{"id":115783,"date":"2017-03-27T13:11:33","date_gmt":"2017-03-27T15:11:33","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115783"},"modified":"2017-03-27T13:11:33","modified_gmt":"2017-03-27T15:11:33","slug":"auto-representado-na-festa-de-sao-lourenco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-representado-na-festa-de-sao-lourenco","title":{"rendered":"Auto Representado na Festa de S\u00e3o Louren\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"373\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Primeiro Ato<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Segundo Ato<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Terceiro Ato<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Quarto Ato<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Quinto Ato<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>Padre Jos\u00e9 de Anchieta<\/h4>\n<p><strong>TEMA<\/strong><\/p>\n<p>Ap&oacute;s a cena do mart&iacute;rio de S&atilde;o Louren&ccedil;o, Guaixar&aacute;<br \/>\n    chama Aimbir&ecirc; e Saravaia para ajudarem a perverter a aldeia. S&atilde;o<br \/>\n    Louren&ccedil;o a defende, S&atilde;o Sebasti&atilde;o prende os dem&ocirc;nios.<br \/>\n    Um anjo manda-os sufocarem D&eacute;cio e Valeriano. Quatro companheiros acorrem<br \/>\n    para auxiliar os dem&ocirc;nios.<\/p>\n<p> Os imperadores recordam fa&ccedil;anhas, quando Aimbir&ecirc; se aproxima.<br \/>\n    O calor que se desprende dele abrasa os imperadores, que suplicam a morte.<br \/>\n    O Anjo, o Temor de Deus, e o Amor de Deus aconselham a caridade, contri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e confian&ccedil;a em S&atilde;o Louren&ccedil;o. Faz-se o enterro do santo.<br \/>\n    Meninos &iacute;ndios dan&ccedil;am.<\/p>\n<h4><a name=\"1\">PRIMEIRO ATO<\/a><\/h4>\n<p><em>(Cena do mart&iacute;rio de S&atilde;o Louren&ccedil;o)<\/em><\/p>\n<p>Cantam:<\/p>\n<p>Por Jesus, meu salvador, Que morre por meus pecados, Nestas brasas morro<br \/>\n    assado Com fogo do meu amor Bom Jesus, quando te vejo Na cruz, por mim flagelado,<br \/>\n    Eu por ti vivo e queimado Mil vezes morrer desejo Pois teu sangue redentor<br \/>\n    Lavou minha culpa humana, Arda eu pois nesta chama Com fogo do teu amor.<\/p>\n<p> O fogo do forte amor, Ah, meu Deus!, com que me amas Mais me consome que<br \/>\n    as chamas<br \/>\n    E brasas, com seu calor.<\/p>\n<p> Pois teu amor, pelo meu Tais prod&iacute;gios consumou, Que eu, nas brasas<br \/>\n    onde estou, Morro de amor pelo teu.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">SEGUNDO ATO<\/a><\/h4>\n<p><em>(Eram tr&ecirc;s diabos que querem destruir a aldeia com pecados, aos<br \/>\n    quais resistem S&atilde;o Louren&ccedil;o, S&atilde;o Sebasti&atilde;o e o<br \/>\n    Anjo da Guarda, livrando a aldeia e prendendo os tentadores cujos nomes s&atilde;o:<br \/>\n    Guaixar&aacute;, que &eacute; o rei; Aimbir&ecirc; e Saravaia, seus criados)<\/em><\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute;<\/p>\n<p>Esta virtude estrangeira Me irrita sobremaneira.<\/p>\n<p> Quem a teria trazido, com seus h&aacute;bitos polidos estragando a terra<br \/>\n    inteira? S&oacute; eu permane&ccedil;o nesta aldeia como chefe guardi&atilde;o.<\/p>\n<p> Minha lei &eacute; a inspira&ccedil;&atilde;o que lhe dou, daqui vou longe<br \/>\n    visitar outro torr&atilde;o.<\/p>\n<p> Quem &eacute; forte como eu? Como eu, conceituado? Sou diabo bem assado.<\/p>\n<p> A fama me precedeu; Guaixar&aacute; sou chamado.<\/p>\n<p> Meu sistema &eacute; o bem viver.<\/p>\n<p> Que n&atilde;o seja constrangido o prazer, nem abolido.<\/p>\n<p> Quero as tabas acender com meu fogo preferido Boa medida &eacute; beber<br \/>\n    cauim at&eacute; vomitar.<\/p>\n<p> Isto &eacute; jeito de gozar a vida, e se recomenda a quem queira aproveitar.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;ada beberrona trago bem conceituada.<\/p>\n<p> Valente &eacute; quem se embriaga e todo o cauim entorna, e &agrave; luta<br \/>\n    ent&atilde;o se consagra.<\/p>\n<p> Quem bom costume &eacute; bailar! Adornar-se, andar pintado, tingir pernas,<br \/>\n    empenado fumar e curandeirar, andar de negro pintado.<\/p>\n<p> Andar matando de f&uacute;ria, amancebar-se, comer um ao outro, e ainda<br \/>\n    ser espi&atilde;o, prender Tapuia, desonesto a honra perder.<\/p>\n<p> Para isso com os &iacute;ndios convivi.<\/p>\n<p> V&ecirc;m os tais padres agora com regras fora de hora pr&aacute; que duvidem<br \/>\n    de mim.<\/p>\n<p> Lei de Deus que n&atilde;o vigora.<\/p>\n<p> Pois aqui tem meu ajudante-mor, diabo bem requeimado, meu bom colaborador:<br \/>\n    grande Aimber&ecirc;, perversor dos homens, regimentado.<\/p>\n<p> (Senta-se numa cadeira e vem uma velha chorar junto dele.<\/p>\n<p> E ele a ajuda, como fazem os &iacute;ndios.<\/p>\n<p> Depois de chorar, achando-se enganada, diz a velha)<\/p>\n<p>VELHA<\/p>\n<p>O diabo mal cheiroso, teu mau cheiro me enfastia.<\/p>\n<p> Se vivesse o meu esposo, meu pobre Piraca&ecirc;, isso agora eu lhe diria.<\/p>\n<p> N&atilde;o prestas, &eacute;s mau diabo.<\/p>\n<p> Que bebas, n&atilde;o deixarei do cauim que eu mastiguei.<\/p>\n<p> Beberei tudo sozinha, at&eacute; cair beberei.<\/p>\n<p> (a velha foge)<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute;<\/p>\n<p>(Chama Aimber&ecirc; e diz:) Ei, por onde andavas tu? Dormias noutro lugar?<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Fui as Tabas vigiar, nas serras de norte a sul nosso povo visitar.<\/p>\n<p> Ao me ver regozijaram, bebemos dias inteiros.<\/p>\n<p> Adornaram-se festeiros.<\/p>\n<p> Me abra&ccedil;aram , me hospedaram, das leis de deus estrangeiros.<\/p>\n<p> Enfim, confraternizamos.<\/p>\n<p> Ao ver seu comportamento, tranq&uuml;ilizei-me.<\/p>\n<p> &Oacute; portento! V&iacute;cios de todos os ramos tem seus cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    por dentro.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Por isso no teu grande reboli&ccedil;o eu confio, que me baste os novos que<br \/>\n    cativaste, os que corrompeste ao v&iacute;cio.<\/p>\n<p> Diz os nomes que agregaste.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Gente de maratuau&atilde; no que eu disse acreditaram; os das ilhas, nestas<br \/>\n    m&atilde;os deram alma e cora&ccedil;&atilde;o; mais os paraibiguaras.<\/p>\n<p> &Eacute; certo que algum perdi, que os mission&aacute;rios levaram a Mangue&aacute;.<\/p>\n<p> Me irritaram.<\/p>\n<p> Raivo de ver os tupis que do meu la&ccedil;o escaparam.<\/p>\n<p> Depois dos muitos que nos ficaram os padres sonsos quiseram com mentiras<br \/>\n    seduzir.<\/p>\n<p> N&atilde;o v&ecirc; que os deixei seguir &mdash; ao meu apelo atenderam.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>De que recurso usaste para que n&atilde;o nos fugissem? <\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Trouxe aos tapuias os trastes das velhas que tu instru&iacute;ste em Mangue&aacute;.<\/p>\n<p> Que isto baste.<\/p>\n<p> Que elas s&atilde;o de fato m&aacute;s, fazem feiti&ccedil;o e mandinga,<br \/>\n    e esta lei de Deus n&atilde;o vinga.<\/p>\n<p> Conosco &eacute; que buscam a paz, no ensino de nossa l&iacute;ngua.<\/p>\n<p> E os tapuias por folgarem, nem quiseram vir aqui.<\/p>\n<p> De dan&ccedil;a os enlouqueci para a passagem comprarem para o inferno que<br \/>\n    acendi.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>J&aacute; chega.<\/p>\n<p> Que tua fala me alegra, teu relat&oacute;rio me encanta.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Usarei de igual destreza para arrastar outras presas nesta guerra pouco santa.<\/p>\n<p> O povo Tupinamb&aacute; que em Paragua&ccedil;u morava, e que de Deus se<br \/>\n    afastava, deles hoje um s&oacute; n&atilde;o h&aacute;, todos a n&oacute;s<br \/>\n    se entregaram.<\/p>\n<p> Tomamos Mo&ccedil;upiroca, Jequei, Gualapitiba, Niter&oacute;i e Para&iacute;ba,<br \/>\n    Guajaj&oacute;, Carij&oacute;-oca, Pacucaia, Ara&ccedil;atiba Todos os tamoios<br \/>\n    foram Jazer queimando no inferno.<\/p>\n<p> Mas h&aacute; alguns que ao Padre Eterno fi&eacute;is, nesta aldeia moram,<br \/>\n    livres do nosso caderno.<\/p>\n<p> Estes maus Temimin&oacute;s nosso trabalho destroem.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Vem tent&aacute;-los que se moem a blasfemar contra n&oacute;s.<\/p>\n<p> Que bebam, roubem e esfolem.<\/p>\n<p> Que provoquem muitas lutas, muitos pecados cometam, por outro lados se metam<br \/>\n    longe desta aldeia, &agrave; escuta dos que as nossas leis prometam.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>&Eacute; bem dif&iacute;cil tent&aacute;-los.<\/p>\n<p> Seu valente guardi&atilde;o me amedronta.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>E quais s&atilde;o? <\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>&Eacute; S&atilde;o Louren&ccedil;o a gui&aacute;-los, de Deus fiel Capit&atilde;o.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Qual? Louren&ccedil;o o consumado nas chamas qual somos n&oacute;s? <\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Esse.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Fica descansado.<\/p>\n<p> N&atilde;o sou assim t&atilde;o covarde, ser&aacute; logo afugentado.<\/p>\n<p> Aqui est&aacute; quem o queimou e ainda vivo o cozeu.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>`Por isso o que era teu ele agora libertou e na morte te venceu.<\/p>\n<p> H&aacute; tamb&eacute;m o seu amigo Basti&atilde;o, de flechas crivado.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>O que eu deixei transpassado? N&atilde;o fa&ccedil;as broma comigo que sou<br \/>\n    bem desaforado.<\/p>\n<p> Ambos fugir&atilde;o logo aqui me virem chegar.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Olha que vais te enganar! <\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Tem confian&ccedil;a, te rogo, que horror lhes vou inspirar.<\/p>\n<p> Quem como eu nas terras existe que at&eacute; Deus desafiou? <\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Por isso Deus te expulsou, e do inferno o fogo triste para sempre te abrasou.<\/p>\n<p> Eu lembro de outra batalha em que Guaixar&aacute; entrou.<\/p>\n<p> Muito povo te apoiou, e, inda que lhes desses for&ccedil;as, na fuga se<br \/>\n    debandou.<\/p>\n<p> N&atilde;o eram muitos crist&atilde;os.<\/p>\n<p> Contudo nada ficou da for&ccedil;a que te inspirou, pois veio Sebasti&atilde;o,<br \/>\n    na for&ccedil;a fogo ateou.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Por certo aqueles crist&atilde;os t&atilde;o rebeldes n&atilde;o seriam.<\/p>\n<p> Mas esses que aqui est&atilde;o desprezam a devo&ccedil;&atilde;o e a Deus<br \/>\n    n&atilde;o reverenciam.<\/p>\n<p> Vais ver como em nossos la&ccedil;os caem, logo estes malvados! De nossos<br \/>\n    dons confiados, as almas cederam passo para andar do nosso lado.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Assim mesmo tentarei.<\/p>\n<p> Um dia obedecer&atilde;o.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute;<\/p>\n<p>Ao sinal de minha m&atilde;o os &iacute;ndios te entregarei.<\/p>\n<p> E &agrave; for&ccedil;a sucumbir&atilde;o.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Preparemos a emboscada.<\/p>\n<p> N&atilde;o te afobes.<\/p>\n<p> Nosso espia ver&aacute; em cada morada que armas nos s&atilde;o preparadas<br \/>\n    na luta que se inicia.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Muito bem &eacute;s capaz disso Saravaia meu vigia? <\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Sou dem&ocirc;nio da alegria e assumi tal compromisso.<\/p>\n<p> Vou longe nesta porfia.<\/p>\n<p> Saravaia&ccedil;u me chamo.<\/p>\n<p> Com que tarefa me aprazas? <\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Ouve as ordens de teu amo, quero que espies as casas e voltes quando te chame.<\/p>\n<p> Hoje vou deixar que leves os &iacute;ndios aprisionados.<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Irei onde me carregues.<\/p>\n<p> E agrade&ccedil;o que me entregues encargo t&atilde;o desejado.<\/p>\n<p> Como Saravaia sou, aos &iacute;ndios que me aliei enfim aprisionarei.<\/p>\n<p> E neste barco me vou.<\/p>\n<p> De cauim me embriagarei.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Anda logo! vai ligeiro! <\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Como um raio correrei! (Sai)<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute;<\/p>\n<p>(Passeia com Aimbir&ecirc; e diz:) Demos um curto passeio Quando volte o<br \/>\n    mensageiro a aldeia destro&ccedil;arei.<\/p>\n<p>(Volta Saravaia e Aimber&ecirc; diz:) <\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Danado! Voltou voando!<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Demorou menos que um raio! Foste mesmo, Saravaia? <\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Fui.<\/p>\n<p> J&aacute; est&atilde;o comemorando os &iacute;ndios nossa vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> Alegra-te! Transbordava o cauim, o prazer regurgitava.<\/p>\n<p> E a beber, as iga&ccedil;abas esgotam at&eacute; o fim.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>E era forte? <\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Forte estava.<\/p>\n<p> E os rapazes beberr&otilde;es que pervertem esta aldeia, caiam de cara cheia.<\/p>\n<p> Velhos, velhas, mocet&otilde;es que o cauim desnorteia.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>J&aacute; basta.<\/p>\n<p> Vamos mansinho tom&aacute;-los todos de assalto.<\/p>\n<p> Nosso fogo arda bem alto.<\/p>\n<p> (Vem S&atilde;o Louren&ccedil;o com dois companheiros.<\/p>\n<p> Diz Aimbir&ecirc;:) <\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>H&aacute; um sujeito no caminho que me amea&ccedil;a de assalto.<\/p>\n<p> Ser&aacute; Louren&ccedil;o, o queimado? <\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Ele mesmo, e Sebasti&atilde;o.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>E o outro, dos tr&ecirc;s que s&atilde;o? <\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Talvez seja o anjo mandado, desta aldeia o guardi&atilde;o.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Ai! Eles me esmagar&atilde;o! N&atilde;o posso sequer olh&aacute;-los.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>N&atilde;o te entregues assim n&atilde;o, ao ataque, meu irm&atilde;o! Teremos<br \/>\n    que amedront&aacute;-los, As flechas evitaremos, fingiremos de atingidos.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Olha, eles v&ecirc;m decididos a a&ccedil;oitar-nos.<\/p>\n<p> Que faremos? Penso que estamos perdidos.<\/p>\n<p> (S&atilde;o Louren&ccedil;o fala a Guaixar&aacute;:) <\/p>\n<p>S&Atilde;O LOUREN&Ccedil;O <\/p>\n<p>Quem &eacute;s tu? <\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute;<\/p>\n<p>Sou Guaixar&aacute; embriagado, sou boicininga, jaguar, antrop&oacute;fago,<br \/>\n    agressor, andir&aacute;-gua&ccedil;u alado, sou dem&ocirc;nio matador.<\/p>\n<p>S&Atilde;O LOUREN&Ccedil;O<\/p>\n<p>E este aqui? <\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Sou jib&oacute;ia, sou soc&oacute;, o grande Aimbir&ecirc; tamoio.<\/p>\n<p> Sucuri, gavi&atilde;o malhado, sou tamandu&aacute; desgrenhado, sou luminosos<br \/>\n    dem&ocirc;nio.<\/p>\n<p>S&Atilde;O LOUREN&Ccedil;O<\/p>\n<p>Dizei-me o que quereis desta minha terra em que nos vemos.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Amando os &iacute;ndios queremos que obedi&ecirc;ncia nos prestem por tanto<br \/>\n    que lhes fazemos.<\/p>\n<p> Pois se as coisas s&atilde;o da gente, ama-se sinceramente.<\/p>\n<p>S&Atilde;O SEBASTI&Atilde;O <\/p>\n<p>Quem foi que insensatamente, um dia ou presentemente? os &iacute;ndios vos<br \/>\n    entregou? Se o pr&oacute;prio Deus t&atilde;o potente deste povo em santo<br \/>\n    of&iacute;cio corpo e alma modelou! <\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Deus? Talvez remotamente pois &eacute; nada edificante a vida que resultou.<\/p>\n<p> S&atilde;o pecadores perfeitos, repelem o amor de Deus, e orgulham-se dos<br \/>\n    defeitos.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Bebem cuim a seu jeito, como completos sandeus ao cauim rendem seu preito.<\/p>\n<p> Esse cauim &eacute; que tolhe sua gra&ccedil;a espiritual.<\/p>\n<p> Perdidos no bacanal seus esp&iacute;ritos se encolhem em nosso la&ccedil;o<br \/>\n    fatal.<\/p>\n<p>S&Atilde;O LOUREN&Ccedil;O <\/p>\n<p>N&atilde;o se esfor&ccedil;am por orar na luta do dia a dia.<\/p>\n<p> Isto &eacute; fraqueza, de certo.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Sua boca respira perto do pouco que Deus confia.<\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>&Eacute; verdade, intimamente resmungam desafiando ao Deus que os est&aacute;<br \/>\n    guiando.<\/p>\n<p> Dizem: &ldquo;Ser&aacute; realmente capaz de me ver passando?&rdquo;<\/p>\n<p>S&Atilde;O SEBASTI&Atilde;O<\/p>\n<p>(Para Saravaia:) Ser&aacute;s tu um pobre rato? Ou &eacute;s um gamb&aacute;<br \/>\n    nojento? Ou &eacute;s a noite de fato que as galinhas afugenta e assusta os<br \/>\n    &iacute;ndios no mato? <\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>No anseio de devorar as almas, sequer dormi.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute;<\/p>\n<p>Cala-te! Fale eu por ti.<\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>N&atilde;o v&aacute;s me denominar, pra que n&atilde;o me mate aqui.<\/p>\n<p> Esconda-me, antes, dele.<\/p>\n<p> Eu por ti vigiarei.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Cala-te! Te guardarei! Que a l&iacute;ngua n&atilde;o te revele, depois te<br \/>\n    libertarei.<\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Se n&atilde;o me viu, safarei.<\/p>\n<p> Inda posso me esconder.<\/p>\n<p>S&Atilde;O SEBASTI&Atilde;O <\/p>\n<p>Cuidado que lan&ccedil;arei o dardo em que o flecharei.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Deixa-o.<\/p>\n<p> Vem de adormecer.<\/p>\n<p>S&Atilde;O SEBASTI&Atilde;O <\/p>\n<p>A noite ele n&atilde;o dormiu para os &iacute;ndios perturbar <\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Isso n&atilde;o se h&aacute; de negar.<\/p>\n<p> (A&ccedil;oita-o Guaixar&aacute; e diz:) <\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Cala-te! Nem mais um pio, que ele quer te devorar.<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Ai de mim! Por que me bates assim, pois estou bem escondido? (Aimbir&ecirc;<br \/>\n    com S&atilde;o Sebasti&atilde;o ) <\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Vamos! Deixa-nos a s&oacute;s, e retirai-vos que a n&oacute;s meu povo espera<br \/>\n    afligido.<\/p>\n<p>S&Atilde;O SEBASTI&Atilde;O <\/p>\n<p>Que povo?<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Todos os que aqui habitam desde &eacute;pocas mais antigas, velhos, mo&ccedil;as,<br \/>\n    raparigas, submissos aos que lhes ditam nossas palavras amigas.<\/p>\n<p> Vou contar todos seus v&iacute;cios, Em mim acreditar&aacute;s? <\/p>\n<p>S&Atilde;O SEBASTI&Atilde;O <\/p>\n<p>Tu n&atilde;o me convencer&aacute;s.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>T&ecirc;m bebida aos desperd&iacute;cios, cauim n&atilde;o lhes faltar&aacute;.<\/p>\n<p> De &eacute;brios d&atilde;o-se ao malef&iacute;cio, ferem-se, brigam, sei<br \/>\n    l&aacute;! <\/p>\n<p>S&Atilde;O SEBASTI&Atilde;O <\/p>\n<p>Ouvem do morubixaba censuras em cada taba, disso n&atilde;o os livrar&aacute;s.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Censura aos &iacute;ndios? Conversa! Vem logo o dono da farra, convida todos<br \/>\n    &agrave; festa, velhos, jovens, mo&ccedil;ocaras com morubixaba &agrave; testa.<\/p>\n<p> Os jovens que censuravam com morubixaba dan&ccedil;am, e de comer n&atilde;o<br \/>\n    se cansam, e no cauim se lavam, e sobre as mo&ccedil;as avan&ccedil;am.<\/p>\n<p>S&Atilde;O SEBASTI&Atilde;O <\/p>\n<p>Por isso aos aracaj&aacute;s vivem voc&ecirc;s freq&uuml;entando, e a todos<br \/>\n    aprisionando.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Conosco vivem em paz, pois se entregam aos desmandos.<\/p>\n<p>S&Atilde;O SEBASTI&Atilde;O <\/p>\n<p>Uns aos outros se pervertem convosco colaborando.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>N&atilde;o sei.<\/p>\n<p> Vamos trabalhando, e ao v&iacute;cios bem se convertem &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    do nosso mando.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute;<\/p>\n<p>Eu que te ajude a explicar.<\/p>\n<p> As velhas, como serpentes, injuriam-se entre dentes, maldizendo sem cessar.<\/p>\n<p> As que mais calam consentem.<\/p>\n<p> Pecam as inconseq&uuml;entes com intrigas bem tecidas, preparam negras bebidas<br \/>\n    pra serem belas e ardentes no amor na cama e na vida.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>E os rapazes cobi&ccedil;osos, perseguindo o mulherio para escravas do gentio.<\/p>\n<p> Assim invadem fogosos&#8230;<\/p>\n<p> dos brancos o casario.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute;<\/p>\n<p>Esta hist&oacute;ria n&atilde;o termina antes que desponte a lua, e a taba<br \/>\n    se contamina.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>E nem sequer raciocinam que &eacute; o inferno que cultuam.<\/p>\n<p>S&Atilde;O LOUREN&Ccedil;O<\/p>\n<p>Mas existe a confiss&atilde;o, bem rem&eacute;dio para a cura.<\/p>\n<p> Na comunh&atilde;o se depura da mais funda perdi&ccedil;&atilde;o a alma<br \/>\n    que o bem procura.<\/p>\n<p> Se depois de arrependidos os &iacute;ndios v&atilde;o confessar dizendo:<br \/>\n    &ldquo;Quero trilhar o caminho dos remidos&rdquo;.<\/p>\n<p> &mdash; o padre os vai aben&ccedil;oar.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Como se nenhum pecado tivessem, fazem a falsa confiss&atilde;o, e se disfar&ccedil;am<br \/>\n    dos v&iacute;cios aben&ccedil;oados, e assim viciados passam.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Absolvidos dizem: &ldquo;na hora da morte meus v&iacute;cios renegarei&rdquo;.<\/p>\n<p> E entregam-se &agrave; sua sorte.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Ouviste que enumerei os males s&atilde;o seu forte.<\/p>\n<p>S&Atilde;O LOUREN&Ccedil;O <\/p>\n<p>Se com &oacute;dio procurais tanto assim prejudic&aacute;-los, n&atilde;o<br \/>\n    vou eu abandon&aacute;-los.<\/p>\n<p> E a Deus erguerei meus ais para no transe ampar&aacute;-los.<\/p>\n<p> Tanto confiaram em mim construindo esta capela, plantando o bem sobre ela.<\/p>\n<p> N&atilde;o os deixarei assim sucumbir sem mais aquela.<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>&Eacute; in&uacute;til, desista disso! Por mais for&ccedil;a que lhes d&ecirc;s,<br \/>\n    com o vento, num dois tr&ecirc;s daqui lhes darei sumi&ccedil;o.<\/p>\n<p> Deles nem sombra vereis.<\/p>\n<p> Aimbir&ecirc; vamos conservar a terra com chifres, unhas, tridentes, e alegrar<br \/>\n    as nossas gentes.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Aqui vou com minhas garras, meus longos dedos, meus dentes, <\/p>\n<p>ANJO <\/p>\n<p>N&atilde;o julgueis, tolos dementes, por no fogo esta legi&atilde;o, Aqui<br \/>\n    estou com Sebasti&atilde;o e S&atilde;o Louren&ccedil;o, n&atilde;o tentem<br \/>\n    lev&aacute;-los &agrave; dana&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Pobres de v&oacute;s que irritastes de tal forma o bom Jesus Juro que em<br \/>\n    nome da cruz ao fogo vos condenastes (Aos santos ) Prendei-os donos da luz!<br \/>\n    (Os santos prendem os dois diabos )<\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Basta! <\/p>\n<p>S&Atilde;O LOUREN&Ccedil;O <\/p>\n<p>N&atilde;o! Teu cinismo me agasta.<\/p>\n<p> Destes provas que sobejam de querer destruir a igreja.<\/p>\n<p>S&Atilde;O SEBASTI&Atilde;O<\/p>\n<p>(A Aimber&ecirc;:) <\/p>\n<p>Grita! Lamenta! Te arrasta! Te prendi! <\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Maldito Seja! (Preso os dois fala o Anjo a Saravaia que ficou escondido)<\/p>\n<p>ANJO <\/p>\n<p>E tu que est&aacute; escondido ser&aacute; acaso um morcego? Sapo cururu<br \/>\n    mingu&aacute;, ou filhote de gamb&aacute;, ou bruxa pedindo arrego? Sai da&iacute;<br \/>\n    seu fedorendo, abelha de asa de vento, zorrilho, maritaca, seu lesma, tamarutaca.<\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Ai vida, que me aprisionam! N&atilde;o v&ecirc;s que morro de sono? <\/p>\n<p>ANJO <\/p>\n<p>Quem &eacute;s tu? <\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Sou Saravaia Inimigo dos franceses.<\/p>\n<p>ANJO <\/p>\n<p>Teus t&iacute;tulos s&atilde;o s&oacute; estes? <\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Sou tamb&eacute;m mestre em tocaia, porco entre todas as reses.<\/p>\n<p>ANJO<\/p>\n<p>Por isso &eacute;s sujo e enlameias tudo com teu negro rabo.<\/p>\n<p> Veremos como pateias no fogo que a gente ateia.<\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>N&atilde;o! Por todos os diabos! Eu te dou ovas de peixe, farinha de mandioca,<br \/>\n    desde que agora me deixas, te dou dinheiro aos feixes.<\/p>\n<p>ANJO <\/p>\n<p>N&atilde;o te entendo, ma&ccedil;aroca.<\/p>\n<p> As coisas que me prometes em troca, de onde roubaste? Que morada assaltaste<br \/>\n    antes que aqui te escondeste? Muito coisa tu furtaste? <\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>N&atilde;o, somente o que falei.<\/p>\n<p> Da casa dos bons crist&atilde;os foi bem pouco o que apanhei; Tenho o que<br \/>\n    trago nas m&atilde;os, por muito que trabalhei.<\/p>\n<p> Aqueles outros t&ecirc;m mais.<\/p>\n<p> Para comprar cauim aos &iacute;ndios, em boa paz, dei o que tinha, e demais,<br \/>\n    pois pobre acabei assim.<\/p>\n<p>ANJO<\/p>\n<p>Vamos! Restitui-lhes tudo o que tiveres roubado.<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>N&atilde;o fa&ccedil;as isto, estou b&ecirc;bedo, mais do que o demo rabudo<br \/>\n    da sogra do meu cunhado.<\/p>\n<p> Tem paci&ecirc;ncia, me perdoa, meu irm&atilde;o, estou doente.<\/p>\n<p> Das minhas almas presente farei a ti, pr&aacute; que em boa hora as cucas<br \/>\n    lhes rebentes, Leva o nome destes monstros e famoso ficar&aacute;s.<\/p>\n<p>ANJO<\/p>\n<p>E onde lhes foste ao encontro? <\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Fui pelo sert&atilde;o a dentro, lacei as almas, rapaz.<\/p>\n<p>ANJO <\/p>\n<p>De que fam&iacute;lias descendem? <\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Desse assunto pouco sei.<\/p>\n<p> Filhos de &iacute;ndios talvez.<\/p>\n<p> Na corda os enfileirei presos todos de uma vez.<\/p>\n<p> Passei noites sem dormir, nos seus lares espreitei, fiz suas casas explodir,<br \/>\n    suas mulheres lacei, pra que n&atilde;o possam fugir.<\/p>\n<p> (Amarra-o o anjo e diz:) <\/p>\n<p>ANJO <\/p>\n<p>Quantas maldades fizeste! Por isso o fogo te espera.<\/p>\n<p> Viver&aacute;s do que tramaste nesta abrasada tapera em que pro fim te pilhaste.<\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Aimber&ecirc;! <\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>Oi! <\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Vem logo dar-me a m&atilde;o! Este louco me prendeu.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc; <\/p>\n<p>A mim tamb&eacute;m me venceu o flechado Sebasti&atilde;o.<\/p>\n<p> Meu orgulho arrefeceu.<\/p>\n<p>SARAVAIA <\/p>\n<p>Ai de mim! Guaixar&aacute;, dormes assim, sem pensar em me salvar? <\/p>\n<p>GUAIXAR&Aacute; <\/p>\n<p>Est&aacute;s louco, Saravaia N&atilde;o v&ecirc;s que Louren&ccedil;o ensaia<br \/>\n    maneira de me queimar? <\/p>\n<p>ANJO <\/p>\n<p>Bem junto, pois sois comparsas, ardereis eternamente.<\/p>\n<p> Enquanto n&oacute;s, Deo Gratias!, sob a luz da minha guarda viveremos santamente.<\/p>\n<p> (Faz uma pr&aacute;tica aos ouvintes) Alegrai-vos, filhos meus, na santa<br \/>\n    gra&ccedil;a de Deus, pois que dos c&eacute;us eu desci, para junto a v&oacute;s<br \/>\n    estar e sempre vos amparar dos males que h&aacute; por aqui.<\/p>\n<p> Iluminado esta aldeia junto de v&oacute;s estarei, por nada me afastarei<br \/>\n    &mdash; pois a isto me nomeia Deus, Nosso Senhor e Rei! Ele que a cada um<br \/>\n    de v&oacute;s um anjo seu destinou.<\/p>\n<p> Que n&atilde;o vos deixe mais s&oacute;s, e ao mando de sua voz os dem&ocirc;nios<br \/>\n    expulsou.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m S&atilde;o Louren&ccedil;o o virtuoso, Servo de Nosso Senhor,<br \/>\n    vos livra com muito amor terras e almas, extremoso, do dem&ocirc;nio enganador.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m S&atilde;o Sebasti&atilde;o valente santo soldado, que aos<br \/>\n    tamoios rebelados deu outrora uma li&ccedil;&atilde;o hoje est&aacute; do<br \/>\n    vosso lado E mais &mdash; Paranapucu, Jacutinga, Mor&oacute;i, Sarigu&eacute;ia,<br \/>\n    Guiriri, Pindoba, Parigua&ccedil;u, Curu&ccedil;a, Miapei E a tapera do pecado,<br \/>\n    a de Jabebiracica, n&atilde;o existe.<\/p>\n<p> E lado a lado a na&ccedil;&atilde;o dos derrotados no fundo do rio fica.<\/p>\n<p> Os franceses seus amigos, inutilmente trouxeram armas.<\/p>\n<p> Por n&oacute;s combateram Louren&ccedil;o, jamais vencido, e S&atilde;o<br \/>\n    Sebasti&atilde;o flecheiro.<\/p>\n<p> Estes santos, em verdade, das almas se compadecem aparando-as, desvanecem<br \/>\n    (&Oacute; armas da caridade!) Do v&iacute;cio que as envilece.<\/p>\n<p> Quando o dem&ocirc;nio amea&ccedil;ar vossas almas, v&oacute;s vereis com<br \/>\n    que for&ccedil;a h&atilde;o de zelar.<\/p>\n<p> Santos e &iacute;ndios sereis pessoas de um mesmo lar.<\/p>\n<p> Tentai velhos v&iacute;cios extirpar, e as maldades c&aacute; da terra evitai,<br \/>\n    bebida e guerra, adult&eacute;rio, repudiai tudo o que o instinto encerra.<\/p>\n<p> Amai vosso Criador cuja lei pura e isenta S&atilde;o Louren&ccedil;o representa.<\/p>\n<p> Engrandecei ao Senhor que de bens vos acrescenta.<\/p>\n<p> Este mesmo S&atilde;o Louren&ccedil;o que aqui foi queimado vivo pelos maus,<br \/>\n    feito cativo, e ao mart&iacute;rio foi infenso, sendo o feliz redivivo.<\/p>\n<p> Fazei-vos amar por ele, e amai-o quanto puderdes, que em sua lei nada se<br \/>\n    perde.<\/p>\n<p> E confiando mais nele, mais o c&eacute;u se vos concede.<\/p>\n<p> Vinde &agrave; direita celestial de Deus Pai, ireis gozar junto aos que<br \/>\n    bem v&atilde;o guardar no cora&ccedil;&atilde;o que &eacute; leal, e aos p&eacute;s<br \/>\n    de Deus repousar.<\/p>\n<p> (Fala com os santos convidando-os a cantar e se despede) Cantemos todos,<br \/>\n    cantemos! Que foi derrotado o mal! Esta hist&oacute;ria celebremos, nosso<br \/>\n    reino inauguremos nessa alegria campal! (Os santos levam presos os diabos<br \/>\n    os quais, na &uacute;ltima repeti&ccedil;&atilde;o da cantiga choram)<\/p>\n<p>CANTIGA <\/p>\n<p>Alegrem-se os nossos filhos por Deus os ter libertado.<\/p>\n<p> Guaixar&aacute; seja queimado, Aimbir&ecirc; v&aacute; para o ex&iacute;lio,<br \/>\n    Saravaia condenado! Guaixar&aacute; seja queimado, Aimbir&ecirc; v&aacute;<br \/>\n    para o ex&iacute;lio, Saravaia condenado!<\/p>\n<p>(Voltam os santos)<\/p>\n<p>Alegrai-vos, vivei bem, vitoriosos do v&iacute;cio, aceitai o sacrif&iacute;cio<br \/>\n    que ao amor de Deus conv&eacute;m.<\/p>\n<p> Da&iacute; fuga ao Demo-ningu&eacute;m! Guaixar&aacute; seja queimado, Aimbir&ecirc;<br \/>\n    v&aacute; para o ex&iacute;lio, Saravaia condenado!<\/p>\n<h4><a name=\"3\">TERCEIRO ATO<\/a><\/h4>\n<p><em>Depois de S&atilde;o Louren&ccedil;o morto na grelha o Anjo fica em sua<br \/>\n    guarda, e chama os dois diabos, Aimbir&ecirc; e Saravaia, que venham sufocar<br \/>\n    os imperadores D&eacute;cio e Valeriano que est&atilde;o sentados em seus<br \/>\n    tronos.<\/em><\/p>\n<p>ANJO<\/p>\n<p>Aimbir&ecirc;!<br \/>\n    Estou chamando voc&ecirc;.<br \/>\n    Apressa-te ! Corre! J&aacute;!<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Aqui estou! Pronto! O que h&aacute;!<br \/>\n    Ser&aacute; que vai me pender<br \/>\n    de novo este passar&atilde;o?<\/p>\n<p>ANJO<\/p>\n<p>Reservei-te uma surpresa:<br \/>\n    tenho dois imperadores<br \/>\n    para dar-te como presa.<br \/>\n    De Louren&ccedil;o, em chama acesa, foram ele os matadores.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Boa! Me fazes contente!<br \/>\n    &Agrave; for&ccedil;a os castigarei,<br \/>\n    e no fogo os queimarei<br \/>\n    como diabo eficiente.<br \/>\n    Meu &oacute;dio satisfarei.<\/p>\n<p>ANJO<\/p>\n<p>Eia, depressa a afog&aacute;-los.<br \/>\n    Que para o sol sejam cegos!<br \/>\n    Ide ao fogo cozinh&aacute;-los.<br \/>\n    Castiga com teus vassalos<br \/>\n    estes dois sujos morcegos.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Pronto! Pronto!<br \/>\n    Sejam tais ordens cumpridas!<br \/>\n    Reunirei meus dem&ocirc;nios.<br \/>\n    Saravaia, deixa os sonhos, traz-me de boa bebida que temos planos medonhos!<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>J&aacute; de nego me pintei, &oacute; meu av&ocirc; jaguaruna, e o cauim<br \/>\n    preparei, ver&aacute;s como beberei nesta festa da fortuna.<br \/>\n    Que vejo? Um temimin&oacute;? Ou filho de guaian&aacute;? Ser&aacute; esse<br \/>\n    um guaitac&aacute;<br \/>\n    que &agrave; mesa do jacar&eacute;<br \/>\n    sozinho vou devorar?<br \/>\n    (V&ecirc; o Anjo e espanta-se.)<br \/>\n    E este p&aacute;ssaro azul&atilde;o,<br \/>\n    quem ser&aacute; que assim me encara?<br \/>\n    Algum parente de arara?<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>&Eacute; o anjo que em nossa m&atilde;o<br \/>\n    p&otilde;e duas presas bem raras.<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Meus capangas, aten&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Tataurana, Tamandu&aacute;,<br \/>\n    vamos com calma por l&aacute;,<br \/>\n    que esses monstros querer&atilde;o<br \/>\n    por certo me afogar.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Vamos!<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Ai, os mosquitos me mordem!<br \/>\n    Espera, ou me comer&atilde;o!<br \/>\n    Tenho medo, quem me acode.<br \/>\n    Sou pequenino e eles podem<br \/>\n    tragar-me de supet&atilde;o.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Os &iacute;ndios que n&atilde;o se fiam<br \/>\n    nesta conversa e se escondem<br \/>\n    se os mandam executar.<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>T&ecirc;m raz&atilde;o se desconfiam,<br \/>\n    vivem sempre a se lograr.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Cala a boca, beberr&atilde;o,<br \/>\n    s&oacute; por isso &eacute;s t&atilde;o valente,<br \/>\n    moleir&atilde;o impertinente!<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Ai de mim, me prender&atilde;o,<br \/>\n    mas vou por te ver contente.<br \/>\n    E a quem vamos devorar?<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>A algozes de S&atilde;o Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Aqueles cheios de ran&ccedil;o?<br \/>\n    Com isto eu vou mudar<br \/>\n    meu nome, de que me canso.<br \/>\n    Muito bem! Suas entranhas<br \/>\n    sejam hoje o meu quinh&atilde;o.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Vou morder seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>E os que n&atilde;o nos acompanham sua parte comer&atilde;o.<br \/>\n    (Chama quatro companheiros para que os ajudem.)<br \/>\n    Tataurana, traze a tua mu&ccedil;urana.<br \/>\n    Urubu, jaguaru&ccedil;u, traz a ingapema. S&uacute;s Cabor&ecirc;, v&ecirc;<br \/>\n    se te inflama pra comer estes perus.<br \/>\n    (Acodem todos os quatro com suas armas)<\/p>\n<p>TATAURANA<\/p>\n<p>Aqui estou com a mu&ccedil;urana e os bra&ccedil;os lhe comerei; A Jaguara&ccedil;u<br \/>\n    darei o lombo, a Urubu o cr&acirc;nio, e as pernas a Cabor&ecirc;<\/p>\n<p>URUBU<\/p>\n<p>Aqui cheguei!<br \/>\n    As tripas recolherei, e com os bofes terei a panela a derramar.<br \/>\n    E esta panela verei minha sogra cozinhar.<\/p>\n<p>JAGUARU&Ccedil;U<\/p>\n<p>Com esta ingapema dura as cabe&ccedil;as quebrarei, e os miolos comerei.<br \/>\n    Sou guar&aacute;, on&ccedil;a, criatura, e antrop&oacute;fago serei.<\/p>\n<p>CABOR&Ecirc;<\/p>\n<p>E eu que em demandas andei aos franceses derrotando, para um bom nome ir<br \/>\n    logrando, agora contigo irei estes chefes devorando.<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Agora quietos! De rastros, n&atilde;o nos viram. Vou &agrave; frente.<br \/>\n    Que n&atilde;o escapem da gente.<br \/>\n    Vigiarei. No tempo exato ataquemos de repente.<br \/>\n    (V&atilde;o todos agachados em dire&ccedil;&atilde;o a D&eacute;cio e Valeriano<br \/>\n    que conversam)<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>Amigo Valeriano minha vontade venceu.<br \/>\n    N&atilde;o houve arte no c&eacute;u que livrasse do meu plano o servo do Galileu.<br \/>\n    Nem Pompeu e nem Cat&atilde;o nem Cesar, nem o Africano, nenhum grego nem<br \/>\n    troiano puderam dar conclus&atilde;o a um feito t&atilde;o soberano.<\/p>\n<p>VALERIANO<\/p>\n<p>O remate, gr&atilde;o-Senhor desta t&atilde;o grande fa&ccedil;anha foi mais<br \/>\n    que vencer Espanha.<br \/>\n    Jamais rei ou imperador logrou coisa t&atilde;o estranha.<br \/>\n    Mas, Senhor, esse quem &eacute; que vejo ali, t&atilde;o armado com espadas<br \/>\n    e cordel, e com gente de tropelvindo t&atilde;o acompanhado?<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>&Eacute; o grande deus nosso amigo, J&uacute;piter, sumo senhor, que provou<br \/>\n    grande sabor com o tremendo castigo da morte deste traidor.<br \/>\n    E quer, para refor&ccedil;ar as penas deste rufi&atilde;o, nosso imp&eacute;rio<br \/>\n    acrescentar com sua potente m&atilde;o, pela terra e pelo mar.<\/p>\n<p>VALERIANO<\/p>\n<p>Mais me parece &eacute; que vem a seus tormentos vingar, e a n&oacute;s ambos<br \/>\n    enforcar.<br \/>\n    Oh! que cara feia tem!<br \/>\n    Come&ccedil;o a me apavorar.<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>Enforcar?<br \/>\n    Quem a mim pode matar, ou mover meus fundamentos?<br \/>\n    Nem a exalta&ccedil;&atilde;o dos ventos, Nem a braveza do mar, nem todos<br \/>\n    os elementos!<br \/>\n    N&atilde;o temas, que meu poder, o que os deuses imortais me quiseram conceder,<br \/>\n    n&atilde;o se poder&aacute; vencer pois n&atilde;o h&aacute; for&ccedil;as<br \/>\n    iguais.<br \/>\n    De meu cetro imperial pendem reis, tremem tiranos.<br \/>\n    Ven&ccedil;o a todos os humanos, e posso ser quase igual a esses deuses soberanos.<\/p>\n<p>VALERIANO<\/p>\n<p>Oh, que terr&iacute;vel figura!<br \/>\n    N&atilde;o posso mais aguardar, que j&aacute; me sinto queimar!<br \/>\n    Vamos, que &eacute; grande loucura tal encontro aqui esperar.<br \/>\n    Ai! ai! que grandes calores! N&atilde;o tenho nenhum sossego.<br \/>\n    Ai, que poderosas dores! Ai, que f&eacute;rvidos ardores, que me abrasam como<br \/>\n    fogo!<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>Oh, paix&atilde;o!<br \/>\n    Ai de mim, que &eacute; o Plut&atilde;o chegando pelo Aqueronte, ardendo como<br \/>\n    ti&ccedil;&atilde;o a levar-nos de rold&atilde;o ao fogo do Flegetonte.<br \/>\n    Oh, coitado que me queimo! Esse queimado me queima com grande dor!<br \/>\n    Oh, infeliz imperador! Todo me vejo cercado de penas e de pavor, pois armado<br \/>\n    o diabo com seu dardo mais as f&uacute;rias infernais, v&ecirc;m castigar-nos<br \/>\n    demais.<br \/>\n    J&aacute; nem sei o que hei falado com ang&uacute;stias t&atilde;o mortais.<\/p>\n<p>VALERIANO<\/p>\n<p>O D&eacute;cio, cruel tirano!<br \/>\n    J&aacute; pagas, e pagar&aacute; Contigo Valeriano, porque Louren&ccedil;o<br \/>\n    crist&atilde;o assado, nos assar&aacute;.<\/p>\n<p>AIMBER&Ecirc;<\/p>\n<p>&Ocirc; Castelhano!<br \/>\n    Bom Castelhano parece!<br \/>\n    Estou bem alegre mano, que Espanhol seja o profano que no meu fogo padece.<br \/>\n    Vou fingir-me castelhano e usar de diplomacia com D&eacute;cio e Valeriano,<br \/>\n    porque o espanhol ufano sempre guarda a cortesia.<br \/>\n    Oh, mais alta majestade!<br \/>\n    Beijo-vos a m&atilde;o mil vezes, por vossa gr&atilde;-crueldade pois justi&ccedil;a<br \/>\n    nem verdade guardastes, sendo juizes.<br \/>\n    Sou mandado por S&atilde;o Louren&ccedil;o queimado, lev&aacute;-los &agrave;<br \/>\n    minha casa, onde seja confirmado vosso imperial estado em fogo, que sempre<br \/>\n    abrasa.<br \/>\n    Oh, que tronos e que camas eu vos tenho preparadas, nessas escuras moradas<br \/>\n    de vivas e eternas chamas de nunca ser apagadas!<\/p>\n<p>VALERIANO<\/p>\n<p>Ai de mim!<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Vieste do Paraguai?<br \/>\n    Que falais, em Carij&oacute;.<br \/>\n    Sei todas l&iacute;nguas de cor.<br \/>\n    Avan&ccedil;a aqui, Saravaia!<br \/>\n    Usa tu golpe maior!<\/p>\n<p>VALERIANO<\/p>\n<p>Basta! Que assim me assassinas, n&atilde;o tenho pecado nada!<br \/>\n    Meu chefe &eacute; a presa acertada.<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>N&atilde;o, &eacute;s tu que me fascinas, &oacute; presa bem cobi&ccedil;ada.<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>&Oacute; miser&aacute;vel de mim, que nem basta ser tirano, nem falar em<br \/>\n    castelhano!<br \/>\n    Que &eacute; do mando em que me vi, e o meu poder soberano?<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Jesus, Deus grande e potente, que tu, traidor, perseguiste, te dar&aacute;<br \/>\n    sorte mais triste entregando-te em meu dente, a que, malvado, serviste.<br \/>\n    Pois me honraste, e sempre me contentaste ofendendo ao Deus eterno.<br \/>\n    &Eacute; justo pois que no inferno, pal&aacute;cio que tanto amaste, n&atilde;o<br \/>\n    sintas o mal do inverno.<br \/>\n    Porque o &oacute;dio inveterado do teu duro cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    pode ser abrandado, se n&atilde;o for j&aacute; martelado com a &aacute;gua<br \/>\n    do Flegeton.<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>Olha que consola&ccedil;&atilde;o para quem se est&aacute; queimando!<br \/>\n    Sumos deuses, para quando adiais minha salva&ccedil;&atilde;o, que vivo estou<br \/>\n    me abrasando?<br \/>\n    Ai, ai! Que mortal desmaio!<br \/>\n    Escul&aacute;pio, n&atilde;o me acodes?<br \/>\n    Oh, J&uacute;piter, porque dormes?<br \/>\n    Que &eacute; do vosso raio?<br \/>\n    Por que &eacute; que n&atilde;o me socorres?<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Que dizeis?<br \/>\n    De que mal v&oacute;s padeceis?<br \/>\n    Que pulso mais alterado.<br \/>\n    &Eacute; grande dor de costado este mal, que morreis!<br \/>\n    Haveis de ser bem sangrado!<br \/>\n    H&aacute; dias que esta sangria se guardava para v&oacute;s que sangr&aacute;veis,<br \/>\n    noite e dia, com dedicada porfia aos santos servos de Deus.<br \/>\n    Muito desejo eu beber vosso sangue imperial.<br \/>\n    Oh, n&atilde;o me leveis a mal que com isso quero ser homem de sangue real.<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>Que dizeis? Que disparate, e elegante desvario!<br \/>\n    Joguem-me dentro de um rio antes que o fogo me mate, &oacute; deuses em que<br \/>\n    confio!<br \/>\n    N&atilde;o quereis socorrer-me, ou n&atilde;o podeis?<br \/>\n    &Oacute; malditos fementidos, ingratos desconhecidos, que pouco vos condoeis<br \/>\n    de quem fostes t&atilde;o servidos!<\/p>\n<p>Se agora voar pudesse, vos iria derrocar dos vossos tronos celestes, feliz,<br \/>\n    se a mim me coubesse no fogo vos projetar.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Parece-me que &eacute; chegada a hora do frenesi, e com chama redobrada,<br \/>\n    a qual ser&aacute; descuidada dos deuses a quem servis.<br \/>\n    S&atilde;o armas dos audazes cavaleiros que usam palavr&oacute;rio humano.<br \/>\n    E por isso, t&atilde;o ufano, hoje vindes acolh&ecirc;-los no romance castelhano.<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Assim &eacute;.<br \/>\n    Pensava dar, de rev&eacute;s, golpes de afiados a&ccedil;os mas enfim, nossos<br \/>\n    bala&ccedil;os se chocaram atrav&eacute;s com bem poucos canhona&ccedil;os.<br \/>\n    Mas que boas bofetadas lhes reservo para dar!<br \/>\n    Os tristes, sem descansar, &agrave; for&ccedil;a de tais pauladas com c&atilde;es<br \/>\n    h&atilde;o de ladrar.<\/p>\n<p>VALERIANO<\/p>\n<p>Que ferida! Tira-me logo esta vida pois, minha alta condi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    contra justi&ccedil;a e raz&atilde;o veio a ser t&atilde;o abatida que morro<br \/>\n    como ladr&atilde;o!<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; outro o galard&atilde;o que concedo aos meus criados,<br \/>\n    sen&atilde;o morrer enforcados, e depois, sem remiss&atilde;o, ao fogo ser<br \/>\n    condenados!<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>Essa &eacute; a pena redobrada que me causa maior dor: que eu, universal<br \/>\n    senhor, morra morte desonrada na forca como traidor.<br \/>\n    Ainda se fosse lutando, dando golpes e reveses, pernas e bra&ccedil;os cortando,<br \/>\n    como fiz com os franceses, acabaria triunfando.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Parece que estais lembrando, poderoso imperador, quando, com bravo furor,<br \/>\n    matastes, trai&ccedil;&atilde;o armando, Felipe, vosso senhor.<br \/>\n    Por certo que me alegrais e se cumpre meus anseios ante desabafos tais, porque<br \/>\n    o fogo em que queimais provoca tais devaneios.<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>Bem entendo que este fogo em que me acendo merece-me a tirania, pois com<br \/>\n    t&atilde;o feroz porfia aos crist&atilde;os martirizando pelo fogo os consumia.<br \/>\n    Mas que em minha monarquia acabe com tal preg&atilde;o pois morrer como ladr&atilde;o<br \/>\n    &eacute; muito triste agonia e dobrada confus&atilde;o.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Como? Pedis confiss&atilde;o?<br \/>\n    Sem asas quereis voar?<br \/>\n    Ide, se quereis achar aos vossos atos perd&atilde;o, &agrave; deusa Pala rogar.<br \/>\n    Ou a Nero, esse cruel carniceiro do fiel povo crist&atilde;o.<br \/>\n    Aqui est&aacute; Valeriano, vosso leal companheiro, buscai-o por sua m&atilde;o!<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>Esses amargos chistes e agress&otilde;es me acrescentam em paix&otilde;es<br \/>\n    e mais dores, com t&atilde;o profundos ardores como de ardentes ti&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    E com isto crescem mais os fogos em que pade&ccedil;o.<br \/>\n    Acaba, que me ofere&ccedil;o em tuas m&atilde;os, Satan&aacute;s, ao tormento<br \/>\n    que mere&ccedil;o.<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Oh, quanto vos agrade&ccedil;o por esta boa vontade!<br \/>\n    Eu, com liberalidade quero dar-lhe bom refresco para vossa enfermidade.<br \/>\n    Na cova onde o fogo se renova com ardores perenais, os vossos males fatais<br \/>\n    a&iacute; ter&atilde;o grande prova das agruras imortais.<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>Que fazer, Valeriano, bom amigo!<br \/>\n    Testemunhar&aacute;s comigo desta pena envolvido na cadeia de fogo, deste<br \/>\n    castigo.<\/p>\n<p>VALERIANO<\/p>\n<p>Em m&aacute; hora! J&aacute; s&atilde;o horas&#8230;<br \/>\n    Vamos logo deste fogo ao outro fogo eternal, l&aacute; onde a chama imortal<br \/>\n    nunca nos dar&aacute; sossego.<br \/>\n    S&uacute;s, asinha!<br \/>\n    Vamos &agrave; nossa cozinha, Saravaia!<\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Aqui deles n&atilde;o me afasto.<br \/>\n    Nas brasas ser&atilde;o bom pasto, maldito quem nelas caia.<\/p>\n<p>D&Eacute;CIO<\/p>\n<p>Aqui abrasado estou!<br \/>\n    Assa-me Louren&ccedil;o assado!<br \/>\n    De soberano que sou vejo que Deus me marcou por ver seu santo vingado! <\/p>\n<p>AIMBIR&Ecirc;<\/p>\n<p>Com efeito quiseste abrasar a jeito o virtuosos S&atilde;o Louren&ccedil;o.<br \/>\n    Hoje te castigo e ven&ccedil;o e sobre as brasas te deito para morrer, segundo<br \/>\n    penso.<br \/>\n    (Sufocam-nos e entregam aos quatro beleguins, e cada dois levam o seu.)<br \/>\n    Vinde aqui e aos malditos conduzi para em bom queimarem, seus corpos sujos<br \/>\n    tostarem, na festa em que os seduzi para cozidos bailarem<br \/>\n    (Ficam ambos os dem&ocirc;nios no terreiros com as coroas dos imperadores<br \/>\n    na cabe&ccedil;a.)<\/p>\n<p>SARAVAIA<\/p>\n<p>Sou o grande vencedor, o que as m&aacute;s cabe&ccedil;as quebra, sou um<br \/>\n    chefe de valor e hoje me decido por me chamar Cururupeba.<br \/>\n    Como eles, mato os que est&atilde;o em pecado, e os arrasto em minhas chamas.<br \/>\n    Velhos, mo&ccedil;os, jovens, damas, tenho sempre devorado.<br \/>\n    De bom algoz tenho fama.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">QUARTO ATO<\/a><\/h4>\n<p><em>Tendo o corpo de S&atilde;o Louren&ccedil;o amortalhado e posto na tumba,<br \/>\n    entra o Anjo com o Temor e o Amor de Deus, a encerrar a obra, e no fim acompanham<br \/>\n    o santo &agrave; sepultura.<\/em><\/p>\n<p>  ANJO <\/p>\n<p>Vendo nosso Deus benigno vossa grande devo&ccedil;&atilde;o que tendes, e<br \/>\n    com raz&atilde;o, a Louren&ccedil;o, o m&aacute;rtir digno de toda a venera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    determinam, por seus rogos e mart&iacute;rio singular, a todos sempre ajudar,<br \/>\n    para que escapeis dos fogos em que os maus se h&atilde;o de queimar.<br \/>\n    Dois fogos trazia n&rsquo;alma, com que as brasas resfriou, a no fogo em que<br \/>\n    se assou, com t&atilde;o gloriosa palma, dos tiranos triunfou.<br \/>\n    Um fogo foi o temor do bravo fogo infernal, e, como servo leal, por honrar<br \/>\n    a seu Senhor, fugiu da culpa mortal.<br \/>\n    Outro foi o Amor fervente de Jesus, que tanto amava, que muito mais se abrasava<br \/>\n    com esse fervor ardente que co&rsquo;o fogo, em que se assava, Estes o fizeram<br \/>\n    forte.<br \/>\n    Com estes purificado como ouro refinado, padeceu t&atilde;o crua morte por<br \/>\n    Jesus, seu doce amado.<br \/>\n    Estes vos manda o Senhor a ganhar vossa frieza, para que vossa alma acesa<br \/>\n    de seu fogo gastador, fique cheio de pureza.<br \/>\n    Deixai-vos deles queimar como o m&aacute;rtir S&atilde;o Louren&ccedil;o,<br \/>\n    e sereis um vivo incenso que sempre haveis de cheirar na corte de Deus imenso.<\/p>\n<p>TEMOR DE DEUS<\/p>\n<p>(D&aacute; seu recado.)<br \/>\n    Pecador, sorves com grande sabor o pecado, e n&atilde;o ficas afogado com<br \/>\n    teus males!<br \/>\n    E tuas chagas mortais n&atilde;o sentes, desventurado!<br \/>\n    O inferno como seu fogo sempiterno, J&aacute; te espera, se n&atilde;o segues<br \/>\n    a bandeira da cruz, sobre a qual morreu Jesus para que tua morte morra.<br \/>\n    Deus te envia esta mensagem com amor, a mim que sou seu Temor me conv&eacute;m<br \/>\n    declarar o que cont&eacute;m para que temas ao Senhor.<br \/>\n    (Glosa e declara&ccedil;&atilde;o do recado.)<br \/>\n    Espantado estou de ver, pecador, teu v&atilde;o sossego.<br \/>\n    Com tais males a fazer, como vives sem temer, aquele espantoso fogo?<br \/>\n    Fogo que nunca descansa, mas sempre provoca a dor, e com seu bravo furor dissipa<br \/>\n    toda a esperan&ccedil;a ao maldito pecador.<br \/>\n    Pecador, como te entregas t&atilde;o sem freio ao v&iacute;cio extremo?<br \/>\n    Dos v&iacute;cios de que est&aacute;s cheios engolindo t&atilde;o &agrave;s<br \/>\n    cegas a culpa, com seu veneno.<br \/>\n    Veneno de maldi&ccedil;&atilde;o tragas sem nenhum temor, e sem sentir sua<br \/>\n    dor, deleites da carna&ccedil;&atilde;o sorves com grande sabor.<br \/>\n    Ser&aacute; o sabor do pecado muito mais doce que o mel, mas o inferno cruel<br \/>\n    depois te dar&aacute; um bocado bem mais amargo que o fel Fel beber&aacute;s<br \/>\n    sem medida, pecador desatinado, tua alma em chamas ardida.<br \/>\n    Esta ser&aacute; a sa&iacute;da do deleite do pecado.<br \/>\n    Do pecado que tu amas Louren&ccedil;o tanto escapou que mil penas suportou,<br \/>\n    e queimado pelas chamas, por n&atilde;o pecar, expirou.<br \/>\n    Ele a morte n&atilde;o temeu.<br \/>\n    Tu n&atilde;o temes o pecado no qual et tem enforcado Lucifer, que te afogou,<br \/>\n    e n&atilde;o ficas afogado.<br \/>\n    Afogado pela m&atilde;o do Diabo pereceu D&eacute;cio com Valeriano, infiel,<br \/>\n    cruel tirano, no fogo que mereceu.<br \/>\n    Tua f&eacute; merece a vida, mas com pecados mortais quase a tiveste perdida,<br \/>\n    e teu Deus, bem sem medida, ofendeste, com teus males.<br \/>\n    Com teus males e pecados, tua alma de Deus alheia, da dana&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na cadeia h&aacute; de pagar com os danados a culpa que a incendeia.<br \/>\n    Pena sem fim te dar&atilde;o dentre os fogos infernais teus deleites sensuais.<br \/>\n    Teus tormentos dobrar&atilde;o, e tuas chagas mortais.<br \/>\n    Que mortais s&atilde;o tuas feridas pecador. Porque n&atilde;o choras?<br \/>\n    N&atilde;o v&ecirc;s que nestas demoras, est&atilde;o todas corrompidas, a<br \/>\n    cada dia pioras?<br \/>\n    Pioras e te confinas, mas teu perigoso estado, na pressa e grande cuidado<br \/>\n    com que ao fogo te destinas, n&atilde;o sentes, desventurado?<br \/>\n    Oh, descuido intoler&aacute;vel de tua vida!<br \/>\n    Tua alma est&aacute; confundida no lodo, e tu vais rindo de tudo, n&atilde;o<br \/>\n    sentes tua ca&iacute;da!<br \/>\n    Oh, traidor!<br \/>\n    Que negas teu Criador, Deus eterno, que se fez menino terno por salvar-te.<br \/>\n    E tu queres condenar-te e n&atilde;o temes ao inferno!<br \/>\n    Ah, insens&iacute;vel!<br \/>\n    N&atilde;o calculas o terr&iacute;vel espanto, que causar&aacute; o juiz,<br \/>\n    quando vir&aacute; com carranca muito horr&iacute;vel, e &agrave; morte te<br \/>\n    entregar&aacute;.<br \/>\n    E tua alma ser&aacute; sepultada em pleno inferno, onde morte n&atilde;o ter&aacute;<br \/>\n    mas viva se queimar&aacute; com seu fogo sempiterno!<br \/>\n    Oh, perdido!<br \/>\n    Ali ser&aacute;s consumido sem nunca te consumir.<br \/>\n    Ter&aacute;s vida sem viver, com choro e grande gemido, ter&aacute;s morte<br \/>\n    sem morrer.<br \/>\n    Pranto ser&aacute; teu sorrir, sede sem fim te abeberra, fome que em comer<br \/>\n    se gera, teu sono, nunca dormir, tudo isto j&aacute; te espera.<br \/>\n    Oh, morfio!<br \/>\n    Pois tu veras de continuo ao horrendo Lucifer, sem nunca chegar a ver aquele<br \/>\n    molde divino de quem tiras todo o ser.<br \/>\n    Acaba j&aacute; de temer a Deus, que sempre te espera, correndo por sua esteira,<br \/>\n    pois n&atilde;o lhes vai pertencer se n&atilde;o lhe segues a bandeira.<br \/>\n    Homem louco!<br \/>\n    Se teu cora&ccedil;&atilde;o j&aacute; toco, mudar-se-&atilde;o alegrias em<br \/>\n    tristezas e agonias.<br \/>\n    Olha que te falta pouco para fenecer teus dias.<br \/>\n    N&atilde;o peques mais contra Aquele que te ganhou vida e luz com seu mart&iacute;rio<br \/>\n    cruel bebendo vinagre e fel no extremo lenho a cruz.<br \/>\n    Oh, malvado! Ele foi crucificado, sendo Deus, por te salvar.<br \/>\n    Pois, que podes esperar, se foste tu o culpado e n&atilde;o cessas de pecar?<br \/>\n    Tu o ofendes, ele te ama.<br \/>\n    Cegou-se por dar-te a luz.<br \/>\n    Tu &eacute;s mau, pisas a cruz sobre a qual morreu Jesus.<br \/>\n    Homem cego, porque n&atilde;o come&ccedil;as logo a chorar por teu pecado?<br \/>\n    E tomar por advogado a Louren&ccedil;o que, no fogo, por Jesus morreu queimado?<br \/>\n    Teme a Deus, juiz tremendo, que em m&aacute; hora te socorra, em Jesus t&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; vivendo, pois deu sua vida morrendo para que tua morte morra.<\/p>\n<p>  AMOR DE DEUS <\/p>\n<p> (D&aacute; seu recado)<\/p>\n<p>Ama a Deus, que te criou, homem, de Deus muito amado!<br \/>\n    Ama com todo cuidado, a quem primeiro te amou.<br \/>\n    Seu pr&oacute;prio Filho entregou &agrave; morte, por te salvar.<br \/>\n    Que mais te podia dar, se tudo o que tem te dou?<br \/>\n    Por mandado do Senhor, te disse o que tens ouvido.<br \/>\n    Abre todo teu sentido, porque eu, que sou seu Amor, seja em ti bem imprimido<br \/>\n    (Glosa e declara&ccedil;&atilde;o do recado)<br \/>\n    Todas as coisas criadas conhecem seu Criador.<br \/>\n    Todas lhe guardam amor, pois nele s&atilde;o conservadas, cada qual em seu<br \/>\n    vigor.<br \/>\n    Pois com tanta perfei&ccedil;&atilde;o sua ci&ecirc;ncia te formou homem capaz<br \/>\n    de raz&atilde;o, de todo o teu cora&ccedil;&atilde;o ama a Deus, que te criou!<br \/>\n    Se amas a criatura por se parecer formosa, ama a vis&atilde;o graciosa desta<br \/>\n    mesma formosura por sobre todas as coisas.<br \/>\n    Dessa divina lindeza deves ser enamorado.<br \/>\n    Seja tua alma presa daquela suma beleza homem, de Deus muito amado!<br \/>\n    Aborrece todo o mal, com despeito e com desd&eacute;m, E pois, que &eacute;<br \/>\n    racional, abra&ccedil;a a Deus imortal, todo, sumo e &uacute;nico bem.<br \/>\n    Este abismo de fartura, que nunca ser&aacute; esgotado; esta fonte viva e<br \/>\n    pura, este rio de do&ccedil;ura, ama com todo cuidado.<br \/>\n    Antes que criasse nada j&aacute; a alma majestade te havia a vida gerado.<br \/>\n    e tua alma, abrasada com eterna caridade.<br \/>\n    Por fazer-te todo seu com amor te cativou e, pois que tudo te deu, d&aacute;<br \/>\n    tu todo o maior que &eacute; teu a quem primeiro te amou.<br \/>\n    E deu-te alma imortal e digna de um Deus imenso, para que fosses suspenso<br \/>\n    nele, esse bem eternal, que &eacute; sem fim e sem come&ccedil;o.<br \/>\n    Depois, que em morte ca&iacute;ste com vida te levantou.<br \/>\n    Porque sair n&atilde;o conseguiste da culpa em que te fundiste, seu pr&oacute;prio<br \/>\n    filho entregou.<br \/>\n    Entregou-o por escravo, deixou que fosse vendido, para que tu, redimido do<br \/>\n    poder do le&atilde;o bravo fosses sempre agradecido.<br \/>\n    Para que n&atilde;o morras, morre com amor bem singular.<br \/>\n    Pois, quanto deves amar a Deus que entregar-se quer &agrave; morte, por te<br \/>\n    salvar.<br \/>\n    O Filho, que o Padre deu, a seu Pai te d&aacute; por pai, e sua gra&ccedil;a<br \/>\n    te infundiu, e quando na cruz morreu, deu-te por m&atilde;e sua M&atilde;e.<br \/>\n    Deu-te f&eacute; com esperan&ccedil;a, e a si mesmo por manjar, para em si<br \/>\n    te transformar pela bem aventuran&ccedil;a.<br \/>\n    Que mais te podia dar?<br \/>\n    Em paga de tudo isto, oh, ditoso pecador, pede apenas teu amor.<br \/>\n    Despreza pois todo o resto por ganhar a tal Senhor.<br \/>\n    D&aacute; tua vida pelos bens que Sua morte te ganhou.<br \/>\n    &Eacute;s seu, nada tens de teu, D&aacute;-lhe tudo quanto tens, pois tudo<br \/>\n    o que tem te deu!<\/p>\n<p>  DESPEDIDA <\/p>\n<p>Levantai os olhos ao c&eacute;u, meus irm&atilde;os.<br \/>\n    Vereis a Louren&ccedil;o reinando com Deus, por v&oacute;s implorando junto<br \/>\n    ao rei dos c&eacute;us, que louvais seu nome aqui neste ch&atilde;o!<br \/>\n    Daqui por diante tende grande zelo, que Deus seja sempre temido e amado, e,<br \/>\n    m&aacute;rtir t&atilde;o santo, de todos honrado.<br \/>\n    Terei seus favores e doce desvelo.<br \/>\n    Pois que celebrai com tal devo&ccedil;&atilde;o seu claro mart&iacute;rio,<br \/>\n    tomai meu conselho: sua vida e virtudes tende por espelho, chamando-o sempre<br \/>\n    com grande afei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Tereis, por seus rogos, o santo perd&atilde;o, e sobre o inimigo perfeita<br \/>\n    vit&oacute;ria.<br \/>\n    E depois da morte v&oacute;s vereis na gl&oacute;ria a cara divina, com clara<br \/>\n    vis&atilde;o.<\/p>\n<p>(LAUS DEO)<\/p>\n<h4><a name=\"5\">QUINTO ATO<\/a><\/h4>\n<p><em>Dan&ccedil;a de doze meninos, que se fez na prociss&atilde;o de S&atilde;o<br \/>\n    Louren&ccedil;o.<\/em><\/p>\n<p>1&ordm;) Aqui estamos jubilosos tua festa celebrando.<br \/>\n    Por teus rogos desejando Deus nos fa&ccedil;a venturosos nosso cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    guardando.<\/p>\n<p>2&ordm;) N&oacute;s confiamos em ti Louren&ccedil;o santificado, que nos<br \/>\n    guardes preservados dos inimigos aqui Dos v&iacute;cios j&aacute; desligados<br \/>\n    nos paj&eacute;s n&atilde;o crendo mais, em suas dan&ccedil;as rituais, nem<br \/>\n    seus m&aacute;gicos cuidados.<\/p>\n<p>3&ordm;) Como tu, que a confian&ccedil;a em Deus t&atilde;o bem resguardaste,<br \/>\n    que o dom de Jesus nos baste, pai da suprema esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>4&ordm;) Pleno do divino amor foi teu cora&ccedil;&atilde;o outrora.<br \/>\n    Zela pois por n&oacute;s agora! Amemos nosso Criador, pai nosso de cada hora!<\/p>\n<p>5&ordm;) Obedeceste ao Senhor, cumprindo sua palavra.<br \/>\n    Vem que nossa alma escrava de teu amor, neste dia te imita em sabedoria.<\/p>\n<p>6&ordm;) Milagroso, tu curaste teus filhos t&atilde;o santamente.<br \/>\n    Suas almas est&atilde;o doentes deste mal que abominaste, Vem cur&aacute;-los<br \/>\n    novamente!<\/p>\n<p>7&ordm;) Fiel a Nosso Senhor a morte tu suportaste.<br \/>\n    Que a for&ccedil;a disto nos baste para suportar a dor pelo mesmo Deus que<br \/>\n    amaste.<\/p>\n<p>8&ordm;) Pelo terr&iacute;vel que &eacute;s, J&aacute; que os dem&ocirc;nios<br \/>\n    te temem, nas ocas onde se escondem vem calc&aacute;-los sob os p&eacute;s,<br \/>\n    pra que as almas n&atilde;o nos queimem.<\/p>\n<p>9&ordm;) Hereges que este indefeso corpo no teu assaram, e a carne toda queimaram<br \/>\n    em grelhas de ferro aceso.<br \/>\n    Choremos, do alto desejo de Deus Padre contemplar.<br \/>\n    Venha Ele neste ensejo nossas almas inflamar.<\/p>\n<p>10&ordm;) Os teus verdugos extremos treme, algozes de Deus.<br \/>\n    Vem, leva-nos como teus, que ao teu lado ficaremos assustando estes ateus.<\/p>\n<p>11&ordm;) Estes que te deram morte ardem no fogo infernal.<br \/>\n    Tu, na gl&oacute;ria celestial gozar&aacute;s, divina sorte.<br \/>\n    E contigo aprenderemos a amar a Deus no mais fundo do nosso ser, e no mundo<br \/>\n    longa vida gozaremos.<\/p>\n<p>12&ordm;) Em tuas m&atilde;os depositamos nosso destino tamb&eacute;m.<br \/>\n    Em teu amor confiamos e uns aos outros nos amamos para todo o sempre. <br \/>\n    Am&eacute;m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Primeiro Ato Segundo Ato Terceiro Ato Quarto Ato Quinto Ato Padre Jos\u00e9 de Anchieta TEMA Ap&oacute;s a cena do mart&iacute;rio de S&atilde;o Louren&ccedil;o, Guaixar&aacute; chama Aimbir&ecirc; e Saravaia para ajudarem a perverter a aldeia. 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