{"id":115596,"date":"2017-03-24T19:26:45","date_gmt":"2017-03-24T21:26:45","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115596"},"modified":"2017-03-24T19:26:45","modified_gmt":"2017-03-24T21:26:45","slug":"decadencia-de-dois-grandes-homens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/decadencia-de-dois-grandes-homens","title":{"rendered":"Decad\u00eancia de dois grandes homens"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Os antigos freq\u00fcentadores do Caf\u00e9 Carceller h\u00e3o de recordar-se de um velho que ali ia todas as manh\u00e3s \u00e0s oito horas, almo\u00e7ava, lia os jornais, fumava um charuto, dormia cerca de meia hora e sa\u00eda. Estando de passagem no Rio de Janeiro, aonde viera para tratar quest\u00f5es pol\u00edticas com os ministros, atirei-me ao prazer de estudar todos os originais que encontrava, e n\u00e3o tenho d\u00favida em confessar que at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 tinha encontrado c\u00f3pias.<\/p>\n<p>O velho apareceu a tempo; tratei de analisar o tipo.<\/p>\n<p>Era meu costume \u2014 costume das montanhas mineiras \u2014 acordar cedo e almo\u00e7ar cedo.<\/p>\n<p>Ia faz\u00ea-lo ao Carceller, justamente \u00e0 hora do velho, dos empregados p\u00fablicos e dos escreventes de cart\u00f3rio. Sentava-me \u00e0 mesa que enfrentava com a do velho, e que era a pen\u00faltima do lado esquerdo contando do fundo para a rua. Era ele homem de seus cinq\u00fcenta anos, barbas brancas, olhos encovados, cor amarela, algum abdome, m\u00e3os ossudas e compridas. Comia vagarosamente algumas fatias de p\u00e3o-de-l\u00f3 e uma ch\u00e1vena de chocolate. Durante o almo\u00e7o n\u00e3o lia; mas apenas acabado o chocolate, acendia um charuto que tirava do bolso, que era sempre do mesmo tamanho, e que no fim de certo tempo tinha a virtude de o fazer adormecer e deixar cair das m\u00e3os o jornal que estivesse lendo. Encostava ent\u00e3o a cabe\u00e7a \u00e0 parede, e dormia pl\u00e1cido e risonho como se algum sonho agrad\u00e1vel lhe estivesse dan\u00e7ando no esp\u00edrito; \u00e0s vezes abria os olhos, contemplava o v\u00e1cuo, e continuava a dormir tranq\u00fcilamente.<\/p>\n<p>Indaguei do caixeiro quem era aquele fregu\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, respondeu; almo\u00e7a aqui h\u00e1 quatro anos, todos os dias, \u00e0 mesma hora.<\/p>\n<p>\u2014 Tem ele por aqui algum conhecido? \u2014 Nenhum; aparece s\u00f3 e retira-se s\u00f3.<\/p>\n<p>Agu\u00e7ava-me a curiosidade. Ningu\u00e9m conhecia o velho; era mais uma raz\u00e3o para conhec\u00ea-lo eu. Procurei travar conversa com o desconhecido, e aproveitei uma ocasi\u00e3o em que ele acabava de engolir o chocolate e procurava com os olhos algum jornal.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui est\u00e1 este, disse-lhe eu, indo levar-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, respondeu-me o homem sem levantar os olhos e abrindo a folha.<\/p>\n<p>N\u00e3o obtendo mais nada, quis travar conversa por outro modo.<\/p>\n<p>\u2014 Traz hoje um magn\u00edfico artigo sobre a guerra.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse o velho com indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Nada mais.<\/p>\n<p>Voltei ao meu lugar disposto a esperar que o velho lesse, dormisse e acordasse.<\/p>\n<p>Paci\u00eancia de curioso, que ningu\u00e9m a tem maior, nem mais fria. Ao cabo do tempo do costume tinha o homem lido, fumado e dormido. Acordou, pagou o almo\u00e7o e saiu.<\/p>\n<p>Acompanhei-o imediatamente; mas o homem tendo chegado \u00e0 esquina, voltou e foi at\u00e9 \u00e0 outra esquina, aonde se demorou, seguiu por uma rua, tomou a parar e a voltar, a ponto que eu desisti de saber onde iria ele ter, tanto mais que nesse dia devia entender-me com um dos membros do governo, e n\u00e3o podia perder a ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando no dia seguinte, eram 15 de mar\u00e7o, voltei ao Carceller, encontrei l\u00e1 com o meu homem, assentado no lugar do costume; estava acabando de almo\u00e7ar, almocei tamb\u00e9m; mas desta vez guardou-me o misterioso velho uma surpresa; em vez de pedir um jornal e fumar um charuto, encostou a cara nas m\u00e3os e come\u00e7ou a olhar para mim.<\/p>\n<p>\u2014 Bom, disse eu; est\u00e1 amansado. Naturalmente vai dizer-me alguma coisa. Mas o homem nada disse e continuou a olhar para mim. A express\u00e3o dos olhos, que de ordin\u00e1rio era morta e triste, nessa ocasi\u00e3o tinha um qu\u00ea de terror. Supondo que ele quisesse dizerme alguma coisa, fui o primeiro a dirigir-lhe a palavra.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o l\u00ea hoje os jornais? \u2014 N\u00e3o, respondeu-me ele com voz sombria; estou pensando&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Em qu\u00ea? O velho fez um movimento nervoso com a cabe\u00e7a e disse: \u2014 S\u00e3o chegados os idos de mar\u00e7o! Estremeci ouvindo esta singular resposta, e o velho, como se n\u00e3o visse o movimento, continuou: \u2014 Compreende, n\u00e3o? \u00c9 hoje um trist\u00edssimo anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 A morte de C\u00e9sar? perguntei eu rindo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, respondeu o velho com voz cavernosa.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha que ver; era algum homem man\u00edaco; mas que haveria de comum entre ele e o vencedor das G\u00e1lias? A curiosidade cresceu; e aproveitei a disposi\u00e7\u00e3o em que o velho estava de travar conhecimento. Levantei-me e fui sentar-me \u00e0 mesa dele.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que tem o senhor com a morte de C\u00e9sar? \u2014 O que tenho com a morte daquele grande homem? Tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim? O velho abriu a boca e ia responder, mas a palavra ficou-lhe no ar e o homem voltou \u00e0 taciturnidade habitual. Ocupei esse tempo em contempl\u00e1-lo mais detidamente e de perto.<\/p>\n<p>Olhava ele para a mesa, com as m\u00e3os postas debaixo das orelhas; os m\u00fasculos do rosto estremeciam de quando em quando, e os olhos rolavam dentro das \u00f3rbitas como favas nadando em prato de molho. No fim de algum tempo olhou para mim, e eu aproveitei a ocasi\u00e3o para dizer-lhe: \u2014 Quer um charuto? \u2014 Obrigado; eu s\u00f3 fumo dos meus; s\u00e3o charutos opiados, grande recurso para quem quer esquecer um grande crime. Quer um? \u2014 N\u00e3o tenho crimes.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o importa; colher\u00e1 prazer em fum\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Aceitei o charuto, e guardei-o.<\/p>\n<p>\u2014 Consente que o guarde? \u2014 Pois n\u00e3o, respondeu ele.<\/p>\n<p>Outro sil\u00eancio mais prolongado. Vi que o homem n\u00e3o estava para conversa; a fronte se lhe entristecia cada vez mais como a Tijuca quando est\u00e1 para cair temporal. Ao cabo de alguns minutos, disse-lhe eu: \u2014 Simpatizo muito com o senhor, quer que eu seja seu amigo? Luziram os olhos do homem.<\/p>\n<p>\u2014 Meu amigo? disse ele; oh! por que n\u00e3o? preciso de um, mas de um amigo verdadeiro.<\/p>\n<p>Estendeu-me a m\u00e3o, que eu lhe apertei com afeto.<\/p>\n<p>\u2014 Como se chama? perguntei eu.<\/p>\n<p>Sorriu o velho, soltou das cavernas do peito um longo e magoad\u00edssimo suspiro, e respondeu-me: \u2014 Jaime. E o senhor? \u2014 Miranda, doutor em medicina.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 brasileiro? \u2014 Sim, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Meu patr\u00edcio ent\u00e3o? \u2014 Creio.<\/p>\n<p>\u2014 Meu patr\u00edcio!&#8230;<\/p>\n<p>E dizendo isto o velho teve um sorriso t\u00e3o infernal, t\u00e3o sombrio, t\u00e3o l\u00fagubre, que eu tive id\u00e9ia de me ir embora. Reteve-me a curiosidade de chegar ao fim. Jaime n\u00e3o prestava aten\u00e7\u00e3o ao que se passava ali; e exclamava de quando em quando: \u2014 Os idos de mar\u00e7o! os idos de mar\u00e7o! \u2014 Olhe, meu amigo sr. Jaime, quer ir dar um passeio comigo? Aceitou sem dizer palavra. Quando nos achamos na rua perguntei-lhe se preferia algum lugar.<\/p>\n<p>Respondeu-me que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Andamos ao acaso; eu procurava travar conversa a fim de distrair o homem dos idos de mar\u00e7o; e consegui a pouco e pouco que se tornasse mais conversador. Era ent\u00e3o apreci\u00e1vel. N\u00e3o falava sem gesticular com o bra\u00e7o esquerdo, com a m\u00e3o fechada, e o dedo polegar aberto. Contava anedotas de mulheres e mostrava-se grande apreciador do sexo am\u00e1vel; era ex\u00edmio na descri\u00e7\u00e3o da beleza feminina. A conversa passou \u00e0 hist\u00f3ria, e Jaime exaltou os tempos antigos, a virtude romana, as p\u00e1ginas de Plutarco, Tito L\u00edvio e Suet\u00f4nio. Sabia o T\u00e1cito de cor e dormia com Virg\u00edlio, disse ele. Seria um doido, mas conversava com muito ju\u00edzo.<\/p>\n<p>Sobre a tarde tive fome e convidei-o a jantar.<\/p>\n<p>\u2014 Comerei pouco, respondeu Jaime; estou indisposto. Ai! os idos de mar\u00e7o! Jantamos em hotel, e eu quis acompanh\u00e1-lo a casa, que era na Rua da Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Consentiu nisso com verdadeira explos\u00e3o de alegria. A casa dizia com o dono. Duas estantes, um globo, v\u00e1rios alfarr\u00e1bios espalhados no ch\u00e3o, uma parte sobre uma mesa, e uma cama antiga.<\/p>\n<p>Eram seis horas da tarde quando entramos. Jaime tremia quando chegou \u00e0 porta da sala.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem? perguntei-lhe eu.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, nada.<\/p>\n<p>Mal entr\u00e1vamos na sala, pulou da mesa, onde se achava acocorado, um enorme gato preto. N\u00e3o fugiu; saltou aos ombros de Jaime. Este tremeu todo e procurou aquietar o animal passando-lhe a m\u00e3o pelo lombo.<\/p>\n<p>\u2014 Sossega, J\u00falio! dizia ele, enquanto eu com o olhar inspecionava o albergue do homem e procurava cadeira onde me sentasse.<\/p>\n<p>O gato pulou depois \u00e0 mesa e fitou em mim dois grandes olhos verdes, fulminantes, interrogadores; compreendi o susto do velho. O gato era modelo na esp\u00e9cie; tinha certo ar de ferocidade da on\u00e7a, de que era miniatura acabada. Era todo preto, pernas compridas, longas barbas; gordo e alto, tendo uma extensa cauda que brincava no ar dando saltos caprichosos. Tive sempre antipatia aos gatos; aquele causava-me horror. Parecia-me que ia saltar sobre mim e esganar-me com as largas patas.<\/p>\n<p>\u2014 Mande o seu gato embora, disse eu a Jaime.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faz mal, respondeu-me o velho. J\u00falio C\u00e9sar, n\u00e3o \u00e9 verdade que tu n\u00e3o fazes mal a este senhor? O gato voltou-se para ele; e Jaime beijou repetidas vezes a cabe\u00e7a do gato. Do susto passara \u00e0 efus\u00e3o. Compreendi que seria pueril assustar-me quando o animal era t\u00e3o manso, ainda que n\u00e3o compreendi o medo do velho quando entrou. Haveria alguma coisa entre aquele homem e aquele bicho? N\u00e3o pude explic\u00e1-lo. Jaime acariciou o gato enquanto eu por me distrair lia o t\u00edtulo das obras que estavam nas estantes. Um dos livros tinha no lombo este t\u00edtulo: Metempsicose.<\/p>\n<p>\u2014 Acredita na metempsicose? perguntei eu.<\/p>\n<p>O velho, que estava ocupado em tirar o palet\u00f3 e vestir um chambre de chita amarela, interrompeu aquele servi\u00e7o, para dizer-me: \u2014 Se acredito? Em que queria o senhor que eu acreditasse? \u2014 Um homem instru\u00eddo, como o senhor, n\u00e3o devia crer em tolices desta ordem, respondi abrindo a livro.<\/p>\n<p>Jaime acabou de vestir o chambre, e veio a mim.<\/p>\n<p>\u2014 Meu caro senhor, disse ele; n\u00e3o zombe assim da verdade; nem zombe nunca de filosofia nenhuma. Toda a filosofia pode ser verdadeira; a ignor\u00e2ncia dos homens \u00e9 que faz de uma ou de outra cren\u00e7a da moda. Contudo para mim, que as conheci todas, s\u00f3 uma \u00e9 a verdadeira, e \u00e9 essa a que alude o senhor com tanto desd\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me interrompa, disse ele; quero convenc\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Levou-me a uma poltrona de couro e obrigou-me a sentar ali. Depois foi sentar-se ao p\u00e9 da mesa, em frente a mim e come\u00e7ou a desenvolver a sua teoria, que eu ouvi sem pestanejar. Jaime tinha a palavra f\u00e1cil, ardente, impetuosa; animavam-se-lhe os olhos, tremia-lhe o l\u00e1bio, e a m\u00e3o, a famosa m\u00e3o esquerda, agitava no ar o dedo polegar aberto e curvo como um ponto de interroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ouvi o discurso do homem, e n\u00e3o ousei contestar-lhe. Era evidentemente um doido; e ningu\u00e9m discute com homem doido. Jaime acabou de falar e caiu numa esp\u00e9cie de prostra\u00e7\u00e3o. Cerrou os olhos e ficou insens\u00edvel alguns minutos. O gato saltou \u00e0 mesa, entre mim e ele, e come\u00e7ou a passar a m\u00e3o pela cara de Jaime, o que o fez despertar daquele abatimento.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00falio! J\u00falio! exclamava ele beijando o gato; ser\u00e1 hoje? ser\u00e1 hoje? J\u00falio n\u00e3o parecia entender a pergunta; alteou o lombo, descreveu com a cauda algumas figuras geom\u00e9tricas no ar, deu dois saltos e pulou ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Jaime acendeu um lampi\u00e3o, enquanto eu me levantava para me ir embora.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se v\u00e1, meu amigo, disse-me Jaime; pe\u00e7o-lhe um favor.<\/p>\n<p>\u2014 Qual? \u2014 Fique comigo at\u00e9 a meia-noite.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? n\u00e3o imagina que favor me faria! \u2014 Tem medo? \u2014 Hoje tenho: s\u00e3o os idos de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Consenti em ficar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me dir\u00e1, perguntei eu, que tem o senhor com os idos de mar\u00e7o? \u2014 Que tenho? disse Jaime com os olhos em fogo. N\u00e3o sabe quem sou? \u2014 Pouco sei.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabe nada.<\/p>\n<p>Jaime inclinou-se sobre a mesa e disse-me ao ouvido: \u2014 Sou Marco Bruto! Por mais extravagante que estas palavras pare\u00e7am ao frio leitor, confesso que me causaram profunda sensa\u00e7\u00e3o. Recuei a cadeira e contemplei a cabe\u00e7a do velho.<\/p>\n<p>Pareceu-me que a iluminava a virtude romana. Os olhos tinham fulgores de padre conscrito; o l\u00e1bio parecia estar fazendo uma ora\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade. Durante alguns minutos saboreou ele silenciosamente a minha silenciosa admira\u00e7\u00e3o. Depois, sentando-se outra vez: \u2014 Marco Bruto sou, disse, ainda que esta revela\u00e7\u00e3o lhe cause espanto. Sou aquele que encabe\u00e7ou a moment\u00e2nea vit\u00f3ria da liberdade, o assassino (em que me pese o nome!), o assassino do divino J\u00falio.<\/p>\n<p>E voltando os olhos para o gato, que estava sobre uma cadeira, entrou a contempl\u00e1-lo com urna express\u00e3o de arrependimento e dor. O gato fitou nele os olhos verdes, redondos, e nesta contempla\u00e7\u00e3o rec\u00edproca ficaram at\u00e9 que eu para obter maior explica\u00e7\u00e3o do que presenciava, perguntei ao velho: \u2014 Mas, sr. Bruto, se \u00e9 aquele grande homem que assassinou C\u00e9sar por que receia os idos de mar\u00e7o? C\u00e9sar n\u00e3o voltou c\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 A causa do meu receio ningu\u00e9m a sabe; mas eu lhe direi francamente, pois \u00e9 o \u00fanico homem que tem mostrado interesse por mim. Receio os idos de mar\u00e7o, porque&#8230;<\/p>\n<p>Estacou; enorme trov\u00e3o rolou nos ares e pareceu abalar a casa at\u00e9 os alicerces. O velho ergueu os bra\u00e7os e os olhos para o teto e fez mentalmente uma prece a algum deus do paganismo.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 a hora? perguntou ele baixinho.<\/p>\n<p>\u2014 De qu\u00ea? perguntei.<\/p>\n<p>\u2014 Do castigo. Ou\u00e7a, mancebo; o senhor \u00e9 filho de um s\u00e9culo sem f\u00e9 nem filosofia; n\u00e3o conhece o que \u00e9 a c\u00f3lera dos deuses. Tamb\u00e9m eu nasci neste s\u00e9culo; mas trouxe comigo as virtudes da minha primeira apari\u00e7\u00e3o na terra: corpo de Jaime, alma de Bruto.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o j\u00e1 morreu antes de ser Jaime? \u2014 Sem d\u00favida; \u00e9 sabido que morri; ainda que eu desejasse neg\u00e1-lo, a\u00ed estaria a Hist\u00f3ria para dizer o contr\u00e1rio. Morri; s\u00e9culos depois, voltei ao mundo com esta forma que v\u00ea; agora voltarei a outra forma e&#8230;<\/p>\n<p>Aqui o velho come\u00e7ou a chorar. Consolei-o como pude, enquanto o gato, trepando \u00e0 mesa, veio acarici\u00e1-lo com uma afei\u00e7\u00e3o bem contr\u00e1ria \u00e0 \u00edndole de uma on\u00e7a. O velho agradeceu as minhas consola\u00e7\u00f5es, e as car\u00edcias de J\u00falio. Aproveitei a ocasi\u00e3o para lhe dizer que efetivamente eu imaginava que o ilustre Bruto devia ter aquela figura.<\/p>\n<p>O velho sorriu.<\/p>\n<p>\u2014 Estou mais gordo, disse ele; naquele tempo eu era magro. Coisa natural; homem gordo n\u00e3o faz revolu\u00e7\u00e3o. Bem o compreendia C\u00e9sar quando dizia que n\u00e3o temia a Ant\u00f4nio e Dolabela, mas sim \u00e0queles dois sujeitos amarelos e magros e \u00e9ramos C\u00e1ssio e eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pensa ent\u00e3o o senhor que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Penso que homem gordo n\u00e3o faz revolu\u00e7\u00e3o. O abdome \u00e9 naturalmente amigo da ordem; o est\u00f4mago pode destruir um imp\u00e9rio; mas h\u00e1 de ser antes de jantar. Quando Catilina encabe\u00e7ou a c\u00e9lebre conjura\u00e7\u00e3o a quem foi procurar? Foi procurar a gente que n\u00e3o tinha um sest\u00e9rcio de seu; a turba dos clientes, que vivia de esp\u00f3rtulas, n\u00e3o os que viviam pomposamente em T\u00fasculo ou Ba\u00efas.<\/p>\n<p>Achei curiosa a doutrina e disse a prop\u00f3sito algumas palavras que nos distra\u00edram do assunto principal.<\/p>\n<p>O genro de Cat\u00e3o continuou: \u2014 N\u00e3o lhe contarei, pois sabe a Hist\u00f3ria, a conjura\u00e7\u00e3o dos idos de mar\u00e7o. Apenas lhe direi que eu entrara naquela sinceramente, porquanto, como muito bem disse um poeta ingl\u00eas, que depois me meteu em cena, eu matei C\u00e9sar, n\u00e3o por \u00f3dio a C\u00e9sar, mas por amor da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>\u2014 Apoiado! \u2014 O senhor \u00e9 deputado? perguntou o velho sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Pensei. Aproveito a ocasi\u00e3o para dizer-lhe que a t\u00e1tica parlamentar de tomar tempo com discursos at\u00e9 o fim das sess\u00f5es n\u00e3o \u00e9 nova.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Foi inventada por meu ilustre sogro, o incompar\u00e1vel Cat\u00e3o, quando C\u00e9sar, voltando vencedor da Espanha, queria o triunfo e o consulado. A assembl\u00e9ia inclinava-se a favor do pretendente; Cat\u00e3o n\u00e3o teve outro meio: subiu \u00e0 tribuna e falou at\u00e9 a noite, falou sem parar um minuto. Os ouvintes ficaram estafados com a arenga, e C\u00e9sar vendo que n\u00e3o podia ceder a um homem daquele calibre, dispensou o triunfo, e veio pleitear o consulado.<\/p>\n<p>\u2014 De maneira que hoje quando um orador toma o tempo at\u00e9 o fim da hora?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 na altura de Cat\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tomo nota.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! meu rico senhor, a vida \u00e9 uma eterna repeti\u00e7\u00e3o. Todos inventam o inventado.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Matamos o divino J\u00falio, e mal lhe posso dizer o assombro que se seguiu ao nosso crime&#8230; Crime lhe chamo porque reconhe\u00e7o hoje que o era; mas sou obrigado a dizer que o ilustre C\u00e9sar ofendera a majestade romana. Eu n\u00e3o fui o inventor da conjura\u00e7\u00e3o; toda a gente estava inspirada dos meus desejos. Eu n\u00e3o podia entrar no senado que n\u00e3o achasse essa cartinha: \u201c ou ent\u00e3o: \u201c. De toda a parte me instigaram. Uniram-se todos os \u00f3dios ao meu, e o mundo presenciou aquela tremenda cat\u00e1strofe&#8230;<\/p>\n<p>Jaime ou Bruto, que eu realmente n\u00e3o sei como lhe chame, concentrou um pouco o seu esp\u00edrito; depois levantou-se, foi \u00e0 porta, espiou, deu uma carreirinha e veio sentar-se defronte de mim.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ter lido que a sombra de C\u00e9sar me apareceu depois duas vezes, sendo que, da segunda, veio silenciosa e silenciosa foi. \u00c9 um erro. Da segunda vez foi que eu ouvi tremendo segredo que lhe vou revelar. N\u00e3o o disse a ningu\u00e9m por medo, e medo do que se dissesse de mim. V\u00e1, abra os ouvidos&#8230;<\/p>\n<p>Nesse momento o gato come\u00e7ou a dar saltos vertiginosos.<\/p>\n<p>\u2014 Que diabo \u00e9 isto? disse eu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; creio que est\u00e1 com fome. S\u00e3o horas de cearmos.<\/p>\n<p>Jaime-Bruto foi buscar a ceia do gato, e trouxe para a mesa um assado frio, p\u00e3o, queijo ingl\u00eas, e vinho italiano e figos secos.<\/p>\n<p>\u2014 Os vinhos italianos s\u00e3o uma recorda\u00e7\u00e3o de minha vida anterior, disse ele. Quanto aos figos, se n\u00e3o s\u00e3o de T\u00fasculo, ao menos os fazem lembrar.<\/p>\n<p>Comemos tranq\u00fcilamente; eram ent\u00e3o oito horas, e o velho estava ansioso que batessem as doze. Ao cabo de meia hora acendeu ele um charuto, e eu o mesmo que ele me havia dado de manh\u00e3, e continuamos a falar de C\u00e9sar.<\/p>\n<p>\u2014 Apareceu-me a sombra, disse ele, e desenrolou um libelo dos males que eu havia feito \u00e0 Rep\u00fablica com a morte dele, e ao mesmo tempo acrescentou que o meu crime nada salvara, pois era inevit\u00e1vel a decad\u00eancia da Rep\u00fablica. Como eu respondesse um pouco irritado, a sombra soltou estas fat\u00eddicas palavras: \u201c Tirei o charuto da boca, e contemplei a cara do meu interlocutor. Era imposs\u00edvel que n\u00e3o estivesse pr\u00f3ximo um acesso de loucura; mas o olhar do homem conservava a mesma intelig\u00eancia e serenidade. Ele respirava a fuma\u00e7a com del\u00edcias e olhava, ora para o teto, ora para o gato.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um doido manso, pensei eu, e continuei a fumar enquanto o velho continuou: \u2014 Compreende o senhor por que motivo receio esses malditos idos de mar\u00e7o, anivers\u00e1rio do meu crime.<\/p>\n<p>Atirou fora o charuto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fuma? perguntei eu.<\/p>\n<p>\u2014 Destes n\u00e3o fumo hoje.<\/p>\n<p>\u2014 Quer dos meus? \u2014 Aceito.<\/p>\n<p>Dei-lhe um charuto, que ele acendeu, e eu continuei a fumar o dele, que me fazia sentir del\u00edcias inef\u00e1veis. Ia-se-me o corpo ficando mole; estendi-me na poltrona e prestei ouvidos ao anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p>Este passeava vagarosamente, gesticulando, rindo sem motivo, outras vezes chorando, tudo como quem tem alguma mania na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me dir\u00e1, perguntei eu, se \u00e9 neste gato que est\u00e1 a alma de J\u00falio? \u2014 Sem d\u00favida, \u00e9 neste bicho que se meteu a alma daquele grande homem, o primeiro do universo.<\/p>\n<p>O gato n\u00e3o pareceu reparar nessa adula\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma do nobre Bruto, e foi colocar-se no sof\u00e1 em a\u00e7\u00e3o de querer dormir. Pus os olhos no animal, e admirei o que eram os destinos humanos. C\u00e9sar estava reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de animal dom\u00e9stico! Aquele gato, que estava ali diante de mim, tinha escrito os Coment\u00e1rios, subjugado os Gauleses, vencido Pompeu, destru\u00eddo a Rep\u00fablica. Saciava-se agora com uma simples ceia, quando outrora queria dominar todo o universo.<\/p>\n<p>Jaime veio tirar-me das minhas cogita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Poderia eu ter alguma d\u00favida acerca da identidade deste animal, disse ele; mas tudo me prova que \u00e9 ele o meu divino J\u00falio.<\/p>\n<p>\u2014 Como? \u2014 Apareceu-me aqui uma noite sem que a porta estivesse aberta e come\u00e7ou a olhar para mim. Quis p\u00f4-lo fora; imposs\u00edvel. Ent\u00e3o lembrou-me a amea\u00e7a da sombra. \u2014 \u201c, disse eu, chamando o gato; e imediatamente come\u00e7ou ele a fazer-me festas. Era fado ou ocasi\u00e3o: mais tarde ou mais cedo o meu t\u00famulo \u00e9 o ventre deste nobre animal.<\/p>\n<p>\u2014 Acho que n\u00e3o tem raz\u00e3o de crer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! meu caro doutor&#8230; \u00e9 raz\u00e3o e mais que raz\u00e3o. Quer ver? J\u00falio C\u00e9sar! O gato, apenas ouviu este nome, pulou do sof\u00e1 e come\u00e7ou a dar saltos mortais por cima de um Ni\u00e1gara imagin\u00e1rio, a ponto de me obrigar a sair da cadeira e ir para o sof\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Aquieta-te, J\u00falio! disse o velho.<\/p>\n<p>O gato sossegou; trepou para uma poltrona e ali arranjou como a seu gosto.<\/p>\n<p>Quanto a mim, sentindo no corpo um delicioso torpor, estendi-me no sof\u00e1 e continuei a pasmar ouvindo a narra\u00e7\u00e3o do meu Jaime-Bruto.Durou esta ainda uma boa meia hora; falou-me o homem das coisas da Rep\u00fablica, da timidez de C\u00edcero, da versatilidade do povo, da magnanimidade de C\u00e9sar, da pol\u00edtica de Ot\u00e1vio. Elogiou muito a antiga esposa de quem conservava eternas saudades; e por fim calou-se.<\/p>\n<p>Nenhum rumor, o trov\u00e3o n\u00e3o trouxera chuva; as patrulhas andavam por longe; nenhum caminhante feria as pedras da rua. Eram mais de dez horas. O meu anfitri\u00e3o, sentado na cadeira de couro, olhava para mim, abrindo dois grandes olhos e eis que estes come\u00e7am a crescer lentamente, e j\u00e1 ao fim de alguns minutos pareciam no tamanho e na cor as lanternas dos bondes de Botafogo. Depois, come\u00e7aram a diminuir at\u00e9 ficarem muito abaixo do tamanho natural. A cara foi-se-lhe alongando e tomando propor\u00e7\u00f5es de focinho; ca\u00edram as barbas; achatou-se o nariz; diminuiu o corpo, assim como as m\u00e3os; as roupas desapareceram; as carnes tomaram uma cor escura; saiu-lhe uma extensa cauda, e eis o ilustre Bruto, a saltar sobre a mesa, com as formas e as visagens de um rato.<\/p>\n<p>Senti os cabelos eri\u00e7ados; tremia-me o corpo; batia-me o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No mesmo instante, o gato saltou \u00e0 mesa e avan\u00e7ou para ele. Fitaram-se alguns instantes, o que me trouxe \u00e0 mem\u00f3ria aqueles versos de Lucano, que o sr. Castilho Jos\u00e9 nos deu magistralmente assim: Nos altos, frente a frente, os dois caudilhos, S\u00f4fregos de ir-se \u00e0s m\u00e3os, j\u00e1 se acamparam.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s curto sil\u00eancio, o gato avan\u00e7ou para o rato; o rato pulou ao ch\u00e3o, e o gato atr\u00e1s dele.<\/p>\n<p>Subiu o rato ao sof\u00e1, e o gato tamb\u00e9m. Onde Bruto se escondesse, l\u00e1 se metia C\u00e9sar, \u00e0s vezes o primeiro encarava de frente o segundo, mas este n\u00e3o se assustava com isso, e avan\u00e7ava sempre. Gemidos e roncos ferozes eram a orquestra desta dan\u00e7a infernal.<\/p>\n<p>Exausto de uma luta imposs\u00edvel, o rato deixou-se cair arquejante, e o gato p\u00f4s-lhe a pata em cima.<\/p>\n<p>Que pena descreveria o olhar triunfante de C\u00e9sar quando viu debaixo de si o miserando Bruto? N\u00e3o conhe\u00e7o nada em poesia ou pintura \u2014 nem sequer na m\u00fasica chamada imitativa \u2014, nada conhe\u00e7o que produza a impress\u00e3o que me produziu aquele grupo e aquele olhar. De uma rivalidade secular, que lutou \u00e0 luz do sol e da Hist\u00f3ria, passava-se ali o \u00faltimo ato, dentro de uma sala obscura, tendo por espectador \u00fanico um provinciano curioso.<\/p>\n<p>O gato tirou a pata de cima do rato; este deu alguns passos; o gato tomou a peg\u00e1-lo; repetiu a cena uma por\u00e7\u00e3o de vezes; e se isto era natural de um gato, n\u00e3o era digno de C\u00e9sar. Acreditando que me ouvissem, exclamei: \u2014 N\u00e3o o tortures mais! O gato olhou para mim e pareceu compreender-me; efetivamente atirou-se ao rato com uma \u00e2nsia de quem esperava h\u00e1 muito aquela ocasi\u00e3o. Vi \u2014 que horror! \u2014 vi o corpo do nobre Bruto passar todo ao est\u00f4mago do divino C\u00e9sar, vi isto, e n\u00e3o lhe pude valer, porque eu tinha a presun\u00e7\u00e3o de que as armas da terra nada podiam contra aquela lei do destino.<\/p>\n<p>O gato n\u00e3o sobreviveu \u00e0 vingan\u00e7a. Apenas comeu o rato, caiu tr\u00eamulo, miou alguns minutos e faleceu.<\/p>\n<p>Nada mais restava daqueles dois homens de Plutarco.<\/p>\n<p>Contemplei o quadro algum tempo; e fiz tais reflex\u00f5es acerca das evolu\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e das grandezas humanas, que bem podia escrever um livro que faria a admira\u00e7\u00e3o dos povos.<\/p>\n<p>De repente, duas luzes surgiram dos restos miserandos daquele par da Antig\u00fcidade; duas luzes azuis, que subiram lentamente at\u00e9 o teto; o teto abriu-se e eu vi distintamente o firmamento estrelado. As luzes subiram no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>For\u00e7a desconhecida me levantou tamb\u00e9m do sof\u00e1, e eu acompanhei as luzes at\u00e9 meio caminho. Depois seguiram elas, e eu fiquei no espa\u00e7o, contemplando a cidade iluminada, tranq\u00fcila e silenciosa. Fui transportado ao oceano, onde vi uma concha \u00e0 minha espera, uma verdadeira concha mitol\u00f3gica. Entrei nela e comecei a andar na dire\u00e7\u00e3o do oeste.<\/p>\n<p>Prossegui esta am\u00e1vel peregrina\u00e7\u00e3o de um modo verdadeiramente m\u00e1gico. De repente senti que o meu nariz crescia desmesuradamente; admirei o sucesso, mas uma voz secreta me dizia que os narizes s\u00e3o sujeitos a transforma\u00e7\u00f5es inopinadas \u2014 raz\u00e3o pela qual n\u00e3o me admirei quando o meu ap\u00eandice nasal assumiu sucessivamente a figura de um chap\u00e9u, de um rev\u00f3lver e de uma jaboticaba. Voltei \u00e0 cidade; e entrei nas ruas espantado, porque as casas me pareciam todas voltadas com os alicerces para cima, coisa sumamente contr\u00e1ria \u00e0 lei das casas, que devem ter os alicerces embaixo. Todos me apertavam a m\u00e3o e perguntavam se eu conhecia a ilha das chuvas, e como eu respondesse que n\u00e3o, fui levado \u00e0 dita ilha que era a Pra\u00e7a da Constitui\u00e7\u00e3o e mais o seu jardim pomposamente iluminado.<\/p>\n<p>Nesta preocupa\u00e7\u00e3o andei at\u00e9 que fui levado outra vez \u00e0 casa onde se passara a trag\u00e9dia referida acima. A sala estava s\u00f3; nem vest\u00edgio dos dois homens ilustres. O lampi\u00e3o estava a expiar. Sai aterrado e desci as escadas at\u00e9 chegar \u00e0 porta onde achei a chave. N\u00e3o dormi nessa noite; a madrugada veio surpreender-me com os olhos abertos, contemplando de mem\u00f3ria o miserando caso da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>Fui almo\u00e7ar ao Carceller.<\/p>\n<p>Qual n\u00e3o foi o meu espanto quando l\u00e1 encontrei vivo e s\u00e3o aquele que eu supunha na eternidade? \u2014 Venha c\u00e1, venha c\u00e1! disse ele. Por que saiu ontem de casa sem falar? \u2014 Mas&#8230; o senhor&#8230; pois C\u00e9sar n\u00e3o o engoliu? \u2014 N\u00e3o. Esperei a hora fatal, e apenas ela passou, dei gritos de alegria e quis acord\u00e1-lo; mas o senhor dormia t\u00e3o profundamente que achei melhor ir fazer o mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 C\u00e9us! pois eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Efeitos do charuto que lhe dei. Teve belos sonhos, n\u00e3o? \u2014 Todos, n\u00e3o; sonhei que o gato o engolia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o&#8230; Agrade\u00e7o-lhe a companhia; agora esperarei o ano que vem. Quer almo\u00e7ar? Almocei com o homem; no fim do almo\u00e7o ofereceu-me ele um charuto, que eu recusei dizendo: \u2014 Nada, meu caro; vi coisas terr\u00edveis esta noite&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Falta de costume&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Talvez.<\/p>\n<p>Sa\u00ed triste. Procurava um homem original e achei um maluco. Os de ju\u00edzo s\u00e3o todos copiados uns dos outros. Consta-me at\u00e9 que aquele mesmo homem de Plutarco, fregu\u00eas do Carceller, curado por um h\u00e1bil m\u00e9dico, est\u00e1 agora t\u00e3o comum como os outros. Acabou a originalidade com a maluquice. Tu quoque, Brute?<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Os antigos freq\u00fcentadores do Caf\u00e9 Carceller h\u00e3o de recordar-se de um velho que ali ia todas as manh\u00e3s \u00e0s oito horas, almo\u00e7ava, lia os jornais, fumava um charuto, dormia cerca de meia hora e sa\u00eda. 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