{"id":115594,"date":"2017-03-24T19:24:28","date_gmt":"2017-03-24T21:24:28","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115594"},"modified":"2017-03-24T19:24:28","modified_gmt":"2017-03-24T21:24:28","slug":"d-monica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/d-monica","title":{"rendered":"D. M\u00f4nica"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1876<\/b><\/p>\n<p><b>I<\/b><\/p>\n<p>E, reconhecendo as boas qualidades do dito meu sobrinho Gaspar, declaro que o nomeio meu universal herdeiro, com duas condi\u00e7\u00f5es essenciais; a primeira (deixada ao seu crit\u00e9rio), \u00e9 que h\u00e1 de relar os cabedais que lhe lego como os relei durante a minha vida; a segunda (cujo cumprimento preceder\u00e1 a execu\u00e7\u00e3o desta parte do meu testamento) \u00e9 que h\u00e1 de casar com minha tia D. M\u00f4nica, senhora de altas e respeit\u00e1veis virtudes&#8230;<\/p>\n<p>A leitura das linhas transcritas acima e fielmente copiadas do testamento com que morreu o capit\u00e3o Matias do Nascimento, no dia 2 de novembro de 1857, produziu no sobrinho Gaspar duas impress\u00f5es t\u00e3o profundas qu\u00e3o diferentes. A alma de Gaspar subiu ao s\u00e9timo c\u00e9u e desceu para o \u00faltimo abismo, de um lance fez toda a jornada de Dante, ao inv\u00e9s, subindo ao Para\u00edso e caindo de l\u00e1 no derradeiro c\u00edrculo do Inferno onde o diabo lhe apareceu, n\u00e3o com as tr\u00eas cabe\u00e7as que o poeta lhe d\u00e1, mas com pouco mais de tr\u00eas dentes, que tantos possu\u00eda a tia de seu tio.<\/p>\n<p>N\u00e3o traiu, entretanto, o rosto do rapaz aquela impress\u00e3o diferente; a situa\u00e7\u00e3o pedia um ar compungido, e Gaspar estava ao n\u00edvel da situa\u00e7\u00e3o. Ouviu a leitura at\u00e9 o fim, levantou-se, e foi desafogar a c\u00f3lera consigo mesmo. Digo a c\u00f3lera porque o mancebo de quem se trata contava a morte do capit\u00e3o Matias como um dos sucessos mais afortunados da vida; esperava por ele imenso tempo, na doce confian\u00e7a de um legado volumoso. Em vez de simples deixa, caiu-lhe nas m\u00e3os a heran\u00e7a toda. O tio fora al\u00e9m do que ele supunha merecer: era um tio digno de um mar de l\u00e1grimas. Gaspar n\u00e3o tinha l\u00e1grimas, mas tinha um len\u00e7o, m\u00fasculos obedientes, e toda a escala dos sentimentos nos olhos, que eram negros, rasgados e verdadeiramente bonitos. Mediante o len\u00e7o, os m\u00fasculos e os olhos, p\u00f4de suprir as l\u00e1grimas e compungiu a todos pela dor que aparentemente lhe rasgava as entranhas.<\/p>\n<p>Tudo isto era de efeito salutar se pudesse suprimir D. M\u00f4nica. Mas D. M\u00f4nica existia, com seus sessenta anos, os seus cabelos apenas grisalhos, as suas flores no chap\u00e9u, a sua eleg\u00e2ncia de 1810. Gaspar conhecia perfeitamente o abismo a cuja beira o lan\u00e7ara o capricho do tio; capricho sagaz e previdente, porque dispunha as coisas para o caso em que o herdeiro recusasse adotar a condi\u00e7\u00e3o imposta: nesse caso, dizia o testamento, toda a heran\u00e7a caberia \u00e0 mencionada D. M\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u2014 Deus o tenha consigo! exclamou Gaspar, sozinho no quarto; mas n\u00e3o h\u00e1 negar que tinha tanto ju\u00edzo como este chap\u00e9u de sol. Que quer dizer semelhante condi\u00e7\u00e3o de amarrar-me \u00e0 tia M\u00f4nica? Realmente, s\u00f3 por zombaria ou coisa an\u00e1loga; suponho que estava a ca\u00e7oar de mim&#8230;<\/p>\n<p>Este mon\u00f3logo que a\u00ed fica em resumo, foi interrompido pela entrada de um amigo de Gaspar, o bacharel Veloso, rapaz de trinta anos, frio, pacato, sem ilus\u00f5es nem estudos. Veloso era companheiro de inf\u00e2ncia de Gaspar, seu confidente, e n\u00e3o poucas vezes seu Mentor ao p\u00e9 das Calipsos de arriba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 certo o que me disseram agora? perguntou Veloso apertando a m\u00e3o ao companheiro. Teu tio nomeou-te seu herdeiro universal&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 certo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas com a condi\u00e7\u00e3o de te casares com D. M\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u2014 Tal qual.<\/p>\n<p>\u2014 Se recusares, perdes tudo?<\/p>\n<p>\u2014 Se recusar, a tia M\u00f4nica vir\u00e1 a ser herdeira, respondeu Gaspar passeando no quarto. Nada menos que um modo de obrigar-me a casar.<\/p>\n<p>Veloso sentara-se sacudindo a cinza do charuto e sorrindo da condi\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a. Houve alguns instantes de sil\u00eancio. O primeiro que o rompeu foi o bacharel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, disse ele, respondendo \u00e0 \u00faltima reflex\u00e3o do amigo; n\u00e3o \u00e9 isso. O que ele quer \u00e9 deixar D. M\u00f4nica sua universal herdeira. \u00c9 claro que, se recusar, recebe tudo. Muito tola ser\u00e1 se consentir em casar contigo, fazendo uma rid\u00edcula figura. Poupa-se aos coment\u00e1rios do mundo e recebe ainda em cima trezentos contos&#8230;<\/p>\n<p>Gaspar estacou no meio da sala. A observa\u00e7\u00e3o de Veloso pareceu-lhe exat\u00edssima; ao passo que a soma da heran\u00e7a produziu nele violent\u00edssimo abalo.<\/p>\n<p>\u2014 Tens raz\u00e3o, disse Gaspar ao cabo de alguns minutos; h\u00e1 de ser isso. O que ele queria era favorecer a tia M\u00f4nica, levando a minha gratid\u00e3o. Dois reconhecimentos de um golpe: n\u00e3o era mal calculado.<\/p>\n<p>Gaspar arrependeu-se logo deste necrol\u00f3gio, em que entrava muito pouco reconhecimento. Intercalou no discurso um elogio \u00e0s qualidades morais do tio, discurso interrompido por alguns apartes restritivos do bacharel, os quais apartes n\u00e3o eram refutados com a for\u00e7a que era de esperar da parte do orador. O que se podia concluir do discurso e dos apartes \u00e9 que o tio Matias n\u00e3o passara nunca de um estim\u00e1vel paspalh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 algu\u00e9m que sente mais do que tu a cl\u00e1usula do testamento, disse Veloso sorrindo, adivinhas, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Lucinda? \u00c9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 O pai dela.<\/p>\n<p>\u2014 Acreditas que o comendador?<\/p>\n<p>\u2014 Acredito que entrava muito nos c\u00e1lculos dele a prov\u00e1vel heran\u00e7a de teu tio. N\u00e3o direi que te recuse agora a filha; ainda que n\u00e3o seria para admirar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser que lhe n\u00e3o fosse indiferente um genro com dinheiro; observou Gaspar, n\u00e3o creio, por\u00e9m, que a cl\u00e1usula do testamento o leve a opor-se aos desejos da filha.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo que n\u00e3o. Pela tua parte est\u00e1s resolvido a abrir m\u00e3o da heran\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! de certo!<\/p>\n<p>Veloso levantou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Aprovas-me?<\/p>\n<p>\u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o; tanto mais que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que esperava outra coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Ofendes-me.<\/p>\n<p>\u2014 Sou apenas pr\u00e1tico, respondeu Veloso sorrindo. Eu creio pouco no desinteresse, sobretudo ao p\u00e9 de trezentos contos. Vejo que \u00e9s exce\u00e7\u00e3o; tanto melhor para ti&#8230; e para ela.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado!<\/p>\n<p>Gaspar estendeu a m\u00e3o a Veloso, que a apertou com efus\u00e3o. Veio o moleque cham\u00e1-los para jantar. O jantar foi melanc\u00f3lico e silencioso; a presen\u00e7a dos criados n\u00e3o exigia outra coisa. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 certo que tenham bom sabor as sopas de um deserdado.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>A noite foi desconsolada e triste. E t\u00e3o triste como a noite foi a seguinte madrugada, que viu o nosso Gaspar de p\u00e9, com os olhos cansados de n\u00e3o dormir.<\/p>\n<p>N\u00e3o era para menos o malogro da v\u00e9spera. Gaspar vivia h\u00e1 cerca de seis anos somente para o tio Matias, \u00fanico parente seu, al\u00e9m de D. M\u00f4nica; cercava-o de todas as aten\u00e7\u00f5es, as mesmas com que se guarda na carteira um bilhete de loteria. O tio gostava dele e dizia-o e provava-o. Era um velho bom, af\u00e1vel, talvez caprichoso e man\u00edaco, mas em todo caso as boas qualidades superavam as aborrec\u00edveis. Gaspar s\u00f3 lhe via o melhor lado; ao menos n\u00e3o dizia outra coisa. Era o seu parceiro obrigado ao gam\u00e3o, o seu companheiro nos passeios que ele gostava de dar \u00e0s vezes de manh\u00e3; o mais fiel agente dos seus neg\u00f3cios, e at\u00e9 o leitor obrigado dos debates parlamentares. Matias n\u00e3o tinha partido, n\u00e3o o tivera nunca; mas o seu lugar, qualquer que fosse o partido dominante, era a oposi\u00e7\u00e3o. Nasceu oposicionista, como outros nascem governistas, pura quest\u00e3o de temperamento. Gaspar, que entendia tanto de pol\u00edtica como de s\u00e2nscrito, mostrava-se, entretanto, interessado e curioso e dava forte apoio \u00e0s objurgat\u00f3rias do velho Matias.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 hoje muito discurso? perguntava este.<\/p>\n<p>\u2014 P\u00e1gina e meia de Jornal.<\/p>\n<p>\u2014 Que ma\u00e7ada para ti!<\/p>\n<p>\u2014 Ma\u00e7ada? Ora! Al\u00e9m do prazer que lhe dou, tenho eu pr\u00f3prio muito gosto em ver bater este governo sem crit\u00e9rio. J\u00e1 viu nada mais desconsolado?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me fales nisso!<\/p>\n<p>E as colunas da folha ca\u00edam dos l\u00e1bios de Gaspar nos ouvidos de Matias, intercaladas pelas ruidosas pitadas deste ou pelos coment\u00e1rios de um e outro.<\/p>\n<p>Ora, todo esse trabalho de t\u00e3o longo tempo ficou repentinamente perdido: os juros que ele contava receber do vasto cabedal de aten\u00e7\u00f5es, car\u00edcias, sorrisos, enfados de toda esp\u00e9cie, esses gulosos juros iam-se-lhe sem deixar o m\u00ednimo rastro e o pobre Gaspar voltava aos seus ordenados de modesto empregado p\u00fablico.<\/p>\n<p>O malogro era de afligir o mais pacato. Gaspar faltou \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o al\u00e9m dos sete dias de nojo, mais uns cinco, quase meio m\u00eas ao todo, que lhe foi descontado na folha do pagamento. Al\u00e9m disto, que era j\u00e1 bastante, aconteceu que um ou mais dos colegas souberam do testamento de Matias, da heran\u00e7a de Gaspar e da cl\u00e1usula que aquele lhe pusera resultando deste conjunto de fatos a convic\u00e7\u00e3o geral na reparti\u00e7\u00e3o de que o casamento de Gaspar e de D. M\u00f4nica era coisa certa. Um colega imediatamente inferior a ele chegou a pedir-lhe a sua interven\u00e7\u00e3o para que o ministro lhe desse o lugar no dia em que ele, endinheirado, pedisse demiss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Qual demiss\u00e3o, qual casamento! respondeu desabridamente o pobre herdeiro, resposta que foi repetida de boca em boca entre os colegas e comentada durante tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 coisa podia consolar, consolar \u00e9 exagerado \u2014 fazer esquecer por alguns instantes o esvaecimento da heran\u00e7a; era Lucinda. Lucinda era uma mocinha de dezessete anos, cabelos castanhos, olhos da mesma cor, rosto oval e p\u00e9 de s\u00edlfide. O p\u00e9 foi o la\u00e7o em que o sobrinho de Matias caiu. A met\u00e1fora pode n\u00e3o ser nova nem bonita, mas \u00e9 perfeitamente exata. Lucinda sabia que tinha um p\u00e9 formoso, esguio, leve, como devem ser os p\u00e9s dos anjos, um p\u00e9 alado, quando ela valsava e deixava entrev\u00ea-lo todo no meio dos giros em que se deixava ir. Sabia disso e gostava de que lhe admirassem o p\u00e9; da\u00ed resultava que, por mais comprido que fosse o vestido de Lucinda, n\u00e3o havia hip\u00f3tese de estar ela assentada sem mostrar a pontinha do sapato. Et tout le monde sait qu\u2019elle a le pied charmant, podia dizer o poeta. Gaspar fazia como tout le monde; via o p\u00e9 e adorava-o. Acontece que entre tantos admiradores, Lucinda s\u00f3 esperava um, aquele que lhe falava ao cora\u00e7\u00e3o; esse foi Gaspar. O resto adivinha-se. Amaram-se, disseram-se e pediram-se&#8230; um ao outro. O comendador Lima, pai da mo\u00e7a, percebeu as confer\u00eancias ideais e sentimentais entre o p\u00e9 da filha e a alma do rapaz, e n\u00e3o lhe pareceu mau casamento.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bom mo\u00e7o, pensou ele, empregado s\u00e9rio e tem cabedais no horizonte; posso dar-lhe a pequena.<\/p>\n<p>Gaspar entendeu pelo rosto am\u00e1vel do comendador que o seu pedido n\u00e3o viria fora de prop\u00f3sito, e planeava o meio de requerer a mo\u00e7a com o consentimento do tio quando este se lembrou de mudar o domic\u00edlio passageiro pelo eterno, deixando-lhe o dinheiro e a tia.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o mudara; contudo n\u00e3o lhe pareceu que o comendador mudasse muito com ela. Achou-o certamente mais reservado e algo frio; mas a filha estava t\u00e3o contente que ele sentiu renascer-lhe a abalada confian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei que me deixas, disse a mo\u00e7a com um tom de tristeza<\/p>\n<p>\u2014 Deixar-te?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te casas?<\/p>\n<p>Gaspar levantou secamente os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 resposta, disse a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Que queres que te diga?<\/p>\n<p>\u2014 Que me amas&#8230; que n\u00e3o me h\u00e1s de trair&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Lucinda!<\/p>\n<p>\u2014 Lucinda n\u00e3o \u00e9 resposta.<\/p>\n<p>\u2014 Crian\u00e7a!<\/p>\n<p>\u2014 Ainda menos!<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim; n\u00e3o te hei de trair&#8230; Trair por que e por quem? Julgas-me um&#8230;<\/p>\n<p>A mo\u00e7a desatou a rir, uma risada que faria morrer a D. M\u00f4nica, se a ouvisse e percebesse a coisa, e os dois namorados passaram a falar do seu futuro. O que os namorados dizem de seu futuro n\u00e3o \u00e9 coisa nova para ningu\u00e9m; dizem tudo e n\u00e3o dizem coisa nenhuma, eloq\u00fc\u00eancia divina, que \u00e9 melhor experimentar, que julgar, mas julgue-a quem n\u00e3o experiment\u00e1-la.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>D. M\u00f4nica soube da cl\u00e1usula de testamento com viva demonstra\u00e7\u00e3o de desagrado. A disposi\u00e7\u00e3o pareceu-lhe zombeteira e cruel a um tempo. N\u00e3o era melhor, se o sobrinho queria favorecer os seus dois parentes, repartir com eles os trezentos contos? Esta foi a primeira reflex\u00e3o. A segunda foi de agradecimento, porquanto a recusa da parte de Gaspar vinha constitu\u00ed-la herdeira de toda a riqueza, e a cl\u00e1usula testament\u00e1ria redundava toda em proveito dela. N\u00e3o sei se isto \u00e9 interesse e ego\u00edsmo, sei que foi a reflex\u00e3o de D. M\u00f4nica. N\u00e3o foi por\u00e9m a \u00faltima; foi apenas a segunda, a que ainda sucedeu terceira e quarta. D. M\u00f4nica refletiu que havia no testamento uma lacuna, e era o caso em que, disposto Gaspar a despos\u00e1-la, n\u00e3o estivesse ela disposta a aceitar-lhe a m\u00e3o. A quem pertenceria nesse caso a heran\u00e7a? Parece que ao rapaz, visto que n\u00e3o casaria por motivo independente de sua vontade. Enfim, D. M\u00f4nica perguntou a si pr\u00f3pria, se o casamento, em tal idade, era coisa t\u00e3o fora de prop\u00f3sito que a obrigasse a recuar. A resposta foi negativa, por duas raz\u00f5es: a primeira \u00e9 que o sobrinho Matias n\u00e3o disporia em testamento um absurdo, uma coisa que lhe ficasse mal a ela. Sempre o conhecera respeitoso e seu amigo; a segunda \u00e9 que ela mesma sentia em si alguns restos das gra\u00e7as de outro tempo.<\/p>\n<p>D. M\u00f4nica relanceou os olhos para o espelho, comp\u00f4s as duas tran\u00e7as do cabelo, presas sobre a nuca, a fim de lhes dar um ar menos sustoso, estudou-se com aten\u00e7\u00e3o, e concluiu que, se n\u00e3o era mo\u00e7a, n\u00e3o era de todo rejeit\u00e1vel. Uma id\u00e9ia desta \u00e9 mais dif\u00edcil de nascer que de morrer. Uma vez nascida no esp\u00edrito de D. M\u00f4nica, entranhou-se como uma verruma. Vinte e quatro horas depois era resolu\u00e7\u00e3o assentada; mas, como a consci\u00eancia busca muita vez iludir-se a si pr\u00f3pria, D. M\u00f4nica lan\u00e7ava a resolu\u00e7\u00e3o \u00e0 conta da afei\u00e7\u00e3o que tinha ao rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Que raz\u00e3o tenho eu para retardar a heran\u00e7a que o tio lhe deixou? dizia ela dentro de si. Aceitando o casamento, evito chicanas e perda de tempo. Demais \u00e9 sempre digna de respeito a \u00faltima vontade de um morto.<\/p>\n<p>Gaspar foi ter com a tia-av\u00f3, alguns dias depois de voltar \u00e0 Secretaria. Ia resolvido a dizer-lhe francamente a raz\u00e3o que tinha para n\u00e3o aceitar a condi\u00e7\u00e3o imposta pelo tio, raz\u00e3o que o leitor sabe ser o amor de Lucinda, al\u00e9m do horror que inspirava a id\u00e9ia de obedecer naquele ponto ao tio.<\/p>\n<p>D. M\u00f4nica vestira-se nesse dia com singular apuro. Tinha um vestido de gorgor\u00e3o preto; s\u00e9rio na cor, mas risonho na forma, que era um complicado de folhos e babados. Os cabelos dobravam-se em band\u00f3s e enquadravam-lhe o rosto, cuja express\u00e3o n\u00e3o era severa nem desconsolada. D. M\u00f4nica deixava-se estar na poltrona, quando lhe anunciaram o sobrinho. A poltrona era larga, pouco mais larga que a tia do capit\u00e3o, que tinha as formas amplas e refeitas.<\/p>\n<p>\u2014 Bem-vindo seja o senhor Gaspar! exclamou ela logo que o viu assomar \u00e0 porta. Cuidei que nunca mais queria ver a sua \u00fanica parenta.<\/p>\n<p>\u2014 Que id\u00e9ia! respondeu o mo\u00e7o. A senhora sabe n\u00e3o podia haver tal esquecimento da minha parte.<\/p>\n<p>Disse, e, aproximando-se dela, beijou-lhe respeitosamente a m\u00e3o. D. M\u00f4nica deu-lha com uma gra\u00e7a estudada, mas que lhe n\u00e3o ficou mal de todo.<\/p>\n<p>\u2014 Senta-te aqui, disse ela apontando para uma cadeira que lhe ficava ao lado.<\/p>\n<p>Gaspar obedeceu. Apenas sentado, reconheceu que era mais f\u00e1cil planear que executar. Calou-se durante algum tempo, sem saber por onde come\u00e7asse. D. M\u00f4nica veio em seu aux\u00edlio.<\/p>\n<p>\u2014 Como vai o invent\u00e1rio do nosso pobre Matias? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Vai andando, respondeu Gaspar escondendo um charuto que casualmente tiram da algibeira.<\/p>\n<p>\u2014 Fuma, fuma, disse D. M\u00f4nica sorrindo.<\/p>\n<p>Gaspar agradeceu e acendeu um f\u00f3sforo continuando a resposta.<\/p>\n<p>\u2014 O invent\u00e1rio n\u00e3o levar\u00e1 muito tempo; toda a quest\u00e3o ser\u00e1 o neg\u00f3cio da heran\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Da heran\u00e7a! Por qu\u00ea? perguntou D. M\u00f4nica. H\u00e1 algum herdeiro que reclame?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 nenhum. A senhora sabe que meu tio nomeou-me seu herdeiro universal, com a condi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim&#8230; interrompeu D. M\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7o-lhe que acredite que eu nunca ousaria exigir da senhora um sacrif\u00edcio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eras capaz de sacrificar a heran\u00e7a? perguntou D. M\u00f4nica olhando para ele admirada.<\/p>\n<p>\u2014 Era.<\/p>\n<p>D. M\u00f4nica refletiu alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Compreendo os teus sentimentos, e admiro o teu desinteresse. Espero contudo que me far\u00e1s a justi\u00e7a de crer que eu n\u00e3o consentiria nunca em deserdar-te&#8230;<\/p>\n<p>Desta vez foi Gaspar que olhou admirado para D. M\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u2014 A vontade do capit\u00e3o era beneficiar-nos a ambos, continuou D. M\u00f4nica. Pareceu-lhe que o casamento correspondia \u00e0s suas inten\u00e7\u00f5es. N\u00e3o refletiu, de certo, na disparidade que h\u00e1 entre mim e ti; n\u00e3o se lembrou de que podia expor-nos um e outro aos coment\u00e1rios do mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Justamente, respondeu Gaspar.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o capit\u00e3o morreu e n\u00e3o pode reparar o mal. Pela minha parte, doer-me-ia se contribu\u00edsse para que perdesses a heran\u00e7a&#8230; Que raz\u00e3o alegaria eu para faz\u00ea-lo? A tal ou qual dist\u00e2ncia entre as nossas idades; n\u00e3o tenho por\u00e9m nenhum direito a demorar-me nessa considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um casamento entre n\u00f3s ser\u00e1 uma formalidade necess\u00e1ria para receber a heran\u00e7a. N\u00e3o tenho direito de recusar a formalidade como n\u00e3o teria de recusar a minha assinatura se esta fosse precisa.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! minha tia! exclamou Gaspar, o seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 bom, mas posso eu abusar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 abusar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nunca!<\/p>\n<p>\u2014 Nunca e sempre&#8230; S\u00e3o duas palavras que pedem reflex\u00e3o, interrompeu D. M\u00f4nica levantando a sua pachorra. At\u00e9 outro dia! N\u00e3o sou t\u00e3o m\u00e1 como poderias supor&#8230; Adeus!<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>D. M\u00f4nica estendeu-lhe a m\u00e3o sorrindo, e sorrindo com tanta arte, que s\u00f3 um dos dentes lhe apareceu. Gaspar beijou-lhe a m\u00e3o; a boa velha encaminhou-se para uma das portas que davam para o interior. Gaspar ficou pasmado na sala. Dois minutos depois transpunha a porta que dava para o corredor e descia as escadas.<\/p>\n<p>\u2014 Esta agora \u00e9 melhor! pensava ele. De maneira que a velha sacrifica-se para me dar gosto?<\/p>\n<p>Vinte minutos depois encontrou Veloso.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes o que me acontece?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Acho disposi\u00e7\u00e3o em tia M\u00f4nica para casar comigo.<\/p>\n<p>Veloso encostou-se a um portal para n\u00e3o cair. Quando p\u00f4de recobrar a fala:<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel! disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Parece imposs\u00edvel, mas \u00e9 a pura verdade.<\/p>\n<p>\u2014 De maneira que tu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vou mand\u00e1-la ao diabo.<\/p>\n<p>Tais eram efetivamente as inten\u00e7\u00f5es de Gaspar. Durante oito dias n\u00e3o voltou \u00e0 casa de D. M\u00f4nica, n\u00e3o tanto porque as disposi\u00e7\u00f5es da velha o irritavam, mas porque andava tomado de terror. A cada passo parecia-lhe ver um padre, um altar, a tia e o casamento celebrado sem remiss\u00e3o nem agravo.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Entretanto, Lucinda entrou a desanimar um pouco nas suas esperan\u00e7as matrimoniais. A situa\u00e7\u00e3o de Gaspar era pior do que antes; e sobre ser pior n\u00e3o lhe falava ele em coisa que se parecesse com casamento. Quais seriam as suas inten\u00e7\u00f5es, e que desilus\u00e3o lhe preparava o futuro? Um dia abriu-se com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Descansa! respondeu Gaspar, ser\u00e1s minha ainda contra a vontade do c\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o blasfemes!<\/p>\n<p>\u2014 Falo-te assim, para te mostrar a resolu\u00e7\u00e3o em que estou. E j\u00e1 que me falaste nisto, dir-te-ei que ainda \u00e9 tempo de refletir. Bem sei que n\u00e3o amaste em mim os bens da fortuna, que ali\u00e1s nunca tive. Contudo, \u00e9 bom que vejas a situa\u00e7\u00e3o em que me acho. A pouca esperan\u00e7a que podia haver de melhorar de sorte esvaeceu-se; nada tenho, al\u00e9m do meu trabalho. Queres-me assim mesmo?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a lan\u00e7ou um olhar de indigna\u00e7\u00e3o ao rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me respondes? perguntou este.<\/p>\n<p>\u2014 Com o desprezo, era a \u00fanica resposta que merecias! exclamou Lucinda.<\/p>\n<p>Esta indigna\u00e7\u00e3o da namorada foi um b\u00e1lsamo suave lan\u00e7ado no cora\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o. Era muito melhor do que um sorriso ou um levantar de ombros, ou qualquer outra coisa menos expressiva.<\/p>\n<p>\u2014 Perdoas-me? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o ficas querendo mal?<\/p>\n<p>\u2014 Talvez!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digas isso! Reconhe\u00e7o que sou culpado mas a inten\u00e7\u00e3o das minhas palavras era a mais pura e inocente!<\/p>\n<p>Lucinda acreditou piamente na pureza da inten\u00e7\u00e3o do rapaz e a conversa encaminhou-se para assuntos menos \u00e1speros, em que por enquanto os deixaremos para ir ver em que se ocupa a senhora D. M\u00f4nica durante a longa aus\u00eancia de Gaspar.<\/p>\n<p>D. M\u00f4nica contou com extrema aten\u00e7\u00e3o e tal ou qual saudade os dias da aus\u00eancia do sobrinho. N\u00e3o tardou a zangar-se com tamanho prazo, at\u00e9 que um dia ergueu-se da cama com a resolu\u00e7\u00e3o de o mandar chamar. Nesse dia a camareira de D. M\u00f4nica p\u00f4s em atividade todos os seus talentos de ornamentista para reparar os ultrajes dos anos, e repor a boa senhora em condi\u00e7\u00f5es menos desfavor\u00e1veis do que a pusera a natureza. Duas horas a espartilhar-se e a vestir-se. Ao cabo de todo esse tempo disp\u00f4s o \u00e2nimo para receber o esquivo sobrinha a quem escrevera logo de manh\u00e3.<\/p>\n<p>Todo esse trabalho, por\u00e9m, foi in\u00fatil porque o mencionado sobrinho n\u00e3o apareceu, e D. M\u00f4nica teve de contentar-se com as despesas da toilette.<\/p>\n<p>A esquivan\u00e7a do sobrinho pareceu-lhe de algum modo ofensiva, duplamente ofensiva, porque o era \u00e0 sua pessoa como tia e como mulher. Como mulher \u00e9 que ela sentiu mais. Ao mesmo tempo refletiu no caso, e hesitou em crer que o rapaz, sem forte motivo, se dispusesse a perder nada menos que uma gorda aposentadoria.<\/p>\n<p>\u2014 Alguma coisa h\u00e1 de haver por for\u00e7a, dizia ela mordendo o l\u00e1bio com despeito.<\/p>\n<p>E a id\u00e9ia de um namoro foi a primeira que lhe acudiu ao esp\u00edrito como a mais natural de todas as explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 isso, algum namorico, sabe Deus com que lambisg\u00f3ia! Sacrifica-se por ela, sem saber o que lhe resultar\u00e1 de semelhante passo. Pois que se avenham&#8230;<\/p>\n<p>A retic\u00eancia que a\u00ed fica n\u00e3o \u00e9 minha, foi uma retic\u00eancia nervosa que acometeu a pobre senhora, em forma de tosse, interrompendo o mon\u00f3logo, a que deu fim a mucama trazendo-lhe a bandejinha de ch\u00e1. D. M\u00f4nica tomou dois ou tr\u00eas goles dele e deitou-se da\u00ed a alguns minutos. O sono n\u00e3o veio prontamente, mas veio, enfim, cheio de sonhos cor-de-rosa em que D. M\u00f4nica viu realizados todos os seus desejos.<\/p>\n<p>No dia.seguinte os bons dias que recebeu foi uma carta de Gaspar. Dizia-lhe ele, respeitosamente, que era obrigado a renunciar \u00e0 honra imposta por seu tio e \u00e0 heran\u00e7a que lhe advinha dela, visto ter uma afei\u00e7\u00e3o anterior ao testamento do capit\u00e3o Matias, afei\u00e7\u00e3o s\u00e9ria e decisiva. Consultaria, entretanto, um advogado para liquidar o ponto e saber se a tia podia ser defraudada de alguma parte da heran\u00e7a, coisa que ele evitaria por todos os meios poss\u00edveis. A carta era singela, nobre e desinteressada; por isso mesmo o desespero de D. M\u00f4nica foi aos \u00faltimos limites.<\/p>\n<p>Gaspar n\u00e3o remeteu aquela carta sem consultar o seu amigo Veloso, que a ouviu ler e aprovou com restri\u00e7\u00f5es. A carta seguiu seu destino, e Gaspar interrogou o bacharel sobre o que achava ele que dizer ao desengano contido na ep\u00edstola.<\/p>\n<p>\u2014 Acho que o desengano \u00e9 franco demais. N\u00e3o \u00e9 bem isto que eu quero dizer. Acho que n\u00e3o deixas nenhum caminho para voltar atr\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Voltar atr\u00e1s? perguntou Gaspar admirado.<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Porque n\u00e3o se despedem t\u00e3o levianamente trezentos contos. Amanh\u00e3 podes pensar de modo inteiramente diverso do que pensas hoje&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nunca!<\/p>\n<p>\u2014 Nada de afirma\u00e7\u00f5es temer\u00e1rias.<\/p>\n<p>Gaspar levantou os ombros e fez um gesto de t\u00e9dio, a que Veloso respondeu sorrindo. Gaspar lembrou-lhe que, logo que fora aberto o testamento e conhecidas as disposi\u00e7\u00f5es de seu tio, Veloso lhe aprovara a resolu\u00e7\u00e3o de n\u00e3o aceitar o casamento imposto.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, retorquiu este; mas, se \u00e9 bonito o ato, n\u00e3o impede que absolutamente o devas praticar, nem que seja prova de ju\u00edzo seguro.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, parece-te&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que n\u00e3o cedes a considera\u00e7\u00f5es de dinheiro, o que \u00e9 prova de honestidade; mas que n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio se n\u00e3o ceder alguma vez a elas, o que \u00e9 prova de reflex\u00e3o. A mocidade passa e as ap\u00f3lices ficam.<\/p>\n<p>Gaspar engoliu um discurso que lhe veio \u00e0 ponta da l\u00edngua, discurso de indigna\u00e7\u00e3o, todo inspirado por seus brios ofendidos; limitou-se a dizer que no dia seguinte ia pedir a m\u00e3o de Lucinda e que se casaria no mais breve prazo. Veloso deu-lhe os parab\u00e9ns, e Gaspar foi dali redigir a carta de pedido ao comendador.<\/p>\n<p>A carta de Gaspar n\u00e3o chegou \u00e0 not\u00edcia do narrador do caso; mas h\u00e1 motivos para crer que era obra acabada como simplicidade de express\u00e3o e nobreza de pensamento. A carta foi enviada no dia seguinte; Gaspar aguardou a resposta com a ansiedade que o leitor pode imaginar.<\/p>\n<p>A resposta n\u00e3o veio imediatamente como ele cuidava que seria. Esta demora f\u00ea-lo curtir dores cru\u00e9is. Escreveu um bilhete \u00e0 namorada que lhe respondeu com tr\u00eas ou quatro monoss\u00edlabos t\u00e9tricos e misteriosos. Gaspar assustado correu \u00e0 casa do comendador, e achou-a triste, abatida e reservada. Quis indagar o que havia, mas n\u00e3o teve ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o da tristeza de Lucinda foi a repreens\u00e3o que o comendador lhe passou, ao ler o pedido do rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Autorizaste semelhante carta? perguntou o comendador fuzilando-lhe os olhos de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>\u2014 Papai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Responde!<\/p>\n<p>\u2014 Eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sei eu, troou o comendador Lima indignado; sei que n\u00e3o tiveste for\u00e7a bastante para desanimar o pretendente. Casar! N\u00e3o \u00e9 demais sen\u00e3o casar! Com que havia ele de sustentar casa? Provavelmente com o que esperava receber de mim? De maneira que eu ajuntei para que um peralvilho, que n\u00e3o tem onde cair morto, venha desfrutar o que me custou a haver?<\/p>\n<p>Lucinda sentiu duas l\u00e1grimas borbulharem-lhe nos olhos e fez men\u00e7\u00e3o de retirar-se. O pai reteve-a para lhe dizer em termos menos desabridos que ele n\u00e3o desaprovava nenhuma afei\u00e7\u00e3o que ela tivesse, mas que a vida n\u00e3o se compunha s\u00f3 de afei\u00e7\u00f5es, sen\u00e3o de interesses tamb\u00e9m e necessidades de toda a esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>\u2014 Esse tal Gaspar n\u00e3o \u00e9 mau rapaz, concluiu o comendador, mas n\u00e3o tem posi\u00e7\u00e3o digna de ti, nem futuro. Por ora tudo s\u00e3o flores; as flores passam depressa; e quando tu quiseres um vestido novo ou uma j\u00f3ia, n\u00e3o h\u00e1s de mandar \u00e0 modista ou ao joalheiro um peda\u00e7o do cora\u00e7\u00e3o de teu marido. S\u00e3o verdades que deves ter gravadas no esp\u00edrito, em vez de te guiares somente por fantasias e sonhos. Ouviste?<\/p>\n<p>Lucinda n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Ouviste? repetiu o comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Ouvi.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o basta ouvir, \u00e9 necess\u00e1rio digerir, disse sentenciosamente o pai.<\/p>\n<p>E com este aforisma concluiu o di\u00e1logo \u2014 direi antes o mon\u00f3logo, deixando na alma de Lucinda poucas esperan\u00e7as de casamento, ao menos imediato como ela supunha e desejava que fosse. Tal \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o da tristeza e reserva com que recebeu o rapaz naquela noite. Facilmente se cr\u00ea que Gaspar n\u00e3o sa\u00edsse dali com a cara alegre. Nem acharei entre os leitores nenhum t\u00e3o incr\u00e9dulo que duvide de que o pobre namorado ficou t\u00e3o fora de si, que n\u00e3o atinou com a maneira de abrir a porta, e afinal quebrou a chave, pelo que achou-se no meio da rua, \u00e0 uma hora da noite, sem ter onde ir dormir.<\/p>\n<p>Sem casa nem esperan\u00e7as, \u00e9 supl\u00edcio excessivo. Gaspar teve id\u00e9ia de ir ter com Veloso e passar a noite com ele, derramando no seio do amigo todas as suas queixas, e tristezas. S\u00f3 ao cabo de cinco minutos \u00e9 que se lembrou de que o bacharel morava no Pedregulho. Consultou a algibeira cuja resposta foi a mais desanimadora poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Nestas circunst\u00e2ncias ocorreu-lhe a melhor solu\u00e7\u00e3o que podia ter naquela crise: ir pedir pousada a D. M\u00f4nica. Ela morava na rua dos Inv\u00e1lidos e ele achava-se na rua do Conde. Embicou para l\u00e1, t\u00e3o cheio de suas m\u00e1goas, que nem lhe lembravam as que podia ter causado \u00e0 tia.<\/p>\n<p>Ali chegando, foi-lhe facilmente aberta a porta. Um escravo dormia no corredor, e n\u00e3o teve d\u00favida em franquear-lhe a entrada desde que reconheceu a voz de Gaspar. Este contou ao escravo o que lhe acontecera.<\/p>\n<p>\u2014 A vista disto, concluiu ele, arranja-me a\u00ed um lugar com que passe a noite, mas sem acordar titia.<\/p>\n<p>D. M\u00f4nica tinha dois quartos trastejados para h\u00f3spedes; Gaspar foi acomodado em um deles.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>A dona da casa ficou estupefacta no dia seguinte quando lhe deram conta do ocorrido. Em quaisquer outras circunst\u00e2ncias, o caso lhe pareceria natural. Naquelas afigurou-se-lhe extraordin\u00e1rio. Ao mesmo tempo ficou singularmente satisfeita.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o deixes sair sem almo\u00e7ar, disse ela ao escravo.<\/p>\n<p>A ordem foi cumprida; e Gaspar viu-se obrigado a faltar \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o porque D. M\u00f4nica que almo\u00e7ava cedo, determinou que naquele dia se alterasse o costume. N\u00e3o me atrevo a dizer que o fim da boa senhora fosse aquilo mesmo, mas tinha ares disso. Verdade seja que a demora podia explicar-se pela necessidade que ela tinha de vestir-se e toucar-se convenientemente.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o preciso de explica\u00e7\u00f5es, disse ela quando \u00e0 mesa do almo\u00e7o Gaspar quis explicar-lhe a raz\u00e3o do inc\u00f4modo que viera dar-lhe. Vieste, \u00e9 quanto basta; sempre que vieres tens aqui casa e cora\u00e7\u00f5es amigos.<\/p>\n<p>Gaspar agradeceu e almo\u00e7ou. Almo\u00e7ou triste e preocupado. N\u00e3o reparou nas aten\u00e7\u00f5es da tia, no tom carinhoso com que ela lhe falava, na ternura que havia nos seus olhos; n\u00e3o reparou em nada. D. M\u00f4nica, pelo contr\u00e1rio, reparou em tudo; viu que o sobrinho n\u00e3o estava senhor de si.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1s de me contar o que tens, disse ela quando ficaram s\u00f3s os dois.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho nada.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me iludas!<\/p>\n<p>\u2014 Nada tenho&#8230; passei a noite mal.<\/p>\n<p>D. M\u00f4nica n\u00e3o acreditou, mas n\u00e3o insistiu. O sobrinho, entretanto, sentia necessidade de desabafar com algu\u00e9m; e n\u00e3o tardou em expor tudo \u00e0 velha parenta, que o ouviu com religiosa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me admira nada disso, observou ela quando ele acabou a narra\u00e7\u00e3o; \u00e9 natural\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u2014 Alguma trai\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Podia ser; mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio suspeitar trai\u00e7\u00e3o para explicar a mudan\u00e7a dessa mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-lhe&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Parece-me que ela amava um herdeiro, e que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>\u2014 Por que imposs\u00edvel?<\/p>\n<p>\u2014 Se eu lhe digo que a achei triste e abatida! O pai, sim, \u00e9 poss\u00edvel que o pai se oponha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m creio.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a vontade do pai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A vontade do pai h\u00e1 de vencer a da filha; seus conselhos a persuadir\u00e3o&#8230; disse D. M\u00f4nica sorrindo. Que admira? \u00c9 o que acontece com mo\u00e7as que sonham no casamento um perp\u00e9tuo baile.<\/p>\n<p>Gaspar ouviu cabisbaixo e triste o que lhe dizia a velha parenta. Seu cora\u00e7\u00e3o batia com for\u00e7a, \u00e0 medida que o esp\u00edrito ia admitindo a plausibilidade da opini\u00e3o de D. M\u00f4nica. Ao mesmo tempo surgiam-lhe na mem\u00f3ria as provas de afeto que Lucinda sempre lhe dera, o desinteresse manifestado mais de uma vez, e, enfim, a indigna\u00e7\u00e3o com que ainda recentemente lhe respondera a uma insinua\u00e7\u00e3o acerca da heran\u00e7a.<\/p>\n<p>D. M\u00f4nica, pela sua parte, mostrava os inconvenientes em certa ordem de casamentos comparados com outros, menos rom\u00e2nticos mas muito mais s\u00f3lidos. Gaspar n\u00e3o ouviu, ou ouviu mal, a prele\u00e7\u00e3o da tia. Tinha perdido a reparti\u00e7\u00e3o: saiu para ir rondar \u00e0 porta da namorada.<\/p>\n<p>Na primeira ocasi\u00e3o em que p\u00f4de falar a s\u00f3s com ele (foi da\u00ed a dois dias), Lucinda referiu-lhe o discurso e os conselhos do pai, e pediu-lhe que tivesse paci\u00eancia e esperasse. Gaspar jurou por todos os santos do c\u00e9u que esperaria at\u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos. A mo\u00e7a podia responder que provavelmente nessa \u00e9poca n\u00e3o estaria em idade de casar, n\u00e3o lhe acudiu por\u00e9m a resposta e continuou a lastimar-se com ele do despotismo dos pais e das exig\u00eancias sociais.<\/p>\n<p>Gaspar saiu dali disposto \u201c. Vagou longo tempo nas ruas sem assentar em coisa alguma, at\u00e9 que foi acabar a noite no primeiro teatro que achou aberto. Na pe\u00e7a que se representava havia um namorado em condi\u00e7\u00f5es iguais \u00e0s dele que acabava matando-se. Gaspar achou que a solu\u00e7\u00e3o era violenta demais.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! eu morrerei por mim mesmo! exclamou ele saindo do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Talvez julgasse que entre a vida e a morte havia lugar para um bife de grelha, porque o foi comer em um hotel pr\u00f3ximo. A ceia diminuiu-lhe o horror da situa\u00e7\u00e3o; Gaspar dormiu tranq\u00fcilo a noite inteira.<\/p>\n<p>No dia seguinte acordou tarde; e faltou \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o, como usava fazer algumas vezes, e seu esp\u00edrito, mais que nunca, era avesso ao expediente. Lembrou-se de ir dar um passeio a Niter\u00f3i para distrair-se. Embarcou e recolheu-se todo em si, olhando para o mar e o c\u00e9u. Pouca gente havia perto; ainda assim, e por mais absorto que ele estivesse, n\u00e3o p\u00f4de obstar que lhe chegasse aos ouvidos o seguinte peda\u00e7o de conversa entre dois sujeitos desconhecidos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que lhe digo, n\u00e3o caio nessa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Porque n\u00e3o tenho certeza de ganhar um conto de r\u00e9is e arrisco-me a perder dez ou doze.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o creio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 arriscad\u00edssimo!<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 um medroso.<\/p>\n<p>\u2014 Medroso, n\u00e3o; prudente. Prudente como quem lhe custou a arranjar um peculiozinho.<\/p>\n<p>\u2014 Peculiozinho? Magan\u00e3o! confesse que voc\u00ea tem a\u00ed os seus cem contecos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por a\u00ed, por a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>Gaspar suspirou e olhou para o passageiro que dizia possuir cem contos. Era um homem de cerca de quarenta anos, vestido com asseio, mas sem apuro nem eleg\u00e2ncia. A barca chegava a S. Domingos; o interlocutor do homem desembarcou, enquanto o outro ficou para ir a Niter\u00f3i. Logo que a barca tomou este caminho, Gaspar aproximou-se do desconhecido:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me dir\u00e1 \u2014 disse ele \u2014 como \u00e9 que V.S. arranjou cem contos de r\u00e9is?<\/p>\n<p>O desconhecido olhou espantado para a pessoa que lhe fazia esta pergunta e ia responder-lhe descortesmente, quando Gaspar continuou nos termos seguintes:<\/p>\n<p>\u2014 Espanta-se naturalmente do que lhe digo, e tem raz\u00e3o; mas a explica\u00e7\u00e3o \u00e9 simples. V.S. v\u00ea em mim um candidato a cem contos de r\u00e9is; ou a mais&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mais \u00e9 melhor, tomou o desconhecido sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Bastam-me cem.<\/p>\n<p>\u2014 Pois o segredo \u00e9 simples.<\/p>\n<p>\u2014 Qual \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Ganh\u00e1-los.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! isso!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 dif\u00edcil, bem sei; leva anos.<\/p>\n<p>\u2014 Quantos anos levou o senhor?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 muito curioso!<\/p>\n<p>\u2014 Oh! se eu lhe contar a minha situa\u00e7\u00e3o, compreenderia a singularidade da minha conversa.<\/p>\n<p>O desconhecido nenhuma necessidade sentiu de saber a vida de Gaspar, e dirigiu a conversa para as vantagens que podem dar os bens da fortuna. Foi o mesmo que lan\u00e7ar lenha no fogo. Gaspar sentiu arder em si, cada vez mais, a ambi\u00e7\u00e3o de possuir.<\/p>\n<p>\u2014 Se eu lhe disser que posso ter trezentos contos de r\u00e9is amanh\u00e3?<\/p>\n<p>Os olhos do desconhecido faiscaram.<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3?<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>\u2014 De um modo simples; casando.<\/p>\n<p>Gaspar n\u00e3o recuou em suas confid\u00eancias; referiu tudo ao desconhecido que o ouvia com religiosa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 E que faz o senhor que n\u00e3o casa?<\/p>\n<p>\u2014 Porque amo a outra pessoa; uma criatura ang\u00e9lica&#8230;<\/p>\n<p>O desconhecido olhou para Gaspar com tanta compaix\u00e3o que este sentiu-se envergonhado \u2014 envergonhado, sem saber de qu\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Bem sei, disse ele, que n\u00e3o h\u00e1 prud\u00eancia nisto; mas o cora\u00e7\u00e3o&#8230; O que eu queria era saber como se pudesse obter cem contos, para depois&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Casar com a outra?<\/p>\n<p>\u2014 Tal qual.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. A barca est\u00e1 a chegar e n\u00f3s vamos separar-nos. Deixe-me dar-lhe um conselho: case com sua tia.<\/p>\n<p>\u2014 Uma velha!<\/p>\n<p>\u2014 Trezentos contos.<\/p>\n<p>\u2014 Amando a outra!<\/p>\n<p>\u2014 Trezentos contos.<\/p>\n<p>A barca chegou; o desconhecido despediu-se.<\/p>\n<p>Gaspar ficou s\u00f3, a refletir no infinito n\u00famero de homens interesseiros que h\u00e1 no mundo. A barca voltou da\u00ed a pouco \u00e0 cidade. Gaspar viu entrar entre os passageiros um homem ainda mo\u00e7o pelo bra\u00e7o de uma senhora idosa, que ele sup\u00f4s ser sua m\u00e3e, mas que soube ser sua mulher quando o rapaz a apresentou a um amigo. Vestiam com luxo. O marido, tendo de tirar um cart\u00e3o de visita da algibeira, mostrou uma carteira recheada de dinheiro.<\/p>\n<p>Gaspar suspirou.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 cidade foi \u00e0 casa da tia; D. M\u00f4nica achou-o ainda muito triste, e lhe disse.<\/p>\n<p>\u2014 Vejo que amas loucamente essa mo\u00e7a. Queres casar com ela?.<\/p>\n<p>\u2014 Titia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Farei o mais que posso; tentarei vencer o pai.<\/p>\n<p>Gaspar ficou estupefato.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! disse ele consigo; eu sou indigno desta generosidade.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>O almo\u00e7o no dia seguinte foi mais triste que de costume. Gaspar abriu os jornais para passar os olhos por eles; a primeira coisa que leu foi a sua demiss\u00e3o. Vociferou contra a prepot\u00eancia do ministro, a cruel severidade dos usos burocr\u00e1ticos, a exig\u00eancia descomunal do comparecimento na Secretaria.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 indigno! exclamava ele, \u00e9 infame!<\/p>\n<p>Veloso, que entrou da\u00ed a pouco, n\u00e3o achou t\u00e3o censur\u00e1vel o ato do ministro; teve at\u00e9 a franqueza de lhe declarar que n\u00e3o havia outra solu\u00e7\u00e3o, e que o primeiro que o demitira fora ele mesmo.<\/p>\n<p>Passada a primeira explos\u00e3o, examinou Gaspar a situa\u00e7\u00e3o em que o deixava o ato ministerial, e compreendeu (o que n\u00e3o era dif\u00edcil) que o casamento com Lucinda era cada vez mais problem\u00e1tico. Veloso foi da mesma opini\u00e3o, e concluiu que um \u00fanico meio lhe restava: era casar com D. M\u00f4nica.<\/p>\n<p>Gaspar foi nesse mesmo dia \u00e0 casa de Lucinda. O desejo de a ver era forte; muito mais forte era a curiosidade de conhecer de que maneira recebera ela a not\u00edcia da sua demiss\u00e3o. Achou-a um pouco triste, mas ainda mais fria que triste. Tr\u00eas vezes procurou estar a s\u00f3s com ela, ou pelo menos falar-lhe sem que pudessem ouvi-los. A mo\u00e7a parecia esquivar-se aos desejos do rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 poss\u00edvel que ela despreze agora o meu amor? perguntava ele a si mesmo ao sair da casa da namorada.<\/p>\n<p>Esta id\u00e9ia irritou-o profundamente. N\u00e3o sabendo que pensar daquilo, resolveu escrever-lhe, e nessa mesma noite redigiu uma carta em que expunha lealmente todas as d\u00favidas do seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lucinda recebeu a carta no dia seguinte \u00e0s 10 horas da manh\u00e3; leu-a, releu-a, e pensou muito antes de responder. Ia lan\u00e7ar as primeiras linhas da resposta, quando seu pai entrou na saleta onde ela se achava.<\/p>\n<p>Lucinda escondeu \u00e0 pressa o papel.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isso?<\/p>\n<p>\u2014 Vamos l\u00e1; uma filha n\u00e3o pode ter segredos para seu pai. Aposto que \u00e9 alguma carta de Gaspar? Pretendente demitido \u00e9 realmente&#8230;<\/p>\n<p>Lucinda dera-lhe a carta, que o pai abriu e leu.<\/p>\n<p>\u2014 Tolices! disse ele. D\u00e1s-me licen\u00e7a?<\/p>\n<p>Dizendo isto, rasgou a carta e aproximou-se da filha.<\/p>\n<p>\u2014 Ver\u00e1s mais tarde, que eu sou mais teu amigo do que pare\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o, papai, disse a mo\u00e7a; eu ia responder que n\u00e3o pensasse mais em mim.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi o seu conselho?<\/p>\n<p>O pai refletiu algum tempo.<\/p>\n<p>\u2014 A resposta era decerto boa, observou ele; mas a melhor resposta \u00e9 nenhuma. Em ele desenganando por si mesmo, n\u00e3o insiste mais&#8230;<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o da falta de resposta \u00e0 carta de Gaspar. O pobre namorado esperou dois dias, at\u00e9 que desenganado foi \u00e0 casa do comendador. A fam\u00edlia tinha ido passar alguns dias fora da cidade.<\/p>\n<p>\u2014 A sorte persegue-me! exclamou furioso o sobrinho do finado capit\u00e3o. Um de n\u00f3s h\u00e1 de vencer!<\/p>\n<p>Para matar a tristeza e ajudar o duelo com o destino, procurou fumar um charuto; meteu a m\u00e3o na algibeira e n\u00e3o achou nenhum. A carteira apresentava a mesma solid\u00e3o. Gaspar deixou cair os bra\u00e7os com des\u00e2nimo.<\/p>\n<p>Nunca mais negra e viva se lhe apresentara ante os olhos a sua situa\u00e7\u00e3o. Sem emprego, sem dinheiro, sem namorada e sem esperan\u00e7as, tudo era perdido para ele. O pior \u00e9 que sentia-se incapaz de domar o destino, apesar do desafio que lhe arremessara pouco antes. Pela primeira vez a id\u00e9ia dos trezentos contos do tio lhe reluziu ao longo como uma plausibilidade. A vis\u00e3o era deliciosa, mas o \u00fanico ponto negro apareceu logo dentro de um carro que parou a poucos passos dele. Dentro do carro ia D. M\u00f4nica; ele viu-a inclinar-se pela portinhola e cham\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Acudiu como bom sobrinho que era.<\/p>\n<p>\u2014 Que fazes ai?<\/p>\n<p>\u2014 Ia para casa.<\/p>\n<p>\u2014 Anda jantar comigo.<\/p>\n<p>Gaspar n\u00e3o podia trocar uma realidade por uma hip\u00f3tese, e aceitou o conselho da tia.<\/p>\n<p>Entrou no carro. O carro partiu.<\/p>\n<p>Seria ilus\u00e3o ou realidade? D. M\u00f4nica pareceu-lhe nessa ocasi\u00e3o menos velha do que antes a achava. Ou fosse da toilette, ou de seus olhos, a verdade \u00e9 que Gaspar viu-se obrigado a reformar um pouco o ju\u00edzo anterior. N\u00e3o a achou mo\u00e7a; mas a velhice pareceu-lhe mais fresca, a conversa mais agrad\u00e1vel, o sorriso mais meigo e o olhar menos apagado.<\/p>\n<p>Estas boas impress\u00f5es foram bom tempero ao jantar, que ali\u00e1s era excelente. D. M\u00f4nica mostrava-se, como sempre, carinhosa e boa; Gaspar demorou-se ali at\u00e9 perto das dez horas da noite.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 casa, refletiu que, se porventura pudesse casar com outra pessoa que n\u00e3o fosse Lucinda, casaria com D. M\u00f4nica, sem nenhum pesar nem arrependimento.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 mo\u00e7a, pensou ele, mas \u00e9 boa e s\u00e3o trezentos contos.<\/p>\n<p>Trezentos contos! Este algarismo perturbou o sono do rapaz. Primeiramente custou-lhe a dormir; ele via trezentos contos em cima do travesseiro, no teto, nos portais; via-os transformados em len\u00e7\u00f3is, em cortinados, em cachimbo turco. Quando conseguiu dormir, n\u00e3o conseguiu livrar-se dos trezentos contos. Sonhou com eles a noite inteira; sonhou que os comia, que os cavalgava, que os dan\u00e7ava, que os aspirava, que os gozava, em suma, por todos os modos poss\u00edveis e imposs\u00edveis.<\/p>\n<p>Acordou e reconheceu que tudo fora sonho.<\/p>\n<p>Suspirou.<\/p>\n<p>\u2014 E tudo isto sacrifico eu por causa dela! exclamou ele. Merece-lo-\u00e1? Merecer\u00e1 que eu pade\u00e7a tantas priva\u00e7\u00f5es, que abra m\u00e3o de um bom casamento para ser desprezado deste modo?<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe respondendo ningu\u00e9m a esta pergunta, f\u00ea-lo ele pr\u00f3prio, e a resposta foi que a mo\u00e7a n\u00e3o merecia tamanho sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>\u2014 Contudo, sacrificar-me-ei! concluiu ele.<\/p>\n<p>Neste ponto das reflex\u00f5es recebeu uma carta da tia:<\/p>\n<p>Gaspar.<\/p>\n<p>Creio que arranjo empenho para que se te d\u00ea algum lugar muito breve, em outra secretaria.<\/p>\n<p>Gaspar estremeceu de prazer.<\/p>\n<p>\u2014 Boa tia! disse ele. Ah! como lhe tenho pago com ingratid\u00f5es!<\/p>\n<p>A necessidade de agradecer e a conveni\u00eancia de n\u00e3o aumentar a conta no hotel foram as duas raz\u00f5es que levaram o ex-empregado a ir almo\u00e7ar com a tia. D. M\u00f4nica recebeu-o com o carinho do costume, disse-lhe o que pretendia fazer para empreg\u00e1-lo de novo e deixou-o nadando em reconhecimento.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! minha tia! Quanto lhe devo!<\/p>\n<p>\u2014 Nada me deves, respondeu D. M\u00f4nica, s\u00f3 me deves amizade.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! a maior! a mais profunda! a mais santa!<\/p>\n<p>D. M\u00f4nica louvou os sentimentos do sobrinho e prometeu fazer por ele tudo o que fosse poss\u00edvel fazer por&#8230; por um neto, \u00e9 o que ela devia dizer: mas ficou na vaga express\u00e3o \u2014 por uma pessoa cara.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o entrou a parecer melhor ao herdeiro do capit\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 via possibilidade de um novo emprego, mas at\u00e9 seria este logo depois da demiss\u00e3o, o que de algum modo lhe reparava o mal feito aos seus cr\u00e9ditos de funcion\u00e1rio laborioso e pontual. Al\u00e9m disso D. M\u00f4nica f\u00ea-lo prometer que n\u00e3o iria comer a outra parte.<\/p>\n<p>\u2014 Ter\u00e1s sempre um talher \u00e0 minha mesa, disse ela.<\/p>\n<p>Gaspar escreveu ainda duas cartas a Lucinda; mas ou elas lhe n\u00e3o chegaram \u00e0s m\u00e3os, ou a mo\u00e7a definitivamente n\u00e3o queria responder. O namorado aceitou a princ\u00edpio a primeira hip\u00f3tese; Veloso f\u00ea-lo acreditar na segunda.<\/p>\n<p>\u2014 Tens raz\u00e3o, talvez&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>\u2014 Mas custa-me a crer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! \u00e9 a coisa mais natural do mundo!<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de que Lucinda o tivesse esquecido, desde que lhe faltara o emprego era dif\u00edcil de que a admitisse; mas afinal enraizou-se-lhe a suspeita.<\/p>\n<p>\u2014 Se tais fossem os sentimentos dela! exclamava ele consigo.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da tia f\u00ea-lo esquecer t\u00e3o tristes id\u00e9ias; eram horas de jantar. Gaspar sentou-se \u00e0 mesa desembara\u00e7ado das preocupa\u00e7\u00f5es amorosas. Preocupa\u00e7\u00f5es de melhor catadura vieram sentar-se-lhe no esp\u00edrito: os eternos trezentos contos recome\u00e7aram a sua odiss\u00e9ia na imagina\u00e7\u00e3o dele. Gaspar construiu ali mesmo uma casa elegante, mobiliou-a com luxo, comprou um carro, dois carros, contratou um feitor para lhe cuidar da ch\u00e1cara, deu dois bailes, foi \u00e0 Europa. Chegaram estes sonhos at\u00e9 a sobremesa. Acabado o jantar, viu ele que tinha apenas a demiss\u00e3o e uma promessa.<\/p>\n<p>\u2014 Na verdade, sou um peda\u00e7o de asno! exclamou ele. Pois tenho a fortuna nas m\u00e3os e hesito?<\/p>\n<p>D. M\u00f4nica levantara-se da mesa; Gaspar foi ter com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe de uma coisa em que estou pensando? perguntou.<\/p>\n<p>\u2014 Em matares-te.<\/p>\n<p>\u2014 Em viver.<\/p>\n<p>\u2014 Pois vive.<\/p>\n<p>\u2014 Mas viver feliz.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei como.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez n\u00e3o saiba dos meus desejos. Eu, titia&#8230;<\/p>\n<p>Ia ser mais franco. Mas depois de encarar o abismo, quase a cair nele, recuou. Era mais dif\u00edcil do que lhe parecia, aquilo de receber trezentos contos. A tia, por\u00e9m, compreendeu que o sobrinho voltava a adorar o que havia queimado. N\u00e3o tinham outro fim todos os seus desvelos.<\/p>\n<p>Gaspar adiou a declara\u00e7\u00e3o mais expl\u00edcita e sem que com isto perdesse a tia, porque os v\u00ednculos se foram apertando a mais e mais, e os trezentos contos de todo se sentaram na alma do mo\u00e7o. Estes aliados de D. M\u00f4nica derrotaram completamente o advers\u00e1rio. Nem tardou que ele comunicasse a id\u00e9ia a Veloso.<\/p>\n<p>\u2014 Tinhas raz\u00e3o, disse ele; devo casar com minha tia e estou disposto a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda bem!<\/p>\n<p>\u2014 Devo satisfazer o desejo de um morto, sempre respeit\u00e1vel e enfim corresponder aos desvelos com que ela me trata.<\/p>\n<p>\u2014 Perfeitamente. J\u00e1 lhe falaste?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; falarei amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c2nimo.<\/p>\n<p>Na noite desse dia recebeu Gaspar uma carta de Lucinda, em que ela lhe dizia que o pai, vendo-a triste e abatida, e sabendo que era por amor dele, cedera da sua oposi\u00e7\u00e3o e consentia em que eles fossem unidos.<\/p>\n<p>\u2014 Que cara \u00e9 essa t\u00e3o espantada? perguntou Veloso, que estava presente.<\/p>\n<p>\u2014 A coisa \u00e9 para espantar. O comendador cedeu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O pai de Lucinda?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade!<\/p>\n<p>\u2014 Essa agora!<\/p>\n<p>\u2014 L\u00ea.<\/p>\n<p>Veloso leu a carta de Lucinda.<\/p>\n<p>\u2014 Na verdade, o lance era inesperado. Pobre mo\u00e7a! V\u00ea-se que escreve com a alma banhada em alegria!<\/p>\n<p>\u2014 Parece que sim. Que devo fazer?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! neste caso, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente do que era h\u00e1 pouco; os obst\u00e1culos da parte oposta ca\u00edram por si mesmos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ser\u00e1 de boa vontade que o comendador cede?<\/p>\n<p>\u2014 Isso importa pouco.<\/p>\n<p>\u2014 Receio que seja um la\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 La\u00e7o? Ora essa! exclamou Veloso sorrindo. O mais que podia ser era negar o dote \u00e0 filha. Mas sempre tens esperan\u00e7a da parte que lhe tocar por morte do pai. Quantos filhos tem ele?<\/p>\n<p>\u2014 Cinco.<\/p>\n<p>\u2014 Uns cinq\u00fcenta contos a cada um.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, parece-te que devo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Veloso saiu; Gaspar ficou meditando na situa\u00e7\u00e3o. Poupo \u00e0 leitora a exposi\u00e7\u00e3o das longas e complicadas reflex\u00f5es que ele fez, bastando dizer que no dia seguinte ainda a quest\u00e3o estava neste p\u00e9:<\/p>\n<p>\u2014 Devo eu desobedecer a voz de um morto? Trair a esperan\u00e7a de uma senhora que me estima, que me estremece?<\/p>\n<p>Vinte e quatro horas depois estava enfim resolvida a quest\u00e3o. Gaspar declarou a D. M\u00f4nica que estava disposto a casar com ela, se consentisse em dar-lhe esse prazer. A boa senhora n\u00e3o tinha outro desejo; contudo, foi fiel \u00e0 m\u00e1xima do sexo; fez-se um tanto rogada.<\/p>\n<p>\u2014 Resolvi! disse Gaspar a Veloso logo que o encontrou depois disso.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Caso-me.<\/p>\n<p>\u2014 Com a Lucinda?<\/p>\n<p>\u2014 Com minha tia.<\/p>\n<p>Veloso recuou dois passos e esteve calado alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Admiras-te?<\/p>\n<p>\u2014 Admiro-te. Afinal os trezentos contos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! n\u00e3o! Obede\u00e7o \u00e0 vontade de meu tio, e n\u00e3o posso corresponder com ingratid\u00e3o aos desvelos de uma senhora que me estima. Ser\u00e1 isto poesia, talvez; talvez me acusar\u00e1s de romanesco; mas eu penso que sou simplesmente honrado e leal.<\/p>\n<p>Veloso foi convidado para servir de padrinho do casamento. Aceitou o encargo; \u00e9 amigo da fam\u00edlia; e consta que deve a Gaspar uns tr\u00eas ou quatro contos de empr\u00e9stimo. Lucinda chorou durante dois dias, ficou raivosa outros dois; no quinto encetou um namoro, que acabou pelo casamento da\u00ed a quatro meses. N\u00e3o era melhor que todos eles come\u00e7assem por a\u00ed? Poupavam a si pr\u00f3prios alguns desgostos, e a mim o trabalho de lhes contar o caso.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias 1876 I E, reconhecendo as boas qualidades do dito meu sobrinho Gaspar, declaro que o nomeio meu universal herdeiro, com duas condi\u00e7\u00f5es essenciais; a primeira (deixada ao seu crit\u00e9rio), \u00e9 que h\u00e1 de relar os cabedais que lhe lego como os relei durante a minha vida; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-115594","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>D. 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