>\n<p>D. Ana voltou; Lu\u00edsa foi abrir-lhe a porta, sem hesita\u00e7\u00e3o porque a tia convencionara um modo de bater, a fim de evitar surpresas de gente m\u00e1.<\/p>\n<p>Vinha um pouco amuada a velha; mas passou logo depois do beijo \u00e0 sobrinha. Trazia o dinheiro da costura que fora levar \u00e0 loja. Tirou o xale, descansou um pouco; foi ela pr\u00f3pria cuidar da ceia. Lu\u00edsa ficou cosendo algum tempo. Ergueu-se depois; preparou a mesa.<\/p>\n<p>Tomaram um pouco de mate as duas, sozinhas e silenciosas. Era raro o sil\u00eancio, porque D. Ana, sem ser palradora, estava longe de ser taciturna. Tinha a palavra alegre. Lu\u00edsa reparou naquela mudan\u00e7a e receou que a tia houvesse visto o vulto do primo de longe, e, n\u00e3o sabendo quem fosse, naturalmente ficara molestada. Seria isso? Lu\u00edsa fez esta pergunta a si mesma e sentiu corar de vergonha. Criou algumas for\u00e7as, e interrogou diretamente a tia.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem, que est\u00e1 t\u00e3o triste? perguntou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>D. Ana limitou-se a levantar os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 zangada comigo? murmurou Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>\u2014 Contigo, meu anjo? disse D. Ana apertando-lhe a m\u00e3o; n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 contigo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 com outra pessoa, concluiu a sobrinha. Posso saber quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m, ningu\u00e9m. Fujo sempre de passar pela porta do Cosme e passo por outra rua; mas por desgra\u00e7a, escapei ao pai e n\u00e3o escapei ao filho&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00edsa empalideceu.<\/p>\n<p>\u2014 Ele n\u00e3o me viu, continuou D. Ana; mas eu bem o conheci. Felizmente era noite.<\/p>\n<p>Seguiu-se um longo sil\u00eancio, durante o qual a mo\u00e7a repetia as palavras da tia. Por desgra\u00e7a! dissera D. Ana. Que havia pois entre ela e os dous parentes? Tinha vontade de a interrogar, mas n\u00e3o se atrevia; a velha n\u00e3o continuou; uma e outra refletiam caladamente.<\/p>\n<p>Foi Lu\u00edsa quem rompeu o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que foi desgra\u00e7a encontrar o primo?<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Lu\u00edsa confirmou a pergunta com um gesto de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Contos largos, disse D. Ana, contos largos. Um dia te contarei tudo.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa n\u00e3o insistiu; ficou acabrunhada. O resto da noite foi sombrio para ela; fingiu ter sono e recolheu-se mais cedo do que costumava. N\u00e3o tinha sono; velou ainda duas longas horas a trabalhar com o esp\u00edrito, a beber uma ou outra l\u00e1grima indiscreta ou impaciente de lhe retalhar a face juvenil. Dormiu finalmente; e como de costume acordou cedo. Tinha um plano feito e a resolu\u00e7\u00e3o de o executar at\u00e9 o fim. O plano era interrogar a tia outra vez, mas ent\u00e3o disposta a saber a verdade, qualquer que ela fosse. Foi depois do almo\u00e7o, que se lhe ofereceu a melhor ocasi\u00e3o, quando as duas se sentaram a trabalhar. D. Ana recusou a princ\u00edpio; mas a insist\u00eancia de Lu\u00edsa foi tal, e ela amava-a tanto, que n\u00e3o lhe recusou dizer o que havia.<\/p>\n<p>\u2014 Tu n\u00e3o conheces teu tio, disse a boa velha; nunca viveste com ele. Eu conhe\u00e7o-o muito. Minha irm\u00e3, que ele tirou de casa para perd\u00ea-la, viveu com ele dez anos de mart\u00edrio. Se eu te contasse o que ela sofreu n\u00e3o havias de acreditar. Basta dizer que, se n\u00e3o fosse o abandono em que o marido a deixou, o pouco caso que fez da mol\u00e9stia, talvez ela n\u00e3o tivesse morrido. E da\u00ed pode ser que sim. Creio que ela estimou n\u00e3o tomar rem\u00e9dios, para acabar mais depressa. O maldito n\u00e3o deitou uma l\u00e1grima; jantou no dia da morte como costumava jantar nos mais dias. O enterro saiu e ele continuou a vida de antes. Coitada! Quando me lembro&#8230;<\/p>\n<p>Neste ponto, D. Ana interrompeu-se para enxugar as l\u00e1grimas, e Lu\u00edsa n\u00e3o p\u00f4de tamb\u00e9m reter as suas.<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m sabe para o que veio ao mundo! exclamou sentenciosamente D. Ana. Aquela era a mais querida de meu pai; foi a mais infeliz. Destinos! destinos! O que te contei \u00e9 j\u00e1 bastante para explicar a inimizade que nos separa. Acrescenta-lhe o g\u00eanio mau que ele tem, os modos grosseiros, e a l\u00edngua&#8230; oh! a l\u00edngua! Foi a l\u00edngua dele que me feriu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>\u2014 Lu\u00edsa, tu \u00e9s inocente, nada sabes deste mundo; mas \u00e9 bom que aprendas alguma cousa. Aquele homem, depois de fazer morrer minha irm\u00e3, lembrou-se de gostar de mim, e teve o atrevimento de vir declar\u00e1-lo na minha casa. Eu ent\u00e3o era outra mulher que n\u00e3o sou hoje; tinha cabelinho na venta. N\u00e3o lhe respondi palavra; levantei a m\u00e3o e castiguei-o no rosto. Vinguei-me e perdi-me. Ele recebeu o castigo calado; mas tratou de vingar-se tamb\u00e9m. N\u00e3o te contarei o que disse e trabalhou contra mim; \u00e9 longo e triste; basta saber que cinco meses depois, meu marido me p\u00f4s pela porta fora. Estava difamada; perdida; sem futuro nem reputa\u00e7\u00e3o. Foi ele a causa de tudo. Meu marido era homem de boa-f\u00e9. Queria-me muito e morreu pouco depois de paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Calou-se D. Ana, calou-se sem l\u00e1grimas nem gestos, mas com um rosto t\u00e3o p\u00e1lido de dor, que Lu\u00edsa atirou-se a ela e abra\u00e7ou-a. Foi esse gesto da mo\u00e7a que fez romper as l\u00e1grimas da velha. Chorou-as D. Ana longas e amargas; ajudou a chor\u00e1-las a sobrinha, que de envolta com ela lhe disse muita palavra consoladora. D. Ana recobrou a fala.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o terei raz\u00e3o em odi\u00e1-lo? perguntou ela.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio de Lu\u00edsa foi a melhor resposta.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto ao filho nada me fez, continuou a velha; mas, se \u00e9 filho de minha irm\u00e3 tamb\u00e9m \u00e9 filho dele. \u00c9 o mesmo sangue, que eu odeio.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa estremeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Titia! disse a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Odeio, sim! Ah! que a maior dor da minha vida seria&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 de ser assim. Lu\u00edsa, eu, se te visse casada com o filho daquele homem, morria decerto, porque perderia a \u00fanica afei\u00e7\u00e3o, que me resta no mundo. Tu n\u00e3o pensas nisso; mas juras-me que em nenhum caso far\u00e1s semelhante cousa?<\/p>\n<p>Lu\u00edsa empalideceu; hesitou um instante; mas jurou. Esse juramento foi o golpe \u00faltimo e mortal de suas esperan\u00e7as. Nem o pai dele nem a m\u00e3e dela (D. Ana era quase m\u00e3e) consentiriam em faz\u00ea-la feliz. Lu\u00edsa n\u00e3o se atreveu a defender o primo, a explicar que ele n\u00e3o tinha culpa nos atos e vilanias do pai. Que adiantaria isso, depois do que ouvira? O \u00f3dio estendia-se do pai ao filho; havia um abismo entre as duas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Naquele dia e no outro e no terceiro, chorou Lu\u00edsa, nas poucas horas em que podia estar s\u00f3, as l\u00e1grimas todas do desespero. No quarto dia j\u00e1 n\u00e3o tinha mais que chorar. Consolou-se como se consolam os desgra\u00e7ados. Viu ir-se o \u00fanico sonho da vida, a melhor esperan\u00e7a do futuro. S\u00f3 ent\u00e3o compreendeu a intensidade do amor que a prendia ao primo. Era o seu primeiro amor; estava destinado a ser o \u00faltimo.<\/p>\n<p>Caetano passou ali muitas vezes; deixou de v\u00ea-la duas semanas inteiras. Sup\u00f4-la doente e indagou da vizinhan\u00e7a. Quis escrever-lhe, mas n\u00e3o havia meio de entregar uma carta. Espreitava as horas em que a tia sa\u00eda de casa e ia bater \u00e0 porta. Trabalho in\u00fatil! A porta n\u00e3o se abria. Uma vez viu-a de longe \u00e0 janela, apertou o passo; Lu\u00edsa olhava para o lado oposto; n\u00e3o o viu vir. Chegando ao p\u00e9 da porta, parou ele e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Enfim!<\/p>\n<p>Lu\u00edsa estremeceu, voltou-se e dando com o primo fechou o postigo com tanta pressa que um peda\u00e7o de manga do vestido ficou preso. Cego de dor, Caetaninho tentou empurrar o postigo, mas a mo\u00e7a havia-o fechado com o ferrolho. A manga do vestido foi puxada violentamente e rasgada. Caetano afastou-se com o inferno no cora\u00e7\u00e3o; Lu\u00edsa foi dali atirar-se ao leito lavada em l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>As semanas, os meses, os anos passaram. Caetaninho n\u00e3o foi esquecido; mas nunca mais se encontraram os olhos dos dous namorados. Oito anos depois morreu D. Ana. A sobrinha aceitou a prote\u00e7\u00e3o de uma vizinha e foi para casa dela, onde trabalhava dia e noite. No fim de catorze meses adoeceu de tub\u00e9rculos pulmonares; arrastou uma vida aparente de dous anos. Tinha quase trinta quando morreu; enterrou-se por esmolas.<\/p>\n<p>Caetaninho viveu; aos trinta e cinco anos era casado, pai de um filho, negociante de fazendas, jogava o voltarete e engordava. Morreu juiz de uma irmandade e comendador<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Tinham dado ave-marias; a sr\u00aa D. Ana Cust\u00f3dia saiu para ir levar umas costuras \u00e0 loja que era na Rua do Hosp\u00edcio. Pegou das costuras, entrouxou-as, p\u00f4s um xale \u00e0s costas, um ros\u00e1rio ao pesco\u00e7o, deu cinco ou seis ordens \u00e0 sobrinha e caminhou para a porta. \u2014 Venha quem vier, n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-116157","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Folha Rota, Machado de Assis Folha Rota<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Folha Rota, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Folha Rota\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta 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