{"id":116153,"date":"2017-03-28T18:22:56","date_gmt":"2017-03-28T20:22:56","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116153"},"modified":"2017-03-28T18:22:56","modified_gmt":"2017-03-28T20:22:56","slug":"filosofia-de-um-par-de-botas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/filosofia-de-um-par-de-botas","title":{"rendered":"Filosofia de um Par de Botas"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Publicado originalmente em O Cruzeiro 1878<\/p>\n<p>Uma destas tardes, como eu acabasse de jantar, e muito, lembrou-me dar um passeio \u00e0 Praia de Santa Luzia, cuja solid\u00e3o \u00e9 prop\u00edcia a todo homem que ama digerir em paz. Ali fui, e com tal fortuna que achei uma pedra lisa para me sentar, e nenhum f\u00f4lego vivo nem morto. \u2014 Nem morto, felizmente. Sentei-me, alonguei os olhos, espreguicei a alma, respirei \u00e0 larga, e disse ao est\u00f4mago: \u2014 Digere a teu gosto, meu velho companheiro. Deus nobis haec otia fecit.<\/p>\n<p>Digeria o est\u00f4mago, enquanto o c\u00e9rebro ia remoendo, t\u00e3o certo \u00e9, que tudo neste mundo se resolve na mastiga\u00e7\u00e3o. E digerindo, e remoendo, n\u00e3o reparei logo que havia, a poucos passos de mim, um par de coturnos velhos e imprest\u00e1veis. Um e outro tinham a sola rota, o tac\u00e3o comido do longo uso, e tortos, porque \u00e9 de notar que a generalidade dos homens camba, ou para um ou para outro lado. Um dos coturnos (digamos botas, que n\u00e3o lembra tanto a trag\u00e9dia), uma das botas tinha um rasg\u00e3o de calo. Ambas estavam maculadas de lama velha e seca; tinham o couro ru\u00e7o, pu\u00eddo, encarquilhado.<\/p>\n<p>Olhando casualmente para as botas, entrei a considerar as vicissitudes humanas, e a conjecturar qual teria sido a vida daquele produto social. Eis sen\u00e3o quando, ou\u00e7o um rumor de vozes surdas; em seguida, ouvi s\u00edlabas, palavras, frases, per\u00edodos; e n\u00e3o havendo ningu\u00e9m, imaginei que era eu, que eu era ventr\u00edloquo; e j\u00e1 podem ver se fiquei consternado. Mas n\u00e3o, n\u00e3o era eu; eram as botas que falavam entre si, suspiravam e riam, mostrando em vez de dentes, uma pontas de tachas enferrujadas. Prestei o ouvido; eis o que diziam as botas:<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Ora, pois, mana, respiremos e filosofemos um pouco.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Um pouco? Todo o resto da nossa vida, que n\u00e3o h\u00e1 de ser muito grande; mas enfim, algum descanso nos trouxe a velhice. Que destino! Uma praia! Lembras-te do tempo em que brilh\u00e1vamos na vidra\u00e7a da Rua do Ouvidor?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Se me lembro! Quero at\u00e9 crer que \u00e9ramos as mais bonitas de todas. Ao menos na eleg\u00e2ncia&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Na eleg\u00e2ncia, ningu\u00e9m nos vencia.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Pois olha que havia muitas outras, e presumidas, sem contar aquelas botinas cor de chocolate&#8230; aquele par&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. O dos bot\u00f5es de madrep\u00e9rola?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Esse.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. O daquela vi\u00fava?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. O da vi\u00fava.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Que tempo! \u00c9ramos novas, bonitas, asseadas; de quando em quando, uma passadela de pano de linho, que era uma consola\u00e7\u00e3o. No mais, plena ociosidade. Bom tempo, mana, bom tempo! Mas, bem dizem os homens: n\u00e3o h\u00e1 bem que sempre dure, nem mal que se n\u00e3o acabe.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. O certo \u00e9 que ningu\u00e9m nos inventou para vivermos novas toda vida. Mais de uma pessoa ali foi experimentar-nos; \u00e9ramos cal\u00e7adas com cuidado, postas sobre um tapete, at\u00e9 que um dia, o dr. Crispim passou, viu-nos, entrou e cal\u00e7ou-nos. Eu, de raivosa, apertei-lhe um pouco os dois calos.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Sempre te conheci pirracenta.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Pirracenta, mas infeliz. Apesar do apert\u00e3o, o dr. Crispim levou-nos.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Era bom homem, o dr. Crispim; muito nosso amigo. N\u00e3o dava caminhadas largas, n\u00e3o dan\u00e7ava. S\u00f3 jogava o voltarete, at\u00e9 tarde, duas e tr\u00eas horas da madrugada; mas, como o divertimento era parado, n\u00e3o nos incomodava muito. E depois, entrava em casa, na pontinha dos p\u00e9s, para n\u00e3o acordar a mulher. Lembras-te?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Ora! por sinal que a mulher fingia dormir para lhe n\u00e3o tirar as ilus\u00f5es. No dia seguinte ele contava que estivera na ma\u00e7onaria. Santa senhora!<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Santo casal! Naquela casa fomos sempre felizes, sempre! E a gente que eles freq\u00fcentavam? Quando n\u00e3o havia tapetes, havia palhinha; pis\u00e1vamos o macio, o limpo, o asseado. And\u00e1vamos de carro muita vez, e eu gosto tanto de carro! Estivemos ali uns quarenta dias, n\u00e3o?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Pois ent\u00e3o! Ele gastava mais sapatos do que a Bol\u00edvia gasta constitui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Deixemo-nos de pol\u00edtica.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Apoiado.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA (com for\u00e7a). Deixemo-nos de pol\u00edtica, j\u00e1 disse!<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA (sorrindo). Mas um pouco de pol\u00edtica debaixo da mesa?&#8230; Nunca te contei&#8230; contei, sim&#8230; o caso das botinas cor de chocolate&#8230; as da vi\u00fava&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Da vi\u00fava, para quem o dr. Crispim quebrava muito os olhos? Lembra-me que estivemos juntas, num jantar do comendador Pl\u00e1cido. As botinas viram-nos logo, e n\u00f3s da\u00ed a pouco as vimos tamb\u00e9m, porque a vi\u00fava, como tinha o p\u00e9 pequeno, andava a mostr\u00e1-lo a cada passo. Lembra-me tamb\u00e9m que, \u00e0 mesa, conversei muito com uma das botinas. O dr. Crispim sentara-se ao p\u00e9 do comendador e defronte da vi\u00fava; ent\u00e3o, eu fui direita a uma delas, e falamos, falamos pelas tripas de Judas&#8230; A princ\u00edpio, n\u00e3o; a princ\u00edpio ela fez-se de boba; e toquei-lhe no bico, respondeu-me zangada: \u201c Mas eu insisti, perguntei-lhe por onde tinha andado, disse-lhe que estava ainda muito bonita, muito conservada; ela foi-se amansando, buliu com o bico, depois com o tac\u00e3o, pisou em mim, eu pisei nela e n\u00e3o te digo mais&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Pois \u00e9 justamente o que eu queria contar&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Tamb\u00e9m conversaste?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. N\u00e3o; ia conversar com a outra. Escorreguei devagarinho, muito devagarinho, com cautela, por causa da bota do comendador.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Agora me lembro: pisaste a bota do comendador.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. A bota? Pisei o calo. O comendador: Ui! As senhoras: Ai! Os homens: Hein? E eu recuei; e o dr. Crispim ficou muito vermelho, muito vermelho&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Parece que foi castigo. No dia seguinte o dr. Crispim deu-nos de presente a um procurador de poucas causas.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. N\u00e3o me fales! Isso foi a nossa desgra\u00e7a! Um procurador! Era o mesmo que dizer: mata-me estas botas; esfrangalha-me estas botas!<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Dizes bem. Que roda viva! Era da Rela\u00e7\u00e3o para os escriv\u00e3es, dos escriv\u00e3es para os ju\u00edzes, dos ju\u00edzes para os advogados, dos advogados para as partes (embora poucas), das partes para a Rela\u00e7\u00e3o, da Rela\u00e7\u00e3o para os escriv\u00e3es&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Et coetera. E as chuvas! e as lamas! Foi o procurador quem primeiro me deu este corte para desabafar um calo. Fiquei asseada com esta janela \u00e0 banda.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Durou pouco; passamos ent\u00e3o para o fiel de feitos, que no fim de tr\u00eas semanas nos transferiu ao remend\u00e3o. O remend\u00e3o (ah! j\u00e1 n\u00e3o era a Rua do Ouvidor!) deu-nos alguns pontos, tapou-nos este buraco, e impingiu-nos ao aprendiz de barbeiro do Beco dos Aflitos.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Com esse havia pouco que fazer de dia, mas de noite&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. No curso de dan\u00e7a; lembra-me. O diabo do rapaz valsava como quem se despede da vida. Nem nos comprou para outra coisa, porque para os passeios tinha um par de botas novas, de verniz e bico fino. Mas para as noites&#8230; N\u00f3s \u00e9ramos as botas do curso&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Que abismo entre o curso e os tapetes do dr. Crispim&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Coisas!<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Justi\u00e7a, justi\u00e7a; o aprendiz n\u00e3o nos escovava; n\u00e3o t\u00ednhamos o supl\u00edcio da escova. Ao menos, por esse lado, a nossa vida era tranq\u00fcila.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Relativamente, creio. Agora, que era alegre n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida; em todo caso, era muito melhor que a outra que nos esperava.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Quando fomos parar \u00e0s m\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Aos p\u00e9s daquele servente das obras p\u00fablicas. Da\u00ed fomos atiradas \u00e0 rua, onde nos apanhou um preto padeiro, que nos reduziu enfim a este \u00faltimo estado! Triste! triste!<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Tu queixas-te, mana?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Se te parece!<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. N\u00e3o sei; se na verdade \u00e9 triste acabar assim t\u00e3o miseravelmente, numa praia, esburacadas e rotas, sem tac\u00f5es nem ilus\u00f5es \u2014 por outro lado, ganhamos a paz, e a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. A paz? Aquele mar pode lamber-nos de um relance.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Trazer-nos-\u00e1 outra vez \u00e0 praia. Demais, est\u00e1 longe.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Que eu, na verdade, quisera descansar agora estes \u00faltimos dias; mas descansar sem saudades, sem a lembran\u00e7a do que foi. Viver t\u00e3o afagadas, t\u00e3o admiradas na vidra\u00e7a do autor dos nossos dias; passar uma vida feliz em casa do nosso primeiro dono, suport\u00e1vel na casa dos outros; e agora&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Agora qu\u00ea?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. A vergonha, mana.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Vergonha, n\u00e3o. Podes crer, que fizemos felizes aqueles a quem cal\u00e7amos; ao menos, na nossa mocidade. Tu que pensas? Mais de um n\u00e3o olha para suas id\u00e9ias com a mesma satisfa\u00e7\u00e3o com que olha para suas botas. Mana, a bota \u00e9 a metade da circunspec\u00e7\u00e3o; em todo o caso \u00e9 a base da sociedade civil&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Que estilo! Bem se v\u00ea que nos cal\u00e7ou um advogado.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. N\u00e3o reparaste que, \u00e0 medida que \u00edamos envelhecendo, \u00e9ramos menos cumprimentadas?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Talvez.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. \u00c9ramos, e o chap\u00e9u n\u00e3o se engana. O chap\u00e9u fareja a bota&#8230; Ora, pois! Viva a liberdade! viva a paz! Viva a velhice! (A Bota Direita abana tristemente o cano). Que tens?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. N\u00e3o posso; por mais que queira, n\u00e3o posso afazer-me a isto. Pensava que sim, mas era ilus\u00e3o&#8230; Viva a paz e a velhice, concordo; mas h\u00e1 de ser sem as recorda\u00e7\u00f5es do passado&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Qual passado? O de ontem ou de anteontem? O do advogado ou o do servente?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Qualquer; contanto que nos cal\u00e7assem. O mais reles p\u00e9 de homem \u00e9 sempre um p\u00e9 de homem.<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Deixa-te disso; fa\u00e7amos da nossa velhice uma coisa \u00fatil e respeit\u00e1vel.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Respeit\u00e1vel, um par de botas velhas! \u00datil, um par de botas velhas! Que utilidade? que respeito? N\u00e3o v\u00eas que os homens tiraram de n\u00f3s o que podiam, e quando n\u00e3o val\u00edamos um caracol mandaram deitar-nos \u00e0 margem? Quem \u00e9 que nos h\u00e1 de respeitar? \u2014 aqueles mariscos? (olhando para mim) Aquele sujeito que est\u00e1 ali com os olhos assombrados?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Vanitas! Vanitas!<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Que dizes tu?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Quero dizer que \u00e9s vaidosa, apesar de muito acalcanhada, e que devemos dar-nos por felizes com esta aposentadoria, lardeada de algumas recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Onde estar\u00e3o a esta hora as botinas da vi\u00fava?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Quem sabe l\u00e1! Talvez outras botas conversem com outras botinas&#8230; Talvez: \u00e9 a lei do mundo; assim caem os Estados e as institui\u00e7\u00f5es. Assim perece a beleza e a mocidade. Tudo botas, mana; tudo botas, com tac\u00f5es ou sem tac\u00f5es, novas ou velhas; direita ou acalcanhadas, lustrosas ou ru\u00e7as, mas botas, botas, botas!<\/p>\n<p>Neste ponto calaram-se as duas interlocutoras, e eu fiquei a olhar para uma e outra, a esperar se diziam alguma coisa mais. Nada; estavam pensativas.<\/p>\n<p>Deixei-me ficar assim algum tempo, disposto a lan\u00e7ar m\u00e3o delas, e lev\u00e1-las para casa com o fim de as estudar, interrogar, e depois escrever uma mem\u00f3ria, que remeteria a todas as academias do mundo. Pensava tamb\u00e9m em as apresentar nos circos de cavalinhos, ou ir vend\u00ea-las a Nova York. Depois, abri m\u00e3o de todos esses projetos. Se elas queriam a paz, uma velhice sossegada, por que motivo iria eu arranc\u00e1-las a essa justa paga de uma vida cansada e laboriosa? Tinham servido tanto! tinham rolado todos os degraus da escala social; chegavam ao \u00faltimo, a praia, a triste Praia de Santa Luzia&#8230; N\u00e3o, velhas botas! Melhor \u00e9 que fiqueis a\u00ed no derradeiro descanso.<\/p>\n<p>Nisto vi chegar um sujeito maltrapilho; era um mendigo. Pediu-me uma esmola; dei-lhe um n\u00edquel.<\/p>\n<p>MENDIGO. Deus lhe pague, meu senhor! (Vendo as botas) Um par de botas! Foi um anjo que as p\u00f4s aqui&#8230;<\/p>\n<p>EU (ao mendigo). Mas, espere&#8230;<\/p>\n<p>MENDIGO. Espere o qu\u00ea? Se lhe digo que estou descal\u00e7o! (Pegando nas botas) Est\u00e3o bem boas! Cosendo-se isto aqui, com um barbante&#8230;<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Que \u00e9 isto, mana? que \u00e9 isto? Algu\u00e9m pega em n\u00f3s&#8230; Eu sinto-me no ar&#8230;<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. \u00c9 um mendigo.<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Um mendigo? Que querer\u00e1 ele?<\/p>\n<p>BOTA DIREITA (alvoro\u00e7ada). Ser\u00e1 poss\u00edvel?<\/p>\n<p>BOTA ESQUERDA. Vaidosa!<\/p>\n<p>BOTA DIREITA. Ah! mana! esta \u00e9 a filosofia verdadeira: \u2014 N\u00e3o h\u00e1 bota velha que n\u00e3o encontre um p\u00e9 cambaio.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em O Cruzeiro 1878 Uma destas tardes, como eu acabasse de jantar, e muito, lembrou-me dar um passeio \u00e0 Praia de Santa Luzia, cuja solid\u00e3o \u00e9 prop\u00edcia a todo homem que ama digerir em paz. 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