{"id":115865,"date":"2017-03-27T19:12:04","date_gmt":"2017-03-27T21:12:04","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115865"},"modified":"2017-03-27T19:12:04","modified_gmt":"2017-03-27T21:12:04","slug":"encher-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/encher-tempo","title":{"rendered":"Encher Tempo"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>I<\/h2>\n<p>A tarde era uma tarde de dezembro \u2014 trovejada como elas eram h\u00e1 trinta anos, quando o c\u00e9u parecia querer vir abaixo, desfeito em raios e \u00e1gua. O calor fora excessivo durante a manh\u00e3 toda; \u00e0s duas horas, o c\u00e9u come\u00e7ou a enegrecer, \u00e0s tr\u00eas e meia, desfechou a tormenta que pouca gente apanhou na rua, porque esta sagaz popula\u00e7\u00e3o fluminense, contando com ela, houve-se de modo que estava toda recolhida na ocasi\u00e3o. Os que eram sinceramente piedosos acenderam uma vela benta diante do orat\u00f3rio e rezaram uma ladainha puxada pela dona da casa e respondida por toda a fam\u00edlia; outros envolviam-se em cobertores de l\u00e3, outros viam cair a chuva; ningu\u00e9m, absolutamente ningu\u00e9m andava por fora.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m, digo mal; uma s\u00f3 pessoa talvez, aventurara-se a andar na rua, em t\u00e3o desabrida tarde; era um rapaz de cerca de dezoito anos com princ\u00edpios de barba, alto e amorenado, que seguia da praia da Gamboa e entrava na Rua do Livramento. Ia embu\u00e7ado num capote pardo, e tinha um guarda-chuva aberto, felizmente largo, mas que, ainda assim, mal lhe preservava o corpo; todo o capote da cintura para baixo ia alagado; os p\u00e9s nadavam-lhe dentro de um par de sapatos de bezerro. Vencida a praia da Gamboa, entrou o mo\u00e7o em uma das ruas transversais que v\u00e3o dar \u00e0 do Livramento; ali teve que passar contra a corrente, um rio de \u00e1gua barrenta que descia, gra\u00e7as ao declive do solo. Enfim, meteu-se pela Rua do Livramento, e apertando mais o passo p\u00f4de chegar a salvo a uma casa assobradada, de tr\u00eas janelas, em cujo corredor entrou. Ao depois de fechar a muito custo o guarda-chuva, p\u00f4de ouvir, nos intervalos dos trov\u00f5es, as vozes da fam\u00edlia que cantava uma ladainha a Nossa Senhora. O mo\u00e7o n\u00e3o quis bater \u00e0 porta, e antes de acabada a reza, deixou-se ficar, no corredor, a ver cair a chuva, a ouvir os trov\u00f5es, benzendo-se, quando os rel\u00e2mpagos eram mais fortes.<\/p>\n<p>A trovoada daquela tarde n\u00e3o durou muito; trinta e cinco minutos apenas. Logo que acabou, cessou dentro a reza, e o rapaz bateu \u00e0 porta de mansinho. Havia escrava para abrir a porta, mas a dona da casa veio em pessoa; \u2014 n\u00e3o queria saber quem era, porque adivinhava bem quem podia ser, mas abra\u00e7ar o mo\u00e7o e \u201c.<\/p>\n<p>O abra\u00e7o foi cordial e verdadeiramente de m\u00e3e, e n\u00e3o menos cordial e materna foi a repreens\u00e3o que logo em seguida lhe deu.<\/p>\n<p>\u2014 Entra, maluco! exclamou a sra. D. Emiliana da Purifica\u00e7\u00e3o Mendes. Olhem em que estado vem isto?&#8230; Deixar-se ficar na rua com semelhante tempo!&#8230; E as constipa\u00e7\u00f5es e as t\u00edsicas&#8230; Deus me perdoe! Mas c\u00e1 est\u00e1 a m\u00e3e para cuidar da doen\u00e7a&#8230; e o dinheiro para a botica&#8230; e os inc\u00f4modos&#8230; tudo para que este senhorzinho ande por fora a trocar as pernas, como um vadio que \u00e9&#8230; Deixa estar! eu n\u00e3o hei de durar sempre, h\u00e1s de ver depois o que s\u00e3o elas!&#8230; Por ora \u00e9 muito bom cama e mesa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e, articulou o rapaz, deixe-me ir mudar a roupa; estou todo molhado.<\/p>\n<p>\u2014 Vai, vai, troou a sra. D. Emiliana, c\u00e1 tens a tua criadinha para te dar roupa lavada e enxuta, meias para os p\u00e9s, e os suadouros. Anda, pelintra! sai daqui! Este mon\u00f3logo durou ainda cerca de quinze minutos; a diferen\u00e7a era que, se D. Emiliana at\u00e9 ent\u00e3o falara somente, dali em diante falava e tirava a roupa dos gavet\u00f5es da c\u00f4moda e ia p\u00f4r tudo na alcova do filho, intercalando os adjetivos de censura com algumas recomenda\u00e7\u00f5es higi\u00eanicas, a saber, que n\u00e3o deixasse enxugar a roupa no corpo, que esfregasse os p\u00e9s com aguardente e n\u00e3o esquecesse cal\u00e7ar as meias de l\u00e3. Duas mocinhas, uma de quinze, outra de dezesseis anos, e um menino de oito, ajudavam a m\u00e3e, calados e medrosos, posto estivessem acostumados \u00e0s explos\u00f5es de dona Emiliana temperadas por enfraquecimentos de ternura.<\/p>\n<p>As duas trovoadas passaram de todo; e tanto o c\u00e9u como o rosto de D. Emiliana voltaram \u00e0 serenidade anterior. Vestido, cal\u00e7ado e agasalhado, saiu da alcova o rapaz, e foi direitinho beijar a m\u00e3o da m\u00e3e, e dar-lhe um abra\u00e7o, que ela recusou a princ\u00edpio, talvez por um sentimento de coquetice materna, que a fazia encantadora.<\/p>\n<p>\u2014 Mano Pedro n\u00e3o tem ju\u00edzo, n\u00e3o \u2014 dizia uma das mo\u00e7as, ficar por fora com este tempo!&#8230; E mam\u00e3e a esperar por ele para jantar.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, nem me lembrava disso! exclamou D. Emiliana. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que me fazes esse desaforo! Pedro viu iminente nova trovoada; e com arte e jeito arredou as nuvens amea\u00e7adoras. O que ele disse foi que, a inst\u00e2ncias do padre S\u00e1, jantara em casa dele.<\/p>\n<p>\u2014 Fizeste muito bem, aprovou a m\u00e3e; mas o que eu duvido \u00e9 que, se lhe dissesses que eu n\u00e3o gosto de que jantes fora, ele teimasse no convite.<\/p>\n<p>\u2014 Teimou.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa estar, concluiu a m\u00e3e; eu saberei disso na missa de domingo.<\/p>\n<p>Com esta amea\u00e7a terminou de todo o mau tempo dom\u00e9stico. O atmosf\u00e9rico havia j\u00e1 acabado. As irm\u00e3s de Pedro, Cec\u00edlia e Lu\u00edsa, foram para a janela; o irm\u00e3o pequeno, Lu\u00eds, fez umas quatro canoas de papel e mandou p\u00f4-las na \u00e1gua das sarjetas da rua, indo ele v\u00ea-las da porta; enquanto D. Emiliana dava ordem para a merenda, e Pedro relia uma tradu\u00e7\u00e3o de Gil Br\u00e1s.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>A leitura de Gil Br\u00e1s n\u00e3o durou muito tempo, se \u00e9 que durou algum, porque at\u00e9 hoje n\u00e3o est\u00e1 averiguado que o jovem Pedro tivesse naquela tarde o esp\u00edrito na mesma dire\u00e7\u00e3o dos olhos. Os olhos corriam pelo papel e a m\u00e3o voltava t\u00e3o regularmente a p\u00e1gina que era dif\u00edcil dizer que eles n\u00e3o liam. H\u00e1 todavia raz\u00f5es para crer que o esp\u00edrito vagueava distante do livro. Pois \u00e9 pena que fizesse dessas escapulas, deixando um corpo gentil, como era o dele, forte, sadio, e gracioso sem afeta\u00e7\u00e3o; sobretudo, n\u00e3o se compreende que o esp\u00edrito de Pedro n\u00e3o quisesse acompanhar no papel aquele par de olhos rasgados em forma de am\u00eandoa, escuros e luminosos; uns olhos que tinham feito pecar a mais de uma mo\u00e7a do bairro, que o padre S\u00e1 namorava para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>A noite veio clara e estrelada; e n\u00e3o tardou que a lua batesse de chapa nos telhados e cal\u00e7adas \u00famidas da chuva da tarde. D. Emiliana foi fazer meia na sala de costura, \u00e0 luz de duas velas de espermacete, enquanto Lu\u00eds recordava a li\u00e7\u00e3o, as meninas cosiam, e Pedro lia em voz alta uma novela que a m\u00e3e interrompia com reflex\u00f5es substanciais de moral e disciplina.<\/p>\n<p>No meio deste quadro caseiro, bateram \u00e0 porta, e um escravo veio dizer que estava ali o padre S\u00e1! Leitura e costura foram interrompidas; D. Emiliana tirou os \u00f3culos de prata e levantou-se \u00e0 pressa tanto quanto permitia o anafado das formas, e saiu a receber a visita. Pedro acompanhou-a com igual solicitude.<\/p>\n<p>\u2014 Seja muito bem aparecido, reverendo! disse D. Emiliana, beijando a m\u00e3o ao padre e convidando-o a entrar na sala. H\u00e1 mais de dois meses que n\u00e3o nos d\u00e1 o prazer e a honra de vir aben\u00e7oar as suas devotas.<\/p>\n<p>\u2014 Deus as h\u00e1 de ter aben\u00e7oado como merecem, respondeu o padre S\u00e1.<\/p>\n<p>J\u00e1 a este tempo tinha o escravo acendido as arandelas da sala de visitas, onde o padre entrou logo depois, encostando a bengala a um canto e pondo o chap\u00e9u sobre uma cadeira. As meninas vieram beijar a m\u00e3o ao sacerdote; D. Emiliana conduziu-o para o sof\u00e1; toda a fam\u00edlia o rodeou.<\/p>\n<p>Passei por aqui, disse o sacerdote, e lembrou-me vir saber se o nosso Pedro apanhou a grande chuva desta tarde.<\/p>\n<p>\u2014 Toda, padre-mestre, respondeu o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Logo vi; teimou em vir apesar de lhe dizer que n\u00e3o tinha tempo de chegar a casa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Valeu-me o seu capote.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o havia de valer muito.<\/p>\n<p>\u2014 Chegou, deveras, todo molhado, observou D. Emiliana. E uma vez que o sr. padre te pedia que ficasses, devias ter ficado.<\/p>\n<p>\u2014 A resposta que ele me deu \u00e9 que a senhora estaria assustada, supondo que algum desastre&#8230; Aprovei-o, quando lhe ouvi esta raz\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Emiliana olhou para o filho com ternura. Aquele olhar vingara-o da repreens\u00e3o com que fora recebido. A conversa versou sobre assuntos gerais, mas todos de devo\u00e7\u00e3o e caridade. Tratou da pr\u00f3xima festa do Natal; veio a p\u00ealo mostrar ao padre S\u00e1 a toalha que D. Emiliana pretendia oferecer para o altar de Nossa Senhora das Dores, rica toalha de linho com entremeio de crivo e babadinhos de renda, n\u00e3o bruxelas nem malines, mas obra toda das m\u00e3os da prendada devota. Devota, era-o ela no verdadeiro e puro sentido da palavra, e nunca se dera mal com isso.<\/p>\n<p>Esgotados aqueles assuntos, o padre S\u00e1 disse a D. Emiliana que tinha de lhe falar sobre coisas de igual natureza, mas que pediam menos publicidade. A dona da casa fez retirar os filhos.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe ficar o Pedro, disse baixinho o padre; ele n\u00e3o \u00e9 demais.<\/p>\n<p>Ficaram os tr\u00eas. Dona Emiliana, cuja curiosidade estava agu\u00e7ada, arregalou os olhos e preparou os ouvidos para saber que assunto era aquele que exigia confer\u00eancia particular.<\/p>\n<p>Algum pecado seria, alguma culpa, embora venial, do seu querido Pedro? O padre S\u00e1 n\u00e3o lhe deu muito tempo \u00e0s reflex\u00f5es, porque, mal a porta da sala se fechou, concluiu uma pitada come\u00e7ada e falou nestes termos: \u2014 D. Emiliana, conhe\u00e7o-a h\u00e1 alguns anos, e tenho-a sempre visto pontual no servi\u00e7o de Deus, e zelosa no cumprimento dos seus deveres de crist\u00e3 e cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>\u2014 Espero em Deus que me n\u00e3o h\u00e1 de desamparar, disse D. Emiliana, curvando a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 de qu\u00ea, ele nunca desampara os bons&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas que ser\u00e1, reverend\u00edssimo? Dar-se-\u00e1 caso que o meu Pedro&#8230;<\/p>\n<p>Dizendo isto, D. Emiliana voltou a cabe\u00e7a para o filho, que lhe ficava \u00e0 esquerda e tinha os olhos no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 O seu Pedro, interrompeu o padre S\u00e1, tem cora\u00e7\u00e3o assaz largo para amar a duas m\u00e3es; a senhora e a Igreja. A Igreja n\u00e3o obriga ningu\u00e9m, mas aceita, chama e recebe os homens de boa vontade. Ora, eu tenho visto que h\u00e1 em seu filho tal ou qual tend\u00eancia para a vida eclesi\u00e1stica; estuda latim comigo, dou-lhe li\u00e7\u00f5es de teologia, que ele ouve com grande aproveitamento; pode seguir curso regular e estou que h\u00e1 de dar um bom padre. Est\u00e1 nas m\u00e3os de Deus e nas dele chegar a bispo.<\/p>\n<p>As palavras do padre S\u00e1 causaram alguma estranheza em D. Emiliana, e a boa senhora n\u00e3o respondeu imediatamente. A educa\u00e7\u00e3o que dera ao filho fora toda religiosa e pia; contudo, estava longe de supor-lhe t\u00e3o claros sinais de voca\u00e7\u00e3o sacerdotal \u2014 isto quanto \u00e0s anteced\u00eancias. Quanto \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias, n\u00e3o as p\u00f4de calcular logo; mas, al\u00e9m de recear que o filho n\u00e3o desse um bom sacerdote, como ela desejava que fosse, acrescia que tinha assentadas algumas id\u00e9ias totalmente outras. Um seu irm\u00e3o, comerciante de grosso trato, prometera-lhe admiti-lo na casa e faz\u00ea-lo s\u00f3cio dentro de alguns anos. D.<\/p>\n<p>Emiliana era filha de negociante e vi\u00fava de negociante; tinha ardente desejo de continuar a dinastia comercial.<\/p>\n<p>Ao cabo de alguns minutos de reflex\u00e3o, respondeu ao padre S\u00e1 que teria imenso gosto em que o filho fosse consagrado ao servi\u00e7o da Igreja, mas que, entretanto, era obrigada a consultar seu irm\u00e3o, com quem planeara coisa diferente daquela.<\/p>\n<p>\u2014 Conhe\u00e7o seu irm\u00e3o, disse o padre, vi-o algumas vezes; estou persuadido de que dar\u00e1 resposta razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Nem lhe quero negar, continuou D. Emiliana, que n\u00e3o imaginava da parte de Pedro esse desejo de fazer-se padre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pergunte-lho.<\/p>\n<p>Pedro n\u00e3o esperou a pergunta; confessou que o padre S\u00e1 lhe dava li\u00e7\u00f5es de teologia e que ele gostava muito de as ouvir.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o quereria dizer a sua missa? perguntou o padre sorrindo benevolamente.<\/p>\n<p>\u2014 Queria, articulou Pedro.<\/p>\n<p>Aceitou-se que a resposta seria dada alguns dias depois; ficando igualmente aprovado um aditivo de Pedro para que, independente da resposta, continuassem as li\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas do padre S\u00e1. D. Emiliana aceitou o aditivo com este popular axioma: \u2014 O saber n\u00e3o ocupa lugar.<\/p>\n<p>O padre S\u00e1 extraiu da caixa uma nova pitada e deu as boas noites \u00e0 fam\u00edlia, e mais as b\u00ean\u00e7\u00e3os do costume, sendo acompanhado at\u00e9 \u00e0 porta pelas senhoras, e at\u00e9 \u00e0 Gamboa, onde morava, pelo filho de D. Emiliana.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero viol\u00eancia, dizia em caminho o padre; examine-se ainda uma vez e diga-me depois se \u00e9 resolu\u00e7\u00e3o sua tomar ordens. O que eu quero \u00e9 que me saia padre moral, instru\u00eddo e religioso, entendeu? Parece-me que a sua voca\u00e7\u00e3o \u00e9 essa, e cada um de n\u00f3s deve seguir a voca\u00e7\u00e3o que Deus lhe d\u00e1.<\/p>\n<p>Pedro deixou o padre S\u00e1 \u00e0 porta da casa e voltou-se para a Rua do Livramento. Da praia, via a lua bater no mar, e ergueu os olhos para o c\u00e9u coalhado de estrelas. A fronte ficou pensativa; e o mo\u00e7o parou durante alguns instantes. O que ele pensou, naquela ocasi\u00e3o, estando \u00e0 beira do seu destino, n\u00e3o sei. Se a lua soube, n\u00e3o o segredou a pessoa nenhuma.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>O padre S\u00e1 subiu as escadas da casa em que morava, depois de fechar a porta da rua, recebeu uma vela das m\u00e3os de um preto, seu criado, e foi direito ao gabinete, onde tinha os livros, a escrivaninha, uma rede e alguns m\u00f3veis mais. N\u00e3o tirou a batina; era o seu trajo usual, dentro ou fora de casa; considerava-a parte integrante da pessoa eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>O padre S\u00e1 tinha cinq\u00fcenta anos; era de estatura mediana, calvo, com alguns cabelos raros e brancos na nuca em volta da cabe\u00e7a. Os olhos eram azuis, de um azul desmaiado, e ainda com muita luz, mas uma luz suave e penetrante, que dominava e atra\u00eda como o sorriso que lhe pairava freq\u00fcente nos l\u00e1bios. Das palavras que lhe ouvimos, no cap\u00edtulo antecedente, n\u00e3o conclua o leitor que o padre S\u00e1 n\u00e3o tinha alguma hora de bom humor na vida. Sua \u00edndole era jovial; mas ele sabia conciliar a natureza com a austeridade do cargo. Ria, e ami\u00fade, mas um riso honesto e paternal, que era um encanto mais no sacerdote.<\/p>\n<p>Sentou-se o padre em uma vasta cadeira rasa, tirou de cima da mesa o brevi\u00e1rio e leu durante alguns minutos. Deram as nove no rel\u00f3gio da casa; veio o criado saber se o padre queria tomar ch\u00e1; e recebendo resposta afirmativa, voltou pouco depois, trazendolho em uma larga bandeja. O ch\u00e1 era para duas pessoas. Onde est\u00e1 o companheiro do padre? perguntaria a leitora, se n\u00e3o visse apontar \u00e0 porta da saleta a figura risonha e esbelta de uma mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Sua b\u00ean\u00e7\u00e3o, titio, disse a mo\u00e7a caminhando apressadamente para ele; \u2014 demorou-se mais do que me disse. Com um ar t\u00e3o \u00famido! Aposto que ainda n\u00e3o descal\u00e7ou os sapatos? \u2014 N\u00e3o, Lulu, nem \u00e9 preciso, respondeu o padre S\u00e1, pegando-lhe na m\u00e3o. Estou afeito a temporais e umidades. Anda fazer o ch\u00e1, que \u00e9 tempo. Nove horas, n\u00e3o? \u2014 Deram agora.<\/p>\n<p>Lulu aproximou-se da mesa e preparou o ch\u00e1 para o velho padre que a contemplava satisfeito e feliz.<\/p>\n<p>\u2014 Veja se est\u00e1 bom de a\u00e7\u00facar, disse ela entregando-lhe a x\u00edcara.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de estar, como est\u00e1 sempre, respondeu o tio; tanto te acostumaste a servir-me, que nunca h\u00e1 a\u00e7\u00facar, de mais ou menos. Excelente! continuou ele, levando a colherinha \u00e0 boca. Agora faze o teu ch\u00e1 e ouve uma not\u00edcia.<\/p>\n<p>Lulu preparou uma x\u00edcara de ch\u00e1 para si e sentou-se do outro lado da mesa, diante do padre. Era uma deliciosa figurinha delgada e quebradi\u00e7a cintura de vespa, m\u00e3os de crian\u00e7a e sobre tudo isto, uma voz angelical e doce, que adormecia o cora\u00e7\u00e3o. Adormecia \u00e9 a express\u00e3o verdadeira; podia-se viver ao p\u00e9 dela sem que o cora\u00e7\u00e3o pulsasse de amor, t\u00e3o acima e fora da realidade parecia aquela am\u00e1vel criatura. N\u00e3o havia fogo em seus olhos claros e serenos; havia luz somente, luz branda como a de luar, que se derramava por todo o rosto, alvo e levemente corado. Os cabelos, penteados em band\u00f3s, iam juntar-se atr\u00e1s da cabe\u00e7a e ca\u00edam em duas tran\u00e7as finas, atadas na ponta por la\u00e7os de fita azul. Azul era a cor do cinto que trazia destacando sobre o branco do vestido de cassa, cortado e trabalhado com extrema simplicidade. Nenhum enfeite mais; e quadravalhe tanto aquela aus\u00eancia de adornos, que parece lhe destoaria o menor deles que se lembrasse de p\u00f4r.<\/p>\n<p>O padre S\u00e1 admirou durante alguns instantes a sobrinha, n\u00e3o ostensivamente, mas \u00e0 socapa, com uma reserva e discri\u00e7\u00e3o, cujo sentido era f\u00e1cil de adivinhar. Ele n\u00e3o queria acordar-lhe o sentimento da vaidade, que faria desmerecer-lhe a natural beleza, cujo maior encanto era ser inconsciente e singela. Al\u00e9m disso, e antes disso, a alma vaidosa ficaria mais perto do pecado; e o padre S\u00e1 tinha posto todo o seu zelo em educar aquela alma na pr\u00e1tica das virtudes crist\u00e3s.<\/p>\n<p>\u2014 A tia M\u00f4nica onde est\u00e1? perguntou o velho sacerdote, depois de alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Deitou-se hoje mais cedo, respondeu a mo\u00e7a, d\u00f3i-lhe a cabe\u00e7a, creio eu. Mas que not\u00edcia \u00e9 a que me quer dar, titio? \u2014 Curiosa! murmurou o tio sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 A culpa \u00e9 sua.<\/p>\n<p>\u2014 Uma not\u00edcia agrad\u00e1vel a Deus, disse o padre reassumindo o seu ar grave; um servo do altar alcan\u00e7ado por mim. O Pedro Mendes&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quer ser padre? interrompeu a mo\u00e7a admirada.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-me que sim. H\u00e1 algum tempo notei nele certa voca\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica; ouve-me com tanta aten\u00e7\u00e3o e respeito, \u00e9 t\u00e3o curioso das coisas sagradas, aprende t\u00e3o depressa as li\u00e7\u00f5es que lhe dou nas minhas horas vagas, que me pareceu ver nele um bom levita do Senhor. Ontem, falei-lhe francamente nisso; e obtive boa resposta&#8230; Deita mais ch\u00e1.<\/p>\n<p>O padre estendera a x\u00edcara; a mo\u00e7a obedeceu prontamente.<\/p>\n<p>\u2014 Mas parece t\u00e3o crian\u00e7a, para padre! observou Lulu, restituindo a x\u00edcara ao tio.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! mas daqui at\u00e9 l\u00e1! Pensas que eu tomei ordens com esta calva e estes cabelos brancos ? Certamente que ele n\u00e3o vai tomar ordens amanh\u00e3. A resposta que obtive foi que tinha vontade de servir a Igreja; fiquei de falar \u00e0 m\u00e3e, e agora mesmo venho de l\u00e1! \u2014 Ah! \u2014D. Emiliana n\u00e3o me deu resposta definitiva, mas creio que n\u00e3o haver\u00e1 obst\u00e1culo s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Imagina tu a minha satisfa\u00e7\u00e3o. Os que s\u00e3o verdadeiramente dedicados ao servi\u00e7o do altar, como eu, t\u00eam um gosto infinito em colher bons servidores para ele, almas c\u00e2ndidas, voca\u00e7\u00f5es sinceras, fortes e puras! Se me sai naquele um pregador! Um Sampaio! um Mont\u2019Alverne! Se me sai um bispo! Talento tem ele; muita compreens\u00e3o e vontade de saber&#8230;<\/p>\n<p>O padre S\u00e1 continuou a louvar o futuro colega e a falar das vantagens da vida eclesi\u00e1stica, a melhor de todas, dizia ele, se h\u00e1 voca\u00e7\u00e3o. Lulu tinha acabado o ch\u00e1 e ouvia-o com muito menos interesse do que a princ\u00edpio. Educada pelo tio, compreendia e aprazia-se naquele g\u00eanero de conversa\u00e7\u00e3o, contudo, era necess\u00e1rio que ela n\u00e3o durasse muito para poder estar atenta. O tio percebeu finalmente, e tratou de coisas menos austeras. Veio um tabuleiro de damas, jogo inocente em que os dois concorriam \u00e0s vezes alguns minutos. Jogaram at\u00e9 \u00e0s dez horas; despediram-se e foram dormir.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse o padre, depois de aben\u00e7oar a sobrinha; sabes se o Alexandre estar\u00e1 doente? \u2014 N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 dois dias que n\u00e3o aparece; \u00e9 preciso mandar saber dele amanh\u00e3. Bela alma, aquele rapaz! Lulu corou um pouco; beijou-lhe outra vez a m\u00e3o e saiu. O tio acompanhou-a com olhos namorados, e ficou durante algum tempo concentrado e pensativo. Depois murmurou em latim este vers\u00edculo dos Cantares: Eu me assentei debaixo da sombra daquele a quem tanto tinha desejado; e o seu fruto \u00e9 doce \u00e0 minha garganta.<\/p>\n<p>IV Lulu retirou-se \u00e0 sua alcova, fechou a porta, e preparou-se para dormir. Antes, por\u00e9m, de despir-se, foi direito ao toucador, abriu uma gavetinha, tirou de dentro um bilhetinho e releu-o. O bilhete dizia assim: \u201c.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia muito que reler neste bilhete, que naturalmente estava decorado pela formosa prima. Ela o releu, contudo, n\u00e3o uma, mas tr\u00eas vezes; depois guardou de novo, abriu a janela que dava para a praia e deixou-se ir ao sabor das suas reflex\u00f5es. Naturalmente, eram reflex\u00f5es de alma saudosa; mas eram ainda outra coisa, d\u00favida, receios, tal ou qual despeito de mo\u00e7a bonita e namorada, enfim ci\u00fames, ci\u00fames que ela sentia roerem-lhe o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Que raz\u00e3o ter\u00e1 ele para n\u00e3o vir? dizia ela. Pouco caso, ou talvez&#8230;<\/p>\n<p>O espirito n\u00e3o chegou a formular o pensamento todo; n\u00e3o era preciso; estava escrito no cora\u00e7\u00e3o. Lulu agitou impaciente a ponta do p\u00e9; mordeu o l\u00e1bio, fechou a janela. Sentouse, depois, para escrever um bilhete; escreveu-o e rasgou-o quase imediatamente. Enfim, deitou-se. O sono n\u00e3o veio logo; a sombra daquele esquivo Alexandre ocupava-lhe todo o pensamento. Durante uma hora, a mo\u00e7a rolou inutilmente na cama; chamou-se tola a si mesma, insensata, e boa demais. Ouviu dar meia-noite; enfim, dormiu.<\/p>\n<p>A aurora seguinte raiou l\u00edmpida e bela. O padre S\u00e1 acordava cedo; fazia as suas ora\u00e7\u00f5es; e lia depois at\u00e9 a hora do almo\u00e7o, se porventura n\u00e3o tinha alguma missa. Nesse dia, teve missa; e \u00e0s sete horas, saiu de casa sem ver a sobrinha, o que era rar\u00edssimo, porque a mo\u00e7a levantava-se igualmente cedo. A noite, por\u00e9m, fora mal dormida; Lulu acordou tarde e doente. Quando saiu do quarto batiam oito horas.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a era uma enxaqueca moral, que se curou alopaticamente com a esperan\u00e7a de Alexandre. \u00c0s oito horas e meia, voltou o padre S\u00e1, pelo bra\u00e7o de um rapaz de vinte anos, que era nem mais nem menos o Alexandre de que se trata.<\/p>\n<p>\u2014 C\u00e1 est\u00e1 o mariola, disse o padre aben\u00e7oando o sobrinho; foi ouvir a minha missa, evitando assim o castigo que mereceu com toda a certeza, e de que s\u00f3 o p\u00f4de livrar a sua piedade religiosa. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 sobrinhos; h\u00e1 uns peraltas que tratam os tios como se fossem indiferentes.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o diga isso! protestou Alexandre.<\/p>\n<p>\u2014 Nem digo outra coisa, insistiu o padre. Dois dias! Verdade \u00e9 que a companhia de um velho padre rabugento&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Prima, fa\u00e7a calar titio, suplicou o mo\u00e7o com um leve sorriso que imediatamente se lhe apagou.<\/p>\n<p>\u2014 A maneira mais segura de fazer-me calar \u00e9 mandar p\u00f4r o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 na mesa.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1! \u2014 Ou quase. Dei as ordens necess\u00e1rias apenas o vi de longe.<\/p>\n<p>Lulu concentrou no cora\u00e7\u00e3o toda a alegria que lhe causava a presen\u00e7a do primo; o rosto mostrava ressentimento e frieza. Alexandre n\u00e3o pareceu not\u00e1-lo. Aceitou o almo\u00e7o que o tio lhe ofereceu, sentando-se ao lado deste e em frente da prima.<\/p>\n<p>O rosto de Alexandre, sem embargo do seu ar juvenil, tinha certa austeridade, n\u00e3o comum em t\u00e3o verdes anos. Os olhos eram modestos e repousados. Toda a figura estava em oposi\u00e7\u00e3o com a viveza natural da mocidade. O tio amava-o justamente por lhe ver aquela gravidade precoce.<\/p>\n<p>\u2014 Cada idade, dizia ele, tem o seu ar pr\u00f3prio; mas o mais perfeito mo\u00e7o \u00e9 aquele que, \u00e0s gra\u00e7as juvenis, re\u00fane a seriedade e a reflex\u00e3o da idade madura.<\/p>\n<p>Durante alguns instantes, ficaram s\u00f3s os dois primos. Houve um intervalo de sil\u00eancio, em que ambos pareciam acanhados. Alexandre foi o primeiro que falou: \u2014 Recebeu ontem o meu bilhete? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Recebi.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho andado muito ocupado estes dias.<\/p>\n<p>Lulu abriu um sorriso de amor\u00e1vel esc\u00e1rnio, se estes dois termos podem estar juntos, mas em todo o caso a\u00ed ficam, para exprimir uma coisa melhor de entender que de dizer. Era esc\u00e1rnio, porque a mo\u00e7a achava rid\u00edcula a raz\u00e3o dada pelo primo; e era amor\u00e1vel, porque n\u00e3o vinha eivado de \u00f3dio ou desprezo, mas de certa ternura e miseric\u00f3rdia. Esc\u00e1rnio de namorada, que j\u00e1 perdoou tudo ou n\u00e3o tarda a perdoar.<\/p>\n<p>Alexandre nada respondeu ao sorriso da mo\u00e7a; estavam \u00e0 mesa; come\u00e7ou a contar os fios da toalha e a mo\u00e7a a brincar com um palito, toalha e palito que eram os compassos da situa\u00e7\u00e3o. Mas o palito quebrou-se entre os dedinhos raivosos da mo\u00e7a, e a vista de Alexandre turvou-se de tanto olhar para o tecido. Afinal, foi Lulu quem rompeu o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Continuam ainda os seus trabalhos? disse ela com ironia.<\/p>\n<p>\u2014 Agora n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Agora estou mais livre.<\/p>\n<p>\u2014 Tem casado ent\u00e3o muita gente nestes \u00faltimos dias? A pergunta da mo\u00e7a aludia ao emprego de Alexandre, que era na c\u00e2mara eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>Ocupava o mo\u00e7o um lugar de escritur\u00e1rio naquela reparti\u00e7\u00e3o, lugar que obteve por influ\u00eancia do tio.<\/p>\n<p>Lulu n\u00e3o esperou resposta do primo; ergueu-se logo da mesa e Alexandre imitou-a.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 mal comigo? perguntou ele com meiguice.<\/p>\n<p>\u2014 Estou, respondeu a prima, com um modo t\u00e3o ben\u00e9volo e doce que desdizia da sequid\u00e3o da resposta.<\/p>\n<p>Efetivamente, a mo\u00e7a estava content\u00edssima. Desde que o vira, acreditou logo que s\u00f3 por motivo forte deixaria ele de vir ali. Antes de se separarem, as m\u00e3os tocaram-se, e os olhares do mesmo modo, e tudo acabou num sorriso, amoroso da parte de Lulu, acanhado e severo da parte de Alexandre.<\/p>\n<p>O padre S\u00e1 esperava o sobrinho no gabinete.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes que fiz uma conquista? disse ele logo que o viu entrar. E referiu o pedido feito a D. Emiliana, a disposi\u00e7\u00e3o de Pedro para a vida eclesi\u00e1stica, a quase certeza que tinha de obter o consentimento da m\u00e3e, not\u00edcia que Alexandre ouviu com muita aten\u00e7\u00e3o e interesse, confessando no fim que o caso era inesperado para ele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o era para mim, respondeu o tio; o Pedro tem verdadeira voca\u00e7\u00e3o para a vida da Igreja e caiu em boas m\u00e3os. Apenas receber a resposta de D. Emiliana darei todos os passos necess\u00e1rios para que ele siga estudos regulares, e os meus dois sonhos&#8230;<\/p>\n<p>O padre S\u00e1 estacou. Tinha um livro aberto nas m\u00e3os, fez descair os olhos na p\u00e1gina, como para continuar a leitura; mas nem a leitura continuou, nem o sobrinho lhe deu tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Os seus dois sonhos? repetiu ele como pedindo o resto da frase.<\/p>\n<p>O tio fechou o livro.<\/p>\n<p>Houve um curto instante de sil\u00eancio entre ambos. O padre parecia hesitar na resposta que o sobrinho lhe pedia, e que desejava dar. Tinha a tapar-lhe a boca certa ordem de conveni\u00eancias; mas o padre queria explicar tudo, e rapidamente refletiu que no que ia dizer nada havia que, em rigor, se pudesse censurar.<\/p>\n<p>\u2014 Os meus sonhos s\u00e3o dois, disse ele enfim. O primeiro \u00e9 que o Pedro tome ordens; o segundo&#8230;<\/p>\n<p>Estacou de novo sorrindo; mas desta vez foi interrogado somente pelos olhos do sobrinho.<\/p>\n<p>\u2014 Dize-me primeiro&#8230; amas a tua prima ? N\u00e3o precisas corar; \u00e9 amor leg\u00edtimo, santo e puro. Os meus dois sonhos s\u00e3o esses; fazer do Pedro um sacerdote, e de ti marido de minha Lulu. Cada um seguir\u00e1 a sua voca\u00e7\u00e3o; tu ser\u00e1s excelente esposo, e ele excelente padre.<\/p>\n<p>Alexandre ouviu calado a explica\u00e7\u00e3o do tio. Este levantou-se, um pouco acanhado com o sil\u00eancio do sobrinho, e foi colocar o livro na estante. Ia repetir a interroga\u00e7\u00e3o, quando Lulu assomou \u00e0 porta. O rumor dos passos da mo\u00e7a fez estremecer Alexandre, e o acordou da medita\u00e7\u00e3o em que ficara. O padre p\u00f4s os olhos na sobrinha, uns olhos ternos e paternais; chamou-a a si, sem lhe dizer nada e apertadamente a abra\u00e7ou. Lulu n\u00e3o compreendeu logo o motivo daquela expans\u00e3o do tio; mas o sil\u00eancio acanhado de Alexandre mais ou menos lhe deu id\u00e9ia do que se havia passado. Sorriu ent\u00e3o, e toda a sua alma se lhe entornou dos olhos em um olhar de agradecimento e de amor.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p>Naquela mesma tarde, dirigiu-se Pedro \u00e0 casa do padre S\u00e1, levando na ponta da l\u00edngua uma li\u00e7\u00e3o latina que o padre lhe dera na v\u00e9spera, e saboreando de antem\u00e3o os aplausos do mestre. Ia l\u00e9pido e risonho, pela Gamboa fora, com a alma ainda mais azul do que estava o c\u00e9u naquele momento, e o cora\u00e7\u00e3o a bater-lhe t\u00e3o forte como as vagas na areia da praia. O padre S\u00e1, se o visse naquele estado, se pudesse adivinhar todo o j\u00fabilo daquele cora\u00e7\u00e3o, daria gra\u00e7as ao c\u00e9u pela rara p\u00e9rola que lhe fora dado achar para a coroa m\u00edstica da Igreja.<\/p>\n<p>Entretanto, o disc\u00edpulo tinha outra cara, quando ali entrou. A como\u00e7\u00e3o ou acanhamento ou o que quer que fosse tirava-lhe o tom expansivo do semblante.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, venha c\u00e1, meu futuro bispo! exclamou o padre S\u00e1, logo que o viu entrar; \u2014 n\u00e3o core que ainda o h\u00e1 de ser, se tiver ju\u00edzo e Deus o ajudar. Resposta, nenhuma? \u2014 Nenhuma.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! mas eu estou certo de que h\u00e1 de ser favor\u00e1vel. Seu tio \u00e9 homem de ju\u00edzo.<\/p>\n<p>Pedro fez um gesto de assentimento, e estendeu a m\u00e3o \u00e0 sobrinha do padre que entrava nesse momento no gabinete. A mo\u00e7a assistiu \u00e0 li\u00e7\u00e3o de Pedro; e a sua presen\u00e7a foi antes prejudicial que ben\u00e9fica. O disc\u00edpulo sentiu-se acanhado, esqueceu o que sabia, e recebeu alguns conselhos paternais do padre, sem ousar dar nenhuma desculpa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o censure, titio, disse a mo\u00e7a; fui eu a causa de alguns esquecimentos do sr.<\/p>\n<p>Mendes; devia ter-me retirado.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o! murmurou Pedro.<\/p>\n<p>\u2014 Devia.<\/p>\n<p>\u2014 Confesso que ontem n\u00e3o pude estudar a li\u00e7\u00e3o, disse Pedro com voz tr\u00eamula.<\/p>\n<p>\u2014 Basta, declarou enfim o padre; sair-se-\u00e1 melhor amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Havia j\u00e1 dois meses que o filho de D. Emiliana freq\u00fcentava a casa do padre S\u00e1, e ia regularmente receber as li\u00e7\u00f5es que ele lhe dava. A compostura do mo\u00e7o era exemplar; o gosto com que o ouvia, a facilidade com que retinha o que ele lhe ensinava, a voca\u00e7\u00e3o enfim que o padre lhe achou, foram outros tantos la\u00e7os que mais intimamente os prenderam, um ao outro. Al\u00e9m daquelas qualidades, Pedro era bom conversador, dotado de maneiras af\u00e1veis, e tinha a pachorra (dizia o padre S\u00e1) de aturar uma companhia aborrecida como a dele.<\/p>\n<p>Verdade \u00e9 que a companhia era aumentada com a de Lulu, que, se raras vezes assistia \u00e0s li\u00e7\u00f5es do mo\u00e7o, vinha conversar com eles o resto do tempo, bem como Alexandre que um dia teve igualmente id\u00e9ia de acompanhar o curso particular do padre S\u00e1. O padre deliciava-se com aquele quadro; e as suas li\u00e7\u00f5es de filosofia ou de hist\u00f3ria sacra, de teologia ou de latim, sa\u00edam-lhe menos da cabe\u00e7a que do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 de crer que se o padre S\u00e1 soubesse que o seu disc\u00edpulo Pedro, futuro bispo, gastava alguma hora vaga na leitura do Gil Br\u00e1s ou outros livros menos piedosos, \u00e9 de crer, digo eu, que lhe fizesse amig\u00e1vel repreens\u00e3o; mas o padre nada via nem sabia; e o disc\u00edpulo n\u00e3o ia mal de todo. Demais, um por um ia-lhe Pedro lendo grande n\u00famero de seus livros, que eram todos de boa doutrina e muita piedade. Ultimamente emprestara-lhe um Santo Agostinho; Pedro devorara-o e deu boa conta de suas impress\u00f5es. A alegria do padre era sem mescla.<\/p>\n<p>Naquela tarde, n\u00e3o houve trovoada; Pedro conservou-se l\u00e1 at\u00e9 a noite. \u00c0s ave-marias chegou Alexandre; os dois mo\u00e7os estavam ligados pela afei\u00e7\u00e3o do mestre e tal ou qual analogia de sentimentos. Alexandre deu os parab\u00e9ns a Pedro, que os recebeu com um modo modesto e grave. Sa\u00edram juntos, mau grado os olhares de Lulu, que pediam ao primo ficasse alguns minutos mais.<\/p>\n<p>Iam calados a princ\u00edpio; ao cabo de alguns minutos, Pedro rompeu o sil\u00eancio; louvou a alma, os sentimentos e as maneiras do padre, a felicidade que se respirava naquela casa, a boa educa\u00e7\u00e3o de Lulu, finalmente, tratou do seu futuro e da carreira que se lhe ia abrir.<\/p>\n<p>Alexandre ouviu-o calado, mas n\u00e3o distra\u00eddo; concordou em tudo com ele, e quando veio o ponto da carreira eclesi\u00e1stica, perguntou: \u2014 Aceita essa profiss\u00e3o por seu gosto? Pedro hesitou um minuto.<\/p>\n<p>\u2014 Aceito, disse enfim.<\/p>\n<p>\u2014 Pergunto se por seu gosto, tornou Alexandre.<\/p>\n<p>\u2014 Por meu gosto.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 voca\u00e7\u00e3o? \u2014 Que outra coisa seria? observou Pedro.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o. Sente um pendor irresist\u00edvel para a vida da Igreja, uma voz interior que lhe fala, que o atrai violentamente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como o amor.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! deve ser mais forte do que o amor! emendou Alexandre.<\/p>\n<p>\u2014 Deve ser t\u00e3o forte. O cora\u00e7\u00e3o humano, quando alguma for\u00e7a o solicita, qualquer que ela seja, creio que recebe igual impress\u00e3o. O amor \u00e9 como a voca\u00e7\u00e3o religiosa; como qualquer outra voca\u00e7\u00e3o, exerce no homem o mesmo poder&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o creio, interrompeu Alexandre. A voca\u00e7\u00e3o religiosa, por isso mesmo que chama o homem a uma miss\u00e3o mais elevada, deve exercer influ\u00eancia maior. O amor divino n\u00e3o pode comparar-se ao amor humano. Soube de algum sacrif\u00edcio igual ao dos m\u00e1rtires da f\u00e9? Pedro refutou, como p\u00f4de, a opini\u00e3o do companheiro; e este redarg\u00fciu com argumentos novos, falando ambos com igual calor e interesse. A conversa parou, quando ambos chegaram \u00e0 porta da casa de dona Emiliana; Pedro entrou e o outro seguiu caminho.<\/p>\n<p>D. Emiliana n\u00e3o p\u00f4de atinar com a raz\u00e3o por que o filho naquela noite parecia t\u00e3o preocupado. A verdade \u00e9 que Pedro tomou o ch\u00e1 distraidamente; n\u00e3o leu nem conversou, retirou-se cedo para o quarto, e s\u00f3 muito tarde conseguiu dormir.<\/p>\n<p>\u2014 Vou hoje decidir o teu neg\u00f3cio, disse-lhe D. Emiliana no dia seguinte.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Teu tio vem c\u00e1 hoje, continuou ela. Entender-me-ei com ele&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, o amor divino&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O amor divino? repetiu D. Emiliana espantada.<\/p>\n<p>\u2014 E o amor humano, continuou Pedro.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? \u2014 A voca\u00e7\u00e3o religiosa \u00e9 superior a qualquer outra.<\/p>\n<p>\u2014 Compreendo; tens raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Pedro s\u00f3 ouvira estas \u00faltimas palavras da m\u00e3e; e olhou para ela com ar de quem sa\u00eda de um estado de sonambulismo. Procurou lembrar-se do que acabava de dizer; e s\u00f3 muito confusamente repetiu mentalmente as palavras voca\u00e7\u00e3o religiosa, amor divino e amor humano. Viu que a conversa da noite anterior lhe ficara gravada na mem\u00f3ria. Entretanto, respondeu \u00e0 m\u00e3e que efetivamente o estado eclesi\u00e1stico era o melhor e mais puro de todos os estados.<\/p>\n<p>Suas irm\u00e3s aplaudiram de cora\u00e7\u00e3o a id\u00e9ia de fazer-se padre o rapaz; e o irm\u00e3o mais mo\u00e7o aproveitou o caso para manifestar o desejo de ser sacrist\u00e3o, desejo que fez rir a toda a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Restava a opini\u00e3o do tio, que se n\u00e3o fez esperar e foi de todo o ponto conforme com o gosto dos demais parentes. Estava padre o mo\u00e7o; s\u00f3 lhe restavam os estudos regulares e a sagra\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n<p>A not\u00edcia foi recebida pelo padre S\u00e1 com verdadeira satisfa\u00e7\u00e3o, tanto mais sincera quanto que recebeu a resposta de dona Emiliana em momentos dolorosos para ele. Sua sobrinha jazia na cama; fora acometida de uma intensa febre de car\u00e1ter grave. O velho padre deu um apertado abra\u00e7o no mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! eu bem sabia que n\u00e3o havia nenhuma d\u00favida! exclamou ele.<\/p>\n<p>Pedro soube que a mo\u00e7a estava enferma, e empalideceu quando o padre lhe deu esta triste not\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 Doen\u00e7a de perigo? perguntou o futuro seminarista.<\/p>\n<p>\u2014 Grave, respondeu o padre.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ainda ontem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ontem estava de perfeita sa\u00fade. Era imposs\u00edvel contar com semelhante acontecimento. Entretanto, que h\u00e1 mais natural? Seja feita a vontade de Deus. Estou que ele h\u00e1 de ouvir as minhas ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O padre S\u00e1, dizendo isto, sentiu uma l\u00e1grima borbulhar-lhe nos oLhos, enxugou-a disfar\u00e7adamente. Contudo, Pedro viu-lhe o gesto e abra\u00e7ou-o.<\/p>\n<p>\u2014 Descanse, n\u00e3o h\u00e1 de ser nada, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Deus te ou\u00e7a, filho! VI A tia M\u00f4nica, de quem se falou em um dos cap\u00edtulos anteriores, era uma preta velha, que havia criado a sobrinha do padre e a amava como se fora sua m\u00e3e. Era liberta; o padre deu-lhe a liberdade logo que morrera a m\u00e3e de Lulu, e M\u00f4nica ficou servindo de companheira e protetora da menina, que n\u00e3o tinha outro parente, al\u00e9m do padre e do primo. Lulu nunca adoecera gravemente; ao v\u00ea-la naquele estado, a tia M\u00f4nica ficou desatinada. Passado o primeiro momento, foi um modelo de paci\u00eancia, dedica\u00e7\u00e3o e amor.<\/p>\n<p>Velava as noites junto da cabeceira da doente, e apesar de estar toda entregue aos cuidados de enfermeira ainda lhe sobrava tempo para tratar da dire\u00e7\u00e3o da casa.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a foi longa; durou cerca de quinze dias. A mo\u00e7a ergueu-se enfim da cama, p\u00e1lida e abatida, mas livre ele todo o mal. A alma do tio sentiu-se renascer. A certeza dera-lhe vida nova. Ele padecera muito durante aqueles quinze mortais dias; e Pedro fora testemunha de sua longa afli\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi s\u00f3 testemunha impass\u00edvel, nem o consolou com palavras triviais; tomou boa parte nas dores do velho, fez-lhe companhia durante as noites de maior perigo.<\/p>\n<p>Alexandre n\u00e3o foi menos ass\u00edduo nem menos dedicado \u00e0 fam\u00edlia; seu rosto austero e frio n\u00e3o revelava a dor \u00edntima; mas ele sentia, decerto, a doen\u00e7a da prima e a afli\u00e7\u00e3o do padre. Suas consola\u00e7\u00f5es eram antes religiosas do que puramente humanas.<\/p>\n<p>\u2014 Descanse que ela h\u00e1 de viver, dizia ele; mas dado que o Senhor a leve, podemos ter a certeza de que leva um anjo mais para o coro celeste. De l\u00e1 veio, para l\u00e1 tornar\u00e1, t\u00e3o puro como os que rodeiam o trono de Deus.<\/p>\n<p>Pedro repeliu esta id\u00e9ia.<\/p>\n<p>\u2014 Muitos s\u00e3o os anjos que est\u00e3o no c\u00e9u \u2014 dizia; e poucos, rar\u00edssimos, os que Deus consente que des\u00e7am a este mundo. Por que h\u00e1 de levar aquele, que \u00e9 a felicidade e a gl\u00f3ria de nosso bom mestre? As palavras de ambos entravam no cora\u00e7\u00e3o do padre; mas por mais crist\u00e3o que ele fosse, e era-o muito, as do filho de dona Emiliana, ego\u00edsmo da afei\u00e7\u00e3o humana, dominavam por instantes o sentimento religioso e a resigna\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p>No dia em que a mo\u00e7a foi declarada sem perigo, Pedro chegara \u00e0 Gamboa, n\u00e3o estando o padre em casa. A tia M\u00f4nica deu-lhe a agrad\u00e1vel not\u00edcia. O rosto do mo\u00e7o expandiu-se; sua alegria f\u00ea-lo corar.<\/p>\n<p>\u2014 Livre! exclamou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Livre.<\/p>\n<p>\u2014 Quem o disse ? \u2014 O doutor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ela est\u00e1 mais animada? \u2014 Muito animada.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! diga-lhe de minha parte que dou gra\u00e7as a Deus pelo seu restabelecimento.<\/p>\n<p>Cinco dias depois, Lulu saiu do quarto. A figura delicada da mo\u00e7a parecia mais bela e ador\u00e1vel depois da enfermidade. Um largo roup\u00e3o branco envolvia-lhe o corpo emagrecido pela doen\u00e7a; os olhos amortecidos e a palidez do rosto davam-lhe um aspecto delicado e triste ao mesmo tempo. Vivia a mo\u00e7a; e n\u00e3o s\u00f3 a sa\u00fade voltara, mas com a sa\u00fade uma alegria n\u00e3o sentida at\u00e9 aquele dia, alegria toda filha do regozijo das pessoas que a amavam, da dedica\u00e7\u00e3o e zelo de que fora objeto durante os dias de perigo.<\/p>\n<p>A convalescen\u00e7a foi r\u00e1pida; durou cerca de oito dias. Durante esse tempo, freq\u00fcentou Pedro a casa do mestre, como nos dias anteriores, sem nada lhe perguntar acerca de seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios, n\u00e3o s\u00f3 porque era indiscri\u00e7\u00e3o faz\u00ea-lo em momento como aquele, e quando o padre apenas come\u00e7ava a saborear o restabelecimento da sobrinha, como porque esta fazia que as horas passassem depressa. N\u00e3o se tratam neg\u00f3cios s\u00e9rios sem tempo, e Pedro n\u00e3o tinha tempo.<\/p>\n<p>Lulu n\u00e3o podia ler; e nem sempre a entretinham as hist\u00f3rias da tia M\u00f4nica. Pedro lia para ela ouvir alguns livros morais que achava na estante do padre, ou algum menos austero, ainda que honesto, que de casa levava para aquele fim. Sua conversa, al\u00e9m disso, era extremamente agrad\u00e1vel; a dedica\u00e7\u00e3o sem limites. Lulu via nele uma criatura boa e santa; e o h\u00e1bito de todos os dias veio a torn\u00e1-lo necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>No primeiro dia em que ela p\u00f4de chegar \u00e0 janela, Pedro arrastou para ali uma poltrona de couro, deu o bra\u00e7o \u00e0 mo\u00e7a e f\u00ea-la sentar-se. Eram onze horas da manh\u00e3; a atmosfera estava limpa e clara e o mar tranq\u00fcilo. A mo\u00e7a respirou a largos haustos, enquanto Pedro ia buscar o banquinho em que ela pousasse os p\u00e9s.<\/p>\n<p>\u2014 Pensei nunca mais ver isto, disse ela, agradecendo-lhe com um sorriso que fez baixar os olhos ao mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fale assim! suplicou este depois de algum tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Agora n\u00e3o h\u00e1 perigo; estou boa. Haviam de sentir a minha morte, creio; mas eu sentiria igualmente se deixasse a vida. Morrer mo\u00e7a deve ser triste! Pedro pediu-lhe que mudasse de assunto, amea\u00e7ando-a ele ir dizer tudo ao tio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 preciso! exclamou uma voz.<\/p>\n<p>Voltaram-se.<\/p>\n<p>Era o padre que entrara na sala desde algum tempo e ouvia a conversa dos dois.<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o lhe parece que tenho raz\u00e3o? perguntou Pedro.<\/p>\n<p>\u2014 Toda. Agora s\u00f3 se deve pensar na vida.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea? disse o mo\u00e7o, voltando-se para Lulu.<\/p>\n<p>\u2014 O Alexandre j\u00e1 veio? perguntou o padre S\u00e1, depois de beijar a testa \u00e0 sobrinha e aben\u00e7o\u00e1-la como de costume.<\/p>\n<p>Lulu ficou s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Aquela pergunta avivou-lhe a tristeza que lhe causava a aus\u00eancia do primo, aus\u00eancia de dezoito horas, o que era enorme, se atendermos ao estado da mo\u00e7a e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de suas almas. O tio notou-lhe a impress\u00e3o e ficou igualmente s\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Nem tudo sai \u00e0 medida dos nossos desejos, pensou ele; n\u00e3o verei realizados os meus dois sonhos! Se sai dali um peralta&#8230;<\/p>\n<p>O pensamento foi interrompido pela entrada de Alexandre.<\/p>\n<p>Lulu sorriu de contentamento ao ver o primo; mas reprimiu aquela express\u00e3o para de algum modo puni-lo do esquecimento em que a deixara.<\/p>\n<p>O velho padre foi menos diplomata; recebeu-o com a alma nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Alexandre n\u00e3o reparou nem na dissimula\u00e7\u00e3o dela, nem na expans\u00e3o dele; seus olhos foram direitos ao filho de D. Emiliana. Pedro sustentou o olhar com tranq\u00fcilidade; e se houvesse menos como\u00e7\u00e3o da parte das testemunhas daquele olhar, veriam que ambos pareciam querer sondar um ao outro.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a esperou que o primo, em desconto de seus pecados, a tratasse com a ternura a que o seu cora\u00e7\u00e3o tinha jus; mas Alexandre parecia preocupado; e ela entregou-se toda \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o do outro. Uma canoa que cortava as \u00e1guas tranq\u00fcilas do mar serviu de pretexto e come\u00e7o \u00e0 palestra. O que eles disseram da canoa, do mar, da vida mar\u00edtima, e mais id\u00e9ias correlativas dificilmente caberia neste cap\u00edtulo, e com certeza exigia alguns coment\u00e1rios, visto que algumas frases tinham tanto com o assunto como o doge de Veneza. Alexandre contemplava-os sem morder o l\u00e1bio com raiva, nem dar o menor sinal de despeito. Seu rosto marm\u00f3reo n\u00e3o revelava o que se passava no cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tardou que ele pr\u00f3prio interviesse na conversa. O padre S\u00e1 aproveitou a ocasi\u00e3o para chamar o filho de D. Emiliana \u00e0 explica\u00e7\u00e3o de um ponto teol\u00f3gico. Pedro afastou-se do grupo com dificuldade; mas a conversa entre os dois morreu, como l\u00e2mpada a que faltou \u00f3leo.<\/p>\n<h2>VII<\/h2>\n<p>Lulu notou a esquivan\u00e7a do primo e a frieza que lhe mostrava. Certo \u00e9 que nunca lhe achara a expans\u00e3o, nem a ternura, que era natural exigir de um namorado. Alexandre era s\u00f3brio de palavras e seco de sentimentos. Os olhos com que a via eram s\u00e9rios, sem flama, sem viveza \u2014 \u201c, dizia-lhe ela um dia gracejando. Mas se ele fora sempre assim, agora parecia mais frio do que nunca, e a mo\u00e7a procurou saber a causa daquela agrava\u00e7\u00e3o de impassibilidade.<\/p>\n<p>\u2014 Ci\u00fames, pensou ela.<\/p>\n<p>Ci\u00fames de Pedro, devia dizer; mas nem ela nem a leitora precisam de nada mais para completar o pensamento. De quem seriam os ci\u00fames sen\u00e3o daquele rapaz, que se mostrava ass\u00edduo, af\u00e1vel, dedicado, que a tratava com esmero e afei\u00e7\u00e3o? A mo\u00e7a riu da descoberta.<\/p>\n<p>\u2014 Um quase padre! exclamou ela.<\/p>\n<p>Da\u00ed a poucos dias, o padre S\u00e1 disse ao filho de D. Emiliana que os seus neg\u00f3cios iam perfeitamente e que dentro de pouco tempo devia dizer adeus a quaisquer ocupa\u00e7\u00f5es estranhas aos preparat\u00f3rios eclesi\u00e1sticos.<\/p>\n<p>\u2014 Fa\u00e7a exame de consci\u00eancia, disse a mo\u00e7a, que estava presente \u00e0 conversa dos dois; e prepare-se para&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Para casar? perguntou sorrindo o tio.<\/p>\n<p>Lulu corou ouvindo aquelas palavras. Sua id\u00e9ia n\u00e3o era casamento; era um gracejo f\u00fanebre e t\u00e3o descabido que a frase lhe morrera nos l\u00e1bios. O que ela queria dizer era que Pedro se preparasse para rezar-lhe o responso. A interrup\u00e7\u00e3o do tio desviou-lhe o pensamento do gracejo para dirigi-lo ao primo. Corou, como disse, e refletiu um instante.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! se ele me amasse com o mesmo ardor com que este ama a Igreja! pensou ela.<\/p>\n<p>Depois: \u2014 Falemos de coisas s\u00e9rias, continuou ela em voz alta. Desejo v\u00ea lo em breve cantar uma missa ao lado de titio.<\/p>\n<p>Na noite desse mesmo dia, Alexandre foi \u00e0 casa do padre S\u00e1. Ia preocupado e pouco se demorou. O tio notou-lhe a diferen\u00e7a e ficou apreensivo. Conjecturou mil coisas para aquela mudan\u00e7a do sobrinho, sem atinar qual delas era a verdadeira. Lulu ficou igualmente triste; n\u00e3o digo bem, havia tristeza, mas havia outra coisa tamb\u00e9m, havia despeito; e menos o amor do que o amor-pr\u00f3prio come\u00e7ava a sentir-se ofendido.<\/p>\n<p>Pedro aproveitou a primeira ocasi\u00e3o em que o padre saiu da sala para lhe perguntar o motivo daquela s\u00fabita melancolia.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a estremeceu como se acordasse sobressaltada de um sono.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o ouvi, murmurou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Perguntava-lhe por que motivo ficou assim pensativa.<\/p>\n<p>\u2014 Um capricho, respondeu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Um capricho satisfaz-se.<\/p>\n<p>\u2014 Nem todos.<\/p>\n<p>\u2014 Quase todos. N\u00e3o pede decerto a lua? \u2014 A lua&#8230; n\u00e3o, respondeu ela procurando sorrir e esquecer; mas alguma coisa que tem rela\u00e7\u00e3o com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Diga o que \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Estava desejando&#8230; que o senhor ficasse esta noite ali fora a contemplar a lua e a fazer-lhe versos, disse ela rindo. Nunca fez versos? \u2014 Um hex\u00e2metro apenas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei o que \u00e9; mas n\u00e3o importa. Era capaz disso? \u2014 Suprima os versos e a coisa \u00e9 f\u00e1cil, respondeu Pedro sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 F\u00e1cil! exclamou Lulu.<\/p>\n<p>E depois de alguns instantes de sil\u00eancio: N\u00e3o era bem isso que eu desejava, continuou ela; mas alguma coisa an\u00e1loga, algum sacrif\u00edcio&#8230; tolice de mo\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Lulu ergueu-se e foi \u00e0 janela para disfar\u00e7ar a como\u00e7\u00e3o. Pedro deixou-se ficar na cadeira.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco, ouviram-se os passos do padre S\u00e1; o mo\u00e7o pegou num livro, abriu-o ao acaso e entrou a ler. A tristeza de Lulu foi observada pelo tio, que assentou de si para si convidar o sobrinho a uma confer\u00eancia, resoluto a conhecer o estado das coisas.<\/p>\n<p>\u2014 Amam-se, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, pensava o velho; mas h\u00e1 alguma coisa, decerto, que n\u00e3o posso descobrir. \u00c9 necess\u00e1rio sab\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Pedro demorou-se em casa do padre at\u00e9 depois de nove horas. A mo\u00e7a presidiu ao ch\u00e1 com a gra\u00e7a habitual, e um pouco mais livre das como\u00e7\u00f5es daquela noite. Acabado o ch\u00e1, Pedro despediu se do velho sacerdote e da sobrinha. A mo\u00e7a acompanhou-o at\u00e9 \u00e0 porta do gabinete, enquanto o tio preparava o tabuleiro das damas para a partida de costume.<\/p>\n<p>\u2014 Boa noite, disse Lulu apertando a m\u00e3o ao filho de D. Emiliana.<\/p>\n<p>\u2014 Boa noite, respondeu ele.<\/p>\n<p>E mais baixo: \u2014 Ver\u00e1 hoje mesmo que lhe satisfa\u00e7o o capricho.<\/p>\n<p>Lulu ficou estupefata ao ouvir aquelas palavras; mas n\u00e3o p\u00f4de pedir maior explica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 porque o tio ficava a poucos passos, como porque o mo\u00e7o s\u00f3 lhe dera tempo de ouvi-lo; sa\u00edra imediatamente.<\/p>\n<p>A partida de damas foi aborrecida e n\u00e3o durou muito. Ambos os contendores estavam preocupados de coisas s\u00e9rias. \u00c0s nove e meia, despediram-se para ir dormir.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea se o sono te d\u00e1 melhor aspecto, disse o padre S\u00e1 dando a m\u00e3o a beijar \u00e0 sobrinha.<\/p>\n<p>\u2014 Estou hoje mais feia que de costume? \u2014 N\u00e3o; mais triste.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 tristeza, \u00e9 cansa\u00e7o, respondeu a mo\u00e7a; dormi pouco a noite passada.<\/p>\n<p>Despediram-se.<\/p>\n<p>Lulu, apenas entrou no quarto, correu \u00e0 janela; f\u00ea-lo com a curiosidade vaga de saber se o filho de D. Emiliana realizara a promessa de satisfazer-lhe o capricho. A praia estava deserta.<\/p>\n<p>\u2014 Naturalmente! disse ela consigo. Para obedecer a uma tolice minha era necess\u00e1rio cometer tolice maior.<\/p>\n<p>Lulu entrou, destoucou-se, deixou os vestidos, envolveu-se em um roup\u00e3o e sentou-se ao p\u00e9 da janela. Ali ficou cerca de meia hora absorvida em seus pensamentos; a figura de Alexandre flutuava-lhe no esp\u00edrito, confundindo-se \u00e0s vezes com a de Pedro. Ela comparava a assiduidade de um com a frieza do outro; frieza que ela atribu\u00eda ora a um sentimento de ci\u00fame, ora ao amortecimento da antiga afei\u00e7\u00e3o. Esta mesma afei\u00e7\u00e3o a mo\u00e7a entrou a analis\u00e1-la, a estud\u00e1-la no passado sem lhe achar intensidade igual \u00e0 sua.<\/p>\n<p>Nunca duvidara do amor de Alexandre; mas agora que o dissecava reconhecia que era um amor grave e refletido demais, sem aquela exuber\u00e2ncia pr\u00f3pria da mocidade e do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lulu n\u00e3o reparava que esta mesma seguran\u00e7a de vista com que apreciava o estado do cora\u00e7\u00e3o do primo era prova de que o seu estava menos alienado pela paix\u00e3o. O que ela de todo ignorava era que aquele primeiro afeto, nascido do costume, nutrido da conviv\u00eancia, era menos espont\u00e2neo e irresist\u00edvel do que parecia. Suas alegrias e tristezas n\u00e3o vinham das ra\u00edzes do cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o lhe estremeciam a alma, nem a cobriam de luto.<\/p>\n<p>Nisto n\u00e3o pensava ela; mas come\u00e7ou-o a sentir naquela noite, e pela primeira vez o cora\u00e7\u00e3o pediu alguma coisa mais do que um afeto mal sentido e mal correspondido.<\/p>\n<p>No meio dessas sensa\u00e7\u00f5es vagas, sonhos indecisos, aspira\u00e7\u00f5es e \u00e2nsias sem objeto, ergueu-se a mo\u00e7a disposta a recolher-se. Ia cerrar as venezianas da janela, quando viu um vulto na praia, a passear lentamente, parando \u00e0s vezes de costas para o mar. Apesar da lua, que ent\u00e3o come\u00e7ava a surgir brilhante e clara, Lulu n\u00e3o p\u00f4de conhecer quem era, todavia as palavras de Pedro estavam-lhe na mem\u00f3ria. Afirmou a vista; e o talhe e o andar pareceram-lhe do mo\u00e7o. Seria ele? A id\u00e9ia era t\u00e3o extravagante que a mo\u00e7a repeliu-a imediatamente; esperou algum tempo \u00e0 janela. Quinze minutos decorreram sem que o vulto, quem quer que fosse, se retirasse dali. Tudo parecia dizer que era o filho de D. Emiliana; contudo, a mo\u00e7a quis prolongar a experi\u00eancia; fechou a janela e retirou-se.<\/p>\n<p>Meia hora decorreu \u2014 meia hora de rel\u00f3gio, mas uma eternidade para a alma curiosa da mo\u00e7a, lisonjeada com aquele ato do rapaz, lastimando e desejando o sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel! dizia ela. \u00c9 imposs\u00edvel que uma brincadeira&#8230; Mas aquela \u00e9 a figura dele; e demais quem viria colocar-se ali, a esta hora, a passear solit\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>Lulu abriu de novo a janela; o vulto l\u00e1 estava, desta vez sentado em uma pedra, fumando um charuto. Logo que ela abriu a janela, o vulto, que parecia olhar para l\u00e1, ergueu-se e entrou a passear de novo, com o mesmo passo tranq\u00fcilo de um homem disposto a velar a noite na praia. H\u00e1 de ser por for\u00e7a um passo diferente dos outros; pelo menos, assim o achou a sobrinha do padre S\u00e1.<\/p>\n<p>A certeza de que era o filho de D. Emiliana produziu no esp\u00edrito da mo\u00e7a uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que raz\u00e3o havia para aquele sacrif\u00edcio, sacrif\u00edcio incontest\u00e1vel, t\u00e3o rid\u00edculo havia de parecer aos olhos dos outros, sacrif\u00edcio solit\u00e1rio e est\u00e9ril? Lulu acostumara-se a ver no mo\u00e7o um futuro padre, um homem que ia romper com todas as paix\u00f5es terrenas, e surgialhe, quando menos esperava, uma figura de novela antiga, cumpridor exato de uma promessa f\u00fatil, obediente a um capricho manifestado por ela em uma hora de despeito.<\/p>\n<p>Lulu fechou de novo a janela e disp\u00f4s-se a dormir; f\u00ea-lo por pena do rapaz; uma vez fechada a casa, era prov\u00e1vel que o seu fiel cavalheiro se fosse deitar tamb\u00e9m, apesar do calor que fazia e da vantagem que h\u00e1 em passear \u00e0 lua numa c\u00e1lida noite de fevereiro.<\/p>\n<p>Foi esta a esperan\u00e7a; mas nem por isso a mo\u00e7a dormiu logo. A aventura espertara-a.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o se atreveu a erguer-se de novo, com medo de animar o sacrif\u00edcio do mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Dormiu.<\/p>\n<p>O sono n\u00e3o foi seguido nem tranq\u00fcilo; ela acordou dez vezes; dez vezes reconciliou o sono a muito custo. Sobre a madrugada, ergueu-se e foi \u00e0 janela. N\u00e3o a abriu: enfiou os olhos por uma fresta. O vulto l\u00e1 estava na praia sentado, a fumar, com a cabe\u00e7a nas m\u00e3os como a ampar\u00e1-la de pesada que havia de estar com a longa vig\u00edlia.<\/p>\n<p>A leitora poderia achar extravagante a a\u00e7\u00e3o do rapaz, mas estou convencido de que n\u00e3o conseguiria mais reconciliar o sono.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu \u00e0 sobrinha do padre S\u00e1.<\/p>\n<h2>VIII<\/h2>\n<p>Com a manh\u00e3, retirou-se o passeador, que (desta vez n\u00e3o havia d\u00favida para a mo\u00e7a) era o filho de D. Emiliana. Imagine o estado em que ambos ficaram; ele mo\u00eddo e sonolento, ela com o esp\u00edrito transtornado, e o cora\u00e7\u00e3o&#8230; o cora\u00e7\u00e3o agradecido, lisonjeado, satisfeito enfim de haver encontrado uma alma menos austera que a do primo.<\/p>\n<p>A primeira coisa que a mo\u00e7a devia concluir \u00e9 que o rapaz tinha-lhe mais amor a ela do que \u00e0 vida eclesi\u00e1stica; mas, posto o sentisse, n\u00e3o formulou o esp\u00edrito esta natural descoberta. Pedro n\u00e3o foi l\u00e1 na manh\u00e3 nem na tarde desse dia; foi \u00e0 noite. Se lhe custara a vig\u00edlia, recebeu logo ali a paga que foi um olhar de agradecimento, n\u00e3o meditado e intencional, mas espont\u00e2neo e quase inconsciente; o primeiro olhar de mulher que o filho de D. Emiliana recebera em sua vida. O padre S\u00e1 estava presente; Alexandre chegou pouco depois. N\u00e3o achando logo ocasi\u00e3o prop\u00edcia para dizer o que queria, Pedro resolveu diz\u00ea-lo em voz alta.<\/p>\n<p>\u2014 Padre-mestre, h\u00e1 alguma oposi\u00e7\u00e3o entre a poesia e a vida religiosa ? \u2014 Nenhuma&#8230; O padre Caldas fez versos, mas versos pios&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu fiz mais do que prometi, tornou o mo\u00e7o, sublinhando estas palavras, tamb\u00e9m fiz versos.<\/p>\n<p>\u2014 Versos? \u2014 E \u00e0 lua.<\/p>\n<p>O padre S\u00e1 co\u00e7ou a ponta do nariz com ar de pouca aprova\u00e7\u00e3o; mas o rapaz, sem embargo disso, sacou da algibeira um papelinho dobrado, que deu a Lulu.<\/p>\n<p>\u2014 Leia para si ou para todos, disse ele; e pe\u00e7a ao padre-mestre que me perdoe o pecado.<\/p>\n<p>N\u00e3o transcrevo aqui os versos do rapaz, que eram melhores de inten\u00e7\u00e3o que de execu\u00e7\u00e3o. A mo\u00e7a leu-os tr\u00eamula e comovida; e estendeu depois o papel ao tio, que o n\u00e3o quis receber.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero, disse ele; perd\u00f4o-lhe; v\u00e1 l\u00e1; mas ainda em cima ler uma obra de inten\u00e7\u00e3o profana, que lhe desdoura talvez a sua voca\u00e7\u00e3o&#8230; da\u00ed, quem sabe? podem dizer-se coisas bonitas \u00e0 lua, como obra do Criador&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi nesse sentido que ele escreveu, disse Alexandre, que recebera o papel recusado pelo padre S\u00e1, e lia os versos para si. N\u00e3o foi nesse sentido; fala em suspiros \u00e0 lua, a quem pede que seja testemunha de que nada h\u00e1 no mundo mais doce do que o sentimento que o domina e nem maior do que o alvo de suas aspira\u00e7\u00f5es santas.<\/p>\n<p>\u2014 Aprovo, disse o padre S\u00e1; mas para dizer isso, n\u00e3o precisava falar \u00e0 lua e era indiferente a prosa ou o verso.<\/p>\n<p>Lulu recebera de novo o papel que o primo lhe dera; e o padre notou nessa noite a preocupa\u00e7\u00e3o e acanhamento da sobrinha, e a singular alegria de Alexandre. Era a primeira vez que o seu rosto severo se expandia; a primeira que lhe ouviam o riso franco e jovial.<\/p>\n<p>Aqueles versos foram lidos e relidos na alcova pela inspiradora deles, que com eles sonhou durante a noite inteira, e acordou com eles na mem\u00f3ria. No cora\u00e7\u00e3o, leitor, no cora\u00e7\u00e3o devo eu dizer que eles estavam, e mau \u00e9 quando os versos entram pelo cora\u00e7\u00e3o, porque atr\u00e1s deles pode ir o amor. Lulu sentiu alguma coisa que se parecia com isso.<\/p>\n<p>O que \u00e9 triste e prosaico, o que eu devia excluir da novela, \u00e9 a constipa\u00e7\u00e3o do filho de D.<\/p>\n<p>Emiliana, uma forte constipa\u00e7\u00e3o que apanhou nos seus passeios noturnos, e que o reteve em casa no dia seguinte. Faz\u00ea-lo adoecer de incerteza ou de qualquer outra coisa moral era talvez mais digno do papel; mas o rapaz constipou-se, e n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio sen\u00e3o admitir a coriza, suprimindo todavia as mezinhas que a m\u00e3e lhe deu e os discursos com que as temperou.<\/p>\n<p>Os tais discursos n\u00e3o eram agrad\u00e1veis de ouvir. Pedro n\u00e3o sa\u00edra ostensivamente de casa na noite sacrificada ao capricho de Lulu; deitou-se \u00e0 hora de costume e meia hora depois, quando sentiu a fam\u00edlia acomodada, levantou-se e, gra\u00e7as \u00e0 cumplicidade de um escravo, saiu \u00e0 rua. De manh\u00e3 voltou, dizendo que sa\u00edra cedo. Mas os olhos com que vinha, e o longo sono que dormira em toda a manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0s horas do jantar, descobriram toda a verdade aos olhos perspicazes de D. Emiliana.<\/p>\n<p>\u2014 Padre! dizia ela; e um mariola destes quer ser padre! Constipado o rapaz, deixou de sair dois dias; e n\u00e3o saindo ele, a mo\u00e7a deixou de rir ou sorrir sequer, enquanto o primo temperava a gravidade do seu aspecto com desusada alegria e singular agita\u00e7\u00e3o, que nada pareciam ter com Lulu. O tio aborreceu-se com esta apar\u00eancia de arrufos; achou pouca generosidade da parte de Alexandre, em mostrar-se jovial e descuidado, quando a mo\u00e7a parecia preocupada e triste, e resolveu acarear os dois cora\u00e7\u00f5es e dizer-lhes francamente o que a respeito deles pensava, na primeira oportunidade que se lhe oferecesse.<\/p>\n<h2>IX<\/h2>\n<p>A noite seguinte foi de amargura para Lulu, que ouviu ao primo dizer baixinho ao filho de D. Emiliana: \u2014 Preciso falar-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Pronto.<\/p>\n<p>\u2014 A s\u00f3s.<\/p>\n<p>\u2014 Quando quiser.<\/p>\n<p>\u2014 Esta mesma noite.<\/p>\n<p>Pedro fez um gesto de assentimento.<\/p>\n<p>O tom da voz de Alexandre n\u00e3o revelava c\u00f3lera; todavia, como ele dizia gravemente as coisas mais simples, Lulu estremeceu ao ouvir aquele curto di\u00e1logo e teve medo. Que haveria entre os dois logo que dali sa\u00edssem? Receosa de algum ato de vingan\u00e7a, a mo\u00e7a tratou nessa noite o primo com tamanha afabilidade que as esperan\u00e7as do padre S\u00e1 renasceram, e Pedro cuidou ter perdidas todas as que ele tinha. Ela tentou prolongar a visita dos dois; mas reconheceu que era in\u00fatil o meio e que, uma vez sa\u00eddos dali, qualquer que fosse a hora, podia dar-se o que ela receava.<\/p>\n<p>Teve outra id\u00e9ia. Saiu repentinamente da sala e foi direito a tia M\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u2014 Tia M\u00f4nica, disse a mo\u00e7a; venho pedir-lhe um grande favor.<\/p>\n<p>\u2014 Um favor, nhanh\u00e3! Sua preta velha obedecer\u00e1 ao que lhe mandar.<\/p>\n<p>\u2014 Quando meu primo sair daqui com o senhor Pedro voc\u00ea vai acompanh\u00e1-los.<\/p>\n<p>\u2014 Jesus! Para que? \u2014 Para ouvir o que eles dizem, e ver o que houver entre eles, e gritar por socorro se houver algum perigo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por alma de minha m\u00e3e, suplicou Lulu.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>Lulu n\u00e3o ouviu o resto; correu \u00e0 sala. Os dois rapazes, j\u00e1 de p\u00e9, faziam as suas despedidas ao padre e despediram-se dela at\u00e9 ao dia seguinte; este dia seguinte ecoou funebremente no esp\u00edrito da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Tia M\u00f4nica vestira \u00e0 pressa uma mantilha e desceu atr\u00e1s dos dois rapazes. Ia resmungando, receosa do que fazia ou do que podia acontecer, nada compreendendo daquilo, e entretanto, cheia do desejo de obedecer \u00e0 vontade de sinh\u00e1 mo\u00e7a.<\/p>\n<p>O padre S\u00e1 estava mais jovial do que nunca. Logo que ficou a s\u00f3s com a sobrinha, disselhe dois gracejos paternais, que ela ouviu com um sorriso \u00e0 flor dos l\u00e1bios; e o ser\u00e3o acabou logo depois.<\/p>\n<p>Lulu recolheu-se ao quarto, sabe Deus e imagina o leitor com que medos no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ajoelhou diante de uma imagem da Virgem e orou fervorosamente&#8230; por Pedro? N\u00e3o, por um e outro, pela vida e paz dos dois mo\u00e7os. O que n\u00e3o se sabe \u00e9 se pediu alguma coisa mais. Provavelmente, n\u00e3o; o maior perigo naquela ocasi\u00e3o era aquele.<\/p>\n<p>A ora\u00e7\u00e3o pacificou-lhe a alma; recurso poderoso que s\u00f3 conhecem as almas crentes e os cora\u00e7\u00f5es devotos. Aquietada, esperou a volta de tia M\u00f4nica. As horas, entretanto, correram lentas, e desesperadoras. A mo\u00e7a n\u00e3o saiu da janela salvo duas ou tr\u00eas vezes para vir de novo ajoelhar-se diante da imagem. Meia-noite bateu e come\u00e7ou a primeira hora do dia seguinte sem que o vulto da boa preta aparecesse ou o som de seus passos interrompesse o sil\u00eancio da noite.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a n\u00e3o p\u00f4de resistir mais; as l\u00e1grimas brotaram dela ardentes, precipitadas e ela atirou-se \u00e0 cama toda entregue ao seu desespero. Sua imagina\u00e7\u00e3o pintava-lhe os quadros mais tristes; e pela primeira vez sentiu ela toda a intensidade do novo sentimento que a dominava.<\/p>\n<p>Era uma hora, quando o som pausado e seco de uma chinela soou nas pedras da rua.<\/p>\n<p>Lulu adivinhou o passo da tia M\u00f4nica; foi \u00e0 janela; um vulto aproximava-se da porta, parou, abriu cautelosamente com a chave que levava e entrou. A mo\u00e7a respirou, mas \u00e0 primeira incerteza sucedia uma segunda. Era muito ver a preta de volta; restava saber o que acontecera.<\/p>\n<p>Tia M\u00f4nica subiu as escadas, e j\u00e1 achou no patamar a sinh\u00e1 mo\u00e7a, que a fora esperar ali.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? perguntou esta.<\/p>\n<p>A resposta da preta foi nenhuma; travou-lhe da m\u00e3o e encaminhou-se para o quarto da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! sinh\u00e1 Lulu, que noite! exclamou tia M\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u2014 Mas diga, diga, que aconteceu? A preta sentou-se com a liberdade de uma pessoa cansada, e velha, e quase m\u00e3e daquela filha. Lulu pediu-lhe que dissesse tudo e depressa. Depressa, era exigir muito da pobre M\u00f4nica, que al\u00e9m da idade, tinha o sestro de narrar pelo mi\u00fado os incidentes todos de um caso ou de uma aventura, sem excluir as suas pr\u00f3prias reflex\u00f5es e as circunst\u00e2ncias mais alheias ao assunto da conversa\u00e7\u00e3o. Gastou, portanto, a tia M\u00f4nica dez comprid\u00edssimos minutos em dizer que nada ouvira aos dois rapazes desde que dali sa\u00edra; que os acompanhara at\u00e9 ao Largo da Imperatriz e subira com eles at\u00e9 a um ter\u00e7o da ladeira do Livramento, onde morava Alexandre, em cuja casa ambos entraram e se fecharam por dentro. Ali ficou, do lado de fora, cerca de meia hora; mas n\u00e3o os vendo sair, perdeu as esperan\u00e7as e voltou para a Gamboa.<\/p>\n<p>\u2014 Fui e vim com o credo na boca, terminou tia M\u00f4nica; e dou gra\u00e7as \u00e0 Virgem Sant\u00edssima por me ver aqui s\u00e3 e salva.<\/p>\n<p>Pouco sabia a mo\u00e7a; ainda assim aquietou-se-lhe o esp\u00edrito. Tia M\u00f4nica era um tanto curiosa, e em pr\u00eamio do seu trabalho achou natural saber a raz\u00e3o daquela excurs\u00e3o noturna.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o me pergunte nada, tia M\u00f4nica! respondeu Lulu; amanh\u00e3 lhe direi tudo.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei mais ou menos o que \u00e9, disse a preta; neg\u00f3cio de paix\u00e3ozinha de mo\u00e7a. N\u00e3o faz mal; eu adivinhei tudo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tudo? perguntou maquinalmente a sobrinha do padre S\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 muito tempo; continuou tia M\u00f4nica; h\u00e1 seis meses.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Seu primo de vosmec\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! cale-se! \u2014 Est\u00e1 bom, n\u00e3o digo mais nada. S\u00f3 lhe digo que espere em Nossa Senhora, que \u00e9 boa m\u00e3e e h\u00e1 de faz\u00ea-la feliz.<\/p>\n<p>\u2014 Deus a ou\u00e7a! \u2014 Agora sua preta velha vai dormir&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1, tia M\u00f4nica; Deus lhe pague! Neste momento, ouviu-se no corredor o ru\u00eddo de uns passos que se afastavam cautelosamente.<\/p>\n<p>\u2014 Que foi? disse Lulu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei&#8230; Abren\u00fancio! Ouviu alguma coisa? A mo\u00e7a foi resolutamente \u00e0 porta, abriu-a; o corredor estava escuro. Tia M\u00f4nica saiu com a vela e n\u00e3o viu nada. Deram-se as boas noites; a mo\u00e7a voltou ao seu leito, onde, sobre a madrugada, conseguiu enfim dormir. Tia M\u00f4nica dormiu logo o sono dos anjos, ia eu dizer, e o digo porque ela foi verdadeira ang\u00e9lica naquela aventurosa noite.<\/p>\n<h2>X<\/h2>\n<p>De quem seriam os passos ouvidos no corredor, sen\u00e3o do padre S\u00e1 que percebera movimentos desusados na casa, ouvira a entrada da tia M\u00f4nica e quis saber a raz\u00e3o de tal sa\u00edda a desoras? Alguma coisa soube, quanto bastou para que no dia seguinte acordasse com a resolu\u00e7\u00e3o feita de concluir dentro de poucas semanas o casamento da sobrinha com o sobrinho.<\/p>\n<p>\u2014 Ou se a n\u00e3o ama, que o diga logo de uma vez, pensou o bom padre; \u00e9 melhor do que fazer padecer a minha pobre Lulu.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, pensou que n\u00e3o houvera prud\u00eancia da parte da sobrinha em mandar emiss\u00e1rios atr\u00e1s do primo e fazer intervir criados em coisas de tanta monta.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 preciso repreend\u00ea-la, porque n\u00e3o andou em bom caminho, nem a eduquei para leviandades tais.<\/p>\n<p>Isto disse o padre S\u00e1, mas foi s\u00f3 dizer, porque logo que viu a sobrinha e lhe leu no rosto todas as amarguras da noite e os sinais de longa vig\u00edlia, ficou tomado de comisera\u00e7\u00e3o e a severidade cedeu o passo \u00e0 ternura.<\/p>\n<p>Preferiu repreender a tia M\u00f4nica, depois de a interrogar acerca dos sucessos da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>A preta negou tudo, e mostrou-se singularmente admirada com a not\u00edcia de que ela havia sa\u00eddo de noite; o padre, por\u00e9m, soube faz\u00ea-la confessar tudo, s\u00f3 com lhe mostrar o mal que havia em mentir. Nem por isso ficou sabendo muito; repreendeu a preta, e foi dali escrever uma cartinha ao sobrinho.<\/p>\n<p>A carta foi escrita, mas n\u00e3o foi mandada. Da\u00ed a meia hora, anunciava-se nada menos que a rotunda pessoa da senhora D. Emiliana, que veio at\u00e9 \u00e0 Gamboa arrastando a sua paci\u00eancia e a idade, com grande espanto do padre S\u00e1 que nunca a vira ali; D. Emiliana pediu muitas desculpas ao padre da visita importuna que lhe fazia, pediu not\u00edcias da sua obriga\u00e7\u00e3o, queixou-se do calor, beijou tr\u00eas ou quatro vezes a face de Lulu, deitando-lhe duas figas para a livrar do quebranto, e s\u00f3 depois destes pr\u00f3logos exp\u00f4s o motivo do passo que acabava de dar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o admira, padre-mestre, disse ela, n\u00e3o admira que eu aqui venha, porque enfim&#8230;<\/p>\n<p>ora, que h\u00e1 de ser? Coisas de rapazes&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 De rapazes? \u2014 De rapazes e mo\u00e7as; ou antes, desta \u00fanica mo\u00e7a, bonita como ela s\u00f3!&#8230; Que olhos que ela tem! D\u00e1 c\u00e1 outro beijo, feiticeira.<\/p>\n<p>Lulu beijou a boa velha, e ficou ainda mais ansiosa que o tio por ouvir o resto da exposi\u00e7\u00e3o. O padre fez sinal \u00e0 sobrinha que se retirasse; n\u00e3o o consentiu D. Emiliana.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! ela pode ficar aqui! N\u00e3o vou dizer nada que ela n\u00e3o deva ouvir.<\/p>\n<p>\u2014 O que eu desejava saber antes de tudo, padre-mestre, \u00e9 se tem feito alguma coisa para que o meu Pedro tome ordens.<\/p>\n<p>\u2014 Bom. Tenho, decerto&#8230; E que mais ? \u2014 E se \u00e9 ainda inten\u00e7\u00e3o casar este anjinho com o senhor Alexandre&#8230; Alexandre, creio que \u00e9 o nome dele? \u2014 Mas&#8230; n\u00e3o sei a que prop\u00f3sito&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A prop\u00f3sito de que estive hoje de manh\u00e3 com o futuro esposo e o futuro padre, e ambos me pediram que interviesse por eles, de maneira que n\u00e3o houvesse demora nem no casamento nem na entrada no semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 Nenhuma demora, D. Emiliana, disse o padre; \u00e9 o meu maior desejo. Acho at\u00e9 esquisito que, por uma coisa t\u00e3o simples&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 menos simples do que parece.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Menos simples, porque eles oferecem uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Uma condi\u00e7\u00e3o? \u2014 Sim, reverend\u00edssimo; ambos est\u00e3o prontos a satisfazer os seus desejos, com a condi\u00e7\u00e3o de que os h\u00e1 de trocar, passando o marido a ser padre, e o padre a ser marido.<\/p>\n<p>O dono da casa deu um pulo na cadeira. D. Emiliana assustou-se vendo o gesto, mas voltou logo os olhos para a mo\u00e7a, cujo olhar, radiante de prazer, mostrou \u00e0 boa velha a excelente impress\u00e3o que lhe fazia a not\u00edcia. Lulu beijou a m\u00e3o de D. Emiliana, e este simples gesto revelara ao tio o estado do seu cora\u00e7\u00e3o. O padre esteve algum tempo calado. Depois sorriu e disse: \u2014 De maneira que tive a perspic\u00e1cia de enganar-me at\u00e9 hoje; e ia fazer, sem consci\u00eancia, um mau padre e um mau marido.<\/p>\n<p>\u2014 Justamente, disse D. Emiliana.<\/p>\n<p>\u2014 E cuidava ter-lhes adivinhado a voca\u00e7\u00e3o! Sempre lhe direi contudo que s\u00e3o dois velhaquetes os rapazes&#8230; Mas n\u00e3o importa; terei o padre e o esposo de Lulu, e direi a Deus como Salom\u00e3o: \u201c N\u00e3o lhas negou Deus; o esposo e o padre foram exemplares; um est\u00e1 c\u00f4nego; o outro trata de fazer o filho ministro de Estado. \u00c9 poss\u00edvel que, a fazer as coisas como as queria o padre S\u00e1, n\u00e3o houvesse nem c\u00f4nego, nem ministro.<\/p>\n<p>Segredo de voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas que tem com esta hist\u00f3ria o t\u00edtulo que lhe pus? Tudo; s\u00e3o umas vinte p\u00e1ginas para encher tempo. Em falta de coisa melhor, l\u00ea-se isto, e dorme-se.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis I A tarde era uma tarde de dezembro \u2014 trovejada como elas eram h\u00e1 trinta anos, quando o c\u00e9u parecia querer vir abaixo, desfeito em raios e \u00e1gua. O calor fora excessivo durante a manh\u00e3 toda; \u00e0s duas horas, o c\u00e9u come\u00e7ou a enegrecer, \u00e0s tr\u00eas e meia, desfechou a tormenta que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-115865","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Encher Tempo, Machado de Assis Encher Tempo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Encher Tempo, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Encher Tempo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" 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