{"id":115788,"date":"2017-03-27T13:31:02","date_gmt":"2017-03-27T15:31:02","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115788"},"modified":"2017-03-27T13:31:02","modified_gmt":"2017-03-27T15:31:02","slug":"feitos-de-mem-de-sa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/feitos-de-mem-de-sa","title":{"rendered":"Feitos de Mem de S\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"373\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Livro I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Livro II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Livro III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Livro IV<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>Padre Jos\u00e9 de Anchieta<\/h4>\n<p><strong>A MEM DE S&Aacute; GOVERNADOR<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ep&iacute;stola Dedicat&oacute;ria<\/strong> <\/p>\n<p>Eis que v&ecirc;s, potentado supremo, qu&atilde;o grande fa&ccedil;anha realizou<br \/>\n    a for&ccedil;a do onipotente Deus.<\/p>\n<p> O ind&ocirc;mito Brasil j&aacute; seus anchos orgulhos dep&ocirc;s, e tombou,<br \/>\n    rendido &agrave;s tuas armas.<\/p>\n<p> O que dantes, furioso, semeava ru&iacute;nas e guerras, aprecia os fatores<br \/>\n    de redentora paz.<\/p>\n<p> O que dantes vivia escondido em sombrias florestas aos templos do Senhor,<br \/>\n    j&aacute; pressuroso corre. O que h&aacute; pouco, c&atilde;o feroz, ro&iacute;a<br \/>\n    ossos humanos, sacia com o P&atilde;o dos Anjos o cora&ccedil;&atilde;o j&aacute;<br \/>\n    manso.<\/p>\n<p> O que h&aacute; pouco de fauces sedentas, sugava o sangue fraterno voa a<br \/>\n    desalterar-se nos mananciais divinos.<\/p>\n<p> Foi a pr&oacute;pria Onipot&ecirc;ncia que robusteceu os teus golpes e prostrou<br \/>\n    a teus p&eacute;s as inimigas hostes V&ecirc;s como de nada vales a esses<br \/>\n    ninhos altivos de pedra toda a estrat&eacute;gia das posi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    achadas.<\/p>\n<p> Inexpugn&aacute;veis embora &agrave; for&ccedil;a humana as ameias erguidas<br \/>\n    pelo h&aacute;bil franc&ecirc;s no cimo dessa penha, Aquele que rege com seu<br \/>\n    bra&ccedil;o o universo estrelado e pode com um aceno volv&ecirc;-lo e revolv&ecirc;-lo,<br \/>\n    franqueou-te, &oacute; vencedor, o forte de rochas horrendas e a soberba de<br \/>\n    sua mole sob os teus p&eacute;s meteu, nem sofreu te barrassem o passo as<br \/>\n    flechas aladas nem as balas que vomita a poderosa p&oacute;lvora, nem t&atilde;o<br \/>\n    os pelouros que pelos ares arrota com tremendo fragor o ventre do canh&atilde;o.<\/p>\n<p> Quando j&aacute; te faltavam as for&ccedil;as e tua esquadra cedia desfalcada<br \/>\n    pelo baque de muitos de teus her&oacute;is.<\/p>\n<p> Quando j&aacute; se acabara a p&oacute;lvora que alimenta o inc&ecirc;ndio<br \/>\n    e que ao fogo voraz vem provocar as iras: Jesus compadecido olhou-te das alturas<br \/>\n    celestes e veio ele pr&oacute;prio a estender-te a m&atilde;o.<\/p>\n<p> Rendido &agrave;s tuas preces, ele ouviu teus pedidos, incutiu terror e<br \/>\n    p&ocirc;s o inimigo em fuga.<\/p>\n<p> J&aacute; no intimo peito podes fruir gozos nunca provados: &eacute; a quadra<br \/>\n    formosa duma alegria nova.<\/p>\n<p> J&aacute; podes exultar entre os vivas deste egr&eacute;gio triunfo: esta<br \/>\n    palma ergue-te o nome ao apogeu da gl&oacute;ria.<\/p>\n<p> Glorifica ao Senhor, que com seu bra&ccedil;o invenc&iacute;vel esmagou<br \/>\n    os inimigos e seus fortins ativos.<\/p>\n<p> S&oacute; a ele pertence derrubar sanguin&aacute;rios tiranos calcar ao<br \/>\n    ch&atilde;o os maus, erguer ao c&eacute;u os bons.<\/p>\n<p> Aspira aos fulgores, que inundam o pal&aacute;cio celeste, se &eacute; que<br \/>\n    o amor da gl&oacute;ria teu cora&ccedil;&atilde;o enleia.<\/p>\n<p> Bem sabes que o brilho fementido do mundo foge ligeiro e leve, e se desfaz<br \/>\n    na fuga.<\/p>\n<p> Como se esvai pelas fendas da jarra partida o l&iacute;quido, e baldado<br \/>\n    &eacute; procurar ench&ecirc;-la.<\/p>\n<p> Assim a honra fugaz, como &aacute;gua, flui e se escapa por entre os dedos<br \/>\n    que segur&aacute;-la tentam.<\/p>\n<p> Se te deres ao lazer silencioso de revolver em teu peito as empresas her&oacute;icas<br \/>\n    dos generais famosos, ver&aacute;s quantos triunfos varreu a l&uacute;gubre<br \/>\n    morte para as &aacute;guas imundas da infernal voragem.<\/p>\n<p> &Eacute; que ensoberbecidos negaram ao Senhor sempiterno, que tudo fez no<br \/>\n    mundo, gl&oacute;rias que alcan&ccedil;aram.<\/p>\n<p> No t&ecirc;nue respiro da vida sorveram v&atilde;os elogios e todo o seu<br \/>\n    cuidado foi sua pr&oacute;pria fama.<\/p>\n<p> Se &eacute;s prudente, pede a Deus uma &uacute;nica gl&oacute;ria, a que<br \/>\n    s&oacute; vem de Deus, a verdadeira gl&oacute;ria!<br \/>\n    Se &eacute;s prudente, rejeita os enganos do mundo que gira, n&atilde;o te<br \/>\n    acorrente com seus grilh&otilde;es os p&eacute;s.<\/p>\n<p> Com suas fraudes enleia, com a face ing&ecirc;nua nos mente:<br \/>\n    e n&atilde;o nos deixa erguer a fronte altiva ao c&eacute;u.<\/p>\n<p> Depois que escalaste as &aacute;rduas muralhas do forte e a gl&oacute;ria<br \/>\n    de teus louros refulge mais que nunca: n&atilde;o te envolva em suas malhas<br \/>\n    o soberbo tirano, e, apenas vencedor, te calque aos p&eacute;s vencido.<\/p>\n<p> Ouve pois as palavras que Jesus, o mestre divino te dirige com l&aacute;bios<br \/>\n    que enganar n&atilde;o podem: &ldquo;Se queres ser perfeito e galgar as alturas<br \/>\n    celestes, vai, vende o que tens, e d&aacute;-o todo aos pobres!&rdquo;<br \/>\n    V&ecirc; como ele pr&oacute;prio, porque seus p&eacute;s s&atilde;o ligeiros,<br \/>\n    voa como um gigante que n&atilde;o afrouxa o passo:<br \/>\n    para que, apressado, seguindo-lhe a esteira sagrada, sacudas pesos mortos<br \/>\n    e partas livre e leve.<\/p>\n<p> Se te sustarem o passo riquezas e gl&oacute;rias do mundo, Jesus, que n&atilde;o<br \/>\n    para, te escapar&aacute; dos olhos.<\/p>\n<p> &Eacute; certo que a soberba, com seus af&atilde;s s&oacute; compra o inferno<br \/>\n    e com pouco trabalho o humilde compra o c&eacute;u!<br \/>\n    Se pois com justo &oacute;dio desejas vencer o orgulho mundano a Cristo atribui<br \/>\n    todas as tuas gl&oacute;rias!<br \/>\n    Do fundo do cora&ccedil;&atilde;o ao Pai celeste d&aacute; gra&ccedil;as e<br \/>\n    rende a Jesus as merecidas honras.<\/p>\n<p> Foi ele quem quis que fosses tu nas regi&otilde;es brasileiras primeiro<br \/>\n    propagador de seu bendito nome.<\/p>\n<p> O primeiro a vingar os ultrajes do gentio inumano e dobrar-lhe a cerviz<br \/>\n    &agrave;s tuas ordens justas.<\/p>\n<p> Ao peso do teu bra&ccedil;o, os altivos Brasis esqueceram seus ferozes costumes<br \/>\n    e seus sangrentos ritos.<\/p>\n<p> Eia! novo ardor, anci&atilde;o! extermina as maldades, submete ao Deus eterno<br \/>\n    essas na&ccedil;&otilde;es selvagens.<\/p>\n<p> No c&eacute;u te espera um trono, grande Mem; para a&iacute; te convidam<br \/>\n    os fulgurantes templos do firmamento azul.<\/p>\n<p> Aquele, cujo nomes ensinas a louvar em plagas incultas, at&eacute; aos astros<br \/>\n    levantar&aacute; teu nome.<\/p>\n<p> Entre laudas divinas dar-te-&aacute; eterna coroa e o ilumina cetro de seu<br \/>\n    celeste reino.<\/p>\n<p> Enquanto a f&eacute; e a lei de Deus e nome de Cristo forem reverenciados<br \/>\n    no hemisf&eacute;rio austral, os sucessores que empunharem teu bast&atilde;o<br \/>\n    glorioso seguir&atilde;o tua trilha sem arredar passo.<\/p>\n<p> Vive pois feliz, governando as plagas Bras&iacute;licas numa estrada de<br \/>\n    gl&oacute;ria que teus vindouros sigam, para que Cristo expulse o tirano infernal,<br \/>\n    das terras do Sul e nelas implante os eu reinado eterno!<\/p>\n<h4><a name=\"1\">LIVRO I<\/a><\/h4>\n<p>As gl&oacute;rias do Pai celeste e sua for&ccedil;a divina teu nome, &oacute;<br \/>\n    Cristo Rei, e teus feitos gloriosos come&ccedil;arei a cantar. Num arrojo<br \/>\n    gigante, empreenderei a celebrar em versos tuas magnas empresas.<\/p>\n<p> Pois h&aacute; pouco tua for&ccedil;a descerrou uma aurora por entre a escurid&atilde;o<br \/>\n    das regi&otilde;es brasileiras, que o &uacute;mido Sul encharca com furiosas<br \/>\n    rajadas.<\/p>\n<p> Esse vento impele nimbos e arma tremendas borrascas nos altos mares, e cobre<br \/>\n    com v&eacute;us de n&eacute;voas os campos; fustigando com frio a nudeza das<br \/>\n    gentes.<\/p>\n<p> J&aacute; os astros que orvalharam o mundo oprimido brilham de luz mais<br \/>\n    fulgente, e o sol conduz o seu carro no l&iacute;mpido espa&ccedil;o e, com<br \/>\n    novos raios, do c&eacute;u afugenta nuvens densas, dissipa n&eacute;voas e<br \/>\n    seca o solo embebido de longas chuvas e, todo-luz em seu disco brilhante enche<br \/>\n    de claridade as trevas do mundo.<\/p>\n<p> Tu, &oacute; Jesus, &oacute; clara luz do firmamento sereno, &oacute; fulgor<br \/>\n    sem ocaso, &oacute; imagem do brilho paterno, ilumina-me a mente cega, aclara-me<br \/>\n    a alma com espl&ecirc;ndidos lampejos. Tu &eacute;s a fonte ubertosa donde,<br \/>\n    em torrentes, se inebriam os habitantes celestes.<\/p>\n<p> Fecunda meu cora&ccedil;&atilde;o de copioso orvalho e derrama sobre mim<br \/>\n    fontes vitais, ondas de vida: Inunda meu peito &aacute;rido com teus raios<br \/>\n    divinos: Assim cantarei os prod&iacute;gios que teu bra&ccedil;o potente h&aacute;<br \/>\n    pouco operou em favor da gente brasileira, quando fez raiar, rasgando as trevas<br \/>\n    do inferno, na arcada celeste, esplendoroso arrebol.<\/p>\n<p> Envolta, h&aacute; s&eacute;culos, no horror da escurid&atilde;o idol&aacute;trica,<br \/>\n    houve nas terras do Sul uma na&ccedil;&atilde;o que dobrara a cabe&ccedil;a<br \/>\n    ao jugo do tirano infernal, e levava uma vida vazia de luz divina. Imersa<br \/>\n    na mais triste mis&eacute;ria, soberba, desenfreada, cruel, atroz, sanguin&aacute;ria,<br \/>\n    mestra em trespassar a v&iacute;tima com a seta ligeira, mais feroz do que<br \/>\n    o tigre, mais voraz que o lobo, mais assanhada que o lebr&eacute;u, mais audaz<br \/>\n    que o le&atilde;o, saciava o &aacute;vido ventre com carnes humanas. Por muito<br \/>\n    tempo tramou emboscadas: seguia,<br \/>\n    no seu viver de feras, o exemplo do rei dos infernos, que por primeiro trouxe<br \/>\n    a morte ao mundo, enganando nossos primeiros pais. Dilacerava os corpos de<br \/>\n    muitos, com atrozes tormentos, e, embriagada de furor e soberba ia enlutando<br \/>\n    os povos crist&atilde;os com mortes freq&uuml;entes.<\/p>\n<p> Mas um dia o pai onipotente volveu os olhares dos reinos da luz &agrave;<br \/>\n    noite das regi&otilde;es brasileiras, &agrave;s terras que suavam, em borbot&otilde;es,<br \/>\n    sangue humano. Ent&atilde;o mandou-lhes um her&oacute;is das plagas do Norte,<br \/>\n    um her&oacute;is que vingasse os crimes nefandos, que banisse as disc&oacute;rdias,<br \/>\n    freiasse o assass&iacute;nio, b&aacute;rbaro e cont&iacute;nuo, acabasse com<br \/>\n    as guerras horrendas, abrandasse os peitos ferozes e n&atilde;o sofresse impass&iacute;vel<br \/>\n    cevar-se em sangue de irm&atilde;os queixadas humanas. E j&aacute; trezentos<br \/>\n    e doze lustros o tempo volvia. depois que o Criador dos astros, feito homem,<br \/>\n    sa&iacute;ra do seio da Virgem Maria impoluta, iluminado de espl&ecirc;ndidos<br \/>\n    fulgores a terra, sepultada, h&aacute; s&eacute;culos, no negror do pecado.<\/p>\n<p> Eis que, liberta dos perigos do mar e de h&aacute; muito esperada, uma esquadra<br \/>\n    fundeia na ba&iacute;a a que todos os Santos legaram o nome. Trazia, salvo<br \/>\n    das fauces do oceano, um singular her&oacute;i, de extraordin&aacute;ria coragem,<br \/>\n    Mem, que do sangue de nobres antepassados e de seiva ilustre de longa ascend&ecirc;ncia<br \/>\n    herdara o sobrenome de S&aacute;. Superiores aos anos, ornam-lhe o rosto barbas<br \/>\n    brancas e majestosas: alegres as fei&ccedil;&otilde;es, sombreadas de senil<br \/>\n    gravidade, vivos os olhos, m&aacute;sculo o arcabou&ccedil;o do corpo, frescas<br \/>\n    ainda, como de mo&ccedil;o, as for&ccedil;as de adulto. Muito mais excelente<br \/>\n    &eacute; a alma: pois lha poliram vasta ci&ecirc;ncia, com a experi&ecirc;ncia<br \/>\n    longa do mundo, e a arte da palavra bela. Arraigado no seio traz um amor de<br \/>\n    Deus, santo, filial, verdadeiro e a f&eacute; de Cristo jamais desmentida.<br \/>\n    No peito, incendiado pelo sopro divino, ferve-lhe o zelo<br \/>\n    de arrancar as almas bras&iacute;licas &agrave;s cadeias do inferno.<\/p>\n<p> &Oacute; que faustoso sai, Mem de S&aacute;, aquele em que o Brasil te contemplou!<br \/>\n    quanto bem trar&aacute;s a seus povos abandonados! com que terror fugir&aacute;<br \/>\n    a teus golpes o inimigo fero, que tantos horrores e tantas ru&iacute;nas lan&ccedil;ou<br \/>\n    nos crist&atilde;os, arrastado de furiosa loucura! Mas muitas l&aacute;grimas<br \/>\n    doridas a primeira refrega custar-te-&aacute;. Nela tombar&aacute; um filho<br \/>\n    querido varado de setas, e tingir&aacute; as praias de sangue inda jovem,<br \/>\n    lan&ccedil;ando &agrave;s auras o t&ecirc;nue sopro da vida.<\/p>\n<p> Tu por&eacute;m leva sempre ante os olhos a gl&oacute;ria do Pai celeste:<br \/>\n    nem males nem a desgra&ccedil;a te dobrem! Para sempre a morte ser-lhe-&aacute;<br \/>\n    m&atilde;e da vida com a bela alma acesa no amor da f&eacute; verdadeira arrostar&aacute;<br \/>\n    a morte que o sublimar&aacute; &agrave; mans&atilde;o da beleza. Ainda as<br \/>\n    br&ocirc;nzeas proas n&atilde;o tinham ferrado o litoral. Depois dos trabalhos<br \/>\n    do mar, muitos e v&aacute;rios, deixaram a costa africana, zona que o sol<br \/>\n    esbraseia.<\/p>\n<p> Ainda para l&aacute;, o c&eacute;u adverso e as correntes mar&iacute;timas<br \/>\n    os retornam com f&uacute;ria aos fustigos do vento: enquanto ferozes guerras<br \/>\n    e cru&eacute;is injusti&ccedil;as, causa de tantas dores, esperam a energia<br \/>\n    do chefe. L&aacute; ao longe, cultivam terra feraz uns poucos colonos, Cingidos<br \/>\n    em redor de altos montes e praias rochosas, por onde o Sul chuvoso solta as<br \/>\n    r&eacute;deas em f&uacute;ria, ergue ondas revoltas, envolve em n&eacute;voas,<br \/>\n    mares e c&eacute;us e varre com turbilh&otilde;es de nuvens os campos.<\/p>\n<p> Deu &agrave; terra seu pr&oacute;prio nome o Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p> Habitam-na portugueses. Guerras horrendas desfecha sobre ela o Tamoio feroz:<br \/>\n    &eacute; este o nome que a fera tribo herdou dos av&oacute;s. In&uacute;meros<br \/>\n    danos causa por toda a parte, talando as culturas em fruto e arrebatando os<br \/>\n    homens. Afastam-se altivos com a presa e fartam-se de sangue humano os &aacute;vidos<br \/>\n    ventres. eis que se ajuntam, vindos de v&aacute;rias paragens, em magotes<br \/>\n    cerrados, para arruinar para sempre as aldeias crist&atilde;s, ferve-lhes<br \/>\n    nas veias a raiva a louca paix&atilde;o da guerra e o apetite da carne humana,<br \/>\n    batem os cora&ccedil;&otilde;es em f&uacute;rias amentes.<\/p>\n<p> Se o bra&ccedil;o de Deus n&atilde;o impede esses aprestos ferozes com o<br \/>\n    socorro celeste, sen&atilde;o dispensa essas tribos altivas que vibram ao<br \/>\n    inc&ecirc;ndio da guerra e ao faro do sangue, em breve a &iacute;mpia guerra<br \/>\n    tudo ter&aacute; conspurcado e encharcada se ver&aacute; a terra no sangue<br \/>\n    dos justos.<\/p>\n<p> Transposto finalmente o oceano, fundeiam no porto.<\/p>\n<p> Sabe ent&atilde;o o valente chefe que cruas guerras se aprestam contra os<br \/>\n    crist&atilde;os, tribos ferozes se insurgem de toda a parte, decididas de<br \/>\n    uma vez para sempre a ferir, matar, devorar a todos os brancos.<\/p>\n<p> O primeiro cuidado do chefe foi erguer logo a mente ao Pai celeste e revolvendo<br \/>\n    em sil&ecirc;ncio todos esses sucessos implorar para os sitiados o aux&iacute;lio<br \/>\n    que desce copioso do alto: pois a clem&ecirc;ncia onipotente, vencida pela<br \/>\n    prece dos filhos, sobre eles se inclina piedosa. Escolhe depois duas caravelas<br \/>\n    da armada e manda equip&aacute;-las. Envia Fern&atilde;o &agrave; peleja,<br \/>\n    seu filho querido, ainda na primavera da vida, jovem de cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    varonil, alma plasmada nos moldes paternos, enche-lhe o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de conselhos, e diz-lhe: &ldquo;aprende, filho, desde os anos mais tenros,<br \/>\n    a buscar no trabalho as virtudes e a gl&oacute;ria, n&atilde;o honras humanas:<br \/>\n    pois que haver&aacute; sobre a terra capaz de encher-te a alma?&rdquo; No<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o insculpido leva o nome de Deus, e, na chama da f&eacute;<br \/>\n    abrasado, onde quer que apertem os trabalhos da guerra, arroja o dique do<br \/>\n    peito &agrave; maldade furiosa.<\/p>\n<p> V&ecirc;s como gentes cru&eacute;is em hordas imensas preparam aos Crist&atilde;os<br \/>\n    batalhas ferozes. De morte humilhante amea&ccedil;am agora as cabe&ccedil;as<br \/>\n    dos pobres colonos, quais tigres cru&eacute;is em redor da preia lanhada sorvendo<br \/>\n    com fauces sedentas o sangue inocente. Que esperan&ccedil;a ou que al&iacute;vio<br \/>\n    resta ainda aos sitiados? Donde tirar aux&iacute;lio? com que for&ccedil;as<br \/>\n    enfrentar inimigo t&atilde;o sanguin&aacute;rio? com que esfor&ccedil;o, t&atilde;o<br \/>\n    poucos poder&atilde;o repelir das aldeias as ondas que avan&ccedil;am? Se<br \/>\n    &eacute; for&ccedil;a buscar na fuga a salva&ccedil;&atilde;o (vergonhoso<br \/>\n    embora o proceder), se &eacute; for&ccedil;a deixar ao selvagem lares e f&eacute;rteis<br \/>\n    campos? lembra-te que mares profundos tolhem a retirada, nem t&ecirc;m naus<br \/>\n    que sulquem as ondas do pego irado, e salvem a vida pobres que tudo perderam.<br \/>\n    Eia, pois, sem tardar, lan&ccedil;a-te ao mar encrespado e de novo provoca<br \/>\n    as vagas em naus bem armadas.<\/p>\n<p> Voa em aux&iacute;lio da pobre gente no que puderes.<\/p>\n<p> Qualquer a sorte que te espera, quaisquer os trabalhos, esfor&ccedil;a-te<br \/>\n    por arrost&aacute;-los e suplant&aacute;-los com brio. Se a destra onipotente<br \/>\n    te conservar s&atilde;o e salvo e te conceder, com a derrota do inimigo, o<br \/>\n    pend&atilde;o da vit&oacute;ria e desdobrar ao olhar paterno os sinais do<br \/>\n    triunfo: ditoso dia nos ser&aacute; a ambos! A Deus soberano cumpriremos os<br \/>\n    votos e renderemos os devidos louvores.<\/p>\n<p> A gl&oacute;ria conquistada em guerra pela honra divina te ser&aacute; muito<br \/>\n    doce: eis, filho, o teu belo futuro!<br \/>\n    Se por&eacute;m por des&iacute;gnio imut&aacute;vel do Pai sempiterno o &uacute;ltimo<br \/>\n    alento te colher na primavera da vida, se a morte te arrancar em plena flor<br \/>\n    da exist&ecirc;ncia: ent&atilde;o te aguardar&atilde;o imarcesc&iacute;veis<br \/>\n    louros e honra perene, gl&oacute;ria imorredoura dourar&aacute; nos c&eacute;us<br \/>\n    teus destinos! Trocam-se assim pelo dia eterno ef&ecirc;meros dias &Agrave;<br \/>\n    luta pois com bra&ccedil;o forte, e no fundo do peito gravado o nome do Senhor<br \/>\n    que governa o universo&rdquo;! Assim falando envia o filho &agrave; empresa<br \/>\n    gloriosa.<\/p>\n<p> D&aacute;-lhe quatro dezenas de companheiros bem equipados, manda soltar<br \/>\n    ao vento as velas, e &agrave; divina clem&ecirc;ncia roga auspiciar as primeiras<br \/>\n    estr&eacute;ias do jovem.<\/p>\n<p> De pronto ergue as &acirc;ncoras a marujada valente e em voz cadenciada<br \/>\n    puxa as amarras que vai recolhendo em c&iacute;rculos. Volta proas &agrave;<br \/>\n    vaga a marulhar mar em fora, desdobra dos altos mastros o c&acirc;ndido linho,<br \/>\n    enquanto o vento, bojando as velas, as cordas estira.<\/p>\n<p> O Norte se abate sobre o mar, o casco impelindo e abaulando as velas; voa<br \/>\n    a lisa proa, cortando o pego espumante, ro&ccedil;ando apenas o dorso das<br \/>\n    ondas.<\/p>\n<p>Ora aqui, ora al&eacute;m fundeia nos litorais rumorosos. S&oacute; se abranda<br \/>\n    o rondo do oceano enraivado, quando a Ursa Maior o bafeja com ventos prop&iacute;cios<br \/>\n    e a nau, vencida muitas milhas, ferra os diversos portos dos crist&atilde;os.<br \/>\n    Muitos logo a&iacute; se oferecem ao intr&eacute;pido chefe para s&oacute;cios<br \/>\n    da empresa e da sorte.<\/p>\n<p> Vai pois o jovem brioso escoltado de cem companheiros ansiosos por domar<br \/>\n    com as armas a altivez do selvagem.<\/p>\n<p> J&aacute; no termo da rota, e perto das aldeias dos brancos, a que vinha<br \/>\n    socorrer ainda a tempo, penetra na foz espa&ccedil;osa de grande rio, e remando<br \/>\n    contra o &iacute;mpeto da corrente veloz, se dirige ao acampamento inimigo.<br \/>\n    A&iacute; ajuntara o gentio for&ccedil;as vindas de toda a regi&atilde;o em<br \/>\n    redor. Das fortifica&ccedil;&otilde;es, umas se ocultam em selvas sombrias<br \/>\n    do lado em que o sol, deixando o z&ecirc;nite, se engolfa no plaino; outras,<br \/>\n    escondidas juntos dos litorais arenosos, ouvem o troar das ondas que se enrolam<br \/>\n    e quebram.<\/p>\n<p> O melhor da mocidade foi destinada a esses lugares: ergueram a&iacute;,<br \/>\n    em vasta constru&ccedil;&atilde;o, tr&ecirc;s fortalezas cercadas de larga<br \/>\n    trincheira de troncos gigantes.<\/p>\n<p> Rodeavam cada um dos fortes seis voltas de lenhos, robles descomunais, fincados<br \/>\n    na terra, ligados a madeiras transversais com cip&oacute;s da floresta.<\/p>\n<p> Era um muro soberbo: duas torres e tr&ecirc;s baluartes o refor&ccedil;avam<br \/>\n    de cada lado; neles estreitas janelas, quais furos invis&iacute;veis, foram<br \/>\n    deixadas, por onde pudesse o arco estridente soltar a seta ligeira, causando<br \/>\n    com golpes trai&ccedil;oeiros feridas de morte.<\/p>\n<p> A&iacute; se ajuntara toda a juventude guerreira de sangue borbulhante e<br \/>\n    sedento de lutas infames.<\/p>\n<p> Brande as armas feroz: o arco e as setas velozes, o tacape ornado de penas<br \/>\n    v&aacute;rias, alisado e polido pela m&atilde;o do b&aacute;rbaro com o ferro<br \/>\n    ou dente afiado do porco mont&ecirc;s: em todas as suas ferozes usan&ccedil;as<br \/>\n    &eacute; a arma que os serve. T&ecirc;m tamb&eacute;m impenetr&aacute;veis<br \/>\n    escudos, couros peludos, arrancados ao dorso das feras e endurados ao sol.<br \/>\n    Pintam os membros robustos com as cores da tribo: tingem com listas vermelhas<br \/>\n    as faces, a fronte e as meias pernas; o resto do corpo com riscas pretas,<br \/>\n    t&atilde;o bem enla&ccedil;adas, membro por membro, que imita a pele pintada<br \/>\n    verdadeiros vestidos, que em nada desmerecem dos que, com o requinte da arte,<br \/>\n    borda a agulha na m&atilde;o habilidosa do artista, nem das redes caprichosas,<br \/>\n    tecidas de fios variados. Outros depenam o peito e as costas de in&uacute;meras<br \/>\n    aves e tingindo-lhes as penas de variad&iacute;ssimas cores colam-nas ao corpo,<br \/>\n    untado todo de visgo.<\/p>\n<p>Outros ornam o topete com asas de p&aacute;ssaros e dependuram muitos enfeites<br \/>\n    dos penteados cabelos. Com estes e muitos outros adere&ccedil;os, medonhos<br \/>\n    e feios, cobrem os membros nus os selvagens ferozes.<\/p>\n<p> Ao v&ecirc;-los o her&oacute;i, poderosos em n&uacute;mero e armas, a&iacute;<br \/>\n    reunidos para saquear barbaramente a gente lusitana toda, estas palavras amargas<br \/>\n    disse cheio de indigna&ccedil;&atilde;o: &ldquo;eis a&iacute;, companheiros,<br \/>\n    as hordas cru&eacute;is que distilam dos peitos malvados o veneno mortal do<br \/>\n    furor e do &oacute;dio implac&aacute;vel e nos amea&ccedil;am com a guerra<br \/>\n    o completo exterm&iacute;nio.<\/p>\n<p> Contra n&oacute;s se arrojar&atilde;o em bloco cerrado, com todas as for&ccedil;as<br \/>\n    que a raiva esporeia.<\/p>\n<p> Cumprir&atilde;o seu des&iacute;gnio nefando, se em estr&eacute;ia brilhante<br \/>\n    nossas armas n&atilde;o lhes quebrarem o furor sanguin&aacute;rio.<\/p>\n<p> Daqui nasceu toda a guerra. Portanto com peito invenc&iacute;vel lancemo-nos,<br \/>\n    todos, contra as hostes selvagens.<\/p>\n<p> Adiantemo-lhes a morte que contra n&oacute;s preparavam, e que eles merecem.<br \/>\n    Eis a hora dos valentes e bravos!<br \/>\n    Alento e energia nos dar&aacute; o Deus poderoso que domina as alturas. Sua<br \/>\n    m&atilde;o vingadora sobre o inimigo desumano descer&aacute; justiceira.<\/p>\n<p> Vingando as ofensas sacr&iacute;legas, sua c&oacute;lera santa dizimar&aacute;<br \/>\n    com a morte as alcat&eacute;ias ferozes.&rdquo;<br \/>\n    Terminada esta arenga, com armas divinas robustece o peito: com cuidado examina<br \/>\n    a consci&ecirc;ncia e a seguir aos p&eacute;s do sacerdote de Deus se ajoelha,<br \/>\n    para isso o chefe piedoso consigo o trouxera, e liberta-se do peso das culpas<br \/>\n    que talvez contra&iacute;ra. Entusiasmaram-se os soldado: a fala do chefe<br \/>\n    calara fundo nas almas. Seguindo-lhe o l&uacute;cido exemplo purificaram os<br \/>\n    cora&ccedil;&otilde;es de todas as manchas com a confiss&atilde;o. Lavra nos<br \/>\n    peitos agora incontido o fogo da guerra, e justa ira lhes ferve nas veias.<\/p>\n<p> J&aacute; a noite avan&ccedil;ada vencera metade do curso e transmontando-se<br \/>\n    inclinara para os pousos celestes.<\/p>\n<p>&Agrave; voz do chefe toda essa mocidade guerreira atira-se &agrave;s armas,<br \/>\n    rema contra a corrente, ao encontro do arraial inimigo. O brilho sinistro<br \/>\n    das armas invade o rio. Branquejam as &aacute;guas da espuma dos remos.<\/p>\n<p> Saem-lhe ao caminho correndo os cru&eacute;is inimigos em chusmas: uns arrojam<br \/>\n    da terra chuvas de setas, outros coalham as &aacute;guas de igaras ligeiras<br \/>\n    e de perto esticam os fortes arcos. Voam zunindo de toda a parte flechas em<br \/>\n    profus&atilde;o, gemem os arcos ao romper da seta emplumada, silvam os ares<br \/>\n    &agrave; passagem das flechas, aturdindo os ouvidos dos bravos. Ora a este,<br \/>\n    ora &agrave;quele procura alvejar com golpe certeiro a turba furiosa: com<br \/>\n    a seta veloz semeia feridas.<\/p>\n<p> Fremindo de raiva luta por afastar aos invasores.<\/p>\n<p> Estes porfiam em contr&aacute;rio e avan&ccedil;am cortando a corrente adversa<br \/>\n    do rio: com incessantes descargas, que a p&oacute;lvora arroja entre nuvens<br \/>\n    de negra fuma&ccedil;a e estrondo soturno das parias, castigam o arraial inimigo.<\/p>\n<p> Arrebatado de ardor, com a voz, com o bra&ccedil;o o terr&iacute;vel Fern&atilde;o,<br \/>\n    seguido dos seus bravos, acossa, dobra e afugenta das &aacute;guas a chusma<br \/>\n    dos b&aacute;rbaros.<\/p>\n<p> Como quando das regi&otilde;es polares o Norte impetuoso se arremessa ao<br \/>\n    encal&ccedil;o das nuvens pelos espa&ccedil;os; vencidas, elas debandam em<br \/>\n    r&aacute;pida fuga, varrendo os nimbos da altura, o azul imenso floresce no<br \/>\n    firmamento; estira o vento das f&uacute;lgidas asas e vencedor, aspira livre<br \/>\n    as auras celestes: assim o jovem, seguido de seus valentes, expulsa da superf&iacute;cie<br \/>\n    do rio as hordas todas dos inimigos.<\/p>\n<p> Estes, apenas alcan&ccedil;am a terra, buscam velozes os arraiais, precipitam-se<br \/>\n    desordenados qual no mar alto o desencadear do Sul. O temor d&aacute;-lhes<br \/>\n    asas &agrave;s pernas.<\/p>\n<p> Mal se emboscaram nas elevadas trincheiras obstru&iacute;ram as entradas<br \/>\n    com troncos gigantes: urram dentro, atroando os ares com b&aacute;rbara grita.<\/p>\n<p> Parecia que do c&eacute;u os astros se despenhavam fragorosamente ou que<br \/>\n    terr&iacute;vel tuf&atilde;o abatia a floresta, rachando os robles estrondosamente.<br \/>\n    Uns, da caba&ccedil;a curva espetada de longos e reboantes canudos, tiram<br \/>\n    sons cavernosos. Outros sopram horrendamente em b&uacute;zios recurvos ecoando<br \/>\n    um som medonho: s&atilde;o os clarins dos selvagens.<\/p>\n<p> Preparam as armas e nesse &iacute;nterim, quando um misto de terror e de<br \/>\n    raiva os agita, eis que o her&oacute;i aborda a margem do rio e calca firme<br \/>\n    a areia. Fixa a cada soldado seu posto, vibram os peitos de todos, a passo<br \/>\n    acelerado avan&ccedil;am pelo longo da praia, de armas em punho. Reluz o ferro<br \/>\n    das lan&ccedil;as, a espada de dois gumes e o fuzil que as balas vomita com<br \/>\n    horr&iacute;vel estrondo, quando sobre a p&oacute;lvora salta a fa&iacute;sca<br \/>\n    sedenta, levando ao inimigo r&aacute;pida morte.<\/p>\n<p> L&aacute; avan&ccedil;a pelo seco areal, a passo firme, Fern&atilde;o, esbelto<br \/>\n    mais que todos os outros , trazendo como um sol prateado nas armas fulgentes.<\/p>\n<p> En&eacute;rgico, ateia nos companheiros a chama da guerra, e todos j&aacute;<br \/>\n    pr&oacute;ximos dos arraiais se atiram a um tempo, a alma em fogo, decididos<br \/>\n    a romper a trincheira &agrave; for&ccedil;a de golpes, e acabar com essa gente<br \/>\n    odienta.<\/p>\n<p> Postam-se em linhas de ataque, do peito indignado rompem brados medonhos:<br \/>\n    n&atilde;o se atrevem os b&aacute;rbaros a sair em campo e ter&ccedil;ar armas<br \/>\n    com os sitiantes.<\/p>\n<p> Contentam-se com defender nos fortins e nas cercas esperan&ccedil;ccedil;as fagueiras.<br \/>\n    Pelas frestas, deixadas adrede, arroja, uma chuva de flechas, no intuito de<br \/>\n    impedir aos invasores o assalto dos muros.<\/p>\n<p> Com n&atilde;o menor afinco os nossos atacam e tentam entrar ora aqui, ora<br \/>\n    ali, lan&ccedil;ando, furiosos, in&uacute;meras balas que a p&oacute;lvora<br \/>\n    expele com fragor horripilante.<\/p>\n<p> Voam os proj&eacute;teis zunindo e abrem rombos nos troncos e dizimam hordas<br \/>\n    selvagens. Em fileira cerrada o general e seus jovens guerreiros investem,<br \/>\n    expondo os cora&ccedil;&otilde;es valentes &agrave; morte. O bra&ccedil;o<br \/>\n    esquerdo no escudo resguarda-os das flechadas, enquanto o direito maneja as<br \/>\n    armas ruidosas e rompe com o machado impiedoso o muro de robles. A for&ccedil;a<br \/>\n    for&ccedil;a as entradas; o ferro rasga as trincheiras, arromba as seis voltas<br \/>\n    de lenhos, arrancando os madeiros gigantes. L&aacute; se escancaram enormes<br \/>\n    abertas: atiram-se por elas com estrondo os jovens todos, qual rio raivoso,<br \/>\n    depois que rompeu com esfor&ccedil;o aturado os diques, se espraia nos campos<br \/>\n    rolando troncos, bosques inteiros, no turbilh&atilde;o horroroso. Repentinamente,<br \/>\n    eis que novo terror se apossa dos inimigos ao verem que os her&oacute;is com<br \/>\n    m&atilde;o de ferro romperam as cercas e com machadinhas ferozes tudo abatem<br \/>\n    por dentro. Ainda n&atilde;o se esgota a f&uacute;ria selvagem: nos peitos<br \/>\n    magoados estuam juntos medo e c&oacute;lera. Correm todos a um ponto e opondo<br \/>\n    troncos sustam os invasores e sem perda de tempo cravam-no de mil flechas<br \/>\n    velozes e os cobrem de chagas.<\/p>\n<p> Aos &iacute;ndios desesperados, acirra-os a certeza da morte. Eis sen&atilde;o<br \/>\n    quando, desgarrando-se uma seta emplumada corta o espa&ccedil;o silvando horrendamente,<br \/>\n    vindo cravar-se<br \/>\n    pouco abaixo do peito de um soldado e lhe rasga fundo as entranhas. Tomba<br \/>\n    ele mortalmente ferido e exala para logo o derradeiro suspiro.<\/p>\n<p> R&aacute;pido, o selvagem rearma o arco para nova flechada, firma atr&aacute;s<br \/>\n    o p&eacute; direito e os dois bra&ccedil;os robustos distende em sentido oposto:<br \/>\n    parte a seta ligeira a fincar-se no corpo de um segundo e o prostra estendido<br \/>\n    por terra em agonia. Ergue a horda selvagem um clamor de vit&oacute;ria, vibram<br \/>\n    os peitos feros e de furor se avolumam. Ao contemplar a morte cruel dos amigos<br \/>\n    valentes, o cora&ccedil;&atilde;o magoado do her&oacute;i e de seus companheiros<br \/>\n    referve de dor e o fogo da vingan&ccedil;a os abrasa at&eacute; os ossos.<br \/>\n    Atiram-se como essas feras da &Iacute;ndia que, acostumadas a transportar<br \/>\n    no dorso gigante fortins de madeira e homens armados para a batalha, se enfurecem<br \/>\n    &agrave; vista do sangue, desordenam co&rsquo;as patas as fileiras inimigas<br \/>\n    e arrastam em medonha ru&iacute;na robustos soldados, escudos e capacetes<br \/>\n    empenachados.<\/p>\n<p> Assim se inflamaram os guerreiros e a raivar se lan&ccedil;aram contra os<br \/>\n    ferozes contr&aacute;rios, e atracando-os de perto rasgam chagas mortais com<br \/>\n    as adagas em punho.<\/p>\n<p> &Eacute; tudo pressa, tudo az&aacute;fama: a este fende-lhe o peito um golpe<br \/>\n    de espada e a ferida fatal lhe devassa o abismo profundo; raivosamente o selvagem<br \/>\n    se vira de borco para o ch&atilde;o natal, e morde a terra morrendo.<\/p>\n<p> A outro atravessam as ilhargas com a ponta da lan&ccedil;a. A terra geme<br \/>\n    ao baque do peso; um solu&ccedil;o lhe arranca golfadas de sangue e sacode<br \/>\n    os membros agonizantes.<\/p>\n<p> A in&uacute;meros outros, as finas espadas lhes varam lados e intestinos;<br \/>\n    aparecem &agrave; luz as entranhas e escapam as v&iacute;sceras, conspurcando-se<br \/>\n    a terra.<\/p>\n<p> Acende-se mais e mais a coragem do chefe e seus bravos: derrubam a golpes<br \/>\n    mortais, muitos selvagens.<\/p>\n<p> Ora decepam bra&ccedil;os enfeitados com penas de p&aacute;ssaros, ora abatem<br \/>\n    com a l&acirc;mina reluzente cabe&ccedil;as altivas, faces e bocas pintadas<br \/>\n    de vermelho urucum, ora partem as frontes salientes entre as covas das t&ecirc;mporas<br \/>\n    e enchem o T&aacute;rtaro triste dessas vidas sem rumo.<\/p>\n<p>Soam armas e golpes e gemidos e baques de corpos.<\/p>\n<p> Aqui e ali jazem cad&aacute;veres de inimigos crivados de chagas profundas,<br \/>\n    empastados de p&oacute;: a sangueira cobre os arraiais e espumante se embebe<br \/>\n    na areia.<\/p>\n<p> N&atilde;o sustenta mais o embate assim dizimada, a horda selvagem. Volta<br \/>\n    as costas e em fuga apressada abandona as cercas e escapa por portas bem conhecidas.<\/p>\n<p> Mal puderam os inimigos fugir &agrave;s lan&ccedil;as e temidas espadas<br \/>\n    e salvar a vida acolhendo-se &agrave; segunda trincheira, in&uacute;til ref&uacute;gio<br \/>\n    do desespero; atr&aacute;s do muro de troncos se escondem e tapam as entradas<br \/>\n    com grandes barreiras.<\/p>\n<p> Eis que , n&atilde;o sofrendo demoras, com as armas tingidas no sangue inimigo,<br \/>\n    Fern&atilde;o com seus jovens briosos acorre, e olhos na gl&oacute;ria, se<br \/>\n    precipita ao assalto do arraial medroso, e &agrave; for&ccedil;a de golpes<br \/>\n    arrombam os robles enormes, abrindo numerosas e largas entradas.<\/p>\n<p>Uma vez dentro estra&ccedil;alham a fortaleza e trucidam a turba inimiga,<br \/>\n    ceifando com a espada afiada esses corpos brutais. Junto ao mar o estrondo<br \/>\n    ecoa medonho enfurece horrendo na praia o soldado matando e enterrando vitorioso<br \/>\n    na areia corpos aos montes, no inferno vidas que cevavam as carnes em carnes<br \/>\n    humanas e impinguavam os ventres com o sangue dos homens.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o se alonga o combate, j&aacute; n&atilde;o pensa o inimigo<br \/>\n    em entesar o arco, e defender a vida com brio.<\/p>\n<p> Tudo &eacute; pressa em fugir, n&atilde;o lhes valem de nada os redutos,<br \/>\n    s&oacute; resta galgar ligeiro as muralhas do &uacute;ltimo forte.<\/p>\n<p>Nossas armas gloriosas prostraram o feroz inimigo, rompendo &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    as trincheiras com vasta matan&ccedil;a.<\/p>\n<p> O general e seu bravo esquadr&atilde;o, cansados embora do duplo esfor&ccedil;o<br \/>\n    e com os corpos crivados de flechas, conservaram ainda frescas a conhecida<br \/>\n    energia das almas nobres: vibram de entusiasmo: uma de duas, ou acabar com<br \/>\n    as hordas b&aacute;rbaras ou deixar no combate a vida, comprando com o sangue<br \/>\n    a vit&oacute;ria da p&aacute;tria. &ldquo;Triunfadores meus, diz o chefe,<br \/>\n    vossa espada valente, armas e destras est&atilde;o tintas ainda do sangue<br \/>\n    maldito; sem tardar, lancemo-nos contra o inimigo vencido, enquanto o abate<br \/>\n    o terror das &uacute;ltimas duas batalhas.<\/p>\n<p> Vedes quantos a&iacute; est&atilde;o prostrados a gemer moribundos, quantos<br \/>\n    outros na fuga receberam mortais ferimentos.<\/p>\n<p> Ou exterminar de vez esta ra&ccedil;a felina com a ajuda de Deus, ou sepultar-nos<br \/>\n    na areia gloriosamente&rdquo;. A estas palavras, parte. A todos devora o mesmo<br \/>\n    fogo. Arrojam-se como impetuosa corrente ou como a tempestade negra que revolve<br \/>\n    o oceano, encapela as ondas, rasga o linho branco das velas, quebra os altos<br \/>\n    mastros, e, girando tr&ecirc;s ou quatro vezes as popas as submerge voraz<br \/>\n    em r&aacute;pido redemoinho. Quantos estragos n&atilde;o causou ent&atilde;o<br \/>\n    o bra&ccedil;o valente do jovem chefe! quantos corpos de guerreiros ferozes<br \/>\n    arremessou &agrave; morte, tomando vingan&ccedil;a no sangue inimigo.<\/p>\n<p> Fossem mais crentes os colegas, mais viris os seus bra&ccedil;os, fervesse-lhes<br \/>\n    no peito um sangue mais quente, acompanhassem sempre, lado a lado, o seu chefe,<br \/>\n    e esse dia marcaria a ru&iacute;na desses feros selvagens, atirando-os para<br \/>\n    as sombras eternas do inferno.<\/p>\n<p> Mas, ai! que imensa &eacute; a humana inconst&acirc;ncia! Estes, mais aqueles<br \/>\n    come&ccedil;am de vacilar, vai-os prendendo pavor covarde, cada vez maior,<br \/>\n    ao verem que a onda dos &iacute;ndios cresce, j&aacute; recuam e se furtam<br \/>\n    &agrave; luta, esgueirando-se insensivelmente, esses covardes sem nome.<\/p>\n<p> Tornam &agrave;s naus, desligando da margem as barcas.<\/p>\n<p> Abandonam o chefe, que ignora esse ato de inf&acirc;mia, entre poucos companheiros,<br \/>\n    o furor da pele renhida.<\/p>\n<p> &ldquo;Para onde fugis, desgra&ccedil;ados? que medo vil vos assalta o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sem brio? que inimigo estais perseguindo t&atilde;o &agrave; pressa? J&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o vos movem os louros das duas vit&oacute;rias e as fortalezas que<br \/>\n    tomastes com a morte de seus defensores? Apavorados de terror indigno, n&atilde;o<br \/>\n    vos envergonha abandonar assim vosso chefe &agrave; f&uacute;ria dos b&aacute;rbaros<br \/>\n    entre tantos perigos, ao peso de tantos trabalhos.<\/p>\n<p> Para onde fugis? Sustai o passo! A maior parte dos vossos sucumbe: voltai<br \/>\n    pois ligeiros e, ao lado do chefe, valentes destru&iacute; o arraial. Para<br \/>\n    que tanto amor pela vida?&rdquo;<\/p>\n<p>Enquanto, ardendo em f&uacute;rias, o jovem vai fulminante espalhando nos<br \/>\n    acampamentos os horrores da morte, certo que os seus lutam a seu lado, e em<br \/>\n    esfor&ccedil;o supremo esmagam as hordas b&aacute;rbaras finalizando a peleja,<br \/>\n    eis que pouco a pouco em magotes os selvagens acorrem &agrave; batalha. Mandam-nos<br \/>\n    das florestas vizinhas &agrave;s cercas, para aux&iacute;lio dos seus e refor&ccedil;o<br \/>\n    aos que iam cedendo. Por atalhos desconhecidos afluem de todos os lados em<br \/>\n    grande n&uacute;mero. Depois que enxameou essa turba imensa, vai confuso rumor<br \/>\n    pelas trincheiras e grita desacostumada at&eacute; &agrave;s nuvens se ergue.<\/p>\n<p> Tal o arroio sombreado que desce das altas montanhas entre seixos roli&ccedil;os<br \/>\n    num rolar gorgolhante, depois que a tempestade repentina despejou suas iras,<br \/>\n    chuvas vergastando montes e bosques e rasgando caminhos &agrave;s &aacute;guas<br \/>\n    que correm a se ajuntar: ent&atilde;o ele, soberbo de tanta riqueza, se arroja<br \/>\n    e arranca &agrave; terra das margens troncos gigantes, rola em redemoinho<br \/>\n    pedras enormes, imitando ora o rumor soturno das ondas ora o rolar do trov&atilde;o<br \/>\n    nas alturas celestes. Assim a turba imensa enchia j&aacute; a cidadela e reanimadas<br \/>\n    pelo socorro, em luta desigual, apertava uns poucos de her&oacute;is, com<br \/>\n    o furor de vingan&ccedil;a que lhes incutia a derrota e a morte dos seus.<br \/>\n    O alvo principal de seus golpes, incessantes e rijos, &eacute; o jovem chefe,<br \/>\n    que mais e mais se enfurece, admirado de que o inimigo cobre de repente tanta<br \/>\n    coragem e for&ccedil;a: n&atilde;o havia, h&aacute; pouco, nesses peitos tanto<br \/>\n    denodo nesses bra&ccedil;os tanto vigor&#8230; A custo percebeu finalmente que<br \/>\n    os seus deserdaram, enquanto ele mergulhava na turba, inebriado de sangue,<br \/>\n    olhos na derradeira vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> Ao ver-se abandonado, entre os inimigos, com poucos companheiros, entendendo<br \/>\n    ser in&uacute;til lutar contra tantos, retira-se dos arraiais e pouco a pouco<br \/>\n    recua na dire&ccedil;&atilde;o do rio, para entrar com seus bravos nas barcas<br \/>\n    que a&iacute; estariam presas. Mas ai! os cobardes menosprezaram as ordens<br \/>\n    e a vida do chefe e largaram para longe da margem a armada, cederam a um temor<br \/>\n    vergonhoso: eis o chefe desses cobardes. O her&oacute;i, em v&atilde;o magn&acirc;nimo,<br \/>\n    ao ver que os companheiros levaram para longe os barcos e que a turba inimiga,<br \/>\n    em linha de batalha e entre gritos de guerra, come&ccedil;a a apert&aacute;-los,<br \/>\n    brada: &ldquo;Para onde corremos, colegas? J&aacute; n&atilde;o nos resta<br \/>\n    esperan&ccedil;a alguma! O inimigo nos cerca de toda a parte, de toda a parte<br \/>\n    o oceano! A terra nos falta! buscaremos a armada, cortando com o peito as<br \/>\n    ondas? para onde nos dirigir-nos no aperto presente? Pois, rompamos &agrave;<br \/>\n    ponta de espada essas hordas!<\/p>\n<p>Paira sobre a n&oacute;s a morte? &mdash; que paire! Oh! que belo deixar<br \/>\n    por Deus as vidas caras na arena sangrenta e comprar com esse sangue a vida<br \/>\n    de muitos!&rdquo;\n  <\/p>\n<p>  Disse, e logo (pois j&aacute; o ataque dos &iacute;ndios n&atilde;o dava lugar<br \/>\n  a demora), &agrave; invoca&ccedil;&atilde;o do nome de Cristo.<\/p>\n<p> com os colegas se arroja contra os selvagens, postado a arrastar na pr&oacute;pria<br \/>\n    morte os corpos de mil inimigos e a rasgar com o punhal reluzente mil feridas<br \/>\n    sangrentas.<\/p>\n<p> Os inimigos se apinham ao redor e o carregam com gritos de terror e com<br \/>\n    flechas: n&atilde;o lhes d&aacute; a horda descanso, como ca&ccedil;adores<br \/>\n    &agrave; volta do le&atilde;o que freme asseteado:<br \/>\n    ele a raivar ruge horrendamente e feroz amea&ccedil;a com o olhar torvo, ora<br \/>\n    este, ora aquele, impert&eacute;rrito rasga com a boca em sangue os corpos<br \/>\n    que alcan&ccedil;a: Eles o apertam, fincam-lhe lan&ccedil;as nas costas, nos<br \/>\n    flancos &agrave; porfia, at&eacute; que todo roto de feridas sucumbe e a terra<br \/>\n    treme ao baque dos membros robustos.<\/p>\n<p> Assim o enxame dos inimigos em cerco cerrado estreitou o jovem: esse o fere<br \/>\n    com a clava, aquele com setas e em v&atilde;o ele multiplica esfor&ccedil;os.<br \/>\n    Em algazarra se arrojam<br \/>\n    sobre ele. Sem tr&eacute;guas, apertam-no daqui e dali, insaci&aacute;veis.<br \/>\n    Redobram os golpes: as flechas lan&ccedil;adas de todos os lados j&aacute;<br \/>\n    o cobrem todo, as armas tinem, rompe-se a malha da coura&ccedil;a, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o resiste a tantos golpes o escudo.<\/p>\n<p> Copioso lhe inunda o corpo e por completo o abandonaram as for&ccedil;as;<br \/>\n    a sede lhe queima a garganta e o pobre exala pelos pulm&otilde;es a alma ofegante.<\/p>\n<p> J&aacute; tem o her&oacute;i o rijo peito crivado de in&uacute;meras setas,<br \/>\n    o sangue o cobre todo e lhe empana a beleza dos membros. A praia tremeu &agrave;<br \/>\n    sua queda. Tombando os olhos moribundos se cravaram na altura. As pr&oacute;prias<br \/>\n    selvas e rochas e montes vizinhos e rios, chorando ao som das &aacute;guas<br \/>\n    cristalinas, o viram cair ao peso das chagas, e arrancaram dolorosos gemidos.<br \/>\n    &Oacute; venturoso mo&ccedil;o, prostrado na arena sangrenta depois de devastar<br \/>\n    valente as hordas selvagens, bela morte juncou teu sepulcro de mil setas e<br \/>\n    corpos. N&atilde;o te assediou o peito a fome do ouro nem da vaidade; mas<br \/>\n    a paix&atilde;o imensa da gl&oacute;ria divina e a honra imaculada de Cristo<br \/>\n    te imola nesse altar, para que sejam tuas feridas a vida de muitos.<\/p>\n<p> Vencido pelo amor da p&aacute;tria e liberdade dos teus, vergaste a cabe&ccedil;a<br \/>\n    ante a morte, sob a espada inimiga tombando na juventude em flor, primavera<br \/>\n    da vida. Sem tremer, desprezaste a terra pelo bem dos amigos, deixaste escapar,<br \/>\n    pelas chagas abertas, a vida. Grande jovem, eis tua gl&oacute;ria! os s&eacute;culos<br \/>\n    todos saber&atilde;o que preferiste morte cruel &agrave; desonra de Deus,<br \/>\n    da p&aacute;tria e do pai, e que, desconhecendo o temor cobarde, expuseste<br \/>\n    a vida aos maiores perigos e apagaste, com teu sangue o inc&ecirc;ndio da<br \/>\n    guerra que surgia amea&ccedil;ador. Lembrar-se-&atilde;o os teus Lusos e confessar&atilde;o<br \/>\n    agradecidos dever-te tal benef&iacute;cio: gra&ccedil;as a tua morte, eles<br \/>\n    vivem e desfrutam da paz.<\/p>\n<p> Venturoso Jovem, entre os felizes, nas alturas celestes brilha a tua gl&oacute;ria<br \/>\n    irmanada &agrave; gl&oacute;ria divina.<\/p>\n<p> Privado embora do sepulcro teu corpo, escondido embora no seio da terra<br \/>\n    ou no ventre dos &iacute;ndios, nada se te d&aacute;. Fica-lhes esta gl&oacute;ria<br \/>\n    mesquinha, depois que as hordas ferozes com sua imensa ru&iacute;na juncaram<br \/>\n    as fortalezas, e com o sangue selvagem encheram o leito do rio, e dobraram<br \/>\n    as cervizes altivas &agrave; for&ccedil;a de golpes, e se lhes abrandaram<br \/>\n    as iras.<\/p>\n<p> Mandam o chefe das armadas lan&ccedil;ar m&atilde;o dos remos velozes a<br \/>\n    toda pressa, e abrir vela aos ventos prop&iacute;cios sem demora. Deixam a<br \/>\n    um tempo a praia e na praia o chefe estendido. As naus deslizam do rio para<br \/>\n    o mar, varrem com a popa a superf&iacute;cie do pego, e dirigem-se ao porto<br \/>\n    dos crist&atilde;os, que em perigo de morte o governador geral mandara auxiliar<br \/>\n    da cidade n&atilde;o acabasse com eles o feroz inimigo dos brancos.<\/p>\n<p> Eles, depois dos longos trabalhos da guerra e da fome, depois de mil amea&ccedil;as<br \/>\n    do inimigo e perigos de morte, reconhecem enfim, na curva do mar, os navios<br \/>\n    amigos.<\/p>\n<p> Revigorados de nova esperan&ccedil;a, erguem as armas ao alto, os peitos<br \/>\n    acabrunhados alijam cuidados que pesam. Mal puderam ouvir de perto a voz querida<br \/>\n    de amigos, e a not&iacute;cia dos combates horrendos e das morte sangrenta<br \/>\n    do chefe, os cora&ccedil;&otilde;es so&ccedil;obram de dor repentina, transbordam<br \/>\n    as l&aacute;grimas pelas faces a m&atilde;es e esposos, e deixam escapar do<br \/>\n    peito entre fundos solu&ccedil;os estas queixas desoladoras: &ldquo;E n&oacute;s,<br \/>\n    jovem ilustre, n&oacute;s, entre mortes t&atilde;o cru&eacute;is, escapamos<br \/>\n    inc&oacute;lumes!&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o eras tu o repouso suave que teu pai preparava para a sua velhice?<br \/>\n    Tu, para nos proteger a cabe&ccedil;a, entregaste a tua &agrave; morte sangrenta,<br \/>\n    aceitaste pelo nosso descanso os duros trabalhos da guerra.<\/p>\n<p> Valia tanto, ilustre chefe, nosso bem compr&aacute;-lo com t&atilde;o duras<br \/>\n    feridas tuas e tanta amargura de teu amado pai? que sofras tu morte horrorosa,<br \/>\n    por nossa vida? que sejas pasto do cruel inimigo, e n&atilde;o nos confranjam<br \/>\n    a n&oacute;s tuas chagas doridas, nem esse sangue que te escorre pela fronte<br \/>\n    robusta? N&oacute;s, esquecidos de tanto sacrif&iacute;cio? Tanto nos acobarda<br \/>\n    o amor desta luz transit&oacute;ria e a paix&atilde;o ego&iacute;sta de viver,<br \/>\n    que n&atilde;o nos deixa vingar tua morte em merecida desforra? Ah! vingar-nos-emos!&rdquo;<br \/>\n    Abalados por tais pensamentos, sinais de funda tristeza deram todos . Prestam<br \/>\n    as &uacute;ltimas honras ao chefe e aos companheiros mortos, e as ex&eacute;quias<br \/>\n    preparam. M&atilde;es piedosas, virgens inocentes, meninos e adultos, velhos<br \/>\n    vergados ao peso dos anos, dirigem-se &agrave; igreja. Junto do altar, coberto<br \/>\n    e velado por pano de luto, est&aacute; uma essa: bela faixa branca em forma<br \/>\n    de cruz abra&ccedil;a o ata&uacute;de em todo o seu comprimento.<\/p>\n<p> Cobrem-se de panos pretos tamb&eacute;m os altares sagrados. C&iacute;rios<br \/>\n    em profus&atilde;o enchem as luzes dos templos.<\/p>\n<p> Segundo o costume dos crist&atilde;os recitam o s&iacute;mbolo dos Ap&oacute;stolos<br \/>\n    e os mandamentos: ent&atilde;o o ministro sagrado envergando paramentos negros<br \/>\n    oferece preces e s&uacute;plicas ao Pai celeste e imola qual cordeiro inocente,<br \/>\n    o corpo de Jesus, v&iacute;tima das culpas dos homens, que de m&atilde;os<br \/>\n    e de p&eacute;s os cravos cru&eacute;is trespassaram e a morte abateu sanguinolentemente.<\/p>\n<p> Daqui e dali, gemidos e solu&ccedil;os ressoam, e prantos entrecortados<br \/>\n    por gritos de mulheres; l&aacute;grimas correm em rios pelas faces, em altas<br \/>\n    vozes invocam a bondade do Pai onipotente. Justamente sentidos , abalam com<br \/>\n    s&uacute;plicas os excelsos pal&aacute;cios celestes. Os pr&oacute;prios homens<br \/>\n    deixam correr pelas faces esqu&aacute;lidas grossas bagas. Arrancam suspiros<br \/>\n    do fundo do peito e com merecidas honras, os tristes funerais acompanham.<\/p>\n<p> Cumpre o sacerdote quanto exige o rito piedoso: oferece pelas almas do chefe<br \/>\n    e colegas os supremos sufr&aacute;gios e ajudando-os com uma &uacute;ltima<br \/>\n    prece, faz o giro da essa, asperge-a com a &aacute;gua santa e pronuncia as<br \/>\n    derradeiras palavras, pedindo o descanso deles na eternidade serena.<\/p>\n<p>A lua resplendente erguera por detr&aacute;s do oceano seu rosto e completara<br \/>\n    uma s&oacute; vez o disco brilhante.<\/p>\n<p> Os guerreiros que t&atilde;o duros combates e riscos tinham corrido por<br \/>\n    terra e por mar, retemperam exaustos os membros e refazem as for&ccedil;as.<br \/>\n    Cicatrizam as feridas abertas<br \/>\n    pelas setas velozes, essas feridas inumer&aacute;veis recebidas ao lado do<br \/>\n    chefe, enquanto com as espadas dizimavam o inimigo. Todos os cidad&atilde;os<br \/>\n    e tropas amigas, num s&oacute; cora&ccedil;&atilde;o e num s&oacute; grito,<br \/>\n    arrojam-se &agrave; guerra jurando vingar a morte cruel de Fern&atilde;o,<br \/>\n    o valente, e aniquilar as hordas selvagens que cercavam a cidade. O inimigo<br \/>\n    erguera junto aos muros vastas trincheiras, e outras fortifica&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Reunira inumer&aacute;vel ex&eacute;rcito, para desafogar sua raiva louca<br \/>\n    e &oacute;dio descomedido, exterminar o povo crist&atilde;o em sangrenta matan&ccedil;a<br \/>\n    e saciar as negras fauces e os ventres sedentos de sangue. Sem perda de tempo<br \/>\n    dirigem &agrave; for&ccedil;a de remos as r&aacute;pidas canoas contra a corrente.<br \/>\n    Distendem-se os duros bra&ccedil;os e os m&uacute;sculos saltam. Sulcando<br \/>\n    as ondas contr&aacute;rias, voam e em porfiada corrida atracam no local inimigo,<br \/>\n    e de um salto &aacute;gil os pelot&otilde;es fogosos pulam das barcas, palmilham<br \/>\n    os litorais adversos, com altos brados invocam o poder onipotente e arrojam-se<br \/>\n    contra o inimigo.<\/p>\n<p> Nem valas, nem homens sust&ecirc;m o assalto dos nossos ainda que os embarque<br \/>\n    e fira a chuva das flechas .<\/p>\n<p> Encarni&ccedil;am-se, e rompendo por sendas impratic&aacute;veis, abatem<br \/>\n    quanto se lhes ergue diante e acossam os b&aacute;rbaros, crivando-os de feridas<br \/>\n    e juncando de mortos o campo.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m os nossos levam o peito varado de setas.<\/p>\n<p> Seria longo repetir os golpes de cada um dos guerreiros, as vidas que despenharam<br \/>\n    nos abismos da terra. As armas lan&ccedil;aram no inimigo exterm&iacute;nios<br \/>\n    medonho.<\/p>\n<p> O sangue correu em riachos que espumejavam: muitos tombaram passados ao<br \/>\n    fio da espada, muitos, de m&atilde;os e pesco&ccedil;o presos, carregaram<br \/>\n    cadeias. Domado ficou assim seu furor indom&aacute;vel. Cessou finalmente<br \/>\n    o terror, a altivez e amea&ccedil;as dos b&aacute;rbaros; e voltou aos lusos<br \/>\n    a paz suspirada.<\/p>\n<p> S&oacute; depois que as guerras findaram de todo, deixaram os guerreiros<br \/>\n    as aldeias dos crist&atilde;os, bem seguras, com pleno sucesso. Largam as<br \/>\n    velas ao vento prop&iacute;cio.<\/p>\n<p> A terra se afasta e as popas no oceano se engolfam.<\/p>\n<p> Chegam finalmente &agrave; presen&ccedil;a do &iacute;nclito governador.<\/p>\n<p> Como &eacute; f&aacute;cil de imaginar, estava ele ansioso pela sorte do<br \/>\n    filho e pela dos companheiros.<\/p>\n<p> Ao Pai onipotente orava com fervor dia e noite livrasse os povos crist&atilde;os<br \/>\n    das fauces da morte e exterminasse o furor do feroz inimigo.<\/p>\n<p> Logo que soube da morte cruel do filho extremoso, ainda que o amor sublime<br \/>\n    de pai lhe estremecia no peito e lhe rasgava a alma com golpe profundo, escondeu<br \/>\n    no nobre cora&ccedil;&atilde;o a imensa desgra&ccedil;a. A virtude invenc&iacute;vel<br \/>\n    dominou o sofrimento ainda que atroz e consolou o amor dolorido, porque a<br \/>\n    morte do filho salvou a vida de muitos.<\/p>\n<p> T&atilde;o digno foi do filho esse pai e do pai esse filho!<\/p>\n<h4><a name=\"2\">LIVRO II<\/a><\/h4>\n<p>Mas j&aacute; as obras que pela honra divina empreendeste e teu entusiasmo<br \/>\n    operoso est&atilde;o de mim exigindo os louvores justamente merecidos, &oacute;<br \/>\n    grande governador lusitano! O Senhor tos dar&aacute; generoso e coroar&aacute;<br \/>\n    teus trabalhos com honras celestes, fiquem embora nossos cantos aqu&eacute;m<br \/>\n    de tua grandeza.<\/p>\n<p> Pois quem lembrar&aacute; o tempo das tribos ferozes quando ainda os selvagens<br \/>\n    n&atilde;o te viam, chefe valente, impor santas normas aos povos e lan&ccedil;ar<br \/>\n    justo freio a uma ra&ccedil;a indom&aacute;vel? Que terror ent&atilde;o invadia<br \/>\n    o peito de todos! A quantos , boatos v&atilde;os incutiam vergonhoso medo!<br \/>\n    O b&aacute;rbaro expandindo sua ira quebrantava as leis santas da m&atilde;e<br \/>\n    natureza e os divinos preceitos do Pai onipotente cevando as queixadas bestiais<br \/>\n    em corpos humanos! Essa ra&ccedil;a selvagem, sem a menor lei, perpetrava<br \/>\n    crimes horrendos contra os mandados divinos, proferindo impunemente amea&ccedil;as<br \/>\n    cont&iacute;nuas e altivos discursos.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o com arrog&acirc;ncia o &iacute;ndio sanhudo olhava para os<br \/>\n    crist&atilde;os, e estes, entrincheirados detr&aacute;s de seus muros, tremiam<br \/>\n    de pavor vergonhosos: como quando lobos vorazes, que a fome impiedosa a&ccedil;ula<br \/>\n    e avassala, rangendo os dentes, cobi&ccedil;am, &agrave; ronda do aprisco,<br \/>\n    espostejar os tenros cordeiros e extinguir a sede ardente no sangue que sugam;<br \/>\n    l&aacute; dentro as ovelhas estremecem e fremem com medo das feras que rondam<br \/>\n    fora, mal confiadas no aprisco.<\/p>\n<p> Mal pisa o en&eacute;rgico chefe os litorais brasileiros com os poderes<br \/>\n    de governador geral que trazia, para logo come&ccedil;a a desterrar de todos<br \/>\n    os peitos os v&atilde;os temores, e a sacudi-los do torpor em que jazem, incendiando-os<br \/>\n    no amor da verdadeira e &uacute;nica gl&oacute;ria.<\/p>\n<p> Determina n&atilde;o sofrer por mais tempo o orgulho dos &iacute;ndios mas<br \/>\n    castigar com penas graves e justas os p&uacute;blicos crimes.<\/p>\n<p> Um certo b&aacute;rbaro ent&atilde;o, de boca insolente, lan&ccedil;ou feroz<br \/>\n    aos crist&atilde;os mil desafios, exprobando-lhes o bra&ccedil;o inerte e<br \/>\n    o peito cobarde, bravateando contra eles terr&iacute;veis matan&ccedil;as.<\/p>\n<p> Chamava-se Cururupeba em sua l&iacute;ngua materna, nome que na nossa significa<br \/>\n    Sapo Espalmado.<\/p>\n<p> Ao seu insensato orgulho e audaz arrog&acirc;ncia infligiu Mem de S&aacute;<br \/>\n    digna paga, e assim come&ccedil;aram a ter-lhe os brasis grande temor e respeito.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o ficar&atilde;o impunes os crimes que h&aacute; pouco<br \/>\n    23 cometeste, &oacute; Cururupeba, nem tua imensa soberba.<\/p>\n<p> O bra&ccedil;o valente dos crist&atilde;os lan&ccedil;ou-te por terra embora<br \/>\n    grande multid&atilde;o dos teus te cercasse, bem armados de flechas ligeiras,<br \/>\n    dispostos a expor por teu amor a vida a todos os transes.<\/p>\n<p> Mas a alma do grande her&oacute;i firmada na for&ccedil;a divina, n&atilde;o<br \/>\n    obstante o receio da maior parte do vulgo, resolve impor justo freio ao furor<br \/>\n    dos selvagens, acalmar os vagalh&otilde;es desse mar furioso.<\/p>\n<p> Aos trinta homens que de cada aldeia escolhera assim diz: &ldquo;Ide e trazei-me<br \/>\n    preso esse louco que tantas amea&ccedil;as est&aacute; contra n&oacute;s vomitando.<\/p>\n<p> Saiba ele enfim que n&atilde;o nos falta bra&ccedil;o nem peito!&rdquo;<br \/>\n    Assim falou e eles partem em demanda das cho&ccedil;as enfuma&ccedil;adas<br \/>\n    onde Cururupeba com a chusma dos &iacute;ndios se aninha disposto a medir<br \/>\n    armas com armas.<\/p>\n<p> Mas quem tudo pode abater com um aceno somente, quem amansa as ondas do<br \/>\n    mar encapelado e os ventos que as revolvem com sopros furiosos, refreou-lhe<br \/>\n    a raiva e a inchada soberba apertando-lhe o cora&ccedil;&atilde;o com g&eacute;lido<br \/>\n    medo.<\/p>\n<p> Firmes, os nossos n&atilde;o desistem, v&atilde;o ter &agrave;s cabanas,<br \/>\n    cercam-nas, entram-nas e prendem a Cururupeba no pr&oacute;prio esconderijo,<br \/>\n    e trazem-no preso p&rsquo;ra fora; tal o sapo escondido na cova, enchendo<br \/>\n    a pele e a bocarra, parece amea&ccedil;ar morte cruel com a baba empestada,<br \/>\n    e mal do buraco o tiram com a m&atilde;o, desaparecem os sinais da raiva e<br \/>\n    deixa-se arrastar impotente.<\/p>\n<p> Assim o prenderam indefeso, assim lhe amarraram os punhos e lhe ataram os<br \/>\n    bra&ccedil;os &agrave;s costas, e o conduziram vitoriosos ao governador em<br \/>\n    pal&aacute;cio.<\/p>\n<p> E ele que h&aacute; pouco lan&ccedil;ava valentias aos ventos e amea&ccedil;ava<br \/>\n    feroz guerras, matan&ccedil;as e orgias, v&ecirc;-se agrilhoado duramente<br \/>\n    e jogado na imund&iacute;cie horr&iacute;vel de um c&aacute;rcere escuro,<br \/>\n    pagando o merecido castigo de seus crimes antigos.<\/p>\n<p> N&atilde;o lhe desataram os grilh&otilde;es, nem da&iacute; saiu livre sen&atilde;o<br \/>\n    depois que a zona obl&iacute;qua dos signos viu o sol percorrer a todos em<br \/>\n    seu r&aacute;pido carro e passada a do Peixe reviu a constela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Carneiro, transpondo os altos p&oacute;rticos do firmamento estrelado.<\/p>\n<p> Entretanto divulgou-se pelas aldeias a nova de que esteva em ferros Cururupeba:<br \/>\n    terror indiz&iacute;vel se apodera dos &iacute;ndios.<\/p>\n<p> Pasmam todos e temem cada qual pela pr&oacute;pria sorte: como num bando<br \/>\n    de pombas, quando cruel gavi&atilde;o arrebata uma nas garras aduncas, as<br \/>\n    outras em debandada se escondem nos ninhos: a imagem da companheira no desastre<br \/>\n    recente 24 continua a assust&aacute;-las e a entristec&ecirc;-las ainda.<\/p>\n<p> O piedoso Mem de S&aacute;, desejou depois disto ver adorado o Senhor do<br \/>\n    c&eacute;u, do mar e da terra e venerado nas plagas do Sul o nome de Cristo.<\/p>\n<p> Resolve impor leis aos &iacute;ndios que vivem quais feras e refrear seus<br \/>\n    b&aacute;rbaros costumes.<\/p>\n<p> Logo desterra a antropofagia cruel: n&atilde;o permite mais que movidos<br \/>\n    de gula infrene bebam o sangue fraterno, nem mais se violem os santos direitos<br \/>\n    da m&atilde;e natureza e as leis do Criador.<\/p>\n<p> Para logo o ign&oacute;bil vulgacho a quem movia ora ambi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mal inspirada ora verdadeiro terror, p&ocirc;s-se a espalhar estes rumores:<br \/>\n    &ldquo;que novo governador &eacute; este? com que direito posterga as leis<br \/>\n    antigas e tenta impor novos costumes novas normas de vida a ind&ocirc;mitas<br \/>\n    gentes? Poder&aacute; ele agora persuadir a povos selvagens tratados de alian&ccedil;a?<br \/>\n    deixar&aacute; a ra&ccedil;a bras&iacute;lica de comer carne humana, banindo<br \/>\n    do seio de seus filhos &oacute;dios cru&eacute;is e guerras antigas? Pois<br \/>\n    se o prazer destes b&aacute;rbaros, justamente nisso consiste, atirar-se sempre<br \/>\n    em novas e ferozes batalhas, provocar os outros &agrave; guerra em que sempre<br \/>\n    viveram, rasgar-lhes com as unhas a carne, e piores que tigres, fincar os<br \/>\n    dentes em lanhos palpitantes de vida: devem agora aprender a esquecer seus<br \/>\n    furores, criar almas meigas e cora&ccedil;&otilde;es de cordeiro? Acaso n&atilde;o<br \/>\n    voltar&aacute; sobre n&oacute;s o feroz inimigo todas as iras e todos os bra&ccedil;os<br \/>\n    devastando a cidade, se faltarem outros em que saciem a sede de sangue? Como<br \/>\n    &eacute; poss&iacute;vel julgar que mudem agora costumes que se embeberam<br \/>\n    na torrente dos s&eacute;culos? Poder&atilde;o os beberr&otilde;es deixar<br \/>\n    de encher-se de vinhos, de vomitar o que beberam e de beber novamente o que<br \/>\n    vomitar&atilde;o? N&atilde;o celebrar novas bodas esses devassos e renunciando<br \/>\n    &agrave;s antigas n&atilde;o se sujar em novas torpezas? Estes e outros costumes,<br \/>\n    herdados dos seus antepassados, e transmitidos como direito racial, de h&aacute;<br \/>\n    longo tempo, sofrer&atilde;o impunemente que lhos arranquem agora? Qu&atilde;o<br \/>\n    pouco conhece o &iacute;ndio altivo quem assim pensa! Quanto se engana quem<br \/>\n    tenta realizar tais projetos! N&atilde;o est&aacute; longe de permitir a ru&iacute;na<br \/>\n    do povo!&rdquo; Tais rumores que corriam, tais as cr&iacute;ticas duras que<br \/>\n    publicamente se lan&ccedil;avam: um s&oacute; temor o de todos, uma s&oacute;<br \/>\n    preocupa&ccedil;&atilde;o, desviar o governador dos seus intentos, dobr&aacute;-lo<br \/>\n    com rogos e s&uacute;plicas, for&ccedil;a-lo a deixar as determina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que tomara t&atilde;o resolutamente.<\/p>\n<p> V&atilde;o ter com ele bem premunidos, reunindo nesta fala o argumento de<br \/>\n    todos: &ldquo;Grande governador, a quem Dom Jo&atilde;o o terceiro nosso felic&iacute;ssimo<br \/>\n    rei entregou o governo bras&iacute;lico; por des&iacute;gnio da Provid&ecirc;ncia,<br \/>\n    foi-te confiado o nosso bem, para que em boa paz a todos dirijas e olhes pelo<br \/>\n    bem estar de todos os s&uacute;ditos.<\/p>\n<p> Agora que abonan&ccedil;ou a tempestade da guerra, que leis tencionas impor<br \/>\n    a esses povos selvagens? Pro&iacute;bes aos &iacute;ndios as guerras? de que<br \/>\n    paz fruir poderemos sen&atilde;o se guerrearem entre si, saciando a sede de<br \/>\n    sangue com que nasceram? De que maneira julgas poss&iacute;vel realizar teus<br \/>\n    desejos? que deixe de comer carne humana o b&aacute;rbaro que dela gosta?<br \/>\n    Podem os tigres viver sem a presa e os le&otilde;es ferozes deixar de despeda&ccedil;ar<br \/>\n    os novilhos e os lobos perdoar &agrave;s mansas ovelhas ? Antes deixar&aacute;<br \/>\n    a baleia de encher de peixes o bojo, no vasto oceano, antes deixar&aacute;<br \/>\n    o gavi&atilde;o, em v&ocirc;o audacioso librado no espa&ccedil;o, de raptar<br \/>\n    t&iacute;midas aves, e a &aacute;guia real de garras aduncas de levantar &agrave;s<br \/>\n    alturas em revoada a lebre cativa: do que deixarem os brasis de devorar carnes<br \/>\n    humanas.<\/p>\n<p> Eia pois! pondera teus intentos com reflex&otilde;es cautelosas.<\/p>\n<p> N&atilde;o impe&ccedil;a que mutuamente se provoquem &agrave; guerra e se<br \/>\n    matem horrendamente, e, despeda&ccedil;ando seus inimigos, lhes assem a carne<br \/>\n    no rito paterno e lhe roam os ossos &agrave; maneira de c&atilde;es, celebram<br \/>\n    as festas dos seus antepassados e n&atilde;o pensem em lan&ccedil;ar contra<br \/>\n    n&oacute;s os bra&ccedil;os ferozes, nem desafoguem em n&oacute;s suas iras<br \/>\n    de brutos e sedentos de sangue nos passem ao fio da espada a n&oacute;s, nossas<br \/>\n    esposas e filhos, conspurcando de morte toda a cidade.<\/p>\n<p> Tu ser&aacute;s a causa de t&atilde;o grandes desgra&ccedil;as, tu o respons&aacute;vel<br \/>\n    &uacute;nico da irrepar&aacute;vel ru&iacute;na e do sangue derramado.<\/p>\n<p> Eis que te avisamos com tempo n&oacute;s que conhecemos, de h&aacute; muito,<br \/>\n    os costumes dos &iacute;ndios, e lhes experimentamos de perto a &iacute;ndole<br \/>\n    fera.<\/p>\n<p> &rdquo; Assim falando, eles com acrim&ocirc;nia insistiam erguendo a voz<br \/>\n    diante do governador: este por&eacute;m, cujo peito era sacr&aacute;rio de<br \/>\n    Deus, confiado no poder de Jesus, cujo nome ansiava por tornar conhecido naquelas<br \/>\n    b&aacute;rbaras plagas, com &acirc;nimo tranq&uuml;ilo e semblante sereno<br \/>\n    responde: &ldquo;Vive o Deus que criou c&eacute;us, terras e mares ante o<br \/>\n    qual tremem as ab&oacute;badas do firmamento e as colossais muralhas do imenso<br \/>\n    universo.<\/p>\n<p> Sua destra trar-nos-h&aacute; aux&iacute;lio a seu tempo e livrar&aacute;<br \/>\n    os crist&atilde;os de tantas desgra&ccedil;as.<\/p>\n<p> &rdquo; Assim disse e destemido p&otilde;e-se a realizar seus projetos.<\/p>\n<p> V&oacute;s, irm&atilde;os nossos, habitantes das et&eacute;reas moradas,<br \/>\n    que pisais docemente o pavimento estrelado, e dessas alturas vos interessais<br \/>\n    pelos nossos destinos, a fim de ocuparmos um dia um trono convosco: dizei-me,<br \/>\n    eu vos conjuro, as alegrias que desfrutastes por todo o c&eacute;u! as sinfonias<br \/>\n    de j&uacute;bilos que decantastes! as alegres melodias que desentranharam<br \/>\n    os &oacute;rg&atilde;os celestes! as notas que desferiram trombetas e clarins<br \/>\n    de vit&oacute;ria! os sons maviosos que jorrou a flauta sonora! que harmonia<br \/>\n    nas cordas da c&iacute;tara! que hinos contentes cantastes ao Pai celeste!<br \/>\n    com que salmos sentidos exaltastes ao som da harpa as gl&oacute;rias de Cristo:<br \/>\n    quando o &iacute;ndio come&ccedil;ou a trocar sua ferocidade por modos mais<br \/>\n    humanos e a conhecer o nome do Eterno! V&oacute;s, que por um pecador que<br \/>\n    lava seus crimes nas l&aacute;grimas do arrependimento, dais as maiores manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de alegria por todo o templo celeste, como deveis exaltar com nova harmonia<br \/>\n    este triunfo de Deus! Come&ccedil;a a b&aacute;rbara terra a sacudir dos ombros<br \/>\n    o tir&acirc;nico jugo do inferno.<\/p>\n<p> Arrancada &agrave;s trevas do escuro e l&uacute;gubre abismo, vai receber<br \/>\n    a luz divina do Sol sem ocaso, aprender as leis santas do Senhor Jesus Cristo,<br \/>\n    abra&ccedil;ar-lhe a f&eacute; e salutares doutrinas.<\/p>\n<p> Foi por vosso minist&eacute;rio que t&atilde;o grandes milagres se realizaram.<\/p>\n<p> V&oacute;s, mais velozes que os ventos, a nossas plagas trazeis em revoadas<br \/>\n    cont&iacute;nuas as paternas disposi&ccedil;&otilde;es da Provid&ecirc;ncia<br \/>\n    divina.<\/p>\n<p> Dizei v&oacute;s as leis e a ordem que o ilustre e piedoso governador implantou<br \/>\n    entre povos t&atilde;o feros, para afinal ser honrado nestas paragens incultas<br \/>\n    o nome vitorioso, forte e imortal de Jesus! De in&iacute;cio para poder jungir<br \/>\n    esses rudes selvagens ao jugo da lei e mold&aacute;-los pela doutrina de Cristo,<br \/>\n    ordena que deixados rec&ocirc;ncavos, campos, florestas, acorram de todas<br \/>\n    as partes a um mesmo local e a&iacute; construam novas casas, ergam novas<br \/>\n    aldeias e comecem a deixar os antigos costumes de feras; n&atilde;o vagueiem<br \/>\n    daqui e dali, como tigres, pelos cerrados, sem moradia certa, sempre duma<br \/>\n    terra p&rsquo;ra outra, sem nunca fixar-se em aldeias est&aacute;veis.<\/p>\n<p> Era de ver como logo deixaram as enfuma&ccedil;adas malocas, suas cabanas<br \/>\n    cobertas de palha e suas ro&ccedil;as agrestes.<\/p>\n<p> Acorriam de todas as partes, movido da fama e do muito medo que do governador<br \/>\n    se espalhara; todos se submetiam a si, suas esposas e filhos sem ousar opor-se<br \/>\n    ou confiar em seus bra&ccedil;os e armas.<\/p>\n<p> Decidido assim a impor nova ordem, novos costumes, o magn&acirc;nimo chefe<br \/>\n    manda construir quatro aldeias de amplo circuito, nas quais se reunam todos<br \/>\n    os &iacute;ndios das tabas em derredor e onde aprendam aos poucos, de cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; manso, as leis santas de Cristo.<\/p>\n<p> E porque o ano em quatro esta&ccedil;&otilde;es se divide, que o &aacute;ureo<br \/>\n    sol percorre com sua luz fulgurante, fecundando-o com seus raios para que<br \/>\n    f&eacute;rteis ressurjam as searas e reverde&ccedil;am as veigas contentes<br \/>\n    e fartas, e a um tempo os frutos desejados madurem: assim Jesus, filho unig&ecirc;nito<br \/>\n    de Deus, com o lume de sua divindade, aclare estes brasis, repartidos em quatro<br \/>\n    aldeias.<\/p>\n<p> Ro&ccedil;ados os tojais, revolvidos os campos ao labutar auspicioso do<br \/>\n    arado, fecunde ele esta gleba e enfim a espl&ecirc;ndida messe pague aos lavradores<br \/>\n    os gemidos e as l&aacute;grimas que com as sementes lan&ccedil;ara, por anos<br \/>\n    a fio e com o cora&ccedil;&atilde;o aos pulos, encham os celeiros vazios.<\/p>\n<p> Brotam as novas moradias; o &iacute;ndio, n&ocirc;made h&aacute; pouco,<br \/>\n    ergue seu teto que o abrigar&aacute; muitos anos, e canta, em igrejas novas,<br \/>\n    o nome de Jesus, reverente.<\/p>\n<p> O pio governador imp&otilde;e santas leis aos selvagens, e, desterrando<br \/>\n    costumes e ritos dos antepassados, v&iacute;nculos que os ligavam ao tirano<br \/>\n    do inferno e lhes enlodavam as almas de culpas horrendas, substitui-lhes preceitos<br \/>\n    divinos que cortem abusos, lavem os cora&ccedil;&otilde;es afeiados e os rendam<br \/>\n    ao jugo de Cristo que, com um &uacute;nico aceno, rege o universo Reconhe&ccedil;am<br \/>\n    primeiramente o Deus do c&eacute;u e da terra, a quem os esquadr&otilde;es<br \/>\n    dos anjos e os astros celestes, os abismos do inferno e a mole terrestre obedecem:<br \/>\n    que o reconhe&ccedil;am e lhe cumpram as ordens divinas.<\/p>\n<p> Cessem j&aacute; as cruas guerras e as sangrentas matan&ccedil;as, o b&aacute;rbaro<br \/>\n    costume de espeda&ccedil;ar o inimigo, dessedentar com seu sangue as fauces<br \/>\n    sequiosas, e devorar carne humana: &eacute; s&oacute; com a morte que se pagar&aacute;<br \/>\n    tal crime, sangue por sangue.<\/p>\n<p> D&aacute; for&ccedil;a de lei civil a tudo quanto nos manda o Criador e<br \/>\n    aos renitentes com indigna&ccedil;&atilde;o amea&ccedil;a.<\/p>\n<p> O terror se apossa de todos, curvam-se as frontes, por tanto tempo rebeldes,<br \/>\n    ao jugo de Cristo.<\/p>\n<p> Parecia que o pr&oacute;prio Deus l&aacute; das alturas celestes, falando<br \/>\n    ao Chefe, repetia essas mesmas palavras que a ti, &oacute; Patriarca cultivador<br \/>\n    da parreira, dirigira outrora, quando, refluindo da terra, as ondas do mar<br \/>\n    tornaram ao seio do abismo, e o solo do colono reapareceu &agrave; vazante<br \/>\n    das &aacute;guas: &ldquo;Sujeitas as plagas bras&iacute;licas! que o terror<br \/>\n    e o tremor que inspiras, invada os povos cru&eacute;is, que rompendo alian&ccedil;as<br \/>\n    contra a lei natural, matam e espeda&ccedil;am os homens, &agrave; maneira<br \/>\n    de feras.<\/p>\n<p> &rdquo; Tamb&eacute;m a seus ouvidos soava a voz de Cristo: &ldquo;For&ccedil;a-os<br \/>\n    a entrar em meu santu&aacute;rio! que de povos diversos a minha casa transborde!&rdquo;<br \/>\n    Assim se expulsou a paix&atilde;o de comer carne humana, a sede de sangue<br \/>\n    abandonou as fauces sedentas; e a raiz primeira e causa de todos os males,<br \/>\n    a obsess&atilde;o de matar inimigos e tomar-lhes os nomes, para gl&oacute;ria<br \/>\n    e triunfo do vencedor, foi desterrada.<\/p>\n<p> Aprendem agora a ser mansos e da mancha do crime afastam as m&atilde;os<br \/>\n    os que h&aacute; pouco no sangue inimigo tripudiavam, esmagando nos dentes<br \/>\n    membros humanos.<\/p>\n<p> H&aacute; pouco a febre do impuro lhes devora as entranhas: imersos no loda&ccedil;al,<br \/>\n    a&iacute; rebolavam o f&eacute;tido corpo, preso &agrave; torpeza de muitas,<br \/>\n    &agrave; maneira dos porcos.<\/p>\n<p> Agora escolhem uma, companheira fiel e eterna, vinculada pelo la&ccedil;o<br \/>\n    do matrim&ocirc;nio sagrado que lhe guarda sem mancha o pudor prometido.<\/p>\n<p> Para que lembrar os cantos que outrora entoavam em suas bebedeiras? os gritos<br \/>\n    com que atroavam os ares medonhamente? as cores com que pintavam os membros?<br \/>\n    as penas variegadas com que enfeitavam os corpos? A beber, vira-os a aurora<br \/>\n    do seu r&oacute;seo carro, e a tarde ao cerrar o dia nos umbrais do horizonte!<br \/>\n    e a noite negra ao rolar dos altos cumes celestes e a nova amanh&atilde; ao<br \/>\n    despertar sob a for&ccedil;a dos raios: j&aacute; o belo sol, nascido neste<br \/>\n    segundo dia, engolfara nas ondas azuis seus corc&eacute;is, e eles ainda a<br \/>\n    atufar de vinho os abismos do ventre.<\/p>\n<p> Que espet&aacute;culo de sujid&otilde;es, que vis&atilde;o de torpezas!<br \/>\n    Que obsceno os gestos dos homens, que impudicos meneios os das mulheres que<br \/>\n    oferecem as lascivas bebidas! Fartam de vinho o ventre e, cheio, tudo vomitam,<br \/>\n    e bebem de novo e cheios aos v&ocirc;mito tornam.<\/p>\n<p> .<\/p>\n<p> Um vomita, outro apanha na cuia o v&ocirc;mito e o bebe.<\/p>\n<p> Espet&aacute;culo horr&iacute;vel! a&iacute; se cantavam os feitos antigos<br \/>\n    e as maldades criminosas dos seus antepassados, e feroz se erguia o ardor<br \/>\n    da guerra e do sangue, e fervia a paix&atilde;o de despeda&ccedil;ar corpos<br \/>\n    humanos, e lan&ccedil;ar em vasos novos os membros feitos em postas, p&ocirc;-los<br \/>\n    a assar ao braseiro e espetar em cani&ccedil;os os peda&ccedil;os cortados<br \/>\n    em pequeninos.<\/p>\n<p> O desejo malvado de todos os crimes, sopitado e pouco a pouco envelhado,<br \/>\n    despertava e rejuvenescia ao ardor desses vinhos.<\/p>\n<p> Agora, tudo &eacute; sil&ecirc;ncio! nenhum rumor se levanta das casas em<br \/>\n    confus&atilde;o; cessou a loucura, e o descanso tudo cobre delicioso.<\/p>\n<p> Tal qual sob o c&eacute;u agitado por tenebrosos trov&otilde;es e varrido<br \/>\n    de ventos furiosos, Incha o mar, erguem-se as ondas, e os rolos das vagas<br \/>\n    atirando-se contra os rochedos rouquejam de espuma; e, quando os ventos pousam,<br \/>\n    calam-se e na lisura dos mares ao sopro do z&eacute;firo, as ondas de repente<br \/>\n    se amansam.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o ousas agora servir-te de teus artif&iacute;cios, perverso<br \/>\n    feiticeiro, entre povos que seguem a doutrina de Cristo: j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    podes com m&atilde;os mentirosas esfregar membros doentes , nem, com l&aacute;bios<br \/>\n    imundos chupar as partes do corpo que os frios terr&iacute;veis enregelaram,<br \/>\n    nem as v&iacute;sceras que ardem de febre, nem as lentas podagras nem os bra&ccedil;os<br \/>\n    inchados.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o enganar&aacute;s com tuas artes os pobres enfermos<br \/>\n    , que muito creram, coitados! nas mentiras do inferno.<\/p>\n<p> N&atilde;o mais mostrar&aacute;s ao doente palhas e fios compridos astuciosamente<br \/>\n    enrolados, nem tua boca enganosa lhe dir&aacute;: &ldquo;v&ecirc;s que doen&ccedil;a<br \/>\n    te tirei com meus l&aacute;bios do corpo enfraquecido? confia! gozar&aacute;s<br \/>\n    j&aacute; em breve da desejada sa&uacute;de que te deu minha destra&rdquo;.<\/p>\n<p> Jaz por terra o velho engano; guarda ao rebanho agora a matilha de Deus,<br \/>\n    cujos latidos afastam lobos raivosos e trai&ccedil;oeiros .<\/p>\n<p> Se te prender algum dia a m&atilde;o dos guardas, gemer&aacute;s em vingadora<br \/>\n    fogueira ou pagar&aacute;s em sujo c&aacute;rcere o merecido castigo.<\/p>\n<p> Quem cantar&aacute; a gl&oacute;ria que agora se d&aacute; ao seu nome,<br \/>\n    &oacute; Cristo? Que desbarato sofreram as negras fileiras do inferno! Que<br \/>\n    uivos horrendos ecoaram nos antros da habita&ccedil;&atilde;o sombria.<\/p>\n<p> Em estertores insanos tremeram o caos da morte e o Flegetonte que arrota<br \/>\n    chamas devoradoras, e as &aacute;guas estagnadas da Estige, as ondas do Aqueronte<br \/>\n    e C&eacute;rbero enorme que aterra, com o latir das tr&ecirc;s fauces, os<br \/>\n    reinos da treva.<\/p>\n<p> Choraram nas sombras eternas os monstros informes e o bando das f&uacute;rias:<br \/>\n    todo o antro de Satan&aacute;s aterrado reboou pelas escuras cavernas em mugidos<br \/>\n    horrendos.<\/p>\n<p> Gemeu o monstro infeliz, chorou a fera cruel, L&uacute;cifer, de lhe terem<br \/>\n    arrancado dos dentes a presa.<\/p>\n<p> Foge de tua face, &oacute; Cristo Rei, a escamosa serpente e sepulta-se<br \/>\n    na treva justiceira da eterna geena.<\/p>\n<p> Mal come&ccedil;aram a brilhar as vitoriosas bandeiras do teu triunfo, as<br \/>\n    vitoriosas bandeiras da cruz, por entre os povos bras&iacute;licos que outrora<br \/>\n    envolvera em espirais mort&iacute;feras e envenenara diabolicamente e arrastava<br \/>\n    &agrave; for&ccedil;a ao profundo do inferno: estarreceu de horror o desgra&ccedil;ado<br \/>\n    e uivando atirou-se no abismo, e deixou-te, os reinos que a ti pertenciam<br \/>\n    e que ele h&aacute; tanto usurpara.<\/p>\n<p> Teus s&atilde;o os bras&iacute;licos reinos , onipotente Jesus, que com<br \/>\n    o pr&oacute;prio sangue os compraste e com morte horrenda e sofrimento indiz&iacute;vel<br \/>\n    os arrancaste das garras do malvado tirano.<\/p>\n<p> Canta-te por isso a gente inculta merecidos louvores, conhece teu nome,<br \/>\n    ante o qual estremece a beleza dos anjos, os antros do inferno e a imensidade<br \/>\n    da terra: s&oacute; dele depende a felicidade dos m&iacute;seros homens.<\/p>\n<p> Mas, porque narrar por mi&uacute;do quanto, inspirado por Cristo, realizou<br \/>\n    o piedoso chefe? Proclama-nos os fatos.<\/p>\n<p> Erguem-se templos; n&atilde;o se firmam em marm&oacute;reas colunas nem<br \/>\n    se talham de blocos brilhantes de Paros ou n&iacute;tido jaspe n&atilde;o<br \/>\n    brilham de pratas novas, e lustrosos marfins, nem de &aacute;ureas palhetas,<br \/>\n    ou alfaias preciosas do Ganges: firmam-se na f&eacute; de Cristo e adornam-se<br \/>\n    dos santos preceitos do Onipotente; &eacute; a&iacute; que a chama celeste<br \/>\n    incendeia de amor divino os simples cora&ccedil;&otilde;es dos Brasis, e lhes<br \/>\n    cobre as pobres almas de verdadeiras riquezas.<\/p>\n<p> O chefe piedoso os ergueu e quis dedic&aacute;-los a celestes patronos:<br \/>\n    a Paulo foi consagrado o primeiro, &agrave;quele que ensinou aos gentios a<br \/>\n    doutrina de Cristo, e pelo nome do Senhor Jesus sofreu dissabores, muitos<br \/>\n    e enormes enganos e grandes trabalhos, duros naufr&aacute;gios no mar e mil<br \/>\n    perigos na terra, e dando a cabe&ccedil;a ao ferro alcan&ccedil;ou brilhante<br \/>\n    triunfo.<\/p>\n<p> Foi a segunda igreja dedicada ao ap&oacute;stolo Tiago, primeiro dos doze<br \/>\n    a oferecer o pesco&ccedil;o &agrave; espada, e derramar seu precioso sangue<br \/>\n    em morte afrontosa, enquanto exalta com voz corajosa o nome do Mestre.<\/p>\n<p> Coube a terceira a Jo&atilde;o, o amigo predileto de Cristo: distinguiu-o<br \/>\n    entre os demais a f&uacute;lgida gl&oacute;ria de sua n&iacute;vea candura.<\/p>\n<p> T&atilde;o forte amor lhe abrasava o peito fiel, que entre espadas furiosas<br \/>\n    teve a coragem de seguir o Mestre at&eacute; os tormentos terr&iacute;veis<br \/>\n    da cruz.<\/p>\n<p> A&iacute; mereceu receber a maior honra da terra, ouvir do Senhor moribundo<br \/>\n    as derradeiras palavras: &ldquo;Eis aquela que em seu seio de imaculada pureza<br \/>\n    me concebeu e a seus n&iacute;veos peitos me nutriu pequenino! ser&aacute;<br \/>\n    ela a tua m&atilde;e e ser&aacute;s tu seu filho!&rdquo; As &uacute;ltimas<br \/>\n    torres erguidas, foram a ti consagradas.<\/p>\n<p> &oacute; Divino Espirito Santo: &eacute; teu sopro que enche os espa&ccedil;os<br \/>\n    celestes, as vastid&otilde;es do mar e da terra.<\/p>\n<p> Tu inspiras alma aos viventes, purificas o imundo, iluminas as trevas e<br \/>\n    de luz inundas as mentes e vais morar no &iacute;ntimo sacr&aacute;rio do<br \/>\n    peito.<\/p>\n<p> Tu, quando Deus levantava as muralhas do mundo as do c&eacute;u e da terra,<br \/>\n    e os mares azuis, s&oacute; com seu Verbo, pairavas sobre as &aacute;guas<br \/>\n    e abrindo as asas divinas acalentava o abismo.<\/p>\n<p> Tu, com teu sopro suave, fecundas os rios, as torrentes e as fontes perenes,<br \/>\n    para dar vida &agrave;s almas, e com teu fogo divino lhes abrasa o seio: a<br \/>\n    Ti, ao Padre e ao Filho, uma s&oacute; e mesma divindade, um s&oacute; poder<br \/>\n    e grandeza, pelos s&eacute;culos sem fim gl&oacute;ria igual seja dada! Ressoam<br \/>\n    sem cessar nesses templos os mist&eacute;rios sagrados: a&iacute; aprendem<br \/>\n    os Brasis os h&aacute;bitos santos de Cristo.<\/p>\n<p> L&aacute; os ajuntou de toda a parte a m&atilde;o firme do chefe.<\/p>\n<p> Agora se podem admirar as multid&otilde;es numerosas, que acorrem aos templos<br \/>\n    de Deus, quando a face de aurora se envolve pouco a pouco em seu v&eacute;u<br \/>\n    cor de rosa, e quando o sol se precipita no abismo dos mares.<\/p>\n<p> Cada qual exalta a seu Pai com os termos que sabe: aqui brada a f&eacute;<br \/>\n    sincera, aqui a mulher mais o homem aprendem o amor de Deus, guardam seus<br \/>\n    mandamento e bebem sequiosos a linfa da doutrina celeste.<\/p>\n<p> Aqui os meninos inocentes que n&atilde;o mancharam a vida de crime algum,<br \/>\n    aqui as virgens de intata pureza aprendem a cantar em coro alternado hinos<br \/>\n    sagrados e a modular teu nome, &oacute; am&aacute;vel Jesus! Que alvoro&ccedil;o<br \/>\n    alegre vai entre os habitantes celestes, entre os coros ang&eacute;licos!<br \/>\n    e, que do&ccedil;ura de cantos! Como se lan&ccedil;am &agrave; terra, &agrave;<br \/>\n    maneira de f&uacute;lgido raio, modulando teu nome, &oacute; am&aacute;vel<br \/>\n    Jesus! Que alegrias imensas invadem o cora&ccedil;&atilde;o delicado da Virgem<br \/>\n    M&atilde;e, que pode encerrar em seu seio ao Onipotente que o pal&aacute;cio<br \/>\n    do c&eacute;u e a grandeza do mundo n&atilde;o podem abarcar! Quanto a boa<br \/>\n    m&atilde;e rejubila ao ouvir nas plagas bras&iacute;licas o nome de Cristo,<br \/>\n    o nome santo de seu Filho e Senhor exaltado! Nesses templos imensa multid&atilde;o<br \/>\n    de inocentes, manchados n&atilde;o por crimes pr&oacute;prios, mas s&oacute;<br \/>\n    pela culpa do primeiro Pai e por isso sujeitos ao imp&eacute;rio da morte,<br \/>\n    se orvalham e renascem nas linfas sagradas, e, livres j&aacute; da mancha,<br \/>\n    no limiar primeiro da vida, arrebatados em massa, voam para os templos eternos,<br \/>\n    para gozar perenemente da face de quem os criara.<\/p>\n<p> A&iacute; tamb&eacute;m, os que, sob o peso das pr&oacute;prias maldades<br \/>\n    se vergaram ao jugo sat&acirc;nico, &agrave; for&ccedil;a de prantos e dores,<br \/>\n    lavam as manchas contra&iacute;das e, confessando seus crimes, esperam do<br \/>\n    Senhor o perd&atilde;o dos seus erros.<\/p>\n<p> A&iacute;, os raios ardentes do sol a estiolar sem piedade, as chuvas, as<br \/>\n    sedes, as fomes a atormentar de cont&iacute;nuo esses her&oacute;is, irm&atilde;os<br \/>\n    unidos num s&oacute; cora&ccedil;&atilde;o, ufanos do nome de &ldquo;companheiros<br \/>\n    de Cristo Jesus&rdquo;.<\/p>\n<p> Dobra-os o trabalho ass&iacute;duo e o cuidado incessante de arrancar os<br \/>\n    Brasis &agrave;s trevosas fauces do abismo, de conduzi-los para a luz serena<br \/>\n    dos c&eacute;us, a curar-lhes almas e corpos, dias e noites a fio.<\/p>\n<p> O nome, que a regi&atilde;o et&eacute;rea de joelhos adora, que a caterva<br \/>\n    infernal reverencia prostrada, que a terra inteira, curvada ao ch&atilde;o,<br \/>\n    humilde venera, o nome augusto de Cristo, foram eles quem por primeiros em<br \/>\n    altos brados o proclamaram em plagas bras&iacute;licas.<\/p>\n<p> Eles lan&ccedil;aram as sementes do Verbo divino em campos bravios, e arado<br \/>\n    em m&atilde;o revolveram, longos anos, uma terra dolorosamente infecunda.<\/p>\n<p> Foram os primeiros a cantar o sublime triunfo da cruz, o mart&iacute;rio<br \/>\n    do Cordeiro inocente e sua morte nefanda, a vit&oacute;ria de Cristo morto<br \/>\n    sobre o tirano do inferno, o sangue de Deus, verdadeiro manancial salvador.<\/p>\n<p> S&oacute; agora, &oacute; Cristo amoroso, depois que os Brasis dobraram<br \/>\n    a cerviz altiva ao teu jugo e abra&ccedil;aram a f&eacute; verdadeira, depois<br \/>\n    de tantos suores, come&ccedil;am de ser consolados.<\/p>\n<p> Alegrias novas despontam Come&ccedil;a a soprar do c&eacute;u um prazer<br \/>\n    todo novo que afaga qual brisa suave os membros cansados, e penetra docemente<br \/>\n    as almas e aos cora&ccedil;&otilde;es doloridos soergue: ent&atilde;o o descanso<br \/>\n    alastra pela quadra tranq&uuml;ila, e refaz aos lavradores peitos e bra&ccedil;os<br \/>\n    ca&iacute;dos da faina incessante, e &agrave; mente infunde nova alegria,<br \/>\n    esperan&ccedil;as novas, n&atilde;o a prostre vencida o trabalho.<\/p>\n<p> J&aacute; agora os campos do Brasil se cobrem de flores formosas, nem mais<br \/>\n    se confiam a areal as sementes, mas a terra vencida pelo trabalho do arado,<br \/>\n    regada por chuvas generosas, aquecida por raios do Sol divino, em profus&atilde;o<br \/>\n    d&aacute;-lhes seus frutos.<\/p>\n<p> Fugiu o &aacute;spero inverno, fugiram as frias geadas aos ardores do sol,<br \/>\n    e os peitos de pedra em seu gelo j&aacute; se n&atilde;o obstinam: almas de<br \/>\n    feias culpas manchadas limpam-se e inflama-se.<\/p>\n<p> Friezas de outrora s&atilde;o chamas de amor de Deus.<\/p>\n<p> Tal qual o inverno se afasta embu&ccedil;ado em seu manto de brumas, quando<br \/>\n    come&ccedil;a na terra a soprar com seu murm&uacute;rio amigo a brisa mimosa,<br \/>\n    e o sol com seu brando calor a superf&iacute;cie lhe afaga: ent&atilde;o,<br \/>\n    madre fecunda, ela se abre em tesouros e os campos, seu rega&ccedil;o verde,<br \/>\n    s&atilde;o todos renova&ccedil;&atilde;o, e beleza, e a alegria do rosto se<br \/>\n    expande em prados ridentes.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o riem as searas, engalana-se a quadra formosa, flores voltam<br \/>\n    a pintar os ramos em que as florestas se abra&ccedil;am copas s&atilde;o tetos<br \/>\n    de verdura, a ave desafoga em trinados a garrulice.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o a vide, farta de seiva, rebenta em tenros frutos e frondes,<br \/>\n    contente, e estende rasteiros os bra&ccedil;os, e por toda a parte a cabeleira<br \/>\n    dos ramos.<\/p>\n<p> F&eacute;rtil de tufos novos; ent&atilde;o com seus an&eacute;is a gavinha<br \/>\n    sai da cepa materna; folhas seivosas se espalma e em breve o p&acirc;mpano<br \/>\n    est&aacute; vergando ao peso dos cachos.<\/p>\n<p> J&aacute; a noite negra foge, fecha-se a porta ao inferno trevoso, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o vomita suas labaredas a horrenda fornalha.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe do mundo, escorra&ccedil;ado do austral hemisf&eacute;rio,<br \/>\n    atroa as cavernas escuras com mugidos de raiva.<\/p>\n<p> S&oacute; a Cristo Jesus, eterna vida, se cantam louvores: as bandeiras<br \/>\n    fulgurantes do augusto Rei se desfraldam e a obra da cruz rebrilha imortal.<\/p>\n<p> Rei &eacute; Cristo e seu imp&eacute;rio se estende na terra, nas ondas<br \/>\n    do espa&ccedil;o, e de direito inalien&aacute;vel reclama para si as plagas<br \/>\n    bras&iacute;licas.<\/p>\n<p> Que teu nome e teu pre&ccedil;o e tua gl&oacute;ria inef&aacute;vel se espalhe<br \/>\n    pelo mundo inteiro, &oacute; Cristo, honra dos c&eacute;us, e a plaga austral<br \/>\n    ecoe eternamente, Jesus, o teu nome! Com que alegria, por tantos bens, o Chefe<br \/>\n    piedoso rende gra&ccedil;as ao Pai Celeste do intimo d&rsquo;alma, como estua<br \/>\n    de amor! como cuida que a f&eacute; e a piedade sinceramente se cultivem!<br \/>\n    Redobra cuidados ingentes, que n&atilde;o lhe concedem sossego aos membros<br \/>\n    cansados.<\/p>\n<p> Se quisesse estreitar em versos tantos feitos ilustres de um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    abrasado no amor ardente de Cristo, seria sobre humana tarefa, e ao profundo<br \/>\n    dos mares o peso imenso arrastaria minha fr&aacute;gil barquinha antes de<br \/>\n    poder lan&ccedil;ar &acirc;ncora em porto seguro.<\/p>\n<p> Faltar-me-iam para logo as parcas harmonias do verso perante a abund&acirc;ncia<br \/>\n    das gl&oacute;rias a ser celebradas.<\/p>\n<p> Mas a paix&atilde;o fremente de cantar o nome divino me arrebata: &eacute;<br \/>\n    doce subir &agrave;s montanhas celestes e beber nas fontes de Deus, e, expulsas<br \/>\n    as trevas da mente e firmado o passo por entre as incertezas da vida, haurir<br \/>\n    das regi&otilde;es et&eacute;reas a luz da beleza.<\/p>\n<p> A recente cidade do Salvador florescia em doce sossego, e a nova assembl&eacute;ia<br \/>\n    dos crist&atilde;os, com pl&aacute;cido aspecto, cantava os louvores de Deus:<br \/>\n    nenhum temor inquietante os oprimia: nem boatos de guerra futura vinham sequer<br \/>\n    turbar a bela paz renascente.<\/p>\n<p> Depois que deixaram a terra os &iacute;mpios bandos do inferno, cessara<br \/>\n    por toda a parte a f&uacute;ria louca da guerra.<\/p>\n<p> Fulgiam dias serenos, e o c&eacute;u com luzes mais vivas acossavam para<br \/>\n    longe as nuvens sombrias das almas.<\/p>\n<p> Jorravam dos l&aacute;bios carmes celestes a Cristo, e os peitos tranq&uuml;ilos<br \/>\n    respiravam as do&ccedil;uras da paz, enquanto de bocas b&aacute;rbaras ressoavam<br \/>\n    louvores divinos.<\/p>\n<p> Eis que de s&uacute;bito triste not&iacute;cia alarma a cidade e crava nos<br \/>\n    cora&ccedil;&otilde;es de todos o punhal do desgosto, e gemem os homens e<br \/>\n    gemem inocentes crian&ccedil;as.<\/p>\n<p> O mar azul, no meio das &aacute;guas distingue uma terra, n&atilde;o longe<br \/>\n    daqui, na dire&ccedil;&atilde;o do sul borrascoso.<\/p>\n<p> Solo f&eacute;rtil, ornado de bela e eterna verdura: promissoras sementes<br \/>\n    lhe enchem os sulcos fecundos, e os campos alegres se esmaltam de canas de<br \/>\n    a&ccedil;&uacute;car.<\/p>\n<p> Habitavam-na tranq&uuml;ilos os Lusos, muitos anos havia, e nunca o peito<br \/>\n    lhes arfara ao sobressalto da guerra, mas comerciando com as vizinhas gentes<br \/>\n    selvagens, desfrutavam o dom da tranq&uuml;ilidade amorosa.<\/p>\n<p>Mas agora os &iacute;ndios tudo abateram em s&uacute;bito ataque, rompendo<br \/>\n    as doces cadeias da antiga amizade.<\/p>\n<p> Come&ccedil;aram a encher-se de altivez e fereza, a arrasar os campos ricos<br \/>\n    e pingues searas, a incendiar com fachos cru&eacute;is as casas vizinhas,<br \/>\n    a trespassar os pr&oacute;prios homens com setas farpadas e, inesperadamente,<br \/>\n    a prostr&aacute;-los mortos por terra.<\/p>\n<p> &Eacute; assim que o borrascoso sul de repente se arroja &agrave;s naus<br \/>\n    que sulcam tranq&uuml;ilas a vastid&atilde;o do oceano, e os altos c&eacute;us<br \/>\n    ribombam e em incessantes coriscos se iluminam, enquanto o vento sopra em<br \/>\n    turbilh&atilde;o furioso e as ondas se incham e engolem os navios incautos.<\/p>\n<p> Os &iacute;ndios os cercam e tentam rend&ecirc;-los &agrave; m&iacute;ngua,<br \/>\n    homens e mulheres, meninos e tenras donzelas.<\/p>\n<p> Come&ccedil;a a atorment&aacute;-los a fome: e o feroz inimigo junto aos<br \/>\n    muros os amea&ccedil;a altivo, destr&oacute;i &agrave;s flechadas cria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e rebanhos.<\/p>\n<p> Invade os sitiados terror doloroso.<\/p>\n<p> Quando o ilustre Chefe ouviu a triste not&iacute;cia, gemeu e do fundo da<br \/>\n    alma soltou este suspiro: &ldquo;Ter&atilde;o a sua paga!&rdquo; Chama os<br \/>\n    principais da cidade.<\/p>\n<p> Acorreram todos e ansiosos esperavam atentos a resolu&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    Chefe.<\/p>\n<p> Come&ccedil;a ent&atilde;o por estas palavras: &ldquo;Um crime horr&iacute;vel<br \/>\n    perpetrou o feroz inimigo: incendiou campos e casas aos crist&atilde;os e<br \/>\n    a&ccedil;ulado de furor selvagem deu morte cruel a inocentes.<\/p>\n<p> Como creio, cidad&atilde;os, chegou at&eacute; v&oacute;s esta fama.<\/p>\n<p> Cercados na vila, sob o fraco amparo dos muros, sofrem os nossos o furor<br \/>\n    e as iras sem freio dos selvagens: e trazem as vidas pendentes de um fio.<\/p>\n<p> Nestas afli&ccedil;&otilde;es, &eacute; for&ccedil;oso levar-lhes socorros,<br \/>\n    e a causa pede que eu pr&oacute;prio v&aacute; auxili&aacute;-los&rdquo;.<\/p>\n<p> Eles objetaram: &ldquo; N&atilde;o &eacute; seguro deixar nossos lares,<br \/>\n    ilustre chefe, e abandonar os &iacute;ndios h&aacute; pouco sujeitos: se daqui<br \/>\n    te afastares, todos eles de um salto criar&atilde;o novos brios e, fora de<br \/>\n    si pelo exemplo do fato recente, atacar&atilde;o a cidade e os templos com<br \/>\n    f&uacute;ria desumana, derrocando-os a ferro e a fogo&rdquo;.<\/p>\n<p> Isto diziam.<\/p>\n<p> Mas o her&oacute;i nutria uma grande esperan&ccedil;a no &iacute;ntimo d&rsquo;alma:<br \/>\n    postos os olhos nas alturas celestes, donde sabia vir-lhe o aux&iacute;lio,<br \/>\n    roga socorro ao Criador e Senhor dos C&eacute;us, da terra e dos mares, pedindo<br \/>\n    reverente que os passos lhe firme.<\/p>\n<p> Assim estribado na for&ccedil;a do bra&ccedil;o divino, prepara-se a arrancar<br \/>\n    os sitiados da ang&uacute;stia suprema.<\/p>\n<p> Sem paci&ecirc;ncia para demoras, manda tocas as trombetas chamando &agrave;<br \/>\n    guerra: latejam brios nos peitos dos mo&ccedil;os e na rude m&atilde;o do<br \/>\n    soldado brilham as armas terr&iacute;veis.<\/p>\n<p> O &iacute;ndio mo&ccedil;o sobra&ccedil;a o arco em forma de lua, pronto<br \/>\n    a seguir o Chefe, com ardor, para a guerra.<\/p>\n<p> Assim alegres todos subiram &agrave;s naus equipadas a arrostar as f&uacute;rias<br \/>\n    do mar.<\/p>\n<p> Foi em Junho, tempo em que o Sul com chuvas e f&uacute;rias horrendas domina<br \/>\n    a vastid&atilde;o do oceano, corre espa&ccedil;os que turbilhonam por entre<br \/>\n    os nimbos que os cingem.<\/p>\n<p> Tudo fervia ent&atilde;o sob a carga das &aacute;guias celestes e o Sul<br \/>\n    encapelava a vasta plan&iacute;cie cer&uacute;lea e t&atilde;o alto a erguia<br \/>\n    que aos nautas barrava o caminho.<\/p>\n<p> Mas, apenas embarcaram e se soltaram os cabos e a &acirc;ncora al&ccedil;ada<br \/>\n    desprendeu o dente recurvo, Deus onipotente, que com um aceno dirige as estrelas<br \/>\n    e tira dos seus tesouros os ind&ocirc;mitos ventos, limpou os espa&ccedil;os<br \/>\n    e reprimiu as furiosas lufadas.<\/p>\n<p> Amaina as ondas e afaga o mundo com o sopro do Norte, e ao amplexo dos ventos<br \/>\n    favor&aacute;veis entumecem as velas.<\/p>\n<p> E j&aacute; as naus sulcam as &aacute;guas azuis do oceano que se rasgam<br \/>\n    em salto, e avan&ccedil;a a quilha embreada.<\/p>\n<p> Vencido o primeiro dia segue-se noite tranq&uuml;ila de c&eacute;u sereno,<br \/>\n    todo rutilante de estrelas; esta cedeu lugar a um sol esplendente que veio<br \/>\n    erguer o escuro v&eacute;u da noite ao mundo desperto.<\/p>\n<p> Mal atingira os cumes do firmamento sereno quando a armada ferrou o litoral<br \/>\n    desejado e os nautas calcaram jubilosos a praia querida.<\/p>\n<p> Apenas pisou em terra, dignas gra&ccedil;as o Chefe rendeu a Deus: imitaram-no<br \/>\n    os fi&eacute;is companheiros.<\/p>\n<p> Guias &agrave; frente, decidido sai &agrave; procura do inimigo atroz que<br \/>\n    se acolhera a fundas florestas.<\/p>\n<p> Ia todo o ex&eacute;rcito pisando as calcinadas areias dos curvos litorais<br \/>\n    at&eacute; chegarem &agrave;s altas montanhas que separam da praia as habita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos selvagens.<\/p>\n<p> Lan&ccedil;am-se &agrave; escalada, e a p&eacute; atingem o cume do monte<br \/>\n    e no negror da noite, penetram nas escuras florestas, por trilhos estreitos<br \/>\n    por onde os conduz o caminho.<\/p>\n<p> J&aacute; densa treva envolvera a imensidade da terra e os carros da noite<br \/>\n    rolavam no mais alto dos c&eacute;us, quando chegaram a um posto, no meio<br \/>\n    do bosque, coberto de impressionante negror.<\/p>\n<p> &Aacute;guas o cercam, recolhidas de todas as partes, que tudo cobrem de<br \/>\n    lodo e fazem desse loda&ccedil;al um p&acirc;ntano imenso.<\/p>\n<p> H&aacute; a&iacute; estreit&iacute;ssima ponte, lan&ccedil;o de longo trajeto:<br \/>\n    astucioso o selvagem fabricou-a de fino madeiro, para tornar suas casas inacess&iacute;veis<br \/>\n    aos inimigos e afastar para longe todo o perigo de ataque: julgava assim inexpugn&aacute;veis<br \/>\n    suas aldeias.<\/p>\n<p> Mas, que h&aacute; inacess&iacute;vel ao Senhor Deus, que outrora partiu<br \/>\n    as &aacute;guas do Mar Vermelho sob os p&eacute;s do seu povo e f&ecirc;-lo<br \/>\n    passar, de plantas enxutas, os fundos do abismo? Tamb&eacute;m agora ele pr&oacute;prio<br \/>\n    guiou os seus como chefe e fez com que sem perigo passassem as pontes estreitas.<\/p>\n<p> Transp&ocirc;s o chefe a vasta lagoa no escuro da noite, firmando o p&eacute;<br \/>\n    nos troncos por tr&ecirc;s milhas ao longo.<\/p>\n<p> J&aacute; se aproximavam dos fumegantes tetos selvagens: o pr&oacute;prio<br \/>\n    chefe exorta seus homens a serem valentes, a despeda&ccedil;ar o inimigo de<br \/>\n    Cristo em renhido combate.<\/p>\n<p> Adiantam-se ligeiros, j&aacute; quase tocam as tabas, da qual em seu posto:<br \/>\n    dirigem preces ardentes a Cristo Jesus, general da mil&iacute;cia celeste.<\/p>\n<p> Arrojam-se ao inimigo desprevenido de tanto perigo e lhe pagam com merecida<br \/>\n    morte a morte de tantos.<\/p>\n<p> Ecoam no sil&ecirc;ncio da noite os gritos de guerra: a este decepa a l&acirc;mina<br \/>\n    a cabe&ccedil;a h&aacute; pouco indom&aacute;vel, &agrave;quele fere nas costas,<br \/>\n    vara ao outro o ventre adiposo.<\/p>\n<p> Uns tombam com o peito crivado de setas farpadas, a muitos a lan&ccedil;a<br \/>\n    trespassa a ilharga e fundo lhes crava o cora&ccedil;&atilde;o: as armas est&atilde;o<br \/>\n    quentes do sangue que bebem.<\/p>\n<p> Os restantes fogem encobertos pelas sombras da noite, e se embrenham nas<br \/>\n    florestas.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o o vencedor exultando entrega as aldeias &agrave; voragem das<br \/>\n    chamas ferozes.<\/p>\n<p> A labareda lambe o c&eacute;u ao sonido das palhas e ilumina as matas envoltas<br \/>\n    nas trevas da noite.<\/p>\n<p> Vencem as chamas e tudo reduzem a um monte de cinzas, enquanto &agrave;s<br \/>\n    nuvens sobem enruivadas centelhas.<\/p>\n<p> Quatro aldeias devorou a vingan&ccedil;a do fogo, at&eacute; que a aurora<br \/>\n    veio desdobrar o v&eacute;u fulgente do dia e a l&acirc;mpada do sol resplendeu<br \/>\n    no horizonte.<\/p>\n<p> J&aacute; o punhado dos bravos se afasta a caminho da praia, contente de<br \/>\n    ter infligido ao selvagem merecido castigo.<\/p>\n<p> As ondas do mar agitado referviam na praia, deixando ao recuo das vagas<br \/>\n    um rolo de espumas.<\/p>\n<p> Eis que &agrave; pressa acode numeroso o feroz inimigo.<\/p>\n<p> Nuvens de setas silva nos ares.<\/p>\n<p> V&ecirc;m eles t&atilde;o furiosos sobre os crist&atilde;os cansados dos<br \/>\n    esfor&ccedil;os da noite, que n&atilde;o percebem as ciladas: pois apenas<br \/>\n    chegado &agrave; praia, nosso her&oacute;i manda alguns esconder-se no recesso<br \/>\n    do bosque e a&iacute; sem rumor ficar &agrave; espreita, enquanto os outros<br \/>\n    prosseguem em passo apressado.<\/p>\n<p> Crendo que os nossos fugiam, o inimigo se lan&ccedil;a em corrida veloz,<br \/>\n    afagando v&atilde; esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Enquanto correm soltando gritos ferozes, cai-lhes pelas costas em rijos<br \/>\n    golpes o tro&ccedil;o escondido, lan&ccedil;ando os corpos &agrave; cova,<br \/>\n    e as almas ao lago do inferno.<\/p>\n<p> Assim a matan&ccedil;a que preparavam voltou-se contra eles.<\/p>\n<p> Como quando o tigre feroz, subjugado atrozmente por fome de v&aacute;rios<br \/>\n    dias, confiado nas sombras da noite, penetra sob escura grade, que grandes<br \/>\n    trocos massudos tornam pesada.<\/p>\n<p> Estarrece do outro lado tremendo o c&atilde;o preso num cercado e amarrado<br \/>\n    pela nega&ccedil;a.<\/p>\n<p> O tigre, picado da fome e da imagem da preia presente, avan&ccedil;a para<br \/>\n    rasgar-lhe as carnes e cevar-se com elas e desalterar-se no jorro do sangue:<br \/>\n    mas ent&atilde;o de repente a malha enorme de troncos desaba-lhe em cima e<br \/>\n    com o peso imenso o imprensa no ch&atilde;o, enraivado.<\/p>\n<p> Assim ca&iacute;ram os inimigos vencidos pela cilada.<\/p>\n<p> Poucos escaparam &agrave; lan&ccedil;a e a r&uacute;tila espada dos crist&atilde;os<br \/>\n    que os cercavam.<\/p>\n<p> Alguns em corrida ligeira atiravam-se &agrave;s ondas e atrav&eacute;s das<br \/>\n    vagas bravias deslizavam velozes e a poder de rudes bra&ccedil;adas venciam<br \/>\n    enormes espa&ccedil;os do mar agitado: era a &uacute;ltima e fugaz esperan&ccedil;a<br \/>\n    dos infelizes.<\/p>\n<p> Mas Deus que criou os c&eacute;us e deu ao hero&iacute;smo do Chefe a vit&oacute;ria<br \/>\n    na terra, deu-lhe tamb&eacute;m no oceano.<\/p>\n<p> Os brasis que seguiam a bandeira de Cristo e as armas do Chefe, atiram-se<br \/>\n    &agrave;s ondas de um salto e sem perda de tempo cortam as vagas como golfinhos,<br \/>\n    quando pelas sendas do mar v&atilde;o no encal&ccedil;o dos peixes.<\/p>\n<p> Clava na m&atilde;o esquerda, com a direita no corte das ondas, com os p&eacute;s<br \/>\n    por remos, sulcam as plan&iacute;cies encapeladas do vasto abismo, e caem<br \/>\n    sobre o inimigo que foge.<\/p>\n<p> Voa das ondas fendidas a espuma, ao sopro do vento, j&aacute; se aferram<br \/>\n    aos malparados fugitivos e travam combates horrendos e entre as ondas bravas<br \/>\n    vibram golpes ferozes.<\/p>\n<p> J&aacute; se erguem nos altos cabelos das ondas do mar indignado, j&aacute;<br \/>\n    desaparecem nos seios profundos da vaga que se abre, redobrando sem cessar<br \/>\n    os seus golpes.<\/p>\n<p> Na praia ao longe os soldados contemplam as lutas e pasmam das rijas batalhas<br \/>\n    que se travam nas &aacute;guas.<\/p>\n<p> Como quando as baleias sobem do fundo do abismo e se acolhem &agrave;s enseadas<br \/>\n    do litoral brasileiro na quadra em que se entregam ao servi&ccedil;o da esp&eacute;cie:<br \/>\n    ent&atilde;o travam combates ferozes ao so&ccedil;obro das ondas e lan&ccedil;am<br \/>\n    at&eacute; as nuvens jatos de &aacute;gua espumante: At&ocirc;nitos na praia<br \/>\n    os homens assistem &agrave; luta gigante dos monstros descomunais entre as<br \/>\n    vagas encapeladas.<\/p>\n<p> Elas desfecham golpes tremendos e horrendas feridas com as caudas e dentes<br \/>\n    agudos, at&eacute; que as ondas vomitem os cad&aacute;veres monstruosos &agrave;s<br \/>\n    areias da praia.<\/p>\n<p> Assim nossos &iacute;ndios, em pleno mar, a bra&ccedil;os com as ondas vibram<br \/>\n    golpes terr&iacute;veis: a uns despeda&ccedil;am, a outros j&aacute; semimortos<br \/>\n    puxam-nos, enla&ccedil;ando-lhes os longos cabelos com a m&atilde;o esquerda,<br \/>\n    enquanto com a direita cortam as vagas e vitoriosos arrastam at&eacute; as<br \/>\n    praias a presa, indo depor aos p&eacute;s do Chefe os corpos de seus inimigos,<br \/>\n    e despeda&ccedil;ando aos semivivos os cr&acirc;nios com os rijos tacapes.<\/p>\n<p> Acautelai-vos todos quantos n&atilde;o experimentaram a for&ccedil;a destes<br \/>\n    brasis e os julgais cobardes de alma e moles de corpo, e desprezais como um<br \/>\n    brinco suas r&uacute;sticas armas.<\/p>\n<p> Vede que aud&aacute;cia furiosa pode caber-lhes no peito, que feixe rijo<br \/>\n    de m&uacute;sculos os bra&ccedil;os e as pernas: qu&atilde;o tem&iacute;veis<br \/>\n    ser&atilde;o os que t&atilde;o velozes cortam as &aacute;guas e t&atilde;o<br \/>\n    valentes se arrojam &agrave;s bra&ccedil;adas com o mar agitado e t&atilde;o<br \/>\n    ferozes desfecham golpes no meio das ondas, como outros em terra firme, quando<br \/>\n    ferem de morte! Logo todos os batalh&otilde;es, prostrados os inimigos, seguem<br \/>\n    pelas praia sinuosos em dire&ccedil;&atilde;o da cidade.<\/p>\n<p> V&ecirc;m-lhes ao encontro em bando alegre as mulheres, as meninas e meninos<br \/>\n    cantando em coros unidos os louvores de Deus onipotente que prostrou o inimigo<br \/>\n    com as pr&oacute;prias for&ccedil;as e aniquilou as hordas selvagens, com<br \/>\n    o poder de seu bra&ccedil;o e livrou de todo o perigo os batalh&otilde;es<br \/>\n    fi&eacute;is, concedendo-lhes volta feliz, e arrancando-os ilesos dentre tantos<br \/>\n    combates.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o rendem todos justas gra&ccedil;as, do &iacute;ntimo d&rsquo;alma,<br \/>\n    a ti, S&aacute; ilustre, escolhido por Deus dentre muitos milhares, para domar<br \/>\n    esta gente rebelde e com justa vingan&ccedil;a esmagar as tropas selvagens<br \/>\n    e afastar a amea&ccedil;a que pesava cruel sobre a cabe&ccedil;a dos sitiados.<\/p>\n<p> J&aacute; as mulheres, atroando os c&eacute;us de alegria, te entoam, &oacute;<br \/>\n    vencedor, c&acirc;nticos de merecidos louvores, como outrora as donzelas de<br \/>\n    Jud&aacute; exaltaram ao grande filho de Jess&eacute;, que com pedra roli&ccedil;a,<br \/>\n    apanhada na torrente e atirada por r&uacute;stica funda, quebrou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    e prostrou ao soberbo Golias, terror dos lares p&aacute;trios, amea&ccedil;a<br \/>\n    do recinto divino.<\/p>\n<p>Todos ent&atilde;o transp&otilde;em os umbrais do templo sagrado que a piedade<br \/>\n    terna dos fi&eacute;is a ti dedicara, &oacute; M&atilde;e do Redentor, Virgem<br \/>\n    Maria, que em tua beleza unes a maternidade divina &agrave; virgindade perfeita,<br \/>\n    Quando h&aacute; pouco o inimigo devastava as risonhas searas e em tropel<br \/>\n    tudo reduzia a escombros e cinzas, entregara tamb&eacute;m este templo a sacr&iacute;legas<br \/>\n    chamas.<\/p>\n<p> Porisso agora entoam a Deus dignos louvores e gl&oacute;rias: ressurge nova<br \/>\n    a alegria, foge p&rsquo;ra longe a tristeza e com ela os gemidos de h&aacute;<br \/>\n    pouco, os prantos e dores, enfim a cidade despe a veste de luto pesado.<\/p>\n<p> Para que relembrar agora o terr&iacute;vel inc&ecirc;ndio com que o nobre<br \/>\n    Chefe abrasou os segundos redutos? Redobrou-lhe os brios a gl&oacute;ria do<br \/>\n    triunfo alcan&ccedil;ado e vibrou de novo a espada da vingan&ccedil;a e a<br \/>\n    acha de bronze.<\/p>\n<p> N&atilde;o cessara, de todo, o mal, ainda a altivez dos selvagens n&atilde;o<br \/>\n    se curvara, ainda a alguns o terror n&atilde;o dobrara as cervizes soberbas.<\/p>\n<p> Eis que de toda a parte acorrem jovens valentes prontos a arrostar a morte<br \/>\n    na luta ou a infligi-la de vez ao Chefe.<\/p>\n<p> Uns aos outros se inflamam para o combate com estas palavras: &ldquo;N&oacute;s,<br \/>\n    n&oacute;s que fazemos, jovens de peitos robustos, que tanto luto nos causam<br \/>\n    uns pouco guerreiros? Ah! porque nos consomem chamas cru&eacute;is os redutos?<br \/>\n    N&oacute;s nos ocultamos, medrosos, nas brechas escuras e nelas buscamos abrigo,<br \/>\n    como t&iacute;midas cor&ccedil;as: eles intr&eacute;pidos em nossas pr&oacute;prias<br \/>\n    casas nos queimam e nos despeda&ccedil;am, quais feros le&otilde;es de fauces<br \/>\n    tremendas, e com nossas esposas nos levam os filhos cativos. <\/p>\n<p>Oh! porque n&atilde;o preferimos morte gloriosa na guerra como fizeram nossos<br \/>\n    pais? Contra o inimigo corramos acossando-o em batalha feroz e com setas ligeiras<br \/>\n    varemos-lhe o peito ou, sen&atilde;o, que o nosso n&atilde;o tema afrontar<br \/>\n    a morte bela e cravar-se na ponta da espada.<\/p>\n<p> Assim n&atilde;o morreremos, pelo menos sem alguma desforra!&rdquo; Inflamados<br \/>\n    com tais ditos os &iacute;ndios se enchem de raiva e de negro furor: dirigem-se<br \/>\n    para a cidade, apostados ou a matar o Chefe ou morrer fatalmente.<\/p>\n<p> &Eacute; a disjuntiva cruel.<\/p>\n<p> J&aacute; a r&aacute;pidos passos o bando se adianta e os corpos nus cobrem<br \/>\n    a praia.<\/p>\n<p> Todos fortemente armados: leva as setas a esquerda e sust&eacute;m os arcos<br \/>\n    recurvos que pendem dos ombros.<\/p>\n<p> A direita empunha o tacape, trabalhado com arte e polido, ornado em derredor<br \/>\n    de penas de aves variadas: com ele os antrop&oacute;fagos rompem a cabe&ccedil;a<br \/>\n    dos cativos.<\/p>\n<p> Todos eles vem pintados de variegada plumagem que em parte se fixa ao penteado<br \/>\n    de longos cabelos; parte, a modo de pulseiras, cinge os membros robustos;<br \/>\n    parte, em forma de coroa, com grande arte disposta, lhes circunda a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Entremeiam-se &agrave;s brancas as penas amarelas, &agrave;s vermelhas as<br \/>\n    verdes e todo o conjunto brilha pela variedade.<\/p>\n<p> Alvos peda&ccedil;os de m&aacute;rmore pendem dos l&aacute;bios furados<br \/>\n    ou verdes pedrinhas de v&iacute;vido brilho.<\/p>\n<p> Como quando, acabadas as chuvas, a quadra formosa adorna de florinhas multicores<br \/>\n    as ervas, e na flora&ccedil;&atilde;o das &aacute;rvores sorriem as verdes<br \/>\n    florestas: Tal o aspecto do bando a serpear pelas curvas da praia.<\/p>\n<p> J&aacute; se achegava a multid&atilde;o bem perto das casas, quando o Chefe,<br \/>\n    a quem jamais cilada nenhuma colheu de improviso, sai ao encontro dos &iacute;ndios<br \/>\n    que avan&ccedil;am em tropel.<\/p>\n<p> Leva adiante a cruz vencedora do supremo Rei.<\/p>\n<p> Logo travam a luta: gritos horrendos enchem a vastid&atilde;o do mar que<br \/>\n    perto reboa.<\/p>\n<p> Primeiro com dardos de arremesso e r&aacute;pidas setas combatem &agrave;<br \/>\n    dist&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Come&ccedil;am a cair trespassados os inimigos, a estorcer-se feridos na<br \/>\n    areia sequiosa e em golfadas de sangue exalar o derradeiro suspiro.<\/p>\n<p> Com a prote&ccedil;&atilde;o de Deus os nossos causam in&uacute;meras chagas<br \/>\n    e nenhuma recebem.<\/p>\n<p> Com furor atacam o inimigo j&aacute; fraco, de perto, e enterram-lhe a lan&ccedil;a<br \/>\n    de l&acirc;mina larga nos corpos e encharcam de sangue as espadas luzentes.<\/p>\n<p> Empapada ficava a praia e cheia de corpos: sobre montes de cad&aacute;veres<br \/>\n    os soldados avan&ccedil;am: Alguns dos vencidos recuam, fogem, em altas montanhas<br \/>\n    se escondem: em matos cerrados j&aacute; n&atilde;o se sentem seguros: vagueiam<br \/>\n    por aqui, por ali &agrave; maneira de ovelhas, que o le&atilde;o carniceiro<br \/>\n    persegue com dentes vorazes e desgarra medrosas por &iacute;nvios desertos,<br \/>\n    ou como laboriosas abelhas que a negra fuma&ccedil;a expulsa da colmeia.<\/p>\n<p> Assim por caminhos estreitos se precipitam e se embrenham pelos matos esconsos.<\/p>\n<p> Sob o rigor do frio, entregue &agrave;s chuvas e fomes, sucumbiu a maior<br \/>\n    parte: a morte lhe domou a altivez! O temor da guerra cruel invade os destro&ccedil;ados:<br \/>\n    come&ccedil;am a abrandar os brios ferozes do cora&ccedil;&atilde;o indom&aacute;vel.<\/p>\n<p> J&aacute; desejam reparar os danos da ruptura das pazes.<\/p>\n<p> V&atilde;o ter com o ilustre Chefe e imploram sua alian&ccedil;a e direitos<br \/>\n    de amigos.<\/p>\n<p> Leis que impuser, sejam quais forem, prontificam-se a cumpri-las.<\/p>\n<p> Pedem paz e perd&atilde;o.<\/p>\n<p> Recebe-os com mansid&atilde;o o Chefe valente.<\/p>\n<p> D&aacute;-lhes a paz e mais as leis.<\/p>\n<p> Em seguida lhes manda que se abstenham de festas sangrentas, onde dantes<br \/>\n    so&iacute;am cevar-se em carne humana, como feras vorazes.<\/p>\n<p> Reunam-se em aldeias, onde possam aprender a lei santa e os mandamentos<br \/>\n    divinos do Pai celestial.<\/p>\n<p> Comecem finalmente a sacudir dos ombros o jugo do tirano cruel e voltar<br \/>\n    &agrave; justi&ccedil;a de Cristo.<\/p>\n<p> Submetem-se alegres &agrave; invenc&iacute;vel bandeira do Rei supremo e<br \/>\n    regozijam-se de seguir no futuro as divinas campanhas de Cristo.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">LIVRO III <\/a><\/h4>\n<p>J&aacute; nossa mente fatigada perfez longas viagens nas eri&ccedil;adas<br \/>\n    planuras do mar, nas densas florestas da terra.<\/p>\n<p> J&aacute; percorreu litorais, dantes jamais palmilhados.<\/p>\n<p> Convidam-me feitos maiores, for&ccedil;am-me a seguir soldados, lan&ccedil;ar-me<br \/>\n    de novo &agrave;s ondas revoltas e desbravar os recessos da floresta sombria.<\/p>\n<p> Guerras de maior vulto me restam por cantar, mais gloriosas empresas do<br \/>\n    magn&acirc;nimo Chefe.<\/p>\n<p> Que ru&iacute;nas e mortes espalhou seu valor triunfante, de quanto sangue<br \/>\n    tingiu as ensombradas florestas sopeando o furor do b&aacute;rbaro, v&oacute;s,<br \/>\n    &oacute; celestes irm&atilde;os inspirai-mo! Alta prog&ecirc;nie, v&oacute;s<br \/>\n    habitais os templos supernos e a bondade do Rei celestial vos deu como guias<br \/>\n    ao grande Chefe, para ajud&aacute;-lo, a seus tempos, nos m&uacute;ltiplos<br \/>\n    trabalhos das expedi&ccedil;&otilde;es e da guerra, e para abalar de pavor<br \/>\n    os cora&ccedil;&otilde;es inimigos.<\/p>\n<p> Os triunfos obtidos do feroz inimigo, agora domado, picaram de j&uacute;bilo<br \/>\n    o peito de todos, num alvoro&ccedil;o de paz suave.<\/p>\n<p> Mas, eis que, acompanhada de justa tristeza, chega de repente not&iacute;cia<br \/>\n    que desterra a alegria 42 da cidade do Salvador.<\/p>\n<p> Enquanto ao longo da praia tr&ecirc;s crist&atilde;os lan&ccedil;avam insidiosas<br \/>\n    redes aos peixes, foram cruelmente presos e arrastados pelo inimigo que os<br \/>\n    trucidou com injusta e b&aacute;rbara morte.<\/p>\n<p> Mal ouviu a not&iacute;cia, o Chefe, ferido no &iacute;ntimo d&rsquo;alma,<br \/>\n    ergueu os olhos ao c&eacute;u.<\/p>\n<p> N&atilde;o se esqueceu que tudo sucede por permiss&atilde;o divina; mas<br \/>\n    disse consigo estas palavras: &ldquo;Creio chegado o grande dia em que a b&aacute;rbara<br \/>\n    tribo receber&aacute; em morte o cruel castigo que pedem tantos crimes cometidos,<br \/>\n    tanto sangue inocente vertido.<\/p>\n<p> &rdquo; Sobem &agrave;s naus sem demora, e entre o clamor dos marujos rangem<br \/>\n    as amarras retesas: para o Sul voltam as popas.<\/p>\n<p> Desliza a quilha alcatroada e singrando o oceano aporta no seguro remanso<br \/>\n    da remansosa ba&iacute;a.<\/p>\n<p> Entra na cidade logo o her&oacute;i com o s&eacute;quito grande.<\/p>\n<p> Recebem-no com longas aclama&ccedil;&otilde;es, m&uacute;sica e dan&ccedil;as,<br \/>\n    como um vencedor em triunfo: mas ele abalado por dor imensa, prepara-se para<br \/>\n    vingar as mortes injustas com a chama e a espada.<\/p>\n<p> O inc&ecirc;ndio do peito indom&aacute;vel n&atilde;o sofre demoras.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o envia ao feroz inimigo embaixadores que exijam se lancem em<br \/>\n    cordas e entreguem a ele os assassinos, que sofrer&atilde;o o merecido castigo<br \/>\n    pelo crime cometido, pagando morte por morte.<\/p>\n<p> Hesitam a princ&iacute;pio os b&aacute;rbaros, tomados de medo.<\/p>\n<p> Ondas de opini&otilde;es os arrastam em v&aacute;rios sentidos: entregar&atilde;o<br \/>\n    aos enviados os criminosos, metidos em apertadas cordas, ou antes os livrar&atilde;o,<br \/>\n    apiedados, das fauces da morte? De um lado o medo do Chefe os aperta do outro<br \/>\n    o amor e cuidado fraterno os co&iacute;be.<\/p>\n<p> Assim &agrave; on&ccedil;a parida acossam com in&uacute;meros dardos os<br \/>\n    ca&ccedil;adores que lhe v&atilde;o roubar os filhotes: nem o medo das armas,<br \/>\n    nem a cruel perspectiva da morte lhe permitem parar um momento, nem a &acirc;nsia<br \/>\n    materna lhe consente a fuga do posto e o abandono do ninho.<\/p>\n<p> Mas houve uns loucos, a quem a desenfreada sede de sangue ati&ccedil;ava<br \/>\n    mais ativa em labaredas de raiva os peitos ferozes.<\/p>\n<p> Tinham chegado altivos, h&aacute; pouco, de suas terras natais, onde h&aacute;<br \/>\n    o tempo j&aacute; tinham sofrido cruel matan&ccedil;a das hostes crist&atilde;s,<br \/>\n    comandadas pelo ilustre Chefe.<\/p>\n<p> Ainda ferozes os cora&ccedil;&otilde;es explodiam: &ldquo;Hesitar ainda?<br \/>\n    N&atilde;o, n&atilde;o ceder! Esse terror vergonhoso expulsai-o do peito!<br \/>\n    Perante esquadr&otilde;es de mulheres de que serve tremer? A vosso lado estamos<br \/>\n    para ensinar-vos o modo de exterminar completamente o inimigo&rdquo;! Animados<br \/>\n    por tais palavras, desterram do peito os temores, erguem a cabe&ccedil;a orgulhosos<br \/>\n    e remetem ao Chefe valente estes mesmos dizeres.<\/p>\n<p> Quem poderia sofrer tal afronta? Apressa-se o Chefe para devastar em guerra<br \/>\n    tremenda 43 o soberbo inimigo.<\/p>\n<p> Manda arrolar de todas as partes batalh&otilde;es de ind&iacute;genas j&aacute;<br \/>\n    submissos ao jugo de Cristo.<\/p>\n<p> Preparam todos eles seus arcos e flechas farpadas e esses escudos fabricados<br \/>\n    com couros de feras t&atilde;o duros que s&atilde;o impenetr&aacute;veis &agrave;s<br \/>\n    setas ligeiras.<\/p>\n<p> Arrebatados de ardor, os peitos selvagens suspiram pelos belos riscos da<br \/>\n    guerra.<\/p>\n<p> Inflama-se al&eacute;m do ordin&aacute;rio a mocidade lusa.<\/p>\n<p> Anseiam partir e domar essas hordas com o bra&ccedil;o carregado de vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Rufam tambores em rouco som.<\/p>\n<p> Ajustam-se as armas: ao peito a coura&ccedil;a, o capacete &agrave; fronte.<\/p>\n<p> Enverga este uma pele de anta, aquele se envolve em malha de liso algod&atilde;o<br \/>\n    que frustra o corpo ao golpe das setas velozes.<\/p>\n<p> A maior parte n&atilde;o carrega o corpo com armas algumas para livre de<br \/>\n    peias poderem seguir no encal&ccedil;o aos inimigos em fuga e alcan&ccedil;a-los<br \/>\n    em corrida ligeira.<\/p>\n<p> Cintilam as espadas e os chu&ccedil;os de larga ponta de ferro, os escudos<br \/>\n    de couro e de metal luzidio.<\/p>\n<p> Irrequieto, o cavalo morde o freio, aspirando auras de guerra.<\/p>\n<p> Tudo se alvorota: o furioso ardor guerreiro se apossa da cidade inteira,<br \/>\n    cada qual se entrega &agrave; respectiva tarefa diligente: tine por toda a<br \/>\n    parte o ferro das armas.<\/p>\n<p> Tal qual na primavera, quando o c&eacute;u se lava de nuvens, saem dos fundos<br \/>\n    corti&ccedil;os as abelhas em busca das flores e por aqui, por ali recolhem<br \/>\n    contentes o p&oacute;len, zumbem entre as ervas e, felizes com as patas douradas,<br \/>\n    voltam para a colmeia, onde distilam o orvalho suave, o mel para o pr&oacute;ximo<br \/>\n    inverno: tudo &eacute; vida e trabalho na faina alegre do lar.<\/p>\n<p> Rouqueja a escura oficina; todas se aplicam &agrave; labuta, cada qual no<br \/>\n    seu posto: cuidam estas das crias, aquelas do mel destilado, Outras afastam<br \/>\n    os zang&atilde;os que indolentes descuram Todo trabalho, e, para gastar-lhes<br \/>\n    o mel que devoram, se metem entre as abelhas procurando esconder-se, mas elas<br \/>\n    os det&eacute;m e fincando-lhes os ferr&otilde;es os destro&ccedil;am, e em<br \/>\n    linhas cerradas at&eacute; aos umbrais da porta de entrada varrem os cad&aacute;veres<br \/>\n    dos infelizes vencidos.<\/p>\n<p> Dispostos todos em ordem, entram j&aacute; pelas ondas.<\/p>\n<p> Coalhado de naus, o mar espuma debaixo dos cascos.<\/p>\n<p> S&atilde;o naus, s&atilde;o barcas e igaras, nas quais os Brasis se atrevem<br \/>\n    &agrave; luta com vagas encapeladas.<\/p>\n<p> Ao sopro do Sul macio as velas incharam e em breve ferraram as praias da<br \/>\n    terra inimiga.<\/p>\n<p> Situada no poente e erguida em picos de montes, parece topar com a fronte<br \/>\n    as grimpas celestes.<\/p>\n<p> Separada por entradas do mar que a invade olha para a cidade dos Portugueses<br \/>\n    fundada ao nascente do sol com inclina&ccedil;&atilde;o para o norte.<\/p>\n<p> 44 De h&aacute; muito tempo que brancos n&atilde;o tinham pisado essa terra.<\/p>\n<p> Cercados de toda a parte por densas florestas, os inimigos habitavam em<br \/>\n    escarpados rochedos, como le&otilde;es ferozes metidos em escuras cavernas.<\/p>\n<p> Ardorosos os nossos p&otilde;em-se ao caminho de dia e de noite: ao peso<br \/>\n    da chuva e de mil outros inc&ocirc;modos , abrem picada com a foice curva,<br \/>\n    abatem florestas, tine o machado, geme o tronco, e ei-los &agrave; vista do<br \/>\n    primeiro forte, fundado no cume de monte elevado em ladeira escarpada.<\/p>\n<p> A bandeira da cruz na vanguarda, atacam-no de rijo, abalando os c&eacute;us<br \/>\n    com a grita.<\/p>\n<p> Acodem as hordas contr&aacute;rias e com flechas impedem a subida aos soldados:<br \/>\n    horrenda f&uacute;ria a todos inflama.<\/p>\n<p> O horror cruel da guerra se espalha: j&aacute; os selvagens come&ccedil;am<br \/>\n    a tombar feridas: ao baque dos corpos a terra estremece e fica toda juncada<br \/>\n    de mortos.<\/p>\n<p> Caem j&aacute; aos &iacute;ndios brutais os brutos bra&ccedil;os e pernas.<\/p>\n<p> J&aacute; se n&atilde;o fiam de suas flechas e ocas: embrenham-se em vergonhosa<br \/>\n    fuga pelos matos e no escuro dos bosques se escondem.<\/p>\n<p> O soldado prossegue e vence ardoroso o p&iacute;ncaro do monte, desfechando<br \/>\n    golpes tremendos e semeando a morte nas hordas que fogem.<\/p>\n<p> Ficaram os troncos da selva tintos do sangue inimigo.<\/p>\n<p> Depois que as armas prostraram o inimigo e a batalha o lan&ccedil;ou nas<br \/>\n    tocas dos bosques, como alcat&eacute;ia de lobos que os lebr&eacute;us aterram<br \/>\n    e dispersam com latidos ferozes: alegres acampam todos desfrutando o triunfo.<\/p>\n<p> Descansavam j&aacute; esquecidos dos trabalhos pesados, quando de s&uacute;bito<br \/>\n    uma voz, de boca em boca voando, se espalha e cresce e perturba a paz dos<br \/>\n    guerreiros.<\/p>\n<p> Dizia-se que um bra&ccedil;o fora cortado e roubado a um cad&aacute;ver<br \/>\n    dos muitos que a&iacute; prostrado s deixara o inimigo.<\/p>\n<p> Furtara-o talvez algum &iacute;ndio dos nossos, vencido do antigo costume,<br \/>\n    para devor&aacute;-lo em segredo.<\/p>\n<p> Mal chegou o rumor aos ouvidos do Chefe piedoso manda apregoar em voz alta<br \/>\n    por todos os bandos a amea&ccedil;a de morte para quem se manchou de tal crime,<br \/>\n    sen&atilde;o restituir esse bra&ccedil;o e o n&atilde;o ajuntar quanto antes<br \/>\n    ao corpo do qual o cortara &agrave;s escondidas de todos.<\/p>\n<p> T&atilde;o grande amor de Cristo lhe inflamara o desejo de abolir os costumes<br \/>\n    cru&eacute;is dessa b&aacute;rbara gente! Estremeceram todos, um calafrio<br \/>\n    lhe correu pelos ossos ao ladr&atilde;o; foi-se depressa e rep&ocirc;s &agrave;s<br \/>\n    ocultas o manjar mal havido e em v&atilde;o cobi&ccedil;ado! J&aacute; V&eacute;sper<br \/>\n    no c&eacute;u acendera os fogos dos astros e os soldados a uma descantam os<br \/>\n    louvores divinos, enchendo de melodia aquelas solenes alturas.<\/p>\n<p> Os batalh&otilde;es bras&iacute;licos e as lusitanas coortes 45 juntos louvam<br \/>\n    a Deus, e ao Pai celeste com preces inclinam aos seus desejos; e ao Senhor<br \/>\n    poderoso, que num sopro liq&uuml;efaz os cumes dos montes, Cristo e a todos<br \/>\n    os bem aventurados com s&uacute;plicas pedem derrotem os inimigos.<\/p>\n<p> Com o cora&ccedil;&atilde;o ardoroso esperam as futuras pelejas e refazem<br \/>\n    as for&ccedil;as.<\/p>\n<p> J&aacute; a aurora afastara do c&eacute;u as sombras da noite despojando<br \/>\n    as terras do negro manto de trevas; erguem-se lestos, decididos a exterminar<br \/>\n    o inimigo e devastar-lhe com a vingan&ccedil;a do fogo todas as casas.<\/p>\n<p> Avan&ccedil;am em ordenadas fileiras pela selva, coberta de verde ramagem,<br \/>\n    e a quantos inimigos encontram d&atilde;o morte cruel; devastam os campos<br \/>\n    e lan&ccedil;am nas ocas o inc&ecirc;ndio.<\/p>\n<p> Infatig&aacute;vel o soldado ora arroja seus passos a montes altos, ora<br \/>\n    desce ao fundo dos vales, ora se arrasta por sendas dif&iacute;ceis, at&eacute;<br \/>\n    que alt&iacute;ssimo cume de monte escarpado p&otilde;e termo ao longo caminho.<\/p>\n<p> A&iacute; fundo vale parece descer ao abismo do inferno, sombreiam-no impressionantes<br \/>\n    matos de densa folhagem, divide-o em duas partes uma torrente em cascatas,<br \/>\n    que enche toda a floresta do seu rouco murm&uacute;rio.<\/p>\n<p> O monte, que ao lado se ergue, se vai &agrave;s nuvens, de altura, &aacute;spero<br \/>\n    de escalar; s&oacute; existe caminho, e dif&iacute;cil, por estreito trilho.<\/p>\n<p> Assombram &agrave; direita e &agrave; esquerda precip&iacute;cios medonhos<br \/>\n    e rochedos inacess&iacute;veis.<\/p>\n<p> No cume do monte se alinham as defesas, formadas de grandes troncos de &aacute;rvores<br \/>\n    e de pedras enormes.<\/p>\n<p> A&iacute; se aglomera a flor da juventude inimiga.<\/p>\n<p> Estremecem a princ&iacute;pio os nossos e desfalecem &agrave; vista do cabe&ccedil;o<br \/>\n    que julgam inexpugn&aacute;vel: incute-lhe for&ccedil;as Aquele que abala<br \/>\n    o mundo com um aceno de fronte.<\/p>\n<p> Exortam aos companheiros os chefes do ex&eacute;rcito: &ldquo;Vamos! confian&ccedil;a<br \/>\n    no Pai dos c&eacute;us: confian&ccedil;a em Deus poderoso que move os astros!<br \/>\n    Ele pr&oacute;prio com sua for&ccedil;a divina esmagar&aacute; o feroz inimigo.<\/p>\n<p> Jovens, &agrave; cidadela! passo firme e avante!&rdquo; Ent&atilde;o precipitam-se<br \/>\n    os jovens tentando a escalada.<\/p>\n<p> Ribomba o c&eacute;u aos clamores, ecoam as escarpas, respondem os vales<br \/>\n    profundos.<\/p>\n<p> As hordas selvagens contratacam de cima do monte, levantam o grito de guerra<br \/>\n    que reboa na altura, e vibram fremindo os arcos; furor guerreiro os sacode,<br \/>\n    e logo despejam do alto uma chuva de flechas, cobrindo os cumes verdejantes<br \/>\n    como uma nuvem.<\/p>\n<p> Assim, quando o vento Sul flagela &agrave;s vezes os campos, o granizo despoja<br \/>\n    dos seus belos cachos as vides e denso saltita sobre os tetos tragicamente<br \/>\n    soando.<\/p>\n<p> H&aacute; um fr&ecirc;mito de horror nas matas.<\/p>\n<p> Os inimigos resistem com denodo aos assaltantes, rolando pedras enormes.<\/p>\n<p> 46 Mas aos esquadr&otilde;es de Cristo nem flechas nem pedras conseguem<br \/>\n    parar; o soldado, em fileiras cerradas se arroja teimoso, vence as escarpas,<br \/>\n    despede certeiro dardos de arremesso.<\/p>\n<p> Chegam &agrave;s m&atilde;os: foge o selvagem.<\/p>\n<p> Persegue-o, alcan&ccedil;a-o, mete-lhe a espada, vara-lhe o peito.<\/p>\n<p> A uns a lan&ccedil;a de ponta aguda atravessa a ilharga, abrindo &agrave;<br \/>\n    luz do sol as profundas cavernas da vida e levando a morte aos membros pela<br \/>\n    larga ferida.<\/p>\n<p> Outros tombam, fendida a fronte a golpes de espada, a outros trespassa o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o a seta ligeira.<\/p>\n<p> Pelo solo escorre negro sangue, as matas se encharcam da muita sangueira.<\/p>\n<p> Aqui e ali corpos nus e sem vida jazem nos caminhos e fundos recessos dos<br \/>\n    bosques.<\/p>\n<p> Quem poder&aacute; contar os gestos her&oacute;icos do Chefe &agrave; frente<br \/>\n    dos soldados, na imensa mata! Cento e sessenta as aldeias incendiadas, mil<br \/>\n    casas arruinadas pela chama devoradora, assolados os campos, com suas riquezas,<br \/>\n    passado tudo a fio da espada! Choraram a perda dos pais os filhos queridos,<br \/>\n    carpiram as m&atilde;es inconsol&aacute;veis a perda dos filhos, a esposa,<br \/>\n    agora vi&uacute;va, chora a morte do esposo.<\/p>\n<p> Morreram muito &agrave; m&iacute;ngua perdidos na selva, e, fato horroroso!<br \/>\n    com as pr&oacute;prias m&atilde;os, pais desumanos mataram os filhos que pelos<br \/>\n    bosques os seguiam chorando, para que o choro deles n&atilde;o atra&iacute;sse<br \/>\n    o inimigo.<\/p>\n<p> O terror se estendeu, estendeu-se o luto profundo: tudo eram l&aacute;grimas,<br \/>\n    prantos e espectros de morte.<\/p>\n<p> J&aacute; h&aacute; quinze dias, a estrela da manh&atilde;, ressurgindo<br \/>\n    do fundo oceano &agrave; frente do carro do sol resplendente, contemplava<br \/>\n    nosso ex&eacute;rcito a percorrer densas matas, incendiar casas, talar campos,<br \/>\n    matar inimigos.<\/p>\n<p> Era tempo de voltar aos lares, rever as igrejas, casas de Deus, levando<br \/>\n    em triunfo o pend&atilde;o da vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> Mas o feroz inimigo ardia em ira indom&aacute;vel, como a ursa terr&iacute;vel,<br \/>\n    a que h&aacute; pouco roubaram as crias.<\/p>\n<p> Desgostoso da vida e de uma tranq&uuml;ilidade for&ccedil;ada, resolve atacar<br \/>\n    os batalh&otilde;es que voltam sem ordem.<\/p>\n<p> J&aacute; estes chegam &agrave;s barcas, quando os assalta o selvagem sem<br \/>\n    medo &agrave; l&acirc;mina da espada e aos mort&iacute;feros tiros.<\/p>\n<p> Em seu peito valente, o Chefe n&atilde;o sofreu tal descaro: manda retroceder<br \/>\n    aos soldados e ele pr&oacute;prio se atira aos inimigos que atacam, sobra&ccedil;a<br \/>\n    a lan&ccedil;a medonho, esporeia o cavalo e lhe solta as r&eacute;deas inteiras.<\/p>\n<p> O animal fogoso se lan&ccedil;a ferindo a terra e atropela com as patas<br \/>\n    ferradas e esmaga esse bando de loucos.<\/p>\n<p> O her&oacute;i, com o bra&ccedil;o fulminante, vai vibrando seus dardos;<br \/>\n    com o peito varado lado a lado, v&atilde;o tombando os selvagens.<\/p>\n<p> Os soldados, atr&aacute;s do Chefe, juncam de mortos a praia.<\/p>\n<p> 47 O resto do bando foge para o esconso abrigo das matas.<\/p>\n<p> Embarcam pois os nossos em demanda das praias amigas, e ferram finalmente<br \/>\n    o porto as quilhas cansadas.<\/p>\n<p> Logo que o her&oacute;i, cercado de seus batalh&otilde;es triunfantes, pisou<br \/>\n    terra, ressoaram de toda a parte louvores ao Deus eterno.<\/p>\n<p> &ldquo;&Eacute; ele que estende as trevas da noite, qual negro manto, por<br \/>\n    toda a vastid&atilde;o do universo; e ilumina o mundo com a luz suave da aurora.<\/p>\n<p> &Eacute; ele quem prova os mortais com a pobreza penosa e cumula de d&aacute;divas<br \/>\n    largas e abundante fartura.<\/p>\n<p> Ele quem deprime as alturas at&eacute; o fundo dos vales e ergue as terra<br \/>\n    ch&atilde;s at&eacute; a altura dos astros.<\/p>\n<p> Ele mostrou as for&ccedil;as divinas da destra potente e os milagres de<br \/>\n    seu bra&ccedil;o; expulsou os soberbos dos des&iacute;gnios de seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e de seus tronos sublimes aos poderosos: aos pequeninos ergueu &agrave;s alturas,<br \/>\n    e dadivoso cumulou de muitos bens e riquezas aos que a negra fome oprimia,<br \/>\n    deixando famintos os ricos; aos d&eacute;beis encheu de for&ccedil;a e aos<br \/>\n    cheios de for&ccedil;a despojou, quebrou-lhes os escudos, partiu-lhes os arcos.<\/p>\n<p> Ei-los prostrados, os fortes! e com eles armas e dardos: o medo e o pavor<br \/>\n    invadiu os bandos selvagens.<\/p>\n<p> Estupefatos estarreceram, como m&aacute;rmores rijos.<\/p>\n<p> Como o p&oacute; se desfaz e dispersa ao sopro do Norte furioso, assim se<br \/>\n    desfizeram os b&aacute;rbaros &agrave; vista de Cristo e foram despenhados<br \/>\n    nos escuros abismos da morte&rdquo; Assim descantavam todos, as m&atilde;es<br \/>\n    e as esposas, os meninos e os velhos tr&ecirc;mulos.<\/p>\n<p> Eles todo o tempo ansiosos, enquanto os soldados crist&atilde;os devastavam<br \/>\n    o solo inimigo, erguiam preces e mais preces ao Deus das batalhas, para que<br \/>\n    refreasse a c&oacute;lera e o furor dos selvagens, e o ex&eacute;rcito fiel<br \/>\n    alcan&ccedil;asse completo triunfo.<\/p>\n<p> J&aacute; agora exultam de gozo, j&aacute; tudo revibra de ruidosa alegria,<br \/>\n    entregam-se a dan&ccedil;as e cantam &agrave; volta do grande Chefe, desfraldando<br \/>\n    a bandeira da cruz vencedora e das cinco chagas que tu, &oacute; Cristo, sofreste<br \/>\n    em teu corpo exangue pelo g&ecirc;nero humano, e que domaram para sempre o<br \/>\n    feroz tirano do inferno.<\/p>\n<p> Os canh&otilde;es em salva vomitaram tiros horrendos com ribombo medonho,<br \/>\n    enchendo o c&eacute;u de fuma&ccedil;a.<\/p>\n<p> Tudo d&aacute; sinais de desusada alegria: ressoam as casas em festa, as<br \/>\n    ruas se apinham de gente, que aclama o Chefe e o precede ao templo sagrado.<\/p>\n<p> A&iacute; o ex&eacute;rcito, que tornara s&atilde;o e salvo, entre louvores<br \/>\n    e justas ofertas, rende a Deus gra&ccedil;as do &iacute;ntimo d&rsquo;alma.<\/p>\n<p> Depois acompanham o Chefe ilustre at&eacute; ao seu pa&ccedil;o.<\/p>\n<p> Tr&ecirc;s vezes a aurora afugentara dos c&eacute;us os astros noturnos<br \/>\n    e a fronte orvalhada lhe brilhara aos raios solares, 48 quando apareceram,<br \/>\n    singrando o mar, com muitos remeiros, algumas canoas: vinham em dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da cidade e traziam os inimigos que tantas guerras e derrotas prostraram.<\/p>\n<p> A que v&ecirc;m? porque agora visitam os litorais inimigos de boa mente?<br \/>\n    que trazem? Armados os guerreiros esperam.<\/p>\n<p> Eis que pisam a praia e v&ecirc;m arrastando dois &iacute;ndios de bra&ccedil;os<br \/>\n    nus amarados, de cerviz e fronte ca&iacute;das, outrora t&atilde;o altivos.<\/p>\n<p> Suas m&atilde;os est&atilde;o &uacute;midas ainda do sangue crist&atilde;o<br \/>\n    que derramaram h&aacute; pouco.<\/p>\n<p> Colocam-nos aos p&eacute;s do Governador e suplicam, j&aacute; t&iacute;midos,<br \/>\n    que deponha ira e expulse do peito o justo rancor: &ldquo;De nosso sangue<br \/>\n    sorveu a terra bastante, dizem eles, tingimos de rubro as nossas florestas<br \/>\n    com o sangue dos pais, dos irm&atilde;os e dos filhos queridos.<\/p>\n<p> Choram a morte de suas esperan&ccedil;as as m&atilde;es desgra&ccedil;adas,<br \/>\n    os filhos procuram, ainda em v&atilde;o os pais que o sepulcro escondeu.<\/p>\n<p> No fundo das matas a fome impiedosa corta com morte horrenda a vida dos<br \/>\n    errantes.<\/p>\n<p> Derrocou as aldeias todas a f&uacute;ria do inc&ecirc;ndio; os campos talados<br \/>\n    pela guerra n&atilde;o nos d&atilde;o o sustento.<\/p>\n<p> Os dois principais e cru&eacute;is assassinos dos homens.<\/p>\n<p> que junto da praia lan&ccedil;avam as redes de pesca, conseguiram, fugindo,<br \/>\n    escapar &agrave; terr&iacute;vel vingan&ccedil;a de teu bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> Ei-los aqui: n&oacute;s tos entregamos agora: lavem com o sangue sua culpa,<br \/>\n    paguem vida por vida! Vencidos, pedimos paz: j&aacute; n&atilde;o recusam<br \/>\n    os ombros o peso da sujei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> D&aacute;-nos a paz, n&oacute;s to pedimos, &oacute; Chefe! Imp&otilde;e-nos<br \/>\n    as leis que quiseres, que n&oacute;s as cumprimos.<\/p>\n<p> &rdquo; O Governador ouviu com bondade essas palavras e respondeu: &ldquo;Se<br \/>\n    vos fiz guerra cruel de exterm&iacute;nio, devastando os campos e lan&ccedil;ando<br \/>\n    em vossas moradas o inc&ecirc;ndio voraz, levou-me a isso vossa aud&aacute;cia<br \/>\n    somente.<\/p>\n<p> J&aacute; agora, esquecidos os &oacute;dios, vos concedemos contentes a<br \/>\n    alian&ccedil;a e a paz que quereis e sentimos vossa desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Por&eacute;m, deveis v&oacute;s observar as leis que vos dito.<\/p>\n<p> &rdquo; Manda ent&atilde;o que refreiem suas rixas cont&iacute;nuas que<br \/>\n    expulsem do peito a crueldade e o h&aacute;bito horrendo de saciarem o ventre,<br \/>\n    &agrave; maneira de feras raivosas, com carnes humanas.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m lhes ordena que guardem os mandamentos do Pai celeste e a<br \/>\n    lei natural e ergam igrejas ao eterno Senhor das alturas em seu torr&atilde;o<br \/>\n    natal; a&iacute; ser&atilde;o instru&iacute;dos na lei divina e de vontade<br \/>\n    abra&ccedil;ar&atilde;o com os filhos a f&eacute; de Cristo, porta &uacute;nica<br \/>\n    do caminho do c&eacute;u, Al&eacute;m disso, tudo quanto roubaram dos Crist&atilde;os<br \/>\n    &agrave;s ocultas ou por assalto, em tantos anos, os pr&oacute;prios escravos<br \/>\n    mortos ou devorados, tudo pagar&atilde;o e mais os tributos.<\/p>\n<p> Para logo, submissos executam os preceitos divinos, 49 desejosos de abra&ccedil;ar<br \/>\n    a f&eacute; e ouvir a palavra da salva&ccedil;&atilde;o e conhecer o nome<br \/>\n    de Cristo Jesus.<\/p>\n<p> Finalmente, &oacute; B&aacute;rbaro, se abriram as portas de ferro de teu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, por tantos anos fechadas! Enfim, o teu peito mais duro<br \/>\n    que o bronze fundido j&aacute; se abranda e tua alma despe a dureza de pedra!<br \/>\n    Essa ra&ccedil;a altiva, apaixonada por guerras sangrentas, acostumadas, de<br \/>\n    h&aacute; tanto, a devorar, como tigres, carnes humanas e a viver impune em<br \/>\n    altos rochedos, sem jamais acertar o aperto de m&atilde;o dos Crist&atilde;os,<br \/>\n    eis que jaz vencida e submete a cerviz alterosa ao jugo da lei.<\/p>\n<p> A que lan&ccedil;ava amea&ccedil;as terr&iacute;veis, h&aacute; pouco, livra-se<br \/>\n    agora das cadeias do inferno, escapa das fauces do le&atilde;o que rugia &agrave;<br \/>\n    sai volta e entra para o teu rebanho, &oacute; Jesus, bom pastos! Tu lhes<br \/>\n    embebe os seios &aacute;ridos com o orvalho divino, como chuva abundante que<br \/>\n    nuvens prenhes derramam, e lhes abrandas as almas, duras como blocos de m&aacute;rmore.<\/p>\n<p> Como outrora, &agrave;s tuas ordens , a natureza aterrada arrojou um rio<br \/>\n    de &aacute;gua do penhasco sequioso: assim agora cora&ccedil;&otilde;es-rochedos<br \/>\n    se abrandam.<\/p>\n<p> Regadas pelas tuas &aacute;guas, fecundadas pela torrente da palavra divina,<br \/>\n    suas almas ser&atilde;o novas fontes.<\/p>\n<p> Depois que tais feitos realizara o Chefe piedoso por amor da f&eacute;,<br \/>\n    e, firmado na for&ccedil;a divina de Cristo potente, destro&ccedil;ara o feroz<br \/>\n    habitante dos montes inacess&iacute;veis, terror dos crist&atilde;os tantos<br \/>\n    anos: prepara-se para ir &agrave;s praias, onde b&aacute;rbara gente espostejara<br \/>\n    a muitos crist&atilde;os juntamente com o Bispo, conspurcando as m&atilde;os<br \/>\n    ferozes com sangue inocente.<\/p>\n<p> Talvez agrade conhecer os derradeiros sucessos do Bispo.<\/p>\n<p> Serei breve: mais uma vez renovo for&ccedil;ado a dor passada &agrave;s<br \/>\n    almas, provoco o pranto dos olhos e reabro com o verso cicatrizadas feridas.<\/p>\n<p> Era o tempo, em que ao sopro do Sul o nauta abandona as praias bras&iacute;licas<br \/>\n    em dire&ccedil;&atilde;o dos reinos que jazem sob o Boieiro que guia seu carro<br \/>\n    de estrelas.<\/p>\n<p> O Bispo, com in&uacute;meros cidad&atilde;os, embarcou mar em fora da cidade<br \/>\n    do Salvador, rumo ao litoral das Espanhas.<\/p>\n<p> Os ventos prop&iacute;cios enchiam o bojo das velas e alisavam o oceano,<br \/>\n    como um afago celeste &agrave;s naus que sulcavam as ondas do mar espumoso.<\/p>\n<p> De repente trov&otilde;es come&ccedil;am de ouvir-se rolando na amplid&atilde;o<br \/>\n    do c&eacute;u, medonhos rel&acirc;mpagos chispam do embate das nuvens e as<br \/>\n    alturas se desfazem em raios.<\/p>\n<p> O vento Sul se atira torcendo em v&oacute;rtices as ondas e sacode em turbilh&otilde;es<br \/>\n    horrendos o mar tenebroso, que se enfurece ao peso da borrasca, ergue em montanha<br \/>\n    50 as &aacute;guas turvadas e as lan&ccedil;a raivoso &agrave;s alturas.<\/p>\n<p> Tudo &eacute; confus&atilde;o: range ao embate das ondas inchadas a nau<br \/>\n    que os ventos fustigam com as cordas da chuva.<\/p>\n<p> O piloto j&aacute; brada do alto da popa: &ldquo;Marujos, recolher velas,<br \/>\n    depressa! soltar as enx&aacute;rcias.<\/p>\n<p> .<\/p>\n<p> &rdquo; &ldquo;sopra o Sul, depressa!&rdquo; ergue-se a grita da gente,<br \/>\n    precipitam-se todos a uma a soltar as amarras, e sobem velozes aos mastros<br \/>\n    e recolhem as velas e abatem as vergas.<\/p>\n<p> Tudo ferve em tumulto feroz! o terror invade a todos e a todos agita.<\/p>\n<p> Entra o medo, j&aacute; tremem de horror e o espectro da morte se agarra<br \/>\n    teimoso aos olhos espavoridos da gente.<\/p>\n<p> Do alto da popa lan&ccedil;a-se ent&atilde;o a &acirc;ncora , para firmar<br \/>\n    com o dente f&eacute;rreo a nau: &uacute;ltima luz de esperan&ccedil;a! Mas<br \/>\n    uma onda em montanha se quebra contra o costado, arranca das m&atilde;os a<br \/>\n    corda e arroja a nau &agrave;s alturas.<\/p>\n<p> A tempestade horrenda em rugidos imenso se assanha cada vez mais contra<br \/>\n    o mar e, prostrando-o &agrave;s rajadas revolve e arroja montanhas de &aacute;gua<br \/>\n    espumosa.<\/p>\n<p> Pr&oacute;ximas j&aacute; est&atilde;o as praias da b&aacute;rbara terra<br \/>\n    onde o &iacute;ndio feroz habita, em inacess&iacute;veis florestas, ocas escuras<br \/>\n    que ressumam densa fuma&ccedil;a: Entre cantos cont&iacute;nuo o b&aacute;rbaro<br \/>\n    coze seus vinhos sobre grandes fogueiras e enche de uivos o espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> A&iacute; a terra est&aacute; sempre empapada no sangue dos pobres prisioneiros,<br \/>\n    a quem os malvados esmagam as cabe&ccedil;as com crueldade.<\/p>\n<p> Pendem dos tetos escuros carnes humanas, assadas ao fumo das brasas, enquanto<br \/>\n    os cr&acirc;nios desnudados dos cabelos e os ossos despojados das carnes se<br \/>\n    colocam &agrave; entrada das portas.<\/p>\n<p> As ondas amea&ccedil;avam os nautas de morte iminente: todos com o Bispo<br \/>\n    procuravam abalar com as preces os c&eacute;us: um rio de l&aacute;grimas<br \/>\n    lhes banhava o semblante e gemiam: &ldquo;Pai bondoso dos c&eacute;us e tu,<br \/>\n    Cristo benigno, que nos preparas? dizei-nos : permitir&aacute;s que morramos<br \/>\n    no meio das ondas, &oacute; Pai? que sejamos vil pasto dos peixes vorazes?<br \/>\n    A morte que nossas culpas merecem ser&aacute; esta? Socorre compassivo estes<br \/>\n    teus infelizes, pelos quais suportaste as ondas do mar agitado de tuas Paix&atilde;o<br \/>\n    e te submergiste na tempestade da morte.<\/p>\n<p> Se nossos pecados movem o furor da tua justi&ccedil;a que te aplaque a inoc&ecirc;ncia:<br \/>\n    porque morrer as crian&ccedil;as? que crime fizeram elas?.<\/p>\n<p>\n    Vem auxiliar teus remidos, Redentor nosso, n&atilde;o nos trague o negro abismo<br \/>\n    dos mares.<\/p>\n<p> Desgra&ccedil;ado que somos! ao naufr&aacute;gio das almas pelo pecado segue-se<br \/>\n    o naufr&aacute;gio dos corpos no mar.<\/p>\n<p>\n    e tu n&atilde;o nos ouves.<\/p>\n<p> N&atilde;o nos castigues logo, d&aacute; ao arrependimento seu tempo, Cristo<br \/>\n    bondoso, para lavarmos nossos crimes com prantos.<\/p>\n<p> &rdquo; 51 Assim em v&atilde;o oravam, assim de cont&iacute;nuo gemiam.<\/p>\n<p> O oceano cruel em turbilh&atilde;o os acomete de flanco e por desgra&ccedil;a<br \/>\n    arroja a nau sobre duros rochedos.<\/p>\n<p> Assaltam-na as ondas que esbravejam de escuma, batem-na contra os escolhos<br \/>\n    e com roncos furiosos e despeda&ccedil;am: soltam-se as t&aacute;buas, amea&ccedil;am<br \/>\n    os mastros medonha ru&iacute;na.<\/p>\n<p> Eis que alguns se atiram &agrave;s ondas para salvar-se a nado: mas a onda<br \/>\n    torva os arrasta, os envolve e os atira aos rochedos brancos de espuma.<\/p>\n<p> Outros de melhor parecer num escaler se acomodam e &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    de muitos remos se dirigem &agrave; praia.<\/p>\n<p> Mal desembara&ccedil;ados, com os corpos &uacute;midos d&rsquo;&aacute;gua<br \/>\n    salgada, para o logo o gentio malvado lhes sai ao encontro: traz no peito<br \/>\n    feroz o ardil preparado, e d&aacute; provas de fingida amizade; acolhe os<br \/>\n    cansados e necessitados n&aacute;ufragos e os conduz &agrave;s ocas traidoras.<\/p>\n<p> P&otilde;e-lhes alimento, acende fogueiras para aquentar-lhes os corpos<br \/>\n    gelados e os membros que tiritam de frio.<\/p>\n<p> A que excessos n&atilde;o obrigas os cora&ccedil;&otilde;es dos selvagens,<br \/>\n    &oacute; execranda fome de carne humana! Apressada, a turba feroz percorre<br \/>\n    as aldeias vizinhas, prepara arcos e flechas, aconselha as foices recurvas<br \/>\n    e tacapes pintados, enquanto os outros, com vozes amigas e mesa posta, enganam<br \/>\n    aos que nada de mal suspeitavam.<\/p>\n<p> Afinal descobrem as ciladas e gemem: &ldquo;salvos do abismo e das tormentas<br \/>\n    do mar, ser&aacute; poss&iacute;vel que agora sejam espostejados, por dentes<br \/>\n    selvagens, m&iacute;seros corpos que o mar furioso poupou? S&oacute; isso<br \/>\n    faltava &agrave; sua desgra&ccedil;a?&rdquo; Fogem pois dos antros trai&ccedil;oeiros<br \/>\n    e buscam as praias de novo: pressurosos percorrem areais ignorados homens<br \/>\n    alquebrados pelo trabalho, delicadas donzelas e pac&iacute;ficos meninos.<\/p>\n<p> Oh! se houvesse algum modo de escapar &agrave;s fauces cru&eacute;is! Mas<br \/>\n    j&aacute; o feroz inimigo lhe corre ao encal&ccedil;o e enche as praias de<br \/>\n    h&oacute;rridos brados, insultando aos desgra&ccedil;ados.<\/p>\n<p> J&aacute; voam as setas de longe e trespassam, sem d&oacute; nem piedade,<br \/>\n    ora uns, ora outros.<\/p>\n<p> Os golpes destro&ccedil;am a pobre multid&atilde;o indefesa: como quando<br \/>\n    lobos dos montes se abatem sobre um rebanho de mansas ovelhas: l&aacute; v&atilde;o<br \/>\n    horrendos, pungindo da fome, amea&ccedil;ando mortes; os cru&eacute;is dentes<br \/>\n    se fincam nas goelas das v&iacute;timas, rasgam e sugam o sangue e devastam<br \/>\n    com muitas mortes a grei inocente.<\/p>\n<p> Chegam por fim a um rio de leito profundo que lhes barra o caminho.<\/p>\n<p> De um lado as &aacute;guas os cercam, do outro, em transportes de f&uacute;ria<br \/>\n    cruel, o inimigo os ataca.<\/p>\n<p> Come&ccedil;a a matan&ccedil;a: a este mil setas varam o peito todo ensang&uuml;entado,<br \/>\n    &agrave;queles o tacape parte a cabe&ccedil;a, a outros o ferro da espada<br \/>\n    rasga as entranhas.<\/p>\n<p> 52 O ch&atilde;o estremece ao baque dos corpos feridos, e o sangue em borbot&otilde;es<br \/>\n    tinge as brancas areias.<\/p>\n<p> Oh! quem conteria as l&aacute;grimas, quem do fundo do peito n&atilde;o<br \/>\n    arrancaria gemidos, ao ver morrer as donzelas de morte ign&oacute;bil.<\/p>\n<p> Cru&eacute;is despeda&ccedil;am com golpes ferozes os delicados corpos,<br \/>\n    fincam-lhes paus sem pudor nem respeito, e assim as arrastam com f&uacute;ria<br \/>\n    pelas praias bravias.<\/p>\n<p> Espet&aacute;culo infame e indigno de ver-se! Que sentimento experimentaste,<br \/>\n    malvado, ao perpetrar tais crueldades? que &oacute;dio penetrou teu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    feroz ao trespassares tenras carnes com paus agudos, &oacute; sang&uuml;in&aacute;rio?<br \/>\n    ao arrastares pelas praias do mar que gemia despeda&ccedil;ados corpos femininos,<br \/>\n    e ao contemplares todo o litoral em sangue empo&ccedil;ado? Entretanto, sobre<br \/>\n    troncos amarrados com vime flex&iacute;vel o Bispo atravessa o vasto espa&ccedil;o<br \/>\n    do rio.<\/p>\n<p> Da parte contr&aacute;ria acodem os cru&eacute;is inimigos, vencem a dist&acirc;ncia<br \/>\n    a nado por vaus j&aacute; bem conhecidos.<\/p>\n<p> Espumam as &aacute;guas: entre gritos horrendos, preparam-se os &iacute;ndios<br \/>\n    &agrave; matan&ccedil;a impiedosa.<\/p>\n<p> Corre o Bispo para a &uacute;mida praia e, caindo, seus joelhos cansados<br \/>\n    se afundam na areia.<\/p>\n<p> Ergue mil preces ao Pai celeste, e nos termos que pode, assim fala ao bando<br \/>\n    furioso: &ldquo;Sou eu, sou eu mesmo o grande abar&eacute;! porque procurais<br \/>\n    dar-me a morte?&rdquo; mas que suspiros lhes dobrariam os loucos intentos,<br \/>\n    que queixumes ou l&aacute;grimas? seria mais f&aacute;cil comover le&otilde;es<br \/>\n    da &Aacute;frica ou leopardos ferozes do que com rios de prantos dobrar esses<br \/>\n    selvagens acostumados a fartar o ventre com carnes humanas.<\/p>\n<p> Assim clama ele em v&atilde;o, ajoelhado na praia.<\/p>\n<p> R&aacute;pido, vem-lhe ao encontro, pela parte contr&aacute;ria o desalmado<br \/>\n    inimigo, de espada em punho.<\/p>\n<p> Cego de raiva, com a foice recurva lhe fende pelo meio a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    afeiando a fronte ungida, com ferida de morte: ele caindo forma na margem<br \/>\n    vasta mancha de sangue.<\/p>\n<p> Os membros todos lhe desfalecem aos poucos: em breve, espet&aacute;culo<br \/>\n    lastim&aacute;vel, exala o derradeiro suspiro.<\/p>\n<p> Foi este o fim do grande Prelado, quem por primeiro regeu as plagas bras&iacute;licas,<br \/>\n    de b&aacute;culo, mitra e tiara.<\/p>\n<p> Glorioso outrora, ei-lo estendido na margem do rio, cad&aacute;ver inundado<br \/>\n    de sangue, e, &oacute; cena horr&iacute;vel! todo despido, todo ferido, sem<br \/>\n    a paz do sepulcro.<\/p>\n<p> Assim o bra&ccedil;o impiedoso deu morte infamante a muitas vidas, juncou<br \/>\n    a terra de crist&atilde;os, imolados cruelmente, banhando as praias com sangue<br \/>\n    inocente.<\/p>\n<p> Ei-los que jazem nus os corpos dos portugueses crivados de enormes feridas,<br \/>\n    mesa posta &agrave; rapina das aves e &agrave; gula n&atilde;o menos feroz<br \/>\n    dessa b&aacute;rbara gente.<\/p>\n<p> 53 Muitos poucos escaparam &agrave; matan&ccedil;a, escondidos em densas<br \/>\n    florestas.<\/p>\n<p> Passados mil riscos de mar e de terra chegaram por fim ao ref&uacute;gio<br \/>\n    crist&atilde;o a cidade e a&iacute; deram not&iacute;cia de t&atilde;o inesperado<br \/>\n    desastre.<\/p>\n<p> Quem ter&aacute; palavras para narrar a dor que pungiu os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de todos? os gritos loucos das m&atilde;es, a&iacute;! pobres m&atilde;es!<br \/>\n    que tanto choraram os filhos perdidos! Soltas as tran&ccedil;as ao colo, arrancam<br \/>\n    de dor os cabelos, arranham com unhas crispadas as faces em pranto, e ferem<br \/>\n    de cont&iacute;nuo os peitos com os punhos cerrados.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m os filhos &oacute;rf&atilde;os choram seus pais falecidos,<br \/>\n    o irm&atilde;o lamenta a irm&atilde; que a morte roubou impiedosa, a irm&atilde;<br \/>\n    ao irm&atilde;o assassinado barbaramente, a esposa ao companheiro querido<br \/>\n    que a deixa vi&uacute;va.<\/p>\n<p> D&atilde;o todos largas ao pranto e &agrave;s muitas l&aacute;grimas juntam<br \/>\n    a indigna&ccedil;&atilde;o pela morte nefanda do Bispo.<\/p>\n<p> Lamentos, fundos gemidos e queixas sentidas enchem de longos rumores todas<br \/>\n    as casas.<\/p>\n<p> Estava o Governador valente decidido a vingar-se dessas mortes cru&eacute;is<br \/>\n    e a domar o feroz inimigo com repres&aacute;lias: se maiores combates n&atilde;o<br \/>\n    o chamassem a outro campo.<\/p>\n<p> Maiores trabalhos pela honra de Cristo e pela conquista da verdadeira gl&oacute;ria<br \/>\n    o esperam.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">LIVRO IV<\/a><\/h4>\n<p>Longe da&iacute;, onde o Sul proceloso com chuvas freq&uuml;entes a&ccedil;oita<br \/>\n    as terras e os plainos imensos do mar turbulento, aonde chega o sol, completado<br \/>\n    quase o giro do ano e percorridos em seu carro de luz os signos celestes:<br \/>\n    os inimigos tem seus campos voltados para as t&uacute;midas ondas do oceano,<br \/>\n    e numerosas aldeias junto &agrave;s &aacute;ridas praias, e outras muitas<br \/>\n    sitas ao ocidente, pouso do Z&eacute;firo, constru&iacute;das ora nos campo,<br \/>\n    ora em meio de densas florestas.<\/p>\n<p> Estes provocam em guerra cont&iacute;nua aos portugueses cujas povoa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o distam muito das deles.<\/p>\n<p> Aprisionam os homens trai&ccedil;oeiramente, saqueiam as propriedades sem<br \/>\n    guarda, lan&ccedil;am o inc&ecirc;ndio nos campos e cometem mil assass&iacute;nios<br \/>\n    em freq&uuml;entes sortidas.<\/p>\n<p> Com eles tratam, &aacute;vidos do com&eacute;rcio da b&aacute;rbara gente,<br \/>\n    os Franceses; trocam mercadorias, e com luzentes espadas, foices, anz&oacute;is,<br \/>\n    tesouras em grande n&uacute;mero, amansam os cora&ccedil;&otilde;es ferozes<br \/>\n    dos &iacute;ndios e recebem em troca o pau brasil, que serve para tingir de<br \/>\n    vermelho as vestes, a acre pimenta, aves variegadas e os animais que imitam<br \/>\n    as maneiras humanas.<\/p>\n<p> De h&aacute; pouco tempo, com o correr silencioso dos anos, erguem a cabe&ccedil;a<br \/>\n    altivos e arrastados pela cobi&ccedil;a querem para si o que os lusos com<br \/>\n    grande trabalho alcan&ccedil;aram.<\/p>\n<p> Movidos pois de furiosa coragem usurpam reinos alheios, fundam em altos<br \/>\n    rochedos fortaleza possante e a cingem com todas as armas.<\/p>\n<p> Mais ainda: com o cora&ccedil;&atilde;o infeccionado pela heresia, e com<br \/>\n    a mente opressa pelas trevas do erro, n&atilde;o s&oacute; todos se afastam<br \/>\n    do reto caminho da cren&ccedil;a, mas procuram perverter, assim dizem, com<br \/>\n    falsas doutrinas os m&iacute;seros povos &iacute;ndios, de todo ignorantes.<\/p>\n<p> O Governador prepara uma esquadra para expuls&aacute;-los das terras mal<br \/>\n    havidas: esquipa com armas luzentes muitas naus e as enche de escolhidos soldados.<\/p>\n<p>Chega o dia em que manda largar porto &agrave; esquadra: desligam-se as amarras<br \/>\n    e ouve-se a grita alternada com que disfar&ccedil;am o trabalho penoso os<br \/>\n    marujos endurecidos &agrave;s intemp&eacute;ries dos s&oacute;is e das chuvas.<\/p>\n<p> Uns puxam as cordas entesadas pelo peso avultado e enrolam-nas no cabrestante<br \/>\n    ao passo que sobem: enfim aparece a &acirc;ncora nas fortes m&atilde;os.<\/p>\n<p> Outros abrem as velas bojudas e erguem ao alto as antenas.<\/p>\n<p> Uns sobem &agrave; ponta dos mastros firmando, nos n&oacute;s e nas redes<br \/>\n    das muitas cordas, as m&atilde;os e os p&eacute;s.<\/p>\n<p> Outros seguram o leme com os bra&ccedil;os robustos e todo o peito.<\/p>\n<p> Fora, o oceano rouqueja ao redor; dentro, entre clamores variados fervilha<br \/>\n    a faina.<\/p>\n<p> Para as plagas do Sul voltam-se as proas, enchem-se em bojo as velas, ao<br \/>\n    sopro do Norte assobiam as enx&aacute;rcias estiradas, muge o mar sob o peso<br \/>\n    das popas e a quilha calafetada rasga profundo sulco nas ondas.<\/p>\n<p> Finalmente junto &agrave;s desejadas praias as popas deslizam e de noite<br \/>\n    fundeiam no porto: presa ao cabo traseiro a &acirc;ncora denteada morde o<br \/>\n    ch&atilde;o e firma os navios.<\/p>\n<p> Quando a aurora em seu manto de luz trouxe ao mundo o novo dia, eis que<br \/>\n    aparecem nos altos rochedos as torres soberbas, cingidas de toda a sorte de<br \/>\n    armas, e as fortifica&ccedil;&otilde;es escavadas em vivo granito.<\/p>\n<p> Por acaso, nessa ocasi&atilde;o, os Franceses se achavam dispersos pelas<br \/>\n    v&aacute;rias aldeias dos &iacute;ndios; poucos vigias guardavam a fortaleza.<\/p>\n<p> Ao avistar a esquadra, apavoram-se os guardas.<\/p>\n<p> D&aacute; o toque de recolher a corneta estridente e a todos chama &agrave;<br \/>\n    fortaleza o sinal da fogueira.<\/p>\n<p> Daqui e dali acorrem todos e apressados se acolhem aos ninhos altaneiros,<br \/>\n    como fazem as pombas quando em dia c&aacute;lido, ao sopro do Norte, vagueiam<br \/>\n    pelos prados em busca do variado biscato campestre: Mas se o vento Sul se<br \/>\n    levanta e negrejam as nuvens e se entrechocam nimbos e se ouvem trov&otilde;es<br \/>\n    reboando no c&eacute;u escuro: ent&atilde;o fogem r&aacute;pidas, deixam os<br \/>\n    campos e, ruflando asas, se escondem nos pombais sossegados.<\/p>\n<p> Uma nau francesa carregada de inimigos e armas estava surta no interior<br \/>\n    do porto sinuoso.<\/p>\n<p> Por ordem do Governador para l&aacute; se dirige pequena gal&eacute;, que<br \/>\n    a ataca e rende: salvam-se apenas a nado os &iacute;ndios com os franceses<br \/>\n    acolhendo-se &agrave; praia.<\/p>\n<p> A nau rendida &eacute; ligada &agrave; popa da nossa: a fortaleza tenta<br \/>\n    impedir-lhe a volta com proj&eacute;teis incendi&aacute;rios e o monstro de<br \/>\n    ferro vomita suas bolas de fogo.<\/p>\n<p> Com a ajuda divina, em v&atilde;o as balas cortam os ares: antes, a p&oacute;lvora<br \/>\n    explode no paiol inimigo a um centelha, e o fogo em turbilh&atilde;o num momento<br \/>\n    envolve e engole desprevenidos a sete soldados.<\/p>\n<p> Infelizes! come&ccedil;am j&aacute; a sentir as chamas do inferno em que<br \/>\n    os &iacute;mpios cora&ccedil;&otilde;es, manchados pela heresia, sofrer&atilde;o<br \/>\n    o eterno castigo que seus crimes merecem.<\/p>\n<p> Mas.<\/p>\n<p> viu o piedoso chefe que tal guerra s&oacute; se faria a peso de muito sangue<br \/>\n    e ao pre&ccedil;o e muitas cabe&ccedil;as.<\/p>\n<p> Compassivo, preferiu evitar a crueza da guerra e tenteando a via da paz,<br \/>\n    ao general dos Franceses mandou estes dizeres num pequenino bilhete: &ldquo;A<br \/>\n    fama, general gloriosos, te canta como excelente em feitos prestantes, e longa<br \/>\n    experi&ecirc;ncia da guerra e tamb&eacute;m as belas artes todas te poliram<br \/>\n    a alma.<\/p>\n<p> N&atilde;o creio pois que te h&aacute;s de lan&ccedil;ar a empresa t&atilde;o<br \/>\n    &aacute;rdua para defender uma causa injusta, contra todo o direito divino<br \/>\n    e humano, com a morte de tantos soldados.<\/p>\n<p> Essa terra que habitas &eacute; nosso dom&iacute;nio intang&iacute;vel:<br \/>\n    pois que a conquistou o trabalho esfor&ccedil;ado dos lusos.<\/p>\n<p> Se te aprouver abandonar nossos reinos, de grado, como ordena o nosso e<br \/>\n    vosso rei, ser&aacute; suprimida toda a ocasi&atilde;o de manchar nossas destras<br \/>\n    com sangue, e nada sofrer&aacute; por isso a tua honra de chefe.<\/p>\n<p> Doutro modo, decididos estamos a atacar sem piedade a fortaleza e a travar<br \/>\n    horrendo e cerrado combate, manchar as m&atilde;os de sangue e a tingir de<br \/>\n    vermelho as naus, os rochedos e as praias brancas de areia.<\/p>\n<p> Fa-lo-ei contra a vontade, testemunha me seja Deus aqui presente: tu s&oacute;<br \/>\n    dar&aacute;s conta tremenda do que suceder, no tribunal do Senhor.<\/p>\n<p> Respons&aacute;vel tu s&oacute; o ser&aacute; dos crimes, das ru&iacute;nas<br \/>\n    e sangue que se derramar: do alto do c&eacute;u nos contempla Cristo que um<br \/>\n    dia vir&aacute; julgar-nos os atos da vida.<\/p>\n<p> &rdquo; &Agrave;s linhas do Governador, assim respondeu o Franc&ecirc;s:<br \/>\n    &ldquo;Qual seja melhor ou mais justo partido, &oacute;timo chefe, n&atilde;o<br \/>\n    cabe a mim decidi-lo, &eacute; al&ccedil;ada daquele por cuja ordem habito<br \/>\n    os litorais do Brasil: foi ele quem me confiou a defesa do forte.<\/p>\n<p> Foi mandado de Henrique, o soberano, a fort&iacute;ssima torre, que v&ecirc;s,<br \/>\n    ergue a fronte at&eacute; os lumes celestes.<\/p>\n<p> Sem ordem do grande Francisco, a quem coube por dita o governo da Fran&ccedil;a,<br \/>\n    que dirige os destinos da p&aacute;tria de cetro ilustre na m&atilde;o e coroa<br \/>\n    na fronte, jamais abandonarei essas muralhas que erguemos.<\/p>\n<p> Vive eternamente o juiz do universo que pesa as culpas de cada homem em<br \/>\n    rigorosa balan&ccedil;a: Ele me guardar&aacute; as m&atilde;os puras de todo<br \/>\n    o atentado e livres de todo o sangue: tu v&ecirc; bem a guerra que intentas.<\/p>\n<p> Temos grande soma de muni&ccedil;&atilde;o, espadas luzentes, artilharia<br \/>\n    rija, dardos incendi&aacute;rios, armaduras para proteger os corpos afeitos<br \/>\n    a guerras cont&iacute;nuas.<\/p>\n<p> Tudo enfim est&aacute; bem preparado: aqui estou eu a postos para defender<br \/>\n    os rijos muros da fortaleza.<\/p>\n<p> Vamos pois! prontos estamos para a defesa do forte&rdquo;! Esta a resposta<br \/>\n    que o chefe Franc&ecirc;s remeteu ao her&oacute;i.<\/p>\n<p> Que cega loucura, &oacute; Franc&ecirc;s altivo, que soberba tamanha, que<br \/>\n    inc&ecirc;ndio de c&oacute;lera te invadiu a cabe&ccedil;a? Rejeitas a paz<br \/>\n    que te oferecem? Com que aux&iacute;lio confias conservar a vida? Cru&eacute;is<br \/>\n    batalhas te aprestam a morte, nem poupar&atilde;o a pequeno nem grande.<\/p>\n<p> Tanta confian&ccedil;a te inspira o alcantil desse forte? Sim, mas n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; f&aacute;cil ao Senhor, desde seus fundamentos arrasar garbosas cidades<br \/>\n    e espatifar contra o solo altaneiras torres? Ele que sacode as muralhas do<br \/>\n    mundo e com um aceno aterra os firmamentos celestes? Enquanto correm estas<br \/>\n    negocia&ccedil;&otilde;es de uma parte e de outra o general portugu&ecirc;s<br \/>\n    manda pedir &agrave; cidade, que se ufana do nome ilustre do M&aacute;rtir<br \/>\n    Vicente, enviem refor&ccedil;os e tropas &iacute;ndias de aux&iacute;lio.<\/p>\n<p> Inflamaram-se os cora&ccedil;&otilde;es: preparam ligeiros naus velozes<br \/>\n    e armas e, sem tardar, conforme o pedido, chegam, e com eles a flor dos guerreiros<br \/>\n    brasis, na m&atilde;os esquerda o arco e na direita as r&aacute;pidas flechas.<\/p>\n<p> Vejo com seu Irm&atilde;o de Ordem um sacerdote adestrado armado com o raio<br \/>\n    inflamado da palavra divina, membro da Companhia de Cristo Rei, para o soldado<br \/>\n    confessar suas faltas e lavar suas almas das manchas, antes de entrar no combate,<br \/>\n    onde talvez deixe a vida.<\/p>\n<p>O restante do povo os ajuda, erguendo preces ao alto; todo o sexo piedoso,<br \/>\n    com as crian&ccedil;as e os velhos, suplicam ao Senhor e aos Santos do c&eacute;u<br \/>\n    a vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> E que direi dos Jesu&iacute;tas e dos ministros sagrados? Dia e noite, com<br \/>\n    fervor sua mente e seus l&aacute;bios se voltam ao Pai celeste, ao Filho divino<br \/>\n    e ao Esp&iacute;rito Santo a se atribui igual felicidade, igual poder e igual<br \/>\n    gl&oacute;ria nas moradas eternas.<\/p>\n<p> Pedem-lhe que os auxilie e d&ecirc; aos nossos guerreiros a mais gloriosa<br \/>\n    vit&oacute;ria e o mais estrondoso triunfo.<\/p>\n<p> Foram eles, estou certo, que com seus gemidos e queixas comoveram os c&eacute;us<br \/>\n    e lhes abriram as portas da gra&ccedil;a; eles que, dardejando do peito ardente<br \/>\n    setas de fogo, moveram o Pai eterno a prostrar o inimigo, incutir-lhe terror<br \/>\n    e afugent&aacute;-lo para longe do forte.<\/p>\n<p> Vinte vezes a aurora erguera ao mundo o manto de trevas, desdobrando sua<br \/>\n    p&uacute;rpura sobre o p&aacute;lido rosto.<\/p>\n<p> O Governador prepara-se para o ataque do forte: re&uacute;ne os conselhos<br \/>\n    dos chefes, ainda que saiba a relut&acirc;ncia de todos.<\/p>\n<p> Diziam eles que n&atilde;o era poss&iacute;vel com armas algumas escalar<br \/>\n    o forte, cercado por rochas enormes, defendido por constru&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    numerosas.<\/p>\n<p> Mas o chefe magn&acirc;nimo tinha a peito acima de tudo propagar a f&eacute;.<\/p>\n<p> Apoiado de for&ccedil;a divina, sozinho op&otilde;e-se a todos e n&atilde;o<br \/>\n    sofre que o dobrem discursos alguns: atira-se ousado contra o imposs&iacute;vel<br \/>\n    e procura vencer os perigos da empresa que intenta: tal o rio, que lavradores<br \/>\n    represam com grandes barreiras de troncos e desviam para outras bacias, vai<br \/>\n    pelos campos vizinhos em regas estreitas, mas continua a lutar com esfor&ccedil;o<br \/>\n    contra a represa, at&eacute; que, forte pela massa das &aacute;guas, rompe<br \/>\n    a muralha e em turbilh&atilde;o se alarga como vasto oceano.<\/p>\n<p> Logo que se reuniram todos os maiorais em conselho, o governador exp&otilde;e<br \/>\n    o des&iacute;gnio que guarda no peito, e no meio da assembl&eacute;ia profere<br \/>\n    estas palavras: &ldquo;Chegamos, senhores, ao termo: estou enfim decidido<br \/>\n    a atacar a fortaleza altiva: bem sei a posi&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica<br \/>\n    do lugar e as constru&ccedil;&otilde;es montadas de in&uacute;meras pe&ccedil;as,<br \/>\n    os muitos bra&ccedil;os do inimigo e os Franceses postados a perder a vida<br \/>\n    ou salvar o forte a pre&ccedil;o de sangue.<\/p>\n<p> Mas que s&atilde;o essa for&ccedil;as para a onipot&ecirc;ncia divina? Porventura<br \/>\n    &eacute; dif&iacute;cil arrasar as torres mais altas ao Senhor que a um aceno<br \/>\n    faz tremer o pal&aacute;cio celeste? N&atilde;o &eacute; ele homem a tremer<br \/>\n    de batalh&otilde;es de soldados embora cru&eacute;is: ele desconhece os terrores<br \/>\n    dos homens.<\/p>\n<p> Ele incutir&aacute; for&ccedil;as e ajudar&aacute; compassivo a causa do<br \/>\n    justo e do fiel e com a destra potente abater&aacute; e esmagar&aacute; o<br \/>\n    inimigo, castigando co&rsquo;a morte cora&ccedil;&otilde;es &iacute;mpios,<br \/>\n    vazios da f&eacute; verdadeira.<\/p>\n<p> Confiados pois na for&ccedil;a do Deus invenc&iacute;vel, lancemo-nos &agrave;<br \/>\n    grande empresa para gl&oacute;ria divina.<\/p>\n<p> Preceda-nos o estandarte fulgente do triunfo de Cristo, e a desejada vit&oacute;ria<br \/>\n    seguir&aacute; a bandeira da Cruz!&rdquo; Esse grito que o chefe arrancou<br \/>\n    do peito ardoroso arrastou todos ao seu parecer: j&aacute; o peito dos bravos<br \/>\n    se acende no anseio das batalhas furiosas.<\/p>\n<p> Estuam as almas impacientes de ir arrasar as fortifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    francesas e entreg&aacute;-las &agrave;s chamas, ou generosas perder a vida<br \/>\n    em morte gloriosa pela causa santa da f&eacute; e da gloria divina.<\/p>\n<p> O pr&oacute;prio chefe, conduzido em batel, passa em revista a todos e manda<br \/>\n    que as naus avancem em ordem.<\/p>\n<p> Distribui seus homens: que todos cumpram seu cargo e guardem seu posto,<br \/>\n    quando come&ccedil;ar o combate e se atirarem &agrave; refrega.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o purifica sua alma das culpas e a fortifica com as armas de<br \/>\n    Cristo, caindo de joelhos aos p&eacute;s do ministro sagrado.<\/p>\n<p> Muitos imitaram o belo gesto do chefe e de cora&ccedil;&atilde;o sincero<br \/>\n    lhe seguiram o exemplo, purificando suas almas, manchadas de culpas.<\/p>\n<p> Chegara o dia que veria as batalha sangrentas de corpo a corpo, e de bandeira<br \/>\n    contra bandeira.<\/p>\n<p> Do alto da popa o almirante toca a trombeta, os homens em entusiasmo ardente<br \/>\n    se erguem de um salto, lan&ccedil;am m&atilde;o &agrave; obra, arrega&ccedil;am<br \/>\n    os bra&ccedil;os robustos e com grande grita recolhem os cabos pesados para<br \/>\n    soltar a proa.<\/p>\n<p> Abrem as velas bojudas que a aura suave, vinda do vasto oceano enche imediatamente<br \/>\n    com o afago do sopro.<\/p>\n<p> O sol volve seu carro de ouro ao completar a subida &iacute;ngreme do c&eacute;u.<\/p>\n<p> As proas em bico fendem as t&uacute;rgidas ondas em demanda das ameias da<br \/>\n    fortaleza inimiga.<\/p>\n<p> H&aacute; uma ilha pequena no meio da vasta ba&iacute;a que o mar rodeia,<br \/>\n    de todas as partes, de ondas: cercam-na rochas e as praias do continente vizinho<br \/>\n    donde saem as naus que v&atilde;o para o oceano atrav&eacute;s de estreitas<br \/>\n    portas, as quais divide uma laje pela metade.<\/p>\n<p> A&iacute; outrora constru&iacute;ram um forte os Franceses: por&eacute;m<br \/>\n    carregou-o a for&ccedil;a das ondas.<\/p>\n<p> Agora esta outra ilha ergue suas torres ferozes, forte por sua rochas inacess&iacute;veis,<br \/>\n    fervendo ao embate do mar furioso e gemendo ao som de grutas soturnas.<\/p>\n<p> Para o lado do ocaso se levanta a pequena colina: uma que outra palmeira<br \/>\n    ao longe a cobre de sombra com seus verdejantes leques.<\/p>\n<p> Perto dessa colina est&aacute; enorme rochedo talhado todo ao redor pelo<br \/>\n    pic&atilde;o tenaz.<\/p>\n<p> Em cima da pedra imponente se eleva o baluarte altivo, prenhe de artilharia.<\/p>\n<p> Mais al&eacute;m h&aacute; uma pequena altura e &agrave; sua direita uma<br \/>\n    cisterna, com casa dum lado e doutro, repleta de &aacute;gua.<\/p>\n<p> Bombardas numerosas defendem as estreitas veredas.<\/p>\n<p> Entre estas e a cisterna h&aacute; enorme abertura, onde as ondas remugem<br \/>\n    espumando de raiva.<\/p>\n<p> Ponte de um pau d&aacute; estreita passagem por cima do abismo.<\/p>\n<p> Transposta esta, do lado da aurora esplendente, depara-se um monte que parece<br \/>\n    subir &agrave;s estrelas, com escarpas a pique em redor.<\/p>\n<p> &Eacute; imposs&iacute;vel subir por a&iacute; ao cume, ou descer de l&aacute;<br \/>\n    para baixo.<\/p>\n<p> Um s&oacute; caminho escarpado e estreito conduz &agrave; altura: talhou-o<br \/>\n    na pedra, &agrave; for&ccedil;a de golpes teimosos e muito suor, o duro pic&atilde;o<br \/>\n    dos Franceses.<\/p>\n<p> E protegeu-o com baluartes de alvenaria.<\/p>\n<p> No cume ergue-se a torre sob arma&ccedil;&atilde;o de grossos madeiros defendida<br \/>\n    por bombardas e pela estrat&eacute;gia do posto: o rochedo todo &eacute; inacess&iacute;vel<br \/>\n    e se lan&ccedil;a &agrave;s alturas qual gigantesca montanha e inexpugn&aacute;vel<br \/>\n    penhasco.<\/p>\n<p> Assim pois os navios, t&uacute;rgidos de brisa os velames, v&ecirc;m sulcando<br \/>\n    a plan&iacute;cie do mar: em dire&ccedil;&atilde;o do oriente, j&aacute; volvem<br \/>\n    as naus maiores para, do meio das ondas, atacar a fortaleza com suas terr&iacute;veis<br \/>\n    muralhas.<\/p>\n<p> Canoas velozes, prenhes de soldados e armas fulgentes, se dirigem ao litoral<br \/>\n    crivado de escolhos e atacam a colina das palmeiras, onde os franceses postaram<br \/>\n    inumer&aacute;vel guarni&ccedil;&atilde;o de selvagens, que a defendam afastando<br \/>\n    os esquadr&otilde;es portugueses.<\/p>\n<p> Bem sabia o Franc&ecirc;s que essa fortaleza altaneira s&oacute; da&iacute;<br \/>\n    podia ser atacada pior flechas e balas.<\/p>\n<p> mas de nada adianta &agrave;s pobres for&ccedil;as humanas provocar o Onipotente:<br \/>\n    o chefe inspirado pelo alto manda volver &agrave; esquerda, que o Sol refulgente<br \/>\n    desperta quando sobre os corc&eacute;is da aurora deslumbra o oceano.<\/p>\n<p> Manda voltar velas &agrave;s outras naus e tomar de corrida a praia para<br \/>\n    onde forte arroio corre de altas florestas e se mistura ao mar.<\/p>\n<p> Era para que o incauto inimigo cresse nos apertava grande falta de &aacute;gua<br \/>\n    e enganado por essa id&eacute;ia abandonasse a colina.<\/p>\n<p> Foi um instante: apenas viu o bando inimigo que as naus a velas cheias voavam<br \/>\n    para esta abertura, precipita-se da colina em desordem e sobe &agrave;s canoas<br \/>\n    ligeiras e deslizando no dorso das vagas ocupa o litoral sinuoso e em vertiginosa<br \/>\n    carreira se atira &agrave;s torrentes marulhantes afim de poderem afastar<br \/>\n    das &aacute;guas l&iacute;mpidas ou trucidar nossos guerreiros.<\/p>\n<p> Loucos! deveriam ter ficado no s&iacute;tio marcado para afastar do acesso<br \/>\n    &agrave; colina os soldados intrusos, &uacute;nico posto que permitia o ataque<br \/>\n    do forte.<\/p>\n<p> Mas aguilhoada pela paix&atilde;o infrene do sangue, a inst&aacute;vel multid&atilde;o<br \/>\n    em v&atilde;o se arroja e furiosa e tresloucada vence o grande espa&ccedil;o<br \/>\n    de areia.<\/p>\n<p> Entretanto, voltando as velas com vento prop&iacute;cio nossos barcos armados<br \/>\n    ferraram a colina das palmas.<\/p>\n<p> Sem hesitar um momento, de todas as naus os guerreiros rompem como chama<br \/>\n    de fogo, pelo meio das rochas, escalam de um salto a colina, ocupam-lhe os<br \/>\n    cimos, escavam fundas trincheiras e no alto do cume fincam vitoriosa a bandeira<br \/>\n    da cruz resplendente.<\/p>\n<p> Outros correm &agrave;s naus e entre gritos possantes arrastam o falc&atilde;o:<br \/>\n    num momento, ei-lo postado no cume a vomitar inc&ecirc;ndios, da boca tremenda,<br \/>\n    e a arrojar pelouros, for&ccedil;ando a cantaria das casas.<\/p>\n<p> J&aacute; as balas de ferro arrombam a casa e os madeiros se desmoronam:<br \/>\n    responde feroz o Franc&ecirc;s arrojando balas que zunem.<\/p>\n<p> Entretanto nosso bronze gigante atira globos incandescentes do navio fronteiro.<\/p>\n<p>Fere duas vezes a casa, abala-a com toda a for&ccedil;a; e solapa a grande<br \/>\n    mole: as vigas partidas desabam em ru&iacute;na.<\/p>\n<p> Fogem os Franceses e pelos penhascos, seguros a cordas, apressados se escapam<br \/>\n    ao alto ref&uacute;gio da torre.<\/p>\n<p> Em grita, nossos valentes se precipitam do outeiro das palmas e seguem de<br \/>\n    vencidas aos fugitivos.<\/p>\n<p> Ultrapassando as ru&iacute;nas da primeira casa, se arrojam com &iacute;mpeto<br \/>\n    ardente &agrave; segunda colina.<\/p>\n<p> Ocupam as &aacute;guas que a cisterna recolhe, defendendo-se num parapeito<br \/>\n    de terra elevada.<\/p>\n<p> Entretanto trovejam horrendas as altas muralhas e com tiros tremendos espeda&ccedil;am<br \/>\n    e arrombam os navios fundeados no meio das &aacute;guas.<\/p>\n<p> O bruto canh&atilde;o vomita em chamas pedras e balas e cobre o azul do<br \/>\n    c&eacute;u de negra fuma&ccedil;a.<\/p>\n<p> O troar medonho acompanha o fogo incessante, ribombam os c&eacute;us e geme<br \/>\n    os espa&ccedil;os imensos, ringe a terra ao peso do fragor horroroso, freme<br \/>\n    o mar mugindo em longo murm&uacute;rio.<\/p>\n<p> Dir-se-ia que todo o universo saltara dos eixos: tamanhos eram o estrondo,<br \/>\n    a grita e o fogo das balas! Para o lado do &aacute;ureo levante, estava postada<br \/>\n    junto de um baluarte uma bombarda de metal amarelo sobre rodas de ferro.<\/p>\n<p> De boca enorme, o monstro arrotava penhascos e balas de metal, molestando<br \/>\n    &agrave; vontade com tiros cont&iacute;nuos as naus: fere as popas e arromba<br \/>\n    um e outro flanco, estilha&ccedil;a mastros e pranchas com fragor espantoso.<\/p>\n<p> Ora aponta a esta, ora &agrave;quela, e espeda&ccedil;a com um s&oacute;<br \/>\n    tiro mort&iacute;fero os corpos de muitos soldados.<\/p>\n<p> Os conveses se inundam de sangue.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o mais podem as naus continuar fundeadas.<\/p>\n<p> Livres das amarras fazem-se ao mar avariadas.<\/p>\n<p>O sol mergulha seu carro luzente nas ondas, e V&eacute;sper desdobrara seu<br \/>\n    manto noturno de trevas e na ab&oacute;bada celeste brilhavam mil luzes de<br \/>\n    estrelas.<\/p>\n<p> N&atilde;o se dormia no acampamento; cada qual preparava suas armas.<\/p>\n<p> Da colina das palmeiras o falc&atilde;o continuava a bater o alto da torre,<br \/>\n    arrotando bolas de fogo.<\/p>\n<p> Ressoam vozes e gritos de mulheres nas casas.<\/p>\n<p> Manda entretanto o governador fortificar por inteiro as trincheiras.<\/p>\n<p> Uns contra as balas enchem de pedra e terra grandes canastras tecidas de<br \/>\n    vime flex&iacute;vel.<\/p>\n<p> Outros retiram das naus os canh&otilde;es e os arrastam com o fragor gigantesco<br \/>\n    de suas rodas pesadas, e os colocam em postos escolhidos erguendo em redor<br \/>\n    um parapeito de terra.<\/p>\n<p> Depois esperam impaciente as batalhas temerosas do dia seguinte.<\/p>\n<p> J&aacute; os primeiros clar&otilde;es afastavam as trevas da noite e a aurora<br \/>\n    tingia o mar com seus raios serenos, j&aacute; o sol da orla do horizonte<br \/>\n    se lan&ccedil;ava &agrave; corrida que espalharia mais uma vez a luz pelo<br \/>\n    mundo: quando refulgem no alto as falanges francesas armadas de espadas e<br \/>\n    longas lan&ccedil;as; os corpos cobertos de reluzentes coura&ccedil;as.<\/p>\n<p> Armados de flechas a&iacute; se acham tamb&eacute;m os selvagens que tinham<br \/>\n    voado &agrave; aguada, para derramar o sangue dos lusos, quando nossas naus<br \/>\n    voltaram e deixaram as praias com as &aacute;guas, ajuntando-se aos seus e<br \/>\n    enganado o inimigo cruel que nutria feliz esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Viram-se ent&atilde;o enganados, fremiram terr&iacute;veis em v&atilde;o,<br \/>\n    acalentando cru&eacute;is desejos, de novo vencem num v&ocirc;o a praia j&aacute;<br \/>\n    em v&atilde;o percorrida e deslizam nas canoas ligeiras at&eacute; conseguirem<br \/>\n    grimpar pelas rochas espumosas ao alto da fortaleza.<\/p>\n<p> Nossas naus tentaram com balas estorvar-lhes o acesso: quanto preferiram<br \/>\n    eles subir &agrave; colina das palmas!.<\/p>\n<p> Portanto, &iacute;ndios e franceses, multid&atilde;o numerosa, atiram-se<br \/>\n    ao campo inimigo.<\/p>\n<p> Seus gritos abafam o rumor do oceano.<\/p>\n<p> Pressurosos lhes v&ecirc;m ao encontro os outros.<\/p>\n<p> Travam-se de m&atilde;os.<\/p>\n<p> Ferve duro o combate de uns e de outros.<\/p>\n<p> Cortam o ar as flechas zunindo de parte a parte.<\/p>\n<p> Geme os arcos ao golpe da corda, e a bala met&aacute;lica sibila rente &agrave;s<br \/>\n    cabe&ccedil;as.<\/p>\n<p> &Eacute; um inc&ecirc;ndio o ardor da luta.<\/p>\n<p> A terra se crava de in&uacute;meras setas, o espa&ccedil;o imenso se tolda<br \/>\n    e o c&eacute;u se cobre sob o denso granizo das flechas.<\/p>\n<p> Assim, depois que o Sul chuvoso deixou de regar campos verdes e bosques,<br \/>\n    e os trov&otilde;es j&aacute; cessaram de sacudir os nimbos; quando arde a<br \/>\n    atmosfera sob um sol causticante: sai das entranhas da terra a formiga, e,<br \/>\n    deixando os profundos lares maternos busca nova casa, pouco a pouco, junto<br \/>\n    das portas avulta o cicio, ergue-se em enxame cerrado sobre as quatro asinhas<br \/>\n    e libra-se nas auras ligeiras e forma densa nuvem sobre nossas cabe&ccedil;as.<\/p>\n<p> De parte a parte voam nos ares as flechas velozes e o combate flutua daqui<br \/>\n    e dali, com sorte indecisa.<\/p>\n<p> N&atilde;o cedem estes, nem aqueles recuam vencidos; nem estes arredam p&eacute;,<br \/>\n    nem voltam as costas aqueles.<\/p>\n<p> Enfim, com os membros quebrados do longo trabalho e rendidos pelo esfor&ccedil;o<br \/>\n    da luta renhida, afastam-se os dois ex&eacute;rcitos de t&aacute;cito acordo,<br \/>\n    este para o acampamento, aquele para o forte altaneiro.<\/p>\n<p> Entretanto, de um de outro lado, vomita chamas horrendo o canh&atilde;o;<br \/>\n    voam incessantes as balas tra&ccedil;ando riscos de luz, na densa fuma&ccedil;a,<br \/>\n    entre sons pavorosos.<\/p>\n<p> Ora &eacute; a bombarda inimiga que arromba o casco das naves, ora &eacute;<br \/>\n    o nosso canh&atilde;o que fere a torre altaneira, partindo traves e parapeitos<br \/>\n    e portas e trancas.<\/p>\n<p> J&aacute; o sol transpusera o z&ecirc;nite de sua carreira e volvia para<br \/>\n    o mar seus corc&eacute;is apressados.<\/p>\n<p> Os Franceses, como n&atilde;o puderam num primeiro combate reconquistar<br \/>\n    em contra ofensiva as &aacute;guas perdidas, espumam de raiva e aguilhoados<br \/>\n    pelo despeito retomam o combate, fiados em armaduras agora.<\/p>\n<p> Cingem o peito com a coura&ccedil;a luzente, e a cabe&ccedil;a com o capacete.<\/p>\n<p> A m&atilde;o empunha a espada recurva e a veste de malha cobre o corpo de<br \/>\n    alguns dos maiores.<\/p>\n<p> Assim armados, se precipitam da penha, cercados pela chusma dos &iacute;ndios.<\/p>\n<p> Brandem as espadas que chispam ao sol fronteiro e cortam o ar com golpes<br \/>\n    freq&uuml;entes.<\/p>\n<p> Sem temor algum transp&otilde;em a estreita ponte de um tronco.<\/p>\n<p> Come&ccedil;a a chover denso granizo de flechas: sem cessar os inimigos<br \/>\n    distendem os arcos e os tiros.<\/p>\n<p> Crivam de in&uacute;meras feridas as fileiras contr&aacute;rias.<\/p>\n<p> F&uacute;ria de parte a parte, de parte a parte golpes tremendos.<\/p>\n<p> Mas os Franceses, com o peito protegido de rija coura&ccedil;a, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o combatem com dardos, lan&ccedil;am m&atilde;o das espadas e se<br \/>\n    lan&ccedil;am &agrave; luta e com ousadia se esfor&ccedil;am por afastar das<br \/>\n    &aacute;guas perdidas os arraiais inimigos.<\/p>\n<p> J&aacute; as for&ccedil;as come&ccedil;am faltar aos nossos, cansados de<br \/>\n    tanta peleja, j&aacute; lhes nasce o desejo da fuga: largar aos Franceses<br \/>\n    que avan&ccedil;am as &aacute;guas tomadas.<\/p>\n<p> Eis sen&atilde;o quando um tiro da nossa bombarda arrebata a dois franceses<br \/>\n    encoura&ccedil;ados, varando de um golpe coura&ccedil;as e peitos altivos.<\/p>\n<p> Com que fulminados rolam estra&ccedil;alhados no ch&atilde;o pernas e bra&ccedil;os,<br \/>\n    e o sangue que salta tinge armas e pedras em volta.<\/p>\n<p> Fogem os outros arrastando os corpos despeda&ccedil;ados dos infelizes colegas<br \/>\n    e r&aacute;pidos galgam o forte.<\/p>\n<p> Entretanto os cavalos do Sol relinchavam j&aacute; pr&oacute;ximos do pouso<br \/>\n    da tarde.<\/p>\n<p> Com a morte de muitos as naus se afastaram da terra.<\/p>\n<p> N&atilde;o mais bombardeiam os muros da torre elevada: imenso cansa&ccedil;o<br \/>\n    prostrara os batalh&otilde;es que pelejavam em terra, t&atilde;o porfiadamente.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; meios algum para o cerco do forte altivo, rodeado todo<br \/>\n    de &iacute;ngremes rochas, pe&ccedil;as de fogo, valentes franceses e ferozes<br \/>\n    selvagens.<\/p>\n<p> Ademais um caminho re&uacute;ne grandes montes de pedras para prostrar e<br \/>\n    esmagar os soldados que tentem escalar a montanha: &eacute; esta a &uacute;nica<br \/>\n    senda de acesso ao forte.<\/p>\n<p> Quem ousar&aacute; galgar tal muralha? E eis que um cuidado maior acresce<br \/>\n    ao cansa&ccedil;o, surge um estorvo que n&atilde;o podiam sequer esperar.<\/p>\n<p> Na guerra de mar e de terra, gastara-se a p&oacute;lvora toda, esse p&oacute;,<br \/>\n    que a m&atilde;o do destro oper&aacute;rio fabrica de vivo enxofre, de negro<br \/>\n    carv&atilde;o e de nitro em grande fornalha, p&oacute; que alimenta a chama<br \/>\n    furiosa e aumenta de muito o poder desse elemento.<\/p>\n<p> Que far&atilde;o dora em diante? com que for&ccedil;as o forte ser&aacute;<br \/>\n    atacado, se o fogo mortal com golpe incessante deixar de derrocar as posi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    inimigas? cont&iacute;nuos cuidados v&aacute;rios come&ccedil;am a angustiar<br \/>\n    soldados e chefes.<\/p>\n<p> Com que estratagemas se acolher&atilde;o aos navios eles e os canh&otilde;es,<br \/>\n    de tal sorte que n&atilde;o o sinta o inimigo? A d&uacute;vida e o medo de<br \/>\n    um grande desastre os oprime.<\/p>\n<p> Referve o anseio cruel no fundo de todos os peitos e a imagem do perigo<br \/>\n    j&aacute; paira em todos os olhos.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, como creio, o governador, no sil&ecirc;ncio da ang&uacute;stia,<br \/>\n    arrancou do cora&ccedil;&atilde;o vozes queixosas, pedindo ao Pai celeste<br \/>\n    o aux&iacute;lio que as for&ccedil;as humanas n&atilde;o lhe queriam dar.<\/p>\n<p> Com olhos cravados na altura lan&ccedil;ava para o c&eacute;u estas palavras<br \/>\n    de prece: &ldquo;Ai! porque nos entrega, supremo Criador do universo, sem<br \/>\n    recurso nenhum, aos &uacute;ltimos riscos da vida? Bem v&ecirc;s que nossas<br \/>\n    for&ccedil;as, rendidas por imenso trabalho, j&aacute; n&atilde;o podem subsistir.<\/p>\n<p>Como podes deixar que sejamos o opr&oacute;brio do inimigo? porque zombar&atilde;o<br \/>\n    de teu nome esses b&aacute;rbaros? porque h&aacute; de o franc&ecirc;s conspurcado<br \/>\n    pelo crime feio da heresia, insultar teus soldados crist&atilde;os e fi&eacute;is?<br \/>\n    A coragem nos abandonou por completo, n&atilde;o resta outra for&ccedil;a;<br \/>\n    compadece-te tu, sen&atilde;o perecemos! Olha, Pai Celeste, para os que carecem<br \/>\n    de todo o recurso.<\/p>\n<p> Estende a m&atilde;o bondosa e sinta teu furor justiceiro.<\/p>\n<p> a ra&ccedil;a inimiga.<\/p>\n<p> Se soltares as r&eacute;deas da ira, o pr&oacute;prio espa&ccedil;o se armar&aacute;<br \/>\n    de feixes de luzes, lan&ccedil;ar&aacute; em combate suas torrentes de dardos,<br \/>\n    e com a destra oculta arrojar&aacute; seus raios ferozes, incendiando do bojo<br \/>\n    das nuvens o forte altaneiro.<\/p>\n<p> Vamos, apressa-te, corre em aux&iacute;lio e levanta os que est&atilde;o<br \/>\n    a cair; e aos povos selvagens e &iacute;mpios castiga-os! experimentem o imenso<br \/>\n    poder de teu bra&ccedil;o nossos contr&aacute;rios! enfim arranca dos perigos<br \/>\n    presentes o ex&eacute;rcito crist&atilde;o que te ama e respeitoso te adora<br \/>\n    e por tua gl&oacute;ria se atira &agrave;s mais duras pelejas&rdquo;.<\/p>\n<p> Ouviu o Rei celeste estas vozes, ouviu juntamente as que os jesu&iacute;tas<br \/>\n    e os povos fi&eacute;is nesse tempo arrancavam do peito, abalando com gemidos<br \/>\n    e prantos as portas do c&eacute;u compassivo.<\/p>\n<p> N&atilde;o houve demora.<\/p>\n<p> Oh! quem pudera sequer imaginar de que modo haveriam os ferozes Franceses<br \/>\n    de abandonar um forte t&atilde;o firme pela natureza e t&atilde;o seguro pela<br \/>\n    arte da guerra? Mas, eis que Deus chama um ministro do ex&eacute;rcito alado<br \/>\n    Manda-lhe que corte os espa&ccedil;os com as c&eacute;leres asas afugente<br \/>\n    os inimigos do posto altaneiro, insuflando-lhes o terror pelas trevas da noite.<\/p>\n<p> Cumprem-se as ordens: voa ele veloz pelas nuvens e segue-o de aspecto horrendo<br \/>\n    e impass&iacute;vel, esqu&aacute;lido e l&iacute;vido, o terror: envolve-o<br \/>\n    um manto de sombras e ruflam as asas negras pelos c&eacute;us nevoentos.<\/p>\n<p> Apresenta duras fei&ccedil;&otilde;es, a morte sangrenta, cru&eacute;is<br \/>\n    grilh&otilde;es com ranger de correntes e ferros, supl&iacute;cios vingadores<br \/>\n    prenhes de exterm&iacute;nio e de sangue.<\/p>\n<p> Tal foi o monstro horrendo, miser&aacute;vel e feio que, &agrave;s ordens<br \/>\n    for&ccedil;osas do Senhor do universo, um ministro alado, membro da hierarquia<br \/>\n    celeste, lan&ccedil;ou incontinente dentro das muralhas francesas.<\/p>\n<p> Apenas o terr&iacute;vel temor transp&ocirc;s os umbrais altaneiros da primeira<br \/>\n    porta, j&aacute; todos dentro come&ccedil;am a empalidecer; tremem, e pelos<br \/>\n    membros lhes c&ocirc;a gelado pavor.<\/p>\n<p> Em breve &eacute; a fuga por rochas e ondas.<\/p>\n<p> Sem demora, sem descanso: o temor agarra-se aos ossos.<\/p>\n<p> Parecia que o horror cercara sa&iacute;das e portas, e logo, logo espadas<br \/>\n    vingadoras e dardos agudos e chamas devoradoras se comprimiam &agrave;s portas.<\/p>\n<p> Tudo incute terror a essas mentes turvadas, e amea&ccedil;a, aos valentes<br \/>\n    de h&aacute; pouco, morte cruenta.<\/p>\n<p> Do lado em que o Sol se lan&ccedil;a &agrave; corrida brilhante do dia,<br \/>\n    por rochedos abruptos, todos ele, agarrados em cordas, muito longas e armadas<br \/>\n    de n&oacute;s numerosos, v&atilde;o-se acolhendo a barcas e atrav&eacute;s<br \/>\n    de &aacute;speras rochas e de agitadas ondas buscam o litoral dos selvagens,<br \/>\n    deixando o forte erguido em formid&aacute;vel penhasco, constru&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    descomunais e inexpugn&aacute;vel rochedo.<\/p>\n<p> Tamanho era o terror que o Senhor Deus onipotente lhes metera nas mentes<br \/>\n    e cora&ccedil;&otilde;es apavorados! Nos aflitos arraiais lusos espalha-se<br \/>\n    em breve o boato da fuga pelos rochedos e abandono do forte.<\/p>\n<p> Erguem-se todos &agrave; pressa, com a &acirc;nsia de verem esses muros<br \/>\n    desertos e atingem a parte mais alta do penhasco, e fincam logo a cruz vencedora<br \/>\n    no cimo do forte e aclamam o nome santo de Cristo.<\/p>\n<p> Pasmam da constru&ccedil;&atilde;o gigante, dos rochedos em roda todos a<br \/>\n    pique, protegendo em suas dobras edif&iacute;cios recentes, dos escolhos em<br \/>\n    que o mar espuma horrificamente.<\/p>\n<p> O pr&oacute;prio governador, olhando todo esse posto, que for&ccedil;as<br \/>\n    humanas jamais com arma nenhuma poderiam arrasar, do &iacute;ntimo peito canta<br \/>\n    louvores ao deus eterno, que tomou o monte e o forte altaneiro e com a for&ccedil;a<br \/>\n    de seu bra&ccedil;o afugentou o inimigo.<\/p>\n<p> &Oacute; muito amado de Deus, anci&atilde;o venerando, por quem batalham<br \/>\n    os astros da altura e pelejam o c&eacute;u e os corpos ang&eacute;licos, a<br \/>\n    quem dos fortes celestes envia aux&iacute;lio o Pai onipotente: tu, quando<br \/>\n    for&ccedil;as humanas n&atilde;o podiam trazer-te socorro, com tuas preces<br \/>\n    arrancadas do fundo do peito, atra&iacute;ste aos teus desejos o soberano<br \/>\n    do mundo, para apoiar teus combates com sua for&ccedil;a divina.<\/p>\n<p> Eia, novo &acirc;nimo, anci&atilde;o, no templo celeste ter&aacute;s por<br \/>\n    destino a gl&oacute;ria, e os coros dos anjos te cingir&atilde;o com a coroa<br \/>\n    de rei triunfante: depois de sujeitares a Cristo os litorais brasileiros e<br \/>\n    ensinares a venerar o nome santo de Cristo.<\/p>\n<p> Entram finalmente nas casas desertas.<\/p>\n<p> Dentro se achava n&uacute;mero enorme de muni&ccedil;&otilde;es, cuja for&ccedil;a<br \/>\n    n&atilde;o pode segurar os Franceses.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o se encontrava ali a imagem da cruz resplendente, nem a dos<br \/>\n    santos que habita, o reino dos c&eacute;us, por cujos merecimentos e preces<br \/>\n    o Rei supremo se inclina ao perd&atilde;o e abranda piedoso a c&oacute;lera<br \/>\n    justa e santa, protege os reinos terrestres e enche de dons abundantes as<br \/>\n    almas humanas.<\/p>\n<p> Encontrava-se a&iacute; um grande m&oacute;vel, cheio de livros que encerram<br \/>\n    doutrinas crivadas de impiedades e erros.<\/p>\n<p> Martim Lutero os comp&ocirc;s com mente perversa e mandou a seus filhos<br \/>\n    observ&aacute;-los &agrave; risca.<\/p>\n<p> Enraivado, muitas blasf&ecirc;mias arrojou contra o papa, Sumo Pont&iacute;fice<br \/>\n    e contra a Igreja, esposa de Cristo.<\/p>\n<p> Muitas outras vomitou de seus l&aacute;bios impuros Jo&atilde;o Br&ecirc;ncio,<br \/>\n    ra&ccedil;a de Lutero e digno de inf&acirc;mia paterna: e o petulantes Melanton<br \/>\n    de cora&ccedil;&atilde;o mal cheiroso.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m a&iacute; estava a fera que os abismos do inferno h&aacute;<br \/>\n    pouco arrotaram de suas vasas imundas, drag&atilde;o inchado de todo o veneno<br \/>\n    que o mundo preparou em seus monstros.<\/p>\n<p> &Eacute; Calvino, a serpente de coleio variado e horrendo, que abra&ccedil;a<br \/>\n    no rolo de suas espirais o forte, vibra olhares de fogo e agita a l&iacute;ngua<br \/>\n    tr&iacute;fida em ru&iacute;dos de morte.<\/p>\n<p> &Eacute; este quem te proteger&aacute; contra for&ccedil;a celeste &Oacute;<br \/>\n    &iacute;mpio franc&ecirc;s? estes s&atilde;o os arcos, estas as balas de fogo<br \/>\n    que para ti preparaste? Calvino vencer a Cristo, Senhor do c&eacute;u e da<br \/>\n    terra? em que f&uacute;rias ardentes te consumias, que loucura de ti se apossava<br \/>\n    quando, desprezando a bandeira triunfante de Cristo, pensavas defender com<br \/>\n    teus venenos de monstro os muros do forte? N&atilde;o sabias que o drag&atilde;o<br \/>\n    que habitava as cavernas do inferno, ca&iacute;ra outrora vencido, quando<br \/>\n    Cristo estendeu os bra&ccedil;os nus sobre o lenho, santificando com rios<br \/>\n    de sangue o horrendo madeiro? Eis o digno pr&ecirc;mio que teus feitos merecem!<br \/>\n    Assim alegres todos, no meio do forte vencido descantam os louvores do Pai<br \/>\n    onipotente.<\/p>\n<p> Erguem um altar: o sacerdote, na veste sagrada, celebra o banquete augusto<br \/>\n    do p&atilde;o sacrossanto, que jamais fora a&iacute; celebrado: a gera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Calvino rejeita com impiedade o alimento celeste, nem cr&ecirc; que as<br \/>\n    esp&eacute;cies de p&atilde;o encerram a Cristo.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, os soldados vencedores, depois da matan&ccedil;a, atiram-se<br \/>\n    &aacute;vidos aos mal adquiridos bens dos Franceses, carregam com eles as<br \/>\n    naus triunfantes, e arrastam os canh&otilde;es que t&atilde;o negras ru&iacute;nas<br \/>\n    causaram lan&ccedil;ando seus fogos.<\/p>\n<p> Geme sob a massa enorme as rodas de ferro com horrendo ru&iacute;do: o batel<br \/>\n    que os acolhe mal pode levar aos navios esses pesos gigantes.<\/p>\n<p> Arrasam at&eacute; aos &uacute;ltimos fundamentos o forte e abatem todos<br \/>\n    os basti&otilde;es com m&atilde;os impiedosas.<\/p>\n<p> Tudo se desmorona, geme a terra ao baque dos pesos.<\/p>\n<p> Com loucos alaridos ajuntam as toras enormes em altas fogueiras.<\/p>\n<p> Obras que h&aacute; pouco erguiam a fronte at&eacute; as estrelas, jazem<br \/>\n    agora por terra em peda&ccedil;os, presa do fogo voraz: a chama se ceva sem<br \/>\n    freio.<\/p>\n<p> A fuma&ccedil;a cobre o c&eacute;u de escura fuligem, e em nuvens densas<br \/>\n    escurece os orbes celestes, e luzem as &aacute;guas rumorosas aos clar&otilde;es<br \/>\n    da fogueira.<\/p>\n<p> Como quando o lavrador encerrou nos celeiros as douradas espigas, despojando<br \/>\n    de seus frutos os campos: ent&atilde;o lan&ccedil;a fogo &agrave;s hastes<br \/>\n    secas, sobre a fuma&ccedil;a &agrave;s alturas, a relva ao longe vai crepitando,<br \/>\n    enquanto os campos se cobrem de escuros res&iacute;duos.<\/p>\n<p> Assim ruiu o forte franc&ecirc;s desde as cimeiras, e o fogo num momento<br \/>\n    reduziu a cinzas esses muros altivos.<\/p>\n<p> Foi Deus quem domou essas iras sem freio, foi ele que lhes esmagou a soberba:<br \/>\n    Cristo, sim Cristo que rege os destinos humanos, a quem obedece o mundo das<br \/>\n    orbes, de quem treme a terra espa&ccedil;osa, o c&eacute;u brilhante e o inferno<br \/>\n    de sombras trevosas.<\/p>\n<p> A for&ccedil;a de teu bra&ccedil;o realizou estes milagres, Cristo poderoso;<br \/>\n    tu meteste no cora&ccedil;&atilde;o dos Franceses o medo cruel, de ti fugiu<br \/>\n    a multid&atilde;o dos malvados, e aterrorizada abandonou as gigantescas muralhas;<br \/>\n    a ti somente se deve, a ti, Jesus, esta gl&oacute;ria! Tu reges com teu cetro<br \/>\n    os vastos globos do espa&ccedil;o, e com um aceno guias o mundo brilhante<br \/>\n    dos astros volvendo no eterno giro as arcadas celestes.<\/p>\n<p>A ti obedece o sol e a luz com seu ciclo de fases, os orbes sid&eacute;reos,<br \/>\n    o misterioso lume celeste e o oceano transparente dos espa&ccedil;os imensos,<br \/>\n    a aurora de raios claros e V&eacute;sper que cora, as estrelas do Sul e os<br \/>\n    astros fulgurantes do Norte, a primavera e o inverno de g&eacute;lidas brumas.<\/p>\n<p> Tu governas os abismos e os litorais rumorosos do mar, habitado de monstros,<br \/>\n    e suas ondas em luta; quando queres, o mar, ao sopro turbulento dos ventos,<br \/>\n    se indigna e ergue em seus bra&ccedil;os tempestades medonhas.<\/p>\n<p> De novo, ao teu mando, o vento ind&ocirc;mito deixa sua raiva, e as ondas<br \/>\n    mansas guardam fundo sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> A ti obedece a terra, tu lhe fecundas o seio com as &aacute;guas das altas<br \/>\n    nuvens, e ela &agrave; tua ordem, das prenhes entranhas jorra seus alegres<br \/>\n    presentes, seu variado tesouro! Tu sustentas a vida a quanto animal se abriga<br \/>\n    sob o teto celeste, pintas as aves de cores e lhes concede a todas librar<br \/>\n    pelos espa&ccedil;os di&aacute;fanos as penas ligeiras.<\/p>\n<p> Tu &eacute; &uacute;nico Senhor do mundo, tu dos globos celestes &eacute;<br \/>\n    o Criador imenso, que tudo moves, coevo do Pai e do Esp&iacute;rito Eterno,<br \/>\n    eterno la&ccedil;o de amor.<\/p>\n<p> Tu, quando criaste os astros do c&eacute;u sempre em giro e as legi&otilde;es<br \/>\n    ang&eacute;licas, habitantes felizes da altura, derrubaste das sedes et&eacute;reas,<br \/>\n    como folha que rola, a L&uacute;cifer orgulhoso de seu esplendor deslumbrante,<br \/>\n    e ambicioso do cetro divino.<\/p>\n<p> Lan&ccedil;aste-o nos antros do fogo eterno com muitos milhares de seus<br \/>\n    companheiros, e em v&atilde;o o drag&atilde;o te amea&ccedil;a com os dentes<br \/>\n    e a cauda.<\/p>\n<p> Tu, quando a ra&ccedil;a de Ad&atilde;o, inchada de orgulho, intentava at&eacute;<br \/>\n    &agrave;s estrelas levantar uma torre, de tijolos cozidos ao fogo e de negro<br \/>\n    betume, que tocasse com o v&eacute;rtice o firmamento celeste e que lembrasse<br \/>\n    a sua gl&oacute;ria: tu, desceste da altura, lhes confundiste a l&iacute;ngua<br \/>\n    e com ela todas as obras; dispersaste os homens por v&aacute;rias regi&otilde;es<br \/>\n    do universo, deixando inacabado esse momento do orgulho.<\/p>\n<p> E, como foi que outrora experimentou tua for&ccedil;a o Fara&oacute; que<br \/>\n    dominava as sete bocas do Nilo, quando o agitado Mar Vermelho parou de estupefato,<br \/>\n    rasgou em meio as ondas e mostrou longo abismo? Tu abriste ao teu povo uma<br \/>\n    estrada segura pelos plainos profundos do mar e nesses mesmos abismos afogas<br \/>\n    o rei e sepultas seus carros de bronze.<\/p>\n<p> Quando as &aacute;guas do Jord&atilde;o enchiam ambas as margens e mal cabiam<br \/>\n    em seu leito, a uma tua palavra se dividiram e volveram atr&aacute;s: uma<br \/>\n    parte parou e se ergueu &agrave; guisa de monte, e a outra continuou a correr<br \/>\n    para o mar.<\/p>\n<p> Passaram seguras, de p&eacute;s enxutos, pelos vaus secos do rio, as fileiras,<br \/>\n    admirando ao lado a montanha de &aacute;guas suspensas.<\/p>\n<p> De ti recebeu a merecida pena de morte Jeric&oacute;, a &iacute;mpia cidade<br \/>\n    das palmas, quando ru&iacute;ram ao toque das trombetas sagradas as altas<br \/>\n    muralhas e se desmoronaram desde os seus alicerces mais fundos.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o o teu povo invadiu e devastou vitorioso a cidade inteira e<br \/>\n    exterminou a fio de espada jovens velhos e at&eacute; indefesas mulheres.<\/p>\n<p> E que grandes exterm&iacute;nio feriu o ex&eacute;rcito dos Filisteus que<br \/>\n    cercavam com tantas for&ccedil;as um povo sem armas, quando, contigo &agrave;<br \/>\n    frente, Jonatas, soldado animoso, rastejando de m&atilde;os e p&eacute;s,<br \/>\n    passou os terr&iacute;veis rochedos com suas rudes arestas, e derrotou a multid&atilde;o<br \/>\n    inimiga! Ao medo horr&iacute;vel que lhes incutiste, eles fugiam, enquanto<br \/>\n    o jovenzinho, veloz como um raio, prostrava com seus golpes batalh&otilde;es<br \/>\n    de inimigos! O c&eacute;u, o mar, a terra imensa, todos te temem, tudo est&aacute;<br \/>\n    sujeito ao teu poder, e at&eacute; os infernos estremecem ao teu nome.<\/p>\n<p> Tu, depois que a serpente enganara nosso primeiro pai e sepultara o g&ecirc;nero<br \/>\n    humano sob o peso do pecado, tu, para lhe renovares a vida te abrigaste ao<br \/>\n    seio da Virgem M&atilde;e; respiraste auras humanas e nascido iluminaste as<br \/>\n    trevas da terra, enriquecendo com dons celestes a pobreza do mundo.<\/p>\n<p> Sofrendo em tua carne inocente horrendos trabalhos e morte de cruz , arrancaste<br \/>\n    &agrave;s fauces da morte aquele a quem afeava o lab&eacute;u do pecado, e<br \/>\n    lan&ccedil;aste aos antros sombrios o tirano do inferno.<\/p>\n<p> Penetrando nas f&eacute;rreas pris&otilde;es do limbo vizinho, soltaste<br \/>\n    os cativos e devastaste as regi&otilde;es da tristeza.<\/p>\n<p> Ao livrar das trevas os presos, irritou-se em suas cavernas o drag&atilde;o<br \/>\n    infernal.<\/p>\n<p> Tu o prendes em cadeias de fogo e em v&atilde;o ele uiva seus gemidos horrendos.<\/p>\n<p> Quebras o poder &agrave; morte e calcas aos p&eacute;s o inferno.<\/p>\n<p> Sai das regi&otilde;es inferiores cheio de trof&eacute;us majestosos e sobes<br \/>\n    &agrave;s alturas do c&eacute;u entre nimbos de gl&oacute;ria.<\/p>\n<p> Vencedor aplaudido.<\/p>\n<p> Celebras teu ilustre triunfo sentando-se &agrave; destra do Pai, muito al&eacute;m<br \/>\n    das estrelas: Com o cetro e a coroa, recebes o reino que mereceste.<\/p>\n<p> Salve, art&iacute;fice do mundo, Jesus, Gl&oacute;ria do c&eacute;u; poderes<br \/>\n    e reinos te temem, veneram-te todos os climas, onde quer que chegue o Sol<br \/>\n    com seus raios, e excede tua magnific&ecirc;ncia as alturas celestes.<\/p>\n<p> J&aacute; o teu nome se espalha at&eacute; aos confins do universos, &oacute;<br \/>\n    Cristo, como torrente de penetrante perfume, chegando at&eacute; aos Jap&otilde;es,<br \/>\n    os mais afastados da terra.<\/p>\n<p> Arrancadas &agrave;s trevas e iluminada pelo sol fulgurante da luz divina,<br \/>\n    tamb&eacute;m vir&aacute; um dia adorar-te a na&ccedil;&atilde;o que se ceva<br \/>\n    agora em carnes humanas.<\/p>\n<p> A terra em que sopre o Sul, conhecer&aacute; o teu nome e ao mundo austral<br \/>\n    advir&atilde;o os s&eacute;culos de ouro, quando as gentes bras&iacute;licas<br \/>\n    observarem tua doutrina Gl&oacute;ria imensa a ti, &oacute; Pai bondoso; gl&oacute;ria,<br \/>\n    &oacute; Filho imensa a ti; &oacute; Esp&iacute;rito, gl&oacute;ria imensa<br \/>\n    a ti! Tu que concebeste pelo Santo Esp&iacute;rito ao Filho do Pai eterno,<br \/>\n    gl&oacute;ria a ti, &oacute; Virgem!.<\/p>\n<h4>FIM<\/h4>\n<p><strong>AP&Ecirc;NDICE DA EDI&Ccedil;&Atilde;O 1563 AO ILUSTRE MEM DE S&Aacute;<\/strong><\/p>\n<p>Por muito tempo, her&oacute;i, esteve oculta a sublime majestade veneranda<br \/>\n    de teu cora&ccedil;&atilde;o generoso, dign&iacute;ssima do poder, em limites<br \/>\n    alguns estreitado, fadada a suster os raios torvos de Marte sangrento, restaurar<br \/>\n    no mundo, por raz&atilde;o ou for&ccedil;a, os s&eacute;culos d&rsquo;ouro.<\/p>\n<p> Enfim te enviaram como governador a essas plagas da gente austral, avessa<br \/>\n    a leis e tanta vez opressora, sacudindo (&oacute; maravilha) de nossa cabe&ccedil;a<br \/>\n    seu jugo.<\/p>\n<p> Mas a Morte feroz foi, como sempre, invejosa de teus feitos.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o lastimada chorou a terra guerreira ao ver roubar um jovem,<br \/>\n    em cuja fronte brilhava quanto pareceu a outro pai fugir em Asc&acirc;nio.<\/p>\n<p> Fora ele que do nobre sangue te nascera primeiro, digno de que tal fama<br \/>\n    lhe celebrasse os destinos na morte qual eles a concederam a tais pais, quando<br \/>\n    nascia, digno de que a gl&oacute;ria lhe preferisse &agrave; vida o sepulcro.<\/p>\n<p> A morte, digo, saltando em t&atilde;o grande duelo, arrebatou esse penhor,<br \/>\n    &uacute;ltimo consolo paterno.<\/p>\n<p> Reservado a qualquer risco e conduzido contigo por horrendos abismos, atormentara-o<br \/>\n    o oceano nas curvas ondas.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o afaga os tenros bra&ccedil;os ingl&oacute;rio, mas<br \/>\n    no campo de batalha, cobertos de armas, ativo prostra corpos de inimigos,<br \/>\n    e grava nos astros que brilham eternamente eterna lembran&ccedil;a.<\/p>\n<p> &Aacute;tropos j&aacute; em chamas, mas inda n&atilde;o satisfeita, esfor&ccedil;a-se<br \/>\n    por mergulhar tais triunfos nas &aacute;guas do negro Letes.<\/p>\n<p> Na r&aacute;pida torrente arrebata das m&atilde;os vencedoras as palmas<br \/>\n    verdejantes da idade &aacute;urea dos Portugueses; para que o olvido da h&oacute;rrida<br \/>\n    noite cubra a luz dos fatos com as trevas eternas.<\/p>\n<p> Enquanto impiedosa prepara &agrave;s tuas gl&oacute;rias e foice com que<br \/>\n    ocultara os dois filhos, astros fulgentes do mundo, ralentada pelo n&uacute;mero<br \/>\n    das obras, seguindo-a pelas costas, aproxima-se Francisco, filho segundo,<br \/>\n    ilustre, vestido com as armas douradas da Apolo.<\/p>\n<p>Com elas de improviso a agride, e rapidamente rouba-lhe das m&atilde;os as<br \/>\n    verdes palmas, e &agrave; morte vencida arranca os mesmo trof&eacute;us que<br \/>\n    a cruel se dispunha a roubas a teus filhos, aos teus feitos e fama.<\/p>\n<p> Pois esta, sangrando monumentos a sucessos gloriosos, poupou um merecido<br \/>\n    renome &agrave;s fauces do tempo devorador; e a luz que tu, chefe ilustre,<br \/>\n    concedes aos filhos nascidos ao mundo, ele sozinho a restaura a ti, aos teus<br \/>\n    feitos, a seus irm&atilde;os, como vida que n&atilde;o se extinguir&aacute;<br \/>\n    jamais nos tempos vindouros.<\/p>\n<p> Com raz&atilde;o pois nada perdeste, car&iacute;ssimo pai: pois vive um<br \/>\n    filho, por quem os mais te revivem, e s&eacute;culos felizes te sagrar&atilde;o<br \/>\n    a vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> Estas poesias, f&ecirc;-las editar Francisco de S&aacute;, filho de Mem<br \/>\n    de S&aacute;.<\/p>\n<p><strong>FIM<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Livro I Livro II Livro III Livro IV Padre Jos\u00e9 de Anchieta A MEM DE S&Aacute; GOVERNADOR Ep&iacute;stola Dedicat&oacute;ria Eis que v&ecirc;s, potentado supremo, qu&atilde;o grande fa&ccedil;anha realizou a for&ccedil;a do onipotente Deus. O ind&ocirc;mito Brasil j&aacute; seus anchos orgulhos dep&ocirc;s, e tombou, rendido &agrave;s tuas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-115788","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Feitos de Mem de S\u00e1, Obra Feitos de Mem de S\u00e1<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Feitos de Mem de S\u00e1, Obra, Padre Jos\u00e9 de Anchieta, Governador, Livro, Literatura, Feitos de Mem de S\u00e1\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" 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