{"id":115578,"date":"2017-03-24T18:14:49","date_gmt":"2017-03-24T20:14:49","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115578"},"modified":"2017-03-24T18:14:49","modified_gmt":"2017-03-24T20:14:49","slug":"conto-alexandrino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/conto-alexandrino","title":{"rendered":"Conto Alexandrino"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>No mar \u2014 O qu\u00ea, meu caro Stroibus! N\u00e3o, imposs\u00edvel. Nunca jamais ningu\u00e9m acreditar\u00e1 que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do homem um ratoneiro.<\/p>\n<p>\u2014 Em primeiro lugar, P\u00edtias, tu omites uma condi\u00e7\u00e3o: \u2014 \u00e9 que o rato deve expirar debaixo do escalpelo, para que o sangue traga o seu princ\u00edpio. Essa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, uma vez que me apontas o exemplo do rato, fica sabendo que j\u00e1 fiz com ele uma experi\u00eancia, e cheguei a produzir um ladr\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ladr\u00e3o aut\u00eantico? \u2014 Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias, mas deixou-me a maior alegria do mundo: \u2014 a realidade da minha doutrina. Que perdi eu? um pouco de tecido grosso; e que lucrou o universo? a verdade imortal. Sim, meu caro P\u00edtias; esta \u00e9 a eterna verdade. Os elementos constitutivos do ratoneiro est\u00e3o no sangue do rato, os do paciente no boi, os do arrojado na \u00e1guia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Os do s\u00e1bio na coruja, interrompeu P\u00edtias sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; a coruja \u00e9 apenas um emblema; mas a aranha, se pud\u00e9ssemos transferi-la a um homem, daria a esse homem os rudimentos da geometria e o sentimento musical. Com um bando de cegonhas, andorinhas ou grous, fa\u00e7o-te de um caseiro um viajeiro. O princ\u00edpio da fidelidade conjugal est\u00e1 no sangue da rola, o da enfatua\u00e7\u00e3o no dos pav\u00f5es&#8230; Em suma, os deuses puseram nos bichos da terra, da \u00e1gua e do ar a ess\u00eancia de todos os sentimentos e capacidades humanas. Os animais s\u00e3o as letras soltas do alfabeto; o homem \u00e9 a sintaxe.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a minha filosofia recente; esta \u00e9 a que vou divulgar na corte do grande Ptolomeu.<\/p>\n<p>P\u00edtias sacudiu a cabe\u00e7a, e fixou os olhos no mar. O navio singrava, em direitura a Alexandria, com essa carga preciosa de dois fil\u00f3sofos, que iam levar \u00e0quele rega\u00e7o do saber os frutos da raz\u00e3o esclarecida. Eram amigos, vi\u00favos e q\u00fcinquagen\u00e1rios. Cultivavam especialmente a metaf\u00edsica, mas conheciam a f\u00edsica, a qu\u00edmica, a medicina e a m\u00fasica; um deles, Stroibus, chegara a ser excelente anatomista, tendo lido muitas vezes os tratados do mestre Her\u00f3filo. Chipre era a p\u00e1tria de ambos; mas, t\u00e3o certo \u00e9 que ningu\u00e9m \u00e9 profeta em sua terra, Chipre n\u00e3o dava o merecido respeito aos dois fil\u00f3sofos. Ao contr\u00e1rio, desdenhava-os; os garotos tocavam ao extremo de rir deles. N\u00e3o foi esse, entretanto, o motivo que os levou a deixar a p\u00e1tria. Um dia, P\u00edtias, voltando de uma viagem, prop\u00f4s ao amigo irem para Alexandria, onde as artes e as ci\u00eancias eram grandemente honradas.<\/p>\n<p>Stroibus aderiu, e embarcaram. S\u00f3 agora, depois de embarcados, \u00e9 que o inventor da nova doutrina exp\u00f4-la ao amigo, com todas as suas recentes cogita\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 feito, disse P\u00edtias, levantando a cabe\u00e7a, n\u00e3o afirmo nem nego nada. Vou estudar a doutrina, e se a achar verdadeira, proponho-me a desenvolv\u00ea-la e divulg\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Viva H\u00e9lios! exclamou Stroibus. Posso contar que \u00e9s meu disc\u00edpulo.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Experi\u00eancia Os garotos alexandrinos n\u00e3o trataram os dois s\u00e1bios com o esc\u00e1rnio dos garotos cipriotas. A terra era grave como a \u00edbis pousada numa s\u00f3 pata, pensativa como a esfinge, circunspecta como as m\u00famias, dura como as pir\u00e2mides; n\u00e3o tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e corte, que desde muito tinham not\u00edcia dos nossos dois amigos, fizeram-lhes um recebimento r\u00e9gio, mostraram conhecer os seus escritos, discutiram as suas id\u00e9ias, mandaram-lhes muitos presentes, papiros, crocodilos, zebras, p\u00farpuras. Eles, por\u00e9m, recusaram tudo, com simplicidade, dizendo que a filosofia bastava ao fil\u00f3sofo, e que o sup\u00e9rfluo era um dissolvente. T\u00e3o nobre resposta encheu de admira\u00e7\u00e3o tanto aos s\u00e1bios como aos principais e \u00e0 mesma plebe. E ali\u00e1s, diziam os mais sagazes, que outra coisa se podia esperar de dois homens t\u00e3o sublimes, que em seus magn\u00edficos tratados&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Temos coisa melhor do que esses tratados, interrompia Stroibus. Trago uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o universo; cuido nada menos que em reconstituir os homens e os Estados, distribuindo os talentos e as virtudes.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 esse o of\u00edcio dos deuses? objetava um.<\/p>\n<p>\u2014 Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem \u00e9 a sintaxe da natureza, eu descobri as leis da gram\u00e1tica divina&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Explica-te.<\/p>\n<p>\u2014 Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando minha doutrina estiver completa, divulg\u00e1-la-ei como a maior riqueza que os homens jamais poder\u00e3o receber de um homem.<\/p>\n<p>Imaginem a expecta\u00e7\u00e3o p\u00fablica e a curiosidade dos outros fil\u00f3sofos, embora incr\u00e9dulos de que a verdade recente viesse aposentar as que eles mesmos possu\u00edam.<\/p>\n<p>Entretanto, esperavam todos. Os dois h\u00f3spedes eram apontados na rua at\u00e9 pelas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Um filho meditava trocar a avareza do pai, um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um var\u00e3o, um var\u00e3o os desvarios de uma dama, porque o Egito, desde os Fara\u00f3s at\u00e9 aos L\u00e1gides, era a terra de Putifar, da mulher de Putifar, da capa de Jos\u00e9, e do resto.<\/p>\n<p>Stroibus tornou-se a esperan\u00e7a da cidade e do mundo.<\/p>\n<p>P\u00edtias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e disse-lhe: \u2014 Metafisicamente, a tua doutrina \u00e9 um desprop\u00f3sito; mas estou pronto a admitir uma experi\u00eancia, contando que seja decisiva. Para isto, meu caro Stroibus, h\u00e1 s\u00f3 um meio.<\/p>\n<p>Tu e eu, tanto pelo cultivo de raz\u00e3o como pela rigidez do car\u00e1ter, somos o que h\u00e1 mais oposto ao v\u00edcio do furto. Pois bem, se conseguires incutir-nos esse v\u00edcio, n\u00e3o ser\u00e1 preciso mais; se n\u00e3o conseguires nada (e pode cr\u00ea-lo, porque \u00e9 um absurdo) recuar\u00e1s de semelhante doutrina, e tornar\u00e1s \u00e0s nossas velhas medita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Stroibus aceitou a proposta.<\/p>\n<p>\u2014 O meu sacrif\u00edcio \u00e9 o mais penoso, disse ele, pois estou certo do resultado; mas que n\u00e3o merece a verdade? A verdade \u00e9 imortal; o homem \u00e9 um breve momento&#8230;<\/p>\n<p>Os ratos eg\u00edpcios, se pudessem saber de um tal acordo, teriam imitado os primitivos hebreus, aceitando a fuga para o deserto, antes do que a nova filosofia. E podemos crer que seria um desastre. A ci\u00eancia, como a guerra, tem necessidades imperiosas; e desde que a ignor\u00e2ncia dos ratos, a sua fraqueza, a superioridade mental e f\u00edsica dos dois fil\u00f3sofos eram outras tantas vantagens na experi\u00eancia que ia come\u00e7ar, cumpria n\u00e3o perder t\u00e3o boa ocasi\u00e3o de saber se efetivamente o princ\u00edpio das paix\u00f5es e das virtudes humanas estava distribu\u00eddo pelas v\u00e1rias esp\u00e9cies de animais, e se era poss\u00edvel transmiti-lo.<\/p>\n<p>Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os sujeitando ao ferro. Primeiro, atava uma tira de pano no focinho do paciente; em seguida, os p\u00e9s, finalmente, cingia com um cordel as pernas e o pesco\u00e7o do animal \u00e0 t\u00e1bua da opera\u00e7\u00e3o. Isto feito, dava o primeiro talho no peito, com vagar, e com vagar ia enterrando o ferro at\u00e9 tocar o cora\u00e7\u00e3o, porque era opini\u00e3o dele que a morte instant\u00e2nea corrompia o sangue e retirava-lhe o princ\u00edpio. H\u00e1bil anatomista, operava com uma firmeza digna do prop\u00f3sito cient\u00edfico. Outro, menos destro, interromperia muita vez a tarefa, porque as contor\u00e7\u00f5es de dor e de agonia tornavam dif\u00edcil o meneio do escalpelo; mas essa era justamente a superioridade de Stroibus: tinha o pulso magistral e pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Ao lado dele, P\u00edtias aparava o sangue e ajudava a obra, j\u00e1 contendo os movimentos convulsivos do paciente, j\u00e1 espiando-lhe nos olhos o progresso da agonia. As observa\u00e7\u00f5es que ambos faziam eram notadas em folhas de papiro; e assim ganhava a ci\u00eancia de duas maneiras. \u00c0s vezes, por diverg\u00eancia de aprecia\u00e7\u00e3o, eram obrigados a escalpelar maior n\u00famero de ratos do que o necess\u00e1rio; mas n\u00e3o perdiam com isso, porque o sangue dos excedentes era conservado e ingerido depois. Um s\u00f3 desses casos mostrar\u00e1 a consci\u00eancia com que eles procediam. P\u00edtias observara que a retina do rato agonizante mudava de cor at\u00e9 chegar ao azul claro, ao passo que a observa\u00e7\u00e3o de Stroibus dava a cor de canela como o tom final da morte. Estavam na \u00faltima opera\u00e7\u00e3o do dia; mas o ponto valia a pena, e, n\u00e3o obstante o cansa\u00e7o, fizeram sucessivamente dezenove experi\u00eancias sem resultado definitivo; P\u00edtias insistia pela cor azul, e Stroibus pela cor de canela. O vig\u00e9simo rato esteve prestes a p\u00f4-los de acordo, mas Stroibus advertiu, com muita sagacidade, que a sua posi\u00e7\u00e3o era agora diferente, retificou-a e escalpelaram mais vinte e cinco. Destes, o primeiro ainda os deixou em d\u00favida; mas os outros vinte e quatro provaram-lhes que a cor final n\u00e3o era canela nem azul, mas um l\u00edrio roxo, tirando a claro.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o exagerada das experimenta\u00e7\u00f5es deu rebate \u00e0 por\u00e7\u00e3o sentimental da cidade, e excitou a loq\u00fcela de alguns sofistas; mas o grave Stroibus (com brandura, para n\u00e3o agravar uma disposi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da alma humana) respondeu que a verdade valia todos os ratos do universo, e n\u00e3o s\u00f3 os ratos, como os pav\u00f5es, as cabras, os c\u00e3es, os rouxin\u00f3is, etc.; que, em rela\u00e7\u00e3o aos ratos, al\u00e9m de ganhar a ci\u00eancia, ganhava a cidade, vendo diminu\u00edda a praga de um animal t\u00e3o daninho; e, se a mesma considera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se dava com outros animais, como, por exemplo, as rolas e os c\u00e3es, que eles iam escalpelar da\u00ed a tempos, nem por isso os direitos da verdade eram menos imprescrit\u00edveis. A natureza n\u00e3o h\u00e1 de ser s\u00f3 a mesa de jantar, conclu\u00eda em forma de aforismo, mas tamb\u00e9m a mesa da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>E continuavam a extrair o sangue e a beb\u00ea-lo. N\u00e3o o bebiam puro, mas dilu\u00eddo em um cozimento de cinamomo, suco de ac\u00e1cia e b\u00e1lsamo, que lhe tirava todo o sabor primitivo. As doses eram di\u00e1rias e diminutas; tinham, portanto, de aguardar um longo prazo antes de produzido o efeito. P\u00edtias, impaciente e incr\u00e9dulo, mofava do amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? nada? \u2014 Espera, dizia o outro, espera. N\u00e3o se incute um v\u00edcio como se cose um par de sand\u00e1lias.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>Vit\u00f3ria Enfim, venceu Stroibus! A experi\u00eancia provou a doutrina. E P\u00edtias foi o primeiro que deu mostras da realidade do efeito, atribuindo-se umas tr\u00eas id\u00e9ias ouvidas ao pr\u00f3prio Stroibus; este, em compensa\u00e7\u00e3o, furtou-lhe quatro compara\u00e7\u00f5es e uma teoria dos ventos.<\/p>\n<p>Nada mais cient\u00edfico do que essas estr\u00e9ias. As id\u00e9ias alheias, por isso mesmo que n\u00e3o foram compradas na esquina, trazem um certo ar comum; e \u00e9 muito natural come\u00e7ar por elas antes de passar aos livros emprestados, \u00e0s galinhas, aos pap\u00e9is falsos, \u00e0s prov\u00edncias, etc. A pr\u00f3pria denomina\u00e7\u00e3o de pl\u00e1gio \u00e9 um ind\u00edcio de que os homens compreendem a dificuldade de confundir esse embri\u00e3o da ladroeira com a ladroeira formal.<\/p>\n<p>Duro \u00e9 diz\u00ea-lo; mas a verdade \u00e9 que eles deitaram ao Nilo a bagagem metaf\u00edsica, e dentro de pouco estavam lar\u00e1pios acabados. Concertavam-se de v\u00e9spera, e iam aos mantos, aos bronzes, \u00e0s \u00e2nforas de vinho, \u00e0s mercadorias do porto, \u00e0s boas dracmas. Como furtassem sem estr\u00e9pito, ningu\u00e9m dava por eles; mas, ainda mesmo que os suspeitassem, como faz\u00ea-lo crer aos outros? J\u00e1 ent\u00e3o Ptolomeu coligira na biblioteca muitas riquezas e raridades; e, porque conviesse orden\u00e1-las, designou para isso cinco gram\u00e1ticos e cinco fil\u00f3sofos, entre estes os nossos dois amigos. Estes \u00faltimos trabalharam com singular ardor, sendo os primeiros que entravam e os \u00faltimos que sa\u00edam, e ficando ali muitas noites, ao clar\u00e3o da l\u00e2mpada, decifrando, coligindo, classificando. Ptolomeu, entusiasmado, meditava para eles os mais altos destinos.<\/p>\n<p>Ao cabo de algum tempo, come\u00e7aram a notar-se faltas graves: \u2014 um exemplar de Homero, tr\u00eas rolos de manuscritos persas, dois de samaritanos, uma soberba cole\u00e7\u00e3o de cartas originais de Alexandre, c\u00f3pias de leis atenienses, o 2\u00ba e o 3\u00ba livros da Rep\u00fablica de Plat\u00e3o, etc., etc. A autoridade p\u00f4s-se \u00e0 espreita; mas a esperteza do rato, transferida a um organismo superior, era naturalmente maior, e os dois ilustres gatunos zombavam de espias e guardas. Chegaram ao ponto de estabelecer este preceito filos\u00f3fico de n\u00e3o sair dali com as m\u00e3os vazias; traziam sempre alguma coisa, uma f\u00e1bula, quando menos. Enfim, estando a sair um navio para Chipre, pediram licen\u00e7a a Ptolomeu, com promessa de voltar, coseram os livros dentro de couros de hipop\u00f3tamo, puseram-lhes r\u00f3tulos falsos, e trataram de fugir.<\/p>\n<p>Mas a inveja de outros fil\u00f3sofos n\u00e3o dormia; deu rebate \u00e0s suspeitas dos magistrados, e descobriu-se o roubo. Stroibus e P\u00edtias foram tidos por aventureiros, mascarados com os nomes daqueles dois var\u00f5es ilustres; Ptolomeu entregou-os \u00e0 justi\u00e7a com ordem de os passar logo ao carrasco. Foi ent\u00e3o que interveio Her\u00f3filo, inventor da anatomia.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Plus Ultra! \u2014 Senhor, disse ele a Ptolomeu, tenho-me limitado at\u00e9 agora escalpelar cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>Mas o cad\u00e1ver d\u00e1-me a estrutura, n\u00e3o me d\u00e1 a vida; d\u00e1-me os \u00f3rg\u00e3os, n\u00e3o me d\u00e1 as fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Eu preciso das fun\u00e7\u00f5es e da vida.<\/p>\n<p>\u2014 Que me dizes? redarg\u00fciu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de Stroibus? \u2014 N\u00e3o, senhor; n\u00e3o quero estripar os ratos.<\/p>\n<p>\u2014 Os c\u00e3es? os gansos? as lebres?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nada; pe\u00e7o alguns homens vivos.<\/p>\n<p>\u2014 Vivos? n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vou demonstrar que n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel, mas at\u00e9 leg\u00edtimo e necess\u00e1rio. As pris\u00f5es eg\u00edpcias est\u00e3o cheias de criminosos, e os criminosos ocupam, na escala humana, um grau muito inferior. J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o cidad\u00e3os, nem mesmo se podem dizer homens, porque a raz\u00e3o e a virtude, que s\u00e3o os dois principais caracter\u00edsticos humanos, eles os perderam, infringindo a lei e a moral. Al\u00e9m disso, uma vez que t\u00eam de expiar com a morte os seus crimes, n\u00e3o \u00e9 justo que prestem algum servi\u00e7o \u00e0 verdade e \u00e0 ci\u00eancia? A verdade \u00e9 imortal; ela vale n\u00e3o s\u00f3 todos os ratos, como todos os delinq\u00fcentes do universo.<\/p>\n<p>Ptolomeu achou o racioc\u00ednio exato, e ordenou que os criminosos fossem entregues a Her\u00f3filo e seus disc\u00edpulos. O grande anatomista agradeceu t\u00e3o insigne obs\u00e9quio, e come\u00e7ou a escalpelar os r\u00e9us. Grande foi o assombro do povo; mas, salvo alguns pedidos verbais, n\u00e3o houve nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o contra a medida. Her\u00f3filo repetia o que dissera a Ptolomeu, acrescentando que a sujei\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us \u00e0 experi\u00eancia anat\u00f4mica era at\u00e9 um modo indireto de servir \u00e0 moral, visto que o terror do escalpelo impediria a pr\u00e1tica de muitos crimes.<\/p>\n<p>Nenhum dos criminosos, ao deixar a pris\u00e3o, suspeitava o destino cient\u00edfico que o esperava. Sa\u00edam um por um; \u00e0s vezes dois a dois, ou tr\u00eas a tr\u00eas. Muitos deles, estendidos e atados \u00e0 mesa da opera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o chegavam a desconfiar nada; imaginavam que era um novo g\u00eanero de execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria. S\u00f3 quando os anatomistas definiam o objeto do estudo do dia, al\u00e7avam os ferros e davam os primeiros talhos, \u00e9 que os desgra\u00e7ados adquiriam a consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o. Os que se lembravam de ter visto as experi\u00eancias dos ratos, padeciam em dobro, porque a imagina\u00e7\u00e3o juntava \u00e0 dor presente o espet\u00e1culo passado.<\/p>\n<p>Para conciliar os interesses da ci\u00eancia com os impulsos da piedade, os r\u00e9us n\u00e3o eram escalpelados \u00e0 vista uns dos outros, mas sucessivamente. Quando vinham aos dois ou aos tr\u00eas, n\u00e3o ficavam em lugar donde os que esperavam pudessem ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem muitas vezes abafados por meio de aparelhos; mas se eram abafados, n\u00e3o eram suprimidos, e em certos casos, o pr\u00f3prio objeto da experi\u00eancia exigia que a emiss\u00e3o da voz fosse franca. \u00c0s vezes as opera\u00e7\u00f5es eram simult\u00e2neas; mas ent\u00e3o faziam-se em lugares distanciados.<\/p>\n<p>Tinham sido escalpelados cerca de cinq\u00fcenta r\u00e9us, quando chegou a vez de Stroibus e P\u00edtias. Vieram busc\u00e1-los; eles supuseram que era para a morte judici\u00e1ria, e encomendaram-se aos deuses. De caminho, furtaram uns figos, e explicaram o caso alegando que era um impulso da fome; adiante, por\u00e9m, subtra\u00edram uma flauta, e essa outra a\u00e7\u00e3o n\u00e3o a puderam explicar satisfatoriamente. Todavia, a ast\u00facia do lar\u00e1pio \u00e9 infinita, e Stroibus, para justificar a a\u00e7\u00e3o, tentou extrair algumas notas do instrumento, enchendo de compaix\u00e3o as pessoas que os viam passar, e n\u00e3o ignoravam a sorte que iam ter. A not\u00edcia desses dois novos delitos foi narrada por Her\u00f3filo, e abalou a todos os seus disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, disse o mestre, \u00e9 um caso extraordin\u00e1rio, um caso lind\u00edssimo. Antes do principal, examinemos aqui o outro ponto&#8230;<\/p>\n<p>O ponto era saber se o nervo do latroc\u00ednio residia na palma da m\u00e3o ou na extremidade dos dedos; problema esse sugerido por um dos disc\u00edpulos. Stroibus foi o primeiro sujeito \u00e0 opera\u00e7\u00e3o. Compreendeu tudo, desde que entrou na sala; e, como a natureza humana tem uma parte \u00ednfima, pediu-lhes humildemente que poupassem a vida a um fil\u00f3sofo. Mas Her\u00f3filo, com um grande poder de dial\u00e9tica, disse-lhe mais ou menos isto: \u2014 Ou \u00e9s um aventureiro ou o verdadeiro Stroibus; no primeiro caso, tens aqui o \u00fanico meio para resgatar o crime de iludir a um pr\u00edncipe esclarecido, presta-te ao escalpelo; no segundo caso, n\u00e3o deves ignorar que a obriga\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo \u00e9 servir \u00e0 filosofia, e que o corpo \u00e9 nada em compara\u00e7\u00e3o com o entendimento.<\/p>\n<p>Dito isto, come\u00e7aram pela experi\u00eancia das m\u00e3os, que produziu \u00f3timos resultados, coligidos em livros, que se perderam com a queda dos Ptolomeus. Tamb\u00e9m as m\u00e3os de P\u00edtias foram rasgadas e minuciosamente examinadas. Os infelizes berravam, choravam, suplicavam; mas Her\u00f3filo dizia-lhes pacificamente que a obriga\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo era servir \u00e0 filosofia, e que para os fins da ci\u00eancia, eles valiam ainda mais que os ratos, pois era melhor concluir do homem para o homem, e n\u00e3o do rato para o homem. E continuou a rasg\u00e1-los fibra por fibra, durante oito dias. No terceiro dia arrancaram-lhes os olhos, para desmentir praticamente uma teoria sobre a conforma\u00e7\u00e3o interior do \u00f3rg\u00e3o. N\u00e3o falo da extra\u00e7\u00e3o do est\u00f4mago de ambos, por se tratar de problemas relativamente secund\u00e1rios, e em todo caso estudados e resolvidos em cinco ou seis indiv\u00edduos escalpelados antes deles.<\/p>\n<p>Diziam os alexandrinos que os ratos celebraram esse caso aflitivo e doloroso com dan\u00e7as e festas, a que convidaram alguns c\u00e3es, rolas, pav\u00f5es e outros animais amea\u00e7ados de igual destino, e outrossim, que nenhum dos convidados aceitou o convite, por sugest\u00e3o de um cachorro, que lhes disse melancolicamente: \u2014 &#8220;S\u00e9culo vir\u00e1 em que a mesma coisa nos aconte\u00e7a&#8221;. Ao que retorquiu um rato: &#8220;Mas at\u00e9 l\u00e1, riamos!&#8221;<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo I No mar \u2014 O qu\u00ea, meu caro Stroibus! N\u00e3o, imposs\u00edvel. Nunca jamais ningu\u00e9m acreditar\u00e1 que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do homem um ratoneiro. \u2014 Em primeiro lugar, P\u00edtias, tu omites uma condi\u00e7\u00e3o: \u2014 \u00e9 que o rato deve expirar debaixo do escalpelo, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-115578","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Conto Alexandrino, Machado de Assis Conto Alexandrino<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Conto Alexandrino, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema Conto Alexandrino\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, 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