{"id":115587,"date":"2017-03-24T19:21:36","date_gmt":"2017-03-24T21:21:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115587"},"modified":"2017-03-24T19:21:36","modified_gmt":"2017-03-24T21:21:36","slug":"d-jucunda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/d-jucunda","title":{"rendered":"D. Jucunda"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Ningu\u00e9m, quando D. Jucunda aparece no Imperial Teatro de D. Pedro II, em algum baile, em casa, ou na rua, ningu\u00e9m lhe d\u00e1 mais de trinta e quatro anos. A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que or\u00e7a pelos quarenta e cinco; nasceu em 1843. A natureza tem assim os seus mimosos. Deixa correr o tempo, filha minha, disse a boa madre eterna; eu c\u00e1 estou com as m\u00e3os para te amparar. Quando te enfastiares da vida, unhar-te-ei a cara, polvilhar-te-ei os cabelos, e dar\u00e1s um pulo dos trinta e quatro aos sessenta, entre um cotilh\u00e3o e o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c9 provinciana. Chegou aqui no come\u00e7o de 1860, com a madrinha, \u2014 grande senhora de engenho, e um sobrinho desta, que era deputado. Foi o sobrinho quem prop\u00f4s \u00e0 tia esta viagem, mas foi a afilhada quem a efetuou, t\u00e3o-somente com fazer descair os olhos desconsolados.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o estou mais para essas folias do mar. J\u00e1 vi o Rio de Janeiro&#8230; Voc\u00ea que acha, Cundinha? perguntou D. Maria do Carmo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu gostava de ir, dindinha.<\/p>\n<p>D. Maria do Carmo ainda quis resistir, mas n\u00e3o p\u00f4de; a afilhada ocupava em seu cora\u00e7\u00e3o a alcova da filha que perdera em 1857. Viviam no engenho desde 1858. O pai de Jucunda, barbeiro de of\u00edcio, residia na vila, onde fora vereador e juiz de paz; quando a ilustre comadre lhe pediu a filha, n\u00e3o hesitou um instante; consentiu entregar-lha para benef\u00edcio de todos. Ficou com a outra filha, Raimunda.<\/p>\n<p>Jucunda e Raimunda eram g\u00eameas, circunst\u00e2ncia que sugeriu ao pai a id\u00e9ia de lhes dar nomes consoantes. Em crian\u00e7a, a beleza natural supria nelas qualquer outro alinho; andavam na loja e pela vizinhan\u00e7a, em camisa rota, p\u00e9 descal\u00e7o, muito enlameadas \u00e0s vezes, mas sempre lindas. Aos doze anos perderam a m\u00e3e. J\u00e1 ent\u00e3o as duas irm\u00e3s n\u00e3o eram t\u00e3o iguais. A beleza de Jucunda acentuava-se, ia caminhando para a perfei\u00e7\u00e3o: a de Raimunda, ao contr\u00e1rio, parava e murchava; as fei\u00e7\u00f5es iam descambando na banalidade e no inexpressivo. O talhe da primeira tinha outro garbo, e as m\u00e3os, t\u00e3o pequenas como as da irm\u00e3, eram macias \u2014 talvez, porque escolhiam of\u00edcios menos \u00e1speros.<\/p>\n<p>Passando ao engenho da madrinha, Jucunda n\u00e3o sentiu a diferen\u00e7a de uma a outra fortuna. N\u00e3o se admirou de nada, nem das paredes do quarto, nem dos m\u00f3veis antigos, nem das ricas toalhas de crivo, nem das fronhas de renda. N\u00e3o estranhou as mucamas (que nunca teve), nem as suas atitudes obedientes; aprendeu logo a linguagem do mando. Cavalos, redes, j\u00f3ias, sedas, tudo o que a madrinha lhe foi dando pelo tempo adiante, tudo recebeu, menos como obs\u00e9quios de hospedagem que como restitui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o expressava desejo que se lhe n\u00e3o cumprisse. Quis aprender piano, teve piano e mestre; quis franc\u00eas, teve franc\u00eas. Qualquer que fosse o pre\u00e7o das cousas, D. Maria do Carmo n\u00e3o lhe recusava nada.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a de situa\u00e7\u00e3o entre Jucunda e o resto da fam\u00edlia era agravada pelo contraste moral. Raimunda e o pai acomodavam-se, sem esfor\u00e7o, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da vida prec\u00e1ria e rude; fen\u00f4meno que Jucunda atribu\u00eda, instintivamente \u00e0 \u00edndole inferior de ambos. Pai e irm\u00e3, entretanto, achavam natural que a outra subisse a tais alturas, com esta particularidade que o pai tirava orgulho da eleva\u00e7\u00e3o da filha, enquanto que Raimunda nem conhecia esse sentimento; deixava-se estar na humildade ignorante. De g\u00eameas que eram, e criadas juntas, sentiam-se agora filhas do mesmo pai \u2014 um grande senhor de engenho, por exemplo \u2014 que houvera Raimunda em alguma agregada da casa.<\/p>\n<p>Leitor, n\u00e3o h\u00e1 dificuldade em explicar essas cousas. S\u00e3o desacordos poss\u00edveis entre a pessoa e o meio, que os acontecimentos retificam, ou deixam subsistir at\u00e9 que os dous se acomodem. H\u00e1 tamb\u00e9m naturezas rebeldes \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o da fortuna. Vi atribuir \u00e0 rainha Cristina esta explos\u00e3o de c\u00f3lera contra o famoso Espartero: &#8220;Fiz-te duque, fiz-te grande de Espanha; nunca te pude fazer fidalgo&#8221;. N\u00e3o respondo pela veracidade da anedota; afirmo s\u00f3 que a bela Jucunda nunca poderia ouvir \u00e0 madrinha alguma cousa que com isso se parecesse.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO II<\/h2>\n<p>\u2014 Sabe quem vai casar? perguntou Jucunda \u00e0 madrinha, depois de lhe beijar a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera, estando a cal\u00e7ar as luvas para ir ao Teatro Provis\u00f3rio, recebera cartas do pai e da irm\u00e3, deixou-as no toucador, para ler quando voltasse. Mas voltou tarde, e com tal sono, que esqueceu as cartas. Agora de manh\u00e3, ao sair do banho, vestida para o almo\u00e7o, \u00e9 que as p\u00f4de ler. Esperava que fossem como de costume, triviais e queixosas. Triviais seriam; mas havia a novidade do casamento da irm\u00e3 com um alferes, chamado Getulino.<\/p>\n<p>\u2014 Getulino de qu\u00ea? perguntou D. Maria do Carmo.<\/p>\n<p>\u2014 Getulino&#8230; N\u00e3o me lembro; parece que \u00e9 Amarante, \u2014 ou Cavalcanti. N\u00e3o. Cavalcanti n\u00e3o \u00e9; parece que \u00e9 mesmo Amarante. Logo vejo. N\u00e3o tenho id\u00e9ia de semelhante alferes.<\/p>\n<p>H\u00e1 de ser gente nova.<\/p>\n<p>\u2014 Quatro anos! murmurou a madrinha. Se eu era capaz de imaginar que ficaria aqui tanto tempo fora de minha casa! \u2014 Mas a senhora est\u00e1 dentro de sua casa, replicou a afilhada dando-lhe um beijo.<\/p>\n<p>D. Maria do Carmo sorriu. A casa era um velho palacete restaurado, no centro de uma grande ch\u00e1cara, bairro do Engenho Velho. D. Maria do Carmo tinha querido voltar \u00e0 prov\u00edncia, no prazo marcado novembro de 1860; mas a afilhada obteve a esta\u00e7\u00e3o de Petr\u00f3polis; iriam em mar\u00e7o de 1861. Mar\u00e7o chegou, foi-se embora, e voltou ainda duas vezes, sem que elas abalassem daqui; estamos agora em agosto de 1863. Jucunda tem vinte anos.<\/p>\n<p>Ao almo\u00e7o, falaram do espet\u00e1culo da v\u00e9spera e das pessoas que viram no teatro.<\/p>\n<p>Jucunda conhecia j\u00e1 a principal gente do Rio; a madrinha f\u00ea-la recebida, as rela\u00e7\u00f5es multiplicaram-se; ela ia observando e assimilando. Bela e graciosa, vestindo-se bem e caro, \u00e1vida de crescer, n\u00e3o lhe foi dif\u00edcil ganhar amigas e atrair pretendentes. Era das primeiras em todas as festas. Talvez o eco chegasse \u00e0 vila natal \u2014 ou foi simples adivinha\u00e7\u00e3o de mal\u00e9volo, que entendeu colar isto uma noite, nas paredes da casa do barbeiro: Nh\u00e3 Cundinha J\u00e1 rainha Nh\u00e3 Mundinha Na cozinha.<\/p>\n<p>O pai arrancou, indignado, o papel; mas a not\u00edcia correu depressa a vila toda, que era pequena, e foi o entretenimento de muitos dias. A vida \u00e9 curta.<\/p>\n<p>Jucunda, acabado o almo\u00e7o, disse \u00e0 madrinha que desejava mandar algumas cousas para o enxoval da irm\u00e3, e, \u00e0s duas horas, sa\u00edram de casa. J\u00e1 na varanda \u2014 o coup\u00e9 embaixo, o lacaio de p\u00e9, desbarretado, com a m\u00e3o no fecho da portinhola \u2014, D. Maria do Carmo notou que a afilhada parecia absorta; perguntou-lhe o que era.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, respondeu Jucunda, voltando a si.<\/p>\n<p>Desceram; no \u00faltimo degrau, perguntou Jucunda se a madrinha \u00e9 que mandara p\u00f4r as mulas.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o; foram eles mesmos. Querias antes os cavalos? \u2014 O dia est\u00e1 pedindo os cavalos pretos; mas agora \u00e9 tarde, vamos.<\/p>\n<p>Entraram, e o coup\u00e9, tirado pela bela parelha de mulas gordas e fortes, dirigiu-se para o Largo de S. Francisco de Paula. N\u00e3o disseram nada durante os primeiros minutos; D.<\/p>\n<p>Maria \u00e9 que interrompeu o sil\u00eancio, perguntando o nome do alferes.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 Amarante, n\u00e3o, senhora, nem Cavalcanti; chama-se Getulino Dami\u00e3o Gon\u00e7alves, respondeu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>Jucunda tomou a mergulhar em si mesma. Um dos seus prazeres diletos, quando ia de carro, era ver a outra gente a p\u00e9, e gozar as admira\u00e7\u00f5es de relance. Nem esse a atra\u00eda agora. Talvez o alferes lhe fizesse lembrar algum general; verdade \u00e9 que s\u00f3 os conhecia casados. Pode ser tamb\u00e9m que esse alferes, destinado a dar-lhe sobrinhos cabos-deesquadra, viesse lan\u00e7ar-lhe alguma sombra aborrecida no c\u00e9u brilhante e azul. As id\u00e9ias passam t\u00e3o r\u00e1pidas e embrulhadas, que \u00e9 dif\u00edcil colh\u00ea-las, e p\u00f4-las em ordem; mas, enfim, se algu\u00e9m supuser que ela cuidava tamb\u00e9m em certo homem, esse n\u00e3o andar\u00e1 errado.<\/p>\n<p>Era candidato recente o doutor Maia, que voltara da Europa, meses antes, para entrar na posse da heran\u00e7a da m\u00e3e. Com a do pai, ia a mais de seiscentos contos. A quest\u00e3o do dinheiro era aqui um tanto secund\u00e1ria, porque Jucunda tinha certa a heran\u00e7a da madrinha; mas n\u00e3o se h\u00e1 de mandar embora um homem, s\u00f3 porque possui seiscentos contos, n\u00e3o lhe faltando outras qualidades preciosas de figura e de esp\u00edrito, um pouco de genealogia, e tal ou qual pontinha de ambi\u00e7\u00e3o, que ela puxaria em tempo, como se faz \u00e0s orelhas das crian\u00e7as pregui\u00e7osas. J\u00e1 havia recusado outros candidatos. De si mesma chegou a sonhar com um senador, posi\u00e7\u00e3o feita e ministro poss\u00edvel. Aceitou este Maia; mas, gostando dele, e muito, por que \u00e9 que n\u00e3o acabava de casar? Por qu\u00ea? Eis a\u00ed o mais dif\u00edcil de aventar, amigo leitor. Jucunda n\u00e3o sabia o motivo. Era desses que nascem naqueles escaninhos da alma, em que o dono n\u00e3o penetra, mas penetramos n\u00f3s outros, contadores de hist\u00f3rias. Creio que se liga \u00e0 doen\u00e7a do pai. J\u00e1 estava ferido, na asa, quando ela para c\u00e1 veio; a mol\u00e9stia foi crescendo, at\u00e9 fazer-se desenganada. Navalha n\u00e3o exclui esp\u00edrito, haja vista F\u00edgaro; o nosso velho disse \u00e0 filha Jucunda, em uma das cartas, que tinha dentro de si um aprendiz de barbeiro, que lhe alanhava as entranhas. Se tal era, era tamb\u00e9m vagaroso, porque n\u00e3o acabava de escanho\u00e1-lo. Jucunda n\u00e3o supunha que a elimina\u00e7\u00e3o do velho fosse necess\u00e1ria \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do casamento \u2014 ainda que por motivo de velar o passado; se claramente lhe viesse a id\u00e9ia, \u00e9 de crer que a repelisse com horror. Ao contr\u00e1rio, a id\u00e9ia que agora mesmo lhe acudia, pouco antes de parar o coup\u00e9, \u00e9 que n\u00e3o era bonito casar, enquanto o pai l\u00e1 estava curtindo dores. Eis a\u00ed um motivo decente, leitor amigo; \u00e9 o que procur\u00e1vamos h\u00e1 pouco, \u00e9 o que a alma pode confessar a si mesma, \u00e9 o que tirou \u00e0 fisionomia da mo\u00e7a o ar f\u00fanebre que ela parecia haver trazido de casa.<\/p>\n<p>Compraram o enxoval de Raimunda, e o remeteram pelo primeiro vapor, com cartas de ambas. A de Jucunda era mais longa que de costume; falava-lhe do noivo alferes, mas n\u00e3o empregava a palavra cunhado. N\u00e3o tardou que viesse resposta da irm\u00e3, toda gratid\u00e3o e respeitos. Sobre o pai dizia que ia com os seus achaques velhos, um dia pior, outro melhor; era opini\u00e3o do doutor que podia morrer de repente, mas podia tamb\u00e9m ag\u00fcentar meses e anos.<\/p>\n<p>Jucunda meditou muito sobre a carta. Logo que Maia se lhe declarou, pediu-lhe ela que nada dissessem \u00e0 madrinha por uns dias; ampliou o prazo a semanas; n\u00e3o podia faz\u00ea-lo a meses ou anos. Foi \u00e0 madrinha, e confiou a situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o quisera casar com o pai enfermo; mas, dada a incerteza da cura, era melhor casar logo.<\/p>\n<p>\u2014 Vou escrever a meu pai, e pe\u00e7o-me a mim mesma, disse ela, se dindinha achar que fa\u00e7o bem.<\/p>\n<p>Escreveu ao pai, e terminou: N\u00e3o o convido para vir ao Rio de Janeiro, porque \u00e9 melhor sarar antes; demais, logo que nos casarmos, l\u00e1 iremos ter. Quero mostrar a meu marido (desculpe este modo de falar) a vilazinha do meu nascimento, e ver as cousas de que tanto gostei, em crian\u00e7a, o chafariz do largo, a matriz e o padre Matos. Ainda vive o padre Matos? O pai leu a carta com l\u00e1grimas; mandou-lhe dizer que sim, que podia casar, que n\u00e3o vinha por andar achacado; mas longe que pudesse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mundinha exagerou muito, disse Jucunda \u00e0 madrinha. Quem escreve assim, n\u00e3o est\u00e1 para morrer.<\/p>\n<p>Tinha proposto casamento \u00e0 capucha, por causa do pai; mas o tom da carta f\u00ea-la aceitar o plano de D. Maria do Carmo e as bodas foram de estrondo. Talvez a proposta n\u00e3o lhe viesse da alma. Casaram-se pouco tempo depois. Jucunda viu mais de um dignit\u00e1rio do Estado inclinar-se diante dela, e dar-lhe o parab\u00e9m. Os mais c\u00e9lebres colos da cidade fizeram-lhe corte. Equipagens ricas, cavalos briosos, atirando as patas com vagar e gra\u00e7a, pela ch\u00e1cara dentro, muitas libr\u00e9s particulares, flores, luzes; fora, na rua, a multid\u00e3o olhando. Monsenhor Tavares, membro influente do cabido celebrou o casamento.<\/p>\n<p>Jucunda via tudo atrav\u00e9s de um v\u00e9u m\u00e1gico, tecido de ar e de sonho; conversa\u00e7\u00f5es, m\u00fasica, dan\u00e7as, tudo era como uma longa melodia, vaga e remota, ou pr\u00f3xima e branda, que lhe tomava o cora\u00e7\u00e3o, e pela primeira vez a fazia estupefata diante de alguma cousa deste mundo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO III<\/h2>\n<p>D. Maria do Carmo n\u00e3o alcan\u00e7ou que os rec\u00e9m-casados ficassem morando com ela.<\/p>\n<p>Jucunda desejava-o; mas o marido achou que n\u00e3o. Tinham casa na mesma rua, perto da madrinha; e assim viviam juntos e separados. De ver\u00e3o iam os tr\u00eas para Petr\u00f3polis, onde residiam debaixo do mesmo tecto.<\/p>\n<p>Extinta a melodia, secas as rosas, passados os primeiros dias do noivado, Jucunda p\u00f4de tomar p\u00e9 no recente tumulto, e achou-se grande senhora. J\u00e1 n\u00e3o era s\u00f3 a afilhada de D.<\/p>\n<p>Maria do Carmo, e sua prov\u00e1vel herdeira; tinha agora o prest\u00edgio do marido; o prest\u00edgio e o amor. Maia literalmente adorava a mulher; inventava o que a pudesse fazer feliz, e acudia a cumprir-lhe o menor dos seus desejos. Um destes consistiu na s\u00e9rie de jantares que deram em Petr\u00f3polis, durante uma esta\u00e7\u00e3o, aos s\u00e1bados, jantares que ficaram c\u00e9lebres; a flor da cidade ali ia por turmas. Nos dias diplom\u00e1ticos, Jucunda teve a honra de ver a seu lado, algumas vezes, o intern\u00fancio apost\u00f3lico.<\/p>\n<p>Um dia, no Engenho Velho, recebeu Jucunda a not\u00edcia da morte do pai. A carta era da irm\u00e3; contava-lhe as circunst\u00e2ncias do caso: o pai nem teve tempo de dizer: ai, Jesus! Caiu da rede abaixo e expirou.<\/p>\n<p>Leu a carta sentada. Ficou por algum tempo com o papel na m\u00e3o, a olhar fixamente; relembrava as cousas da inf\u00e2ncia, e a ternura do pai; saturava bem a alma daqueles dias antigos, despegava-se de si mesma, e acabou levando o len\u00e7o aos olhos, com os bra\u00e7os fincados nos joelhos. O marido veio ach\u00e1-la nessa atitude, e correu para ela.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 que tem? perguntou-lhe.<\/p>\n<p>Jucunda, sobressaltada, ergueu os olhos para ele; estavam \u00famidos; n\u00e3o disse nada.<\/p>\n<p>\u2014 Que foi? insistiu o marido.<\/p>\n<p>\u2014 Morreu meu pai, respondeu ela.<\/p>\n<p>Maia p\u00f4s um joelho no ch\u00e3o, pegou-a pela cintura e conchegou-a ao peito; ela escondeu a cara no ombro do marido, e foi ent\u00e3o que as l\u00e1grimas romperam mais grossas.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, sossegue. Olhe o seu estado.<\/p>\n<p>Jucunda estava gr\u00e1vida. A advert\u00eancia f\u00ea-la erguer de pronto a cabe\u00e7a, e enxugar os olhos; a carta, envolvida no len\u00e7o, foi esconder no bolso a ruim ortografia da irm\u00e3 e outros pormenores. Maia sentou-se na poltrona, com uma das m\u00e3os da mulher entre as suas.<\/p>\n<p>Olhando para o ch\u00e3o, viu um papel impresso, trecho de jornal, apanhou-o e leu; era a not\u00edcia da morte do sogro, que Jucunda n\u00e3o vira cair de dentro da carta. Quando acabou de ler, deu com a mulher, p\u00e1lida e ansiosa. Esta tirou-lhe o papel e leu tamb\u00e9m. Com pouco se aquietou. Viu que a not\u00edcia apontava t\u00e3o-somente a vida pol\u00edtica do pai, e conclu\u00eda dizendo que este &#8220;era o modelo dos var\u00f5es que sacrificam tudo \u00e0 grandeza local; n\u00e3o fora isso, e o seu nome, como o de outros, menos virtuosos e capazes, ecoaria pelo pa\u00eds inteiro&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, descansa; qualquer abalo pode fazer-te mal.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve abalo; mas, \u00e0 vista do estado de Jucunda, a missa por alma do pai foi dita na capela da madrinha, s\u00f3 para os parentes.<\/p>\n<p>Chegado o tempo, nasceu o filho esperado, robusto como o pai, e belo como a m\u00e3e. Esse primeiro e \u00fanico fruto, parece que veio ao mundo menos para aumentar a fam\u00edlia, que para dar \u00e0s gra\u00e7as pessoais de Jucunda o definitivo toque. Com efeito, poucos meses depois, Jucunda atingia o grau de beleza, que conservou por muitos anos. A maternidade real\u00e7ava a feminidade.<\/p>\n<p>S\u00f3 uma sombra empanou o c\u00e9u daquele casal. Foi pelos fins de 1866. Jucunda estava a mirar o filho dormindo, quando lhe vieram dizer que uma senhora a procurava.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o disse quem \u00e9? \u2014 N\u00e3o disse, n\u00e3o, senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Bem vestida? \u2014 N\u00e3o, senhora; \u00e9 assim meia esquisita, muito magra. Jucunda olhou para o espelho e desceu. Embaixo, reiterou algumas ordens; depois, pisando rijo e farfalhando as saias, foi ter com a visita. Quando entrou na sala de espera, viu uma mulher de p\u00e9, magra, amarelada, envolvida em um xale velho e escuro, sem luvas nem chap\u00e9u. Ficou por alguns instantes calada, esperando; a outra rompeu o sil\u00eancio: era Raimunda.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me conhece, Cundinha? Antes que acabasse, j\u00e1 a irm\u00e3 a reconhecera. Jucunda caminhou para ela, abra\u00e7ou-a, f\u00eala sentar-se; admirou-se de a ver aqui, sem saber de nada; a \u00faltima carta recebida era j\u00e1 de muito tempo; quando chegara? \u2014 H\u00e1 cinco meses; Getulino foi para a guerra, como sabe; eu vim depois, para ver se podia&#8230;<\/p>\n<p>Falava com humildade e a medo, baixando os olhos a mi\u00fado. Antes de vir a irm\u00e3, estivera mirando a sala, que cuidou ser a principal da casa; tinha receio de macular a palhinha do ch\u00e3o. Todas as galanterias da parede e da mesa central, os filetes de ouro de um quadro, cadeiras, tudo lhe pareciam riquezas do outro mundo. J\u00e1 antes de entrar, ficara por algum tempo a contemplar a casa, t\u00e3o grande e t\u00e3o rica. Contou \u00e0 irm\u00e3 que perdera o filho, ainda na prov\u00edncia; agora viera com a id\u00e9ia de seguir para o Paraguai, ou para onde estivesse mais perto do marido. Getulino escrevera-lhe que voltasse para a prov\u00edncia ou ficasse aqui.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que tem feito nestes cinco meses? \u2014 Vim com uma fam\u00edlia conhecida, e aqui fiquei costurando para ela. A fam\u00edlia foi para S.<\/p>\n<p>Paulo, vai fazer um m\u00eas; pagou o primeiro aluguel de uma casinha onde moro, costurando para fora.<\/p>\n<p>Enquanto a irm\u00e3 falava, Jucunda contornava-a com os olhos \u2014 desde o vestido de seda j\u00e1 gasto \u2014 o \u00faltimo do enxoval, o xale escuro, as m\u00e3os amarelas e magras, at\u00e9 \u00e0s bichinhas de coral que lhe dera ao sair da prov\u00edncia. Era evidente que Raimunda pusera em si o melhor que possu\u00eda para honrar a irm\u00e3. Jucunda viu tudo; n\u00e3o lhe escaparam sequer os dedos maltratados do trabalho, e o composto geral tanto lhe deu pena como repulsa. Raimunda ia falando, contou-lhe que o marido sa\u00edra tenente por atos de bravura e outras muitas cousas. N\u00e3o dizia voc\u00ea; para n\u00e3o empregar senhora, falava indiretamente; &#8220;Viu? Soube? Eu lhe digo. Se quiser&#8230;&#8221; E a irm\u00e3, que a princ\u00edpio fez um gesto para dizer que deixasse aqueles respeitos, depressa o reprimiu, e deixou-se tratar como \u00e0 outra parecesse melhor.<\/p>\n<p>\u2014 Tem filhos? \u2014 Tenho um, acudiu Jucunda: est\u00e1 dormindo.<\/p>\n<p>Raimunda concluiu a visita. Quisera v\u00ea-la e, ao mesmo tempo, pedir-lhe prote\u00e7\u00e3o. Havia de conhecer pessoas que pagassem melhor. N\u00e3o sabia fazer vestidos de francesas, nem de luxo, mas de andar em casa, sim, e tamb\u00e9m camisas de crivo. Jucunda n\u00e3o p\u00f4de sorrir. Pobre costureira do sert\u00e3o! Prometeu ir v\u00ea-la, pediu indica\u00e7\u00e3o da casa, e despediua ali mesmo.<\/p>\n<p>Em verdade, a visita deixou-lhe uma sensa\u00e7\u00e3o mui complexa: d\u00f3, t\u00e9dio, impaci\u00eancia. N\u00e3o obstante, cumpriu o que disse, foi visit\u00e1-la \u00e0 Rua do Costa, ajudou-a com dinheiro, mantimento e roupa. Voltou ainda l\u00e1, como a outra tornou ao Engenho Velho, sem acordo, mas \u00e0s furtadelas. No fim de dous meses, falando-lhe o marido na possibilidade de uma viagem \u00e0 Europa, Jucunda persuadiu a irm\u00e3 da necessidade de regressar \u00e0 prov\u00edncia; mandar-lhe-ia uma mesada, at\u00e9 que o tenente voltasse da guerra.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que o marido recebeu aviso an\u00f4nimo das visitas da mulher \u00e0 Rua do Costa, e das que lhe fazia, em casa, uma mulher suspeita. Maia foi \u00e0 Rua do Costa, achou Raimunda arranjando as malas para embarcar no dia seguinte. Quando ele lhe falou do Engenho Velho, Raimunda adivinhou que era o marido da irm\u00e3; explicou as visitas, dizendo que &#8220;D. Jucunda era sua patr\u00edcia e antiga protetora&#8221;; agora mesmo, se voltava para a vila natal, era com o dinheiro dela, roupas e tudo. Maia, depois de longo interrogat\u00f3rio, saiu dali convencido. N\u00e3o disse nada em casa; mas, tr\u00eas meses depois, por ocasi\u00e3o de falecer D. Maria do Carmo, referiu Jucunda ao marido a grande e sincera afei\u00e7\u00e3o que a defunta lhe tinha, e ela \u00e0 defunta.<\/p>\n<p>Maia lembrou-se ent\u00e3o da Rua do Costa.<\/p>\n<p>\u2014 Todos lhe querem bem a voc\u00ea, j\u00e1 sei, interrompeu ele, mas por que \u00e9 que nunca me falou daquela pobre mulher, sua protegida, que aqui esteve h\u00e1 tempos, uma que morava na Rua do Costa? Jucunda empalideceu. O marido contou-lhe tudo, a carta an\u00f4nima, a entrevista que tivera com Raimunda, e finalmente a confiss\u00e3o desta, as pr\u00f3prias palavras, ditas com l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Jucunda sentiu-se vexada e confusa.<\/p>\n<p>\u2014 Que mal h\u00e1 em fazer bem, quando a pessoa o merece? perguntou-lhe o marido, concluindo a frase com um beijo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, era excelente mulher, muito trabalhadeira&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO IV<\/h2>\n<p>N\u00e3o houve outra sombra na vida conjugal. A morte do marido ocorreu em 1884. Bela, com a mea\u00e7\u00e3o do casal, e a heran\u00e7a da madrinha, contando quarenta e cinco anos que parecem trinta e quatro, t\u00e3o querida da natureza como da fortuna, pode contrair segundas n\u00fapcias, e n\u00e3o lhe faltam candidatos; mas n\u00e3o pensa nisso. Tem boa sa\u00fade e grande considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A irm\u00e3 faleceu antes de acabar a guerra. Getulino galgou os postos em campanha, e saiu h\u00e1 alguns anos brigadeiro. Reside aqui; vai jantar, aos domingos, com a cunhada e o filho desta, no palacete de D. Maria do Carmo, para onde a nossa D. Jucunda se mudou. Tem escrito alguns op\u00fasculos sobre armamento e composi\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito, e outros assuntos militares. Dizem que deseja ser ministro da Guerra. Aqui, h\u00e1 tempos, falando-se disso no Engenho Velho, perguntou algu\u00e9m a D. Jucunda se era verdade que o cunhado fitava as cumeadas do poder.<\/p>\n<p>\u2014 O general? retorquiu ela com o seu grande ar de matrona elegante; pode ser. N\u00e3o conhe\u00e7o os seus planos pol\u00edticos, mas acho que daria um bom ministro de Estado.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Ningu\u00e9m, quando D. Jucunda aparece no Imperial Teatro de D. Pedro II, em algum baile, em casa, ou na rua, ningu\u00e9m lhe d\u00e1 mais de trinta e quatro anos. 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