{"id":114728,"date":"2017-03-21T19:04:42","date_gmt":"2017-03-21T21:04:42","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=114728"},"modified":"2017-03-21T19:04:42","modified_gmt":"2017-03-21T21:04:42","slug":"casada-e-viuva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casada-e-viuva","title":{"rendered":"Casada e vi\u00fava"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de assis<\/h2>\n<p>CASADA E VI\u00daVA [JF. nov. 1864] CAP\u00cdTULO PRIMEIRO NO DIA em que Jos\u00e9 de Meneses recebeu por mulher Eul\u00e1lia Martins, diante do altar-mor da matriz do Sacramento, na presen\u00e7a das respectivas fam\u00edlias, aumentou-se com mais um a lista dos casais felizes.<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel amar-se mais do que se amavam aqueles dous. Nem me atrevo a descrev\u00ea-lo. Imagine-se a fus\u00e3o de quatro paix\u00f5es amorosas das que a f\u00e1bula e a hist\u00f3ria nos d\u00e3o conta e ter-se-\u00e1 a medida do amor de Jos\u00e9 de Meneses por Eul\u00e1lia e de Eul\u00e1lia por Jos\u00e9 de Meneses.<\/p>\n<p>As mulheres tinham inveja \u00e0 mulher feliz, e os homens riam dos sentimentos, um tanto piegas, do apaixonado marido. Mas os dous fil\u00f3sofos do amor relevaram \u00e0 humanidade as suas fraquezas e resolveram protestar contra elas amando-se ainda mais.<\/p>\n<p>Mal contava um m\u00eas de casado, sentiu Jos\u00e9 de Meneses, em seu ego\u00edsmo de noivo feliz, que devia fugir \u00e0 companhia e ao rumor da cidade. Foi procurar uma ch\u00e1cara na Tijuca, e l\u00e1 se encafuou com Eul\u00e1lia.<\/p>\n<p>Ali viam correr os dias no mais perfeito descuido, respirando as auras puras da montanha, sem inveja dos maiores potentados da terra.<\/p>\n<p>Um ou outro escolhido conseguiu \u00e0s vezes penetrar no santu\u00e1rio em que os dous viviam, e de cada vez que de l\u00e1 sa\u00eda vinha com a convic\u00e7\u00e3o mais profunda de que a felicidade n\u00e3o podia estar em outra parte sen\u00e3o no amor.<\/p>\n<p>Acontecia, pois, que, se as mulheres invejavam Eul\u00e1lia e se os homens riam de Jos\u00e9 de Meneses, as m\u00e3es, as m\u00e3es previdentes, a esp\u00e9cie santa, no dizer de E. Augier, nem riam nem se deixavam dominar pelo sexto pecado mortal: pediam simplesmente a Deus que lhes deparasse \u00e0s filhas um marido da estofa e da capacidade de Jos\u00e9 de Meneses.<\/p>\n<p>Mas cumpre dizer, para inspirar amor a maridos tais como Jos\u00e9 de Meneses, era preciso mulheres tais como Eul\u00e1lia Martins. Eul\u00e1lia em alma e corpo era o que h\u00e1 de mais puro unido ao que h\u00e1 de mais belo. Tanto era um milagre de beleza carnal, como era um prod\u00edgio de do\u00e7ura, de eleva\u00e7\u00e3o e de sinceridade de sentimentos. E, sejamos francos, tanta cousa junta n\u00e3o se encontra a cada passo.<\/p>\n<p>Nenhuma nuvem sombreava o c\u00e9u azul da exist\u00eancia do casal Meneses. Minto, de vez em quando, uma vez por semana apenas, e isto s\u00f3 depois de cinco meses de casados, Eul\u00e1lia derramava algumas l\u00e1grimas de impaci\u00eancia por se demorar mais do que costumava o amante Jos\u00e9 de Meneses. Mas n\u00e3o passava isso de uma chuva de primavera, que, mal assomava o sol \u00e0 porta, cessava para deixar aparecer as flores do sorriso e a verdura do amor. A explica\u00e7\u00e3o do marido j\u00e1 vinha sobreposse; mas ele n\u00e3o deixava de d\u00e1-la apesar dos protestos de Eul\u00e1lia; era sempre excesso de trabalho que pedia a presen\u00e7a dele na cidade at\u00e9 uma parte da noite.<\/p>\n<p>Ano e meio viveram assim os dous, ignorados do resto do mundo, \u00e9brios da felicidade e da solid\u00e3o.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia tinha aumentado com uma filha no fim de dez meses. Todos que s\u00e3o pais sabem o que \u00e9 esta felicidade suprema. Aqueles quase enlouqueceram. A crian\u00e7a era um mimo de gra\u00e7a ang\u00e9lica. Meneses via nela o riso de Eul\u00e1lia, Eul\u00e1lia achava que os olhos eram os de Meneses. E neste combate de galanteios passavam as horas e os dias.<\/p>\n<p>Ora, uma noite, como o luar estivesse claro e a noite fresqu\u00edssima, os dous, marido e mulher, deixaram a casa, onde a pequena ficara adormecida, e foram conversar junto ao port\u00e3o, sentados em cadeiras de ferro e debaixo de uma vi\u00e7osa latada, sub tegmine fagi.<\/p>\n<p>Meia hora havia que ali estavam, lembrando o passado, saboreando o presente e construindo o futuro, quando parou um carro na estrada.<\/p>\n<p>Voltaram os olhos e viram descer duas pessoas, um homem e uma mulher.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ser aqui, disse o homem olhando para a ch\u00e1cara de Meneses .<\/p>\n<p>Neste momento o luar deu em cheio no rosto da mulher. Eul\u00e1lia exclamou: \u2014 \u00c9 Cristiana! E correu para a rec\u00e9m-chegada.<\/p>\n<p>Os dous novos personagens eram o Capit\u00e3o Nogueira e Cristina Nogueira, mulher do capit\u00e3o.<\/p>\n<p>O encontro foi o mais cordial do mundo. Nogueira era j\u00e1 amigo de Jos\u00e9 de Meneses, cujo pai fora colega dele na escola militar, andando ambos a estudar engenharia. Isto quer dizer que Nogueira era j\u00e1 homem dos seus quarenta e seis anos.<\/p>\n<p>Cristiana era uma mo\u00e7a de vinte e cinco anos, robusta, corada uma dessas belezas da terra, muito apreci\u00e1veis, mesmo para quem goza uma das belezas do c\u00e9u, como acontecia a Jos\u00e9 de Meneses.<\/p>\n<p>Vinham de Minas, onde se haviam casado.<\/p>\n<p>Nogueira, cinco meses antes, sa\u00edra para aquela prov\u00edncia a servi\u00e7o do Estado e ali encontrou Cristiana, por quem se apaixonou e a quem soube inspirar uma estima respeitosa. Se eu dissesse amor, mentia, e eu tenho por timbre contar as cousas como as cousas s\u00e3o. Cristiana, \u00f3rf\u00e3 de pai e m\u00e3e, vivia na companhia de um tio, homem velho e impertinente, achacado de duas mol\u00e9stias grav\u00edssimas: um reumatismo cr\u00f4nico e uma saudade do reg\u00edmen colonial. Devo explicar esta \u00faltima enfermidade; ele n\u00e3o sentia que o Brasil se tivesse feito independente; sentia que, fazendo-se independente, n\u00e3o tivesse conservado a forma de governo absoluto. Gorou o ovo, dizia ele, logo depois de adotada a constitui\u00e7\u00e3o. E protestando interiormente contra o que se fizera, retirou-se para Minas Gerais, donde nunca mais saiu. A esta ligeira not\u00edcia do tio de Cristiana acrescentarei que era rico como um Potosi e avarento como Harpag\u00e3o.<\/p>\n<p>Entrando na fazenda do tio de Cristiana e sentindo-se influ\u00eddo pela beleza desta, Nogueira aproveitou-se da doen\u00e7a pol\u00edtica do fazendeiro para lisonje\u00e1-la com umas fomenta\u00e7\u00f5es de louvor do passado e indigna\u00e7\u00e3o pelo presente. Em um servidor do Estado atual das cousas, achou o fazendeiro que era aquilo uma prova de rara independ\u00eancia, e o estratagema do capit\u00e3o surtiu duas vantagens: o fazendeiro deu-lhe a sobrinha e mais um bom par de contos de r\u00e9is. Nogueira, que s\u00f3 visava a primeira, achou-se felic\u00edssimo por ter alcan\u00e7ado ambas. Ora, \u00e9 certo que, sem as opini\u00f5es forjadas no momento pelo capit\u00e3o, o velho fazendeiro n\u00e3o tiraria \u00e0 sua fortuna um ceitil que fosse.<\/p>\n<p>Quanto a Cristiana, se n\u00e3o sentia pelo capit\u00e3o um amor igual ou mesmo inferior ao que lhe inspirava, votava-lhe uma estima respeitosa. E o h\u00e1bito, desde Arist\u00f3teles todos reconhecem isto, e o h\u00e1bito, aumentando a estima de Cristiana, dava \u00e0 vida dom\u00e9stica do Capit\u00e3o Nogueira uma paz, uma tranq\u00fcilidade, um gozo brando, digno de tanta inveja como era o amor sempre violento do casal Meneses.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 corte, Cristiana esperava uma vida mais pr\u00f3pria aos seus anos de mo\u00e7a do que a passada na fazenda mineira na companhia fastidiosa do reum\u00e1tico legitimista.<\/p>\n<p>Pouco que pudessem alcan\u00e7ar as suas ilus\u00f5es, era j\u00e1 muito em compara\u00e7\u00e3o com o passado.<\/p>\n<p>Dadas todas estas explica\u00e7\u00f5es, continuo a minha hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO II DEIXO AO ESP\u00cdRITO do leitor ajuizar como seria o encontro de amigos que se n\u00e3o v\u00eaem h\u00e1 muito.<\/p>\n<p>Cristiana e Eul\u00e1lia tinham muito que contar uma \u00e0 outra, e, em sala \u00e0 parte, ao p\u00e9 do ber\u00e7o em que dormia a filha de Jos\u00e9 de Meneses, deram largas \u00e0 mem\u00f3ria, ao esp\u00edrito e ao cora\u00e7\u00e3o. Quanto a Nogueira e Jos\u00e9 de Meneses, depois de narrada a hist\u00f3ria do respectivo casamento e suas esperan\u00e7as de esposos, entraram, um na exposi\u00e7\u00e3o das suas impress\u00f5es de viagem, o outro na das impress\u00f5es que deveria ter em uma viagem que projetava.<\/p>\n<p>Passaram-se deste modo as horas at\u00e9 que o ch\u00e1 reuniu a todos quatro \u00e0 roda da mesa de fam\u00edlia. Esquecia-me dizer que Nogueira e Cristiana declararam desde o princ\u00edpio que, tendo chegado pouco havia, tencionavam demorar-se uns dias em casa de Meneses at\u00e9 que pudessem arranjar na cidade ou nos arrabaldes uma casa conveniente.<\/p>\n<p>Meneses e Eul\u00e1lia ouviram isto, pode-se dizer que de cora\u00e7\u00e3o alegre. Foi decretada a instala\u00e7\u00e3o dos dous viajantes. Tarde se levantaram da mesa, onde o prazer de se verem juntos os prendia insensivelmente. Guardaram o muito que ainda havia a dizer para os outros dias e recolheram-se.<\/p>\n<p>\u2014 Conhecia Jos\u00e9 de Meneses? perguntou Nogueira a Cristiana ao retirar-se para os seus aposentos.<\/p>\n<p>\u2014 Conhecia de casa de meu pai. Ele ia l\u00e1 h\u00e1 oito anos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma bela alma! \u2014 E Eul\u00e1lia! \u2014 Ambos! ambos! \u00c9 um casal feliz! \u2014 Como n\u00f3s, acrescentou Cristiana abra\u00e7ando o marido.<\/p>\n<p>\u2014 No dia seguinte, foram os dous maridos para a cidade, e ficaram as duas mulheres entregues aos seus cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 De volta, disse Nogueira ter encontrado casa; mas era preciso arranj\u00e1-la, e foi marcado para os arranjos o prazo de oito dias.<\/p>\n<p>\u2014 Os seis primeiros dias deste prazo correram na maior alegria, na mais perfeita intimidade. Chegou-se a aventar a id\u00e9ia de ficarem os quatro habitando juntos. Foi Meneses o autor da id\u00e9ia. Mas Nogueira alegou ter necessidade de casa pr\u00f3pria e especial, visto como esperava alguns parentes do Norte.<\/p>\n<p>\u2014 Enfim, no s\u00e9timo dia, isto \u00e9, na v\u00e9spera de se separarem os dous casais, estava Cristiana passeando no jardim, \u00e0 tardinha, em companhia de Jos\u00e9 de Meneses, que lhe dava o bra\u00e7o. Depois de trocarem muitas palavras sobre cousas totalmente indiferentes \u00e0 nossa hist\u00f3ria Jos\u00e9 de Meneses fixou o olhar na sua interlocutora e aventurou estas palavras: \u2014 N\u00e3o tem saudade do passado, Cristiana? A mo\u00e7a estremeceu, abaixou os olhos e n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 de Meneses insistiu. A resposta de Cristiana foi: \u2014 N\u00e3o sei, deixe-me! E forcejou por tirar o bra\u00e7o do de Jos\u00e9 de Meneses; mas este reteve-a.<\/p>\n<p>\u2014 Que susto pueril! Onde quer ir? Meto-lhe medo? Nisto parou ao port\u00e3o um moleque com duas cartas para Jos\u00e9 de Meneses. Os dous passavam neste momento em frente do port\u00e3o. O moleque fez entrega das cartas e retirou-se sem exigir resposta.<\/p>\n<p>Meneses fez os seguintes racioc\u00ednios: \u2014 L\u00ea-las imediatamente era dar lugar a que Cristiana se evadisse para o interior da casa; n\u00e3o sendo as cartas de grande urg\u00eancia, visto que o portador n\u00e3o exigira resposta, n\u00e3o havia grande necessidade de l\u00ea-las imediatamente. Portanto guardou as cartas cuidadosamente para l\u00ea-las depois.<\/p>\n<p>E de tudo isto conclui o leitor que Meneses tinha mais necessidade de falar a Cristiana do que curiosidade de ler as cartas.<\/p>\n<p>Acrescentarei, para n\u00e3o dar azo aos esmerilhadores de inverossimilhan\u00e7as, que Meneses conhecia muito bem o portador e sabia ou presumia saber de que tratavam as cartas em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Guardadas as cartas, e sem tirar o bra\u00e7o a Cristiana, Meneses continuou o passeio e a conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cristiana estava confusa e tr\u00eamula. Durante alguns passos n\u00e3o trocaram uma palavra.<\/p>\n<p>Finalmente, Mcneses rompeu o sil\u00eancio perguntando a Cristiana: &#8211; Ent\u00e3o, que me responde? \u2014 Nada, murmurou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Nada! exclamou Meneses. Nada! era ent\u00e3o esse o amor que me tinha? \u2014 Cristiana levantou os olhos espantados para Meneses. Depois, procurando de novo tirar o bra\u00e7o do de Meneses, murmurou: \u2014 Perd\u00e3o, devo recolher-me.<\/p>\n<p>\u2014 Meneses reteve-a de novo.<\/p>\n<p>\u2014 Ou\u00e7a-me primeiro, disse. N\u00e3o lhe quero fazer mal algum. Se me n\u00e3o ama, pode diz\u00ealo, n\u00e3o me zangarei; receberei essa confiss\u00e3o como o castigo do passo que dei, casando minha alma que se n\u00e3o achava solteira.<\/p>\n<p>\u2014 Que estranha linguagem \u00e9 essa? disse a mo\u00e7a. A que vem essa recoda\u00e7\u00e3o de uma curta fase da nossa vida, de um puro brinco da adolesc\u00eancia? \u2014 Fala de cora\u00e7\u00e3o? \u2014 Pois, como seria? \u2014 Ah! n\u00e3o me fa\u00e7a crer que um perj\u00fario. . .<\/p>\n<p>\u2014 Perj\u00fario!&#8230;<\/p>\n<p>A mo\u00e7a sorriu-se com desd\u00e9m. Depois continuou: \u2014Perj\u00fario \u00e9 isto que faz. Perj\u00fario \u00e9 trazer enganada a mais casta e a mais digna das mulheres, a mais digna, ouve? Mais digna do que eu que ainda o ou\u00e7o e lhe respondo.<\/p>\n<p>E dizendo isto Cristiana tentou fugir.<\/p>\n<p>\u2014 Onde vai? perguntou Meneses. N\u00e3o v\u00ea que est\u00e1 agitada? Poderia fazer nascer suspeitas. Demais, pouco tenho a dizer-lhe. \u00c9 uma despedida. Nada mais, em nenhuma ocasi\u00e3o, ouvir\u00e1 de minha boca. Supunha que atrav\u00e9s dos tempos e das adversidades tivesse conservado pura e inteira a lembran\u00e7a de um passado que nos fez felizes. Vejo que me enganei. Nenhum dos caracteres superiores que eu enxergava em seu cora\u00e7\u00e3o tinha exist\u00eancia real. Eram simples cria\u00e7\u00f5es do meu esp\u00edrito demasiado cr\u00e9dulo. Hoje que se desfaz o encanto, e que eu posso ver toda a enormidade da fraqueza humana, deixeme dizer-lhe, perdeu um cora\u00e7\u00e3o e uma exist\u00eancia que n\u00e3o merecia. Saio-me com honra de um combate em que n\u00e3o havia igualdade de for\u00e7as. Saio puro. E se no meio do desgosto em que me fica a alma, \u00e9-me l\u00edcito traz\u00ea-la \u00e0 lembran\u00e7a, ser\u00e1 como um sonho esvaecido, sem objeto real na terra.<\/p>\n<p>Estas palavras foram ditas em um tom sentimental e como que estudado para a ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Cristiana estava aturdida. Lembrava-se que em vida de seu pai, tinha ela quinze anos, houvera entre ela e Jos\u00e9 de Meneses um desses namoros de crian\u00e7a, sem conseq\u00fc\u00eancia, em que o cora\u00e7\u00e3o empenha-se menos que a fantasia.<\/p>\n<p>Com que direito vinha hoje Meneses reivindicar um passado cuja lembran\u00e7a, se alguma havia, era indiferente e sem alcance? Estas reflex\u00f5es pesaram no esp\u00edrito de Cristiana. A mo\u00e7a exp\u00f4-las em algumas palavras cortadas pela agita\u00e7\u00e3o em que se achava, e pelas interrup\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas de Meneses.<\/p>\n<p>Depois, como aparecesse Eul\u00e1lia \u00e0 porta da casa, a conversa foi interrompida.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de Eul\u00e1lia foi um al\u00edvio para o esp\u00edrito de Cristiana. Mal a viu, correu para ela, e convidou-a a passear pelo jardim, antes que anoitecesse.<\/p>\n<p>Se Eul\u00e1lia pudesse nunca suspeitar da fidelidade de seu marido veria na agita\u00e7\u00e3o de Cristiana um motivo para indaga\u00e7\u00f5es e atribula\u00e7\u00f5es. Mas a alma da mo\u00e7a era l\u00edmpida e confiante, dessa confian\u00e7a e limpidez que s\u00f3 d\u00e1 o verdadeiro amor.<\/p>\n<p>Deram as duas o bra\u00e7o, e dirigiram-se para uma alameda de casuarinas, situada na parte oposta \u00e0quela em que ficara passeando Jos\u00e9 de Meneses.<\/p>\n<p>Este, perfeitamente senhor de si, continuou a passear como que entregue a suas reflex\u00f5es. Seus passos, em apar\u00eancia vagos e distra\u00eddos, procuravam a dire\u00e7\u00e3o da alameda em que andavam as duas.<\/p>\n<p>Depois de pousos minutos encontraram-se como que por acaso.<\/p>\n<p>Meneses, que ia de cabe\u00e7a baixa, simulou um ligeiro espanto e parou.<\/p>\n<p>As duas pararam igualmente.<\/p>\n<p>Cristiana tinha a cara voltada para o lado. Eul\u00e1lia, com um divino sorriso, perguntou: \u2014 Em que pensas, meu amor? \u2014 Em nada.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, retorquiu Eul\u00e1lia.<\/p>\n<p>\u2014 Penso em tudo.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 tudo? \u2014 Tudo? \u00c9 o teu amor.<\/p>\n<p>\u2014 Deveras? E voltando-se para Cristiana, Eul\u00e1lia acrescentou: \u2014 Olha, Cristiana, j\u00e1 viste um marido assim? \u00c9 o rei dos maridos. Traz sempre na boca uma palavra am\u00e1vel para sua mulher. \u00c9 assim que deve ser. N\u00e3o esque\u00e7a nunca estes bons costumes, ouviu? Estas palavras alegres e descuidosas foram ouvidas distraidamente por Cristiana.<\/p>\n<p>Meneses tinha os olhos cravados na pobre mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Eul\u00e1lia, disse ele, parece que D. Cristiana est\u00e1 triste.<\/p>\n<p>Cristiana estremeceu.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia voltou-se para a amiga e disse: \u2014 Triste! J\u00e1 assim me pareceu. \u00c9 verdade, Cristiana? Estar\u00e1s triste? \u2014 Que id\u00e9ia! Triste por qu\u00ea? \u2014 Ora, pela conversa que h\u00e1 pouco tivemos, respondeu Meneses.<\/p>\n<p>Cristiana fitou os olhos em Meneses. N\u00e3o podia compreend\u00ea-lo e n\u00e3o adivinhava onde queria ir o marido de Eul\u00e1lia.<\/p>\n<p>Meneses, com o maior sangue frio, acudiu \u00e0 interroga\u00e7\u00e3o muda que as duas pareciam fazer.<\/p>\n<p>\u2014 Eu contei a D. Cristiana o assunto da \u00fanica novela que li em minha vida. Era um livro interessant\u00edssimo. O assunto \u00e9 simples mas comovente. \u00c9 uma s\u00e9rie de torturas morais por que passa uma mo\u00e7a a quem esqueceu juramentos feitos na mocidade. Na vida real este fato \u00e9 uma cousa mais que comum; mas tratado pelo romancista toma um tal car\u00e1ter que chega a assustar o esp\u00edrito mais refrat\u00e1rio \u00e0s impress\u00f5es. A an\u00e1lise das atribula\u00e7\u00f5es da ingrata \u00e9 feita por m\u00e3o de mestre. O fim do romance \u00e9 mais fraco. H\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada&#8230; uma carta que aparece&#8230; Umas cousas&#8230; enfim, o melhor \u00e9 o estudo profundo e demorado da alma da formosa perjura. D. Cristiana \u00e9 muito impress\u00edvel. . .<\/p>\n<p>\u2014 Oh! meu Deus! exclamou Eul\u00e1lia. S\u00f3 por isto? Cristiana estava ofegante. Eul\u00e1lia, assustada por v\u00ea-la em tal estado, convidou-a a recolher-se. Meneses apressou-se a dar-lhe o bra\u00e7o e dirigiram-se os tr\u00eas para casa.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia entrou antes dos dous. Antes de p\u00f4r p\u00e9 no primeiro degrau da escada de pedra que dava acesso \u00e0 casa, Cristiana disse a Meneses, em voz baixa e concentrada: \u2014 \u00c9 um b\u00e1rbaro! Entraram todos. Era j\u00e1 noite. Cristiana reparou que a situa\u00e7\u00e3o era falsa e tratou de desfazer os cuidados, ou porventura as m\u00e1s impress\u00f5es que tivessem ficado a Eul\u00e1lia depois do desconchavo de Meneses. Foi a ela, com o sorriso nos l\u00e1bios: \u2014 Pois, deveras, disse ela, acreditaste que eu ficasse magoada com a hist\u00f3ria? Foi uma impress\u00e3o que passou.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>Este sil\u00eancio n\u00e3o agradou nem a Cristina, nem a Meneses. Meneses contava com a boa f\u00e9 de Eul\u00e1lia, \u00fanica explica\u00e7\u00e3o de ter adiantado aquela hist\u00f3ria t\u00e3o fora de prop\u00f3sito. Mas o sil\u00eancio de Eul\u00e1lia teria a significa\u00e7\u00e3o que lhe deram os dous? Parecia ter, mas n\u00e3o tinha. Eul\u00e1lia achou estranha a hist\u00f3ria e a como\u00e7\u00e3o de Cristiana; mas, entre todas as explica\u00e7\u00f5es que lhe ocorressem, a infidelidade de Meneses seria a \u00faltima, e ela nem passou da primeira. Sancta simplicitas! A conversa continuou fria e indiferente at\u00e9 a chegada de Nogueira. Seriam ent\u00e3o nove horas. Serviu-se o ch\u00e1, depois do que, todos se recolheram. Na manh\u00e3 seguinte, como disse acima, deviam partir Nogueira e Cristiana.<\/p>\n<p>A despedida foi como \u00e9 sempre a despedida de pessoas que se estimam. Cristiana fez os esfor\u00e7os maiores para que no esp\u00edrito de Eul\u00e1lia n\u00e3o surgisse o menor desgosto; e Eul\u00e1lia, que n\u00e3o usava mal, mal n\u00e3o cuidou na hist\u00f3ria da noite anterior. Despediram-se todos com promessa jurada de se visitarem a mi\u00fado.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO III PASSARAM-SE quinze dias depois das cenas que narrei acima. Durante esse tempo nenhum dos personagens que nos ocupam tiveram ocasi\u00e3o de se falarem. N\u00e3o obstante pensavam muito uns nos outros, por saudade sincera, por temor do futuro e por frio c\u00e1lculo de ego\u00edsmo, cada qual pensando segundo os seus sentimentos.<\/p>\n<p>Cristiana refletia profundamente sobre a sua situa\u00e7\u00e3o. A cena do jardim era para ela um pren\u00fancio de infelicidade, cujo alcance n\u00e3o podia avaliar, mas que lhe pareciam inevit\u00e1veis. Entretanto, que tinha ela no passado? Um simples amor de crian\u00e7a, desses amores passageiros e sem conseq\u00fc\u00eancias. Nada dava direito a Meneses para reivindicar juramentos firmados por cora\u00e7\u00f5es extremamente juvenis, sem consci\u00eancia da gravidade das cousas. E demais, o casamento de ambos n\u00e3o invalidara esse passado invocado agora? Refletindo deste modo, Cristiana era levada \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias. Ela estabelecia em seu esp\u00edrito o seguinte dilema: ou a reivindica\u00e7\u00e3o do passado feita por Meneses era sincera ou n\u00e3o. No primeiro caso era a paix\u00e3o concentrada que fazia irrup\u00e7\u00e3o no fim de tanto tempo, e Deus sabe onde poderiam ir os seus efeitos. No segundo caso, era simples c\u00e1lculo de abjeta lasc\u00edvia; mas ent\u00e3o, se mudara a natureza dos sentimentos do marido de Eul\u00e1lia, n\u00e3o mudava a situa\u00e7ao nem desapareciam as apreens\u00f5es do futuro.<\/p>\n<p>Era preciso ter a alma profundamente mirrada para iludir daquele modo uma mulher virtuosa tentando contra a virtude de outra mulher.<\/p>\n<p>Em honra de Cristiana devo acrescentar que os seus temores eram menos por ela que por Eul\u00e1lia. Estando segura de si, o que ela temia era que a felicidade de Eul\u00e1lia se anuviasse, e a pobre mo\u00e7a viesse a perder aquela paz do cora\u00e7\u00e3o que a fazia invejada de todos.<\/p>\n<p>Apreciando estes fatos \u00e0 luz da raz\u00e3o pr\u00e1tica, se julgarmos leg\u00edtimos os temores de Cristiana, julgaremos exagerada as propor\u00e7\u00f5es que ela dava ao ato de Meneses. O ato de Meneses reduz-se, afinal de contas, a um ato comum, praticado todos os dias, no meio da toler\u00e2ncia geral e at\u00e9 do aplauso de muitos. Certamente que isso n\u00e3o lhe d\u00e1 virtude, mas tira-lhe o m\u00e9rito da originalidade.<\/p>\n<p>No meio das preocupa\u00e7\u00f5es de Cristiana tomara lugar a carta a que Meneses aludira. Que carta seria essa? Alguma dessas confid\u00eancias que o cora\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia facilmente traduz no papel. Mas os termos dela? Em qualquer dos casos do dilema apresentado acima Meneses podia usar da carta, a que talvez faltasse a data e sobrassem express\u00f5es amb\u00edguas para sup\u00f4-la de feitura recente.<\/p>\n<p>Nada disto escapava a Cristiana. E com tudo isto entristecia. Nogueira reparou na mudan\u00e7a que apresentava sua mulher e interrogou-a carinhosamente. Cristiana nada lhe quis confiar, porque uma leve esperan\u00e7a lhe fazia crer \u00e0s vezes que a consci\u00eancia de sua honra teria por pr\u00eamio a tranq\u00fcilidade e a felicidade. Mas o marido, n\u00e3o alcan\u00e7ando nada e vendo-a continuar na mesma tristeza, entristecia-se tamb\u00e9m e desesperava. Que podia desejar Cristiana? pensava ele. Na incerteza e na ang\u00fastia da situa\u00e7\u00e3o lembrou-se de ter com Eul\u00e1lia para que esta ou o informasse, ou, como mulher, alcan\u00e7asse de Cristiana o segredo das suas concentradas m\u00e1goas. Eul\u00e1lia marcou o dia em que iria \u00e0 casa de Nogueira, e este saiu da ch\u00e1cara da Tijuca animado por algumas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Ora, nesse dia apresentou-se pela primeira vez em casa de Cristiana o exemplar Jos\u00e9 de Meneses. Apareceu como a est\u00e1tua do comendador A pobre mo\u00e7a, ao v\u00ea-lo, ficou aterrada. Estava s\u00f3. N\u00e3o sabia que dizer quando \u00e0 porta da sala assomou a figura mansa e pac\u00edfica de Meneses. Nem se levantou. Olhou-o fixamente e esperou.<\/p>\n<p>Meneses parou \u00e0 porta e disse com um sorriso nos l\u00e1bios: \u2014 D\u00e1 licen\u00e7a? Depois, sem esperar resposta, dirigiu-se para Cristiana; estendeu- lhe a m\u00e3o e recebeu a dela fria e tr\u00eamula. Puxou cadeira e sentou-se ao p\u00e9 dela familiarmente.<\/p>\n<p>\u2014 Nogueira saiu? perguntou depois de alguns instantes, descal\u00e7ando as luvas.<\/p>\n<p>\u2014 Saiu, murmurou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto melhor. Tenho ent\u00e3o tempo para dizer-lhe duas palavras.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a fez um esfor\u00e7o e disse: \u2014 Tamb\u00e9m eu tenho para dizer-lhe duas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! sim. Ora bem, cabe \u00e0s damas a preced\u00eancia. Sou todo ouvidos.<\/p>\n<p>\u2014 Possui alguma carta minha? \u2014 Possuo uma.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um triste documento, porque, respondendo a sentimentos de outro tempo, se eram sentimentos dignos deste nome, de nada pode valer hoje. Todavia, desejo possuir esse escrito.<\/p>\n<p>\u2014 Vejo que n\u00e3o tem h\u00e1bito de argumentar. Se a carta em quest\u00e3o n\u00e3o vale nada, por que deseja possu\u00ed-la? \u2014 \u00c9 um capricho.<\/p>\n<p>\u2014 Capricho, se existe algum \u00e9 o de tratar por cima do ombro um amor sincero e ardente.<\/p>\n<p>\u2014 Falemos de outra cousa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; falemos disto, que \u00e9 essencial.<\/p>\n<p>Cristiana levantou-se.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso ouvi-lo, disse ela.<\/p>\n<p>Meneses segurou-lhe em uma das m\u00e3os e procurou ret\u00ea-la. Houve uma pequena luta.<\/p>\n<p>Cristiana ia tocar a campainha que se achava sobre uma mesa, quando Meneses deixoulhe a m\u00e3o e levantou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Basta, disse ele; escusa de chamar seus f\u00e2mulos. Talvez que ache grande prazer em p\u00f4-los na confid\u00eancia de um amor que n\u00e3o merece. Mas eu \u00e9 que me n\u00e3o exponho ao rid\u00edculo depois de me expor \u00e0 baixeza. \u00c9 baixeza, sim; n\u00e3o devia mendigar para o cora\u00e7\u00e3o o amor de quem n\u00e3o sabe compreender os grandes sentimentos. Paci\u00eancia; fique com a sua trai\u00e7\u00e3o; eu ficarei com o meu amor; mas procurarei esquecer o objeto dele para lembrar-me da minha dignidade.<\/p>\n<p>Depois desta tirada dita em tom sentimental e lacrimoso, Meneses encostou-se a uma cadeira como para n\u00e3o cair. Houve um sil\u00eancio entre os dous. Cristiana falou em primeiro lugar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho direito, nem dever, nem vontade de averiguar a extens\u00e3o e a sinceridade desse amor; mas deixe que eu lhe observe; o seu casamento e a felicidade que parece gozar nele protestam contra as alega\u00e7\u00f5es de hoje.<\/p>\n<p>Meneses levantou a cabe\u00e7a, e disse: \u2014 Oh! n\u00e3o me exprobre o meu casamento! Que queria que eu fizesse quando uma pobre mo\u00e7a me caiu nos bra\u00e7os declarando amar-me com del\u00edrio? Apoderou-se de mim um sentimento de compaix\u00e3o; foi todo o meu crime. Mas neste casamento n\u00e3o empenhei tudo; dei a Eul\u00e1lia o meu nome e minha prote\u00e7\u00e3o; n\u00e3o lhe dei nem o meu cora\u00e7\u00e3o nem o meu amor.<\/p>\n<p>\u2014 Mas essa carta? \u2014 A carta ser\u00e1 para mim uma lembran\u00e7a, nada mais; uma esp\u00e9cie de espectro do amor que existiu, e que me consolar\u00e1 no meio das minhas ang\u00fastias.<\/p>\n<p>\u2014 Preciso da carta! \u2014 N\u00e3o ! Neste momento entrou precipitadamente na sala a mulher de Meneses. Vinha p\u00e1lida e tr\u00eamula. Ao entrar trazia na m\u00e3o duas cartas abertas. N\u00e3o p\u00f4de deixar de dar um grito ao ver a atitude meio suplicante de Cristiana e o olhar terno de Meneses. Deu um grito e caiu sobre o sof\u00e1. Cristiana correu para ela.<\/p>\n<p>Meneses, l\u00edvido como a morte, mas cheio de uma tranq\u00fcilidade aparente, deu dous passos e apanhou as cartas que ca\u00edram da m\u00e3o de Eul\u00e1lia. Leu-as rapidamente.<\/p>\n<p>Descompuseram-se-lhe as fei\u00e7\u00f5es. Deixou Cristiana prestar os seus cuidados de mulher a Eul\u00e1lia e foi para a janela. A\u00ed fez em tiras mi\u00fadas as duas cartas, e esperou, encostado a grade, que passasse a crise de sua mulher.<\/p>\n<p>Eis aqui o que se passara.<\/p>\n<p>Os leitores sabem que era aquele dia destinado \u00e0 visita de Eul\u00e1lia a Cristina, visita de que s\u00f3 Nogueira tinha conhecimento.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia deixou que Meneses viesse para a cidade e mandou aprontar um carro para ir \u00e0 casa de Cristiana. Entretanto, assaltou-lhe uma id\u00e9ia. Se seu marido voltasse para casa antes dela? N\u00e3o queria causar-lhe impaci\u00eancias ou cuidados, e arrependia-se de nada lhe ter dito com antecipa\u00e7\u00e3o. Mas era for\u00e7oso partir. Enquanto se vestia ocorreu-lhe um meio.<\/p>\n<p>Deixar escritas duas linhas a Meneses dando-lhe parte de que sa\u00edra, e dizendo-lhe para que fim. Redigiu a cartinha mentalmente e dirigiu-se para o gabinete de Meneses.<\/p>\n<p>Sobre a mesa em que Meneses costumava trabalhar n\u00e3o havia papel. Devia haver na gaveta, mas a chave estava seguramente com ele. Ia saindo para ir ver papel a outra parte, quando viu junto da porta uma chave; era a da gaveta. Sem escr\u00fapulo algum, travou da chave, abriu a gaveta e tirou um caderno de papel. Escreveu algumas linhas em uma folha, e deixou a folha sobre a mesa debaixo de um pequeno globo de bronze.<\/p>\n<p>Guardou o resto do papel, e ia fechar a gaveta, quando reparou em duas cartinhas que, entre outras muitas se distinguiam por um sobrescrito de letra tr\u00eamula e irregular, de car\u00e1ter puramente feminino.<\/p>\n<p>Olhou para a porta a ver se algu\u00e9m espreitava a sua curiosidade e abriu as cartinhas, que, ali\u00e1s, j\u00e1 se achavam descoladas. A primeira carta dizia assim: Meu caro Meneses. Est\u00e1 tudo acabado. L\u00facia contou-me tudo. Adeus, esquece-te de mim. \u2014 MARGARIDA.<\/p>\n<p>A segunda carta era concebida nestes termos: Meu caro Meneses. Est\u00e1 tudo acabado. Margarida contou-me tudo. Adeus; esquece-te de mim. \u2014 L\u00daCIA.<\/p>\n<p>Como o leitor adivinha, estas cartas eram as duas que Meneses recebera na tarde em que andou passeando com Cristiana no jardim.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia, lendo estas duas cartas, quase teve uma s\u00edncope. P\u00f4de conter-se, e, aproveitando o carro que a esperava, foi buscar a Cristiana as consola\u00e7\u00f5es da amizade e os conselhos da prud\u00eancia.<\/p>\n<p>Entrando em casa de Cristiana p\u00f4de ouvir as \u00faltimas palavras do di\u00e1logo entre esta e Meneses. Esta nova trai\u00e7\u00e3o de seu marido quebrara-lhe a alma.<\/p>\n<p>O resto desta simples hist\u00f3ria conta-se em duas palavras.<\/p>\n<p>Cristiana conseguira acalmar o esp\u00edrito de Eul\u00e1lia e inspirar-lhe sentimentos de perd\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, contou-lhe tudo o que ocorrera entre ela e Meneses, no presente e no passado.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia mostrou ao princ\u00edpio grandes desejos de separar-se de seu marido e ir viver com Cristiana; mas os conselhos desta, que, entre as raz\u00f5es de decoro que apresentou para que Eul\u00e1lia n\u00e3o tornasse p\u00fablica a hist\u00f3ria das suas desgra\u00e7as dom\u00e9sticas, alegou a exist\u00eancia de uma filha do casal, que cumpria educar e proteger, esses conselhos desviaram o esp\u00edrito de Eul\u00e1lia dos seus primeiros projetos e fizeram-na resignada ao supl\u00edcio.<\/p>\n<p>Nogueira quase nada soube das ocorr\u00eancias que acabo de narrar; mas soube quanto era suficiente para esfriar a amizade que sentia por Meneses.<\/p>\n<p>Quanto a este, enfiado ao princ\u00edpio com o desenlace das cousas, tomou de novo o ar descuidoso e aparentemente singelo com que tratava tudo. Depois de uma mal alinhavada explica\u00e7\u00e3o dada \u00e0 mulher a respeito dos fatos que t\u00e3o evidentemente o acusavam, come\u00e7ou de novo a trat\u00e1-la com as mesmas car\u00edcias e cuidados do tempo em que merecia a confian\u00e7a de Eul\u00e1lia.<\/p>\n<p>Nunca mais voltou ao casal Meneses a alegria franca e a plena satisfa\u00e7\u00e3o dos primeiros dias. Os afagos de Meneses encontravam sua mulher fria e indiferente, e se alguma cousa mudava era o desprezo \u00edntimo e crescente que Eul\u00e1lia votava a seu marido.<\/p>\n<p>A pobre m\u00e3e, vi\u00fava da pior viuvez desta vida, que \u00e9 aquela que anula o casamento conservando o c\u00f4njuge, s\u00f3 vivia para sua filha.<\/p>\n<p>Dizer como acabaram ou como v\u00e3o acabando as cousas n\u00e3o entra no plano deste escrito: o desenlace ainda \u00e9 mais vulgar que o corpo da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto ao que h\u00e1 de vulgar em tudo o que acabo de contar, sou eu o primeiro a reconhec\u00ea-lo. Mas que querem? Eu n\u00e3o pretendo sen\u00e3o esbo\u00e7ar quadros ou caracteres, conforme me ocorrem ou vou encontrando. \u00c9 isto e nada mais.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de assis CASADA E VI\u00daVA [JF. nov. 1864] CAP\u00cdTULO PRIMEIRO NO DIA em que Jos\u00e9 de Meneses recebeu por mulher Eul\u00e1lia Martins, diante do altar-mor da matriz do Sacramento, na presen\u00e7a das respectivas fam\u00edlias, aumentou-se com mais um a lista dos casais felizes. Era imposs\u00edvel amar-se mais do que se amavam aqueles dous. 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