{"id":115861,"date":"2017-03-27T19:03:20","date_gmt":"2017-03-27T21:03:20","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115861"},"modified":"2017-03-27T19:03:20","modified_gmt":"2017-03-27T21:03:20","slug":"duas-juizas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/duas-juizas","title":{"rendered":"Duas Ju\u00edzas"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Uma era a Devo\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora das Dores, outra era a Devo\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, duas irmandades de damas estabelecidas na mesma igreja. Qual igreja? Este \u00e9 justamente o ponto falho do meu conto; n\u00e3o posso lembrar-me em qual das nossas igrejas era. Mas, pensando bem, que necessidade h\u00e1 de saber-lhe o nome? Uma vez que eu diga os outros e todas as circunst\u00e2ncias do acontecimento, do caso, o resto pouco importa.<\/p>\n<p>No altar da esquerda, \u00e0 entrada, ficava a imagem das Dores, e no da direita a da Concei\u00e7\u00e3o. Esta posi\u00e7\u00e3o das duas imagens definia at\u00e9 certo ponto a das Devo\u00e7\u00f5es, que eram rivais. Rivalidade nestas obras de culto e religi\u00e3o n\u00e3o pode ou n\u00e3o deve dar de si se n\u00e3o maior zelo e esplendor. Era o que acontecia aqui. As duas Devo\u00e7\u00f5es brilhavam de ano para ano; e que era tanto mais admir\u00e1vel quanto que o ardor fora quase repentino e recente. Durante longos anos, as duas associa\u00e7\u00f5es vegetaram na obscuridade; e, longe de serem contr\u00e1rias, eram amigas, trocavam obs\u00e9quios, emprestavam alfaias, as irm\u00e3s de uma iam, com as melhores toilettes, \u00e0s festas da outra.<\/p>\n<p>Um dia, a Devo\u00e7\u00e3o das Dores elegeu para ju\u00edza uma senhora D. Matilde, pessoa abastada, vi\u00fava e fresca, ao mesmo tempo que a da Concei\u00e7\u00e3o punha \u00e0 sua frente a esposa do comendador N\u00f3brega, D. Romualda. O fim de ambas as Devo\u00e7\u00f5es era o mesmo: era dar mais alguma vida ao culto, desenvolv\u00ea-lo, comunicar-lhe certo esplendor que n\u00e3o tinha. Ambas as ju\u00edzas eram pessoas para isso, mas n\u00e3o corresponderam \u00e0s esperan\u00e7as. O que fizeram no seguinte ano foi pouco; e, ainda assim, nenhuma das Devo\u00e7\u00f5es p\u00f4de dispensar os obs\u00e9quios da cong\u00eanere. Enfim, Roma n\u00e3o se fez num dia, repetiram as devotas de ambas, e esperaram.<\/p>\n<p>Na verdade, as duas ju\u00edzas tinham distra\u00e7\u00f5es noutras partes; n\u00e3o podiam subitamente cortar por h\u00e1bitos antigos. Note-se que eram amigas, andavam muita vez juntas, encontravam-se em bailes, e teatros. Eram tamb\u00e9m bonitas e vistosas; circunst\u00e2ncia que n\u00e3o determinara a elei\u00e7\u00e3o, mas agradou \u00e0s eleitoras, t\u00e3o certo \u00e9 que a beleza n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um ornato profano, e, posto que a religi\u00e3o exija principalmente a perfei\u00e7\u00e3o moral, os pintores n\u00e3o se esquecem de p\u00f4r o arrependimento de Madalena dentro de belas formas.<\/p>\n<p>Vai sen\u00e3o quando, D. Matilde, presidindo a uma sess\u00e3o de mesa administrativa da Devo\u00e7\u00e3o das Dores, disse que era preciso cuidar seriamente de levantar a associa\u00e7\u00e3o. Todas as companheiras foram do mesmo parecer, com grande contentamento, porque realmente n\u00e3o desejavam outra coisa. Eram pessoas religiosas; e, salvo a secret\u00e1ria e tesoureira, viviam na obscuridade e no sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 As nossas festas, continuou D. Matilde, t\u00eam sido muito descuidadas. N\u00e3o vem quase ningu\u00e9m a elas; e da gente que vem pouca \u00e9 a de certa ordem. Vamos trabalhar. A deste ano deve ser espl\u00eandida. H\u00e1 de pontificar monsenhor Lopes; estive ontem com ele. A orquestra deve ser de primeira qualidade; podemos ter uma cantora italiana.<\/p>\n<p>E foi por diante a ju\u00edza, dando os primeiros lineamentos do programa. Em seguida, adotaram certas resolu\u00e7\u00f5es: \u2014 alistar novas devotas \u2014 e D. Matilde www.nead.unama.br 3 indicava as suas amigas da alta sociedade \u2014, fazer entrar as anuidades atrasadas, comprar alfaias porque, ponderou a ju\u00edza, \u201cn\u00e3o \u00e9 bonito estarmos a viver de Coisa interessante! Quinze dias depois, ou tr\u00eas semanas, quando muito, a outra Devo\u00e7\u00e3o celebrava uma sess\u00e3o da mesa administrativa em que D. Romualda exprimia iguais sentimentos, propunha uma reforma an\u00e1loga, espertava o esp\u00edrito religioso das companheiras para o fim de celebrar uma festa digna delas. D.<\/p>\n<p>Romualda tamb\u00e9m prometeu fazer entrar um certo n\u00famero de devotas abastadas e briosas.<\/p>\n<p>Dito e feito. Nem uma nem outra das duas ju\u00edzas deixou de cumprir o prometido. Era uma ressurrei\u00e7\u00e3o, uma vida nova; e justamente o fato da vizinhan\u00e7a das duas Devo\u00e7\u00f5es serviu-lhes de est\u00edmulo. Ambas souberam dos planos, ambas tratavam de levar a cabo os seus com mais particular fulgor.<\/p>\n<p>D. Matilde, que a princ\u00edpio n\u00e3o cuidava daquilo principalmente, da\u00ed a pouco n\u00e3o pensava em mais nada. N\u00e3o rompeu com outros h\u00e1bitos; mas n\u00e3o lhes deu mais do que se d\u00e1 a um costume. O mesmo acontecia a D. Romualda. As duas associa\u00e7\u00f5es estavam content\u00edssimas, porque, em verdade, a maior parte das devotas n\u00e3o o eram s\u00f3 de nome. Uma delas, pertencente \u00e0 Devo\u00e7\u00e3o das Dores, que supunha continuar a antiga troca de servi\u00e7os, lembrou que se pedisse n\u00e3o sei o que \u00e0 outra devo\u00e7\u00e3o. D. Matilde repeliu com desd\u00e9m: \u2014 N\u00e3o; antes vendamos a \u00faltima j\u00f3ia.<\/p>\n<p>A devota n\u00e3o compreendeu bem a resposta; era digna e espartana, mas pareceu-lhe que, em mat\u00e9ria de religi\u00e3o, a confraternidade e a caridade eram as primeiras leis. Entretanto, achou bom que todas se obrigassem ao sacrif\u00edcio, e n\u00e3o tornou ao assunto. Ao mesmo tempo, dava-se na Devo\u00e7\u00e3o da Concei\u00e7\u00e3o an\u00e1logo incidente. Dizendo uma das irm\u00e3s que D. Matilde trabalhava muito, acudiu D.<\/p>\n<p>\u2014 Eu saberei trabalhar muito mais.<\/p>\n<p>Era claro que a rivalidade e o despeito ardiam nelas. Por desgra\u00e7a, tanto o dito de uma como o da outra correram mundo, e chegaram ao conhecimento de ambas; foi como lan\u00e7ar palha ao fogo. D. Romualda bradou em casa de uma amiga: \u2014 Vender a \u00faltima j\u00f3ia? Talvez ela j\u00e1 tenha as suas empenhadas! E D. Matilde: \u2014 Creio, creio&#8230; Creio que trabalhe mais do que eu, mas h\u00e1 de ser de A festa das Dores foi realmente bonita; muita gente, boa m\u00fasica, excelente serm\u00e3o. A igreja estava tomada com um luxo desconhecido dos paroquianos.<\/p>\n<p>Alguns entendidos da mat\u00e9ria calcularam as despesas e subiram a um algarismo muito alto. A impress\u00e3o n\u00e3o se restringiu ao bairro, foi a outros; os jornais deram not\u00edcia minuciosa da festa, e o trouxe o nome de D. Matilde, dizendo que a esta senhora era devido aquele esplendor. \u201cFolgamos de ver, conclu\u00eda aquele \u00f3rg\u00e3o religioso, folgamos de ver que uma senhora de t\u00e3o superiores qualidades emprega www.nead.unama.br 4 uma parte da sua atividade no servi\u00e7o da Virgem Sant\u00edssima.\u201d D. Matilde mandou transcrever a not\u00edcia nos outros jornais.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que D. Romualda n\u00e3o foi \u00e0 festa das Dores; mas soube de tudo, porque uma das zeladoras foi espiar e contou-lhe o que houve. Ficou passada e jurou que havia de meter D. Matilde num chinelo. Quando, por\u00e9m, leu nos , a irrita\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve mais limites. N\u00e3o todos os nomes feios, mas aqueles que uma senhora educada pode dizer de outra, esses disse-os D. Romualda falando da ju\u00edza das Dores \u2014 pretensiosa, velhusca, tola, intrometida, rid\u00edcula, namoradeira, e poucos mais. O marido procurava aquiet\u00e1-la: \u2014 Mas, Romualda, para que h\u00e1 de voc\u00ea irritar-se tanto assim? E batia o p\u00e9, amarrotava a folha que tinha na m\u00e3o. Chegou ao extremo de dar ordem para n\u00e3o receber mais o ; mas a id\u00e9ia de que podia merecer da folha alguma justi\u00e7a, quando chegasse a festa da Concei\u00e7\u00e3o, f\u00ea-la retirar a ordem.<\/p>\n<p>Dali em diante, n\u00e3o se ocupou de outra coisa, sen\u00e3o de preparar uma festa que vencesse a das Dores, uma festa \u00fanica, admir\u00e1vel. Convocou as irm\u00e3s, e disselhes francamente que n\u00e3o poderia ficar abaixo da outra Devo\u00e7\u00e3o; era preciso venc\u00eala, n\u00e3o igual\u00e1-la; igual\u00e1-la era pouco.<\/p>\n<p>E toca a trabalhar na coleta de donativos, na cobran\u00e7a de anuidades. Nas \u00faltimas semanas, o comendador N\u00f3brega quase n\u00e3o p\u00f4de ocupar-se de outra coisa, sen\u00e3o de ajudar a mulher nos preparos da grande festa. A igreja foi armada com uma perfei\u00e7\u00e3o que excedia a da festa das Dores. D. Romualda, a secret\u00e1ria, e duas zeladoras n\u00e3o sa\u00edam de l\u00e1; viam tudo, falavam de tudo, corriam tudo. A orquestra foi a melhor da cidade. Estava de passagem um bispo da \u00cdndia; alcan\u00e7aram dele que pontificasse. O serm\u00e3o foi incumbido a um beneditino de fama. Durante a \u00faltima semana trabalhou a imprensa, anunciando a grande festa.<\/p>\n<p>D. Matilde caiu em mandar para as folhas algumas mofinas an\u00f4nimas, em que arg\u00fc\u00eda a ju\u00edza da Concei\u00e7\u00e3o de ser dada \u00e0 charlatanice e \u00e0 inveja. Respondeu D. Romualda, tamb\u00e9m anonimamente algumas coisas duras; a outra voltou \u00e0 carga, e recebeu nova r\u00e9plica; e isto serviu ao esplendor da festividade. O efeito n\u00e3o podia ser maior, todas as folhas deram uma not\u00edcia, embora curta; o um longo artigo, dizendo que a festa da Concei\u00e7\u00e3o fora das melhores que se tinham dado no Rio de Janeiro, desde muitos anos. Citou tamb\u00e9m o nome de D. Romualda como o de uma senhora distinta pelas qualidades de esp\u00edrito, como digna de apre\u00e7o e louvor pelo zelo e piedade. \u201cAo seu esfor\u00e7o, conclu\u00eda a folha, devemos o prazer que tivemos no dia 8. Oxal\u00e1 muitas outras patr\u00edcias possam imit\u00e1-la!\u201d Foi uma punhalada em D. Matilde. Trocaram-se os pap\u00e9is; ela agora \u00e9 que deitava \u00e0 outra os nomes mais cru\u00e9is de um vocabul\u00e1rio elegante. E jurava que a Devo\u00e7\u00e3o das Dores n\u00e3o ficaria vencida. Imaginou ent\u00e3o umas ladainhas aos s\u00e1bados e contratou uma missa especial aos domingos, fazendo anunciar que era a missa aristocr\u00e1tica da par\u00f3quia. D. Romualda respondeu com outra missa, e uma pr\u00e1tica, depois da missa; al\u00e9m disso, instituiu um m\u00eas de Maria, e convidou a melhor gente.<\/p>\n<p>Esta luta durou uns dois anos. No fim deles, D. Romualda, tendo dado \u00e0 luz uma filha, morreu de parto, e a rival ficou s\u00f3 em campo. Vantagem do est\u00edmulo! T\u00e3o depressa morreu a ju\u00edza da Concei\u00e7\u00e3o como a das Dores sentiu afrouxar o zelo, e j\u00e1 a primeira festa esteve muito aqu\u00e9m das anteriores. A segunda foi feita com outra ju\u00edza, porque D. Matilde, alegando cansa\u00e7o, pediu dispensa do posto.<\/p>\n<p>www.nead.unama.br 5 Um paroquiano curioso tratou de indagar, se al\u00e9m das causas de est\u00edmulo religioso, alguma outra houve; e veio a saber que as duas damas, amigas \u00edntimas, tinham tido uma pequena quest\u00e3o, por causa de um vestido. N\u00e3o se sabe qual delas ajustara primeiro um corte de vestido; sabe-se que o ajuste foi vago, tanto que o dono da loja imaginou ter as m\u00e3os livres para vend\u00ea-lo a outra pessoa.<\/p>\n<p>\u2014 A sua amiga, disse ele \u00e0 outra, j\u00e1 aqui esteve e gostou muito dele.<\/p>\n<p>\u2014 Muito. E quis at\u00e9 lev\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Quando a primeira mandou buscar o vestido, soube que a amiga o comprara. A culpa, se a havia, era do vendedor; mas o vestido era para um baile, e no corpo de outra fez maravilhas; todos os jornais o descreveram, todos louvaram o bom gosto de uma senhora distinta, etc&#8230; Da\u00ed um ressentimento, algumas palavras, frieza, separa\u00e7\u00e3o. O paroquiano, que, al\u00e9m de botic\u00e1rio, era fil\u00f3sofo, tomou nota do caso para cont\u00e1-lo aos amigos. Outros dizem que era tudo mentira dele.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Uma era a Devo\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora das Dores, outra era a Devo\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, duas irmandades de damas estabelecidas na mesma igreja. Qual igreja? Este \u00e9 justamente o ponto falho do meu conto; n\u00e3o posso lembrar-me em qual das nossas igrejas era. 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