{"id":115576,"date":"2017-03-24T18:12:17","date_gmt":"2017-03-24T20:12:17","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=115576"},"modified":"2017-03-24T18:12:17","modified_gmt":"2017-03-24T20:12:17","slug":"como-se-inventaram-os-almanaques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/como-se-inventaram-os-almanaques","title":{"rendered":"Como se inventaram os almanaques"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de assis<\/h2>\n<p>Some-te, bibli\u00f3grafo! N\u00e3o tenho nada contigo. Nem contigo, curioso de hist\u00f3rias poentas.<\/p>\n<p>Sumam-se todos; o que vou contar interessa a outras pessoas menos especiais e muito menos aborrecidas. Vou dizer como se inventaram os almanaques.<\/p>\n<p>Sabem que o Tempo \u00e9, desde que nasceu, um velho de barbas brancas. Os poetas n\u00e3o lhe d\u00e3o outro nome: o velho Tempo. Ningu\u00e9m o pintou de outra maneira. E como h\u00e1 quem tome liberdades com os velhos, uns batem-lhe na barriga (s\u00e3o os patuscos), outros chegam a desafi\u00e1-lo; outros lutam com ele, mas o diabo vence-os a todos; \u00e9 de regra.<\/p>\n<p>Entretanto, uma coisa \u00e9 barba, outra \u00e9 cora\u00e7\u00e3o. As barbas podem ser velhas e os cora\u00e7\u00f5es novos; e vice-versa: h\u00e1 cora\u00e7\u00f5es velhos com barbas recentes. N\u00e3o \u00e9 regra, mas d\u00e1-se. Deu-se com o Tempo. Um dia o Tempo viu uma menina de quinze anos, bela como a tarde, risonha como a manh\u00e3, sossegada como a noite, um composto de gra\u00e7as raras e finas, e sentiu que alguma coisa lhe batia do lado esquerdo. Olhou para ela e as pancadas cresceram. Os olhos da menina, verdadeiros fogos, faziam arder os dele s\u00f3 com fit\u00e1-los.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto? murmurou o velho.<\/p>\n<p>E os bei\u00e7os do Tempo entraram a tremer e o sangue andava mais depressa, como cavalo chicoteado, e todo ele era outro. Sentiu que era amor; mas olhou para o oceano, vasto espelho, e achou-se velho. Amaria aquela menina a um var\u00e3o t\u00e3o idoso? Deixou o mar, deixou a bela, e foi pensar na batalha de Salamina.<\/p>\n<p>As batalhas velhas eram para ele como para nos os velhos sapatos. Que lhe importava Salamina? Repetiu-a de mem\u00f3ria, e por desgra\u00e7a dele, viu a mesma donzela entre os combatentes, ao lado de Tem\u00edstocles. Dias depois trepou a um p\u00edncaro, o Chimborazo; desceu ao deserto de Sinai; morou no sol, morou na lua; em toda parte lhe aparecia a figura de bela menina de quinze anos. Afinal ousou ir ter com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Como te chamas, linda criatura? \u2014 Esperan\u00e7a \u00e9 o meu nome. \u2014 Queres amar-me? \u2014 Tu est\u00e1s carregado de anos, respondeu ela; eu estou na flor deles. O casamento \u00e9 imposs\u00edvel. Como te chamas? \u2014 N\u00e3o te importe o meu nome; basta saber que te posso dar todas as p\u00e9rolas de Golconda&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Adeus! \u2014 Os diamantes de Ofir&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Adeus! \u2014 As rosas de Saar\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Adeus! Adeus! \u2014 As vinhas de Engaddi&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Adeus! adeus! adeus! Tudo isso h\u00e1 de ser meu um dia; um dia breve ou longe, um dia&#8230;<\/p>\n<p>Esperan\u00e7a fugiu. O Tempo ficou a olhar, calado, at\u00e9 que a perdeu de todo. Abriu a boca para amaldi\u00e7o\u00e1-la, mas as palavras que lhe sa\u00edam eram todas de b\u00ean\u00e7\u00e3o; quis cuspir no lugar em que a donzela pousara os p\u00e9s, mas n\u00e3o p\u00f4de impedir-se de beij\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Foi por essa ocasi\u00e3o que lhe acudiu a id\u00e9ia do almanaque. N\u00e3o se usavam almanaques.<\/p>\n<p>Vivia-se sem eles; negociava-se, adoecia-se, morria-se, sem se consultar tais livros.<\/p>\n<p>Conhecia-se a marcha do sol e da lua; contavam-se os meses e os anos; era, ao cabo, a mesma coisa; mas n\u00e3o ficava escrito, n\u00e3o se numeravam anos e semanas, n\u00e3o se nomeavam dias nem meses, nada; tudo ia correndo, como passarada que n\u00e3o deixa vest\u00edgios no ar.<\/p>\n<p>\u2014 Se eu achar um modo de trazer presente aos olhos os dias e os meses, e o reproduzir todos os anos, para que ela veja palpavelmente ir-se-lhe a mocidade&#8230;<\/p>\n<p>Racioc\u00ednio de velho, mas tudo se perdoa ao amor, ainda quando ele brota de ru\u00ednas. O Tempo inventou o almanaque; comp\u00f4s um simples livro, seco, sem margens, sem nada; t\u00e3o-somente os dias, as semanas, os meses e os anos. Um dia, ao amanhecer, toda a terra viu cair do c\u00e9u uma chuva de folhetos; creram a princ\u00edpio que era geada de nova esp\u00e9cie, depois, vendo que n\u00e3o, correram todos assustados; afinal, um mais animoso pegou de um dos folhetos, outros fizeram a mesma coisa, leram e entenderam. O almanaque trazia a l\u00edngua das cidades e dos campos em que ca\u00eda. Assim toda a terra possuiu, na mesmo instante, os primeiros almanaques. Se muitos povos os n\u00e3o t\u00eam ainda hoje, se outros morreram sem os ler, \u00e9 porque vieram depois dos acontecimentos que estou narrando. Naquela ocasi\u00e3o o dil\u00favio foi universal.<\/p>\n<p>\u2014 Agora, sim, disse Esperan\u00e7a pegando no folheto que achou na horta; agora j\u00e1 me n\u00e3o engano nos dias das amigas. Irei jantar ou passar a noite com elas, marcando aqui nas folhas, com sinais de cor os dias escolhidos.<\/p>\n<p>Todas tinham almanaques. Nem s\u00f3 elas, mas tamb\u00e9m as matronas, e os velhos e os rapazes, ju\u00edzes, sacerdotes, comerciantes, governadores, f\u00e2mulos; era moda trazer o almanaque na algibeira. Um poeta comp\u00f4s um poema atribuindo a inven\u00e7\u00e3o da obra \u00e0s Esta\u00e7\u00f5es, por ordem de seus pais, o Sol e a Lua; um astr\u00f4nomo, ao contr\u00e1rio, provou que os almanaques eram destro\u00e7os de um astro onde desde a origem dos s\u00e9culos estavam escritas as l\u00ednguas faladas na terra e provavelmente nos outros planetas. A explica\u00e7\u00e3o dos te\u00f3logos foi outra. Um grande f\u00edsico entendeu que os almanaques eram obra da pr\u00f3pria terra, cujas palavras, acumuladas no ar, formaram-se em ordem, imprimiram-se no pr\u00f3prio ar, convertido em folhas de papel, gra\u00e7as&#8230; N\u00e3o continuou; tantas e tais eram as senten\u00e7as, que a de Esperan\u00e7a foi a mais aceita do povo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu creio que o almanaque \u00e9 o almanaque, dizia ela rindo.<\/p>\n<p>Quando chegou o fim do ano, toda a gente, que trazia o almanaque com mil cuidados, para consult\u00e1-lo no ano seguinte, ficou espantada de ver cair \u00e0 noite outra chuva de almanaques. Toda a terra amanheceu alastrada deles; eram os do ano novo. Guardaram naturalmente os velhos. Ano findo, outro almanaque; assim foram eles vindo, at\u00e9 que Esperan\u00e7a contou vinte e cinco anos, ou, como ent\u00e3o se dizia, vinte e cinco almanaques.<\/p>\n<p>Nunca os dias pareceram correr t\u00e3o depressa. Voavam as semanas, com elas os meses, e, mal o ano come\u00e7ava, estava logo findo. Esse efeito entristeceu a terra. A pr\u00f3pria Esperan\u00e7a, vendo que os dias passavam t\u00e3o velozes, e n\u00e3o achando marido, pareceu desanimada; mas foi s\u00f3 um instante. Nesse mesmo instante apareceu-lhe o Tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui estou, n\u00e3o deixes que te chegue a velhice&#8230; Ama-me&#8230;<\/p>\n<p>Esperan\u00e7a respondeu-lhe com duas gaifonas, e deixou-se estar solteira. H\u00e1 de vir o noivo, pensou ela.<\/p>\n<p>Olhando-se ao espelho, viu que mui pouco mudara. Os vinte e cinco almanaques quase lhe n\u00e3o apagaram a frescura dos quinze. Era a mesma linda e jovem Esperan\u00e7a. O velho Tempo, cada vez mais afogueado em paix\u00e3o, ia deixando cair os almanaques, ano por ano, at\u00e9 que ela chegou aos trinta e da\u00ed aos trinta e cinco.<\/p>\n<p>Eram j\u00e1 vinte almanaques; toda a gente come\u00e7ava a odi\u00e1-los, menos Esperan\u00e7a, que era a mesma menina das quinze primaveras. Trinta almanaques, quarenta, cinq\u00fcenta, sessenta, cem almanaques; velhices r\u00e1pidas, mortes sobre mortes, recorda\u00e7\u00f5es amargas e duras. A pr\u00f3pria Esperan\u00e7a, indo ao espelho, descobriu um fio de cabelo branco e uma ruga.<\/p>\n<p>\u2014 Uma ruga! Uma s\u00f3! Outras vieram, \u00e0 medida dos almanaques. Afinal a cabe\u00e7a de Esperan\u00e7a ficou sendo um pico de neve, a cara um mapa de linhas. S\u00f3 o cora\u00e7\u00e3o era verde como acontecia ao Tempo; verdes ambos, eternamente verdes. Os almanaques iam sempre caindo. Um dia, o Tempo desceu a ver a bela Esperan\u00e7a; achou-a anci\u00e3, mas forte, com um perp\u00e9tuo riso nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda assim te amo, e te pe\u00e7o&#8230; disse ele.<\/p>\n<p>Esperan\u00e7a abanou a cabe\u00e7a; mas, logo depois, estendeu-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 l\u00e1, disse ela; ambos velhos, n\u00e3o ser\u00e1 longo o cons\u00f3rcio.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser indefinido.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim? O velho Tempo pegou da noiva e foi com ela para um espa\u00e7o azul e sem termos, onde a alma de um deu \u00e0 alma de outro o beijo da eternidade. Toda a cria\u00e7\u00e3o estremeceu deliciosamente. A verdura dos cora\u00e7\u00f5es ficou ainda mais verde.<\/p>\n<p>Esperan\u00e7a, da\u00ed em diante, colaborou nos almanaques. Cada ano, em cada almanaque, atava Esperan\u00e7a uma fita verde. Ent\u00e3o a tristeza dos almanaques era assim alegrada por ela; e nunca o Tempo dobrou uma semana que a esposa n\u00e3o pusesse um mist\u00e9rio na semana seguinte. Deste modo todas elas foram passando, vazias ou cheias, mas sempre acenando com alguma coisa que enchia a alma dos homens de paci\u00eancia e de vida.<\/p>\n<p>Assim as semanas, assim os meses, assim os anos. E choviam almanaques, muitos deles entremeados e adornados de figuras, de versos, de contos, de anedotas, de mil coisas recreativas. E choviam. E chovem. E h\u00e3o de chover almanaques. O Tempo os imprime, Esperan\u00e7a os brocha; \u00e9 toda a oficina da vida.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de assis Some-te, bibli\u00f3grafo! N\u00e3o tenho nada contigo. Nem contigo, curioso de hist\u00f3rias poentas. 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