{"id":115790,"date":"2017-03-27T13:32:10","date_gmt":"2017-03-27T15:32:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115790"},"modified":"2017-03-27T13:32:10","modified_gmt":"2017-03-27T15:32:10","slug":"poema-da-virgem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poema-da-virgem","title":{"rendered":"Poema da Virgem"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h4>Padre Jos\u00e9 de Anchieta<\/h4>\n<p><b>Compaix\u00e3o da Virgem na morte do filho<\/b><\/p>\n<p>Por que ao profundo sono, alma, tu te abandonas,<br \/>\ne em pesado dormir, t\u00e3o fundo assim ressonas?<br \/>\nN\u00e3o te move a afli\u00e7\u00e3o dessa m\u00e3e toda em pranto,<br \/>\nque a morte t\u00e3o cruel do filho chora tanto?<br \/>\nO seio que de dor amargado esmorece,<br \/>\nao ver, ali presente, as chagas que padece?<br \/>\nOnde a vista pousar, tudo o que \u00e9 de Jesus,<br \/>\nocorre ao teu olhar vertendo sangue a flux.<br \/>\nOlha como, prostrado ante a face do Pai,<br \/>\ntodo o sangue em suor do corpo se lhe esvai.<br \/>\nOlha como a ladr\u00e3o essas b\u00e1rbaras hordas<br \/>\npisam-no e lhe ret\u00eam o colo e m\u00e3os com cordas.<br \/>\nOlha, perante An\u00e1s, como duro soldado<br \/>\no esbofeteia mau, com punho bem cerrado.<br \/>\nV\u00ea como, ante Caif\u00e1s, em humildes meneios,<br \/>\nag\u00fcenta opr\u00f3brios mil, punhos, escarros feios.<br \/>\nN\u00e3o afasta seu rosto ao que o bate, e se abeira<br \/>\ndo que duro lhe arranca a barba e cabeleira.<br \/>\nOlha com que azorrague o carrasco sombrio<br \/>\nretalha do Senhor a meiga carne a frio.<br \/>\nOlha como lhe rasga a cerviz rijo espinho,<br \/>\ne o sangue puro risca a face toda arminho.<br \/>\nPois n\u00e3o v\u00eas que seu corpo, incivilmente leso,<br \/>\nmal suster\u00e1 ao ombro o desumano peso?<br \/>\nV\u00ea como a dextra m\u00e1 finca em lenho de escravo<br \/>\nas inocentes m\u00e3os com agu\u00e7ado cravo.<br \/>\nOlha como na cruz finca a m\u00e3o do algoz cego<br \/>\nos inocentes p\u00e9s com agu\u00e7ado prego.<br \/>\nEi-lo, rasgado jaz nesse tronco inimigo,<br \/>\ne c&#8217;o sangue a escorrer paga teu furto antigo!<br \/>\nV\u00ea como larga chaga abre o peito, e des\u00e1gua<br \/>\nmisturado com sangue um rio todo d&#8217;\u00e1gua.<br \/>\nSe o n\u00e3o sabes, a m\u00e3e dolorosa reclama<br \/>\npara si quanto v\u00eas sofrer ao filho que ama.<br \/>\nPois quanto ele aguentou em seu corpo desfeito,<br \/>\ntanto suporta a m\u00e3e no compassivo peito.<br \/>\nErgue-te pois e, atr\u00e1s da muralha ferina<br \/>\ncheio de compaix\u00e3o, procura a m\u00e3e divina.<br \/>\nDeixaram-te uma e outro em sinais bem marcada<br \/>\na passagem: assim, tornou-se clara a estrada.<br \/>\nEle aos rastros tingiu com seu sangue tais sendas,<br \/>\nela o solo regou com l\u00e1grimas tremendas.<br \/>\nProcura a boa m\u00e3e, e a seu pranto sossega,<br \/>\nse acaso ainda aflita \u00e0s l\u00e1grimas se entrega.<br \/>\nMas se essa imensa dor tal consolo invalida,<br \/>\nporque a morte matou a vida \u00e0 sua vida,<br \/>\nao menos chorar\u00e1s todo o teu latroc\u00ednio,<br \/>\nque foi toda a raz\u00e3o do horr\u00edvel assass\u00ednio.<br \/>\nMas onde te arrastou, m\u00e3e, borrasca t\u00e3o forte?<br \/>\nque terra te acolheu a prantear tal morte?<br \/>\nOuvir\u00e1 teu gemido e lamento a colina,<br \/>\nem que de ossos mortais a terra podre mina?<br \/>\nSofres acaso tu junto \u00e0 planta do odor,<br \/>\nem que pendeu Jesus, em que pendeu o amor?<br \/>\nEis-te a\u00ed lacrimosa a curtir pena inteira,<br \/>\npagando o mau prazer de nossa m\u00e3e primeira!<br \/>\nSob a planta vedada, ela fez-se corruta:<br \/>\ncolheu boba e loquaz, com m\u00e3o audaz a fruta.<br \/>\nMas a fruta preciosa, em teu seio nascida,<br \/>\n\u00e0 pr\u00f3pria boa m\u00e3e d\u00e1 para sempre a vida,<br \/>\ne a seus filhos de amor que morreram na rega<br \/>\ndo primeiro veneno, a ti os ergue e entrega.<br \/>\nMas findou tua vida, essa doce viv\u00eancia<br \/>\ndo amante cora\u00e7\u00e3o: caiu-te a resist\u00eancia!<br \/>\nO inimigo arrastou a essa cruz t\u00e3o amarga<br \/>\nquem dos seios, em ti, pendeu qual doce carga.<br \/>\nSucumbiu teu Jesus transpassado de chagas,<br \/>\nele, o fulgor, a gl\u00f3ria, a luz em que divagas.<br \/>\nQuantas chagas sofreu, doutras tantas te d\u00f3is:<br \/>\nera uma s\u00f3 e a mesma a vida de v\u00f3s dois!<br \/>\nPois se teu cora\u00e7\u00e3o o conserva, e jamais<br \/>\ndeixou de se hospedar dentro de teus umbrais,<br \/>\npara ferido assim crua morte o tragar,<br \/>\ncom lan\u00e7a foi mister teu cora\u00e7\u00e3o rasgar.<br \/>\nRompeu-te o cora\u00e7\u00e3o seu terr\u00edvel flagelo,<br \/>\ne o espinho ensang\u00fcentou teu cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o belo.<br \/>\nConjurou contra ti, com seus cravos sangrentos,<br \/>\nquanto arrastou na cruz o filho, de tormentos.<br \/>\nMas, inda vives tu, morto Deus, tua vida?<br \/>\ne n\u00e3o foste arrastada em morte parecida?<br \/>\nE como \u00e9 que, ao morrer, n\u00e3o roubou teus sentidos,<br \/>\nse sempre uma alma s\u00f3 reteve os dois unidos?<br \/>\nN\u00e3o puderas, confesso, ag\u00fcentar mal tamanho,<br \/>\nse n\u00e3o te sustentasse amor assim estranho;<br \/>\nse n\u00e3o te erguesse o filho em seu v\u00e1lido busto,<br \/>\ndeixando-te mais dor ao cora\u00e7\u00e3o robusto.<br \/>\nVives ainda, \u00f3 m\u00e3e, p&#8217;ra sofrer mais canseira:<br \/>\nj\u00e1 te envolve no mar uma onda derradeira.<br \/>\nEsconde, m\u00e3e, o rosto e o olhar no rega\u00e7o:<br \/>\neis que a lan\u00e7a a vibrar voa no leve espa\u00e7o.<br \/>\nRasga o sagrado peito a teu filho j\u00e1 morto,<br \/>\nfincando-se a tremer no cora\u00e7\u00e3o absorto.<br \/>\nFaltava a tanta dor esta s\u00edntese finda,<br \/>\nfaltava ao teu penar tal complemento ainda!<br \/>\nFaltava ao teu supl\u00edcio esta \u00faltima chaga!<br \/>\nt\u00e3o grave dor e pena achou ainda vaga!<br \/>\nCom o filho na cruz tu querias bem mais:<br \/>\nque pregassem teus p\u00e9s, teus punhos virginais.<br \/>\nEle tomou p&#8217;ra si todo o cravo e madeiro<br \/>\ne deu-te a rija lan\u00e7a ao cora\u00e7\u00e3o inteiro.<br \/>\nPodes m\u00e3e, descansar; j\u00e1 tens quanto querias:<br \/>\nVaram-te o cora\u00e7\u00e3o todas as agonias.<br \/>\nEste golpe encontrou o seu corpo desfeito:<br \/>\ns\u00f3 tu colhes o golpe em compassivo peito.<br \/>\nChaga santa, eis te abriu, mais que o ferro da lan\u00e7a,<br \/>\no amor de nosso amor, que amou sem temperan\u00e7a!<br \/>\n\u00d3 rio, que confluis das nascentes do Ed\u00e9m,<br \/>\ntodo se embebe o ch\u00e3o das \u00e1guas que ret\u00e9m!<br \/>\n\u00d3 caminho real, \u00e1urea porta da altura!<br \/>\nTorre de fortaleza, abrigo da alma pura!<br \/>\n\u00d3 rosa a trescalar santo odor que embriaga!<br \/>\nJ\u00f3ia com que no c\u00e9u o pobre um trono paga!<br \/>\nDoce ninho no qual pombas p\u00f5em seus ovinhos<br \/>\ne casta rola nutre os tenros filhotinhos!<br \/>\n\u00d3 chaga que \u00e9s rubi de ornamento e esplendor,<br \/>\ncravas os peitos bons de divinal amor!<br \/>\n\u00d3 ferida a ferir cora\u00e7\u00f5es de imprevisto,<br \/>\nabres estrada larga ao cora\u00e7\u00e3o de Cristo!<br \/>\nProva do estranho amor, que nos for\u00e7a \u00e0 unidade!<br \/>\nPorto a que se recolhe a barca em tempestade!<br \/>\nRefugiam-se a ti os que o mau pisa e afronta:<br \/>\nmas tu a todo o mal \u00e9s medicina pronta!<br \/>\nQuem se verga em tristeza, em consolo se alarga:<br \/>\npor ti, dep\u00f5e do peito a dura sobrecarga!<br \/>\nPor ti, o pecador, firme em sua esperan\u00e7a,<br \/>\nsem temor, chega ao lar da bem-aventuran\u00e7a!<br \/>\n\u00d3 morada de paz! sempre viva cisterna<br \/>\nda torrente que jorra at\u00e9 a vida eterna!<br \/>\nEsta ferida, \u00f3 m\u00e3e, s\u00f3 se abriu em teu peito:<br \/>\nquem a sofre \u00e9s tu s\u00f3, s\u00f3 tu lhe tens direito.<br \/>\nQue nesse peito aberto eu me possa meter,<br \/>\npossa no cora\u00e7\u00e3o de meu Senhor viver!<br \/>\nPor a\u00ed entrarei ao amor descoberto,<br \/>\nterei a\u00ed descanso, a\u00ed meu pouso certo!<br \/>\nNo sangue que jorrou lavarei meus delitos,<br \/>\ne manchas delirei em seus caudais benditos!<br \/>\nSe neste teto e lar decorrer minha sorte,<br \/>\nme ser\u00e1 doce a vida, e ser\u00e1 doce a morte!<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Jos\u00e9 de Anchieta Compaix\u00e3o da Virgem na morte do filho Por que ao profundo sono, alma, tu te abandonas, e em pesado dormir, t\u00e3o fundo assim ressonas? 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