{"id":115859,"date":"2017-03-27T18:53:25","date_gmt":"2017-03-27T20:53:25","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115859"},"modified":"2017-03-27T18:53:25","modified_gmt":"2017-03-27T20:53:25","slug":"divida-extinta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/divida-extinta","title":{"rendered":"D\u00edvida Extinta"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>I<\/h2>\n<p>Que ele era um dos primeiros gamenhos de seu bairro e outros bairros adjacentes, \u00e9 coisa que n\u00e3o sofre nem sofreu nunca a menor contesta\u00e7\u00e3o. Podia ter competidores; teve-os; n\u00e3o lhe faltaram invejosos; mas a verdade, como o sol, acabou dissipando as nuvens e mostrando a face rutilante e divina, ou divinamente rutilante, como lhes parecer mais correntio e penteado. O estilo h\u00e1 de ir \u00e0 fei\u00e7\u00e3o do conto, que \u00e9 singelo, nu, vulgar, n\u00e3o desses contos crespos e arrevesados com que autores de m\u00e1 sorte tomam o tempo e moem a paci\u00eancia \u00e0 gente crist\u00e3. Pois n\u00e3o! Eu n\u00e3o sei dizer coisas fabulosas e imposs\u00edveis, mas as que me passam pelos olhos, as que os leitores podem ver e ter\u00e3o visto. Olho, ou\u00e7o e escrevo.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que n\u00e3o lhes pinto o meu gamenho de olhos derreados o fronte byroniana.<\/p>\n<p>De Byron \u00e9 que ele n\u00e3o tinha nada, a n\u00e3o ser um volume truncado, vertido em prosa francesa, volume que ele lia e relia, a ver se extra\u00eda dele e da cabe\u00e7a um recitativo \u00e0 dama de seus pensamentos, que pela sua parte era a mais galante do bairro.<\/p>\n<p>O bairro era o espa\u00e7o compreendido entre o Largo da Imperatriz e o cemit\u00e9rio dos Ingleses. A data&#8230; h\u00e1 uns vinte e cinco anos. O gamenho tinha por nome Anacleto Monteiro. Era nesse tempo um rapaz de vinte e tr\u00eas para vinte e quatro anos, com um princ\u00edpio de barba e outro de bigode, rosto moreno, olhos de azeviche, cabelo castanho, grosso, farto e comprido, que ele arranjava em carac\u00f3is, \u00e0 for\u00e7a de pente e banha e sobre o qual punha \u00e0s tardes, o melhor de seus dois chap\u00e9us brancos. Anacleto Monteiro adorava o chap\u00e9u branco e as botas de verniz. Naquele tempo alguns gamenhos usavam umas botas de verniz de cano vermelho. Anacleto Monteiro adotou esse invento como a mais sublime das inven\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo. E t\u00e3o gentil lhe parecia a id\u00e9ia do cano vermelho, que nunca sa\u00eda de casa sem levantar uma polegada \u00e0s cal\u00e7as para que os olhos das damas n\u00e3o perdessem aquela circunst\u00e2ncia da cor de crista de galo. As cal\u00e7as eram finas mas vistosas, o palet\u00f3 esticado, a luva cor de canela ou de cinza, em harmonia com a gravata, que era cor de cinza ou de canela. Ponham-lhe uma bengala na m\u00e3o e v\u00ea-lo-\u00e3o tal qual era, h\u00e1 vinte e cinco anos, o primeiro gamenho de seu bairro.<\/p>\n<p>Dizendo que era o primeiro n\u00e3o me refiro \u00e0 eleg\u00e2ncia mas \u00e0 aud\u00e1cia, que era verdadeiramente napole\u00f4nica. Anacleto Monteiro estava longe de competir com outros rapazes do tempo e do bairro, no cap\u00edtulo da toilette e das maneiras; mas derrubava-os a todos no namoro. No namoro era um verdadeiro g\u00eanio. Namorava por necessidade, do mesmo modo que o p\u00e1ssaro canta; era \u00edndole, voca\u00e7\u00e3o, conforma\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito. Que m\u00e9rito ou que culpa h\u00e1 na mangabeira em dar mangas? Pois era a mesma coisa Anacleto Monteiro.<\/p>\n<p>\u2014 Este pelintra ainda me h\u00e1 de entrar em casa um dia com as costelas quebradas, dizia o tio a uma parenta; mas se ele pensa que chamarei m\u00e9dico, engana-se redondamente.<\/p>\n<p>Meto-lhe o c\u00f4vado e meio de pano no corpo, isso sim! \u2014 Rapaziadas&#8230; objetava timidamente a parenta.<\/p>\n<p>\u2014 Qual, rapaziadas! desaforadas, \u00e9 o que deve dizer. N\u00e3o respeita nada nem ningu\u00e9m; \u00e9 s\u00f3 namorar. Tudo o que ganha \u00e9 para aquilo, que a senhora v\u00ea; \u00e9 para adamar-se, almiscarar-se, e l\u00e1 vai ele! Ah! se ele n\u00e3o fosse filho daquela irm\u00e3, que Deus tem!&#8230;<\/p>\n<p>E o sr. Bento Fagundes consolava-se das extravag\u00e2ncias do sobrinho inserindo no nariz duas on\u00e7as de Paulo Cordeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Deixai l\u00e1; mais dia menos dia, vem o casamento e sossega.<\/p>\n<p>\u2014 Qual casamento, qual carapu\u00e7a! Pois como h\u00e1 de casar uma cabe\u00e7a de vento que namora \u00e0s quatro e \u00e0s cinco? \u2014 Uma das cinco fisga-o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ser naturalmente a pior.<\/p>\n<p>\u2014 Isso l\u00e1, s\u00e3o desatinos. O que podemos ter por certo, \u00e9 que ele n\u00e3o h\u00e1 de gastar a vida toda nisso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Gasta, gasta&#8230; Olhe, o barbeiro \u00e9 dessa opini\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe l\u00e1 o barbeiro&#8230; Quer que lhe diga? Eu creio que, mais dia menos dia, ele est\u00e1 fisgado&#8230;. J\u00e1 est\u00e1. H\u00e1 a\u00ed umas coisas que ouvi dizer na missa de domingo passado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que foi? \u2014 Umas coisas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Diga.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo. O que for aparecer\u00e1. Talvez tenhamos casamento mais breve do que pensa.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? A sra. Leonarda fez um gesto de cabe\u00e7a. O sr. Bento Fagundes esteve algum tempo a olhar as paredes; depois prorrompeu irado: \u2014 Mas, tanto pior! Ele n\u00e3o est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de casar. Salvo se a sujeita&#8230;<\/p>\n<p>E o orador conclu\u00eda a frase esfregando o polegar no indicador, gesto que a sra. D.<\/p>\n<p>Leonarda correspondeu com outro derreando os cantos da boca, e abanando a cabe\u00e7a da direita para a esquerda.<\/p>\n<p>\u2014 Pobre! traduziu o sr. Bento Fagundes. Olhe, se ele pensa que h\u00e1 de vir meter-me a mulher em casa, est\u00e1 muito enganado. Eu n\u00e3o fiz cinq\u00fcenta e quatro anos para sustentar fam\u00edlia nova. Talvez ele pense que eu tenha mundos e fundos \u2014 Mundos, n\u00e3o digo, primo; mas fundos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Fundos! os das gavetas.<\/p>\n<p>Aqui o sr. Bento Fagundes ia esfriando e desconversando, e a sra. D. Leonarda tra\u00e7ava o xale e despedia-se.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>Bento Fagundes da Purifica\u00e7\u00e3o era botic\u00e1rio, na Rua da Sa\u00fade, desde antes de 1830. Em 1852, data do conto, tinha ele vinte e tr\u00eas anos de botica e um pec\u00falio, em que todos acreditavam, posto ningu\u00e9m dissesse t\u00ea-lo visto. Aparentemente havia dois escravos, comprados no Valongo, quando esses eram ainda bo\u00e7ais e a pre\u00e7o m\u00f3dico.<\/p>\n<p>Vivia o sr. Bento Fagundes uma vida mon\u00f3tona e aborrecida como a chuva mi\u00fada. Raro sa\u00eda da botica. Nos domingos havia um vizinho que o ia entreter ao gam\u00e3o, jogo em que ele era em\u00e9rito, porque era inalter\u00e1vel contra as pirra\u00e7as da sorte, vantagem contra o advers\u00e1rio, que era irritadi\u00e7o e fren\u00e9tico. Felizmente para as botijas do sr. Bento Fagundes, as coisas n\u00e3o se passavam como no soneto de Tolentino; o parceiro n\u00e3o atirava ao ar as t\u00e1bulas, limitava-se a expectorar a c\u00f3lera, derramar o rap\u00e9, assoar as orelhas, o queixo, a gravata, antes de atinar com o nariz. \u00c0s vezes acontecia brigar com o botic\u00e1rio e ficar mal com ele at\u00e9 o domingo seguinte; o gam\u00e3o reconciliava-os: similia similibus curantur.<\/p>\n<p>Nos demais dias, o sr. Bento Fagundes vendia drogas, manipulava as cataplasmas, temperava e arredondava as p\u00edlulas. De manh\u00e3, lavado e enfronhado no rodaque de chita amarela, sentava-se em uma cadeira \u00e0 porta, a ler o Jornal do Commercio, que lhe emprestava o padeiro da esquina. N\u00e3o lhe escapava nada, desde os debates das c\u00e2maras at\u00e9 os an\u00fancios teatrais, posto n\u00e3o fosse a espet\u00e1culos nem sa\u00edsse nunca. Lia com igual pachorra todos os an\u00fancios particulares. Os derradeiros minutos eram dados ao movimento do porto. Uma vez inteirado das coisas do dia, entregava-se todo aos misteres da farm\u00e1cia.<\/p>\n<p>Esta vida tinha duas altera\u00e7\u00f5es durante o ano; uma na ocasi\u00e3o das festas do Esp\u00edrito Santo, em que o sr. Bento Fagundes ia ver as barracas, em companhia dos tr\u00eas parentes que tinha; outra na ocasi\u00e3o da prociss\u00e3o de Corpus Christi. Salvo essas duas ocasi\u00f5es, nunca mais vinha \u00e0 cidade o sr. Bento Fagundes. Assim que, era todo ele uma regularidade de cron\u00f4metro; um gesto compassado e um ar soturno com o qual se parecia a botica, que era uma loja escura e melanc\u00f3lica.<\/p>\n<p>Claro \u00e9 que um homem com tais h\u00e1bitos longamente adquiridos mal poderia suportar a vida que levava o pintalegrete do sobrinho. Anacleto Monteiro n\u00e3o era s\u00f3 pintalegrete; trabalhava; tinha um emprego no Arsenal de Guerra; e s\u00f3 acabado o trabalho ou nos dias de f\u00e9rias, atirava-se \u00e0s ruas da Sa\u00fade e adjacentes. Que ele passeasse uma vez ou outra, n\u00e3o lho contestava o tio; mas sempre, e de botas encarnadas, eis o esc\u00e2ndalo. Da\u00ed a raiva, os ralhos, as explos\u00f5es. E quem o obriga a aloj\u00e1-lo na botica, dar-lhe casa, cama e mesa? O cora\u00e7\u00e3o, leitora minha, o cora\u00e7\u00e3o de Bento Fagundes que ainda se conservava mais puro do que suas drogas. Bento Fagundes tinha dois sobrinhos: o nosso Anacleto, que era filho de uma sua irm\u00e3 muito querida, e Adriano Fagundes, filho de um irm\u00e3o, a quem ele detestara enquanto vivo foi. Em Anacleto amava a lembran\u00e7a da irm\u00e3; em Adriano as qualidades pessoais; amava-os igualmente, e talvez um poucochinho mais a Adriano do que ao outro.<\/p>\n<p>As boas qualidades deste eram mais conformes ao g\u00eanio do botic\u00e1rio. Primeiramente, n\u00e3o usava botas encarnadas, nem chap\u00e9u branco, nem luvas, nem qualquer outro distintivo de peraltice. Era um jarreta precoce. N\u00e3o arruava, n\u00e3o ia a teatros, n\u00e3o gastava charutos. Tinha vinte e cinco anos e tomava rap\u00e9 desde os vinte. Finalmente, apesar do convite que o tio lhe fez, nunca foi morar com ele; residia em casa sua, na Rua do Prop\u00f3sito. Bento Fagundes suspeitava que ele punha dinheiro de lado, suspeita que o tornava inda mais digno de apre\u00e7o.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia entre os dois primos grande afei\u00e7\u00e3o; mas davam-se, encontravam-se freq\u00fcentes vezes ou em casa do tio, ou na casa de Adriano. Nem este podia suportar a peraltice de Anacleto, nem Anacleto o jarretismo de Adriano, e ambos tinham raz\u00e3o, porque cada um deles via as coisas atrav\u00e9s de suas pr\u00f3prias prefer\u00eancias, que \u00e9 o que acontece aos demais homens; sem embargo, por\u00e9m, desse abismo que entre os dois havia, davam-se e continuavam as rela\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O tio estimava v\u00ea-los mais ou menos unidos. Sua c\u00f3lera a respeito de Anacleto, seus protestos de o n\u00e3o receber em casa quando ele casasse, eram protestos ao vento, era c\u00f3lera de namorado. Por outro lado, a sequid\u00e3o com que tratava Adriano era apenas uma crosta, uma apar\u00eancia mentirosa. Como ficou dito, os dois rapazes eram as duas \u00fanicas afei\u00e7\u00f5es do velho farmac\u00eautico, e a dor \u00fanica e verdadeira que ele teria era se os visse inimigos. Vendo-os amigos, n\u00e3o pedia Bento Fagundes nada mais ao destino do que v\u00ealos s\u00e3os, empregados e felizes. Eles e a sra. D. Leonarda eram seus \u00fanicos parentes; esta mesma veio a morrer antes dele, n\u00e3o lhe restando nos \u00faltimos dias mais do que Anacleto e Adriano, as meninas de seus olhos.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Ora, \u00e9 de saber que justamente no tempo em que a sra. D. Leonarda fez meia confid\u00eancia ao botic\u00e1rio, era esta nada menos que ver\u00eddica. Entre os dez ou doze namoros que o jovem Anacleto entretinha nessa ocasi\u00e3o, havia um que amea\u00e7ava internar-se pelos dom\u00ednios conjugais.<\/p>\n<p>A donzela que assim queria cortar as asas ao vol\u00favel Anacleto morava na Praia da Gamboa. Era um demoninho de olhos pretos, que \u00e9 a cor infernal por excel\u00eancia. Dizia-se na vizinhan\u00e7a que em mat\u00e9ria de namoro ela pedia me\u00e7as ao sobrinho de Bento Fagundes. Devia ser assim, porque muita sola de sapato era gasta na referida praia, s\u00f3 por motivo dela, sem que nenhum dos pretendentes desanimasse, o que \u00e9 prova de que se a boa menina lhes n\u00e3o respondia que sim, tamb\u00e9m lhes n\u00e3o dizia que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlota era o nome desta vol\u00favel criatura. Tinha perto de dezenove anos e n\u00e3o possu\u00eda dezenove mil-r\u00e9is. Os pretendentes n\u00e3o olhavam a isso; gostavam dela pelos olhos, pela figura, por todas as gra\u00e7as que viam nela, e nada mais. As vizinhas, suas naturais competidoras, n\u00e3o podiam perdoar-lhe a esp\u00e9cie de monop\u00f3lio que ela exercia em rela\u00e7\u00e3o aos pintalegretes do bairro. Poucas eram as que prendiam algum deles e estes eram quase todos, n\u00e3o rapazes desenganados, mas precavidos, que depois de muito tempo, sem largar Carlota, iniciavam alguns namoros suplementares.<\/p>\n<p>Quando Anacleto Monteiro se dignou baixar os olhos a Carlota foi com a inten\u00e7\u00e3o feita de derrubar todos os pretendentes, fazer-se amado e romper o namoro, como era costume seu; restituiria as cartas, ficando com duas, e a tran\u00e7a de cabelo, escondendo alguns fios.<\/p>\n<p>Um domingo de tarde Anacleto Monteiro vestiu a melhor das roupas, empomadou-se, almiscarou-se, enfeitou-se, p\u00f4s na cabe\u00e7a o mais alvo dos chap\u00e9us e saiu na dire\u00e7\u00e3o da Gamboa. Um general n\u00e3o disp\u00f5e melhormente as suas tropas. A peleja era de honra; ele afian\u00e7ara a alguns amigos, em uma loja de barbeiro, que deitaria ao ch\u00e3o todos os que pretendiam o cora\u00e7\u00e3o da pequena; cumpria dirigir o ataque em regra.<\/p>\n<p>Nessa tarde houve s\u00f3 um reconhecimento, e completo.<\/p>\n<p>Ele passou, fitando na mo\u00e7a uns olhos l\u00e2nguidos, depois intimativos, depois misteriosos.<\/p>\n<p>A vinte passos parou, olhando para o mar, tirou o len\u00e7o, chegou aos l\u00e1bios, e guardou-o depois de o agitar um pouco em forma de adeus. Carlota, que percebera tudo, curvou muito o corpo, a brincar com um dos cachos. Usava cachos. Era uma de suas armas.<\/p>\n<p>No dia seguinte, prosseguiu no reconhecimento, mas ent\u00e3o mais pr\u00f3ximo \u00e0 fortaleza.<\/p>\n<p>Anacleto passou duas ou tr\u00eas vezes pela porta, sorriu, contraiu as sobrancelhas, piscou um olho. Ela sorriu tamb\u00e9m mas sem olhar para ele, com um gesto muito disfar\u00e7ado e gracioso. Ao cabo de quatro dias estavam esgotados estes preliminares amat\u00f3rios, e Anacleto convencido de que podia empreender um ataque \u00e0 viva for\u00e7a. A fortaleza pedia isso mesmo; a pontualidade com que o esperava \u00e0 janela, o interesse com que o seguia, o sorriso que lhe guardava no canto do l\u00e1bio, eram tudo sintomas de que a fortaleza estava prestes a render-se.<\/p>\n<p>Anacleto aventurou a primeira carta. A primeira carta de Anacleto era sempre a mesma. \u201c Duas p\u00e1ginas deste chav\u00e3o ins\u00edpido mas eficaz. Escrita a carta, dobrou-a, fechou-a em forma de la\u00e7o, meteu-a no bolso e saiu. Passou; deixou cair a noite; voltou a passar e, cosendo-se com a parede e a r\u00f3tula, deu-lhe a carta com uma arte s\u00f3 compar\u00e1vel \u00e0 arte com que ela a recebeu. Carlota foi l\u00ea-la da\u00ed a alguns minutos.<\/p>\n<p>Leu-a, mas n\u00e3o escreveu logo a resposta. Era um de seus artif\u00edcios; nem escreveu a resposta, nem chegou \u00e0 janela, nos dois dias posteriores.<\/p>\n<p>Anacleto foi \u00e0s nuvens quando, no dia seguinte, ao passar-lhe pela porta n\u00e3o viu a deusa da Gamboa, como os rapazes lhe chamavam. Era a primeira que lhe resistia ao estilo e ao alm\u00edscar. Repetiu-se-lhe o caso no outro dia, e ele sentiu alguma coisa semelhante ao amor-pr\u00f3prio ofendido.<\/p>\n<p>\u2014 Ora d\u00e1-se! dizia ele consigo mesmo. Uma lambisg\u00f3ia que&#8230; Da\u00ed, pode ser que esteja doente. \u00c9 isso; est\u00e1 doente&#8230; Se pudesse saber alguma coisa! Mas como? N\u00e3o indagou nada e esperou mais vinte e quatro horas; resolu\u00e7\u00e3o acertada, porque, vinte e quatro horas depois, tinha ele a fortuna de ver a deusa, logo que apontou ao longe.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 est\u00e1 ela.<\/p>\n<p>Carlota tinha-o visto e olhava para o mar. Anacleto aproximou-se; ela fitou-o; trocaram uma chispa. Justamente ao passar pela r\u00f3tula, Anacleto sussurrou com voz tr\u00eamula e puxada do cora\u00e7\u00e3o: \u2014 Ingrata! Ao que ela retorquiu: \u2014 \u00c0s ave-marias.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia j\u00e1 para o sobrinho de Bento Fagundes como\u00e7\u00f5es novas. O dito de Carlota n\u00e3o lhe fez ferver o sangue. Sentiu-se por\u00e9m lisonjeado. A pra\u00e7a estava rendida.<\/p>\n<p>Logo depois das ave-marias voltou o petimetre, encostadinho \u00e0 parede, a passo curto e demorado. Carlota deixou cair um papel, ele deixou cair o len\u00e7o e abaixou-se para apanhar o len\u00e7o e o papel. Quando ergueu a cabe\u00e7a a mo\u00e7a tinha desaparecido.<\/p>\n<p>A carta era tamb\u00e9m um chav\u00e3o. Carlota dizia sentir igual sentimento ao de Anacleto Monteiro, mas pedia-lhe que, se n\u00e3o fosse inten\u00e7\u00e3o dele am\u00e1-la deveras, melhor era deix\u00e1-la entregue \u00e0 solid\u00e3o e \u00e0s l\u00e1grimas. Estas l\u00e1grimas, as mais hipot\u00e9ticas do mundo, engoliu-as o sobrinho do botic\u00e1rio, porque era a primeira vez que lhe falavam delas logo na primeira ep\u00edstola. Concluiu que o cora\u00e7\u00e3o da pequena devia arder como um Ves\u00favio.<\/p>\n<p>A isto seguiu-se uma orgia de cartas e passeios, de lencinho na boca, e de paradas \u00e0 porta. Antes de parar \u00e0 porta, Anacleto Monteiro aventurou um aperto de m\u00e3o, coisa f\u00e1cil, porque ela n\u00e3o a tinha pendurado para outra coisa.<\/p>\n<p>Logo no dia seguinte passou; estiveram alguns instantes sem dizer nada; depois disseram ainda menos, porque falaram da lua e do calor. Foi s\u00f3 o intr\u00f3ito. Est\u00e1 provado que a lua \u00e9 o caminho do cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tardou que come\u00e7assem a repetir de viva voz tudo o que tinham escrito nas cartas. Juras eternas, saudades, paix\u00e3o invenc\u00edvel. No ponto agudo do casamento nenhum deles tocou, ela por mod\u00e9stia, ele por prud\u00eancia; e assim correram as duas primeiras semanas.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>\u2014 Mas, deveras, voc\u00ea gosta de mim? \u2014 C\u00e9us! Por que me fazes essa pergunta? dizia pasmado Anacleto Monteiro.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei! Voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o vol\u00favel! \u2014 Vol\u00favel, eu! \u2014 Sim, voc\u00ea. J\u00e1 me avisaram a seu respeito.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 J\u00e1 me disseram que voc\u00ea gasta o seu tempo a namorar, a enganar as mo\u00e7as, e depois&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem foi esse caluniador? \u2014 Foi uma pessoa que voc\u00ea n\u00e3o conhece.<\/p>\n<p>\u2014 Carlota, bem sabes que meu cora\u00e7\u00e3o palpita por ti e somente por ti&#8230; Pelo contr\u00e1rio, voc\u00ea \u00e9 que me parece n\u00e3o gostar nada&#8230; N\u00e3o abane a cabe\u00e7a; eu posso dar-lhe provas.<\/p>\n<p>\u2014 Provas! Venha uma.<\/p>\n<p>\u2014 Posso dar vinte. Em primeiro lugar, ainda n\u00e3o pude obter que voc\u00ea me desse um beijo.<\/p>\n<p>Que quer dizer isso, seria que voc\u00ea quer s\u00f3 passar o tempo? Carlota fez uma careta.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem? que \u00e9? disse Anacleto Monteiro angustiado.<\/p>\n<p>\u2014 Nada; uma pontada.<\/p>\n<p>\u2014 Costumas ter isso? \u2014 N\u00e3o, s\u00f3 ontem \u00e9 que me apareceu&#8230; H\u00e1 de ser a morte.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digas semelhante coisa! A dor passara e o beijo n\u00e3o viera. Anacleto Monteiro suspirava pelo beijo desde o sexto dia de palestra e Carlota com muita arte ia transferindo a d\u00e1diva para as calendas gregas.<\/p>\n<p>Naquela noite saiu dali Anacleto um pouco picado de despeito, que era j\u00e1 um princ\u00edpio de amor s\u00e9rio. Caminhou pela praia adiante, sem reparar em um vulto que a trinta ou quarenta passos estivera a espreit\u00e1-lo; um vulto que ali ficou ainda por espa\u00e7o de meia hora.<\/p>\n<p>N\u00e3o reparou Anacleto, seguiu para casa e entrou zangado e melanc\u00f3lico. Fumou dez ou doze cigarros para distrair-se; leu duas ou tr\u00eas p\u00e1ginas do Carlos Magno; por fim deitouse e s\u00f3 tarde conseguiu dormir. A figura de Carlota sa\u00eda-lhe dos cigarros, das folhas do livro e de dentro dos len\u00e7\u00f3is. Na botica, logo que entrou, pareceu-lhe v\u00ea-la entre dois frascos de ipecacuanha. Come\u00e7ava a ser id\u00e9ia fixa.<\/p>\n<p>Surgiu o dia seguinte.<\/p>\n<p>\u2014 Nada! \u00e9 preciso cortar este neg\u00f3cio antes que v\u00e1 mais longe, dizia ele consigo.<\/p>\n<p>Diz\u00ea-lo era f\u00e1cil; cumpri-lo era um pouco mais duro. Ainda assim, teve Anacleto for\u00e7as para n\u00e3o ir nessa tarde \u00e0 Gamboa; mas t\u00e3o cruel foi a noite, e t\u00e3o longo o dia seguinte, que na outra tarde, ainda o sol ardia longe do poente, e j\u00e1 o sobrinho do botic\u00e1rio palmilhava pela praia adiante.<\/p>\n<p>Nestas nega\u00e7as, neste ir e vir, zangar-se e reconciliar-se, perdia ele o tempo e perdia tamb\u00e9m a liberdade. O amor verdadeiro apoderou-se dele. As outras damas foram abandonadas aos demais pretendentes, que folgaram com a incompatibilidade moral de Anacleto Monteiro, por mais moment\u00e2nea que ela fosse.<\/p>\n<p>Antes de ir adiante, importa explicar que nenhuma pessoa havia dito a Carlota o que ela alegou que lhe disseram; era um recurso de namorada, uma peta inocente. Anacleto, na qualidade de var\u00e3o, engoliu a caraminhola. Os homens neste caso s\u00e3o uma verdadeira l\u00e1stima.<\/p>\n<p>Desde que sentiu amar deveras, o sobrinho de Bento Fagundes pensou seriamente no casamento. Sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o era brilhante; mas nem a noiva exigira muito, nem seu cora\u00e7\u00e3o tinha liberdade de refletir. Demais, havia para ele certa esperan\u00e7a nos xaropes do tio. Tamb\u00e9m ele cria que Bento Fagundes possu\u00eda algum pec\u00falio. Isto, o amor, a beleza de Carlota, a pobreza desta, eram motivos poderosos para lev\u00e1-lo a falar desde logo no desenlace religioso.<\/p>\n<p>Uma noite aventurou o pedido.<\/p>\n<p>Carlota ouviu-o com palpites; mas sua resposta foi uma evasiva, um adiamento.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que n\u00e3o me responde j\u00e1? dizia ele desconfiado.<\/p>\n<p>\u2014 Quero&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Diga.<\/p>\n<p>\u2014 Quero primeiro sondar mam\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Sua m\u00e3e n\u00e3o se opor\u00e1 \u00e0 nossa felicidade.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que n\u00e3o; mas n\u00e3o desejo dar palavra sem estar certa de a poder cumprir.<\/p>\n<p>\u2014 Logo n\u00e3o me ama.<\/p>\n<p>\u2014 Que exagera\u00e7\u00e3o! Anacleto mordeu a ponta do len\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me ama, gemeu ele.<\/p>\n<p>\u2014 Amo, sim.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! Se me amasse, outra seria sua resposta. Adeus, Carlota! Adeus para sempre! E deu alguns passos&#8230;<\/p>\n<p>Carlota n\u00e3o lhe respondeu nada. Deixou-se ficar \u00e0 janela at\u00e9 que ele voltasse, o que n\u00e3o demorou muito. Anacleto voltou.<\/p>\n<p>\u2014 Jura que me ama? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Juro.<\/p>\n<p>\u2014 Vou mais tranq\u00fcilo. S\u00f3 desejo saber quando poderei obter sua resposta.<\/p>\n<p>\u2014 Dentro de uma semana; talvez antes.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus! Desta vez o vulto que o espreitara em uma das noites anteriores, estava no mesmo lugar, e quando o viu afastar-se caminhou para ele. Caminhou e parou; olharam-se: foi um lance teatral.<\/p>\n<p>O vulto era Adriano.<\/p>\n<p>Vai o leitor vendo que o conto n\u00e3o se parece com outros de \u00e1gua morna. Neste h\u00e1 inclina\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica. Um leitor atilado v\u00ea j\u00e1 ali uma esp\u00e9cie de fratric\u00eddio moral, um produto do destino antigo. N\u00e3o \u00e9 bem isto; mas podia ser. Adriano n\u00e3o sacou um punhal do bolso, nem Anacleto recorreu \u00e0 espada, que ali\u00e1s nem trazia nem possu\u00eda. Digo mais: Anacleto nem suspeitou nada.<\/p>\n<p>\u2014 Tu por aqui! \u2014 Ando a tomar fresco.<\/p>\n<p>\u2014 Tens raz\u00e3o; faz um calor! Os dois seguiram; falaram de v\u00e1rias coisas estranhas at\u00e9 chegarem \u00e0 porta da casa de Adriano. Cinco minutos depois, Anacleto despedia-se.<\/p>\n<p>\u2014 Onde vais? \u2014 Para casa; s\u00e3o nove horas.<\/p>\n<p>\u2014 Podes dispensar alguns minutos? disse Adriano em tom s\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Entra.<\/p>\n<p>Entraram.<\/p>\n<p>Anacleto ia meio intrigado, como dizem os franceses; o tom do primo, seus modos, tudo tinha um ar misterioso e agu\u00e7ava a curiosidade.<\/p>\n<p>Adriano n\u00e3o o fez demorar muito, nem deu lugar a conjecturas. Logo que entraram, acendeu uma vela, convidou-o a sentar-se e falou por este modo: \u2014 Voc\u00ea gosta daquela mo\u00e7a? Anacleto estremeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Que mo\u00e7a? perguntou ele depois de curto sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 A Carlota.<\/p>\n<p>\u2014 A da Praia da Gamboa? \u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Quem lhe disse isso? \u2014 Responda: gosta? \u2014 Creio que sim.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230; deveras? \u2014 Essa agora! \u2014 A pergunta \u00e9 natural, disse Adriano com tranq\u00fcilidade. Voc\u00ea \u00e9 conhecido por gostar de namorar umas e outras. N\u00e3o h\u00e1 motivo de censura, porque assim fazem muitos rapazes.<\/p>\n<p>Por isso desejo saber se gosta deveras, ou se \u00e9 um simples passatempo.<\/p>\n<p>Anacleto refletiu alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Desejava saber qual ser\u00e1 sua conclus\u00e3o em qualquer dos casos.<\/p>\n<p>\u2014 Simpl\u00edssima. No caso de ser passatempo, pedir-lhe-ei que n\u00e3o ande a iludir uma pobre mo\u00e7a que lhe n\u00e3o fez mal nenhum.<\/p>\n<p>Anacleto j\u00e1 estava s\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 E no caso de gostar deveras? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Neste caso, dir-lhe-ei que tamb\u00e9m gosto dela deveras e que, sendo ambos competidores, poderemos resolver este conflito por algum modo.<\/p>\n<p>Anacleto Monteiro bateu com a bengala no ch\u00e3o e ergueu-se fazendo um arremesso, enquanto Adriano, pacificamente sentado, aguardava a resposta do primo. Este passeou de um lado para outro sem saber que lhe respondesse e desejoso de o deitar pela janela fora. O sil\u00eancio foi longo. Anacleto rompeu-o, detendo-se de s\u00fabito: \u2014 Mas n\u00e3o me dir\u00e1 qual ser\u00e1 o modo de resolver o conflito? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u2014 Vejamos, disse Anacleto, sentando-se de novo.<\/p>\n<p>\u2014 Primeiro: voc\u00ea desiste de a pretender; \u00e9 o mais f\u00e1cil e simples.<\/p>\n<p>Anacleto contentou-se com sorrir.<\/p>\n<p>\u2014 O segundo? \u2014 O segundo \u00e9 retirar-me eu.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o melhor.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o imposs\u00edvel, nunca o farei.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! ent\u00e3o sou eu que devo retirar-me e deix\u00e1-lo&#8230; Na verdade! \u2014 Terceiro modo, continuou pacificamente Adriano: ela escolher entre ambos.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 rid\u00edculo.<\/p>\n<p>\u2014 Justamente: \u00e9 rid\u00edculo&#8230; E \u00e9 por ser destes tr\u00eas modos, um rid\u00edculo e outro imposs\u00edvel, que eu lhe proponho o mais pratic\u00e1vel dos tr\u00eas: sua retirada. Voc\u00ea tem namorado muitas sem casar; ser\u00e1 mais uma. E eu, que n\u00e3o uso namorar, gostei desta e espero chegar ao casamento.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o lembrou a Anacleto fazer-lhe a mais natural pergunta do mundo: \u2014 Mas tem voc\u00ea certeza de ser amado por ela? \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>Anacleto n\u00e3o se p\u00f4de conter: levantou-se, soltou dois improp\u00e9rios e dirigiu-se para a porta. O primo foi ter com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Venha c\u00e1, disse; resolvamos primeiro este neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u2014 Resolver o qu\u00ea? \u2014 Quer ent\u00e3o ficar mal comigo? Anacleto ergueu secamente os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Quer a luta? tornou o outro. Pois lutaremos, pelintra! \u2014 N\u00e3o luto com jarretas! \u2014 Tolo! \u2014 Malcriado! \u2014 Sai daqui, pateta! \u2014 Saio, sim; mas n\u00e3o \u00e9 por causa de seus berros, ouviu? \u2014 Gabola! \u2014 Grosseir\u00e3o! Anacleto saiu; o primo soltou-lhe ainda um adjetivo atrav\u00e9s das persianas, a que ele respondeu com outro, e foi o \u00faltimo.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p>Adriano, logo que ficou s\u00f3, aplacou a c\u00f3lera com uma pitada, monologou um pouco e refletiu longo tempo. De todas as inj\u00farias que o primo lhe dissera, a que mais o impressionou foi o ep\u00edteto de jarreta, evidentemente cabido. Adriano viu-se ao espelho e concluiu que, efetivamente, uma gravata com menos voltas n\u00e3o lhe iria mal. A roupa, em vez de comprada em um adelo, podia ser mandada fazer por algum alfaiate. S\u00f3 n\u00e3o sacrificou ao chap\u00e9u branco.<\/p>\n<p>O chap\u00e9u branco \u00e9 a pacholice do vestu\u00e1rio, disse ele.<\/p>\n<p>Depois, lembrou-se de Carlota, de seus olhos negros, dos gestos de desd\u00e9m que lhe fazia quando ele lhe cravava uns olhos mortos. Seu cora\u00e7\u00e3o palpitava com uma for\u00e7a incr\u00edvel; era amor, c\u00f3lera, despeito, desejo de triunfar. O sono dessa noite foi entremeado de sonhos agrad\u00e1veis e terr\u00edveis pesadelos. Um destes foi imenso. Adriano sonhou que o primo lhe arrancava os olhos com a ponta da bengala, depois de lhe p\u00f4r na cara o par de botas, em um dia de chuva mi\u00fada, testemunha desse espet\u00e1culo, que fazia lembrar os mais belos dias de Cal\u00edgula; Carlota ria \u00e0s gargalhadas. O preg\u00e3o de uma quitandeira arrancou-o felizmente ao supl\u00edcio; eram sete horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Adriano n\u00e3o perdeu tempo. Logo nesse dia tratou de melhorar a toilette, abrindo um pouco os cord\u00f5es da bolsa. A que n\u00e3o obriga o amor? Adriano encomendou umas cal\u00e7as menos irris\u00f3rias, um palet\u00f3 mais soci\u00e1vel; muniu-se de outro chap\u00e9u; sacrificou os sapatos de dois mil e qui-nhentos. Quando estes utens\u00edlios lhe foram entregues, Adriano investiu denodadamente \u00e0 Praia da Gamboa, aonde n\u00e3o fora desde a noite do \u00faltimo encontro com Anacleto.<\/p>\n<p>Pela sua parte, o primo n\u00e3o perdera tempo. N\u00e3o receava a compet\u00eancia de Adriano Fagundes, mas tinha para si que se desforraria das pretens\u00f5es deste, apressando o casamento. E conquanto nada receasse do outro, de quando em quando lhe soava no cora\u00e7\u00e3o a palavra imperiosa do primo, e, incerto das predile\u00e7\u00f5es de Carlota, n\u00e3o sabia \u00e0s vezes em que daria o duelo.<\/p>\n<p>Vendo-o triste e preocupado, o botic\u00e1rio lembrou-se das palavras da sra. D. Leonarda, e, como tinha grande afeto ao sobrinho, sentia c\u00f3cegas de lhe dizer alguma coisa, de o interrogar a respeito da mudan\u00e7a que lhe notava. N\u00e3o se atrevia. A sra. D. Leonarda, com quem conferenciou a tal respeito, acudiu logo: \u2014 N\u00e3o lhe dizia eu? N\u00e3o \u00e9 nada; s\u00e3o amores. O rapaz est\u00e1 pelo bei\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pelo bei\u00e7o de quem? perguntou Bento Fagundes.<\/p>\n<p>\u2014 Isso&#8230; n\u00e3o sei&#8230; ou&#8230; n\u00e3o posso dizer&#8230; H\u00e1 de ser ali para os lados da Gamboa&#8230;<\/p>\n<p>Bento Fagundes n\u00e3o p\u00f4de obter mais. Continuou aborrecido. Anacleto Monteiro n\u00e3o voltava a ser o que era antes; ele temia alguma pretens\u00e3o mal acertada, e pensava j\u00e1 em intervir, se fosse caso disso e valesse a pena.<\/p>\n<p>\u2014 Que tens tu, rapaz? Andas melanc\u00f3lico&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho nada; ando constipado; dizia Anacleto Monteiro sem atrever-se a encarar o tio.<\/p>\n<p>Metade dos motivos da constipa\u00e7\u00e3o de Anacleto, j\u00e1 o leitor a conhece; a outra metade vou dizer-lha.<\/p>\n<p>Insistira o rapaz no casamento, Carlota continuava a negacear. A raz\u00e3o deste proceder explica-se dizendo que ela queria fazer-se rogada, prender mais fortemente o cora\u00e7\u00e3o de Anacleto, despeit\u00e1-lo; e a raz\u00e3o da raz\u00e3o era que mais de uma vez prometera a m\u00e3o, desde o primeiro dia, a sujeitos que n\u00e3o se lembravam mais de ir busc\u00e1-la. Carlota namorava desde os quinze anos e estava cansada de esperar um noivo. Agora, seu plano era despeitar o pretendente, certa de que os homens nada desejam mais ardentemente do que o amor que se lhes nega desde logo. Carlota era um principezinho de Metternich.<\/p>\n<p>Irritado com a recusa e o adiamento da mo\u00e7a, Anacleto cometeu um erro monumental: aventurou a id\u00e9ia de que houvesse algum rival, e, negando-o ela, retorquiu o pasc\u00e1cio: \u2014 Tenho, tenho&#8230; N\u00e3o h\u00e1 muitos dias escapei de me perder por sua causa.<\/p>\n<p>\u2014 Minha causa? \u2014 \u00c9 verdade. Um bigorrilhas, que, por minha desgra\u00e7a, \u00e9 meu primo, espreitou-me uma noite inteira e depois foi provocar-me.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? \u2014 Provocar-me, \u00e9 verdade. Estivemos a ponto de pegar-nos. Ele escumava de raiva, chorava, rasgava-se, mas eu que lhe sou superior em tudo, n\u00e3o lhe dei trela e sa\u00ed.<\/p>\n<p>\u2014 Ora essa! \u2014 Sabes o que me prop\u00f4s? \u2014 Que foi? \u2014 Que eu desistisse de tua m\u00e3o em favor dele.<\/p>\n<p>\u2014 Tolo! \u2014 N\u00e3o achas? \u2014 Sem d\u00favida! \u2014 Juras-me que n\u00e3o \u00e9 dele? \u2014 Juro! \u2014 Vou mais contente. Mas quando falar\u00e1s a tua m\u00e3e? \u2014 Hoje; hoje ou amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Fala hoje mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser.<\/p>\n<p>Depois de um instante disse Carlota: \u2014 Mas eu nem me lembro de o ter visto! Que figura tem ele? \u2014 Um jarreta.<\/p>\n<p>E Anacleto Monteiro, com aquela ternura que a situa\u00e7\u00e3o lhe metia na alma, descreveu a figura do primo, de quem Carlota se lembrou logo perfeitamente.<\/p>\n<p>Fisicamente, n\u00e3o ficou a mo\u00e7a lisonjeada; mas a id\u00e9ia de ser loucamente amada, ainda por um jarreta, foi-lhe muito agrad\u00e1vel ao cora\u00e7\u00e3o. As mulheres s\u00e3o principalmente sens\u00edveis. Demais, Anacleto Monteiro cometera erro crasso sobre erro crasso: al\u00e9m de referir a paix\u00e3o do primo, exagerou-lhe os efeitos; e dizer a Carlota que um rapaz chorava por ela e se arrepelava era o mesmo que recomendar-lho \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlota pensou efetivamente no jarreta, cuja paix\u00e3o lhe parecia, sen\u00e3o mais sincera pelo menos mais ardente que a do elegante. Tinha lido romances; gostava dos amores que saem do vulgar. A figura, por\u00e9m, de Adriano, temperava cruelmente essas impress\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando lhe lembrava o trajo e o desalinho do rapaz, sentia-se algo vexada; mas, ao mesmo tempo, perguntava a si pr\u00f3pria se o apuro de Anacleto n\u00e3o or\u00e7ava pelo rid\u00edculo.<\/p>\n<p>As gravatas deste, se n\u00e3o eram amarrotadas como as de Adriano, eram vistosas demais.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o sabia ainda o nome do jarreta, mas j\u00e1 o nome de Anacleto lhe n\u00e3o parecia bonito.<\/p>\n<p>Estas imagina\u00e7\u00f5es de Carlota coincidiram com a pontualidade do alfaiate de Adriano, por modo que no dia seguinte ao da not\u00edcia que Anacleto lhe dera, viu Carlota aparecer o seu amador silencioso, melhormente encadernado. A mo\u00e7a estremeceu ao v\u00ea-lo e quando ele lhe passou pela porta, a olhar para ela, Carlota n\u00e3o retirou os olhos nem lhes deu m\u00e1 express\u00e3o. Adriano passou, olhou duas vezes para tr\u00e1s sem que ela sa\u00edsse da janela.<\/p>\n<p>Longe disso! Estava t\u00e3o encantada com a id\u00e9ia de que aquele homem chorava por ela e se finava de amores, que ele lhe pareceu melhor do que estava.<\/p>\n<p>Ambos ficaram satisfeitos um do outro.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o ponto agudo da narra\u00e7\u00e3o; repouse a leitora um instante e ver\u00e1 coisas espantosas.<\/p>\n<p>VI Carlota est\u00e1 a duas amarras. Adriano declarou-se por meio de uma carta, em que lhe disse tudo o que sentia; a mo\u00e7a, vendo que os dois amadores eram parentes e sabiam mutuamente o que sentiam, receou escrever-lhe. Resolveu, por\u00e9m, a faz\u00ea-lo, mudando um pouco a letra e esfriando a frase mais que p\u00f4de. Adriano ficou satisfeito com esse primeiro resultado, e insistiu com outra ep\u00edstola, a que ela respondeu, e desde logo se estabeleceu ativa correspond\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixou Anacleto de suspeitar alguma coisa. Primeiramente, viu a mudan\u00e7a que se operara nas roupas do primo; encontrou-o na praia algumas vezes; finalmente, Carlota parecia-lhe \u00e0s vezes distra\u00edda; via-a menos; recebia menos cartas.<\/p>\n<p>\u2014 Dar-se-\u00e1 caso que o pelintra&#8230;? pensou ele.<\/p>\n<p>E meditou uma vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o atinou com ela, cogitou um supl\u00edcio entre os maiores poss\u00edveis e n\u00e3o encontrou nenhum. Nenhum estava na altura de seus brios.<\/p>\n<p>Eu sinto dizer a verdade \u00e0 leitora, se alguma simpatia lhe merece este namorado: Anacleto&#8230; tinha medo. De bom grado cederia todas as Carlotas do mundo se corresse algum risco corporal. Num momento de raiva era capaz de soltar algum improp\u00e9rio; era at\u00e9 capaz de fazer algum gesto de amea\u00e7a; chegaria at\u00e9 a um princ\u00edpio de realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o medo dominaria logo. Ele tinha medo do primo.<\/p>\n<p>\u2014 Infame! dizia ele com os seus bot\u00f5es.<\/p>\n<p>Os bot\u00f5es, que n\u00e3o eram aliados ao primo nem tinham que ver com os interesses dele, mantinham-se com exemplar discri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Anacleto Monteiro adotou a politica da defensiva. Era a \u00fanica. Tratou de conservar as posi\u00e7\u00f5es conquistadas, n\u00e3o sem tentar tomar de assalto o reduto matrimonial, reduto que forcejava por n\u00e3o cair.<\/p>\n<p>Os encontros dos dois na praia eram freq\u00fcentes; um empatava o outro. Adriano conseguira chegar-se \u00e0 fala, mas o outro n\u00e3o o percebeu logo nos primeiros dias. Foi s\u00f3 ao cabo de uma semana que ele descobriu esse progresso do inimigo. Passou; viu um vulto \u00e0 porta; atentou nele; era Adriano.<\/p>\n<p>\u2014 Meu Deus! exclamou Carlota. Aquele mo\u00e7o me conhece&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei, replicou Adriano com pausa. Ele gosta da senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! mas eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se importe com isso; eu saberei ensin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo amor de Deus! \u2014 Descanse; \u00e9 s\u00f3 se bulir comigo.<\/p>\n<p>Anacleto Monteiro afastava-se dali com a morte na alma e o c\u00e9rebro em ebuli\u00e7\u00e3o. Parou ao longe, disposto a esganar o primo, quando ele se aproximasse. Chegou a querer voltar, mas recuou diante da necessidade de um esc\u00e2ndalo. Todo ele tremia de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Encostou-se \u00e0 parede, disposto a esperar at\u00e9 meia-noite, at\u00e9 o outro dia, se necess\u00e1rio fosse. N\u00e3o era. Adriano, ao cabo de meia hora, despediu-se de Carlota e seguiu na mesma dire\u00e7\u00e3o do primo. Este hesitou entre uma afronta e uma retirada; preferiu a primeira e esperou. Adriano veio a passo lento, encarou-o e seguiu. Anacleto ficou pregado \u00e0 parede. No fim de cinco minutos recobrou todo o sangue, por haver ficado sem pinga dele, e foi para casa a passo lento e cauteloso.<\/p>\n<p>Naturalmente este epis\u00f3dio n\u00e3o podia ir al\u00e9m. Desenganado Anacleto por seus pr\u00f3prios olhos, n\u00e3o tinha mais que esperar. Assim foi por algumas horas. Anacleto recorreu \u00e0 pena logo que chegou \u00e0 casa, e numa carta longa e chorosa disse \u00e0 namorada todas as queixas de seu cora\u00e7\u00e3o. Carlota redigiu uma resposta em que lhe dizia que a pessoa com quem ela estivera falando da janela era visita de casa. Ele insistiu: ela ratificou as primeiras declara\u00e7\u00f5es at\u00e9 que tr\u00eas dias depois ocorreu em plena tarde, e em plena rua, um epis\u00f3dio que regozijou singularmente a vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Nessa tarde encontraram-se os dois perto da casa da namorada. Anacleto teve a infelicidade de um pigarro; conseq\u00fcentemente tossiu. A tosse pareceu escarninha a Adriano, que estacando o passo, disse-lhe uma inj\u00faria em alta voz. Anacleto teve a infelicidade de retorquir com outra. O sangue subiu \u00e0 cabe\u00e7a do primo, que lhe lan\u00e7ou a m\u00e3o ao palet\u00f3. Nesta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 covardia que resista. Por mal dos pecados, Carlota apareceu \u00e0 janela: a luta era inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>H\u00e1 de desculpar o leitor se lhe dou esta cena de pugilato; mas, repare bem, e ver\u00e1 que ela \u00e9 rom\u00e2ntica, de um rom\u00e2ntico baixo. Na Idade M\u00e9dia, as coisas n\u00e3o se passavam de outro modo. A diferen\u00e7a \u00e9 que os cavaleiros lutavam com outras armas e outra solenidade, e a castel\u00e3 era diferente de uma vulgar namoradeira. Mas s\u00f3 o quadro era outro; o fundo era o mesmo.<\/p>\n<p>A castel\u00e3 da Gamboa assistiu \u00e0 luta dos dois pretendentes meio penalizada, meio lisonjeada e meio remordida. Viu ir pelos ares o chap\u00e9u branco de Anacleto, desfazer-selhe a cabeleira, desarranjar-se-lhe a gravata. Adriano, por sua parte, recebia algum pontap\u00e9 avulso do advers\u00e1rio e pagava-lho em bons cachaq\u00f5es. Rolaram os dois por terra, no meio da gente que se juntava e que n\u00e3o podia ou n\u00e3o ousava separ\u00e1-los; um gritava, outro bufava; os vadios riam, a poeira cercava-os a todos, como uma esp\u00e9cie de nuvem misteriosa.<\/p>\n<p>No fim de dez minutos, conseguiram os passantes separar os dois inimigos. Um e outro tinham sangue. Anacleto perdera um dente; Adriano recebera uma mordidela na face.<\/p>\n<p>Assim desfeitos, feridos, empoeirados, apanharam os chap\u00e9us e estiveram a ponto de travarem nova luta. Dois estranhos caridosos impediram a repeti\u00e7\u00e3o e levaram-nos para casa.<\/p>\n<p>Carlota n\u00e3o pudera ver o resto; retirara-se para dentro, acusando-se a si pr\u00f3pria. Foi dali rezar a uma imagem de Nossa Senhora, pedindo-lhe a reconcilia\u00e7\u00e3o dos dois e prometendo n\u00e3o atender a mais nenhum deles para os n\u00e3o irritar um contra o outro.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que ela solicitava a repara\u00e7\u00e3o do mal que fizera, cada um deles jurava entre si matar o outro.<\/p>\n<p>VII Aquele lance da Praia da Gamboa foi motivo das palestras do bairro durante alguns dias.<\/p>\n<p>A causa da luta foi logo conhecida; e, como \u00e9 natural em tais casos, aos fatos reais vieram juntar-se muitas circunst\u00e2ncias de pura imagina\u00e7\u00e3o. O principal \u00e9 que os belos olhos de Carlota tinham tornado irreconcili\u00e1veis inimigos os dois primos. Haver\u00e1 melhor an\u00fancio do que este? Bento Fagundes soube do caso e do motivo. Pesaroso, quis reconciliar os rapazes, faloulhes com autoridade e com brandura; mas nem um nem outro modo, nem conselhos nem pedidos, tiveram que fazer com eles. Cada um dos dois meditava a morte do outro, e s\u00f3 recuavam diante dos meios e da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 Tio Bento, dizia Anacleto Monteiro; eu n\u00e3o poderei decentemente viver enquanto aquele mau cora\u00e7\u00e3o palpitar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perdoa-lhe&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 perd\u00e3o para semelhante monstro! Bento Fagundes ficara aflito, ia de um para outro, sem alcan\u00e7ar mais resultado com este que com aquele; ca\u00eda-lhe o rosto, sombreava-se-lhe o esp\u00edrito; terr\u00edvel sintoma: o gam\u00e3o foi posto de lado.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o punham em execu\u00e7\u00e3o o plano tr\u00e1gico, cada um dos dois rivais lan\u00e7ou m\u00e3o de outro, menos tr\u00e1gico e mais seguro: a cal\u00fania. Anacleto escreveu a Carlota dizendo que Adriano, se se casasse com ela, p\u00f4r-lhe-ia \u00e0s costas quatro filhos que j\u00e1 tinha de uma mulher \u00edntima. Adriano denunciou o primo \u00e0 namorada como um dos mais insignes beberr\u00f5es da cidade.<\/p>\n<p>Carlota recebeu as cartas no mesmo dia, e n\u00e3o soube desde logo se devia crer ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Inclinou-se ao segundo alvitre, mas os dois rivais n\u00e3o ganharam com esta disposi\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, porque, recusando dar cr\u00e9dito aos filhos de um e ao vinho do outro, acreditou somente que ambos tinham sentimentos morais singularmente rasteiros.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que s\u00e3o dois peraltas, disse ela com seus colchetes.<\/p>\n<p>Esta foi a ora\u00e7\u00e3o f\u00fanebre dos dois namorados.<\/p>\n<p>Posto que ambos os primos calcassem o p\u00f3 da Praia da Gamboa para ver a mo\u00e7a e disput\u00e1-la, perdiam o tempo, porque Carlota teimava em n\u00e3o aparecer. O caso irritou-os ainda mais um contra o outro, e por pouco n\u00e3o vieram de novo \u00e0s m\u00e3os.<\/p>\n<p>Nisto interveio um terceiro namorado, que em poucos dias deu conta da m\u00e3o, casando com a bela Carlota. Ocorreu o fato tr\u00eas semanas depois do duelo manual dos dois parentes. A not\u00edcia foi um pouco mais de combust\u00edvel lan\u00e7ado na fogueira de \u00f3dios acesos entre eles; nenhum dos dois acusou Carlota ou o destino, mas o advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>A morte da sra. D. Leonarda trouxe um intervalo \u00e0s dissens\u00f5es dom\u00e9sticas da casa de Bento Fagundes, cujos \u00faltimos dias eram assim bastante amargurados; mas foram apenas tr\u00e9guas.<\/p>\n<p>O desgosto profundo, de m\u00e3os dadas com uma v\u00edscera inflamada, puseram o pobre botic\u00e1rio na cama um m\u00eas depois do casamento de Carlota e na sepultura cinq\u00fcenta dias mais tarde. A doen\u00e7a de Bento Fagundes foram novas tr\u00e9guas e desta vez mais sinceras, porque a coisa era mais importante.<\/p>\n<p>Prostrado na cama, o botic\u00e1rio via os dois sobrinhos servirem-no com muita docilidade e brandura, mas via tamb\u00e9m que um abismo os separava eternamente. Esta dor era a que mais o pungia naquela ocasi\u00e3o. Quisera reconcili\u00e1-los, mas n\u00e3o tinha esperan\u00e7a de o conseguir.<\/p>\n<p>\u2014 Vou morrer, dizia ele a Anacleto Monteiro, e levo a maior m\u00e1goa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tio Bento, deixe-se de id\u00e9ias negras.<\/p>\n<p>\u2014 Negras s\u00e3o, \u00e9 verdade; bem negras, e assim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual morrer! H\u00e1 de ir comigo passar uns dias na Tijuca&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Contigo e o Adriano, dizia Bento Fagundes, cravando no sobrinho uns olhos perscrutadores.<\/p>\n<p>Aqui fechava-se o rosto de Anacleto, onde o \u00f3dio, s\u00f3 o \u00f3dio, transluzia com um reflexo infernal.<\/p>\n<p>Bento Fagundes suspirava.<\/p>\n<p>A Adriano dizia ele: \u2014 Sabes tu, meu rico Adriano, qual \u00e9 a maior dor que eu levo para a sepultura? \u2014 Sepultura? interrompia Adriano. Falemos de coisas mais alegres \u2014 Sinto que morro. A dor maior que eu levo \u00e9 que tu e Anacleto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se exalte, tio Bento; pode fazer-lhe mal.<\/p>\n<p>Era in\u00fatil.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias antes de morrer, Bento Fagundes, vendo-os juntos no quarto, chamou-os e pediu-lhes que fizessem as pazes. Recusaram ambos; a princ\u00edpio desconversando; depois abertamente. O botic\u00e1rio insistiu; travou da m\u00e3o de um e de outro e uniu-as. Foi um simulacro. As m\u00e3os dos dois tremiam, e ambos ficaram l\u00edvidos de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Entre eles, era tal o receio que nenhum ousava comer em casa de Bento Fagundes por medo de que o cozinheiro, peitado, lhes propinasse uma dose de ars\u00eanico. N\u00e3o se falavam, \u00e9 claro; n\u00e3o se olhavam; tremiam quando se achavam a s\u00f3s e fugiam para evitar o esc\u00e2ndalo de uma nova luta, a dois passos do enfermo.<\/p>\n<p>A mol\u00e9stia era mortal. Bento Fagundes expirou entre os dois parentes. Estes o amortalharam silenciosamente, fizeram os convites, trataram do enterro, sem trocar a m\u00ednima palavra.<\/p>\n<p>Se a sra. D. Leonarda fosse viva teria ocasi\u00e3o de ver que n\u00e3o se enganava quando atribu\u00eda algumas economias ao velho botic\u00e1rio. O testamento foi a confiss\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Bento Fagundes declarou possuir, no estabelecimento, escravos, pr\u00e9dios e n\u00e3o sei que t\u00edtulos, uns trinta e oito contos. Seus herdeiros universais eram Anacleto e Adriano, \u00faltimos parentes.<\/p>\n<p>Havia, entretanto, uma cl\u00e1usula no testamento, redigido um m\u00eas antes de morrer, que deu alguma coisa que falar no bairro. Dizia Bento Fagundes: Os ditos meus herdeiros universais, que por tais os declaro, ser\u00e3o obrigados a usufruir juntos os meus bens ou continuando o meu neg\u00f3cio da botica, ou estabelecendo qualquer outro, sem divis\u00e3o da heran\u00e7a que passar\u00e1 dividida a seus filhos, se os houver, caso se recusem ao cumprimento desta minha \u00faltima vontade.<\/p>\n<p>A cl\u00e1usula era singular; era-o, mas toda a gente compreendeu que era um derradeiro esfor\u00e7o do finado para reconciliar os sobrinhos.<\/p>\n<p>\u2014 Trabalho perdido, dizia o barbeiro de Anacleto; eles est\u00e3o como c\u00e3o e gato.<\/p>\n<p>Esta opini\u00e3o do barbeiro era a mais geral. Efetivamente, logo que ouviram ler semelhante cl\u00e1usula, os dois herdeiros fizeram um gesto como protestando contra a id\u00e9ia de uma reconcilia\u00e7\u00e3o. Seus brios n\u00e3o consentiam nessa venalidade do mais nobre dos \u00f3dios.<\/p>\n<p>\u2014 Tinha que ver, dizia consigo Adriano, se eu consentia que um biltre&#8230;<\/p>\n<p>Ecoava Anacleto: \u2014 Um biltre daquele jaez reconciliado comigo! N\u00e3o faltava mais nada! Ainda que fique a pedir esmolas&#8230;<\/p>\n<p>No segundo dia da leitura do testamento trataram ambos de p\u00f4r em ordem as coisas em casa de Bento Fagundes, cuja lembran\u00e7a os enchia de exemplar piedade. A missa do s\u00e9timo dia foi concorrida. Ambos receberam os p\u00easames de todos, sem os darem um ao outro, sem trocarem uma palavra de saudade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que cora\u00e7\u00f5es de ferro! dizia uma senhora indignada.<\/p>\n<p>Aconteceu, por\u00e9m, que ao sa\u00edrem da igreja, um trope\u00e7asse no outro:.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o! disse Adriano.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi nada! acudiu Anacleto.<\/p>\n<p>No outro dia Anacleto escreveu ao primo: \u201c Respondeu Adriano: \u201c. Os dois foram juntos \u00e0 casa do marmorista; trataram com ele; discutiram o pre\u00e7o; assentaram na reda\u00e7\u00e3o do epit\u00e1fio, que lembrava, n\u00e3o s\u00f3 o morto, mas sobretudo os dois vivos. Sa\u00edram juntos; toda a vida do finado foi rememorada entre eles, com a mais ardente piedade. Um e outro lembraram-se da estima que ele sempre lhes tivera. Nesse dia jantaram juntos; um jantar f\u00fanebre mas cordial.<\/p>\n<p>Dois meses depois chegaram \u00e0 fala sobre a necessidade de obedecer ao desejo do morto, que devia ser sagrado, dizia Anacleto. Sacrat\u00edssimo, emendava Adriano.<\/p>\n<p>Quando se completaram cinco meses depois da morte do botic\u00e1rio, Carlota e o marido entraram em uma loja de fazendas, a comprar n\u00e3o sei quantos c\u00f4vados de chita de algod\u00e3o. N\u00e3o repararam na firma social pintada na porta, mas ainda reparando, podiam eles atinar quem seriam Fagundes &amp; Monteiro? Fagundes e Monteiro, a firma toda, estavam na loja e voltaram-se para servir a freguesa. Carlota empalideceu, mas dominouse.<\/p>\n<p>Pediu o que queria com voz tr\u00eamula, e os dois apressaram-se a servi-la n\u00e3o sei se comovidos, mas em todo o caso corteses.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora n\u00e3o acha melhor fazenda do que esta.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser&#8230; \u00c9 muito cara? \u2014 Barat\u00edssima, disse Fagundes: dois mil-r\u00e9is&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 caro! \u2014 Podemos deix\u00e1-la por mil e oitocentos, acudiu Monteiro.<\/p>\n<p>\u2014 Mil e seiscentos, prop\u00f4s o marido de Carlota.<\/p>\n<p>Os dois fizeram a careta do estilo e simularam uma hesita\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o foi longa.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1, disseram eles.<\/p>\n<p>A fazenda foi medida e paga. Carlota, que n\u00e3o ousava encar\u00e1-los, fez um leve gesto de cabe\u00e7a e saiu com o marido.<\/p>\n<p>Ficaram silenciosos os primos por alguns instantes. Um dobrava a fazenda, enquanto o outro fechava o dinheiro na caixa. Interiormente estavam radiantes: tinham ganho seiscentos r\u00e9is em c\u00f4vado!<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis I Que ele era um dos primeiros gamenhos de seu bairro e outros bairros adjacentes, \u00e9 coisa que n\u00e3o sofre nem sofreu nunca a menor contesta\u00e7\u00e3o. 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