{"id":116151,"date":"2017-03-28T18:19:16","date_gmt":"2017-03-28T20:19:16","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=116151"},"modified":"2017-03-28T18:19:16","modified_gmt":"2017-03-28T20:19:16","slug":"fernando-e-fernanda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/fernando-e-fernanda","title":{"rendered":"Fernando e Fernanda"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1866<\/p>\n<p>Tinham os mesmos nomes. Cresceram juntos, \u00e0 sombra do mesmo amor materno. Ele era \u00f3rf\u00e3o, e a m\u00e3e dela, que o amava como se ele fora seu filho, tomou-o para si, e reuniu os dois debaixo do mesmo olhar e dentro do mesmo cora\u00e7\u00e3o. Eram quase irm\u00e3os, e s\u00ea-lo-iam sempre completamente, se a diferen\u00e7a dos sexos n\u00e3o viesse, um dia, dizer-lhes que um la\u00e7o mais \u00edntimo podia un\u00ed-los.<\/p>\n<p>Um dia, tinham ambos quinze anos, descobriram os dois que se amavam, e mais do que se amam irm\u00e3os. Esta descoberta foi feita durante uma troca de olhares e um contacto de m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Fernanda! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Fernando! respondeu ela.<\/p>\n<p>O resto foi dito nessa linguagem muda e eloq\u00fcente, em que o maior ignorante faz prod\u00edgios de ret\u00f3rica, ret\u00f3rica do cora\u00e7\u00e3o, ret\u00f3rica universal.<\/p>\n<p>Mas o amor, sobretudo o amor calouro, como era o dos meus her\u00f3is, tem o inconveniente de supor que todo o resto da humanidade est\u00e1 com os olhos tapados e os ouvidos surdos, e que ele pode existir s\u00f3 para si, invis\u00edvel e impalp\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o sendo assim, apesar da boa f\u00e9 de Fernando e Fernanda, aconteceu que a velha m\u00e3e deu pelas coisas logo dois dias depois da primeira revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esperavam os tr\u00eas a hora do ch\u00e1, reunidos em torno de uma pequena mesa, onde Madalena (a m\u00e3e de ambos) punha em ordem uns pap\u00e9is. Os pap\u00e9is diziam respeito a v\u00e1rias reclama\u00e7\u00f5es que Madalena devia fazer, por parte de seu finado marido, \u00e0 fazenda p\u00fablica.<\/p>\n<p>Isto se passava em uma prov\u00edncia do norte, e Madalena preparava-se, no caso de ser preciso, a vir pessoalmente ao Rio de Janeiro, apresentar as suas reclama\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse servi\u00e7o era a boa velha ajudada pelos dois filhos, a leg\u00edtima e o adotivo; mas estes, sem quebra do respeito que votavam \u00e0 m\u00e3e comum, esqueciam-se muitas vezes do que faziam, para confundirem por longo tempo os olhos, que, na frase chistosa de H. Murger, s\u00e3o os plenipotenci\u00e1rios do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em uma dessas ocasi\u00f5es, Madalena, com os olhos baixos, reunindo os pap\u00e9is que lhe eram mais necess\u00e1rios, disse a Fernando que lhe fosse buscar um ma\u00e7o de documentos esquecidos no gabinete.<\/p>\n<p>Fernando n\u00e3o atendeu \u00e0 ordem.<\/p>\n<p>Madalena repetiu as palavras, segunda vez, sem levantar os olhos.<\/p>\n<p>Igual sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Madalena levantou a cabe\u00e7a e ia pela terceira vez dizer a mesma coisa, quando reparou no \u00eaxtase em que estavam Fernando e Fernanda.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, erguendo a voz, repetiu a ordem a Fernando.<\/p>\n<p>Este estremeceu, levantou-se e foi buscar o ma\u00e7o de documentos.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco serviu-se o ch\u00e1; por\u00e9m Madalena, que era, sempre, tanto ou mais g\u00e1rrula que os dois namorados, mostrou-se durante o ch\u00e1 de uma completa taciturnidade.<\/p>\n<p>Isto causou estranheza \u00e0 filha e ao filho, mas n\u00e3o lhes inspirou suspeita alguma, pela simples raz\u00e3o de que nem ele nem ela conheciam ainda bem o alcance e a natureza do sentimento que os dominava.<\/p>\n<p>Explicarei a raz\u00e3o desta ignor\u00e2ncia em cora\u00e7\u00f5es de quinze anos. Nem Fernando nem Fernanda tinham pr\u00e1tica do mundo; n\u00e3o viam ningu\u00e9m; nada sabiam al\u00e9m do amor fraterno e filial em que foram criados.<\/p>\n<p>Um velho padre, parente afastado de Madalena, ensinara-lhes a ler e a escrever v\u00e1rias l\u00ednguas e a hist\u00f3ria sagrada; mas o modo por que era feito o ensino, a tenra idade em que eles come\u00e7aram a aprender, a cor legend\u00e1ria que eles viam nos textos sagrados, tudo isso contribu\u00eda para que a id\u00e9ia do amor dos sexos nunca se lhes apresentasse no esp\u00edrito de um modo claro e positivo.<\/p>\n<p>Deste modo o epis\u00f3dio de Rute, verdadeira p\u00e1gina da poesia r\u00fastica, era lido pelos dois sem coment\u00e1rio do cora\u00e7\u00e3o, ou do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Nem por curiosidade aconteceu perguntarem nunca o fim dos meios empregados pela irm\u00e3 de Noemi em rela\u00e7\u00e3o ao rico homem Booz.<\/p>\n<p>Eva, o fruto, a serpente, eram para Fernando e Fernanda a mesma serpente, o mesmo fruto, a mesma Eva, ocultos nos princ\u00edpios da humanidade pelas n\u00e9voas da legenda religiosa.<\/p>\n<p>Quanto ao C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, o padre-mestre julgou dever suprimi-lo na B\u00edblia em que aprendiam os dois jovens parentes. Este padre-mestre, apesar de insistir no car\u00e1ter aleg\u00f3rico do livro de Salom\u00e3o, segundo a vers\u00e3o cat\u00f3lica, julgou n\u00e3o dever d\u00e1-lo em leitura ao esp\u00edrito de Fernando e Fernanda.<\/p>\n<p>Resultou de todo este cuidado que o cora\u00e7\u00e3o juvenil dos dois namorados nunca teve id\u00e9ia clara do sentimento que os unia t\u00e3o intimamente. Era a natureza quem fazia as despesas daquele amor sem conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>No dia seguinte ao da cena que narrei rapidamente, Madalena chamou os dois namorados em particular e interrogou-os.<\/p>\n<p>Os cuidados de Madalena eram mui leg\u00edtimos. Apesar do recato com que tinham sido educados os dois filhos, ela n\u00e3o podia saber at\u00e9 que ponto a inoc\u00eancia deles era real. Sondar-lhes o esp\u00edrito e o cora\u00e7\u00e3o parecia-lhe um dever imperioso. F\u00ea-lo com toda a habilidade; Fernando e Fernanda, confessando uma afei\u00e7\u00e3o mais terna que antiga, nada sabiam, todavia, do car\u00e1ter e do mist\u00e9rio dessa afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Madalena, para quem o amor de Fernando por Fernanda n\u00e3o era mais do que o sonho de sua vida realizado, beijou-os, abra\u00e7ou-os e prometeu-lhes que seriam felizes.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, acrescentou ela, explicando como podia as coisas, \u00e9 preciso que o meu Fernando se fa\u00e7a homem; tome um bord\u00e3o de vida, para cuidar da sua&#8230; irm\u00e3; ouviu?<\/p>\n<p>E tratou de consultar a voca\u00e7\u00e3o de Fernando, consultando tamb\u00e9m o padre-mestre, n\u00e3o sem comunicar-lhe as descobertas que fizera.<\/p>\n<p>O padre-mestre contrariou-se um bocado com a tal descoberta. Em seus projetos secretos a respeito de Fernando, que era a um tempo disc\u00edpulo e afilhado, entrara o de faz\u00ea-lo entrar para um semin\u00e1rio e depois para um convento. Queria, disse ele a Madalena, fazer de Fernando uma coluna da Igreja. Era um menino inteligente, mostrava entusiasmo pelas letras sagradas, podia, com os desenvolvimentos que se lhe desse ao esp\u00edrito, tornar-se o S. Paulo do novo mundo.<\/p>\n<p>Madalena declarou-lhe que era necess\u00e1rio tirar da\u00ed o pensamento. O padre-mestre resignou-se.<\/p>\n<p>Depois de muito discutirem, em presen\u00e7a de Fernando, resolveu-se que o rapaz estudasse medicina.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia foi determinado que fizesse os preparat\u00f3rios e seguisse para a corte para continuar os estudos superiores.<\/p>\n<p>Esta resolu\u00e7\u00e3o entristeceu Fernando. Foi comunic\u00e1-la a Fernanda, e ambos se desfizeram em l\u00e1grimas e protestos de uma afei\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>Mas quis a felicidade que Madalena precisasse ir ao Rio de Janeiro para cuidar dos pap\u00e9is de suas reclama\u00e7\u00f5es. Assim toda a fam\u00edlia se p\u00f4s a caminho, e da\u00ed a alguns meses estavam todos, menos o padre-mestre, definitivamente instalados na capital.<\/p>\n<p>Fernando seguiu os estudos necess\u00e1rios \u00e0 carreira escolhida.<\/p>\n<p>A idade, a maior conviv\u00eancia na sociedade, tudo revelou aos dois namorados a raz\u00e3o de ser da afei\u00e7\u00e3o mais terna que sentiam um pelo outro.<\/p>\n<p>O casamento apareceu-lhes no horizonte como uma estrela luminosa. Daqui vieram os projetos, os planos, as esperan\u00e7as, os edif\u00edcios de felicidades constru\u00eddos, e destru\u00eddos para dar lugar a outros de maiores pro.por\u00e7\u00f5es e mais imponente estrutura.<\/p>\n<p>Eram felizes. N\u00e3o conhecendo nenhuma das mis\u00e9rias da vida, viam o futuro pelo prisma da pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o e do pr\u00f3prio desejo. Parecia-lhes que o destino ou as circunst\u00e2ncias n\u00e3o tinham o direito de impedir a realiza\u00e7\u00e3o de cada um de seus sonhos.<\/p>\n<p>Entretanto, tendo Fernando conclu\u00eddo os seus estudos, foi decidido que iria \u00e0 Europa estudar e praticar ainda por dois anos.<\/p>\n<p>Era uma separa\u00e7\u00e3o de dois anos! E que separa\u00e7\u00e3o! A separa\u00e7\u00e3o do mar, a mais tremenda de todas as barreiras, e que aos olhos de Fernanda era como que o perigo certo e inevit\u00e1vel. A pobre menina dizia muitas vezes a Fernando:<\/p>\n<p>\u2014 Quando fores meu marido, pro\u00edbo-te que ponhas p\u00e9 no mar!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o ponho, n\u00e3o, respondia Fernando sorrindo, o navio \u00e9 que h\u00e1 de p\u00f4r a quilha.<\/p>\n<p>Anunciava-se agora uma viagem. Cedo come\u00e7avam os sustos e as desgra\u00e7as de Fernanda.<\/p>\n<p>A pobre menina chorou muitas l\u00e1grimas de pesar e at\u00e9 de raiva por n\u00e3o poder impedir que Fernando partisse.<\/p>\n<p>Mas era preciso.<\/p>\n<p>Fernando partiu.<\/p>\n<p>Madalena procurou o mais que podia animar o rapaz e consolar a filha. Ela pr\u00f3pria sentia rasgarem-se-lhe as entranhas ao ver partir aquele que por dois motivos era seu filho; mas tinha coragem, e coragem filha de dois sentimentos elevados: \u2014 o primeiro era que se devia completar a educa\u00e7\u00e3o de Fernando, que ela tomara a seu cuidado; o segundo era que para marido da sua Fernanda devia dar um homem completo e apto a alcan\u00e7ar os mais honrosos cargos.<\/p>\n<p>Fernando compreendia isto, e soube ser corajoso.<\/p>\n<p>N\u00e3o entra no meu prop\u00f3sito contar, cena por cena, dia por dia, os acontecimentos que preencheram o intervalo da aus\u00eancia do jovem m\u00e9dico pela ci\u00eancia e doente pelo amor.<\/p>\n<p>Corramos folha e entremos logo no dia em que o navio em que sa\u00edra Fernando se achou de novo no porto da capital.<\/p>\n<p>Madalena recebeu Fernando como se recebe a luz depois de uma longa pris\u00e3o em c\u00e1rcere escuro. Indagou de muitas coisas, curios\u00edssima pelo menor incidente, e risonha de felicidade a todas as narra\u00e7\u00f5es do filho.<\/p>\n<p>\u2014 Mas Fernanda? perguntou ele depois de algum tempo.<\/p>\n<p>A m\u00e3e n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>Fernando insistiu.<\/p>\n<p>\u2014 Fernanda morreu, disse Madalena.<\/p>\n<p>\u2014 Morreu! exclamou Fernando levando as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Morreu para ti: est\u00e1 casada.<\/p>\n<p>A previdente Madalena come\u00e7ara do menor para o maior. Com efeito, para Fernando melhor fora que Fernanda tivesse morrido do que se tivesse casado.<\/p>\n<p>Fernando desesperou ao ouvir as palavras de sua m\u00e3e. Esta veio com imediatos conselhos de prud\u00eancia e resigna\u00e7\u00e3o. Fernando a nada atendia. Formara durante tanto tempo um castelo de felicidade, e eis que uma simples palavra derrubara tudo. Mil id\u00e9ias lhe atravessaram o c\u00e9rebro; o suic\u00eddio, a vingan\u00e7a, voltavam a ocupar-lhe o esp\u00edrito, cada qual por sua vez; o que ele via no fundo de tudo era a perf\u00eddia negra, a fraqueza do cora\u00e7\u00e3o feminino, a zombaria, a m\u00e1 f\u00e9, ainda nos cora\u00e7\u00f5es mais virgens.<\/p>\n<p>Enfim, Madalena p\u00f4de tomar a palavra e explicar ao desditoso mancebo a hist\u00f3ria do casamento de Fernanda.<\/p>\n<p>Ora, a hist\u00f3ria, a despeito de sua vulgaridade, deve ser contada aqui para conhecimento dos fatos.<\/p>\n<p>Fernanda sentira, e sinceramente, a aus\u00eancia de Fernando.<\/p>\n<p>Chorou longos dias sem consola\u00e7\u00e3o. Para trazer-lhe algumas distra\u00e7\u00f5es ao esp\u00edrito, Madalena resolveu lev\u00e1-la \u00e0s reuni\u00f5es e introduzi-la entre as mo\u00e7as da mesma idade, cuja conviv\u00eancia n\u00e3o podia deixar de ser-lhe \u00fatil, visto que lhe tranq\u00fcilizaria o esp\u00edrito, sem varrer-lhe da mem\u00f3ria e do cora\u00e7\u00e3o a id\u00e9ia e o amor do viajante.<\/p>\n<p>Fernanda, que at\u00e9 ali vivera uma vida modesta e retirada, achou-se de repente ante um mundo novo. Sucediam-se os bailes, as visitas, as simples reuni\u00f5es. Pouco a pouco a tristeza foi desaparecendo e dando lugar a uma satisfa\u00e7\u00e3o completa e de bom agouro para Madalena.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, pensava a velha m\u00e3e, deste modo Fernanda poder\u00e1 esperar Fernando, sem murchar-lhe a beleza da mocidade. Estas rela\u00e7\u00f5es novas, esta nova conviv\u00eancia, tirando-lhe a tristeza que a acabrunhava, dar-lhe-\u00e1 mais for\u00e7a ao amor, em virtude do espet\u00e1culo do amor alheio.<\/p>\n<p>Madalena raciocinava bem at\u00e9 certo ponto. Mas a pr\u00e1tica demonstrou que a sua teoria era errada e n\u00e3o conclu\u00eda como o seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O exemplo alheio, longe de fortificar Fernanda na fidelidade ao amor jurado, trouxe-lhe um prurido de imita\u00e7\u00e3o; ao princ\u00edpio, simples curiosidade; depois, desejo menos indiferente; mais tarde, vontade decidida. Fernanda desejou imitar as novas amigas, e teve um namorado. A algumas ouvira que n\u00e3o ter um namorado, pelo menos, era dar prova de p\u00e9ssimo gosto, e de nenhum esp\u00edrito; e Fernanda n\u00e3o queria de modo algum ficar neste ponto atr\u00e1s das suas companheiras.<\/p>\n<p>Entre os rapazes que a req\u00fcestavam havia um certo Augusto Soares, filho de um rico capitalista, que era o seu primeiro m\u00e9rito, sendo o segundo a mais bem merecida fama de n\u00e9scio que ainda coroou uma criatura humana.<\/p>\n<p>Mas os n\u00e9scios n\u00e3o trazem na testa o d\u00edstico de sua nescedade; e, se \u00e9 certo que Soares n\u00e3o podia encadear duas frases sem ferir o senso comum, tamb\u00e9m \u00e9 certo que muitas mulheres perdoam tudo, at\u00e9 a tolice, em ouvindo tecer um gabo \u00e0s suas gra\u00e7as naturais.<\/p>\n<p>Ora, Soares come\u00e7ava por a\u00ed, o que foi meio caminho andado. Fernanda, vendo que o rapaz era da mesma opini\u00e3o que o seu espelho, n\u00e3o indagou de outras qualidades; deu-lhe o sufr\u00e1gio&#8230; n\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, mas do esp\u00edrito. O cora\u00e7\u00e3o veio mais tarde.<\/p>\n<p>Ter um preferido, como objeto de guerra para os mais, e ver assim mais req\u00fcestada a sua prefer\u00eancia, era trilhar o caminho das outras e ficar na altura do bom tom. Fernanda, desde o primeiro dia, mostrou-se t\u00e3o h\u00e1bil como as outras.<\/p>\n<p>Mas quem pode lutar com um n\u00e9scio em ele tomando ao s\u00e9rio o seu papel? Soares era ousado.<\/p>\n<p>N\u00e3o tendo consci\u00eancia da nulidade do seu esp\u00edrito, obrava como se fosse um esp\u00edrito eminente, de modo que conseguia aquilo que nenhum homem avisado fora capaz de conseguir.<\/p>\n<p>Deste modo, ao passo que a aus\u00eancia de Fernando se prolongava, iam calando no esp\u00edrito as declara\u00e7\u00f5es reiteradas de Soares, e o cora\u00e7\u00e3o de Fernanda foi pouco a pouco cedendo o amor antigo ao recente amor.<\/p>\n<p>Veio a compara\u00e7\u00e3o (a compara\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a perdi\u00e7\u00e3o das mulheres). Fernando amava com toda a sinceridade e singeleza do seu cora\u00e7\u00e3o; Soares amava de modo diverso; sabia entremear uma declara\u00e7\u00e3o com tr\u00eas per\u00edfrases e dois tropos, destes que j\u00e1 cheiram mal, por andarem em tantas bocas, mas que Fernanda ouvia com encanto porque era uma linguagem nova para ela.<\/p>\n<p>Finalmente, um dia declarou-se a vit\u00f3ria de Soares no cora\u00e7\u00e3o de Fernanda, n\u00e3o sem alguma luta, \u00e0 \u00faltima hora, e que n\u00e3o era mais do que um ato volunt\u00e1rio de Fernanda para tranq\u00fcilizar a consci\u00eancia e deitar a sua trai\u00e7\u00e3o para as costas do destino.<\/p>\n<p>O destino \u00e9 o grande culpado de todas as m\u00e1s a\u00e7\u00f5es da humanidade inocente&#8230;<\/p>\n<p>Um dia Soares, tendo previamente indagado das posses de Fernanda, foi autorizado por esta a pedi-la em casamento.<\/p>\n<p>Madalena n\u00e3o deu logo o seu consentimento; quis antes consultar Fernanda e ver at\u00e9 que ponto era s\u00e9ria a nova resolu\u00e7\u00e3o de sua filha.<\/p>\n<p>Fernanda declarou amar deveras o rapaz, e fez depender a sua vida e felicidade de tal casamento.<\/p>\n<p>Madalena julgou dever guiar aquele cora\u00e7\u00e3o que lhe parecia transviado. Foi luta v\u00e3: Fernanda estava inabal\u00e1vel. Depois de tr\u00eas dias de trabalho, Madalena declarou a Fernanda que consentia no casamento e mandou chamar Soares para dizer-lhe a mesma coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas sabes tu, perguntou a boa m\u00e3e \u00e0 sua filha, sabes a que vais expor o cora\u00e7\u00e3o de Fernando?<\/p>\n<p>\u2014 Ora! h\u00e1 de sentir um pouco; mas depois esquecer-se-\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Julgas isso poss\u00edvel?<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o? E quem sabe o que ele estar\u00e1 fazendo? Os pa\u00edses aonde foi talvez lhe d\u00eaem alguns novos amores&#8230; \u00c9 uma por outra.<\/p>\n<p>\u2014 Fernanda!<\/p>\n<p>\u2014 Esta \u00e9 a verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem, Deus te fa\u00e7a feliz.<\/p>\n<p>E, tendo chegado o namorado pintalegrete, Madalena deu-lhe verbal e oficialmente a filha em casamento.<\/p>\n<p>O casamento efetuou-se pouco depois.<\/p>\n<p>Ouvindo esta narra\u00e7\u00e3o, Fernando estava aturdido. Desfazia-se em n\u00e9voa a esperan\u00e7a suprema das suas ambi\u00e7\u00f5es de mo\u00e7o. A donzela casta e sincera que supunha vir encontrar desaparecia para dar lugar a uma mulher de cora\u00e7\u00e3o p\u00e9rfido e vulgar esp\u00edrito.<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de reter algumas l\u00e1grimas; mas poucas foram; \u00e0s primeiras palavras de sua m\u00e3e adotiva pedindo-lhe coragem, Fernando ergueu-se, enxugou os olhos e prometeu n\u00e3o abater-se. Procurou mesmo ficar alegre. A pobre Madalena receou alguma coisa e consultou Fernando sobre os seus projetos.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! descanse, minha m\u00e3e, respondeu este; sup\u00f5e talvez que eu me mate ou mate algu\u00e9m? Juro-lhe que n\u00e3o farei nem uma nem outra coisa. Olhe, juro por isto.<\/p>\n<p>E Fernando beijou respeitosamente a cabe\u00e7a encanecida e veneranda de Madalena.<\/p>\n<p>Passaram-se alguns dias depois da chegada de Fernando. Madalena, vendo que pouco a pouco se tranq\u00fcilizava o esp\u00edrito de Fernando, tranq\u00fcilizou-se tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Um dia Madalena, ao entrar Fernando para jantar, disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Fernando, sabes que Fernanda vem hoje visitar-me?<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>Fernando n\u00e3o pensara nunca que Fernanda podia visitar sua m\u00e3e e encontrar-se com ele em casa. Todavia, depois da primeira exclama\u00e7\u00e3o, pareceu refletir alguns segundos e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Isso que tem? Ela pode vir; eu c\u00e1 estou: somos dois estranhos&#8230;<\/p>\n<p>Madalena ficou desta vez plenamente convencida de que Fernando n\u00e3o sentia mais nada por sua filha, nem amor, nem \u00f3dio.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, com efeito, na ocasi\u00e3o em que Fernando se preparava para ler \u00e0 sua m\u00e3e uns apontamentos de viagem que estava escrevendo, parou \u00e0 porta um carro conduzindo Soares e Fernanda.<\/p>\n<p>Fernando sentiu palpitar-lhe violentamente o cora\u00e7\u00e3o. Duas l\u00e1grimas, as \u00faltimas, saltaram-lhe dos olhos e correram pelas faces abaixo. Fernando enxugou-as ocultamente. Quando Madalena olhou para ele, estava completamente calmo.<\/p>\n<p>Entraram os dois.<\/p>\n<p>O encontro de Fernando e Fernanda n\u00e3o foi sem alguma como\u00e7\u00e3o em ambos; mais apaziguada em seus amores por Soares, Fernanda entrava j\u00e1 na reflex\u00e3o, e a vista de Fernando (que ali\u00e1s ela sabia j\u00e1 ter voltado) era para ela uma exprobra\u00e7\u00e3o viva do seu procedimento.<\/p>\n<p>Era mais: a presen\u00e7a do primeiro amante lembrava-lhe os primeiros dias, a candura do primeiro afeto, os sonhos de amor, sonhados por ambos, na doce intimidade do lar dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>Quanto a Fernando, sentia tamb\u00e9m que lhe voltavam estas lembran\u00e7as ao esp\u00edrito; mas, ao mesmo tempo, unia-se \u00e0 saudade do passado um desgosto pelo aspecto presente da mulher que amara. Fernanda estava uma casquilha. Ar, maneiras, olhares, tudo era caracter\u00edstico de uma revolu\u00e7\u00e3o completa em seus h\u00e1bitos e em seu esp\u00edrito. At\u00e9 a palidez natural e po\u00e9tica do rosto desaparecia debaixo de umas posturas de carmim, sem tom nem gra\u00e7a, aplicadas unicamente para afetar um g\u00eanero de beleza que n\u00e3o tinha.<\/p>\n<p>Esta mudan\u00e7a era resultado do contacto de Soares. Com efeito, desviando os olhos de Fernanda para crav\u00e1-los nos do homem que lhe roubara a sua felicidade, Fernando p\u00f4de ver nele um tipo completo do pintalegrete moderno.<\/p>\n<p>Madalena apresentou Fernando a Soares, e os dois retribu\u00edram friamente o cumprimento do estilo. Por que friamente? N\u00e3o \u00e9 que Soares j\u00e1 soubesse do amor que houvera entre sua mulher e Fernando. N\u00e3o quero deixar supor aos leitores uma coisa que n\u00e3o existe. Soares era de natural frio, como um homem cujas preocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m de certas futilidades. Quanto a Fernando, compreende-se bem que n\u00e3o era o mais pr\u00f3prio a cumprimentar calorosamente o marido de sua ex-amada.<\/p>\n<p>A conversa entre todos foi indiferente e fria; Fernando procurava e requintava nessa indiferen\u00e7a, nos seus parab\u00e9ns a Fernanda e na narra\u00e7\u00e3o que fazia das viagens. Fernanda estava pensativa e respondia por monoss\u00edlabos, sempre com os olhos baixos.<\/p>\n<p>Tinha vergonha de fitar aquele que primeiro lhe possu\u00edra o cora\u00e7\u00e3o, e que era agora o remorso vivo do seu amor passado.<\/p>\n<p>Madalena procurava conciliar tudo, aproveitando a indiferen\u00e7a de Fernando para estabelecer uma intimidade sem perigo entre as duas almas que um terceiro divorciara.<\/p>\n<p>Quanto a Soares, esse, t\u00e3o frio como os outros, dividia a sua aten\u00e7\u00e3o entre os interlocutores e a pr\u00f3pria pessoa. A um esp\u00edrito atilado bastavam dez minutos para conhecer a fundo o car\u00e1ter de Soares. Fernando no fim de dez minutos sabia com que homem lidava.<\/p>\n<p>A visita durou pouco menos do que costumava. Madalena tinha por costume conduzir sua filha \u00e0 casa todas as vezes que esta a visitava. Desta vez, quando Soares a convidou a tomar lugar no carro, Madalena pretextou um ligeiro inc\u00f4modo e pediu desculpa. Fernando compreendeu que Madalena n\u00e3o queria exp\u00f4-lo a ir tamb\u00e9m levar Fernanda at\u00e9 \u00e0 casa; interrompeu a desculpa de Madalena e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o vai, minha m\u00e3e? \u00c9 perto a casa, creio eu&#8230;<\/p>\n<p>E dizendo isto interrogou Soares com o olhar.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 perto, \u00e9, disse este.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o! continuou Fernando; vamos todos, e depois voltamos n\u00f3s. N\u00e3o quer?<\/p>\n<p>Madalena olhou para Fernando, estendeu-lhe a m\u00e3o e com um olhar de agradecimento respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim!<\/p>\n<p>\u2014 Devo acrescentar que eu n\u00e3o posso ir j\u00e1. Tenho de ir buscar uma resposta daqui a meia hora; mas apenas estiver livre l\u00e1 vou ter.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem, disse Soares.<\/p>\n<p>Fernando informou-se da situa\u00e7\u00e3o da casa, e despediu-se dos tr\u00eas, que entraram para o carro e apartaram-se.<\/p>\n<p>A m\u00e3o de Fernanda tremia quando esta a estendeu ao mo\u00e7o. A dele n\u00e3o; parece que a maior indiferen\u00e7a reinava naquele cora\u00e7\u00e3o. Fernanda ao sair n\u00e3o p\u00f4de deixar de soltar um suspiro.<\/p>\n<p>Fernando n\u00e3o tinha resposta alguma a ir buscar. N\u00e3o queria utilizar-se de objeto algum que pertencesse a Soares e Fernanda; desejava trazer sua m\u00e3e, mas em carro que n\u00e3o fosse daquele casal.<\/p>\n<p>Com efeito, depois de deixar correr o tempo, para verossimilhan\u00e7a do pretexto, vestiu-se e saiu. Chamou o primeiro carro que encontrou e tomou a dire\u00e7\u00e3o da casa de Soares.<\/p>\n<p>A\u00ed o esperavam para tomar ch\u00e1.<\/p>\n<p>Fernando mordeu os bei\u00e7os quando lhe declararam isto; mas, cobrando o sangue-frio, disse que n\u00e3o podia aceitar, visto ter j\u00e1 tomado ch\u00e1 com a pessoa de quem fora buscar a resposta.<\/p>\n<p>N\u00e3o escapou a Madalena o motivo das duas recusas, a do carro e a do ch\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c0s dez horas e meia Madalena e Fernando estavam de volta para casa.<\/p>\n<p>Passaram-se vinte dias depois destas cenas, e sempre que elas se repetiam Fernando era o mesmo, respeitoso, frio e indiferente.<\/p>\n<p>Madalena, tranq\u00fcila at\u00e9 certo ponto, sentia profundamente que Fernando n\u00e3o voltasse \u00e0 franca alegria dos tempos passados. E para fazer-lhe entrar alguma nova luz no esp\u00edrito, a boa m\u00e3e instava com ele para que entremeasse os estudos e os trabalhos de sua profiss\u00e3o com alguns divertimentos pr\u00f3prios da mocidade.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o passeias? Por que n\u00e3o vais aos bailes? Por que n\u00e3o freq\u00fcentas as reuni\u00f5es a que \u00e9s convidado? Por que foges do teatro, de tudo o que a mocidade procura e precisa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho g\u00eanio para essa vida agitada. A solid\u00e3o \u00e9 t\u00e3o boa! &#8230;<\/p>\n<p>Enfim, um dia Madalena conseguiu que Fernando fosse ao teatro lirico com ela. Cantava-se a Favorita. Fernando ouviu pensativo e absorto aquela m\u00fasica que em tantos lugares fala \u00e0 alma e ao cora\u00e7\u00e3o. O ato final sobretudo deixou-o comovido. Estas distra\u00e7\u00f5es repetiram-se algumas vezes.<\/p>\n<p>De concess\u00e3o em concess\u00e3o, Fernando achou-se repentinamente freq\u00fcentando com assiduidade os bailes, os teatros e as reuni\u00f5es. O tempo e as distra\u00e7\u00f5es iam apagando no esp\u00edrito de Fernando os \u00faltimos vest\u00edgios de um destes ressentimentos que, em certo grau, \u00e9 amor disfar\u00e7ado.<\/p>\n<p>J\u00e1 se aproximava de Fernanda sem como\u00e7\u00e3o nem acanhamento: sua indiferen\u00e7a era mais espont\u00e2nea e natural.<\/p>\n<p>Afinal de contas, pensava ele, aquele cora\u00e7\u00e3o, t\u00e3o vol\u00favel e estouvado, n\u00e3o devia ser meu; a trai\u00e7\u00e3o mais tarde seria mais funesta.<\/p>\n<p>Esta reflex\u00e3o filos\u00f3fica era sincera e denotava bem como a raz\u00e3o dominava j\u00e1, no esp\u00edrito de Fernando, as mem\u00f3rias saudosas do passado.<\/p>\n<p>Mas Fernanda? Oh! o estado dessa era outro. Aturdida a princ\u00edpio com a vista de Fernando; um pouco arrependida depois, quando lhe pareceu que Fernando morria de dor e pesar; mais tarde, despeitada, vendo e conhecendo a indiferen\u00e7a que respiravam as maneiras e as palavras dele; finalmente combatida por mil sentimentos diversos, o despeito, o remorso, a vingan\u00e7a; desejando fugir-lhe e sentindo-se arrastada para o homem que desprezara; vitima de um conflito entre o arrependimento e a vaidade, a esposa de Soares sentiu que se operava uma revolu\u00e7\u00e3o no seu esp\u00edrito e na sua vida.<\/p>\n<p>Em mais de uma ocasi\u00e3o Fernanda fizera sentir, em palavras, em olhares, em suspiros, em retic\u00eancias, o estado do seu cora\u00e7\u00e3o. Mas Fernando, a quem j\u00e1 n\u00e3o causava como\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a de Fernanda, n\u00e3o dava f\u00e9 das revela\u00e7\u00f5es, \u00e0s vezes demasiado eloq\u00fcentes, da esposa do pintalegrete.<\/p>\n<p>Mas quem dava f\u00e9 era o pintalegrete. Sem dispor de grande atilamento, o jovem Soares chegara a perceber que o esp\u00edrito de sua mulher sofria alguma altera\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou a suspeita pela indiferen\u00e7a com que Fernanda o acompanhara na discuss\u00e3o dos m\u00e9ritos de duas novas qualidades de posturas do rosto, assunto grave, em que Soares desenvolvia riquezas de dial\u00e9tica e grande soma de eleva\u00e7\u00e3o. Prestou mais aten\u00e7\u00e3o e convenceu-se de que Fernanda tinha alguma coisa no esp\u00edrito que n\u00e3o era a pessoa dele, e como marido previdente, tratou de indagar o motivo e o objeto da preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seus esfor\u00e7os foram v\u00e3os ao princ\u00edpio. Despeitado interrogou Fernanda, mas esta n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o o iluminou na d\u00favida, sen\u00e3o que o desconcertou com uma ap\u00f3strofe de simulada indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Soares julgou dever-se recolher aos quart\u00e9is da expectativa.<\/p>\n<p>Estavam as coisas neste p\u00e9 quando o parente de Madalena que levara Fernando \u00e0 Europa deu um sarau por motivo do anivers\u00e1rio de sua mulher.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 Fernando, como Soares e Fernanda, foram convidados para aquele sarau.<\/p>\n<p>Fernando, como disse, j\u00e1 ia a essas reuni\u00f5es por vontade pr\u00f3pria e natural desejo de aviventar o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Neste alguma coisa mais o esperava, al\u00e9m da simples e geral distra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando Fernando chegou ao sarau, seriam onze horas da noite, cantava ao piano uma mo\u00e7a de 22 anos, alta, p\u00e1lida, de olhos e cabelos pretos, a quem chamavam todos Teresa.<\/p>\n<p>Fernando chegou a tempo de ouvir toda a can\u00e7\u00e3o que a mo\u00e7a cantou, inspirada e febril.<\/p>\n<p>Quando ela acabou, um murm\u00fario de aprova\u00e7\u00e3o soou em toda a assembl\u00e9ia, e no meio da confus\u00e3o em que o entusiasmo deixara todos, Fernando, mais instintiva que voluntariamente, atravessou a sala e foi dar o bra\u00e7o a Teresa para conduzi-la \u00e0 sua cadeira.<\/p>\n<p>Nesse momento o anjo dos destinos escrevera no livro dos amores mais um amor, o de Teresa e Fernando.<\/p>\n<p>O s\u00fabito efeito produzido no cora\u00e7\u00e3o de Fernando pelo canto de Teresa n\u00e3o foi s\u00f3 resultado da magia e do sentimento com que esta cantara. Durante as primeiras notas, isto \u00e9, quando a alma de Teresa ainda se n\u00e3o tinha derramado toda na voz argentina e apaixonada, Fernando p\u00f4de conversar com alguns rapazes a respeito da cantora. Disseram-lhe que era uma donzela desprezada no amor que votara a um homem; profetizaram a paix\u00e3o com que ela cantaria, e por fim indicaram-lhe, a um lado da sala, a figura indiferente ou antes zombeteira do traidor daquele cora\u00e7\u00e3o. A identidade das situa\u00e7\u00f5es e dos sentimentos foi o primeiro elo da simpatia de Fernando para com Teresa. O canto confirmou e desenvolveu a primeira impress\u00e3o. Quando Teresa acabou, Fernando n\u00e3o se p\u00f4de ter e foi prestar-lhe o apoio do seu bra\u00e7o para voltar \u00e0 cadeira que ficava junto de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Durante a noite Fernando sentiu-se mais e mais impressionado pela bela desdenhada. No fim do sarau estava decidido. Devia amar aquela mulher e fazer-se amar por ela.<\/p>\n<p>Mas como? Ainda no cora\u00e7\u00e3o de Teresa existia alguma coisa da flama antiga. Era aquele o estado em que o seu cora\u00e7\u00e3o ficou logo desde que soube da perf\u00eddia de Fernanda. O mo\u00e7o contava com o apaziguamento da primeira paix\u00e3o, de modo que um dia os dois cora\u00e7\u00f5es desprezados se ligassem em um mesmo amor e envergonhassem por uma uni\u00e3o sincera aqueles que os n\u00e3o tinham compreendido.<\/p>\n<p>Esta nova mudan\u00e7a no esp\u00edrito de Fernando escapou, a princ\u00edpio, \u00e0 mulher de Soares. Devo diz\u00ea-lo, se ainda algum leitor n\u00e3o o compreendeu, que Fernanda estava de novo apaixonada por Fernando; mas agora era um amor ego\u00edsta, calculado, talvez misturado de remorso, um amor com que ela pretendia, resgatando a culpa, quebrar de uma vez a justa indigna\u00e7\u00e3o do seu primeiro amante.<\/p>\n<p>N\u00e3o reparando o mo\u00e7o nas retic\u00eancias, nos suspiros, nos olhares, em todos esses an\u00fancios do amor, ficando insens\u00edvel \u00e0s mudas revela\u00e7\u00f5es da esposa de Soares, resolveu esta ser mais expl\u00edcita um dia em que conversava a s\u00f3s com Fernando.<\/p>\n<p>Era um mau passo que dava, e em sua consci\u00eancia de mulher casada, Fernanda conhecia o erro e temia as conseq\u00fc\u00eancias. Mas o amor pr\u00f3prio leva longe quando se apossa do cora\u00e7\u00e3o humano. Fernanda, depois de hesitar um pouco, determinou-se a tentar o seu projeto. Fernando foi de bronze. Quando a conversa\u00e7\u00e3o tomou um caminho mais positivo, Fernando fez-se s\u00e9rio e declarou \u00e0 mulher de Soares que n\u00e3o podia am\u00e1-la, que o seu cora\u00e7\u00e3o estava morto, e que, mesmo que revivesse, seria pela a\u00e7\u00e3o de um h\u00e1lito mais puro, \u00e0 luz de um olhar mais sincero.<\/p>\n<p>Dito isto, retirou-se. Fernanda n\u00e3o desesperou. Pensou que a const\u00e2ncia seria uma arma poderosa, e acreditou que s\u00f3 no romance ou na com\u00e9dia podiam existir tais firmezas de car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Esperou.<\/p>\n<p>Esperou em v\u00e3o.<\/p>\n<p>O amor de Fernando por Teresa crescia mais e mais; Teresa atravessava, uma por uma, as fases por que passara o cora\u00e7\u00e3o de Fernando. Era outra; o tempo trouxe o desprezo e o esquecimento. Uma vez esquecido o primeiro amor, que restava mais? Cicatrizar as feridas adquiridas no combate; e que melhor meio de cicatriz\u00e1-las que aceitando o concurso de uma m\u00e3o amiga e simp\u00e1tica? Tais foram os preliminares do amor de Fernando e Teresa. O conforto comum trouxe a afei\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. Um dia descobriu Teresa que amava aquele homem. Quando dois cora\u00e7\u00f5es se querem entender, ainda que falem hebraico, descobrem-se logo um ao outro. No fim de algum tempo foi jurada entre ambos uma sincera e eterna fidelidade.<\/p>\n<p>Fernanda n\u00e3o foi das \u00faltimas a saber da nova paix\u00e3o de Fernando. Desesperou. Se o cora\u00e7\u00e3o entrava por pouco no amor que confessara ao m\u00e9dico, se era mais o amor-pr\u00f3prio a raz\u00e3o de ser dessa paix\u00e3o culpada, foi ainda o amor-pr\u00f3prio, e mais indom\u00e1vel, que se apoderou do esp\u00edrito de Fernanda e induziu-a a queimar o \u00faltimo cartucho.<\/p>\n<p>Desgra\u00e7adamente, nem o primeiro nem o \u00faltimo cartucho eram de incendiar, com um fogo criminoso, o cora\u00e7\u00e3o de Fernando. O car\u00e1ter de Fernando era mais elevado que o dos homens que rodeavam a esposa de Soares, de maneira que, supondo dominar, Fernanda achou-se dominada e humilhada.<\/p>\n<p>Neste ponto devo transcrever uma carta de Fernando ao parente em cuja casa vira Teresa pela primeira vez.<\/p>\n<p>Meu bom amigo, dizia ele, est\u00e1 na sua m\u00e3o concorrer para a minha felicidade, ou antes complet\u00e1-la, porque foi em sua casa que eu comecei a adquiri-la.<\/p>\n<p>Sabe que amo a D. Teresa, aquela interessante mo\u00e7a abandonada no amor que votava ao F&#8230; Conhece ainda a hist\u00f3ria do meu primeiro amor. Somos dois cora\u00e7\u00f5es igualados pelo infort\u00fanio; o amor pode completar a nossa fraternidade.<\/p>\n<p>E deveras nos amamos, nada se pode opor \u00e0 minha felicidade; o que eu desejo \u00e9 que me ajude neste neg\u00f3cio, assistindo o meu acanhamento com o seu conselho e a sua media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tenho \u00e2nsia de ser feliz \u00e9 a melhor ocasi\u00e3o; entrever, por uma porta aberta, as gl\u00f3rias do para\u00edso, sem fazer um esfor\u00e7o para gozar da luz eterna, fora loucura. N\u00e3o quero para o futuro um remorso e uma dor.<\/p>\n<p>Conto que as minhas aspira\u00e7\u00f5es sejam satisfeitas e que eu tenha mais um motivo de ser-lhe eternamente grato. \u2014 Fernando.<\/p>\n<p>Da\u00ed a dois dias, gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do referido parente, que ali\u00e1s fora desnecess\u00e1ria, Teresa estava prometida a Fernando.<\/p>\n<p>O \u00faltimo lance desta simples narrativa passou-se em casa de Soares.<\/p>\n<p>Soares, mais e mais desconfiado, lutava com Fernanda para conhecer as disposi\u00e7\u00f5es do seu cora\u00e7\u00e3o e as determina\u00e7\u00f5es de sua vontade. Andava escuro o c\u00e9u daquele casamento, realizado sob t\u00e3o maus ausp\u00edcios. Desde muito que a tranq\u00fcilidade desaparecera dali, deixando o desgosto, o t\u00e9dio, a desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Se eu soubera, dizia Soares, que no fim de t\u00e3o pouco tempo a senhora me faria beber fel e vinagre, n\u00e3o teria prosseguido em uma paix\u00e3o que foi o meu castigo.<\/p>\n<p>Fernanda, muda e distra\u00edda, mirava-se de quando em quando em um psych\u00e9, corrigindo o penteado ou simplesmente admirando a esquivan\u00e7a desarrazoada de Fernando.<\/p>\n<p>Soares insistia no mesmo tom meio sentimental.<\/p>\n<p>Afinal, Fernanda respondia desabridamente, exprobrando-lhe o insulto que fazia \u00e0 sinceridade dos seus protestos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas esses protestos, disse Soares, \u00e9 que eu n\u00e3o ou\u00e7o; \u00e9 exatamente o que eu pe\u00e7o; jure que eu estou em erro e fico contente. H\u00e1 uma hora que lho digo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 em erro.<\/p>\n<p>\u2014 Fernanda, juras-me isso?<\/p>\n<p>\u2014 Juro, sim&#8230;<\/p>\n<p>Entrou um escravo com uma carta para Fernanda; Soares deitou um olhar para o sobrescrito e reconheceu a letra de Fernando. Contudo, depois do juramento de Fernanda n\u00e3o quis ser o primeiro a ler a carta, esperou que ela come\u00e7asse.<\/p>\n<p>Mas Fernanda, estremecendo \u00e0 vista da letra e do mimo do papel, guardou a carta, mandando embora o escravo.<\/p>\n<p>\u2014 De quem \u00e9 essa carta?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 de mam\u00e3e.<\/p>\n<p>Soares estremeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o a l\u00eas?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei o que \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! \u00e9 demais!<\/p>\n<p>E levantando-se de sua cadeira dirigiu-se para Fernanda.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ler essa carta.<\/p>\n<p>\u2014 Depois&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; h\u00e1 de ser j\u00e1!<\/p>\n<p>Fernanda resistiu, Soares insistiu. Depois de algum tempo viu Fernanda que lhe era imposs\u00edvel guardar a carta. E por que a guardaria? Fernanda cuidava ainda que, melhor avisado, Fernando voltasse a aceitar o cora\u00e7\u00e3o ofertado e recusado. A vaidade produzia este erro.<\/p>\n<p>Aberta a carta, eis o que Soares leu:<\/p>\n<p>Mana. S\u00e1bado dezessete caso-me eu com D. Teresa G&#8230; \u00c9 um casamento de amor. Pe\u00e7o-lhe que d\u00ea parte disto a meu cunhado, e que ambos venham ornar a pequena festa desta uni\u00e3o. Seu irm\u00e3o. \u2014 Fernando.<\/p>\n<p>A decep\u00e7\u00e3o de Fernanda foi grande. Mas p\u00f4de dissimul\u00e1-la algum tempo; Soares vendo o conte\u00fado da carta e acreditando que sua mulher apenas quisera entret\u00ea-lo com um engano, pagou-lhe em beijos e car\u00edcias a felicidade que semelhante descoberta lhe deu.<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil dizer que Fernanda n\u00e3o foi assistir ao casamento de Fernando e Teresa. Pretextou mol\u00e9stia e l\u00e1 n\u00e3o p\u00f4s os p\u00e9s. Nem por isso a festa foi menos brilhante. Madalena estava feliz e contente vendo o contentamento e a felicidade de seu filho.<\/p>\n<p>Da\u00ed para c\u00e1, vai para tr\u00eas anos, o casamento de Fernando e Teresa \u00e9 um para\u00edso, em que ambos, novo Ad\u00e3o e nova Eva, gozam da paz do esp\u00edrito, sem interven\u00e7\u00e3o da serpente nem conhecimento do fruto do mal.<\/p>\n<p>N\u00e3o menos feliz \u00e9 o casal Soares, ao qual voltaram, depois de algum tempo, os dias saudosos da pieguice e da puerilidade.<\/p>\n<p>Se algum leitor achar esta hist\u00f3ria muito nua de interesse, reflita nestas palavras que Fernando repete aos amigos que costumam visit\u00e1-lo:<\/p>\n<p>\u2014 Consegui uma das coisas mais raras no mundo: a perfeita conformidade das inten\u00e7\u00f5es e dos sentimentos entre duas criaturas, t\u00e3o longe educadas e tanto tempo separadas e desconhecidas uma para outra. \u00c9 que aprenderam na escola do infort\u00fanio.<\/p>\n<p>V\u00ea-se, ao menos nisto, uma m\u00e1xima em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1866 Tinham os mesmos nomes. Cresceram juntos, \u00e0 sombra do mesmo amor materno. Ele era \u00f3rf\u00e3o, e a m\u00e3e dela, que o amava como se ele fora seu filho, tomou-o para si, e reuniu os dois debaixo do mesmo olhar e dentro do mesmo cora\u00e7\u00e3o. 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