{"id":115582,"date":"2017-03-24T18:20:43","date_gmt":"2017-03-24T20:20:43","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115582"},"modified":"2017-03-24T18:20:43","modified_gmt":"2017-03-24T20:20:43","slug":"conversao-de-um-avaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/conversao-de-um-avaro","title":{"rendered":"Convers\u00e3o De Um Avaro"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias (1878)<\/b><\/p>\n<p>Os v\u00edcios equilibram-se muita vez; outras vezes neutralizam-se ou vence um a outro&#8230; H\u00e1 pecados que derrubam pecados, ou, pelo menos, quebram-lhes as pernas.<\/p>\n<p>Gil Gomes tinha uma casa de colch\u00f5es em uma das ruas do bairro dos Cajueiros. Era um homem de cinq\u00fcenta e dois anos, cheio de corpo, vermelho e avaro.<\/p>\n<p>Ganhara um bom pec\u00falio a vender colch\u00f5es e a n\u00e3o usar nenhum. Note-se que n\u00e3o era homem s\u00f3rdido, pessoalmente desasseado; n\u00e3o. Usava camisa lavada, cal\u00e7a e rodaque lavados. Mas era a sua maior despesa. A cama era um velho sof\u00e1 de palhinha; a mob\u00edlia eram duas cadeiras, uma delas quebrada, uma mesa de pinho e um ba\u00fa. A loja n\u00e3o era grande nem pequena, mas regular, cheia de mercadoria. Tinha dois oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Era mercador de colch\u00f5es esse homem, desde 1827. Esta hist\u00f3ria passa-se em 1849. Nesse ano adoeceu Gil Gomes e um amigo, que morava no Engenho Velho, levou-o para casa, pelo motivo ou pretexto de que na cidade n\u00e3o poderia curar-se bem.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, meu amigo, disse ele a primeira vez que o outro lhe falou nisso, nada. Isto n\u00e3o \u00e9 nada.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 sim; pode ser, ao menos.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! Uma febr\u00edcula; vou tomar um ch\u00e1.<\/p>\n<p>O caso n\u00e3o era de ch\u00e1; mas Gil Gomes evitava o m\u00e9dico e a botica at\u00e9 a \u00faltima. O amigo deu-lhe a entender que n\u00e3o pensasse nessas despesas, e Gil Gomes, sem compreender logo que o amigo por for\u00e7a pensaria em alguma compensa\u00e7\u00e3o, admirou esse rasgo de fraternidade. N\u00e3o disse sim, nem n\u00e3o; levantou os ombros, olhou para o ar, enquanto o outro repetia:<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, vamos!<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 l\u00e1, disse ele. Talvez o melhor rem\u00e9dio seja a companhia de um bom amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Decerto!<\/p>\n<p>\u2014 Porque a mol\u00e9stia \u00e9 nada; \u00e9 uma febr\u00edcula&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Das febr\u00edculas nascem os febr\u00f5es disse sentenciosamente o amigo de Gil Gomes.<\/p>\n<p>Esse amigo chamava-se Borges; era um resto de sucessivos naufr\u00e1gios. Tinha sido v\u00e1rias coisas, e ultimamente preparava-se a ser milion\u00e1rio. Contudo estava longe; tinha apenas dois escravos bo\u00e7ais comprados entre os \u00faltimos chegados por contrabando. Era, por ora, toda a riqueza, n\u00e3o podendo incluir-se nela a esposa que era um tigre de ferocidade, nem a filha, que parecia ter o ju\u00edzo a juros. Mas este Borges vivia das melhores esperan\u00e7as. Ganhava alguma coisa em n\u00e3o sei que ag\u00eancias particulares; e nos intervalos cuidava de um invento, que ele dizia destinado a revolucionar o mundo industrial. Ningu\u00e9m sabia o que fosse, nem que destino tivera; mas ele afirmava que era grande coisa, \u00fatil\u00edssima, nova e surpreendente.<\/p>\n<p>Gil Gomes e Jos\u00e9 Borges chegaram \u00e0 casa deste, onde ao primeiro foi dado um quarto de antem\u00e3o arranjado. Gomes achou-se bem no aposento, posto lhe inspirasse ele o maior desprezo ao amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Que desperd\u00edcio! quanta coisa in\u00fatil! Nunca h\u00e1 de ser nada o pateta! dizia ele entre dentes.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a de Gomes, atalhada a tempo, curou-se em poucos dias. A mulher e a filha de Borges tratavam dele com o carinho que permitia o g\u00eanio feroz de uma e a leviandade de outra. A sra. D. Ana acordava \u00e0s cinco horas da manh\u00e3 e berrava at\u00e9 \u00e0s dez da noite. Poupou ao h\u00f3spede esse costume durante a doen\u00e7a; mas, a palavra contida manifestava-se em repel\u00f5es \u00e0 filha, ao marido e \u00e0s escravas. A filha chamava-se Mafalda; era uma mo\u00e7a pequena, vulgar, supersticiosa, que s\u00f3 se penteava \u00e0s duas horas da tarde e andava sem meias toda a manh\u00e3.<\/p>\n<p>Gil Gomes deu-se bem com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O amigo n\u00e3o cogitava de outra coisa mais que de o fazer feliz, e lan\u00e7ou m\u00e3o de bons cobres para trat\u00e1-lo como faria a um irm\u00e3o, a um pai, a um filho.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e1s-te bem? dizia-lhe no fim de quatro dias.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me dou mal.<\/p>\n<p>\u2014 Pior! isso \u00e9 fugir \u00e0 pergunta.<\/p>\n<p>\u2014 Dou-me perfeitamente; e naturalmente incomodo-te&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Decerto; um doente \u00e9 sempre um peso demais.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Borges protestou com toda a energia contra essa suposi\u00e7\u00e3o gratuita do amigo e acabou proferindo um discurso acerca dos deveres de amizade, que Gil Gomes ouviu enfastiado e penalizado.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera de voltar para a sua loja de colch\u00f5es, Gil Gomes travou conhecimento com uma nova pessoa da fam\u00edlia: a vi\u00fava Soares. A vi\u00fava Soares era prima de Jos\u00e9 Borges. Tinha vinte e sete anos, e era, na frase do primo, um peda\u00e7o de mulher. Efetivamente era vistosa, forte, de ombros largos, bra\u00e7os grossos e redondos. Vi\u00fava desde os vinte e dois, conservava um resto de luto, antes como um realce que outra coisa. Gostava de v\u00e9u porque um poetastro lhe dissera em versos de todos os tamanhos que seus olhos, velados, eram como estrelas atrav\u00e9s de nuvens finas, id\u00e9ia que a sra. D. Rufina Soares achou engenhosa e nov\u00edssima. O poeta recebeu em paga um olhar.<\/p>\n<p>Na verdade, os olhos eram bonitos, grandes, pretos, misteriosos. Gil Gomes, quando os viu ficou embasbacado; foi talvez o rem\u00e9dio que melhor o curou.<\/p>\n<p>\u2014 Essa tua prima, na verdade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um peda\u00e7o de mulher!<\/p>\n<p>\u2014 Peda\u00e7o! \u00e9 uma inteira, s\u00e3o duas mulheres, s\u00e3o trinta e cinco mulheres!<\/p>\n<p>\u2014 Que entusiasmo! observou Jos\u00e9 Borges.<\/p>\n<p>\u2014 Eu gosto do que \u00e9 belo, respondeu Gil Gomes sentenciosamente.<\/p>\n<p>A vi\u00fava ia jantar. Era uma boa perspectiva de tarde e noite de palestra e conversa\u00e7\u00e3o. Gil Gomes j\u00e1 agradecia ao c\u00e9u a doen\u00e7a, que lhe dera ocasi\u00e3o de encontrar tamanhas perfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Rufina era muito agrad\u00e1vel na conversa e pareceu simpatizar desde logo com o convalescente, fato em que as outras pessoas n\u00e3o pareceram reparar.<\/p>\n<p>\u2014 Mas j\u00e1 est\u00e1 bom de todo? dizia ela ao colchoeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Estava quase bom; agora estou perfeito, respondeu ele com certo trejeito de olhos, que a vi\u00fava fingiu n\u00e3o ver.<\/p>\n<p>\u2014 Meu primo \u00e9 um bom amigo, disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! \u00e9 uma p\u00e9rola! Minha mol\u00e9stia era pouca coisa; mas ele l\u00e1 foi \u00e0 casa, pediu, instou, fez tudo para que eu viesse tratar-me em casa dele, dizendo que eram precisos cuidados de fam\u00edlia. Vim; em boa hora vim; estou s\u00e3o e re-s\u00e3o.<\/p>\n<p>Desta vez foi Rufina quem fez um trejeito com os olhos. Gil Gomes, que n\u00e3o esperava por ele, sentiu cair-lhe a baba.<\/p>\n<p>O jantar foi uma del\u00edcia, a noite outra del\u00edcia. Gil Gomes sentia-se transportado a todos os c\u00e9us poss\u00edveis e imposs\u00edveis. Ele prolongou quanto p\u00f4de a noite, prop\u00f4s uma bisca de quatro e teve meio de fazer com que Rufina fosse sua parceira s\u00f3 pelo gosto de lhe piscar o olho, quando tinha na m\u00e3o o sete ou o \u00e1s.<\/p>\n<p>Foi adiante.<\/p>\n<p>Num lance dif\u00edcil, em que a parceira hesitava se pegaria na vaza com a bisca de trunfo, Gil Gomes, vendo que ela n\u00e3o levantava os olhos, e conseguintemente n\u00e3o podendo fazer-lhe o sinal de costume, tocou-lhe no p\u00e9 com o p\u00e9.<\/p>\n<p>Rufina n\u00e3o recuou o p\u00e9; compreendeu, atirou a bisca na mesa. E os dois p\u00e9s ficaram juntos alguns segundos. Repentinamente, a vi\u00fava, parecendo que s\u00f3 ent\u00e3o dera pelo atrevimento ou liberdade do parceiro, recuou o p\u00e9 e ficou muito s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Gil Gomes olhou vexado para ela; mas a vi\u00fava n\u00e3o lhe recebeu o olhar. No fim, sim; ao despedir-se da\u00ed a uma hora \u00e9 que Rufina fez as pazes com o colchoeiro apertando-lhe muito a m\u00e3o, o que o fez estremecer todo.<\/p>\n<p>A noite foi cruel para o colchoeiro, ou antes deliciosa e cruel, ao mesmo tempo, porque sonhou com a vi\u00fava de princ\u00edpio at\u00e9 o fim. O primeiro sonho foi bom: imaginava-se que passeava com ela e mais a fam\u00edlia toda em um jardim e que a vi\u00fava lhe dera flores, sorrisos e belisc\u00f5es. Mas o segundo sonho foi mau: sonhou que ela lhe enterrava um punhal. Desse pesadelo passou a melhores fantasias, e a noite correu toda entre imagina\u00e7\u00f5es diversas. A \u00faltima, por\u00e9m, sendo a melhor, foi a pior de todas: sonhou que estava casado com Rufina, e de t\u00e3o belo sonho caiu na realidade do celibato.<\/p>\n<p>O celibato! Gil Gomes come\u00e7ou a pensar seriamente nesse estado que j\u00e1 lhe durava muitos anos, e perguntou aos c\u00e9us e \u00e0 terra, se tinha direito de casar. Esta pergunta foi respondida antes do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! disse ele consigo; n\u00e3o devo casar nunca&#8230; Aquilo foi uma fantasia de uma hora. Leve o diabo a vi\u00fava e o resto. Ajuntar uns cobres menos maus para os dar a uma senhora que os desfar\u00e1 em pouco tempo&#8230; Nada! nada!<\/p>\n<p>Almo\u00e7ou tranq\u00fcilo; e despediu-se dos donos da casa com muitas manifesta\u00e7\u00f5es de agradecimento.<\/p>\n<p>\u2014 Agora n\u00e3o esque\u00e7a o n\u00famero de nossa casa, j\u00e1 que se pilhou curado, disse a filha de Jos\u00e9 Borges.<\/p>\n<p>O pai corou at\u00e9 os olhos, enquanto a m\u00e3e punia a indiscri\u00e7\u00e3o da filha com um belisc\u00e3o que lhe fez ver as estrelas.<\/p>\n<p>\u2014 Salta l\u00e1 para dentro! disse a boa senhora.<\/p>\n<p>Gil Gomes fingiu n\u00e3o ouvir nem ver nada. Apertou a m\u00e3o dos amigos, prometeu-lhes uma eterna gratid\u00e3o e saiu.<\/p>\n<p>Seria faltar \u00e0 verdade o dizer que Gil Gomes n\u00e3o pensou mais na vi\u00fava Rufina. Pensou; mas procurou vencer-se. Durou a luta uma semana. Ao fim desse tempo teve \u00edmpeto de ir passar-lhe pela porta, mas receou, envergonhou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Nada! \u00e9 preciso esquecer aquilo!<\/p>\n<p>Quinze dias depois do encontro da vi\u00fava, Gil Gomes parecia ter efetivamente esquecido a vi\u00fava. Para isso contribu\u00edram alguns acidentes. O mais importante deles foi o caso de um sobrinho que passava a vida a trabalhar quanto podia e numa bela noite foi recrutado em plena Rua dos Ciganos. Gil Gomes n\u00e3o amava ningu\u00e9m neste mundo, nem no outro; mas devia certas obriga\u00e7\u00f5es ao finado pai do sobrinho; e, ao menos por decoro, n\u00e3o p\u00f4de recusar ir v\u00ea-lo, quando recebeu a not\u00edcia do desastre do rapaz. Pede a justi\u00e7a que se diga que ele procurou durante dois dias retirar o sobrinho do ex\u00e9rcito que o esperava. N\u00e3o lhe foi poss\u00edvel. Restava dar-lhe um substituto, e o recruta, quando viu perdidas todas as esperan\u00e7as, insinuou esse recurso derradeiro. O olhar com que Gil Gomes respondeu \u00e0 insinua\u00e7\u00e3o gelou todo o sangue que havia nas veias do mo\u00e7o. Esse olhar parecia dizer-lhe: \u2014 Um substituto! dinheiro! sou algum pr\u00f3digo? N\u00e3o \u00e9 mais do que abrir os cord\u00f5es \u00e0 bolsa e deixar cair o que se custou a ganhar? Alma perversa, que esp\u00edrito mau te meteu na cabe\u00e7a esse pensamento de dissolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Outro incidente foi haver-lhe morrido insolv\u00e1vel o \u00fanico devedor que ele tinha \u2014 um devedor de seiscentos mil-r\u00e9is, com juros. Esta not\u00edcia poupou a Gil Gomes um jantar, tal foi a m\u00e1goa que o acometeu. Ele perguntava a si mesmo se era l\u00edcito aos devedores morrer sem liquidar as contas, e se os c\u00e9us tinham tanta crueldade que levassem um pecador deixando uma d\u00edvida. Esta dor foi t\u00e3o grande como a primeira, posto devesse ser maior; porquanto, Gil Gomes, em v\u00e1rios neg\u00f3cios que tinha tido com o devedor finado, havia-lhe colhido aos poucos a import\u00e2ncia da d\u00edvida extinta pela morte; id\u00e9ia que de algum modo o consolou e lhe fez mais toler\u00e1vel a ceia.<\/p>\n<p>Estava, portanto, D. Rufina, se n\u00e3o esquecida, ao menos adormecida na mem\u00f3ria do colchoeiro, quando este uma noite recebeu um bilhetinho da mulher de Jos\u00e9 Borges. Pedia-lhe a megera que ele fosse l\u00e1 jantar no pr\u00f3ximo s\u00e1bado, anivers\u00e1rio natal\u00edcio da filha do casal. Este bilhete foi levado pelo pr\u00f3prio pai da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Podemos contar contigo? disse este, logo que o viu acabar de ler o bilhete.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei! talvez&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 talvez, nem meio talvez. \u00c9 festa \u00edntima, s\u00f3 parentes, dois amigos, um dos quais \u00e9s tu&#8230; Senhoras, h\u00e1 s\u00f3 as de casa, a comadre Miquelina, madrinha de Mafalda, e a prima Rufina&#8230; N\u00e3o sei se a conheces?<\/p>\n<p>\u2014 Tua prima?&#8230; Conhe\u00e7o! acudiu o colchoeiro expelindo fa\u00edscas dos olhos. N\u00e3o te lembras que ela passou a \u00faltima noite que estive em tua casa? At\u00e9 jogamos a bisca&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade! N\u00e3o me lembrava!<\/p>\n<p>\u2014 Boa senhora&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! \u00e9 uma p\u00e9rola! Ora, espera&#8230; agora me lembro que ela, ainda h\u00e1 poucos dias, esteve l\u00e1 e falou em ti. Perguntou-me como estavas&#8230; \u00c9 uma senhora de truz!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pareceu-me&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ao que importa, podemos contar contigo?<\/p>\n<p>Gil Gomes interiormente tinha capitulado; queria declar\u00e1-lo, mas por modo que n\u00e3o parecesse esquisito. Fez um gesto com as sobrancelhas, apertou a ponta do nariz, olhando para a carta e murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Pois,&#8230; sim&#8230; talvez&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Talvez, n\u00e3o quero! H\u00e1 de ser por for\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s um diabo! Pois bem, vou.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Borges apertou-lhe muito a m\u00e3o, sentou-se, contou-lhe duas anedotas; e o colchoeiro, tocado subitamente da suspeita de que o primo da vi\u00fava quisesse pedir-lhe dinheiro, entrou a cochilar. Jos\u00e9 Borges saiu e foi levar \u00e0 casa a not\u00edcia de que Gil Gomes compareceria \u00e0 festa. Chegou como a Provid\u00eancia, fazendo suspender de cima da cabe\u00e7a da filha uma chuva de ralhos com que a m\u00e3e castigava uma das infinitas indiscri\u00e7\u00f5es da pequena. A sra. D. Ana n\u00e3o se alegrou logo, mas abrandou, ouviu a not\u00edcia, expectorou ainda seis ou sete adjetivos cru\u00e9is, por fim calou-se. Jos\u00e9 Borges, que, por medida de prud\u00eancia, estava sempre do lado da mulher, disse solenemente \u00e0 filha que se retirasse, o que era servir ao mesmo tempo \u00e0 filha e \u00e0 m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o ele vem? disse D. Ana quando o temporal come\u00e7ou a amainar.<\/p>\n<p>\u2014 Vem, e o resto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Parece-te?<\/p>\n<p>\u2014 Eu creio&#8230;<\/p>\n<p>No dia aprazado compareceu em casa de Jos\u00e9 Borges a gente convidada, os parentes, a comadre e os dois amigos. Entre os parentes havia um primo, p\u00e1lido, esguio e magro, que nutria em rela\u00e7\u00e3o a Mafalda uma paix\u00e3o, correspondida pelo pai. Esse primo tinha tr\u00eas pr\u00e9dios. Mafalda dizia gostar muito dele; e se, na verdade, os olhos fossem sempre o espelho do cora\u00e7\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a derretia-se pelo primo, porque os olhos eram dois globos de neve tocados pelo sol. O que a mo\u00e7a dizia no cora\u00e7\u00e3o era que o primo n\u00e3o passava de uma figura de presepe; n\u00e3o obstante, autorizava-o a pedi-la nesse dia ao sr. Jos\u00e9 Borges.<\/p>\n<p>Por esse motivo entrou o jovem In\u00e1cio duas horas mais cedo que os outros, mas entrou somente. Falou, \u00e9 verdade, mas falou s\u00f3 de coisas gerais. Tr\u00eas vezes investiu com o pai da namorada para pedir-lha, tr\u00eas vezes a palavra morreu-lhe nos l\u00e1bios. In\u00e1cio era t\u00edmido; a figura circunspecta de Jos\u00e9 Borges, os olhos terr\u00edveis da sra. D. Ana e at\u00e9 os modos r\u00edspidos da namorada, tudo lhe metia medo e fazia perder a \u00faltima gota de sangue. Os convidados entraram sem que houvesse exposto ao tio suas pretens\u00f5es. Custou-lhe o sil\u00eancio um repel\u00e3o da namorada; repel\u00e3o curto, a que sucedeu um sorriso animador, porque a mo\u00e7a compreendia facilmente que um noivo, ainda que seja In\u00e1cio, n\u00e3o se pesca sem alguma paci\u00eancia. Vingar-se-ia depois do casamento.<\/p>\n<p>Pelas quatro horas e meia entrou o sr. Gil Gomes. Quando ele apareceu \u00e0 porta, Jos\u00e9 Borges esfregou os olhos como para certificar-se que n\u00e3o era sonho, e que efetivamente o colchoeiro ali lhe entrava pela sala. Pois qu\u00ea! Onde, quando, de que modo, em que circunst\u00e2ncias Gil Gomes cal\u00e7ara nunca luvas? Trazia um par de luvas \u2014 \u00e9 verdade que de l\u00e3 grossa \u2014, mas enfim luvas, que na opini\u00e3o dele eram inutilidades. Foi a \u00fanica despesa s\u00e9ria que fez; mas f\u00ea-la. Jos\u00e9 Borges, durante um quarto de hora, ainda nutria a esperan\u00e7a de que o colchoeiro lhe trouxesse um presente para a filha. Um dia de anos! Mas a esperan\u00e7a morreu depressa: o colchoeiro era oposto \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o dos presentes de anos; era um revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>A vi\u00fava Soares fez a sua entrada na sala (j\u00e1 estava na casa desde as duas horas), poucos minutos depois de ali chegar Gil Gomes. Este sentiu no corredor um farfalhar de vestido e um pisar grosso, que lhe contundiu o cora\u00e7\u00e3o. Era ela, n\u00e3o podia ser outra. Rufina entrou majestosa; fosse acaso ou prop\u00f3sito, os primeiros olhos que fitou foram os dele.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca mais o vi desde aquela noite, disse ela baixinho ao colchoeiro da\u00ed a cinco minutos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, concordou Gil Gomes sem saber que respondesse.<\/p>\n<p>Rufina reclinou-se na cadeira agitando o leque, meio voltada para ele, que respondia tr\u00eamulo.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou que a dona da casa convidasse a toda a gente a passar \u00e0 sala de jantar. Gil Gomes levantou-se com id\u00e9ia de dar o bra\u00e7o \u00e0 vi\u00fava; Jos\u00e9 Borges facilitou-lhe a execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, que \u00e9 isso? D\u00ea o bra\u00e7o \u00e0 prima. In\u00e1cio, d\u00e1 o bra\u00e7o a Mafalda. Eu levo a comadre&#8230;. valeu? Voc\u00ea, Aninha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu vou com o sr. Pantale\u00e3o.<\/p>\n<p>O sr. Pantale\u00e3o era um dos dois amigos convidados por Jos\u00e9 Borges, al\u00e9m dos parentes. N\u00e3o vale a pena falar dele; basta dizer que era um homem silencioso; n\u00e3o tinha outro tra\u00e7o caracter\u00edstico.<\/p>\n<p>Na mesa, Gil Gomes foi sentado ao p\u00e9 de Rufina. Ele estava aturdido, satisfeito, desvairado. Um g\u00eanio invis\u00edvel atirava-lhe fa\u00edscas aos olhos; e entornava-lhes pelas veias abaixo um fluido, que ele supunha ser celestial. A vi\u00fava parecia, na verdade, mais bela do que nunca; fresca, repousada, ostentosa. Ele sentia-lhe o vestido a ro\u00e7ar-lhe as cal\u00e7as; via-lhe os olhos embeberem-se nos seus. Era um jantar aquilo ou um sonho? Gil Gomes n\u00e3o podia decidir.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Borges alegrou a mesa como podia e sabia, sendo acompanhado pelos parentes e pela comadre. Dos dois estranhos, o colchoeiro pertencia \u00e0 vi\u00fava e o silencioso era todo do seu est\u00f4mago. Jos\u00e9 Borges tinha um leit\u00e3o e um peru, eram as duas pe\u00e7as melhores do jantar, dizia ele, que j\u00e1 as anunciara desde o princ\u00edpio. Come\u00e7aram as sa\u00fades; fez-se a de Mafalda, a de D. Ana e de Jos\u00e9 Borges, a da comadre, a da vi\u00fava. Esta sa\u00fade foi proposta com muito entusiasmo por Jos\u00e9 Borges e n\u00e3o menos entusiasticamente correspondida. Entre Rufina e Gil Gomes foi trocado um brinde particular, de copo batido.<\/p>\n<p>Gil Gomes, apesar da resolu\u00e7\u00e3o amorosa que se operava nele, comeu \u00e0 farta. Um bom jantar era coisa para ele fortuita ou problem\u00e1tica. S\u00f3 assim, de ano em ano. Por isso n\u00e3o deixou passar a ocasi\u00e3o. O jantar, o vinho, a palestra, a alegria geral, os olhos da vi\u00fava, talvez a pontinha de seu p\u00e9, tudo contribuiu para desatar os \u00faltimos n\u00f3s \u00e0 l\u00edngua do colchoeiro. Ele ria, falava, dizia gra\u00e7as, fazia cumprimentos \u00e0 dona, arriava todas as bandeiras. \u00c0 sobremesa, quis por for\u00e7a que ela comesse uma p\u00eara, descascada por ele; e a vi\u00fava, para lhe pagar a fineza, exigiu que ele comesse metade.<\/p>\n<p>\u2014 Aceito! exclamou o colchoeiro fora de si.<\/p>\n<p>A p\u00eara foi descascada. Partiu-a a vi\u00fava, e os dois comeram a fruta, de parceria, com os olhos modestamente no prato. Jos\u00e9 Borges, que n\u00e3o perdeu a cena de vista, parecia satisfeito com a harmonia dos dois. Ergueu-se para fazer uma sa\u00fade ao estado conjugal. Gil Gomes correspondeu ruidosamente; Rufina nem tocou no copo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o correspondeu ao brinde do seu primo? perguntou Gil Gomes.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Porque n\u00e3o posso, suspirou a vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230; por que&#8230; isto \u00e9&#8230; que calor!<\/p>\n<p>Estas palavras incoerentes, proferidas pelo colchoeiro, n\u00e3o pareceu que as ouvisse a vi\u00fava. Ela olhava para a borda da mesa, s\u00e9ria e fixamente, como quem encara o passado e o futuro.<\/p>\n<p>Gil Gomes achou-se um pouco acanhado. N\u00e3o compreendia muito o motivo do sil\u00eancio de Rufina e perguntava a si pr\u00f3prio se ele havia dito alguma tolice. De repente, levantaram-se todos. A vi\u00fava tomou-lhe o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Gil Gomes sentiu o bra\u00e7o de Rufina e estremeceu da cabe\u00e7a at\u00e9 os p\u00e9s.<\/p>\n<p>\u2014 Por que motivo ficou triste ainda agora? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Eu?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Fiquei triste?<\/p>\n<p>\u2014 E muito.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me lembro.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez fosse zangada.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; pode ser que eu a ofendesse.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor?<\/p>\n<p>\u2014 Eu sim.<\/p>\n<p>Rufina negou com os olhos, mas uns olhos que o colchoeiro antes quisera fossem duas espadas, porque atravessariam t\u00e3o cruelmente o cora\u00e7\u00e3o, por mais morto que o deixassem.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Rufina apertou muito os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me pergunte, disse ela afastando-se dele rapidamente.<\/p>\n<p>O colchoeiro viu-a afastar-se e levar-lhe o cora\u00e7\u00e3o na barra do vestido. Seu esp\u00edrito sentiu pela primeira vez a vertigem conjugal. Ele, que deixara de fumar por economia, aceitou um charuto de Jos\u00e9 Borges para distrair-se, e fumou-o todo sem poder arrancar de si a imagem da vi\u00fava. Rufina, entretanto, parecia evit\u00e1-lo. Tr\u00eas vezes quis ele entabular conversa\u00e7\u00e3o sem conseguir det\u00ea-la.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isso? perguntou o colchoeiro consigo.<\/p>\n<p>Aquele procedimento deixou-o ainda mais perplexo. Ficou triste, amuado, n\u00e3o sentiu correr as horas. Eram onze quando deu acordo de si. Onze horas! E ele que quisera assistir ao fechar a porta! A casa entregue ao caixeiro t\u00e3o longo tempo, era um perigo; pelo menos, uma novidade que podia ter graves conseq\u00fc\u00eancias. Circunst\u00e2ncia que ainda mais lhe ensombrou o esp\u00edrito. Irritado consigo mesmo, fugiu \u00e0 companhia dos outros e foi sentar-se em uma saleta, deu corda a uma caixa de m\u00fasica que ali achou e sentou-se a ouvi-la.<\/p>\n<p>De repente, foi interrompido pelo passo forte da vi\u00fava, que fora buscar o xale para sair.<\/p>\n<p>\u2014 Vai embora? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Vou.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e3o cedo!<\/p>\n<p>Rufina n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Parece que a senhora ficou mal comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Rufina suspirou; e depois de um sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me fale mais, n\u00e3o procure ver-me, adeus!&#8230;<\/p>\n<p>Saiu.<\/p>\n<p>Gil Gomes, atordoado com a primeira impress\u00e3o, n\u00e3o p\u00f4de dar um passo. Mas, enfim, dominou-se e saiu em procura da vi\u00fava. Achou-a na sala a abra\u00e7ar a prima. Quis falar-lhe, chegou a dizer-lhe algumas palavras; mas Rufina n\u00e3o pareceu ouvir. Apertou a m\u00e3o a todos. Quando chegou a vez do colchoeiro, foi um aperto, um s\u00f3, mas um aperto que valia por todos os apertos do mundo, n\u00e3o que fizesse forte, mas porque era significativo.<\/p>\n<p>Gil Gomes saiu dali meia hora depois, num estado de agita\u00e7\u00e3o como nunca estivera em todos os longos dias de sua exist\u00eancia. N\u00e3o foi logo para casa; era-lhe imposs\u00edvel dormir, e andar na rua sempre era economizar a vela. Andou cerca de duas horas, a ruminar umas id\u00e9ias, a correr atr\u00e1s de umas vis\u00f5es, a evaporar-se em fantasias de toda a esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>No dia seguinte, \u00e0 hora do costume, estava na loja sem saber o que fazia. Custava-lhe a reconhecer os seus colch\u00f5es. O dia, a agita\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios, o almo\u00e7o puseram alguma surdina \u00e0s vozes do cora\u00e7\u00e3o. O importuno calou-se modestamente ou, antes, velhacamente, para criar mais for\u00e7as. Era tarde. Rufina tinha cravado no peito do colchoeiro a seta da domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era preciso v\u00ea-la.<\/p>\n<p>Mas como?<\/p>\n<p>Gil Gomes pensou nos meios de satisfazer essa necessidade imperiosa. A figura esbelta, forte, rechonchuda da prima de Jos\u00e9 Borges parecia estar diante dele a dizer-lhe com os olhos: Vai ver-me! vai ter comigo! vai dizer-me o que sentes!<\/p>\n<p>Por fortuna de Gil Gomes a vi\u00fava fazia anos dali a tr\u00eas semanas. Ele foi um dos convidados. Correu ao convite da dama de seus pensamentos. A vizinhan\u00e7a, que conhecia os h\u00e1bitos tradicionalmente caseiros de Gil Gomes, entrou a comentar as suas sa\u00eddas freq\u00fcentes e a conjecturar mil coisas, com a fertilidade da gente curiosa e vadia. O fato, sobretudo, de o ver sair com uma sobrecasaca nova, por ocasi\u00e3o dos anos da vi\u00fava, p\u00f4s a rua em alvoro\u00e7o. Uma sobrecasaca nova! era o fim do mundo. Que querem? A vi\u00fava valia a pena de um sacrif\u00edcio por maior que fosse e aquele foi imenso. Tr\u00eas vezes recuou o colchoeiro estando \u00e0 porta do alfaiate, mas tr\u00eas vezes insistiu. Ir-se embora, se fosse poss\u00edvel varrer-se-lhe da mem\u00f3ria a figura da dama. Mas se ele a trazia presente! Se ela estava a\u00ed diante dele, a fit\u00e1-lo, a sorrir-lhe, a moer-lhe a alma, a despeda\u00e7ar-lhe o cora\u00e7\u00e3o! Veio a sobrecasaca; ele vestiu-a; achou-se elegante. N\u00e3o chorou o dinheiro, porque s\u00f3 o dominava a id\u00e9ia de ser contemplado pela vi\u00fava.<\/p>\n<p>Esse novo encontro de Gil Gomes e Rufina foi a ocasi\u00e3o de se entenderem. Tantas aten\u00e7\u00f5es com ele! Tantos olhares para ela! Um e outro caminhavam rapidamente at\u00e9 esbarrarem no c\u00e9u azul, como dois astros errantes e simp\u00e1ticos. O colchoeiro estava prostrado. A vi\u00fava parecia vencida. Jos\u00e9 Borges favoreceu essa situa\u00e7\u00e3o, descobrindo-a a ambos.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas est\u00e3o meditando alguma coisa, disse ele, achando-se uma vez a olhar um para o outro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s? murmurou Rufina.<\/p>\n<p>Este n\u00f3s penetrou a alma do colchoeiro.<\/p>\n<p>O colchoeiro fez duas ou tr\u00eas visitas \u00e0 vi\u00fava, em ocasi\u00e3o que l\u00e1 ia a fam\u00edlia desta. Uma vez apresentou-se, sem que a fam\u00edlia l\u00e1 estivesse. Rufina mandou dizer que n\u00e3o estava em casa.<\/p>\n<p>\u2014 Seriamente? perguntou ele \u00e0 preta. Tua senhora n\u00e3o est\u00e1 em casa?<\/p>\n<p>\u2014 Ela mandou dizer que n\u00e3o, senhor, acudiu a bo\u00e7al escrava.<\/p>\n<p>Gil Gomes quis insistir; mas podia ser in\u00fatil; saiu com a morte em si. Aquela esquivan\u00e7a era um aguilh\u00e3o, que ainda mais o irritou. A noite foi cruel. No dia seguinte apareceu-lhe Jos\u00e9 Borges.<\/p>\n<p>\u2014 Podes falar comigo em particular? disse este.<\/p>\n<p>\u2014 Posso.<\/p>\n<p>Foram para os fundos da loja. Sentaram-se em duas cadeiras de pau. Jos\u00e9 Borges tossiu, meditou um instante. Custava-lhe ou parecia custar-lhe a entabular a conversa. Enfim, rompeu o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 Tu foste ontem \u00e0 casa de minha prima?<\/p>\n<p>\u2014 Fui.<\/p>\n<p>\u2014 Disseram-te que ela n\u00e3o estava em casa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, a preta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A preta disse mais: deu a entender que minha prima estava, mas dera ordem de te dizer que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Era falso?<\/p>\n<p>\u2014 Era verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu te explico. Rufina sabe que tu gostas dela; tu deves saber que ela gosta de ti; todo o mundo sabe que voc\u00eas gostam um do outro. Ora, se l\u00e1 fores quando n\u00f3s estamos, bem&#8230;<\/p>\n<p>Gil Gomes tinha-se levantado e dera quatro ou seis passos na salinha, sem ouvir o resto do discurso de Jos\u00e9 Borges, que teve em si o seu \u00fanico audit\u00f3rio.<\/p>\n<p>No fim de alguns minutos, o colchoeiro sentou-se outra vez e inquiriu o amigo:<\/p>\n<p>\u2014 Dizes ent\u00e3o que eu gosto de tua prima?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 vis\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 E que ela gosta de mim?<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 um cego o n\u00e3o ver\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Ela sup\u00f5e isso?<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea e sente-o!<\/p>\n<p>\u2014 Sente-o?<\/p>\n<p>O colchoeiro esfregou as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Gosta de mim? repetiu ele.<\/p>\n<p>\u2014 E tu gostas dela.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, confesso que&#8230; Parece-te rid\u00edculo?<\/p>\n<p>\u2014 Rid\u00edculo! Essa agora! Pois um homem como tu, dotado de verdadeiras e boas qualidades, h\u00e1 de parecer rid\u00edculo por gostar de uma senhora como Rufina?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, creio que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 De nenhum modo. O que te digo \u00e9 que toda a circunspec\u00e7\u00e3o \u00e9 pouca, at\u00e9 o dia do casamento.<\/p>\n<p>Ouvindo esta palavra, Gil Gomes sentiu um calafrio e perdeu momentaneamente todas as f\u00f4rqas. A id\u00e9ia talvez lhe passasse alguma vez pelo esp\u00edrito, mas vaga e obscura, sem se fixar nem clarear. Jos\u00e9 Borges proferia a palavra em toda a sua realidade. O colchoeiro n\u00e3o p\u00f4de resistir ao abalo. Ele vivia em uma agita\u00e7\u00e3o que o punha fora da realidade e sem efeitos. A palavra formal, na boca de um parente, quando j\u00e1 ningu\u00e9m ignorava a natureza de seus sentimentos, era um golpe quase inesperado e de efeito certo.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Borges fingiu n\u00e3o reparar na impress\u00e3o do amigo, e continuou a falar do casamento, como de uma coisa indeclin\u00e1vel. Teceu os maiores elogios \u00e0 vi\u00fava, \u00e0 sua beleza, aos seus pretendentes, \u00e0s suas virtudes. A maior destas era a economia; pelo menos, foi o que ele mais louvou. Quanto aos pretendentes eram muitos, mas ultimamente estavam reduzidos a cinco ou seis. Um deles era desembargador. No fim de uma hora, Jos\u00e9 Borges saiu.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o do colchoeiro complicava-se; sem o pensar achava-se \u00e0s portas de um casamento, isto \u00e9, de uma grande despesa que viria abalar muito o edif\u00edcio laborioso de suas economias.<\/p>\n<p>Passou-se uma semana depois daquele di\u00e1logo, e a situa\u00e7\u00e3o de Gil Gomes n\u00e3o melhorou nada. Pelo contr\u00e1rio, agravou-se. No fim desse tempo, tornou a ver a vi\u00fava. Nunca lhe pareceu mais bela. Trazia um vestido simples, nenhum ornato, salvo uma flor ao seio, que ela em ocasi\u00e3o oportuna tirou e ofereceu ao colchoeiro. A paix\u00e3o de Gil Comes foi-se convertendo numa embriaguez; ele j\u00e1 n\u00e3o podia viver sem ela. Era preciso v\u00ea-la, e quando a via, tinha \u00e2nsia de lhe cair ao p\u00e9s. Rufina suspirava, falava; quebrava os olhos, trazia arrastado o pobre Gil Gomes.<\/p>\n<p>Veio mais uma semana, depois outra e mais outra. O amor trouxe algumas despesas nunca usadas. Gil Gomes sentiu que a avareza afrouxava um pouco as r\u00e9deas; ou, por outra, n\u00e3o sentiu nada, porque nada podia,sentir; foi alongando os cord\u00f5es \u00e0 bolsa.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia do casamento aferrou-se-lhe deveras. Era grave, era um abismo que ele abriu diante de si. \u00c0s vezes assustava-se; outras vezes fechava os olhos disposto a mergulhar nas trevas.<\/p>\n<p>Um dia, Rufina ouviu ao colchoeiro o pedido em regra, ainda que timidamente formulado. Ouviu-o, fechou a cabe\u00e7a nas m\u00e3os e recusou.<\/p>\n<p>\u2014 Recusa-me? clamou o infeliz aturdido.<\/p>\n<p>\u2014 Recuso, disse firmemente a vi\u00fava.<\/p>\n<p>Gil Gomes n\u00e3o contava com a resposta; insistiu, rogou, mas a vi\u00fava n\u00e3o parecia ceder.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que recusa? perguntou. N\u00e3o gosta de mim?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! interrompeu ela apertando-lhe as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 livre?<\/p>\n<p>\u2014 Sou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o compreendo, explique-se.<\/p>\n<p>A vi\u00fava n\u00e3o respondeu logo; foi dali a um sof\u00e1 e meteu a cabe\u00e7a nas m\u00e3os, durante cinco minutos. Vista assim era talvez mais bela. Estava meio reclinada, ofegante, com alguma desordem nos cabelos.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? que tem? perguntou Gil Gomes com uma ternura que ningu\u00e9m era capaz de supor-lhe. Vamos l\u00e1; confie-me tudo, se alguma coisa h\u00e1, porque eu n\u00e3o compreendo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Amo-o muito, disse Rufina erguendo para ele um par de olhos belos como duas estrelas; amo-o muito e muito. Mas vacilo em casar.<\/p>\n<p>\u2014 Disseram-lhe de mim alguma coisa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, mas tremo do casamento.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? Foi infeliz com o primeiro?<\/p>\n<p>\u2014 Fui muito feliz, e por isso mesmo receio que seja infeliz agora. Parece-me que o c\u00e9u me castigar\u00e1 se eu casar segunda vez, porque nenhuma mulher foi ainda t\u00e3o amada como eu fui. Ob! se soubesse que amor me teve meu marido! Que paix\u00e3o! que del\u00edrio! Vivia para fazer-me feliz. Perdi-o; casar com outro \u00e9 esquec\u00ea-lo&#8230;<\/p>\n<p>Tornou a cobrir o rosto com as m\u00e3os, enquanto o colchoeiro ferido por aquele novo dardo, jurava a seus deuses que havia de casar com ela ou o mundo viria abaixo.<\/p>\n<p>A luta durou tr\u00eas dias, tr\u00eas longos e estirados dias. Gil Gomes n\u00e3o cuidou de outra coisa durante o combate; n\u00e3o abriu os livros da casa; talvez chegou a n\u00e3o afagar um fregu\u00eas. Pior que tudo: chegou a oferecer um camarote de teatro \u00e0 vi\u00fava. Um camarote! Que decad\u00eancia!<\/p>\n<p>N\u00e3o podia ir longe a luta e n\u00e3o foi. No quarto dia recebeu ele uma resposta decisiva, um sim escrito em papel bordado. Respirou; beijou o papel; correu \u00e0 casa de Rufina. Ela esperava-o ansiosa. Suas m\u00e3os tocaram-se; um \u00f3sculo confirmou o escrito.<\/p>\n<p>Desde aquele dia at\u00e9 o do casamento foi um turbilh\u00e3o em que o pobre colchoeiro viveu. N\u00e3o via nada; quase n\u00e3o sabia contar; estava cego e tonto. De quando em quando um movimento instintivo parecia faz\u00ea-lo mudar de caminho, mas era r\u00e1pido. Assim, a id\u00e9ia dele era que o casamento n\u00e3o tivesse aparato; mas Jos\u00e9 Borges combateu essa id\u00e9ia como indigna dos noivos:<\/p>\n<p>\u2014 Demais \u00e9 bom que todos o invejem.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem isso?<\/p>\n<p>\u2014 Quando virem passar o pr\u00e9stito todos dir\u00e3o: Que magan\u00e3o! Que casamento! Rico e feliz!<\/p>\n<p>\u2014 Rico&#8230; isto \u00e9&#8230; interrompeu Gil Gomes, cedendo ao costume antigo.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Borges bateu-lhe no ombro, sorriu e n\u00e3o admitiu r\u00e9plica. Ainda assim, ele n\u00e3o teria vencido, se n\u00e3o fosse o voto da prima. A vi\u00fava declarou prefer\u00edvel um casamento aparatoso; o colchoeiro n\u00e3o tinha outra vontade.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 l\u00e1, disse ele; cup\u00eas, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Justamente; cavalos brancos, arreios finos, cocheiros de libr\u00e9, coisa bonita.<\/p>\n<p>\u2014 Mais bonita do que voc\u00ea, \u00e9 imposs\u00edvel, acudiu o colchoeiro com um ar terno e galante.<\/p>\n<p>Outro \u00f3sculo que o fez ver estrelas ao meio-dia. Estava decidido que o casamento teria o maior aparato. Gil Gomes reconhecia que a despesa era enorme, e intimamente pensava que era in\u00fatil; mas desde que ela queria, toda a discuss\u00e3o estava acabada. Mandou preparar a roupa dele; teve at\u00e9 de sortir-se, porque nada possu\u00eda em casa; aposentou os dois velhos rodaques, as tr\u00eas cal\u00e7as de quatro anos. P\u00f4s casa. A vi\u00fava guiou-o nessa tarefa dif\u00edcil; indicou o que ele devia comprar; escolheu ela mesma a mob\u00edlia, os tapetes, os vasos, as cortinas, os cristais, as porcelanas. As contas chegavam \u00e0s m\u00e3os do colchoeiro rotundas e pavorosas; mas ele pagava, quase sem sentir.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera do casamento, tinha ele deixado de pertencer a este mundo, t\u00e3o alheado andava dos homens. Jos\u00e9 Borges aproveitou esse estado de sonambulismo amoroso para lhe pedir duzentos mil-r\u00e9is emprestados. Coisa miraculosa! Gil Gomes emprestou-os. Era verdadeiramente o fim do mundo. Emprestou os duzentos mil-r\u00e9is, sem fian\u00e7a, nem obriga\u00e7\u00e3o escrita. Isto e a derrota do primeiro Napole\u00e3o s\u00e3o os dois fatos mais estrondosos do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Casou no dia seguinte. A vizinhan\u00e7a toda sabia j\u00e1 do casamento, mas n\u00e3o podia crer, supunha que era boato, apesar das mil provas que os noveleiros espalhavam de loja em loja&#8230; Casou; quem o viu entrar no cup\u00ea, ainda hoje duvida se estava sonhando naquele dia.<\/p>\n<p>Uma vez casado, estava passado o Rubic\u00e3o. A ex-vi\u00fava encheu a vida do colchoeiro; ocupou em seu cora\u00e7\u00e3o o lugar que at\u00e9 ent\u00e3o pertencera \u00e0 libra esterlina. Gil Gomes estava mudado; fora uma larva; passava a borboleta. E que borboleta! A vida solit\u00e1ria da loja dos colch\u00f5es era agora o seu remorso; ele mesmo ria de si. A mulher, s\u00f3 a mulher, nada mais que a mulher, eis o sonho da vida do colchoeiro; era o modelo dos maridos.<\/p>\n<p>Rufina amava o luxo, a vida estrondosa, os teatros, os jantares, os brilhantes. Gil Gomes, que vivera a detestar tudo aquilo, mudou de sentimento e acompanhou as tend\u00eancias da esposa. De longe em longe tinha um estremecimento na alma. \u201cGil! exclamava ele, aonde vais? Que destino te leva \u00e0 prodigalidade?\u201d Mas um sorriso, um afago de Rufina dissipava as nuvens e atirava o colchoeiro \u00e0 carreira em que ia.<\/p>\n<p>Um ano depois de casado sabia jogar o voltarete e tinha assinatura no teatro. Comprou carro; dava jantares \u00e0s sextas-feiras; emprestava dinheiro a Jos\u00e9 Borges de trimestre em trimestre. Circunst\u00e2ncia particular: Jos\u00e9 Borges n\u00e3o lhe pagava nunca.<\/p>\n<p>Vieram os anos, e cada ano novo achava-o mais namorado da mulher. Gil Gomes era uma esp\u00e9cie de cachorrinho de rega\u00e7o. Com ela, ao p\u00e9 dela, defronte dela, a olhar para ela; n\u00e3o tinha outro lugar nem outra atitude. A bolsa emagreceu; ele engordou. Nos \u00faltimos anos, tinha vendido o carro, suspendido os jantares e os teatros, diminu\u00eddo os empr\u00e9stimos a Jos\u00e9 Borges, jogava a bisca a tentos. Quando a mis\u00e9ria chegou, Rufina retirou-se deste mundo. O colchoeiro que j\u00e1 n\u00e3o tinha colch\u00f5es, acabou a vida servindo de agente em um cart\u00f3rio de escriv\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Publicado originalmente em Jornal das Fam\u00edlias (1878) Os v\u00edcios equilibram-se muita vez; outras vezes neutralizam-se ou vence um a outro&#8230; H\u00e1 pecados que derrubam pecados, ou, pelo menos, quebram-lhes as pernas. Gil Gomes tinha uma casa de colch\u00f5es em uma das ruas do bairro dos Cajueiros. 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